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segunda-feira, 18 de abril de 2016

21%

O processo eleitoral finalizado no dia de ontem confirmou a reeleição da lista única apresentada como era de esperar. No entanto, apesar de todos os obstáculos levantados por aqueles que temem o sócio portista e o seu grau de visível insatisfação com o rumo presente, a lista única coleccionou apenas 79% dos votos para a presidência e uns "meros" 74% para o Conselho Superior. Sem concorrência com cabeça visível ainda assim o homem que foi eleito em inúmeras ocasiões por aclamação popular e 99,9% dos votos a favor conseguiu perder 1/5 dos seus seguidores eleitorais. Ontem fez-se história no FC Porto.

A ironia, porque com alguns indivíduos a ironia tem de estar sempre presente, é que mal se acabou o processo de contagem e se divulgaram os números, houve quem saltasse de imediato á primeira linha de batalha para cometer mais um acto desonesto a seu favor. Divulgar o conteúdo dos boletins de voto - mesmo rasurados ou com mensagens de apoio ou em contra - pode ser legal ou ilegal (desconheço os estatutos do clube nesse sentido) mas o que não é, seguramente, é ético. Mas tal era o medo, tal era o pavor de que se começassem a juntar os As mais Bs que foi necessário lançar a mensagem - com o devido eco - de que esses famigerados 21% de votos nulos não eram mais que outra forma de demonstrar amor, carinho e devoção com lemas de "Força Presidente", "Força Porto", "Estamos com o Presidente" como se quem não estivesse a favor de Jorge Nuno Pinto da Costa não tivesse apenas de pegar no seu boletim de voto e colocá-lo na urna.

Não vou chamar mentiroso a Sardoeira Pinto nem a Pinto da Costa, há personagens que se retratam por si sós ao longo da sua vida e não é necessário entrar em qualificativos perjorativos. Acredito piamente que algum que outro boletim de voto tivesse essas inscrições. Também vi - porque muitos sócios portistas quiseram divulgar nas redes sociais a sua insatisfação - muitas afirmações que seguem no caminho oposto. O que é certo é que a ausência de uma lista alternativa - os resultados deixam claro que havia espaço para essa lista e que um nome sério e com um projecto sólido podia ter estado perto dos 30% de votos a favor - gerou nos últimos dias um movimento entre sócios e adeptos que apelavam ao voto nulo, algo que era conhecido por todos no clube. Não estranhará, seguramente, a quem viveu o processo eleitoral, que determinados sócios associados á direcção tenham juntado o seu voto nesse sentido com mensagens de apoio para tentar minorar o grau de contestação. Mais uma estratégia para desviar a atenção e dar a sensação de que todos continuam atrás de um homem que conseguiu desbaratar de forma assustadora uma herança histórica ímpar no futebol mundial. A esmagadora maioria dos adeptos que votaram nulo ontem alguma vez (ou muitas vezes) votaram a favor de Pinto da Costa por isso o que convém á nova direcção - cujo mandato de quatro anos, uma novidade, terminará se se cumprem os prazos em 2020 - entender porque perdeu apoios reais e não apenas tentar disfarçar o sol com a peneira.



O clube, que é gerido de forma que dista muito da ideia democrática de um processo eleitoral, já fez tudo o que era possível para desprezar os sócios que pensam de forma contrária. Quem foi votar ontem - e haverá vários relatos nos próximos dias - encontrou-se com um cenário digno de regimes que em nada têm de democrático. Boletins de voto escuros propositadamente (sempre foram brancos) para dificultar a rasuração necessária para o voto nulo, ausência de possibilidade de votar em branco ou a ausência de mesas de voto obrigando aqueles que não queriam votar a favor - ou seja, pegar no papel, dobrá-lo e deposita-lo na urna sem sair do sitio - a exposição pública diante de todos os presentes como se fosse uma eleição de braço no ar ao bom estilo soviético. A presença, junto dessas mesas de "reflexão" - só faltava uma bica e o jornal - do candidato da única lista a votos é algo sui generis, para dizer o mínimo que se pode dizer neste caso. A utilização das ferramentas do clube como o Porto Canal para fazer campanha, desacreditar qualquer posicionamento em contra e para reforçar o estatuto de liderança solitária - com mais uma entrevista agendada para hoje, sem que nenhum noticiário do clube tivesse sequer mencionado o movimento Acorda Porto ou falado com um sócio que fosse dos que votaram nulo sem declarar o amor eterno ao candidato único, permite entender que o jornalismo independente, como tal, é algo que nas instalações do PortoCanal pura e simplesmente se meteu na gaveta.

