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quinta-feira, 10 de abril de 2014

O jogo durou 3:40

Antes do jogo começar, já se sabia que não era fácil jogar no Sanchez Pizjuán (há 15 dias atrás o Real Madrid perdeu lá por 2-1 e perdeu também a liderança da Liga espanhola); já se sabia que Jackson e, principalmente, Fernando não podiam jogar; e já se sabia que um dos trunfos do FC Porto era estar em vantagem na eliminatória (1-0) e, por isso, poder jogar com o relógio, bem como, com a ansiedade e adiantamento dos jogadores da equipa andaluza.

Mas o jogo durou apenas 3 minutos e 40 segundos, porque o senhor Gianluca Rocchi assim o determinou.

1:13 – Herrera recupera a bola no meio campo portista e parte num rápido contra-ataque, causando o pânico na defesa sevilhana que, in extremis, consegue interceptar um passe à entrada da área.

2:18 – Após recuperação de Carlos Eduardo, Varela parte em rápido contra-ataque, mas é agarrado e puxado por trás por Mbia. Quando se esperava que o árbitro mostrasse o cartão amarelo ao possante médio defensivo do Sevilha, o qual ficaria condicionado para o resto do desafio, nada!

Sevilha x FC Porto

3:40 – Vitolo (partindo de posição irregular) cruza da direita, Bacca antecipa-se e, depois de passar por Danilo, estica a perna esquerda para trás e mergulha para o relvado. O árbitro, em vez de mostrar um cartão amarelo a Bacca, por evidente e ostensiva simulação, decide assinalar penalty contra o FC Porto.

Para mim, o Sevilha x FC Porto acabou aqui, aos 3:40 (estou farto destas arbitragens).

O resto, os restantes 86 minutos, foram outra coisa, quer na cabeça dos treinadores, quer no estado de espírito dos jogadores de ambas as equipas. Do lado do FC Porto, os "cacos" que Luís Castro anda a tentar colar, desde que assumiu o lugar que era de Paulo Fonseca, nunca mais foram uma Equipa.

P.S.1 O 3º golo do Sevilha nasce de uma falta inexistente de Mangala, em que, ainda por cima, viu um cartão amarelo que o condicionou para o resto do jogo (e, se o FC Porto tivesse seguido em frente na Liga Europa, o impediria de jogar o 1º jogo das meias-finais).

P.S.2 Não sei se Fernando já está vendido (o seu empresário dá a sua saída, no final desta época, como certa) mas, num jogo a sério e de grau de dificuldade elevado, viu-se o que é esta equipazinha e, particularmente o meio-campo portista, sem o "Polvo". Algo para os responsáveis da FC Porto SAD meditarem.

P.S.3 No meio de tanta mediocridade, Quaresma voltou a ser um oásis de qualidade. Foi dos pés dele que saíram as melhores oportunidades do FC Porto e foi ele que marcou o único golo (e que golo!) dos dragões. Se Quaresma não fizer parte dos 23 seleccionados por Paulo Bento para o Mundial do Brasil, será um crime de lesa futebol.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O sorriso amarelo de Bacca

Carlos Bacca versus Jackson Martínez (fonte: ViveFutbol)

Jackson e eu falámos e ele está aborrecido por não poder jogar esta partida. Disse-me que ninguém do clube o avisou que estava à bica. Ele não sabia. Devíamos oferecer à pessoa do FC Porto encarregada de o avisar um passeio por Sevilha
Carlos Bacca


Eu, que sou um mero adepto, sabia que se Jackson, Fernando ou Mangala vissem um cartão amarelo no FC Porto x Sevilha, não poderiam jogar no Sanchez Pizjuán. Por isso, acho muito estranho que o Jackson Martinez, profissional de futebol, não tivesse consciência dos amarelos que, ele próprio, já tinha visto em jogos anteriores da Liga Europa.

Mas, independentemente disso, o que impede Jackson Martinez de jogar em Sevilha não foi o (des)conhecimento da sua situação em relação ao número de cartões amarelos.

