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quinta-feira, 30 de maio de 2019

O Clube do amanhã: apostar nos miudos ou nos bolsos alheios?


É sempre uma alegria especial quando o FC Porto levanta um título mas talvez seja maior ainda quando são títulos dos putos. Os putos da casa. Os que sentem a camisola, muitos deles andam ali desde muito pequenos. São o nosso ADN e seja qual for o futuro que lhes depara, sempre vão ser parte nossa. A formação do FC Porto foi campeã da Europa há um mês e sagrou-se campeã nacional ontem. Uma dobradinha sem paralelo na história do futebol português. O impacto mediático foi quase nulo em ambos casos. O FC Porto forma bem, muito bem, mas vende-se mal, muito mal. Para muitos esse é um problema. Não é. O grande problema é outro. O FC Porto forma bem, muito bem, mas aproveita pouco, muito pouco. Esse é talvez o maior desafio com que nos encontramos para o futuro imediato. Aproveitar uma geração excelente ou deitar fora uma oportunidade histórica para beneficio próprio de uns poucos.

Durante anos ouvimos lenga-lengas sobre a impossibilidade de ser competitivo recorrendo a jogadores da formação. O exemplo claro era o Sporting, um clube que raramente deveria servir de exemplo para o que fosse (formaram o melhor jogador europeu de sempre e deixaram-no sair por tostões), e o discurso apontava à necessidade de experiência, maturidade e que a formação fosse apenas um complemento. Claro que o Barcelona tratou de desmentir isso mas como tinham um génio absoluto como Messi tudo ficou relativizado. Também não ajudou o facto do Porto, entre a era Mourinho e os anos de Conceição, realmente, não ter tido uma grande formação. Geraram-se grandes expectativas com alguns jogadores pontuais mas nunca nenhum deu verdadeiramente o salto. Havia alguns títulos mas zero impacto no plantel e na própria evolução da carreira de muitos jogadores. Atrás tinham ficado os anos 90, onde havia realmente prata da casa de grande nivel. E apostar quando não há qualidade faz pouco sentido apostar forte, ainda que faz menos ainda ter o plantel recheado de jogadores piores vindos de fora para papeis absolutamente secundários quando a prata da casa podía cumprir perfeitamente essa função. As comissões, já sabemos.
O paradigma começou a mudar nos últimos anos, pouco a pouco. Foi-se trabalhando melhor, desde a base, mas esse trabalho leva o seu tempo. Os que hoje são campeões europeus e nacionais levam cinco, seis anos nessa dinâmica. Havia que esperar. Mas entre essa espera e o agora houve 4 casos singulares que explicam bem o que é a formação do FC Porto e como o clube a vive. E aí é onde se pode entender a gigantesca diferença entre o FC Porto e o Benfica. 
Lá em baixo vendem o Seixal como o novo Alcochete, o centro por excelência da formação mundial e talvez europeia. Foi sem dúvida uma jogada acertada terem contratado muitos dos treinadores e olheiros do Sporting e a qualidade subiu exponencialmente nos últimos anos, é impossível discutir. A formação do Benfica é boa, bastante boa. E vende muito porque estamos em Portugal, um país que fez do Mantorras o Eusébio. O minimo é que tivessem feito do Bernardo Silva o novo Cruyff. Mas tem algo que continua a faltar ao FC Porto, uma ideia de clube. Quer queiramos quer não a estrutura actual do FC Porto não existe. Sobrevive um Politburo soviético na pré-reforma, desfasado do tempo e onde primam os intereses pessoais ao mesmo tempo que se afiam facas. Cada decisão é vista sob essa perspectiva, a quem interessa, como, quanto e porquê. O Clube normalmente tem ficado para último plano com regularidade. No Benfica isso não acontece porque o seu Presidente, como o nosso foi durante décadas, não tem contestação e as suas decisões são a base da política de todo o clube. E é por isso que a formação do Benfica tem sido aproveitada e rentável, porque tudo é feito do primeiro ao último dia para ser assim. São vendas fáceis, sem custos, tê-los na primeira equipa é algo mediaticamente popular com os adeptos e permite criar uma liturgia óbvia de rendição ao mercado para beneficio do clube ("nós não queriamos vender, mas...". Por isso, desde há cinco anos para cá, uma formação pior que a nossa tem tido na primeira equipa mais jogadores (e a experiencia, quando se dá o salto, é FUNDAMENTAL) e portanto gerado mais valias superiores às que possamos gerar. No Porto, nesse periodo, há 4 jogadores que realmente tiveram um impacto minimo da formação, um abismo. Desses 4 um deles – Ruben Neves – tem o 60% dos jogos disputados. E não foi uma aposta do clube, foi uma aposta muito pessoal de um treinador que não teve problemas em fazer com que o jogador saltasse escalões porque tinha esse nivel (olá Fábio!!). E tem-o. Já o provou no campeonato mais exigente do mundo, com um treinador que contribuiu também para a sua desvalorização de mercado perante o olhar sereno de quem manda. Não esquecemos!