No meio de todos esses condicionantes, ainda assim, dos sócios do Grande Porto que puderam votar - os que vivem no estrangeiro, a quem o voto electrónico ou postal está proibido, e os que vivem no resto de Portugal, onde é proibido votar em Casas do Clube, que não faltam pelo país - houve 21% que disseram "Basta". Entre esses haverá de tudo, seguramente. Os que acreditam que o candidato único pode resolver o problema mas tem de acordar. Os que acreditam que o candidato único tem uma última oportunidade. Os que acreditam que o candidato único é o problema. E até os que lhe devotam amor eterno. Seguramente haverá de tudo um pouco. Mas eram 21% dos votantes. O sinal está dado. Quem acredita que o caminho do FC Porto é outro perdeu, com o acto eleitoral de ontem, todas as desculpas para permanecer em silêncio. Quem venceu, por muito que tente o contrário, pode considerar-se avisado pelos donos do clube - os donos de verdade do clube - de que a situação está no limite. Ontem o FC Porto desceu mais baixo do que em algumas das derrotas mais humilhantes que sofreu em campo mas depois de cada tempestade o sol volta a sair. Os raios de luz, tibios, fizeram-se notar. O FC Porto está vivo.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A sério?


Mais um jogo miserável do FC Porto. Nova derrota, desta vez em casa do Paços de Ferreira. 

Não há fio de jogo, não há agressividade, não há a procura do golo, não há organização, não há nada. Nada de nada. A equipa está destruída e, apesar de isento de culpas, Peseiro foi (mais) um erro de casting. A tal “estrutura” que era tão elogiada e “vítima do reconhecimento exterior” afinal não foi capaz de encontrar um treinador decente para substituir Lopetegui. O final de época está a ser penoso. E pode sempre piorar.

Não é difícil adivinhar os motivos pelos quais os jogadores do FC Porto se mostram apáticos, lentos, sem ideias e extremamente inseguros. A médica que outrora Mourinho expulsou do Chelsea, Eva Carneiro, esteve este fim-de-semana numa conferência médica em Londres e, entre outras ideias do seu discurso, deixou uma frase interessante: “The relationship with management absolutely affects how ready [players] feel to take on a risk”. Numa tradução livre, disse a doutora que a relação dos jogadores com a “gestão” (edit: leia-se equipa técnica) afecta a forma como eles se predispõem a assumir riscos.

Depois da entrevista dada esta semana por Pinto da Costa ao PortoCanal, em que não só não assumiu por inteiro a responsabilidade pela actual situação do clube, como ainda culpou o ex-treinador de inadaptação e de contratações falhadas e acusou os actuais jogadores de falta de portismo e de carácter, estaria agora à espera que eles “metessem o pé” e dessem tudo em campo? A sério?!
   

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A Vergonha (Alheia!)

Pinto da Costa e a equipa de futebol do FC Porto estão em sintonia. Como nos velhos tempos, mas em negativo. Se na segunda-feira os jogadores e staff técnico foram protagonistas de uma derrota que envergonhou a história do clube (o próprio Presidente o afirmou), ontem foi a vez de Pinto da Costa voltar a demonstrar que é uma alma penada sem uma pinga do brio, da garra e da sagacidade para liderar este clube que ele ajudou, e muito, a fazer grande. A entrevista ao Porto Canal, como se esperava, não foi morna. Foi fria como uma manhã da Invicta cheia de nuvens e neblina e com apenas uma mensagem clara, a da incapacidade de Pinto da Costa de fazer auto-crítica e explicar, tirando os chavões da praxe, ao que vem para os próximos quatro anos. O homem que destroçou Portugal com o seu discurso, herdeiro de Pedroto, desapareceu. A sombra que surgiu ontem deu vergonha alheia aos que ainda têm memória e não se deixam levar pelo mito da personagem. Pinto da Costa quer ser o El Cid do FC Porto, ganhar batalhas depois de morto. Alguns, seguramente, ainda verão nele o guerreiro que foi mas a prática demonstra o contrário. Tal como o seu discurso ontem.

