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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Unidos, com Sérgio, até ao fim...

Iker Casillas é um dos jogadores mais titulados da História, um jogador que já jogou (e venceu) todas as grandes competições de elite, um dos melhores guarda-redes de sempre - numa lista alargada, é certo - e um homem que sabe liderar, quando quer. Sérgio Conceição não ganhou nem um quinto do que ganhou Casillas, como jogador, mas o seu carácter e liderança sempre foram imagem de marca e desde que passou do relvado ao banco sempre fez da honestidade, do trabalho colectivo e do espírito de grupo, caracteristicas marca da casa da sua filosofia de trabalho. É por isso, sobretudo, que estamos a viver o melhor arranque de temporada dos últimos cinco anos. E é por isso que não nos podemos permitir deixar que um problema interno, de resolução interna, afecte a crença neste projecto, neste grupo e, sobretudo, neste Mister.

Desportivamente Casillas tem tido um papel positivo desde que chegou. Não superlativo - não foi capaz, até agora, de reproduzir o papel de um Mlynarzick ou Schmeichel, por exemplo - mas a sua classe não está nem esteve nunca em discussão. Teve falhos importantes, sobretudo na Champions, mas também momentos de brilhantês que ajudaram a equipa ainda que, no final, por muitos outros factores, os objectivos não fossem alcançados. O melhor exemplo comparativo de Casillas destes últimos três anos seria talvez o do belga Michel PreudHomme, um grande guarda-redes que não foi suficiente para que um mau Benfica fosse competitivo. 
Casillas foi também fundamental no processo de adaptação de vários jogadores jovens e de muitos dos colegas espanhóis - ou com passagem por Espanha - e nesse sentido é uma referência importante no balneário. Sem estar na lista de capitães é um líder, silencioso, como aliás tem sido sempre. Se houve algo que sempre se lhe apontou foi a dificuldade em assumir o papel de máximo líder de grupo. Em Madrid sempre foi ofuscado por perfis superiores, nesse sentido, como eram primeiro Hierro, Raul e até Roberto Carlos ou Guti e mais à frente, já de braçadeira, por Sérgio Ramos ou Alvaro Arbeloa. Na selecção espanhola, da qual foi capitão uma década, também o central de Camas ou jogadores como Puyol ou Xavi, passou o mesmo. Não esperem de ele outra coisa e para alguns treinadores isso é um incómodo porque imaginam que tanta experiência deve vir acompanhado de algo mais, desse plus. O que também sempre faltou a Iker, desde a sua ascensão meteórica, foi o compromisso de dedicação absoluta ao trabalho. Todos os seus treinadores passaram por problemas com a sua implicação com os treinos ou, nalguns casos, nos seus inicios, com a sua vida fora do terreno de jogo. Desde del Bosque a Ancelotti, passando por Capello ou Mourinho, sempre se comentou que a dedicação nos treinos era inferior à exigência do seu posto, que Iker pouco procurava melhorar os seus pontos fracos - jogo de pés ou cruzamentos à área, sobretudo - e que devido ao seu perfil mediático, primeiro com o Real Madrid e com Espanha e logo no Porto, dava demasiadas vezes a sua titularidade por assumida. Esse desleixo custou-lhe vários problemas, a saída do Real Madrid, primeiro, e da selecção espanhola depois. E essa desconexão está agora a provocar um fait-divers que só tem contribuído em ofuscar este brilhante inicio de temporada.



Sérgio Conceição tomou a decisão que se exige a um líder de um vestuário de muitos. Instaurou umas regras e decidiu punir quem entendeu que não as cumpria. Fê-lo sem olhar a nome, apelido, número e salário como corresponde a um líder. O exemplo dá-se precisamente quando se demonstra que ninguém é intocável. 
Desportivamente claro que a equipa sai a perder - José Sá está a anos-luz do pior Casillas, que nem sequer era o que estávamos a ver - mas se Conceição quer manter o grupo unido debaixo de uma ideia, é necessário actuar em consequência. Se este projecto tem sido competitivo é, precisamente, pelo grupo e pelo trabalho de Conceição. Não é pelo talento individual  - que quase não há - não é por nenhuma inovação táctica bestial - o sistema habitual é bastante elementar - e não é seguramente por Casillas. É pelo grupo, pelo espírito restaurado e pela disciplina que nos mantemos altamente competitivos. E isso é o que não se pode perder.
Casillas cometeu um erro. Acontece. Qualquer profissional comete erros. Que seja recorrente na sua carreira é um reflexo do tipo de atleta que é e foi mas não é motivo para criar um drama. Conceição actuou como tem de actuar, como devíamos todos esperar que actue um treinador do FC Porto. Não acredito que tenha feito uma cruz a um jogador importante mas também não quis deixar de marcar posição. Havia uma regra de grupo - reforçada depois do incidente com Aboubakar (que, recordemos, foi apanhado por um telemóvel que não era o seu num directo gravado por um colega, não por ele) e que os jogadores estão a respeitar. O telemóvel em dias de jogo não existe, as redes caladas, a concentração máxima. Desrespeitar uma regra elementar é um erro que deve ser assumido diante do grupo e entre todos passar página. Não é motivo de drama, é motivo de união, ainda mais se for possível, entre todos. Se Iker, com os seus quase vinte anos de carreira e balneários, tiver a humildade de desculpar-se ao grupo e se Sérgio tiver a liderança necessária para saber reforçar essa união, este episódio tem tudo para unir ainda mais o plantel. Se um deles decidir continuar fiel a uma postura inflexível, teremos um problema e José Sá corre o risco de sofrer um dano colateral que não merece. Se for ele o titular este sábado deve ter o apoio de todos. Se não o for deve entender a dificil natureza da sua situação. O que todos esperam é que isto seja um fait-divers e não um ponto de viragem. 