O que eu sei, porque vi (e disse-o na altura) é que o cartão amarelo mostrado a Jackson no FC Porto x Sevilha é ridículo, no meio de uma arbitragem do senhor Wolfgang Stark que, em termos disciplinares, foi uma vergonha.

Aliás, já na eliminatória anterior, o Alex Sandro foi afastado do jogo de Nápoles, por causa de um amarelo numa jogada com o Callejón que, para mim, nem falta era, que fará para amarelo.

Claro que Bacca tem razão em ficar satisfeito por Jackson não poder jogar mas, na minha opinião, Fernando vai fazer ainda mais falta que o ponta-de-lança colombiano. É que, para além de Fernando ser o melhor médio defensivo português, a sua ausência irá obrigar Luís Castro a mudar, pelo menos, duas posições no meio-campo portista, porque Defour terá de ser deslocado da sua posição habitual para jogar no lugar do “Polvo”.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Que Sevilha no Dragão?

Que Sevilla Fútbol Club teremos hoje no Dragão?

O Sevilha que começou mal o campeonato e que, nas 12 primeiras jornadas, obteve 3 vitórias, 4 empates e 5 derrotas (a primeira vitória foi apenas à 6ª jornada!)?
Ou o Sevilha que fez uma recuperação extraordinária, que ocupa actualmente o 5º lugar no campeonato espanhol, e que conquistou 18 dos últimos 21 pontos em disputa (com 6 vitórias seguidas entre a 25ª e a 30ª jornada)?

Desempenho do Sevilha na liga espanhola 2013-2014 (fonte: zerozero.pt)

Teremos no Dragão o Sevilha que perdeu por 3-2 no Camp Nou (o golo da vitória do Barça foi marcado ao minuto 90’+4) e foi empatar 1-1 ao Vicente Calderón (no mesmo estádio onde o FC Porto perdeu por 0-2, com o Atlético a jogar em modo de poupança e cheio de segundas escolhas)?
Ou o Sevilha que foi goleado por 7-3 no Santiago Bernabéu?

Uma coisa é certa, o FC Porto terá de enfrentar um Sevilha que venceu quatro dos últimos cinco jogos que disputou fora de casa e que, na liga espanhola, venceu nos estádios do Osasuna, Almería, Rayo Vallecano, Villarreal, Granada e Espanyol.

Não tenho grandes dúvidas de que, com a excepção da Juventus, era o adversário mais forte que, nesta altura, poderia ter calhado às equipas portuguesas (no sorteio dos quartos-de-final da Liga Europa).

terça-feira, 17 de setembro de 2013

As Noites Europeias de azul Viena

Viena.
Sempre teremos Viena.

Se o FC Porto nunca tivesse estado em Sevilha, Gelsenkirchen ou Dublin sempre teríamos Viena.
Não há cidade mais simbólica na história das competições europeias. E, para nós, é ouro sobre azul. Vamos a Viena amanhã começar mais um ano de aventuras europeias. Não é a primeira vez. Mas sabe sempre de forma especial. Porque havia um FC Porto antes e outro depois de Viena.

Não necessariamente pelo triunfo.
Antes já tinham ganho a Taça dos Campeões Europeus clubes de menor perfil e prestigio que nós. O Nottingham Forrest, o Steaua Bucareste e até o Celtic Glasgow e o Feyenoord, são bons exemplos de que o torneio não era um exclusivo das grandes equipas das grandes ligas da Europa. No ano seguinte o troféu foi ganho pelo PSV, dois anos depois pelo Estrela Vermelha e seis pelo Olympique Marseille. Se a história do futebol europeu fosse lida desde esse prisma, éramos mais um entre alguns. Mas somos mais do que isso. Somos um caso singular e único. Porque repetimos esse triunfo. E eles não.
Depois do Jamor o Celtic não ganhou um troféu europeu. O Feyenoord venceu duas Taças UEFA. O Nottingham Forest desapareceu do mapa do futebol inglês e há largos anos que vive na segunda divisão. O Steaua, alimentado pelo regime de Ceaucescu, desfez-se com o regime. Regressa este ano à Champions League depois de largos anos de ausência. O Marseille pagou o preço das ligações perigosas e o PSV não voltou a cheirar uma final. E o Estrela Vermelha acabou, de facto, com a própria Jugoslávia. Mas nós não. Nós crescemos. Nós ficamos mais fortes. Nós passamos a fazer parte dessa elite europeia.
Não em dinheiro, não na qualidade do plantel ano após ano. Mas em prestigio.