Não houve perguntas incómodas. Não pode haver. Quando o entrevistado é, ao mesmo tempo, o "patrão" - indirectamente Pinto da Costa é o "dono" do PortoCanal - só podemos esperar perguntas frouxas, débeis e ás vezes sem qualquer tipo de sentido como apontar aos críticos na bluegosfera uma insatisfação com o contrato da MEO que ninguém entendeu. Se calhar a pergunta estava mal preparada ou a resposta não dava para mais. Quando PdC tinha de ir medir-se aos meios da capital, que sabia rivais, sacava o melhor de si mesmo e era um gozo vê-lo atacar e desmontar o sistema com um discurso fluído, lógico e ganhador. Hoje, a falar como Marcelo Caetano, na comodidade do lar, tudo soa a falso, tudo soa a mofo.

A estratégia era previsível. Pequena moralmente e previsível.
Pinto da Costa sabe que tem de agradar aos fiéis e descarregou outra vez em Lopetegui todos os males da Humanidade. Ou tem fraca memória ou bipolaridade porque o homem que hoje é a encarnação da Besta do Apocalipse era alvo dos mais rasgados elogios há um ano, quando enchia o peito para falar com a imprensa espanhola sobre o "inovador", "profissional", "competente" Lopetegui. Quando elogiava as escolhas do treinador e como a sua capacidade de trabalho tinha permitido sacar um negócio tão rentável como o de Casemiro não ouvi em nenhum lado frases do estilo "eu nem os conhecia". Pinto da Costa é um homem do futebol, um homem que sabe e sempre soube muito de futebol. Se não conhecia os jogadores contratados sob o seu mandato, como Presidente, é grave e está a dar justificação aos que acreditam que já não está com a cabeça no clube e capacitado para os liderar. Mas reclamar que nem sabia quem eram é levar a coisa a outro nível, particularmente porque a esmagadora maioria jogou ao serviço de Lopetegui e, se escolheu o treinador, deve ter visto alguns jogos seus antes para conhecer o seu modelo de jogo. Ou talvez não.
O certo é que agora o problema não é o Ferrari, agora o problema é Campaña - um flop, sempre o disse - num plantel de 25 jogadores dos quais o clube valorizou importantes activos (Danilo, Alex Sandro, Casemiro...) e que foi montado à revelia do presidente para satisfazer o treinador. Das duas uma, ou Pinto da Costa perdeu as faculdades e decidiu, num arreigo de insanidade, abandonar a parcela desportiva à sua sorte e agora sente-se traído ou o caminho do engano voltou, como em Janeiro, a ser a opção mais fácil para agradar à nação portista. Já agora, depois de se ter confirmado que Adrian estava contratado ANTES de ter chegado o treinador - um ano, mais precisamente - continuar com essa lenga lenga é tomar os adeptos do FC Porto por parvos. Mas isso também já não é novidade.


Ficamos igualmente a saber que o Presidente sentiu vergonha como sócio do jogo do Tondela.
Não foi o primeiro nem o pior jogo do FC Porto dos últimos três anos mas é bom saber que o homem parcialmente responsável por esse jogo se sente envergonhado de si mesmo. Ainda que, naturalmente, não o assuma. O que parece mais estranho é exigir agora, a semanas de ir a votos, aquilo que podia ter exigido há um ano e meio quando apoiou seguir o caminho da política de empréstimos. Ou há dois e meio quando tentou pescar em distintos portos jogadores com pouca experiência de exigência. Ou há três e meio quando, directamente, não quis sequer investir num plantel campeão nacional. Exigir agora jogadores com carácter e da casa é fácil, barato e dará votos. Mas como homem detentor do poder, essa decisão não é mais que o resultado das decisões erradas dos últimos anos. Não de um ano que correu mal. De vários. Na altura a luz não abençoou Pinto da Costa com a necessidade de ter jogadores com carácter e que não vejam o FC Porto como clube ponte? É uma pena.