No entanto, uma coisa é certa. Todos os que pediam o "velho Porto", o da cultura de balneário, o de não saltar nada para fora, o do final das vedetas e o de um treinador capaz de fazer grupo, têm de saber que este é o momento para mostrar o verdadeiro apoio ao único homem que tem, dentro da estrutura, lutado pelo regresso a essa realidade. Um Porto onde quem decide é o treinador, nem interesses da SAD ou de agentes externos. Um Porto à Porto. Conceição cumpriu o seu papel - não foi ele que faltou a uma regra de grupo -  e no pior dos casos, se Casillas não demonstrar o arrependimento necessário que a situação exige e o seu afastamento siga, por muito que desportivamente signifique sair a perder, os adeptos devem mostrar o seu apoio incondicional ao homem que tem estado detrás de tudo o bom que tem sucedido desde Julho, desde a recuperação de jogadores ostracizados à recuperação do espírito competitivo e ofensivo de sempre sem esquecer a liderança isolada da liga e a luta pelo apuramento aos oitavos-de-final da Champions (objectivo realista neste contexto presente). Com todo o respeito para Iker - e qualquer jogador que se coloque voluntariamente nessa situação - o orgulho que eu tenho desta equipa, neste momento, tem um responsável principal e não tenho problemas em afirmar, estou com Sérgio, até ao fim.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

É o que temos: (muita) atitude, garra e falta de qualidade individual

O FC Porto mereceu ter vencido o Bessiktas por mais de um golo de vantagem. Gerou jogo e caudal ofensivo suficiente para isso e raramente esteve ameaçado pelos turcos. O resultado não podia ser mais enganador em relação ao que se viveu no relvado e no entanto é o resultado natural dadas as circunstâncias. Uma equipa que quer atacar um jogo da Champions League com Marega, Hernâni, Soares e André André nos momentos de maior aperto é, claramente, uma equipa fora de lugar. O FC Porto não tem plantel para ombrear com a elite continental e hoje, viu-se, nem sequer para lutar contra equipas do mesmo nível quando o que está em causa é o talento individual. Houve quatro golos no Dragão e nenhum foi de um jogador azul e branco. O talento individual de Quaresma, de Talisca, de Babel ou a liderança de Pepe estão do lado de um Bessiktas que, como qualquer gigante do futebol turco, tem bom dinheiro para gastar e pagar em salários. O FC Porto de há uns anos podia perfeitamente competir com essa realidade e fazia-o. Esta versão não. Sérgio Conceição não tem culpa. Montou um esquema para dominar o esférico e usar os espaços e depois, quando se viu a perder - em duas ocasiões - meteu toda a carne no assador. Atitude e querer nunca faltou à equipa e essa é a melhor nota. Mas só isso não chega. Não a este nível. É a crua e dura realidade.

Também não ajudou que no dia em que bateu o recorde de Xavi e passou a ser o jogador com mais jogos de sempre na história da competição, Iker Casillas estivesse similar ao Iker de há dois anos, o que custou o lugar a Lopetegui. O segundo e o terceiro golo contaram com duas estiradas pouco determinadas, apesar do primeiro ser um disparo tremendo e o segundo ser uma tabela básica que deixou a nu as falhas defensivas que oferecem os laterais do FC Porto, neste caso Alex Telles, que depois de ver como tinha de ser dobrado no seguimento ao seu homem, esqueceu-se de acompanhar Babel e este conseguiu disparar a belo prazer, um remate que Iker Casillas podia ter feito mais para parar. Não o fez e o jogo morreu, matematicamente, ali. Na prática, apesar da sensação de máxima entrega, já tinha morrido quando todos perceberam que a linha ofensiva do Porto era inofensiva frente á baliza. Pouco acerto. Muito pouco para tanto caudal. Se com NES o problema era chegar á frente e criar perigo - e cada lance de André Silva era um oásis - aqui o problema é que a qualidade individual dos interpretes não está à altura da quantidade de opções criadas. Oliver e Brahimi, na primeira parte, e o argelino e Otávio, no segundo tempo, bem se esforçaram e fizeram mexer as peças do puzzle mas nem Ricardo nem Alex estiveram acertados nem apoio nem os dois avançados titulares - a baixa de Aboubakar hoje deu um reflexo do que poderá passar se o camaronês se lesiona - mostraram estar á altura entre manos a manos desperdiçados e remates sem sentido. Nem sequer a meia distância, que ás vezes pode fazer a diferença, resultou efectiva. O Porto fez um jogo à Porto no querer e na atitude mas não foi suficiente para bater um Bessiktas que, na prática, é uma equipa banal e a mais débil do grupo. Na altura do sorteio ficou claro que este grupo, sem nenhum cabeça de cartaz, pode acabar com o Porto em primeiro ou em último. Os sinais de hoje deixam claramente a sensação que com um plantel tão curto - uma vez mais não havia um só ponta-de-lança no banco para lançar - é muito difícil aspirar a algo mais do que ir amealhando pontos e euros e ver o que passa sem tirar a cabeça do que deve ser prioritário, a Liga.



