II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa
IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense
V. Deus deu o campeonato à melhor equipa
VI. Um Gama avermelhado na baliza da CUF
VII. Treinador do FC Porto comprometido com o SLB
VIII. Jornalistas de ‘A Bola’ lamentam título ganho pelo FC Porto
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IX. Atraso inicial, penalties e descontos
Guilhermino Rodrigues, Mundo Desportivo, 23/03/1959
No Benfica x CUF os encarnados beneficiaram de três penalties (!) e mesmo os jornais de Lisboa, claramente afectos ao SLB, não têm dúvidas que o 2º penálti foi uma invenção do árbitro.
in Record
Alfredo Farinha (esse mesmo), escreveu o seguinte em ‘A Bola’: «Quanto aos penalties, não temos dúvida de que o primeiro e o terceiro existiram de facto; dúvidas temos, porém, quanto ao segundo, pois Cavém, ao que se nos afigurou, não foi derrubado por um adversário, antes foi ele próprio que se descontrolou e desequilibrou.»
Acerca do árbitro e das grandes penalidades, o treinador da CUF, Cândido Tavares (antigo guarda-redes do Benfica), diria no fim do jogo:
“Árbitro??... Não houve árbitro!... Só estranho que o senhor Calabote não tivesse arranjado uma quarta grande penalidade, nos últimos minutos”.
«Recorda-se a [celeuma] de 1959, quando os portistas, em Torres Vedras, tiveram de esperar largo tempo que, na Luz, chegasse ao fim um Benfica-Cuf cheio de penalties e… de minutos».
Outro jornalista de ‘A Bola’, Homero Serpa (pai do actual director, Vítor Serpa), escreveria:
«O árbitro era o Calabote – houve erros inaceitáveis na Luz, com uma sucessão de golos incríveis. O guarda-redes era o Gama, que seria substituído. Os jogadores do FC Porto ficaram no campo à espera que acabassem os golos na Luz».
Estes comentários de elementos históricos de ‘A Bola’, absolutamente insuspeitos de qualquer pingo de simpatia pelo FC Porto, são ilustrativos das anormalidades que se verificaram naquele Benfica x CUF.
De facto, para além dos três penalties, que foram muito contestados pelos jogadores e treinador da CUF, o desafio ficou também marcado pelo enorme desfasamento horário em relação ao jogo de Torres Vedras.
«Um golo marcado no último minuto por Teixeira valeu o Campeonato. Na Luz, por artes e manhas do pouco inocente Calabote, jogaram-se mais 12 minutos, mas em vão...»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA
Vírgilio, jogador do FC Porto, afirmou o seguinte ao Jornal de Notícias:“Pensava em ganhar, mas nunca julguei que custasse tanto. E já agora, um segredo: quando soube que o Benfica entrara em campo mais tarde 10 minutos para saber do nosso resultado, confesso que desanimei e julguei tudo perdido! Sabe o que nos valeu? Termos marcado muito tarde o segundo e terceiro golos!”
Relativamente a tudo o que se passou durante o jogo, importa salientar que não havia transmissões televisivas que ajudassem a escrutinar as decisões dos árbitros. Havia, isso sim, os relatos que a Emissora Nacional transmitia e as crónicas dos jornais publicadas nos dias seguintes.
Dr. Coelho da Fonseca, presidente da Comissão Central de Árbitros
Ignorando o relato da Emissora Nacional e agarrando-se às crónicas de alguns jornais, nomeadamente de ‘A Bola’ e do ‘Record’, há benfiquistas que alegam que o Calabote “só” deu quatro minutos de descontos, dizendo que a restante diferença entre o final dos dois jogos – 12 minutos! – se deve ao propositado atraso da entrada da equipa do SLB em campo, de forma a poderem beneficiar do conhecimento do resultado em Torres Vedras.
Neste raciocínio está implicito que o árbitro do jogo Torreense x FC Porto não deu nem um minuto de descontos (o que, neste contexto, também importa destacar).
Convém também salientar que ao contrário do que se passa agora, em que é habitual haver jogos com 3 ou 4 minutos de descontos (devido às instruções que os árbitros têm da FIFA), na altura isso era muito raro. Havia apenas uma substituição, não havia cartões amarelos e o guarda-redes podia passear com a bola na grande área, batendo-a no chão as vezes que entendesse. Tudo isto não era motivo para prolongar um jogo de futebol.
Para se ter uma ideia da polémica que os descontos causavam, em 1959 ainda se falava de um caso ocorrido três anos antes, em Fevereiro de 1956, num Lusitano de Évora x SLB da 18ª jornada da época 1955/56. Nesse desafio, o árbitro Jacques Matias permitiu que Ângelo marcasse o golo da vitória dos encarnados dois minutos para além da hora, ignorando por completo os sinais do seu fiscal de linha a indicar-lhe o final do tempo. Os benfiquistas marcaram e, então, sim, o árbitro de Setúbal deu o jogo por findo...
Mas voltando ao Benfica x CUF, para além dos 4 ou 5 minutos de descontos algo, repito, verdadeiramente excepcional para a época, o facto de haver benfiquistas que desvalorizam o atraso da entrada da sua equipa no relvado, feito de forma deliberada para daí tirar uma vantagem ilegítima (os regulamentos eram claros e diziam que os jogos tinham de começar à mesma hora), mostra a forma “ética”, “limpa” e “desportiva” como encaram o futebol. E depois ainda vêm falar dos outros...
(continua: As mentiras e irradiação de Calabote)
Fontes:
[1] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008
[2] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[3] ‘Carta de Adriano Lima a Rui Moreira’, dragaodoente.blogspot.com, 2008
Fotos: fpf.pt