O regresso - já anunciado - de Rafa, de Otávio (culpa de Lopetegui, naturalmente) e de Josué seguem a mensagem anterior e no caso dos dois primeiros são uma boa notícia. Mas fazer tanto finca pé num jogador absolutamente mediano (Sérgio Oliveira e André André já cá estão e fazem melhor figura) é realmente o nível de compromisso e exigência que se quer para os próximos quatro anos? A sério? Fico admirado com a bandeira branca que afirmações deste estilo desfraldam. A ideia da pré-época começar em Abril pode ser racional mas é um insulto ao portismo, um insulto vil. O FC Porto, aquele que admiramos, luta até ao último dia de cada ano, não começa a preparar o seguinte com antecipação ainda que o faça, indirectamente. No discurso populista de mostrar-se como pai zangado com os jogadores, Pinto da Costa vendeu o balneário e o treinador, deixando-os expostos aos adeptos nos próximos jogos nesses castings públicos onde quem for mais assobiado terá menores probabilidades de ficar. Não é assim que se gere um clube profissional mas pode ser assim que se evitam alguns votos nulos. Afinal era para isso que servia uma entrevista onde se falou quase tanto tempo da selecção de futebol - que interessa, realmente, muito ao FC Porto e aos portistas - como da total ineficácia no combate ao #Colinho ou aos poderes instituídos na arbitragem, na Liga e na Federação de Futebol. Onde antes o FC Porto de Pinto da Costa se distinguiu no discurso e nos actos hoje esse mesmo decadente FC Porto de um decadente Pinto da Costa não rosna, mia...e mia fininho.

Pinto da Costa, que não garante a continuidade de treinador e jogadores, que tentou fazer de um acto vil e que deve ser denunciado de meia dúzia de imbecis às portas de sua casa (quem estiver em desacordo que debata abertamente ou vote nulo, não se atacam residências na covardia da noite) um acto de "terrorismo", com a conotação mais triste que a palavra possa ter, e que ainda teve tempo de mandar bocas aos blogues (ao ter falado em anónimos imagino que ainda lhe doam os posts publicados pelo Tribunal do Dragão...porque a maioria dos espaços da Bluegosfera são escritos por pessoas com nome e apelido) disse mais do que uma vez que como sócio que é - e ninguém duvidará do seu portismo - que sentia vergonha da situação e que se candidatava contra a situação actual do clube.


Senhoras e senhores, Pinto da Costa candidata-se contra ele próprio e contestando o seu próprio trabalho. Só ficamos na dúvida se essa contestação contra o estado das coisas é também uma contestação contra os negócios (falou-se no caso de Rúben Neves por alto mas nunca sem mencionar a pequena fortuna que José Caldeira saca do jogador), contra os empresários (o nome do filho e das empresas associadas desapareceu por magia do discurso que se focou em Jorge Mendes), contra o facto de ter familiares directos e de outros membros da SAD a trabalhar nos quadros do clube, se é uma contestação contra o despovoamento de referências no balneário propiciada pela sua gestão, se é uma contestação contra as sucessivas escolhas erradas da sua pessoa dos últimos treinadores desde a não renovação de um bicampeão nacional ou se é uma contestação vazia, oca como o seu discurso.
Perguntas que nunca poderiam ter sido feitas, claro está. Não é preciso ir muito longe para perceber que o tempo de antena tem de ter uma mensagem apenas, a de que o futuro do clube será construído por aqueles que estão contra o presente do clube e que, com as suas decisões do passado provocaram o estado das coisas actuais. Pinto da Costa leu Orwell, seguramente, mas não sabe quem é Campaña. Talvez não saiba também para onde vai, como o seu poema favorito, mas devia saber de onde vem e o que deixa para trás. E que depois de três décadas e meia já não pode dizer, como tanto gostava, "sei que não vou por aí". Porque foi, e essa viagem já não tem bilhete de regresso.
   

sexta-feira, 11 de março de 2016

AG em directo, via Streaming ou PortoCanal, porque não?