Ao trabalho de Conceição, como tem sido apanágio, não há muito a dizer que não seja positivo. A retirada de um esforçado Oliver, que teve nos pés grandes destelhos e duas excelentes ocasiões, entende-se no conjunto da gestão de esforços e na ausência de opções de ataque, pouco se lhe podia exigir quando a terceira substituição resultou ser Hernâni. Em atitude, capacidade de empurrar a equipa para a frente e mostrar, ao abdicar de Danilo - que continua sem se sentir totalmente cómodo neste modelo - vontade de ganhar contra tudo e todos, foi o mesmo treinador que nos jogos da Liga, um excelente sinal de atitude ganhadora. Mas quando os erros individuais - de Casillas atrás e da linha de ataque frente a Fabricio - condenam o resultado final, pouco mais há a dizer. O enfoque principal é o que é. O plantel é curtíssimo e não podemos exigir pérolas a porcos. Quem é o responsável desta gestão - mais uma vez, por culpa da sanção da UEFA só havia 19 jogadores disponíveis para o técnico trabalhar opções - e da falta de um plantel de garantias que dê a cara no momento oportuno. Técnico e jogadores deram tudo o que tinham. Nalguns casos o melhor que têm é isto e não há como disfarçar. Pode, perfeitamente, ser suficiente para consumo interno como o Benfica tem vindo a demonstrar com planteis tão fracos e jogadores tão ineptos, ainda que eles tenham sempre um joker na manga e a chamada do público em cada jogo para utilizar em momentos de aperto, mas quando falamos de Champions League não há milagres. Venha o próximo duelo a sério!

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O gesto de Iker

Casillas será guarda-redes do FC Porto pelo menos por um ano mais.
Era algo que estava sobre a mesa desde que o guardião espanhol aterrou, há duas temporadas, na Invicta mas ainda que o resultado final seja o mesmo, as formas são bastante distintas e essas apenas honram um jogador que soube, desde cedo, entender a mística deste clube e que aceitou ser capitão na sombra ganhando a pulso o respeito e carinho dos adeptos.

Iker chegou em 2015 com um contrato muito particular. Durante dois anos o Real Madrid comparticipava em 70% do seu salário cujas cifras eram incomportáveis para a realidade do FC Porto que se fazia cargo do restante valor. Era a forma de facilitar a desvinculação do jogador do seu clube de sempre sem criar grandes problemas à instituição. Sob esse pressuposto o contrato incluía a possibilidade de ampliar-se um ano mais de forma automática, tanto por parte do atleta como do clube, tivesse esse disputado 70 jogos oficiais nos dois anos anteriores. O problema? Essa prolongação mantinha a mesma base salarial mas já sem a comparticipação dos merengues o que faria de Casillas o jogador mais bem pago, em exclusividade, da história do futebol português por uma enorme margem. Salários de estrela mundial num clube luso era algo inconcebível de aí que, nos corredores do Dragão, se olhasse para a estância de Iker como um processo de dois anos com uma saída, grátis, para um outro clube, possivelmente norte-americano, neste defeso. Mas Iker não quis avançar para a reforma dourada da MLS e apesar de ser verdade que sondou outros clubes europeus nestes meses, através do seu agente - clubes da Premier, da Serie A e até da liga espanhola - a sua vontade principal era a de ficar nas Antas. Restava saber em que moldes.

O agente de Iker fez saber ao FC Porto no início do ano que o jogador queria ficar ao que o clube respondeu que desejava o mesmo mas na situação actual, mais ainda do que o costume, o seu salário original era inviável e que portanto nunca seria o FC Porto a activar a cláusula de extensão de contrato. Caberia ao jogador mover as peças no tabuleiro das negociações. Podia tentar forçar a situação, activando unilateralmente a sua cláusula - algo que o FC Porto sabia que seria muito dificil que sucedesse - ou simplesmente sair, com um aperto de mãos, como muitos temiam. Casillas fez o mais dificil. Não só recusou clubes que lhe ofereciam mais do que estava a ganhar, já então, como aceitou ficar num novo projecto, depois de dois anos sem ganhar nada - ele que, como atleta, já ganhou absolutamente tudo o que há para ganhar - ganhando substancialmente menos. Continuará a ser o jogador mais bem pago do plantel e ainda que as cifras não transcendam para fora, esse valor dista muito do que iria cobrar originalmente. O vinculo é de um ano e esse sim parece ser o final da sua etapa, entre outras coisas porque o futuro profissional da sua mulher está igualmente em jogo e vai ser prioritário na escolha do futuro destino do atleta, mas será um ano muito especial. Por um lado porque Iker ganhará menos do que nunca ganhou e por outro porque é a sua forma de mandar uma mensagem para dentro e para fora. O espanhol não quer sair de mãos a abanar da sua etapa como Dragão.



Nos últimos meses o internacional espanhol tornou-se uma especie de capitão silencioso e sem braçadeira no balneário. Foi fundamental na integração de vários jogadores jovens - alguns deles falam de Iker como um autêntico pai desportivo - e trouxe esse ADN de competitividade, espirito ganhador e raça que bebeu em Madrid para um balneário sem referências da cultura Porto nos dias que correm. Á medida que o clube prefere vender as suas pérolas com a desculpa que há um problema financeiro com a UEFA - um problema que não lhes impediu de bater o seu próprio recorde de transferências com Oliver Torres, curiosamente num processo gerido pelo mesmo homem que agora gere as saídas dos seus jovens internacionais lusos - contar com o perfil e a grandeza de Iker Casillas vale muito mais do que possa parecer á primeira vista. O FC Porto ganha um ano para preparar a sua alternativa nas redes, Sérgio Conceição ganha um líder dentro e fora de campo e os adeptos mantêm uma referência de respeito e carinho para com o clube numa altura onde muitos daqueles que o deviam defender e acarinhar do mesmo modo fazem precisamente o contrário. 

