Da Invicta a Madrid são cerca de 560 Km e praticamente todo o trajecto pode ser feito em auto-estrada (obviamente, para quem optar por ir de carro).
Esta situação, juntamente com o facto do Atlético Madrid x FC Porto se ter realizado no feriado de Carnaval, fez com que uma legião de portistas tivesse "invadido" Madrid.
Eu cheguei no domingo e dois dias antes do jogo era já notória a presença de centenas de portugueses na capital espanhola, principalmente nos locais mais turísticos. Viam-se (e ouviam-se) casais, famílias completas e grupos a falar português nos mais diversos locais, desde o Palácio Real ao Museu do Prado, passando pela Plaza Mayor ou pela Puerta del Sol. Para se ter uma ideia do entusiasmo, na manhã do dia do jogo cruzei-me com vários portistas que apreciavam os quadros fantásticos do Museu Thyssen-Bornemisza de cachecol do Fê-Cê-Pê ao pescoço.
Adeptos portistas na Plaza Mayor fazem a festa antes do jogo, 24/02/2009
Mas não era apenas o Atlético Madrid x FC Porto a despertar as atenções. No dia seguinte ia disputar-se o Real Madrid x Liverpool e, atendendo ao que é habitual, seria de esperar que fossem os ingleses a encher as ruas e praças madrilenas. Pois não foi isso que eu vi. Na terça-feira à tarde, ao passar pela Plaza Mayor viam-se, é verdade, grupos de supporters dos reds, mas a maioria dos adeptos, quer sentados nas esplanadas, quer animando o ambiente com cânticos, vestiam de azul-e-branco.
Ao fim da tarde, à ida para o estádio, encontramos no Metro um grupo de adeptos colchoneros, os quais, para além de perspectivarem uma derrota clara do FC Porto (devem ter lido as declarações do Paulo Assunção...), elegiam o Lucho como melhor jogador dos dragões. Desconheciam a capacidade do Hulk e fizeram alguns comentários jocosos quando eu lhes referi o nome do "super herói", mas logo nos primeiros segundos do jogo devem ter mudado de opinião...Entramos no estádio - Fondo Norte, Porta 9 - por volta das 19h00, cerca de 1h45 antes de o jogo iniciar, sem ter havido qualquer problema. Ora, se por fora o Estádio Vicente Calderón já não impressiona (inclusivamente passa uma rua por baixo da bancada lateral do lado do rio Manzanares!), lá dentro é quase chocante a comparação com o Estádio do Dragão, tal a diferença nos acessos, bares de apoio (não existem!), limpeza, cadeiras, conforto e qualidade estrutural. Os espanhóis que vierem ao Dragão vão ficar de boca aberta.
Topo Norte do Estádio Vicente Calderón, local de entrada dos adeptos portistas
As equipas subiram ao relvado para o aquecimento, primeiro o Atlético e depois os dragões e apesar de os nossos terem feito o aquecimento no meio-campo oposto, ouviram-se bem as vozes dos cerca de 3 mil adeptos que foram de Portugal.
Quando os jogadores recolheram aos balneários, surge a primeira preocupação. As imagens nos ecrãs gigantes mostraram um Fucile em dificuldades e percebeu-se de imediato que não poderia jogar. Sabendo-se que as laterais são as posições onde a equipa é mais frágil, ficar sem o melhor defesa-lateral antes ainda do jogo começar não era um bom prenúncio.
Começa o jogo e logo no minuto inicial Hulk tem uma das suas arrancadas pela direita, passando por todos os adversários que lhe saíram ao caminho e centrando para Rodriguez, que à meia volta falha um golo fácil (pelo menos a nós, que estávamos atrás dessa baliza, pareceu-nos que era de fácil concretização...).
“Na Liga dos Campeões não se podem falhar golos destes”, comentei eu para o lado, longe de imaginar que haveríamos de falhar (ou o Léo Franco defender) cinco oportunidades ainda mais claras durante os restantes 89 minutos.
Lesão do Fucile no aquecimento; golo falhado no 1º minuto; golo sofrido ao minuto 3. Que balde de água fria! Bolas que é demais, os deuses não estão connosco esta noite, pensei eu com os meus botões.
Os deuses e o trio de arbitragem, que além de anular um golo limpinho aos 18’, mostrou um critério especial e pouco britânico na apreciação de várias jogadas de ataque do FC Porto, particularmente na forma, que chegou a ser ridícula, como interrompeu N (contra)ataques do FC Porto por supostas faltas cometidas por Hulk na disputa da bola.
Azar e arbitragem contra costuma ser uma mistura explosiva, mas a equipa soube dar a volta, obter o empate e continuar a pressionar os jogadores do Atlético no campo todo. Perante a exibição portista e a avalanche de oportunidades de golo criadas, os adeptos do Atlético, em silêncio, só queriam que o intervalo chegasse depressa, mas nos descontos da 1ª parte ainda iam ser premiados com um “regalo” do Helton.
Em vez de estar a ganhar confortavelmente por dois ou três golos de diferença, o FC Porto chegava ao intervalo a perder por 1-2.
Foram 15 minutos a carpir mágoas, em que a palavra INJUSTIÇA era a mais ouvida. Havia quem comparasse o Helton com o Baía (que raramente falhava nos grandes jogos), lamentasse o azar do Fucile ou a fragilidade dos dois laterais mas, principalmente, falava-se nos golos falhados, que ainda por cima tinham sido naquela baliza, mesmo ali à nossa frente.
Quanto aos ex-portistas, o Seitaridis não deu muito nas vistas e relativamente ao Paulo Assunção (os assobios que ouviu foram uma amostra do que o espera no Estádio do Dragão) a conclusão é que, afinal, não fazia falta nenhuma.
Começa a 2ª parte e o FC Porto entra novamente com o gás todo, apesar dos apanha bolas parecer terem recebido instruções ao intervalo para queimarem tempo.
Continuam as oportunidades de golo falhadas do lado azul-e-branco (que, neste jogo, foi mais azul bebé) e o treinador do Atlético, mais do que tentar ampliar a vantagem, começa a fazer substituições defensivas, para procurar preservar o milagroso resultado favorável de que os rojiblancos usufruíam.
O golo do empate acaba por surgir fixando o resultado num 2-2. O que antes da bola começar a rolar seria encarado como um bom resultado, no final do jogo soube a pouco, a muito pouco.

Jogadores do FC Porto agradecem aos adeptos... à distância (clique para ampliar)
Um apontamento final para o Cristian Rodriguez. Para além da atitude que demonstrou em campo (impressionantes os piques que fez quando o jogo já se aproximava do minuto 90), foi o único jogador que no final se aproximou dos adeptos. Outros houve que agradeceram, mas à distância, como se lhes custasse muito andarem 30 metros para irem junto à linha de fundo agradecer a quem fez mais de mil quilómetros para os apoiar.