Depois do empréstimo de Maicon ao São Paulo - prévia renovação de contrato para comprar o silêncio de quem não explicou sequer, como devia como capitão, aos sócios e adeptos o motivo do seu comportamento e as suspeitas levantadas pelos familiares nas redes sociais - o plantel do maior clube português conta apenas com 3 jogadores com mais de dois anos de primeira equipa. Sim, leram bem. Em 25 jogadores, o FC Porto tem 3 jogadores com mais de dois anos de azul e branco e dragão ao peito. Soa a ridículo. E se soa, é porque o é. Sobretudo quando este clube, talvez mais do que nenhum outro, se fez grande precisamente imprimindo um estilo próprio - "o jogar à Porto" - com jogadores que sentiam a mística do clube e a interpretavam como ninguém depois de incorporar todos os conceitos mais básicos do portismo servindo de porta-estandartes para os que vinham depois.
O FC Porto sempre foi um clube de ciclos curtos até mesmo na realidade pré-Bosman. Sempre tivemos jogadores estrangeiros - e até aos anos 70 em proporção superior ao dos rivais de Lisboa que usavam a "batota" das colónias para manterem-se competitivos - e sabíamos que os jogadores da casa que se destacavam tarde ou cedo teriam tubarões atrás. Para contra-balançar essa realidade criou-se, sobretudo com a chegada de José Maria Pedroto e Pinto da Costa, uma genuína cultura de balneário assente em jogadores que - formados em casa ou contratados cedo na sua carreira - formavam um núcleo duro que raramente se rompia. Sabiam que não eram provavelmente nem os segundos melhores na sua posição mas que, em conjunto, eram invencíveis. Esse espírito cimentou a história do FC Porto até há bem poucos anos. Das gerações dos operários de Pedroto e Artur Jorge passou-se aos homens lançados nos anos noventa nos mandatos de Carlos Alberto Silva, Bobby Robson e António Oliveira e projectados para o novo milénio por Fernando Santos. Ano sim, ano também o FC Porto continuava a ser o que sempre foi, um clube vendedor. Não havia dúvidas, já com a lei Bosman em acção, que futebolistas como Jardel, Zahovic, Deco, Sérgio Conceição, Vítor Baía, Fernando Couto e afins tinham mercado e iam sair. Mas havia sempre os que ficavam - os Paulinho, os Aloísio, os Folha, os Jorge Costa - - ou os que saiam já muito tarde na carreira depois de ter dado tudo o que tinham. Entre uns e outros o clube garantiam ter sempre uma dezena de futebolistas imbuídos no espírito da casa. Os treinadores mudavam, as estrelas iam e vinham, mas eles seguravam o edifício. Mesmo no pós-Gelsenkirchen, quando a razia fez-se mais evidente, soube-se encontrar veículos de transmissão e jogadores que, vindos de fora, aprenderam depressa a lição como demonstrou sempre Lucho Gonzalez, João Moutinho ou Hulk que, sem ser da casa ou dos arredores, souberam ser "jogadores à Porto".
Ora, face à politica comissionista, a politica de "contentores", de relações com fundos e agências, perseguida de forma implacável e sem olhar para trás da coluna dirigente - uma politica que se aplica cada vez mais à própria formação, contratando-se jogadores por cinco vezes mais o seu valor em negócios difíceis de explicar (Juca, da próxima vez tenta lá fazer jornalismo a sério e perguntar a Pinto da Costa os porquês detrás dos negócios Kayembe, Victor Garcia ou a renovação de Ruben Neves e os 5% para o irmão de um dos administradores) - o espírito à Porto tem vindo a desaparecer. Os próprios homens - ou homem, se quiserem - que alimentaram com êxito e visão essa política de jogadores da casa ou imbuídos no espírito da casa, são os mesmos - ou, o mesmo, se preferirem - que se encarregaram de dinamitar essa realidade. Hoje, em Fevereiro de 2016, o FC Porto tem 25 jogadores inscritos no primeiro plantel e desse lote há três futebolistas que têm mais de dois anos de primeira equipa. A saída de Maicon - veteraníssimo e capitão por antiguidade, que não por mérito próprio de liderança - outro sinal evidente de que algo está podre - deixou Helton, Varela e, pasmem-se, Herrera, como os nomes mais antigos no balneário.