O gesto de Iker choca com o gesto de muitos assalariados do FC Porto. É preciso vir alguém de fora para mostrar grandeza e sentido de pertença com uma grande instituição. No final do próximo ano será livre mas Casillas do FC Porto já não se livrará nunca. Será sempre um dos nossos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Casillas, o novo líder

Não se pagou a si próprio como muitos alardeavam no momento da sua chegada. Teve um primeiro ano mais parecido - como era lógico - aos seus três anos anteriores do que ao computo geral da sua brilhante e irrepetível carreira. Com erros individuais custou pontos na corrida aos oitavos da Champions. Com momentos de génio individual garantiu pontos importantes - sobretudo na Luz - que mantiveram a chama de uma corrida ao título que cedo se esfumou. Casillas é, provavelmente, a contratação de maior profile mediático da história do futebol português depois de Schmeichel. Ao contrário do "Big Dane", a sua chegada, por si só, não fez a diferença e o Porto não só não foi campeão no seu primeiro ano como no segundo marcha segundo. Mas é preciso ser-se justos com Iker. Porque o merece. Porque o ganhou a pulso quando podia perfeitamente ter vindo ao Dragão para reformar-se. E porque, sobretudo, está a saber marcar o caminho, dentro e fora de campo, do que o FC Porto deve voltar a ser. Um clube com mentalidade de balneário ganhador.

Iker tem tido uma temporada até agora ao seu melhor nível. Não é só no apartado de golos sofridos que os seus números estão á altura dos seus melhores anos. O esquema de Nuno tem permitido, aliás, que toda a defesa se exiba com surpreendente autoridade, algo dificil de imaginar no Verão com a soma dos cromos disponíveis. Maxi - que vai melhorando depois da sua ausência por lesão - Layun (um dos melhores suplentes do futebol europeu), o recém-chegado Felipe e, sobretudo, Marcano, têm jogado com autoridade e contribuído, a par do imenso e enorme Danilo Pereira (e do gémeo que joga ao seu lado e que permite dar a sensação de que está em todas as partes...porque está), para uns excelentes registos defensivos. Mas é da baliza, da segurança e liderança que emana Iker, que se sente a grande diferença face ao ano passado. Na passada temporada, fosse pelas peças disponíveis (onde já havia Layun, Maxi, Marcano...), fosse pela adaptação, Iker não transmitia quase nunca a capacidade de comandar a sua zona recuada. Teve brilhantes momentos individuais sim da mesma forma que teve erros garrafais porque uns e outros são parte do oficio. O que não demonstrou, pelo menos em campo, foi essa liderança que sim exerceu nos seus quinze anos de guarda-redes do Real Madrid. Este ano é diferente. Este ano Iker manda com o olhar mais do que com os gritos. Posiciona, antecipa-se, lê e motiva. Tem exercido como um autêntico capitão sem braçadeira, a mesma autoridade que se viu nos seus melhores anos com a seleção espanhola e com a camisola do clube da sua infância. Mais do que para vender camisolas ou para que se falasse do Porto por esse mundo fora, Iker e o seu perfil de futebolista era importante por isso mesmo. Num projecto desgovernado desde a cúpula á base convinha ao Porto clube ter alguém mentalmente forte e sólido que sirva de rocha no balneário e em campo. Muitos jogadores têm carácter para isso sem ter experiência como tem demonstrado Danilo. Mas Iker Casillas tem ambos e isso nota-se cada vez mais.



A importância de Iker depois de um primeiro ano convulso é também cada vez mais notória no balneário. Chegou apadrinhado por um homem que conhecia bem - o homem que, ironicamente, lhe fechou agora as portas da seleção quando tem o melhor registo de um guarda-redes europeu - e talvez por isso mostrou-se menos activo nos primeiros meses do ano passado sofrendo depois, como todos, do desatino Peseiro imposto desde cima. Mas com um treinador que já foi guarda-redes e que sabe fazer balneário encontrou provavelmente a melhor forma de fazer sentir a sua presença. De portas para dentro Iker tornou-se num amigo e confessor dos jogadores mais novos - e há muitos no balneário - oferecendo apoio e conselho. Foi também valedor de alguns jogadores, Brahimi á cabeça, defendendo sempre a importância de que joguem os melhores para o êxito colectivo (algo que lhe custou a cabeça em Madrid quando Mourinho entendia que os melhores eram os que lhe obedeciam e corriam mais e não os mais talentosos) e tem sido um dos grandes mentalizadores do grupo. Na sua recente entrevista ao Porto Canal foi cru, sincero e disse o que pensava porque a estas alturas não deve nada a ninguém. E tem razão. O Porto, por culpa da sua gestão presidencial, perdeu o ADN de vitórias no balneário que hoje ostenta o Benfica. E esse ADN, que foi a primeira base do nosso sucesso nos dias de Pedroto, está a ser recuperado. Lentamente, mas está. Graças a homens como Iker (e como Marcano, e como Layun, e como Danilo, e como Maxi) que entendem como fazer grupo, como criar laços e como inculcar uma mentalidade de morrer pelo colega em campo, morrer pelo emblema ao peito, morrer pelos adeptos. O espirito que teve de aprender num clube de máxima exigência quando era só um adolescente. Também por isso ele sabe, melhor que ninguém, o que aconselhar a Jota, a André Silva, a Rui Pedro, a Ruben Neves, a Oliver e Otávio, a todos esses miúdos que são o pulmão e coração desta equipa mas que vivem só agora a exigência de levar um peso tão grande ás costas praticamente sem ajudas de veteranos de outros tempos, dessa cultura de balneário que se perdeu e que jogadores tão insuspeitos de serem portistas como Sapunaru denunciaram há não muito tempo.