O restante 30% dos jogos disputados divide-se por André Silva, Diogo Dalot e Gonçalo Paciência. São 3 casos muito diferentes em si mas que resumen muitas coisas. 
André podia e devia ter ficado um ano mais. Ele era o primeiro a necessitar disso como tem provado a sua lenta evolução no Milan e Sevilla. Promete muito mas custa-lhe dar o salto, essa paciência que faltou num ano mais de etapa formativa na equipa principal do Porto (ele que no ano NES levou o ataque sozinho às costas,lembram-se?). 
Porque foi vendido? Porque uma gestão absolutamente desastrosa do Politburo teve as suas consequências práticas e era uma obrigação da UEFA cumprir com o FFP. Quando um clube é mal gerido, como o FC Porto tem sido, dentro e fora de campo, é o que sucede. Ter jogadores do nivel do André e não os aproveitar por culpa própria é uma pena mas pode passar. O caso Dalot é diferente. Há anos que o Dalot estaba bem referênciado por essa Europa fora, não enganava ninguém. Num clube com uma estrutura sólida dos pés à cabeça, com ideia de clube desde a base, o Dalot teria renovado muito antes do tempo. Quando o dossier chegou às mãos do novo director desportivo, Luis Gonçalves, a sua vontade não bastou, já era tarde. Nestas idades basta um movimiento em falso e tudo se pode perder e foi o que aconteceu (como o Barcelona, quando perdeu Pique e Fabregas para United e Arsenal pelos mesmos motivos, não somos um caso virgem, muito longe disso). O Dalot foi à procura do contrato da vida dele porque durante anos não foi mimado como seria expectável para quem, seguramente, será um lateral de topo europeu na próxima década. O desleixo foi evidente e quando se quis corregir já não havia margem. 
E Gonçalo? Gonçalo não tem perfil para titular do FC Porto, é um jogador muito limitado (no modelo de jogo táctico e na sua fragilidade física) e não vale a pena andar a vender narrativas em que é bom ter 11 titulares da casa se esses não estão à altura. O Gonçalo não está. Mas um plantel tem 23 ou 25 jogadores, o do Porto e o de qualquer outro clube. E as provas da UEFA exigem um minimo de jogadores da casa nos inscritos. E quando há vagas para dois ou três avançados suplentes, convén sempre ver os prós e os contras. Dizer que o Gonçalo não tem nivel de titular Porto não significa que não tenha nivel para ser plantel Porto. Não é inferior nem foi inferior a sua aportação a Adrian Lopez (o último resquicio da entrega do clube nas mãos de Mendes). Muito menos de Waris, uma escolha pessoal de Conceição. Ou de Andrade, outro jogador escolhido a meias entre técnico e estrutura que além de ser um desatre ocupou uma vaga no plantel Champions que podia ter sido de Manafá, por exemplo. Todos esses 3 negócios custaram ao Porto dinheiro, muito mais do necessário e muito mais do que foi recebido em troca. Gonçalo custava 0. Não é pior jogador do que André Pereira (que faz parte dessa política e foi uma escolha pessoal do treinador) e seguramente exemplifica outro dos usos possiveis para a formação. Nunca vai render milhões, não está para ser titular mas pode perfeitamente dar forma ao plantel. E foi repatriado para longe. Sem sentido.

O Benfica vende-se melhor mas também mima mais os seus. O Sporting, no longinquo apogeu da sua formação, vendia-se muito mais do que aproveitava os seus, mas ainda assim as suas grandes pérolas foram somando bastantes minutos. Quando um jogador salta dos juniores ou da equipa B o que precisa é disso. Minutos, confiança, apoio do treinador, paciência dos adeptos. O FC Porto tem tido muita dificuldade nesse processo. O treinador é claramente arisco a apostar na formação. Diz que só responde ao Presidente, o mesmo que diz que há muito jogador a aproveitar. Algo não cuadra. Sabemos que há gente que se move como sombras pela formação à procura da próxima comissão (basta ver o filho-agente ou o homem que se levou parte do negócio Ruben Neves para casa para entender) e talvez isso jogue contra os putos quando quem tem de se decidir por pô-los a jogar ou não é um homem extremamente emocional que sabe que tem inimigos dentro de casa que estão mortinhos por vê-lo sair para continurem a fazer o seu trabalho sujo e a sacar a sua suja recompensa. Sabemos tudo isso. Mas continuamos sem entender porque Fabiano é opção em jogos que podiam ser de Diogo Costa. Porque Diogo Leite desapareceu do mapa, porque Diogo Queirós tem zero minutos com a equipa principal quando está referenciado por olheiros dos maiores clubes da Europa como o futuro De Ligt. Porque nunca houve espaço para o Bruno Costa além dos jogos com o Liverpool ou porque nem mesmo nas Taças (esas obsessões de Conceição) não tivemos a oportunidade de começar a ver as jogadas do Baró ou os golos do Fábio.
 São campeões europeus e nacionais, são jogadores com o ADN da casa e que já mostraram ter o carácter ganador que se procura num futebolista de elite. E são jogadores com talento, é evidente. Não precisam de ser capas de jornais mas precisam que apostem neles. Uns vão ser vendidos por milhões seguramente porque o mercado é o que é e não vale a pena criar ilusões de que os vamos agarrar para todo o sempre. Mas também há outros muitos que poderiam acumular anos no plantel jogando mais ou menos. Quando virem as histórias deste ano futebolistico, muitos vão olhar para o Ajax, semi-finalista da Champions e campeão nacional com jogadores que têm praticamente a sua idade e jogam sem medo porque têm a confiança de quem neles aposta. Ninguém quer um FC Porto com 11 jogadores da casa porque não seria realista mas depois de anos a atravesar o deserto quem pode não querer um 11 – e mais com a hemorragia que o plantel vai sofrer este verão – onde esses putos tenham o seu espaço para crescer de mão dada com os que já estão e com o apoio de todos?

Mais comissões. Mais dinheiro gasto em vão. Mais bolsos cheios de meia dúzia de sanguessugas.
Mais miudos campeões. Mais ADN Porto. Mais negocios futuros de máxima rentabilidade para o Clube e não para quem o rodeia.

Nunca foi tão evidente o dilema e nunca a resposta que o FC Porto der nos próximos tempos vai ser mais exemplificativa de que clube estamos a falar para hoje e para amanhã.    

segunda-feira, 12 de junho de 2017

André Silva, depois de NES outro culpado do buraco nas contas

André Silva abandona o FC Porto pouco mais de um ano e meio como jogador sénior.
É muito triste que um atleta da casa, portista desde pequeno, um dos nossos melhores produtos da formação em décadas seja empurrado para fora do clube sem sequer poder cumprir dois anos completos de Dragão ao peito. No futebol moderno os jogadores detêm cada vez mais poder e quase sempre decidem se, quando e para onde querem ir. André Silva, como Ruben Neves há duas épocas atrás, não queria sair do seu clube mas acabou vitima de uma gestão tão nefasta que agora o FC Porto nem sequer tem independência na gestão das suas contas. Com a UEFA a observar cada gasto, cada receita, acabaram-se os pretextos para elogiar a "estrutura". Um dos cinco clubes com mais ingressos por vendas de jogadores da última década é hoje um clube forçado a vender ao desbarato, um clube com uma multa em cima que se pode ampliar de ano para a ano e um clube limitado na sua gestão económica e desportiva. O André Silva não merecia ter aparecido como profissional neste FC Porto.