O FC Porto - graças ao trabalho de Pinto da Costa e de algumas das suas eleições mais acertadas para o banco - soube provar de novo o sabor do champanhe.
Somos únicos nesse feito entre as pequenas nações da Europa. E é algo do qual nos devemos sentir orgulhosos. Sempre que apareça Viena no horizonte, saber que foi aí que a gesta começou. Sim, Pedroto estabeleceu as bases. Para mim é a personalidade mais importante da história do clube porque foi ele quem marcou o antes e o depois. Mas partiu cedo, muito cedo, sob o fantasma de Basileia e aquele golo do Boniek, os gritos do Zé Beto e o medo de que aquela final não seria repetida. Mas em Viena, com o "rei Artur", com o calcanhar do Madjer, o sprint do Futre, a taça nas mãos do "capitão" e as lágrimas do presidente, soubemos que a festa estava a começar. Era algo dentro de nós que fervilhava por essa paixão das noites europeias.

O futebol europeu, continental claro, começou a desenhar-se em Viena.
As tardes europeias do início do século XX, os anos de ouro da Taça Mitropa, tudo sucedeu nessa cidade mágica, no campo do parque do Prater. Para o futebol europeu e para nós. Historicamente, o FC Porto era um clube a que se lhe dava mal as provas europeias.
Até meados dos anos setenta até o Vitória de Setúbal tinha um registo melhor que o nosso. Mas com Pedroto algo mudou. Para sempre. Hoje somos o melhor clube português na história das competições europeias. Somos uma das equipas com mais participações na Champions League. Nas quatro últimas vezes que disputamos a Taça UEFA/Europa League, vencemos duas. Ninguém tem estes números.
Estivemos no calor asfixiante de Sevilla. Desfrutamos da nossa superioridade evidente em Gelsenkirchen e tinhamos a certeza que Dublin era uma formalidade. São três noites europeias que ninguém esquecerá. Mas Viena, a nossa Viena, até para quem não a viveu como deve ser, é especial.



Amanhã, mais ou menos por esta hora, o mítico FK Austria - o tal das tardes europeias mágicas - vai ser o nosso rival em campo. Mas quando o escudo do dragão subir ao relvado, o Bayern, o Dinamo de Kiev, o Brondby, o Vitkovice e o Rabat também vão lá estar à nossa espera. Viena, o Prater, o Danúbio azul, a magia da história. O pontapé de saída para mais uma temporada europeia, difícil, exigente e que gera ilusão nos adeptos pelo local onde se disputa a final. Mas a cada jogo, a cada passe mal medido, a cada remate torto, a cada golo sofrido, convém não perder nunca a perspectiva. Podemos ir mais longe, devemos lutar por ir mais longe, queremos ir muito mais longe do que temos feito nos últimos anos. Mas o que o FC Porto conseguiu, isso, meus amigos, não conseguiu mais ninguém!

Disclaimer

O título do artigo não é inocente.
Noites Europeias é o nome do livro que vai ser colocado à venda nos próximos dias, escrito por mim e pelo João Nuno Coelho, representante do FC Porto no programa do canal Q Sacanas sem Lei e coordenador do livro "Porto 25". É um livro que viaja às origens das competições europeias de clubes e se prolonga até à última temporada em mais de 100 anos de histórias, jogos, personalidades, sistemas de jogo e memórias. Inevitavelmente o FC Porto é um dos protagonistas dessa Europa periférica fora das grandes ligas. Não é por acaso o único clube - com a excepção honrosa do Ajax, noutro contexto - fora desse circulo de grandes fortunas que tem quatro troféus das provas da UEFA. Um feito único e histórico entre os muitos que relatamos.
Oficialmente a apresentação do livro é na tarde do dia 29 de Setembro, no bar Casa do Livro na zona das Galerias de Paris com moderação do Luis Freitas-Lobo e de alguns convidados-surpresa ligados à história europeia do FC Porto. A todos os adeptos do clube, amantes das "noites europeias", aqui fica o meu convite pessoal e o desejo de uma boa leitura, se for o caso.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sevilha FC ao raio x (III)