Em campo Casillas tem estado soberbo. Se a defesa sofre poucos golos é, muito também, por culpa sua. Contra o Chaves, antes da reviravolta, evitou o naufrágio. Foi assim também em tantas outras ocasiões. Raramente tem sido mal batido, raramente tem sido apanhado fora de posição. A sua concentração e ambição estão a níveis máximos. Este pode ser o seu último ano no Dragão mas as sementes do seu trabalho podem dar muitos frutos no futuro. Este foi o Iker que merecia ter sido contratado no ano passado, não o das manobras de marketing que tanto fizeram salivar rostos gananciosos na SAD, e apesar do relativo atraso em fazer-se definitivamente sentir, este está a ser também o seu ano. Se o FC Porto chegou a Maio com um título nas mãos, muita da culpa será sua. Não se podia despedir de melhor forma. Esperemos é que o trabalho que está a fazer, sobretudo fora dos focos, não se perca á primeira oportunidade. Recuperar o balneário á Porto e esse ADN são a chave para a sobrevivência competitiva deste clube na elite. Não entender isso é não entender nada. Casillas entendeu-o bem. E por isso agora é um dos nosso líderes.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Falar com os mortos, a nova mentira anti-Casillas da imprensa espanhola


O jornal online espanhol El Confidencial publicou hoje uma noticia em que afirmava falsamente que Jorge Nuno Pinto da Costa tinha dito, num jantar, a amigos e conhecidos, que a contratação de Iker Casillas era "um fiasco".

"El fichaje de Casillas ha sido un absoluto fiasco. Iker no sólo no ha cumplido ninguna de las expectativas que teníamos, sino que nos ha costado partidos, la Liga y nuestra eliminación prematura en Champions (...) Su sueldo es inasumible para el club. Si se va a EEUU, porque me han dicho que el New York City lo quiere, será la mejor operación que hayamos hecho."A noticia é falsa. 

Bem, a noticia pode até partir de uma verdade - ninguém pode dizer que, em algum momento, Pinto da Costa não tenha afirmado isso mesmo a alguém - mas no contexto em que foi dado é de uma falsidade atroz e absoluta. Porquê? Porque, entre outras coisas, linhas depois, a publicação cita como a casa e o protagonista do evento onde Pinto da Costa terá dito isso - informação que mais tarde, por artes mágicas, chegou a um jornal de Madrid - a residência de José Mello. 

"De cara al público, Pinto da Costa aparece como un padrino para Casillas, pero el presidente del Oporto, famoso por sus vehemencias, lleva tiempo desabrochando su lengua y cargando contra el exmadridista. Sucedió en los primeros días del mes en curso, durante una cena en el domicilio de José Manuel de Mello, magnate de los negocios en Portugal y simpatizante del Oporto."

Ora, José Manuel de Mello era, sem dúvida, um adepto portista, conhecido e amigo de Pinto da Costa, entre outros elementos do clube. Mas é difícil conhecer a sua opinião sobre Casillas porque, quando faleceu, em 2009, vítima de uma doença prolongada, o guarda-redes espanhol ainda era futebolista do Real Madrid, não tinha nem sido campeão do Mundo nem sequer tinha coincidido com José Mourinho, o homem que precipitou a sua saída do Santiago Bernabeu, então a viver o seu primeiro ano em Milão. Claro que o El Confidencial mente. Isso ou Jorge Nuno Pinto da Costa reúne-se com mortos que depois divulgam a jornais online espanhóis a informação trocada durante esses jantares. 

Está claro que esta noticia não tem nada a ver com o FC Porto.O El Confidencial é um jornal espanhol - afecto à direcção do Real Madrid - e está preocupado apenas em ressalvar todo o elemento negativo que se possa associar a Iker Casillas. Eu próprio fui entrevistado pelo jornal há umas semanas atrás sobre Casillas - por outro jornalista - e tenho amigos na redacção desse jornal, por isso sei do que a casa gasta e sei que perguntas me foram feitas e em que contexto se publicaram algumas afirmações sobre o jogador espanhol. Sei, sobretudo, que o objectivo de um artigo assim é alimentar o debate sobre a potencial titularidade de Iker Casillas no Euro 2016 com Espanha, enfrentando o seu momento negativo com mais um ano excelente de David de Gea em Mancheter. De Gea que é, como todos sabem, uma prioridade para Florentino Perez na planificação da próxima temporada. Um debate quente na imprensa espanhola estes dias e com consequências futuras. Estão a perceber não estão?

A verdade é que o El Confidencial sabe absolutamente zero do que se passa no FC Porto. Zero é zero. E muito menos no que diz respeito ao que Pinto da Costa pensa ou diz. Durante o mandato de Lopetegui a presença de jornalistas espanhóis no Porto aumentou, fenómeno ampliado com a chegada de Casillas, mas as suas fontes eram sempre de jogadores do balneário ou do staff técnico, nunca da cúpula do clube que não mantém relação com a imprensa espanhola e muito menos jornais online. Que um jantar de amigos gere numa noticia que, pasme-se, só o El Confidencial consegue, obviamente que é para desconfiar. Se já metemos mortos ao barulho, a situação cai na tragicomédia.A noticia já foi alterada porque o jornalista em questão foi avisado por vários portistas - eu incluído - da mentira que afirmava mas não existe no jornal nenhuma ressalva a essa mudança. Desapareceu o nome do falecido mas não o contexto. Percebe-se porquê se, mais abaixo, entre os comentários de portistas indignados se ler o que dizem os espanhóis, reforçando essa corrente de que Casillas é indigno de ser titular por Espanha. Noutros espaços chamar-se-ia a um artigo assim uma encomenda, algo que visa o FC Porto indirectamente porque gera um mal-estar quando o alvo, realmente, é outro. O clube deveria denunciar publicamente o espaço e obrigar o mesmo a retratar-se com base na informação publicada originalmente e que, ainda apagada, se encontra acessível.