Há muitos críticos do avançado do FC Porto, muitos.
Poucos se lembram seguramente da sua aparição estelar no final do ano passado já, daquela final da Taça de Portugal onde parecia o único a remar contra o desânimo colectivo de um final de época penoso a tal ponto que muitos sonharam com a sua convocatória para o Euro 2016 no lugar de Eder. Ainda bem que não aconteceu. No arranque da nova temporada, com um treinador medíocre e um plantel desequilibrado, sem nenhuma alternativa real para a sua posição - Depoitre não o era - durante meio ano coube-lhe a ele, sozinho, alimentar de golos o Dragão. Nunca um jovem tinha sido tão exposto e nunca um jovem respondeu tão bem. André Silva terminou o ano como o maior estreante goleador numa temporada completa vindo da formação desde os dias do "Bibota" Fernando Gomes. Não é brincadeira falar das suas cifras num primeiro ano que o viu também bater o recorde de precocidade de golos com a camisola da selecção batendo o ratio goleador de estrelas históricas como Eusébio ou Cristiano Ronaldo. Está claro que, dentro da sua faixa etária, André Silva é já um dos melhores do mundo na sua posição e que ia ser um dos activos mais apetecíveis no mercado. Marcou na Champions League, mostrando frieza para anotar penaltis determinantes, e só o desgaste físico de meio ano a correr praticamente só e a falta de arrojo táctico de Nuno, que o preteriu sempre a Soares em vez de encontrar uma forma de os fazer coabitar, passando André demasiados jogos perdidos numa posição que nunca foi a sua, fizeram que as suas cifras fossem baixando à medida que se aproximava Maio. Foi um primeiro ano notável a pedir um segundo ano de máxima confirmação. Um ano que André Silva queria disputar de azul e branco. Quem o conhece sabe do seu portismo, da sua adoração pelo clube, por viver na cidade e por partilhar da aventura com vários amigos de formação e de balneário. Silva quer jogar o Mundial de 2018 e sabe também que sair agora é um risco e ficar um ano mais no FC Porto garantia-lhe a titularidade, os minutos e os golos necessários para manter-se na pole position como parceiro de ataque com Cristiano Ronaldo na equipa das Quinas.
Mas André Silva já não vai estar aqui na próxima época e não por vontade própria.

Fernando Gomes, um homem que trocou a cidade do Porto, o Norte e a luta contra o centralismo por mais um tacho na capital, primeiro no governo e depois numa das empresas para onde saltam os políticos desempregados, surgiu na SAD do Porto de para-quedas, provavelmente como consequência dos muitos favores devidos e por dever. Sem nenhuma preparação, talento ou know-how, passou a ser porta-voz da SAD em muitos assuntos. Quase sempre o que diz é um disparate pegado. Há uns dias acusou NES de ser o responsável das sanções da UEFA. Sim, a Estrutura, aquela que defendia que o FC Porto era um clube gerido como nenhum outro, com um plano cuidado e em que o treinador tinha todas as condições para triunfar (não foi o reeleito Presidente que disse que com Hulks, Falcaos, Jacksons qualquer um é campeão?) deixando a parcela de gestão para quem sabia, agora tem a lata de culpar um homem de um buraco financeiro histórico que obrigou a UEFA a intervir e a castigar com mão pesada o Dragão.
NES pode perfeitamente ter pedido ao clube que não vendesse ninguém no último defeso. Que ia fazer? Pedir que lhe tirassem os únicos bons jogadores que tinha? Que tipo de treinador era capaz de dizer algo assim? E desde quando no FC Porto o treinador tem o poder de negar-se a vender ou jogador ou de impor outro? Adriaanse saiu pela porta fora com um título debaixo do braço porque não podia trazer um avançado do seu gosto. Conceição seguramente queria contar com André Silva. Em ambos casos a SAD disse que essa responsabilidade não era sua. Porque não o fez com NES? Ou então, porque mente?
Talvez os números ajudem a entender.
O buraco actual do FC Porto é histórico. O passivo cresce exponencialmente mas, sobretudo, o que cresce são os gastos em comparação com as receitas. O FC Porto paga cada vez salários mais elevados - ter Maxi Pereira e Casillas custa dinheiro, muito dinheiro - compra cada vez mais caro, vende cada vez menos e com menos percentagem de lucro. Tem uma rede de emprestados que roça as quatro dezenas de atletas, a maioria dos quais com salários pagos pelo clube, tem no Porto Canal um gasto fixo sem sentido e continua a pagar comissões, prémios de final de temporada e "outros gastos" (como gostam de eufemismos os amigos da SAD) muito por cima das suas possibilidades. O buraco, que já vem de 2011, atingiu o fundo e obrigou a UEFA a intervir. Há uma multa a pagar que de 700 mil euros pode chegar quase aos dois milhões (é anualmente ajustada ao cumprimento do acordado), três jogadores menos a inscrever na Champions League quando o clube já nem sequer cumpria o critério de formação local e nunca podia chegar aos 25 o que vai prejudicar o trabalho de Conceição, e ainda a necessidade de vender muito e já para evitar ficar suspenso das provas europeias no final do próximo ciclo de três temporadas. A culpa de tudo isso deve ser sem dúvida de NES. Jamais ninguém entenderia que fosse de Antero Henriques, Fernando Gomes ou, pasme-se, de Jorge Nuno Pinto da Costa, três nomes que tinham em mãos gerir a parcela desportiva e económica neste período desastroso em que o aumento do investimento nem sequer foi acompanhado de um só título desportivo. Livre-nos o senhor e as páginas de Facebook de sequer sugerir algo que não seja a cartilha oficial. NES, maldito sejas!



Nesse cenário, o FC Porto que sempre foi um clube vendedor, não tem outro remédio se não dizer aos seus próprios jogadores que dá exactamente igual o que eles queiram, o que o treinador queira ou o que o adepto sonhe. A debandada vai ser geral.  André Silva será o primeiro - e por valor muito abaixo do seu potencial de um mercado inflacionado mas que está condicionado pelo conhecimento geral do buraco nas contas, culpa sua e de NES - mas Conceição sabe que até Agosto o destino do avançado será o mesmo de Brahimi, de Danilo Pereira, de Hector Herrera e provavelmente de Felipe e Miguel Layun estando ainda sobre a mesa o dossier Casillas e o facto do FC Porto não poder pagar a 100% um salário que até agora era, na maioria, suportado pelo Real Madrid. Até Ruben Neves e Corona estão no mercado. Conceição sabe perfeitamente que o seu próximo plantel será composto por jogadores como Marega, Hernani, Soares, André André, Boly, Ricardo Pereira, Rafa Soares, José Sá, Rui Pedro ou Marcano, todos eles futebolistas de grande nível, sem lugar a dúvidas. Se não fosse pelo Dragão e pelo o azul e branco, o técnico poderia até acreditar que tinha regressado ao comando do Vitória de Guimarães ou do Sporting de Braga. A qualidade média do plantel não será muito diferente.
Para um cenário assim contar com elementos diferenciais é fundamental mas o FC Porto de Pinto da Costa já não se pode dar a esses luxos. O cenário é tão dantesco que mesmo a aposta no melhor do que temos na formação agora não garante um ciclo sequer de dois anos. Ruben Neves pode sair e há ofertas pelo imensamente promissor Diogo Dalot que nem sequer a camisola principal vestiu. Os olheiros europeus sabem perfeitamente que é Fernando Fonseca e Rafa também tem mercado. A situação é tão "Sporting" que da mesma forma que o clube de Alvalade teve de vender por tostões a um tal de Cristiano Ronaldo, o FC Porto começa a entrar numa espiral em que por muito boa que seja a sua cantera, ela não vai transformar-se no core de balneário de outros tempos, e o dinheiro das suas vendas a clubes melhor geridos ou com milionários atrás servirá para pagar os desastres de gestão dos últimos anos e os jogadores de comissionistas que vão continuar a entrar. Porque vão continuar a chegar ao clube. Sem qualquer dúvida.

