Artigo anterior:
A Insustentável Leveza do Sucesso (I)
No artigo anterior concluímos que o modelo de negócio da
FC Porto SAD assenta na obtenção de Proveitos com Bilheteira, TV, UEFA e
Publicidade por um lado, e Mais-valias com as vendas de passes de jogadores por
outro, numa proporção média de 70%-30%. Vimos também que o nível de
endividamento da sociedade tem sido crescente nos últimos anos e que em
2011-2012 o resultado antes da função financeira sofreu uma forte queda, o que
leva a concluir que a SAD tem de crescer, no sentido de obter mais Proveitos
(ou, em alternativa, diminuir os seus custos de operação).
Pela análise dos dados contidos nos gráficos abaixo
constata-se um decréscimo anualizado de 5,5% nas receitas de Bilheteira, de
2006 a 2012. Este terá sido o primeiro ponto onde a SAD entendeu actuar visto
ter lançado recentemente uma campanha de redução de preços para a aquisição de
lugar anual e uma nova denominação para as bancadas do Estádio (“mais
intuitiva”, recuperando os termos Superior e Arquibancada, que eram utilizados
no Estádio das Antas). Espera-se que a campanha dê os seus frutos e que as
assistências do Dragão voltem aos seus níveis iniciais.

Há um crescimento sustentado nas receitas provenientes da
cedência dos Direitos TV. Entre 2006 e 2012 estas receitas cresceram 11,3% em
termos anualizados, fruto das sucessivas renegociações com a
Olivedesportos/Sporttv. Este crescimento pode significar que o cliente se estava
a apropriar de uma parte do valor potencial desses Direitos e que o FC Porto
conseguiu equilibrar a repartição de riqueza gerada por este negócio. Pode
haver ainda margem para na próxima renegociação aumentar estas Receitas.
As Receitas obtidas a partir da participação nas Provas
UEFA são sempre uma incógnita, dependendo da performance desportiva, no entanto
a média de € 13m para o período observado equivale praticamente a passar a fase
de grupos da UCL todos os anos. Este é, aliás, o objectivo mínimo definido a
cada nova época.
A Publicidade e Sponsorização diminuiu no último ano. Resta
saber se se confirmará este ano tornando-se uma tendência (normalmente em
tempos de crise esta é uma das primeiras rubricas a sofrer cortes pelas
empresas) ou se estes proveitos regressam a níveis de 2010-11.
Em suma, das quatro rubricas de proveitos acima
referidas, é na Bilheteira, nos Direitos TV e na Publicidade que a FC Porto SAD
poderá ter ainda margem para crescer, assumindo que os valores recebidos nas
Provas UEFA dependerão dos resultados e que tal só é controlado de forma
indirecta pela gestão.
As assistências
Pela inexistência de um Estudo deste tipo aplicado ao
Estádio, utilizei dados do Plano Director do Aeroporto Sá Carneiro, elaborado
pela ANA, para quantificar o número de potenciais consumidores e utilizadores
do Estádio do Dragão. Por esse motivo, a área inicial, a preto, está
ligeiramente a Norte, ou seja, devemos pensar o mapa deslocado um pouco para
baixo.
Os dados da catchment
area são muito interessantes. Os 7 milhões de habitantes a apenas 120
minutos da cidade do Porto permitem pensar que é possível inverter a tendência
de queda das assistências do Estádio nos últimos anos. O FC Porto tem de ser
mais ambicioso; o Dragão tem de encher mais vezes; as assistências médias têm
de aumentar!
Foi lançada recentemente uma campanha de redução de
preços na venda de lugares anuais com o objectivo de “oferecer uma política de
preços mais justa, mais económica e com maior equilíbrio entre sectores”. Mais
do que nunca a gestão acreditará que consegue trazer mais adeptos ao Estádio e
esta campanha é o primeiro reflexo do reconhecimento do potencial do Dragão.

O FC Porto poderá tentar alavancar as suas Receitas
através da venda de Direitos TV para países onde os jogadores são uma
referência. Exemplo: a Colômbia, onde recentemente a comitiva do nosso Presidente
da República foi recebida pelo homólogo colombiano que ostentava um cachecol do
FC Porto (!). Poderá, por outro lado, tentar explorar o mercado asiático,
embora esta possibilidade seja, compreensivelmente, menos exequível porque o FC
Porto ainda não tem a dimensão internacional nem a projecção de um Real Madrid
ou Manchester United. E pode, também, fazer estágios ou torneios em países que
queiram promover o futebol e ver algumas estrelas internacionais em acção para,
assim, projectar o seu nome e obter um acréscimo de receita (recordo-me que a participação na Peace Cup em 2009 rendeu bom dinheiro).