A nível interno, o Sevilha disputa as mesmas competições que dois colossos do futebol mundial – Barcelona e Real Madrid – os quais, nas últimas épocas, cavaram um enorme fosso para os restantes clubes, tornando impossível que outras equipas sonhem com a conquista do campeonato espanhol. Apesar desta limitação, analisando o percurso do Sevilha nas últimas cinco épocas, verifica-se que está recheado de títulos:

Taça do Rei: 2006/07, 2009/10
Supertaça de Espanha: 2007/08
Taça UEFA: 2005/06, 2006/07
Supertaça Europeia: 2006/07

Seis títulos (!), com particular destaque para a época 2006/07, a melhor época de sempre do Sevilha FC, com as conquistas da Supertaça Europeia, Taça UEFA e Taça de Espanha. No conjunto, sobressai o desempenho europeu desta equipa andaluza. Nas últimas cinco épocas, quantos clubes ganharam três provas europeias?

(Taça UEFA 2006/07)


(Taça do Rei 2009/10, Final Sevilha x Atletico Madrid)


P.S.1 Se no último jogo para o campeonato o Sevilha perdeu em casa com o Espanhol (1-2), três dias depois, para a Taça do Rei, recebeu e goleou por 3-0 o Villarreal (actual 3º classificado) na segunda "mão" dos quartos de final. Nas últimas oito temporadas, esta é sexta presença do Sevilha nas meias finais da Taça do Rei, competição de que são os detentores do troféu.

P.S.2 Sem aspirações no campeonato, parece-me claro que o Sevilha aposta tudo na Taça do Rei e na Liga Europa.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sevilha FC ao raio x (II)

Após ter apresentado os quadros correspondentes às últimas cinco épocas do campeonato espanhol, o quadro seguinte, referente ao UEFA Team Ranking do mesmo período (2005/06 a 2009/10), reflecte o muito bom desempenho que o Sevilha tem tido nas competições europeias:

(clique para ampliar)


Evidentemente, estes números não dizem tudo e, além disso, sabemos que é mais fácil uma boa equipa somar pontos na Taça UEFA/Liga Europa do que na Liga dos Campeões. Mas, num ranking oficial da UEFA que abrange cinco épocas, não é qualquer equipa que ocupa a 7ª posição.


P.S. No passado sábado o Sevilha alcançou a quarta vitória seguida (duas para o campeonato e duas para a Taça do Rei), vencendo por 3-2 em casa da Real Sociedad. Não por acaso, esta série de bons resultados coincide com o regresso de Jesús Navas, depois de uma longa paragem por lesão.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Os meus dez jogos da década


Os directores dos três diários desportivos foram desafiados a eleger os dez jogos da década do futebol português. São estas as suas escolhas:

Os dez jogos da década para Manuel Tavares (director de O Jogo)

Os dez jogos da década para António Magalhães (director-adjunto do Record)

Os dez jogos da década para Vítor Serpa (director do jornal A Bola)


Naturalmente, como vejo o futebol com óculos azuis-e-brancos, a minha escolha é diferente e envolve 10 jogos dos dragões:

20/03/2003: Panathinaikos x FC Porto, 0-2, ap (Taça UEFA, Quartos-final, 2ª mão) (ficha)

10/04/2003: FC Porto x Lazio, 4-1 (Taça UEFA, Meias-finais, 1ª mão) (video) (ficha)