André Silva, no meio disto tudo, foi uma vitima do tempo em que decidiu explodir com a camisola do FC Porto. Há quatro anos atrás talvez a consequência de uma década de gestão acertada no deve e no haver, o clube pudesse bater o pé e guardar para a recordação dos adeptos um ou dois anos mais do jogadores com a camisola do seu clube. Hoje o cenário é impossível. No final do dia, quando os adeptos se perguntam porque é que o FC Porto não ganha, é fácil criar páginas por encomenda para falar dos árbitros e assobiar para o lado. Assobiar para o lado e esconder o buraco financeiro que foi criado desde dentro. Assobiar para o lado e esconder o desmantelamento de uma cultura de balneário que foi propiciada desde dentro. Assobiar para o lado e esconder esta necessidade de vender todos os aneis e algum dedo que foi propiciada por dentro. Nenhum árbitro tem o poder de fazer o rombo nas contas do clube. Nenhum árbitro tem o poder de escorraçar do clube a prata da casa para esconder as misérias da gestão desportiva e económica. Nenhum árbitro tem a força de dizer aos adeptos de um clube tão grande como o FC Porto que têm de voltar a contentar-se com Maregas e Hernanis enquanto André Silva vai andar lá por fora a espalhar portismo e talento. E não vai estar só. Chegará o dia em que, para além dos árbitros - cuja realidade é indesmentível - a alguém se lhe ocorra fazer auto-critica. Pode ser que nesse dia a ponte D. Luis venha abaixo. Afinal de contas, tanto uma coisa como a outra são improváveis.

É fazer as contas


"O André Silva, que na altura valia 25 milhões de euros, neste momento vale 60, porque é a sua cláusula de rescisão, para a qual, se quiséssemos, já o teríamos vendido", esclareceu o presidente do FC Porto - in OJogo (link)

O FC Porto acertou a transferência de André Silva para o Milan, este domingo, e, sabe O JOGO, vai receber 40 milhões de euros pelo passe do jovem jogador - in OJogo (link)

São urgentes saídas no FC Porto, mas não de jogadores.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Soares, a emenda ao "erro Lima"

Em dois jogos "Tiquinho" Soares já demonstrou que é um jogador que vale a pena desfrutar. O seu impacto imediato na equipa, uma equipa a quem faltava uma alternativa goleadora a André Silva desde o arranque da temporada, já valeu seis pontos e excelentes sensações. Depois de meio ano a bom nível a Guimarães nesta ocasião a direcção do clube esteve certeira e decidiu fazer aquilo que podia ter feito e não fez há anos atrás quando a trajectória de um outro avançado brasileiro soava familiar. Chamava-se Lima.

Lima despontou no Belenenses, em 2009. Rapidamente se percebeu que era um avançado com várias qualidades, faro de golo, velocidade e bom sentido posicional. Em Belém - depois de cinco anos de idas e voltas pelo futebol brasileiro e uma passagem curta pelo Vizela - causou um impacto imediato e transformou-se numa das pérolas do mercado local. Na altura o FC Porto deixou-se adormecer e o jogador acabou por assinar pelo Braga onde, em dois anos, confirmou todo o seu potencial permitindo aos arsenalistas viver as suas melhores épocas, com um vice-campeonato e uma final europeia pelo meio. Quando em 2012 surgiu o Benfica em equação, as boas relações entre os dois clubes - algum dia alguém explicará aos adeptos do Porto porque é que o clube dá tanto e recebe tão pouco a António Salvador - fizeram o resto e Lima tornou-se figura fundamental nos títulos conquistados por Jorge Jesus nas temporadas seguintes. Todos os adeptos do Porto se lembram perfeitamente a cada projecto de avançado falhado - nesse período pós-2011, com a saída de Radamel Falcao, o clube teve apenas em Jackson Martinez um goleador de nível - do nome do brasileiro. E o que podia ter sido um negócio de tostões na primeira temporada de Lima em Portugal (o Belenenses foi despromovido) ou um investimento controlado no final da sua primeira temporada em Braga (que coincidiu com a saída do "Tigre" e a entrada de Kleber para um ataque que acabou entregue a Hulk) acabou por ser uma dor de cabeça em forma de títulos para o rival. Soares ameaçava ser um take II da mesma história. Felizmente Pinto da Costa e a sua equipa anteciparam-se e bem.



