Como matéria de reflexão para os participantes do encontro da bluegosfera que
terá lugar amanhã e para os portistas em geral, em particular os sócios, deixo
aqui 7 perguntas cruciais que me vieram à cabeça a propósito da extinção
do básquete profissional.
1 1) O FCP é alegadamente uma «instituição de
utilidade pública». Em que medida corresponde
isso à realidade, exactamente?
Coloco a
questão tendo em conta que cada vez mais a prática de desporto no clube se
distingue menos de ginásios tipo Solinca e outros clubes privados (que ninguém
considera como instituições de utilidade pública), onde para participar (mesmo
os mais petizes) se tem que pagar de forma a cubrir os custos, ou a maior parte
deles; e em que as infraestruturas do clube (Dragão Caixa, Olival,
Constituição, ...) não são colocadas ao dispor da população (escolas, etc) –
nem pagando, quanto mais a preço reduzido ou de borla.
2) Os sócios do FCP querem um clube eclético
(a la Barcelona) ou um clube dedicado – ou quase - ao futebol (a la Man
United)?
É uma escolha legítima dos sócios, já que mandam
no clube que por sua vez manda, se assim quiser, na SAD (onde, mesmo em
decisões por maioria da parte dos accionistas, é praticamente impossível
aglutinar votos que derrotem propostas do clube). Se assim houver vontade, pode-se
reencaminhar as receitas das quotas por inteiro para o clube e modalidades (hoje
é apenas 25%) tal como forçar rendas mais altas à SAD pelo uso do estádio, ou
reencaminhar receitas de merchandising de produtos do clube (que hoje vão por
inteiro para a SAD).
Um par de milhões de euros/ano pode fazer toda a
diferença para as modalidades, mas corresponde a apenas 2 a 3% das receitas da
SAD (que andam nos 80 milhões), não fazendo qualquer diferença entre ganhar ou
perder campeonatos. Ou se preferirem, corresponde a uns 10% do preço de um
Danilo.
3)
Que modalidades querem salvaguardar acima
de tudo? E a que nível de competitividade?
Eu quero um FCP eclético, mas divido
conceptualmente as modalidades em dois tipos: as fundamentais (como básquete, andebol e hóquei) , e as dispensáveis
(pesca desportiva, campismo, futebol de praia, caça aos gambuzinos, ...). No
caso das fundamentais, um défice estrutural é aceitável, desde que não excessivo; as outras devem-se pagar a si próprias, ou no
pior dos casos aceita-se um défice minúsculo (milhares de euros por ano) e/ou
muito pontual.
Quando à segunda questão, clarifico: é para ter
equipas para ganhar títulos europeus? Ou apenas nacionais? Ou nem
necessariamente isso? A verdadeira questão não é tão simples como «ter básquete ou não».
4)
Até que ponto estão dispostos a sustentar
défices nas modalidades em detrimento de outras (começando pelo futebol)?
Eu quero sem dúvida ter modalidades de alta
competição fortes, mas não a qualquer custo.
Pegando no exemplo do básquete: não tenho problema
que seja preciso «injectar» centenas de milhares de euros para ter um FCP que
lute pelo título nacional, mas já não aceito que se tenha que injectar muitos
milhões por ano de forma a ter uma equipa que lute por títulos europeus (onde
há rivais com orçamentos superiores a 20 milhões de euros), à custa da
competitividade do futebol (onde 10 ou 20 milhões a menos já podem fazer uma
grande diferença). O que me leva a outra pergunta...
5)
Mas afinal de contas quanto era o «buraco»
no básquete profissional, aproximadamente?
Quando se toma uma decisão tão drástica convém que
se explique direitinho, e os $$ em questão são um dado fulcral, que não foi
mencionado. O «buraco» era de 10 mil euros/ano? 100mil? 1 milhão? Mais?
Estou certo que não ultrapassava 1 milhão, no pior
dos casos, e todos os anos o clube envia 3 milhões de euros das quotas para a
SAD. Porque não foi considerada a opção de propor um aumento de % de receitas das
quotas dos sócios para as modalidades (em detrimento da SAD), de forma a evitar
esta decisão drástica? O que me leva a outra pergunta...
6 6)
A direção do clube – que é basicamente a
mesma da SAD - consultou (formal ou informalmente) os sócios sobre as questões
acima abordadas?
Não. Nada.
Népias. Porquê?
A meu ver os
sócios não podem servir apenas para pagar quotas e votar de 3 em 3 anos (para
além de serem consumidores dos produtos FCP, incluindo os jogos) - para além
das AGs é incompreensível que não se utilizem por exemplo as novas tecnologias
(para além de email, facilmente se fazem sondagens na Internet restritas a
sócios).
É
incompreensível (para mim) que numa decisão tão importante não tenha havido uma
iniciativa de discussão mais ou menos pública com várias iterações e estudando
várias opções de forma atempada (ainda que de forma não-vinculativa). Eu até
compreendia que se fechasse o básquete profissional se o risco tivesse sido
mencionado com muitos meses de antecedência e tivesse havido uma discussão
aprofundada e alargada sobre as opções possíveis antes da tomada final de
decisão (sendo uma delas apertar o cinto e lutar pelo meio da tabela, por
exemplo, para não falar do já mencionado aumento de transferência de receitas
de quotas), mas não foi de todo o caso, criando esta decisão «em cima do
joelho» mesmo um problema com jogadores sob contrato e Relações Públicas (vidé
notícias em Espanha, a propósito do Moncho). O que leva à pergunta final...
7)
Deveriam os estatutos do clube serem
mudados?
Penso que
sim, e com a seguinte modificação: decisões-chave como a criação ou extinção de
novas SADs para as modalidades, o encerrar da atividade profissional das
modalidades de alta competição (lista específica de quais são essas modalidades
a definir através de votação pelos sócios - e quem sabe para a maioria o
básquete se calhar não é estratégico, o que duvido muito, mas o ponto é que só
os consultando para se saber ao certo) ou a abertura de novas modalidades de
alta-competição (definindo como tal modalidades cujo orçamento seja superior a «x»,
por exemplo 500mil euros) só poderiam
ser tomadas após aprovação em AG extraordinária.
A direção do
clube continuaria a dispor de autonomia total em decisões sobre o orçamento
exacto e gestão operacional dessas modalidades, abertura/encerramento de outras
modalidades, e sobre os escalões de formação na alta competição. Mas não em
decisões que considero estratégicas, que pela sua dimensão requerem uma
consulta específica aos sócios (já agora, aquando das últimas eleições a
direção nunca mencionou a possibilidade de encerrar o básquete profissional).