21/05/2003: FC Porto x Celtic, 3-2, ap (Taça UEFA, Final) (video) (ficha)

09/03/2004: Manchester United x FC Porto, 1-1 (Liga Campeões, Oitavos-final, 2ª mão) (ficha)

26/05/2004: FC Porto x AS Mónaco, 3-0 (Liga Campeões, Final) (ficha)

12/12/2004: FC Porto x Once Caldas 0-0 (8-7) g.p. (Taça Intercontinental) (ficha)

07/04/2009: Manchester United x FC Porto, 2-2 (Liga Campeões, Quartos-final, 1ª mão) (video) (ficha)

08/12/2009: Atletico Madrid x FC Porto, 0-3 (Liga Campeões, Fase de grupos) (ficha)

02/05/2010: FC Porto x Benfica, 3-1 (Campeonato, 29ª jornada) (video)

07/11/2010: FC Porto x Benfica, 5-0 (Campeonato, 10ª jornada) (ficha)


Não foi fácil escolher estes 10 jogos e deixar de fora vitórias sobre o Manchester United, Lyon, Corunha, Chelsea, Arsenal ou, fora de casa, vitórias europeias em Marselha, Moscovo, Kiev, Istambul, etc. Também deixei de fora finais que representaram conquistas de várias Taças de Portugal e Supertaças, que para outros poderiam ser grandes momentos, mas para os portistas são vistas (nesta altura) como competições menores. Provavelmente terei esquecido alguns, mas pronto, são estes os meus 10 jogos da década. E os seus?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sevilha FC ao raio x (I)

As últimas cinco épocas na liga espanhola:



Conforme se pode constatar no quadro anterior, nas últimas cinco épocas o Sevilha nunca ficou classificado abaixo do 5º lugar sendo, a seguir aos inalcançáveis Barcelona e Real Madrid, claramente a equipa com melhor desempenho no passado recente do futebol espanhol.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Já fui muito feliz em Sevilha

E lá vamos nós outra vez a Sevilha, na mesma competição (ou na sua versão pós-plástica para tirar as rugas da idade) mas para defrontar a equipa da casa.

A 17 de Fevereiro regressamos a uma casa que já foi nossa, retribuindo a hospitalidade no dia 24 de Fevereiro.


O sorteio não foi favorável para o FC Porto, tendo-nos calhado um dos piores adversários possíveis do pote, mas podemos contentar-nos em jogar a segunda mão em casa, e que depois desta eliminatória já teremos eliminado um dos favoritos ainda antes de chegarmos à final de Dublin.

Na próxima eliminatória teremos ou o frio moscovita ou o calor mediterrânico, visto que defrontamos o vencedor do jogo PAOK/CSKA Moskva (nos dias 10 e 17 de Março).

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Estava um calor ...

Há 6 anos foi assim, nas palavras de Cristiano Pereira (Jornalista JN):

* Recomenda-se que pessoas não habituadas ao Portuense, se abstenham de ler o texto e se limitem a ver uns vídeos no You Tube.

CRÓNICA DE UM DRAGÃO

O meu dia 21

6 da manhã, Alfama, Lisboa - Acordo, isto é, salto da cama (mal fechei os olhos com a ansiedade), tomo um duche, enrolo o cachecol e saio à rua.. Está sol. E sinto uma felicidade rara, um furacão de contentamento de quem ainda se está a aperceber que afinal, foda-se, afinal vou. Afinal vou à final. E vou mesmo. Há 12 horas atrás chorava de frustração e agora quase de emoção. Já estou a ir. Caralho. As ruas parecem bonitas, o planeta é belo. Desco a Santa Apolónia rumo à estação do Oriente onde fiquei de me encontrar com 4 amigos que estavam a chegar do Porto. As pessoas que se cruzam comigo(e com o azul que me abraça o tronco) lançam-me luminosos sorrisos, erguem o polegar e não raras vezes vociferam "Boa sorte" ou "hoje somos todos da mesma cor". Há carros que apitam.