"Tiquinho" não é necessariamente um jogador como Lima mas o impacto que tem causado evidencia bem o quão esquecido ás vezes é o mercado nacional num clube sempre habituado a virar-se para a América Latina á procura de negócios. A sua história tem tudo para funcionar. É um jogador com ética de trabalho evidente, que não só dá golos á equipa como trabalha para o colectivo. Tem um perfil complementar ao de André Silva e portanto não se atrapalham - como sucedia com Depoitre - e sim encontram formas diferentes de atacar o espaço e a jogada como o golo em Guimarães demonstrou.
Até à sua chegada a opção de Diogo Jota oferecia um perfil totalmente distinto com um jogador mais tecnicamente vistoso mas menos killer que podia ajudar André Silva mas que raramente o substituía como ameaça goleadora. Com Soares esse cenário mudou e não é de estranhar que depois de meia época nas pernas agora o jovem avançado da formação seja regularmente substituído à hora de jogo. NES pode finalmente prescindir de um futebolista na sua primeira época sénior completa e que, portanto, não tem ainda a capacidade física para aguentar um ano completo sem ser dosificado, fisica e mentalmente. Até nisso Soares é o reforço perfeito. Não só marca, luta e descoloca o rival como potencia André Silva e permite-lhe também ter os seus dias maus. Ninguém se esquece que a sequência de jogos sem vitórias e golos se deveram e muito á falta de acerto de Silva nesses encontros a tal ponto que até teve de ser Rui Pedro a salvar a honra frente ao Braga, numa noite épica, e Depoitre a marcar o único golo do ano num encontro angustiante contra o Chaves, ambos em casa.
Ter um futebolista do perfil de Soares permite encarar a segunda volta e esses momentos de outra forma. Não significa que marcará sempre, que a taxa de eficácia seja tão alta mas garante sim opções, tanto em campo como fora dele. Com Tiquinho á disposição NES poderá jogar cada vez mais entre o 4-2-3-1 que tinha vindo a utilizar com Jota como eixo de conexão como o meio-campo como com um claro 4-4-2 em que Soares e André se movem em parceria no ataque desde o arranque do encontro para potenciar o modelo de jogo do técnico, mais defensivo e apostado no trabalho de contenção do meio-campo e na amplitude ofensiva dos laterais. Com Brahimi como único elemento criativo fixo, o jogo de Telles e Maxi revela-se fundamental na construção ofensiva, e ter duas referências na área ajuda a potenciar esse modelo muito mais do que quando André Silva era engolido pelos centrais contrários.

Lembrando Artur e Derlei, outros jogadores brasileiros que partiram de um clube menor para brilhar no Porto nas últimas décadas - ainda com perfis radicalmente diferentes, o primeiro por ser um nome consagrado no Boavista e o segundo por chegar como petição expressa de Mourinho - Soares tem tudo para revelar-se uma figura extremamente importante neste suspiro final de campeonato. Mistura em campo de Hulk, Derlei e Lima, Soares é o perfil de futebolista ofensivo que habitualmente encaixa com a exigência dos adeptos portistas e talvez por isso, mais do que pelos três golos em dois jogos, deixa a ideia que os 3,5 milhões de euros pagos ao Vitória - uma cifra importante para o mercado nacional - poderão num futuro não muito distante, soar a bagatela. Não é uma jovem promessa - tem 26 anos - nem sequer um jogador que vá demonstrar ser muito mais do que aquilo que já é. A questão é precisamente essa. O Porto precisava de um perfil assim para complementar um plantel que tem recursos para lutar pelo título até ao fim. E agora que o tem o ponto de atraso contra o Benfica parece cada vez mais pequeno. Se em Maio esse ponto tiver sido engolido e cuspido com os seus golos, Deco - o agente - e o staff de Pinto da Costa merecerá um aplauso sonoro. Soares pode fazer pelo Porto este ano o que Lima e Jonas fizeram pelo Benfica no passado. Sem serem estrelas ou foras de série, acabarem por ser decisivos. Acabarem por valer um título!

domingo, 12 de fevereiro de 2017

À primeira



Ainda até há pouco tempo, os nossos adversários facturavam na primeira (e muitas vezes única) vez que se aproximavam da nossa área, agora, e pelo menos nestes últimos dois jogos, sucede quase o oposto.

Até à entrada Jota (ao minuto 74, note-se), o FCP não tinha ido mais do que 2 ou 3 vezes à grande área adversária. Aliás, quase se poderia dizer que Soares marcou na única oportunidade real do FCP até à entrada do jovem português em campo.

Com alguma ironia, poder-se-ia afirmar que o grande mérito do FCP nesta vitória deu-se antes sequer do pontapé de saída, ao conseguir "desfalcar" os vitorianos dos seus melhores jogadores (Hernâni, Marega, e claro, Soares). Ter Tiquinho do nosso lado, foi de facto uma grande ajuda. O ex-Guimarães foi, mais uma vez, decisivo e terá sido o melhor jogador em campo.
Verdade se diga que a maioria dos seus novos companheiros realizou uma exibição cinzenta, num jogo pobre de ambos os lados.
Para além do nosso mais recente reforço, apenas os "centrais"e Danilo estiveram num plano aceitável.
O caso mais agudo teria sido mesmo André Silva que passou completamente ao lado desta partida.

No fundo, um jogo com muito pouco para contar, ao contrário daquilo que era de prever.
Mas de jogos com pouca história também se faz a corrida para o título.

Seis pontos em dois jogos que se anteviam de grau de dificuldade elevado (scp e Guimarães), não pode senão ser considerado algo de positivo.
Pena que o slb tenha tido, neste mesmo calendário, dois jogos extremamente fáceis.

A verdadeira luta entre os dois continua já dentro de momentos...

sábado, 29 de outubro de 2016

Pinto da Costa e a hora certa para André Silva

Pinto da Costa ao lado de Julen Lopetegui (foto: Rui Silva / ASpress/Global Imagens)

«O presidente do FC Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa, considerou que André Silva deveria ter entrado na equipa principal dos 'dragões' mais cedo, e que tal só não aconteceu por causa das decisões 'técnicas' de Julen Lopetegui.
O André foi formado no FC Porto, treinava-se muitas vezes com os seniores, e na época passada fez vários jogos pela equipa principal. Penso que foi mal aproveitado, devia ter sido lançado mais cedo. São opções técnicas nas quais não interfiro, mas não me surpreende absolutamente nada”»


O mesmo Pinto da Costa, 10 meses antes…

«O dirigente desvalorizou ainda os assobios do público a Lopetegui pelo facto de ter o jovem ponta de lança André Silva a aquecer e, à última, não entrar, recordando que o podem ver em ação no campo do Pedroso, em Vila Nova de Gaia, onde costuma alinhar pela equipa B, que lidera isolada a II Liga.
Tenho esperança em mais um jovem formado no clube e que vai atingir a equipa principal, mas quando for a hora certa, estiver preparado e o treinador entender que é o momento, não porque o público assobia ou deixa de assobiar”»


Sem comentários.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A brutal ascensão de André Silva

André Silva.
Neste marasmo absoluto de meses de competição, com uma equipa que joga como clube pequeno contra grandes e anões do futebol nacional e internacional, poucas noticias positivas há a celebrar. O defeso foi um desastre, os dois meses de pré-época a trabalhar em 4-3-3 foram atirados ao ar por um 4-4-2 que parte da premissa de que "primeiro não perdemos e depois já vemos se ganhamos" tão fiel ao espirito do seu treinador e salvo as aparições positivas de Otávio e Diogo Jota e as boas sensações, um ano mais, de Danilo e Layun, pouco há que acrescentar a um plantel que dista muito do nível de exigência de um FC Porto. Mas depois há André Silva.