O problema de noticias assim é que se tornam rapidamente conhecidas em todo o lado e como não há nem desmentido nem correcção, o mundo vai seguramente pensar que se trata de uma verdade quando não passa de uma vil mentira. Repito, Pinto da Costa pode pensar isso - há muitos portistas, eu incluído, que o pensa - mas não o afirmou nesse contexto nem está interessado em desestabilizar, ainda mais, o nosso guarda-redes titular. É perfeitamente possível que Casillas saia do clube em Junho (a saída de Lopetegui foi um duro golpe) especialmente porque o seu abandono da seleção é quase inevitável com a saída de Del Bosque e portanto a sua presença numa liga europeia torna-se menos relevante. Não disputar Champions de forma garantida pode pesar nisso. Mas noticias assim, falsas, não ajudam em nada. O FC Porto é vitima colateral de fogo cruzado noutra batalha mas não deve ficar calado quando se colocam mentiras na boca de um Presidente sobre um jogador da casa, seja ele quem for. O Clube tem a palavra, o Presidente e Casillas a nossa solidariedade.
   

domingo, 12 de julho de 2015

Analisar o negócio Iker Casillas

Iker Casillas é o novo guarda-redes do FC Porto. 
É também provavelmente um dos dois guarda-redes de maior perfil mediático a actuar em Portugal, em conjunto com Peter Schmeichel. Também é dos futebolistas mais titulados da história. E é o jogador que vai receber o salário mais alto da história do clube. Casillas é tudo isso e portanto este negócio tem muitos pontos para analisar de pontos de vistas radicalmente distintos, do desportivo ao financeiro, do potencial de futuro às necessidades do presente. 

Comecemos pelo desportivo.
Casillas passa a ser o melhor guarda-redes da liga portuguesa. De longe. 
Iker é melhor que Helton - sim, é melhor do que Helton mesmo já não sendo o "San Iker" - e também bastante melhor que Julio César, Artur, Rui Patricio, Jose Sá e afins. Poucos duvidam disso. Não sendo já um guarda-redes de elite mundial, a meu ver, está claramente numa segunda linha. Mais ainda porque os seus últimos anos em Madrid, altamente irregulares, estão intimamente ligados ao clima que se vivia na Castellana, algo que não o vai afectar à distância. Casillas está no Porto porque quer. E isso é um ponto a favor. Podia ter ido para Roma mas entendeu que o FC Porto lhe dava condições melhores para assegurar a titularidade da baliza de Espanha no Euro 2016, o seu grande objectivo. Por isso vai estar altamente motivado, duplamente até. Para garantir a sua titularidade em França e para demonstrar aos que o têm - e são muitos, talvez a maioria - criticado de que estavam errados. Nesse sentido a sua chegada é de louvar. Casillas vai melhorar as opções existentes e tendo em Raul Gudiño um projecto de futuro a amadurecer, pode cumprir com esses dois/três anos necessários para o mexicano dar o salto. Quem vai pagar o preço é Helton com quem o clube renovou há pouco tempo mas antes de saber que Iker estava disponivel. 
Desportivamente Iker terá motivação mas também é verdade que chega sabendo-se intocável. Não terá de trabalhar semanalmente pela titularidade, está garantida verbalmente, sem ela não havia negócio. A eleição do Porto também tem, e muito, a ver com a proximidade com Madrid onde vai continuar a viver a sua familia sendo que Iker tem um acordo não escrito com o clube para poder ir passar alguns dias a Madrid à semana, provavelmente com voos de ida e volta diários. Resta saber até que ponto esse relaxamento competitivo e essas viagens podem ou não afectar o seu rendimento desportivo.

Tudo isso é Iker, o guarda-redes. Mas também há Iker, o mais bem pago do plantel.
Casillas chega a ganhar uma fortuna. Em Madrid recebia cerca de 7 milhões de euros limpos ao ano. Vai continuar a ganhar esse dinheiro mas o pagamento será dividido entre o Real Madrid, o FC Porto e o próprio, que vai perdoar dinheiro ao clube espanhol. O FC Porto pagará cerca de 3,5 milhões de euros, superando, por um milhão de euros, o seu tope salarial. Só não pagamos mais porque o Financial Fair Play nos proibe. O resto é pago pelo Real Madrid nos primeiros dois anos. Isso significa que Iker chega ao Porto a ganhar muito mais do que os colegas o que nunca cria bom ambiente de balneário. Nenhum jogador do clube tem o prestigio e perfil de Casillas, é certo, mas todos sabemos como são os futebolistas. Este precedente não deixa de ser perigoso ainda para mais na ausência de lideres que imponham a cordura dentro do balneário. Iker é também o jogador mais caro de sempre do nosso futebol e essa inversão a curto prazo tem de se traduzir em algo. Titulos, pontos ganhos por si mesmo. Em Portugal sabemos que o papel do guarda-redes é relativo. Estamos habituados a jogar no campo do rival pelo que as defesas milagrosas de Casillas serão pontuais. Mas têm de estar. Iker tem de demonstrar em cada jogo, nem que seja um par de vezes, que merece esse salário caso contrário a sua chegada perde qualquer lógica. O mesmo é aplicável na Champions onde, aí sim, se exige o melhor de Casillas. É onde veremos o seu verdadeiro nivel. Caso não esteja à altura das expectativas, o espanhol pode transformar-se num verdadeiro elefante branco. 



Por fim fica Iker, o simbolo mediático.
Casillas tem milhões de seguidores a nivel mundial. Não nos enganemos, são seguidores da marca Espanha e Real Madrid, não passarão forçosamente a ser seguidores da marca Porto. Casillas é igualmente detentor dos seus direitos de imagem pelo que esqueçam também golpes publicitários que encham os cofres do Dragão. Esse dinheiro vai todo para a sua conta bancária. Depois, relembrem-me que guarda-redes a nivel mundial é uma fonte de riquezas em marketing....pois. Não há.
Os guarda-redes não vendem camisolas, nenhum deles.
Casillas não estava no top 10 dos jogadores que mais camisolas vendiam com o Real Madrid ou com a selecção espanhola. Ninguém, na Ásia ou na América Latina (onde a maior parte do merchandising é pirata) vai perder a cabeça para ter a camisola de guarda-redes do FC Porto com Casillas. Muitos continuarão com a do Real Madrid, outros com a de Espanha. Essa é a realidade. O que Casillas pode trazer está em novos anuncios e sponsors para o clube mas, ainda assim, não estamos a falar de um futebolista que gere emoções a esse nivel. É mediático sim, sobretudo por ter sido o capitão de Espanha, mas tal como sucedia com Xavi ou Iniesta, por exemplo, não é um futebolista que renda muito em termos de marketing. Seguramente o FC Porto terá uma exposição mediática unica a nivel mundial mas é dificil que essa exposição se reflicta em dinheiro.