7 horas, Lisboa - Frente ao Vasco da Gama, vislumbro o carro dos meus amigos. Um deles tem o cabelo pintado de azul e metade do corpo fora da janela. É o Giró, figura incontornável do punk rock tripeiro (foi baterista dos Renegados de Boliqueime). Ele grita. O carro apita. São sete da manhã e estes gajos chegam bebados a Lisboa. Menos o condutor, claro. Siga para Andaluzia, a duzentos à hora, num Audi xpto turbo qualquer coisa e a ouvir o disco dos Dr. Frankenstein. Meio dia, Sevilha

- Escusado será dizer que o rapaz do cabelo azul aterrou a meio do Alentejo. Já acordou. Estamos em Sevilha. Foda-se. Já vemo o estádio ali à frente. E só dá gajos vestidos de verde. Parecem lagartos. Estacionamos o carro. Está um calor filho da puta. E bota filho da puta nisso: estão 41 graus. No início achamos piada à temperatura. Estamos todos de tronco nu e decidimos ir até ao centro da cidade. Estamos desidratados. Um calor filho da puta.

15 horas - As principais artérias do centro da cidade estão cortadas ao trânsito. As ruas estão apinhadas de gente vestida de verde. É impressionante a quantidade de escoceses que aqui estão. Diz-se que são mais de cem mil. Não sei. Mas são mais do que as mães. Penso: Glasgow deve estar deserta. O calor parece aumentar até se tornar insuportável. Bebe-se muito. Há escoceses que nos abraçam. Fazemos brindes. Pagam-me copos. Cantam. A polícia observa. E já há centenas de gajos literamente aterrados no passeio. Depois de não sei quantas cervejas aparece, caído do céu, um verdejante legume. É erva. E não é uma erva qualquer. É skunk. Enrolo o charro enquanto um grupo de escoceses tece rasgados elogios ao Cadete. Acendo o charro e penso que, para mim, o Cadete mais não é do que um jogador medíocre e um cromo do Big Brother. O charro começa a bater.. E de que maneira. Filho da puta de calor.

16 horas - Estamos todos meio desorientados. É impossível andar mais de 50 metros debaixo deste sol sem parar para beber mais uma cerveja. Começo a sentir-me totalmente alterado pela mistura de aditivos e pela ansiedade trepidante. Sou assaltado por uma lucidez que me faz pensar: "Foda-se, não bebas mais. Não entres no estádio ainda mais bebado. Ainda aterras e não vês o jogo". Há que ir para o estádio. Ainda fica longe. Não há táxis. Os autocarros estão cheios. Vamos indo a pé. Filho da puta de calor. Milagre: um dos autocarros abre-nos a porta. Está cheio como um ovo de escoceses que berram e muito, eles cantam, e muito. Ficam todos contentes por partilharmos o mesmo Bus. Somos os únicos portugueses dentro do autocarro. Eles recebem-nos com cumprimentos e cantam. Estão sempre a cantar, estes gajos. Filho da puta de calor.

17,30 horas - Chegamos ao estádio. É preciso ter cuidado com o bilhete. Anda aí gente capaz de matar só para roubar o apetecido rectângulo de papel. O meu está guardado dentro da sapatilha, envolvido em plástico. Entro no estádio. Nem sequer me revistam. Subo ao meu lugar,. Estou na bancada central, "Grada Alta, Puerta P, Sector 201 B, Fila 20, Asiento 25". Sento-me. Agora sim. Penso: foda-se, estou mesmo aqui. Fico durante minutos calado a saborear essa constatação. A realidade. Este lugar é excelente. Está mesmo a meio do relvado, uns metros acima do banco do Celtic. À minha volta portugueses misturam-se com escoceses. Até o verde do relvado parece adquirir uma luz especial. Um calor filho da puta.