O avançado portuense leva sete golos e três assistências em treze jogos. Não são números de Mário Jardel mas não estão demasiado longe. São apenas dois meses completos de competição (obviando os quatro golos em três jogos que já tem como internacional A) e aos 20 anos, André é já um dos avançados mais determinantes no futebol nacional, um seguro de vida para um clube que decidiu que depois de deixar sair Aboubakar a solução era contratar Depoitre caso André não estivesse a um nível que, francamente, não era supor estar. Estamos a falar do primeiro ano de sénior de um avançado que na época passada apenas começou a contar - e pouco - na segunda metade da época. Lopetegui foi assobiado por não o colocar em campo (blasfémia, e mais para quem não tinha tido medo com Ruben Neves e vinha dos escalões de formação) e Peseiro nunca soube muito bem o que fazer com ele. A brilhante exibição no Jamor, repleta de garra e magia levou-o inclusive a entrar na lista de muitos para o Europeu de França no lugar de Éder. Felizmente Fernando Santos manteve-se fiel a si mesmo. Felizmente para Éder, para Portugal e para o FC Porto que, provavelmente, teria ficado sem o avançado no defeso e hoje estaria a lutar com os Depoitres que por cá aterram. Obviando a lenga-lenga para dormir de que o clube podia ter vendido o avançado se quisesse - claro que sim - e que esse cenário não esteja demasiado distante num futuro próximo face ao estado desastroso das finanças desta gestão, o certo é que é dificil olhar para os números e para os jogos e esquecer-se que André está apenas a dar os primeiros passos. No entanto a sua frieza - o penalti em Bruges foi apenas mais um golpe de autoridade moral - e a sua progressão convidam a sonhar alto. Tem ainda muitos defeitos, sobretudo na recepção e controlo orientado, no jogo ao primeiro toque e no futebol de apoio. É um avançado de presença na área e de progressão vertical á base da potência, não da técnica. Sem os primeiros, dificilmente triunfará na elite mundial mas com vinte anos está muito bem a tempo de limar essas arestas no seu jogo. O que está claro - e que muitos pareciam duvidar no ano passado - é que André tem golo. Tem faro de golo, tem apetite de golo e tem tido a capacidade de desbloquear encontros graças aos seus golos, algo de que o Porto carecia profundamente.



Convém, sobretudo, ao pensar nestes dois primeiros meses de André Silva como titular indiscutível do ataque dos Dragões pensar no que fizeram os outros avançados que saltaram da formação á primeira equipa no passado. Ajuda a ter uma perspectiva real do seu crescimento.
Pensemos, por exemplo, em Hélder Postiga, lançado por Octávio Machado em 2001-02, que disputou um total de 41 jogos em todo o ano anotando 13 golos, nove deles na Liga (praticamente os mesmos que André tem em Outubro, cinco) e dois em Champions (os mesmos que tem André, contando em ambos casos a fase preliminar).
Pensemos, por exemplo, em Hugo Almeida, que em 2003-04 passa a contar finalmente para a primeira equipa depois de marcar, inclusive, na inauguração do Dragão, é emprestado em Janeiro porque nos sete jogos oficiais disputados não marca um só golo, um cenário que repetiria no ano seguinte, sendo que só em 2005/06 consegue o seu primeiro golo como profissional.
Pensemos, por exemplo, em Domingos Paciência, que em 1987/88, ano de todos os títulos menos a Taça dos Campeões Europeus - e portanto, ano de super-equipa - jogou doze jogos oficiais e marcou um só golo. No ano seguinte anotou seis em trinta e três e para superar a cifra que André Silva já tem esta época é preciso esperar á 1990/91, quando marca 31 golos em 44 jogos naquele que foi o seu quarto ano de profissional, tendo já 22 no Bilhete de Identidade.
E claro, pensemos no mito Fernando Gomes, que tal como André Silva se estreou na primeira equipa numa época de profunda crise desportiva, no ano 1975/75 marcou 18 golos na sua primeira temporada como profissional em vinte e oito jogos que disputou em todas as competições. Uma cifra quase triplica a de André com dois meses de competição mas que está perfeitamente ao seu alcance - faltam mais de seis meses para terminar o ano desportivo - e que explica bem, em perspectiva, onde pode chegar o jovem avançado. Aos pés do Bibota, nem mais nem menos.

André Silva não precisa de maior pressão. Já a tem toda. É o nove titular do FC Porto. E no entanto, com 20 anos e toda essa pressão - mais sendo consciente, porque seguramente o é, que a equipa depende dele para marcar porque Adrian e Depoitre não serão nunca alternativas lógicas - André tem sabido responder bem ás expectativas o que demonstra não só espirito goleador como alma de guerreiro. No meio de tanto cinzentismo, a sua brutal ascensão é a grande notícia que nos alegra o corpo e alma de dragões.

sábado, 14 de maio de 2016

Vitória no jogo experimental


Um horário pouco conveniente para os sócios que trabalham ao Sábado de manhã. Já entendi que era uma experiência, que ambos os clubes se demonstraram disponíveis para o horário proposto e que este é essencialmente para atender à "internacionalização" e aos "mercados asiáticos". Li as declarações prestadas pelo presidente da Liga explicando que estes horários já são praticados na II Liga e na Liga Espanhola com muito sucesso. Mesmo assim não fiquei convencido. Nunca vi o Barcelona ou o Real Madrid jogarem de manhã... Pelo menos que marquem esses jogos da manhã aos Domingos!

A primeira parte acabou por ser uma boa ilustração daquilo que foi esta época. Uma equipa sem alma e sem garra. Os jogadores boavisteiros foram sempre mais rápidos e ganharam quase todas as bolas divididas. A equipa foi incapaz de realizar uma jogada decente com princípio, meio e fim.

Na segunda parte, em função das substituições, o jogo foi completamente diferente. Danilo ficou a descansar para a final da Taça, mas ficou Layún que marcou um golaço com um remate à entrada da área, após boa assistência de André Silva. Com 2-0 o jogo ficou resolvido e com mais meia hora para jogar.
Agora que o FC Porto já não sai do 3º lugar, curiosamente, os árbitros já marcam os penalties a nosso favor. Dois penalties marcados em duas jornadas consecutivas: que estranho. Brahimi agarrou na bola para marcar a penalidade e fez o 3-0 mas os sócios ficaram zangados porque pediam André Silva.