O FC Porto é um grande clube. Não, o FC Porto é uma Nação.
O crescimento espantoso do clube provocou igualmente, e de forma merecida, o crescimento da sua legião de seguidores. Muitos desses adeptos que se juntaram ao clube nos anos de glória fizeram-se igualmente sócios, em muitos casos, correspondentes. Outros mantiveram uma profunda ligação emocional, que não financeira. O problema para muitos portistas sócios no entanto foi a situação económica da última década que atirou milhares para outras paragens. A emigração, sobretudo de jovens, notou-se bastante em todo o país e na zona norte em Portugal. Hoje não é segredo nenhum dizer que há milhares de sócios portistas a residir longe do Grande Porto. Uma realidade que tem inclusive ajudado a espalhar o grande nome do Porto lá fora por aqueles que viveram, na primeira pessoa, os momentos mágicos do calor humano das Antas e do Dragão na pele.

Ora, se o FC Porto quiser ter um detalhe de preocupação e respeito para com esses sócios (e, já agora, com os muitos sócios que vivem noutras zonas do país), não havia nada melhor que pudesse fazer do que transformar a próxima Assembleia Geral (e quem diz a próxima diz também "as próximas") num evento transmitido em directo. Ora, se o clube não tivesse gasto uma pequena fortuna no PortoCanal, essa transmissão até podia ser feita via streaming na página oficial. Todos os que nos visitam sabem que até um grupo de grandes bloggers portistas - onde o Reflexão Portista teve presença - conseguiu fazer isso com os seus encontros da Bluegosfera, logo não deve ser algo complicado para uma grande instituição conseguir uma conexão rápida e segura para os portistas e sócios que não vão poder estar presentes.

Mas....mas, o Porto Canal pertence ao Clube e não há, realmente, nada que respeite mais a instituição que utilizar um canal próprio para aproximar a instituição dos seus. Afinal de contas, não é por um dia a programação ser interrompida pelo encontro entre grandes portistas que debatem o dia a dia e a vida do clube - afinal, não se interrompeu um jogo para dar o discurso presidencial na inauguração de uma Casa em Cantanhede, onde há, igualmente, grandes portistas - que virá mal ao mundo. O processo eleitoral é o pilar de qualquer instituição e o FC Porto não é diferente.
Seguir em directo o processo, o debate de ideias entre sócios, conhecer o ambiente que se vive nas Assembleias, identificar os rostos, os silêncios, os que falam soltando palavras que são portismo puro e absoluto, devia ser algo a que todos nós, portistas pelo Mundo - e pelo país - deveríamos poder formar parte. Entenderão, naturalmente, que muitos não possam deslocar-se em pessoa para votar (uma pena que não exista ainda um voto electrónico para esses casos) mas isso não devia significar esconder o processo quando a sua divulgação pública é perfeitamente possível.
E se fosse necessário restringir o acesso a sócios, não é tecnicamente complexo criar um código e "username" inserindo o número do cartão de sócio para que só estes pudessem ver a AG em directo, passando o PortoCanal emissões regulares de cinco minutos em directo durante a Assembleia, emitindo posteriormente uma reportagem alargada nos seus informativos.

Durante anos criticamos, e bem, a forma como os canais privados e públicos faziam das eleições, noutros clubes, um circo mediático. Não é isso que queremos. Queremos uma celebração de portismo para todos, porque ninguém é mais portista que outro em função da distância em quilómetros que reside do estádio do Dragão, e se existem os meios tecnológicos, se existe a propriedade de um canal que pertence ao clube, a obrigação da direcção do FC Porto ainda em funções é abrir esse momento a todos. A não ser que sintam que o ambiente e o processo eleitoral está bem como está, entre silêncios mais ou menos cómodos, rostos sérios, vozes que despeitam opiniões alheias e sabem que o podem fazer porque poucos estão a olhar. Se assim for, entende-se perfeitamente que o processo continue a existir em formato catacumba. Mas acho que está na altura do portismo merecer algo distinto, uma celebração do nosso amor do clube distribuído a azul e branco, ás claras, nos quatro cantos do mundo.
   