A Sustentabilidade
A consultora AT Kearney elaborou um estudo sobre a
sustentabilidade das 5 principais Ligas europeias (Inglaterra, Alemanha,
França, Espanha e Itália) à luz das normais técnicas de análise económica e
financeira de empresas. As conclusões são muito interessantes: 3 dessas 5 Ligas
entrariam em bancarrota no espaço de 2 anos (excepto Alemanha e França).
Acontece que a indústria do futebol tem características muito particulares e a
sua sustentabilidade não deve ser aferida apenas através de normas de análise
económica e financeira tradicionais, mas também socioeconómicos e ambientais.
O quadro abaixo pretende relacionar performance
desportiva com performance económica e… não há qualquer correlação entre ambas.
As Ligas alemã e francesa são as que apresentam melhores indicadores económicos
mas são as Ligas inglesa e espanhola as que têm melhores performances
desportivas. Uma coisa é certa: são as Ligas com melhores indicadores, não
apenas desportivos, mas também económicos, sociais e ambientais que têm maior
probabilidade de crescer a longo prazo de forma sustentável.
Nota: inseri uma circunferência com a bandeira portuguesa
onde tudo indica estar localizado Portugal – em termos de ranking desportivo (ranking
UEFA) está entre a Itália e a França e em termos de ranking económico estará
seguramente entre zero e os valores alcançados por Espanha e Itália.
O Fair-play financeiro da UEFA
O Comité Executivo da UEFA aprovou, em Setembro de 2009,
por unanimidade, o conceito de "fair play" financeiro para o
bem-estar da modalidade. O conceito também recebeu o apoio de toda a “família
do futebol”, tendo como principais objectivos os seguintes:
- introduzir mais disciplina e racionalidade nas finanças
dos clubes de futebol;
- diminuir a pressão sobre salários e verbas de
transferências e limitar o efeito inflacionário;
- encorajar os clubes a competir apenas com valores das
suas receitas;
- encorajar investimentos a longo prazo no futebol
juvenil e em infra-estruturas;
- proteger a viabilidade a longo prazo do futebol
europeu;
- assegurar que os clubes resolvem os seus problemas
financeiros a tempo e horas.
Estes objectivos entretanto aprovados reflectem a visão
de que a UEFA tem o dever de ter em consideração o ambiente sistémico do futebol
europeu de clubes, no qual os emblemas competem e, em particular, o impacto
inflacionário alargado dos gastos dos clubes em salários e verbas de
transferências.
Em épocas recentes, muitos clubes reportaram perdas
financeiras, e, em alguns casos, maiores de ano para ano. O panorama económico
global criou difíceis condições de mercado para os clubes europeus e isto pode
ter impacto negativo na geração de receitas e cria desafios adicionais para os
clubes, no que diz respeito à disponibilidade do financiamento e para operações
do dia-a-dia. Muitos clubes sentiram problemas de liquidez, levando, por
exemplo, ao atraso no pagamento a outros clubes, empregados e autoridades sociais
e dos impostos.
Os Regulamentos de Licenciamento de Clubes e Fair Play
Financeiro da UEFA, aprovados em Maio de 2010 após um período de consultas e
actualizados em 2012, estão a ser implementados durante um período de três
anos, com os clubes que participam nas competições da UEFA a verem os seus
pagamentos (ex.: de transferências e a empregados) monitorizados desde o Verão
de 2011. A avaliação do equilíbrio cobrindo os exercícios financeiros que
terminam em 2012 e 2013 será efectuada durante a época de 2013/14.
Estas medidas podem afectar sobremaneira a actividade do
FC Porto SAD. Não serão admitidos, nas competições europeias, clubes ou
sociedades com capital próprio negativo, só para dar um exemplo.
Conclusões
A Sustentabilidade a longo prazo da FC Porto SAD estará
dependente de todos os factores mencionados anteriormente e sistematizados na
figura acima, sendo de destacar: o crescimento desejável dos proveitos, quer
obtidos a nível interno quer internacional; a diminuição da dependência dos
financiamentos para a prossecução da actividade (financiamentos bancários,
obrigacionistas ou outras formas de injecção de capital alheio); as condições
restritivas previstas nas regras do Fair-play financeiro da UEFA e o próprio
Modelo de Negócio da sociedade, com a dependência dos negócios de passes de
jogadores e as parceiras com Fundos. A Sustentabilidade do negócio dependerá em
grande medida da forma como a gestão conseguir gerir e articular todas estas
variáveis. Como portistas desejamos que o faça mantendo a performance desportiva
e melhorando a performance financeira.