Mas o André não descansou e continuou a trabalhar conseguindo, em cima da hora, marcar o quarto golo do FC Porto. Isolou-se a passe de Brahimi, contornou o guarda-redes e rematou para a baliza já de ângulo difícil. Um golo merecidíssimo.

"Não foi um golo qualquer. Foi um dos mais festejados dos últimos tempos no Dragão. Uma comunhão entre adeptos e a equipa como há muito não se via. É importante para marcar a despedida de um estádio que viveu uma época traumatizante, e para renovar o espírito dos adeptos"
in Maisfutebol

Falta a final da Taça para acabar esta época que não deixará saudades. Esperamos que Peseiro saiba montar uma equipa capaz de trazer o troféu.
   

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Uma forma desastrada de queimar promessas

Lopetegui sabe perfeitamente como funciona o futebol de formação. Sabe, provavelmente, mais do que a maioria. Não só treinou o Castilla - a equipa B do Real Madrid - como teve excelentes resultados nos Europeus sub21 com Espanha (pior no caso dos Mundiais sub20). Quando foi anunciado como treinador do FC Porto uma das grandes expectativas que gerou foi a forma como podia dar impulso à estancada formação do clube que parecia gerar bons jogadores à etapa junior que, por um motivo ou outro, falhavam em dar o salto para a elite.

Passou-se exactamente o contrario. Ruben Neves foi uma excelente surpresa – para todos – mas uma andorinha não fez a Primavera e depois dele…o vazio. Gonçalo teve alguns minutos, quase sempre irrelevantes. Á defesa (Lichnovsky, Rafa e Victor Garcia) e ao meio-campo (Francisco Ramos, Podstwaski, Mikel, entretanto recuperado, ou Ivo Rodrigues) o tratamento foi de ignorância absoluta e André Silva passou por um largo purgatorio que mais teve a ver com questões de contratos do que com temas desportivos. Lopetegui não deu na primeira época o passo esperado e isso foi uma desilusão mas também se pensou, talvez com propriedade, que no seu primeiro ano a treinar um clube a sério, o treinador preferira apostar em jogadores mais curtidos. Deixamos as expectativas para o segundo ano mas uma vez mais, já com meia época decorrida, o cenário é similar. Até agora salvo por André Silva, ninguém da equipa B tinha sido chamado a jogar com os A. Nem sequer a brilhante carreira dos B na II Liga, lideres indiscutiveis e de longe a melhor das formações em prova, parece ser suficiente.

Chega então a Taça da Liga, a oportunidade ideal para começar a introduzir os melhores da B junto com os jogadores da A. Lopetegui realmente premiou dois desses jogadores mas fê-lo num contexto completamente despropositado. Alex Ferguson, que de lançar putos entende alguma coisa, seguramente mais do que Lopetegui, sempre disse que era importante, quando se sobe um jogador dos juniores aos A, garantir que este se integre numa equipa estável e com rotinas. Ele já tem trabalho suficiente para ocupar-se do seu lugar como para ter de se preocupar que os colegas ao lado ou á frente nunca tenham jogado juntos. Ferguson defendia - e colocou isso em prática á medida que lançava os Giggs, Beckhams, Scholes, Nevilles e afins - que os jovens deviam ser lançados um por um junto com o onze mais forte em jogos que a equipa pudesse impor o seu estilo para habituá-lo ao cenário que ia encontrar. Nem lançá-los contra rivais claramente inferiores (que poderia sobrevalorizar essa experiência e dar sensações erradas sobre o seu real valor), nem excessivamente complicados (com a pressão inerente a esse tipo de duelos). E sobretudo nunca num onze sem rotinas onde será impossível avaliar até que ponto trabalhou bem no contexto ideal.
Que fez então Lopetegui?

No primeiro jogo a titular de Victor Garcia e de André Silva este ano, o treinador mudou dez jogadores do onze habitual. Mudou absolutamente tudo. Victor Garcia jogou ao lado de uma dupla de centrais que não é a habitual (ainda que tenha experiência) e com um meio-campo com quem associar-se nas subidas que nunca tinha jogado ao mesmo tempo (o que se notou claramente nos apoios). André Silva não sabia com quem conectar-se porque quem jogava atrás dele e pelos flancos estava a conhecer-se ao mesmo tempo que o onze do Maritimo, na máxima força, trazia a lição bem estudada. O resultado é conhecido de todos mas o mais grave é que não se pode sacar nenhuma conclusão da sua introdução ao futebol sénior do clube. Na evidente ausência de rotinas colectivas, como avaliar a prestação de dois jogadores que foram enfiados num onze inédito e pouco ou nada preparado? Como se pode entender isso como integração na primeira equipa quando o ambiente dentro do relvado era totalmente alheio aos jogadores que já pertencem ao plantel principal, quanto mais a dois miudos que queriam dar o tudo por tudo para impressionar?

Está claro que a gestão de uma selecção - com os seus timings, a necessidade de contar sempre com jogadores diferentes por questões de suspensões e lesões - e a de clubes é muito diferente e que Lopetegui, do segundo, entende muito pouco. A necessidade de um onze estável com três ou quatro variáveis é algo que o treinador do FC Porto ainda não assimilou totalmente desde que chegou ao Dragão. O problema está quando as suas próprias dúvidas lhe obrigam a tomar decisões técnicas que prejudicam o futuro de jogadores que podem dar muito ao clube.
Não teria Victor realizado um jogo melhor (ele quem nem foi dos piores) se tivesse ao lado a serenidade de contar com a defesa e o interior direito que são titulares?
André não saberia melhor entender os movimentos dos extremos e interiores habitualmente rotinados nas transições?
E quando chegue a altura de Rafa, de Ramos e companhia, vai-se repetir a experiência?