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A moralidade do FCP e a France2

Quando os jornais e as televisões portuguesas publicam artigos e reportagens sobre o FC Porto, o adepto azul-e-branco raramente espera algo positivo. É uma marca que vem de há muitos anos. A Bola, o Record e até O Jogo têm sido veículos predilectos para muitos interesses que estão por detrás de alguns dos capítulos mais desagradáveis do nosso futebol. A juntar a isso a tendência centralista e especulativa de alguma imprensa mainstream - e a falta de uma resposta à altura da imprensa regional e local, PortoCanal incluído - permitiu criar esse ambiente. Ou seja, para o adepto do FCP, uma má imagem do clube destas fontes vale pouco. Mas e se essa má imagem vem de fora, pensará o mesmo?

O canal francês France2 emitiu uma reportagem fabulosa sobre os podres do futebol mundial.
Uma dessas reportagens de investigação ao nível de programas como o Panorama da BBC - responsável por desmontar a corrupção da FIFA e do COI, por exemplo - e que analiss em detalhe a partir de uma perspectiva local para o espaço global como o futebol é hoje um negócio gerido por figuras perversas e que actuam nas sombras enquanto os adeptos se distraem com os jogos, os títulos, as desilusões. O trabalho jornalístico é de primeiro nível e a reportagem está a ser citada na imprensa de todo o Mundo como mais um exemplo de jornalismo de alto nível. Lamentavelmente para o FC Porto. Depois da emissão desta reportagem a nossa imagem pública internacional está bastante mais afectada.



Durante meia-hora o FC Porto é utilizado como exemplo para explicar como os fundos de investimento controlam hoje jogadores em todo o Mundo e, com eles, aumentam os seus interesses no desenrolar da temporada futebolística. O pretexto é o caso Mangala, internacional francês.
Podiam ter escolhido vários clubes na Europa. O FC Porto não é, de longe, o único que trabalha com fundos. Mas tem-no feito com regularidade e com sucesso nas vendas (aumentando as receitas de rentabilidade dos mesmos fundos e alguma inveja alheia, convenhamos) e o facto de contar com um internacional francês e ser presença regular na Champions League (e no vocabulário habitual do adepto do futebol) torna-o um alvo perfeito.
A reportagem analisa a forma como Mangala chegou ao FC Porto e o seu passe foi, meses depois, vendido a um fundo (33,3%, o mesmo valor de Defour que não entra nestas contas) o Doyen Group. Um fundo que ninguém sabe de quem é e que se dedica a tudo menos ao futebol. Os relvados servem, sobretudo, para a lavagem de dinheiro. Mais ainda, o programa destapa que o FC Porto deu - repito, DEU - 10% da receita de uma futura venda do francês a um grupo também desconhecido que, resulta, pertence a Luciano D´Onofrio, um empresário belga muito conhecido cá no burgo e tão exemplar que a própria FIFA - que não é propriamente flor que se cheire - o baniu de ser um agente oficial. Ora é fácil fazer as contas. Se Mangala sair por 30 milhões do FC Porto, 3 milhões são de Onofrio. Seja essa percentagem uma comissão que não podia ser paga legalmente (o que nos leva à pergunta, porque negoceia o FCP com agentes ilegais e sabendo-o não pode ser isso um eventual delito?), um favor antigo retribuído ou, pura e simplesmente, porque Luciano é um velho amigo de alguns membros da cúpula directiva do clube, o facto é que há 10% de um dos nossos melhores jogadores que não é nosso não porque tenha sido vendido mas sim dado. A um homem que, curiosamente, era o director-desportivo do Liege quando o mesmo jogador foi vendido. A palavra "suborno" poderia ser utilizada? Algum advogado seguramente não teria problemas em demonstra-lo!  Parece-me um dado suficientemente preocupante para alguém, de forma oficial, o venha a esclarecer.

