O FC Porto mereceu ter vencido o Bessiktas por mais de um golo de vantagem. Gerou jogo e caudal ofensivo suficiente para isso e raramente esteve ameaçado pelos turcos. O resultado não podia ser mais enganador em relação ao que se viveu no relvado e no entanto é o resultado natural dadas as circunstâncias. Uma equipa que quer atacar um jogo da Champions League com Marega, Hernâni, Soares e André André nos momentos de maior aperto é, claramente, uma equipa fora de lugar. O FC Porto não tem plantel para ombrear com a elite continental e hoje, viu-se, nem sequer para lutar contra equipas do mesmo nível quando o que está em causa é o talento individual. Houve quatro golos no Dragão e nenhum foi de um jogador azul e branco. O talento individual de Quaresma, de Talisca, de Babel ou a liderança de Pepe estão do lado de um Bessiktas que, como qualquer gigante do futebol turco, tem bom dinheiro para gastar e pagar em salários. O FC Porto de há uns anos podia perfeitamente competir com essa realidade e fazia-o. Esta versão não. Sérgio Conceição não tem culpa. Montou um esquema para dominar o esférico e usar os espaços e depois, quando se viu a perder - em duas ocasiões - meteu toda a carne no assador. Atitude e querer nunca faltou à equipa e essa é a melhor nota. Mas só isso não chega. Não a este nível. É a crua e dura realidade.
Também não ajudou que no dia em que bateu o recorde de Xavi e passou a ser o jogador com mais jogos de sempre na história da competição, Iker Casillas estivesse similar ao Iker de há dois anos, o que custou o lugar a Lopetegui. O segundo e o terceiro golo contaram com duas estiradas pouco determinadas, apesar do primeiro ser um disparo tremendo e o segundo ser uma tabela básica que deixou a nu as falhas defensivas que oferecem os laterais do FC Porto, neste caso Alex Telles, que depois de ver como tinha de ser dobrado no seguimento ao seu homem, esqueceu-se de acompanhar Babel e este conseguiu disparar a belo prazer, um remate que Iker Casillas podia ter feito mais para parar. Não o fez e o jogo morreu, matematicamente, ali. Na prática, apesar da sensação de máxima entrega, já tinha morrido quando todos perceberam que a linha ofensiva do Porto era inofensiva frente á baliza. Pouco acerto. Muito pouco para tanto caudal. Se com NES o problema era chegar á frente e criar perigo - e cada lance de André Silva era um oásis - aqui o problema é que a qualidade individual dos interpretes não está à altura da quantidade de opções criadas. Oliver e Brahimi, na primeira parte, e o argelino e Otávio, no segundo tempo, bem se esforçaram e fizeram mexer as peças do puzzle mas nem Ricardo nem Alex estiveram acertados nem apoio nem os dois avançados titulares - a baixa de Aboubakar hoje deu um reflexo do que poderá passar se o camaronês se lesiona - mostraram estar á altura entre manos a manos desperdiçados e remates sem sentido. Nem sequer a meia distância, que ás vezes pode fazer a diferença, resultou efectiva. O Porto fez um jogo à Porto no querer e na atitude mas não foi suficiente para bater um Bessiktas que, na prática, é uma equipa banal e a mais débil do grupo. Na altura do sorteio ficou claro que este grupo, sem nenhum cabeça de cartaz, pode acabar com o Porto em primeiro ou em último. Os sinais de hoje deixam claramente a sensação que com um plantel tão curto - uma vez mais não havia um só ponta-de-lança no banco para lançar - é muito difícil aspirar a algo mais do que ir amealhando pontos e euros e ver o que passa sem tirar a cabeça do que deve ser prioritário, a Liga.
Ao trabalho de Conceição, como tem sido apanágio, não há muito a dizer que não seja positivo. A retirada de um esforçado Oliver, que teve nos pés grandes destelhos e duas excelentes ocasiões, entende-se no conjunto da gestão de esforços e na ausência de opções de ataque, pouco se lhe podia exigir quando a terceira substituição resultou ser Hernâni. Em atitude, capacidade de empurrar a equipa para a frente e mostrar, ao abdicar de Danilo - que continua sem se sentir totalmente cómodo neste modelo - vontade de ganhar contra tudo e todos, foi o mesmo treinador que nos jogos da Liga, um excelente sinal de atitude ganhadora. Mas quando os erros individuais - de Casillas atrás e da linha de ataque frente a Fabricio - condenam o resultado final, pouco mais há a dizer. O enfoque principal é o que é. O plantel é curtíssimo e não podemos exigir pérolas a porcos. Quem é o responsável desta gestão - mais uma vez, por culpa da sanção da UEFA só havia 19 jogadores disponíveis para o técnico trabalhar opções - e da falta de um plantel de garantias que dê a cara no momento oportuno. Técnico e jogadores deram tudo o que tinham. Nalguns casos o melhor que têm é isto e não há como disfarçar. Pode, perfeitamente, ser suficiente para consumo interno como o Benfica tem vindo a demonstrar com planteis tão fracos e jogadores tão ineptos, ainda que eles tenham sempre um joker na manga e a chamada do público em cada jogo para utilizar em momentos de aperto, mas quando falamos de Champions League não há milagres. Venha o próximo duelo a sério!