Porque se for para replicar o universo Porto B com algumas reservas, de nada vale acumular jogos na primeira equipa a esses jogadores. Serão experiências vazias de sentido. Lançar jovens na primeira equipa devia ser uma missão de qualquer treinador do FC Porto especialmente quando há evidentes sinais de que a qualidade e o carácter estão lá para serem aproveitados. Se para Lopetegui isso significa misturar meia duzia de suplentes habituais, um par de titulares e um par de miudos, então temos um problema porque o que estes vão aprender da experiencia será praticamente nulo. E ficamos todos a perder.

domingo, 20 de setembro de 2015

Entrada criminosa na Tapadinha

Entrada inqualificável de Duarte Machado sobre André Silva

Aos 74' do Atlético x FCP B de hoje (vitória dos dragões por 2-3), disputado no estádio da Tapadinha, André Silva foi vitima de uma entrada inqualificável, que a imagem anterior ilustra de forma arrepiante.

O autor desta entrada brutal à perna/tornozelo do jovem avançado do FC Porto e da selecção nacional de sub-21, uma entrada indigna de um profissional de futebol, chama-se Duarte Machado e é jogador do Atlético CP.

André Silva a ser retirado de maca (foto: record.pt)

Segundo o site Maisfutebol, "o avançado do FC Porto foi transportado para o hospital ainda com o jogo a decorrer".

Ainda não se sabe o grau de gravidade da lesão de André Silva mas, num caso destes, espero que a administração da FC Porto SAD vá até às últimas consequências.
Sim, porque depois desta entrada arrepiante, deste autêntico crime de lesa futebol, o "profissional" Duarte Machado não pode sair disto a rir-se e apenas com um cartão amarelo.

Se quem morde os adversários fica meses sem jogar, o que deve acontecer a um individuo que tem uma entrada destas, a qual, inclusivamente, pode colocar em risco a carreira auspiciosa de um jovem profissional?


P.S. «Um primeiro diagnóstico, feito ainda em Lisboa, sob reserva, aponta para suspeitas de uma lesão grave, segundo apurou o Maisfutebol»

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Queimar etapas

A propósito de elogios recentes a André Silva (e Ruben Neves), vi a seguinte afirmação de um adepto do FCP;

"Nada de cair em euforias e queimar patamares de evolução bem necessários a um jogador de futebol."

Quantas vezes não vimos este tipo de afirmação para justificar empréstimos de «prata da casa»? É de facto muito frequente, já se tornando um cliché.

Ora o que acho engracado é que quando o FCP contrata um estrangeiro de 18, 19 - a idade de André Silva - ou 20 anos para o plantel A nunca se vê gente a torcer o nariz dizendo que se estão a «queimar etapas». Pelos vistos «queimámos etapas» quando incorporámos um Fucile, um Reyes, um Alex Sandro, um Anderson, um James, um Pepe, um Oliver, etc etc etc. 

Parece-me pois que muitos adeptos (e, suspeito, muita gente na Direção da SAD) usam 2 pesos e 2 medidas neste assunto - e isto independentemente de eu achar que o jogador X ou Y deve ou não ficar no plantel A.

Sem dúvidas que o Ruben Neves (para dar um exemplo, e este até era 2 anos mais novo qdo entrou no plantel no ano passado do q o André é agora) teria evoluido muito mais se tivesse passado mais um ano nos juniores, depois 2 anos a «pastar» na B seguido de 2 anos emprestado a um Moreirense e depois mais 1 ano emprestado a uma Académica (e quem sabe depois mais outro ao Estoril)... Claro.

Aí sim, ia estar no «ponto» ao chegar ao plantel A do FCP aos 21 ou 22 anos (quer dizer... se algum dia chegasse, o que duvido muito. Se se perdesse pelo caminho - devido a mau acompanhamento, ou equipa sem condições, etc etc - a conclusão seria logo; «estão a ver, não serve para o FCP»). Há que processar as «etapas» todas, carago!

Pois bem, o que eu acho em geral?

Antes de mais nada como já disse, acho que muita gente usa dois pesos e duas medidas. O argumento da idade ou serve para todos ou não serve para ninguém. Ponto.

Acho também, para dar uma Lapalissada, que o mais importante é a qualidade do jogador. Tenha ele 17, 20 ou 33 anos.

Acho ainda que se alguém saído dos escalões tem qualidade q.b. para fazer parte do plantel (e potencial para melhorar, o que quase todos têm) - i.e. nem que seja para ser 2a ou 3a escolha, não precisa de ser fora-de-série da mesma forma que ninguém exige a todos os estrangeiros contratados que sejam foras-de-série e venham para ser titular - em princípio é para ficar no plantel.

Acho também que quando temos casos desses não ajuda ninguém - nem o jogador, nem o clube - que se vá gastar muito dinheiro em mais 2 ou 3 jogadores para a mesma posição, tapando completamente o tal jogador da casa. Quer dizer... quando digo «ninguém» minto: é capaz de ajudar os intermediários nas transferências, já que ninguém recebe comissão quando se aproveita alguém da formação.

E finalmente, também acho que um jogador saído dos escalões não deve ficar mais do que 2 anos a fio no plantel A jogando muito poucos minutos (mas um ou dois, porque não). Nesses casos deve ser de facto emprestado - ou vendido.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Mais A’s do que B’s

O JOGO, 18-09-2014

«A precisar de pontos para respirar melhor, o FC Porto B reforçou-se a sério para vencer o Oriental…»

Foi desta maneira, que o jornalista Carlos Gouveia iniciou a crónica do FC Porto B x Oriental (1-0), publicada no jornal O JOGO de 18 de Setembro.

De facto, o onze inicial escalado por Luís Castro, incluía seis jogadores do plantel principal: Ricardo (GR), Opare, Reyes, Campaña, Otávio e Kelvin.

De fora ficaram, entre outros, Kadú, Rafa, Tomás Podstawski, Victor Garcia, André Silva e Gonçalo Paciência (lesionado).

Chamo à atenção para o seguinte: dos cinco jogadores do FC Porto (André Silva, Francisco Ramos, Ivo Rodrigues, Rafa e Tomás Podstawski) que, em Julho passado, se sagraram vice-campeões europeus, apenas Ivo fez parte do onze inicial frente ao Oriental.

Deste conjunto de factos, podem-se tirar várias ilações. Uma das mais óbvias é que, para a estrutura técnica do FC Porto, estes jogadores ainda não têm a estaleca necessária para, nos momentos difíceis, serem titulares da… equipa B. E, por isso, o trajecto para poderem ser opções para a equipa principal ainda será necessariamente longo.

Na época passada, o FC Porto B projectou Tozé e Pedro Moreira, os quais, após dois anos a jogar na II Liga, concluíram o seu trajecto na equipa B e saíram para clubes da I Liga (Estoril e Rio Ave).

Veremos o que vai acontecer esta época.