Helton é o rei dos veteranos e um farol de portismo absoluto que suportou estoicamente tudo - de criticas a lesões quase impossíveis de recuperar a lugares de suplente difíceis de explicar - e Varela um jogador que quis forçar a sua saída mas que escolheu o destino errado e foi forçado a voltar com o rabo entre as pernas. O terceiro em discórdia, Herrera, não podia ser maior patinho feio (herda o posto na hierarquia de Maicon) e seguramente é jogador com guia de marcha em Junho. A estes podem juntar-se ainda Ruben, Chiodzie, André André ou André Silva, com passado mais ou menos largo na formação mas com muito poucos kms de equipa principal.
Em comparação o Benfica tem 9 jogadores com mais de dois anos de primeira equipa - a que podem juntar outros seis da formação num total de 15 futebolistas - e o Sporting tem 11 jogadores no primeiro plantel com mais de dois anos de casa a que podem juntar ainda outros dois jogadores da formação para um total de 13.
Esta é a nossa triste realidade. Algo de quem não tem culpa Paulo Fonseca, Julen Lopetegui e, naturalmente, muito menos, José Peseiro. Os treinadores no FC Porto são excelentes bodes expiatórios mas os ciclos têm sido tão curtos e o seu poder tão exíguo que na hora da verdade só existe um local para onde se olhar para apontar culpados a esta realidade.
Ninguém pode criticar uma política que tem décadas - a de comprar barato e desconhecido, vender caro e preparando estrelas de primeiro quilate para outros - a funcionar perfeitamente. Esse não é nem nunca foi o problema do FC Porto entre outras coisas porque é algo absolutamente inevitável. China e Premier serão amanhã o que a liga espanhola, francesa e russa foram no passado. Não, esse não é o problema. O problema está no orçamento descontrolado - ano após ano - nas exíguas mais valias entre comissões, vendas de percentagens e investimentos em activos cada vez mais caros e, sobretudo, na ausência de uma visão desportiva - o FC Porto é um dos poucos clubes de elite que não conta com um Director Desportivo digno de usar esse titulo - que garanta que paralelamente a esses negócios necessários exista uma guarda pretoriana que garanta que os que venham a seguir saibam o que é "jogar à Porto". Ninguém está a pedir que existam dez jogadores que fiquem uma década no clube, um cenário que é cada vez mais irreal em qualquer liga. Mas ter apenas três jogadores - dois suplentes e um mal amado - é cair no fundo. Para o próximo ano ninguém sabe que será dos três. Podem estar cá todos ou até mesmo nenhum o que faria de Ruben Neves (se fica, que esperemos que sim), o mais veterano do plantel. Um miúdo da casa não pode levar esse peso nos ombros com 20 anos de idade. É o caminho mais curto para atropelar uma futura referência. Todos antes dele que prometiam muito, de Gomes a Postiga, tiveram em quem se apoiar. Ruben pode acabar só como o último sobrevivente do espírito de jogador à Porto num plantel sem jogadores - formados ou comprados, nacionais ou estrangeiros - que saibam realmente o que isso significa. Não é por casualidade que até Sapunaru - um desses estrangeiros que souberam entender isso de ser um "jogador à Porto" - afirmou publicamente o choque que lhe provocou visitar o Olival. E ele, mais do que nós, sabia por dentro o que o Porto foi e o que o Porto é hoje.
Ás vezes, entre resultado positivo e resultado negativo, entre bola na trave e bola dentro, estas questões ficam esquecidas mas depois, quando as coisas correm mal, todos levantam a cabeça à procura de referências mas hoje em dia só as encontram nos jogos de veteranos. O gesto de Maicon só é possível no contexto deste FC Porto do pós-pintocostismo com Pinto da Costa, um clube sem lideres a nenhum nível e onde os jogadores vêm trabalhar todos os dias como se estivessem noutro sítio qualquer.