Haverá charters de adeptos ao Dragão para ver Casillas? Duvido muito.
Serão os jogos da liga portuguesa mais apetecidos lá fora por termos Casillas? Talvez, mas aí quem ganha é quem tem os direitos, a Olivedesportos.
Pode o FC Porto fechar um bom patrocinio ao ter um jogador do perfil de Casillas? Sim, mas salvo seja um patrocinio milionário, cada vez menos o que se paga para estar nas camisolas é redundante dentro do dinheiro ingressado pelos clubes como os relatórios de contas recentes provam em relação à PT.

Casillas dicilmente será uma mina de ouro e pode acabar até por dar prejuizo financeiro. Serão 7 milhões em salários em dois anos, zero em passe. Não é um negócio caro (vide Imbula ou todos aqueles flops para comissionista ver...allo Bolat) mas o que é, sem duvida, é um negócio sem retorno. 

Portanto, que pensar do negócio Casillas?

Financeiramente é um erro atroz ter um futebolista veterano e que não decide jogos a receber mais de 1 milhão de euros do que o nosso recorde e do que o segundo jogador mais bem pago do plantel (agora é Tello).
Pode gerar todo o tipo de problemas de balneário, invejas, criticas se algum jogo correr mal, etc. Desportivamente dependerá do que Casillas for capaz de fazer em comparação a Helton. Sim, essa será a sua vara de medir.

Casillas tem de ser muito melhor, ganhar muitos mais pontos por si mesmo, ser muito mais determinante em jogos da Champions, para que desportivamente faça sentido abdicar de um jogador com o mesmo perfil e idade por outro pagando muitissimo mais. 

A nivel de exposição só o tempo o dirá.
O Porto será mais falado lá fora, seguramente em Espanha e na América Latina, e poderá aproveitar algo dessa exposição mas do mesmo modo que hoje o Sporting não é um clube altamente popular só porque teve a Schmeichel (que chegou a Portugal como campeão europeu em titulo, a mesma idade e a ganhar menos, em proporção, do que Casillas agora, em claro declive de carreira e com um cachet bem menor) também o Porto não se vai tornar numa referência mundial por Casillas. Nem o deve ser. 

Tenho a plena convição de que Iker vai fazer uma óptima temporada. 
Vai ser decisivo em alguns jogos, vai falhar alguma que outra vez, como todos. Vai permitir maior exposição do clube mas não necessariamente maiores ingressos. Se o seu salário fosse de acordo com a realidade do clube, teria sido um negócio que aprovaria, apesar de tudo. Mas não é.

Iker é mais caro do que aquilo que nós devemos - não podemos, que também não, mas devemos - pagar a um futebolista em fim de carreira, em particular para uma posição onde a alternativa, da casa e mais barata a todos os niveis, já nos dava a todos garantias nos próximos dois anos. A Iker desejo-lhe toda a sorte que não teve nos últimos anos em Espanha mas considero o negócio um erro, mais uma fuga para a frente de um grupo de dirigentes desesperados pela ausência de resultados dos últimos dois anos e que já não sabem que politica coerente seguir sempre e quando haja titulos que a justifiquem.

Que ninguém se engane. O FC Porto 2015/16 podia ser campeão e equipa de oitavos de final de Champions - os objectivos reais de cada ano - sem Iker Casillas. Com ele no plantel não muda nada. Ou melhor, não muda nada, desportivamente. Seremos no final do ano um clube mais pobre, com um buraco mais grande para tapar. Mas como alguns pretendem ficar aqui até morrer, esse problema já não será deles. Será nosso. E quando chegar esse momento, todos se lembrarão das boas noites que Casillas nos deu e se perguntarão se essas noites valiam os problemas que vieram depois. 

Suerte Iker!

PS: Os pais do Iker Casillas - que não o próprio, está claro - declararam ao jornal El Mundo que para eles o FC Porto é um clube de "Segunda Divisão B" e que o filho merecia algo muito melhor. Espero que o Porto demonstre ao Casillas que é possivel ser feliz longe de Madrid e que os portistas demonstrem, aos pais do Casillas, quando venham ao estádio do Dragão de Segunda Divisão B ver um jogo, com um enorme coro de aplausos o que um grupo de adeptos de "Segunda Divisão B" são capazes.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Calma lá com Casillas

Iker Casillas quer ser guarda-redes do FC Porto.
O FC Porto quer que Iker Casillas seja o seu guarda-redes.
O Real Madrid - ainda - não quer que o negócio avance.

Este é o único ponto de situação veraz a dia de hoje no que se passa nesta novela de Verão. Tudo o resto que lerem é pura especulação.