Claro que a reportagem não fica só aqui.
Com imagens do Porto, do Dragão, do Olival, o FC Porto transmite também uma imagem de inflexibilidade que soa claramente a receio de que se descubram coisas que alguém não quer que sejam públicas. A meio de uma entrevista com o próprio jogador - que confessa que nem sequer sabia que 10% seus pertenciam a D´Onofrio e 33% à Doyen - a responsável de comunicação do clube proíbe-o de falar do seu próprio passe e contrato com o jornalista. Ante a sua estupefacção - a do jornalista, claro, porque o Mangala mostra-se obediente como não se esperaria outra coisa - a desculpa é que no FC Porto só os dirigentes falam de negócios. Algo entendível se o jornalista estivesse a pedir ao seu compatriota que comentasse a política de contratações do clube, o salário de um colega ou o valor de um negócio realizado no defeso. Mas a conversa com Mangala era sobre Mangala. E o jogador do FC Porto descobre que está proibido pelo clube para falar de si mesmo. Jogadores como gado podia dizer-se, jogadores como mercadoria como o próprio Mangala confessa. Nada mais.



No decorrer do trabalho fica claro que o FC Porto não comete nenhuma ilegalidade.
O próprio secretário-geral da FIFA, Jerome Valcke, confessa-o. Há demasiados buracos na legislação para poder castigar o clube ou o jogador. É a Doyen e, em maior medida, o próprio D´Onofrio, quem se movem em águas turvas neste negócio (como em tantos outros). Mas basta um pequeno ajuste legal e, de repente, negócios como este (e como tantos outros que fazemos) podem cair num buraco legal perigoso que homens como Platini (que também aparece em cena) poderiam aproveitar para aplicar uma jeitosa suspensão como a que já está a ser colocada em prática com clubes turcos ou em casos que envolvem o Financial Fair Play. Sem cometer nenhum crime legal parece-me evidente que, ao longo de trinta minutos, qualquer espectador deste documentário ficará com uma imagem do FC Porto como um clube que ultrapassa todos os códigos morais e éticos.

Comercializar com fundos, em vez de clubes. Oferecer percentagens de jogadores grátis a empresários que estão banidos pela própria FIFA. Proibir os jogadores de falarem do seu próprio contrato e da sua situação contratual com a imprensa do seu país. Comprar jogadores por inteiro para vendê-los às fatias. Tudo atitudes da SAD que tenho criticado habitualmente aqui e que agora são reflectidas na imprensa internacional com a isenção que sabemos que nunca vamos encontrar em Portugal. O clube que por um lado impressiona pela qualidade das suas vendas - protagonista de duas séries especiais com a Marca - é agora também o clube que desilude pelos seus métodos de compra, venda e as suas amizades perigosas.

Entendo que o FC Porto SAD deva realizar uma operação de charme na imprensa europeia porque reportagens como esta valem tanto para o público europeu como uma vitória contra o Paris Saint-Germain. Vender esta imagem, lá fora, onde se tomam as decisões importantes, é algo que devemos evitar. Que em Lisboa digam o que quiserem, isso já nem nos afecta (nem devia afectar). Que o digam em Paris ou, eventualmente, em Londres, Berlim ou Roma é outra história. Não somos o único clube do Mundo que se move em areias movediças, longe disso. Não somos nem os mais podres, nem os piores, nem os mais "mafiosos", nem os que manobramos amizades mais perigosas e muito menos os que temos o hábito de anunciar que vendemos jogadores que afinal continuam a ser nossos. Nem de longe nem de perto. Temos comunicados relativamente transparentes, temos o hábito de revelar que percentagens temos e a quem (e por quanto) vendemos o que não temos e isso é de louvar. Mas talvez não seja a transparência ou não o problema.

Tal como defende a reportagem - e eu subscrevo - o problema não é legal. É moral. A partir de aí entra a percepção de cada adepto. Pode haver os que entendam que é normal que o FCP tenha esta atitude. Pode haver até os que achem que não só é normal como desejável. Entendo também que exista gente que não gosta mas se resigna. O clube é de todos e a imagem manchada de um clube mancha a todos os seus adeptos. E tudo pela nossa forma de fazer (muitos) negócios. Para mim, a moralidade da gestão do FC Porto em muitos negócios deixa muito que desejar. E não é essa a imagem que eu quero que o Mundo tenha do meu clube quando há tantas coisas boas que podemos reivindicar como a nossa verdadeira imagem de marca.


PS: Para os que sabem francês, aqui podem ver o documentário completo. A parte afecta ao FC Porto arranca ao minuto 33 e prolonga-se até à hora e dois minutos de exibição.