A situação explica-se facilmente.
Casillas está em guerra aberta com Florentino Perez há três anos, desde que José Mourinho o relegou para segundo (e terceiro) guarda-redes do plantel por questões do foro interno do balneário (que não desportivas). O guarda-redes - parte da primeira equipa desde 1999 e capitão desde 2009 - sentiu-se traido por um Perez que nunca gostou dele (durante anos tentou trazer, primeiro Buffon e depois Neuer para Madrid), e tal como sucedeu com outras figuras históricas do clube (Sanchis, Hierro, Guti, Raul), quer sair. Mas não de graça. Casillas tem dois anos de contrato em vigor. Ganharia, pelos dois anos, um valor próximo aos 15 milhões de euros em salários, excluindo prémios de jogo. Esse dinheiro para ele é imperdoável ao clube e já o fez saber. Se o Real Madrid não colaborar - com sim fez com Raul quando saiu para o Schalke 04 - seja através de uma indmenização que lhe permita aceitar uma oferta mais baixa, seja pagando ao clube para onde vá essa percentagem salarial - Casillas fica os próximos dois anos onde está, como uma pedra no sapato do clube.

É nesse cenário que entra em cena o FC Porto.
O agente de Casillas - que não tem nada a ver com o universo Mendes, atenção - leva meses há procura de um destino. Havia 4 opções principais até há bem pouco tempo. A favorita do jogador era a do Arsenal mas o clube londrino fartou-se de esperar e foi atrás de outro veterano, Petr Cech. Sobravam o Liverpool, a Roma e o Bessiktas turco. Mas ninguém mostrou interesse real pelo jogador. No caso dos Reds e do Bessiktas, o próprio Casillas descartou de imediato seja porque uns não jogam a Champions ou porque a Turquia não o atrai. Ambos pagariam sensivelmente o mesmo que ganharia em Madrid mas desportivamente não era uma evolução. A Roma é um caso diferente e houve oferta na mesa. Salário na casa dos 4 milhões anuais e jogar Champions como titular indiscutivel. Muitos já davam por certo que esse era o destino mas Lopetegui apareceu e falou pessoalmente com Casillas, prometendo-lhe o mesmo que lhe dava a Roma salvo alguns matizes no salário. A Casillas a opção Porto parece-lhe melhor que o Roma.
É um clube com prestigio, com presença regular na Champions e é, sobretudo, perto de casa. Está a 45 minutos de avião e a familia poderia continuar a viver a Madrid onde ele voltaria vários dias à semana a dormir, sem que isso afecte a carreira profissional da mulher ou a educação do filho de ano e meio. Foi essa a situação que lhe fez apresentar, via agente, a proposta do Porto ao Real Madrid.
O FC Porto oferece a Casillas um salário entre os 2,5 e os 3,5 milhões de euros anuais (valores a ser ainda negociados e inferiores à Roma), num contrato por dois anos (os que lhe faltavam cumprir pelo Real Madrid) e um terceiro opcional (já sem o colchão financeiro). Titularidade absoluta inquestionável, uma liga relativamente cómoda e jogar, como minimo, a fase de grupos da Champions, condição que lhe foi imposta por Vicente del Bosque para continuar a ser o titular de Espanha no próximo Euro 2016, o seu grande objectivo.

Essa é a proposta do FC Porto. Uma proposta que o Real Madrid, para já, recusou.
O Real só deixará sair Casillas a partir do momento em que tenha atado a David de Gea. O Manchester United está a ser um duro negociante. Envolveu Sérgio Ramos no negócio, pede mais de 35 milhões de euros e De Gea quer um salário na casa dos 8 milhões. No meio de todos esses números o caso Casillas fica em stand by. Se a transferência for adiante, o guarda-redes tem carta branca do clube para ir para o Porto. Caso contrário não.
Entretanto, nesse periodo de tempo - que pode prolongar-se todo o Verão - o Real procura que a parte que tem de pagar se reduza, ora pagando mais o FC Porto a Casillas ou este aceitando receber menos. Casillas quer continuar a ganhar o mesmo que ganha - 8 milhões anuais - e se o FC Porto oferece, como muito, 3,5 milhões, há quase 5 que vêm dos cofres do Real Madrid. Por cada um dos dois anos, um total de 10 milhões. Para Casillas isso é ainda menos do que aquilo que o clube lhe devia pagar - os tais 15 milhões - aos que o Real responde com um claro "se não gostas, ficas aqui a ganhar os 15 mas não jogas". A negociação, nesse aspecto, está tensa e o FC Porto será seguramente forçado a ampliar a sua oferta para reduzir o que o Real Madrid considera como perda. Ou isso ou Casillas aceitará perder dinheiro. A bola está no lado dele porque a realidade do FC Porto é a que é.

Esta novela vai prolongar-se nas próximas semanas e que ninguém duvide de que está pendente de muitos factores para ser já uma certeza. Casillas quer, o FC Porto quer e o Real Madrid, no fundo, também. Mas isso, de momento, não significa absolutamente nada.

Quanto à necessidade desportiva e à valia do guardião espanhol tendo em conta o que vai ganhar, fica para outro episódio!


PS: Vou esperar mais umas semans para falar a fundo do que se está a passar - desportivamente - com a composição do plantel 2015/16. Mas há coisas que, para já, fazem muito pouco sentido.
O FCP acaba de renovar com Varela um jogador que queria sair há mais de dois anos e que não contava para Lopetegui. Este ano - com extremos de presente (Quaresma, Tello) e futuro (Hernani, Ricardo) para não falar de futuriveis da B (Ivo, Frederic) - o clube afinal decide renovar e integrar um jogador que, claramente, não é o mesmo que foi e que, no fundo, nunca foi grande coisa (esforçado mais que talentoso, deixemos assim). Porquê?
Se Carlos Eduardo foi bem vendido - é preciso começar a recortar excedentes - se o caso de Tozé merece voltar a perguntar para que raios serve a equipa B e se Fabiano foi uma óptima venda, há incorporações no plantel que, espero, pela lógica desportiva, durem apenas o tempo que demorem a ser colocados de novo. Mas, preferencialmente, vendidos porque ter mais Varelas emprestados quatro anos não ajuda a ninguém!