18,20 - Ao meu lado está um puto castiço. Falamos da ansiedade e do desespero. Há logo uma sintonia incrível, uma inegável compreensão mútua. Ele, tal como eu, tinha arranjado bilhete poucas horas antes. Um calor filho da puta. Digo-lhe que vou ao bar comprar garrafas de água. Desco a bancada. Azar nítido: está uma fila interminável para o bar. Fico parvo a olhar para aquilo. Penso num esquema. Chego junto de um enfermeiro da "Cruz Roja" e peço-lhe água com açúcar. Ele leva-me ao gabinete médico, uma sala com ar condicionado repleta de escoceses que dormem que nem porcos derrotados pela coma alcoolica. "Pois", digo eu ao médico simpático, "não dormi nada com a ansiedade e alimentei-me mal. Este calor também não ajuda. Fiquei fraco", dramatizo, exagero, enfim, um teatro do caralho ajudado pela pedrada da erva. Ao médico não lhe passa pela cabeça que eu apenas ali estou para evitar a fila do bar. Dá-me um sumo energético. Fico lá durante uns 10 minutos a curtir o ar condicionado. O gajo aponta o meu nome num papel. Saio e trago outro sumo para o puto que me espera na bancada. Passo pela fila do bar e vejo que ainda está maior. E que não anda nem desanda. Feito esperto, rio-me para dentro com um inevitável e muy tripeiro pensamento: "vocês são mesmo morcões, caralho". Já não há ar condicionado. E, claro, está um calor filho da puta.

19 horas - A curva à minha direita está cheia. De azul. De vida. De beleza. Os portugueses entraram mais cedo no estádio. Canta-se muito. Eu também canto. Está um calor filho da puta. Entretanto, a primeira má cena do dia: os jogadores, lá em baixo, no relvado, a aquecer e, foda-se não estou a ver nenhum caralho de cabelos claros, o pânico e a dúvida apoderam-se de mim e berro: "CARALHO! ONDE ESTÁ O JANKAUSKAS?". Não está. O que está é o calor. E um calor filho da puta.

19,15 horas - Lentamente, a bebedeira vai desaparecendo e os efeitos da erva vão, claro, esmorecendo. Só o calor é que parece aumentar. E o nervosismo, claro. O estádio já está cheio. Olho para as bancadas e fico assustado com a quantidade de verde que vejo. Os gajos começam a fazer muito barulho. Foda-se. Só cantam. Umas atrás das outras. Um repertório maior do que o Frank Zappa. Esta merda vai começar e tenho que me acalmar.

19,45 - Começa o jogo. Confusão do caralho. Ninguém domina ninguém. Está tudo nervoso. Com medo. Olha, o Costinha foi ao chão. Caralho. Filho da puta. Não era ele que dizia que tinha recuperado da lesão? Foda-se, já ficamos sem o Costinha. Caralho. Não estou a gostar disto. (não olhei mais para as horas, só para o horário do jogo)

20,30 (mais ou menos) - O Porto sobe, Deco levanta a puta da bola, Alenitchev está lá, eu levanto-me, vejo o gajo a rematar de primeira, uma bomba autêntica, o cabrão do Celtic não completa a defesa, e caralho, foda-se!!! Está ali o Derlei, foda-se, caralho AS REDES ABANAM E É GOLO CARALHO! Bem, aqui eu não sei bem, acho que mando um salto, desco uns sete ou oito pisos da bancada e atropelo tudo à minha frente, desde escoceses a portugueses, passando por garrafas de água e sei lá que mais. Estou fora de mim. Acho que nem grito "golo" porque a euforia me corta a capacidade de articular sílabas. Só berro qualquer coisa. Já estou como o outro: não há orgasmo que se compare a isto. intervalo. Tento acalmar-me. Vou buscar mais água. Não há fila. É estranho. Porquê? Que cena do caralho: acabaram as bebidas. Foda-se. Nos dois únicos bares de uma bancada cheia debaixo de 38 graus e não há agua, sumo ou a puta que os pariu? A espanhola giraça que está no bar depara-se com centenas de gajos desesperados e desidratados. Começa a distribuir cubos de gelo a toda a gente e a pedir calma. Num acto de desespero apanho umas garrafas vazias do chão e vou à casa de banho, torneira aberta, encho as garrafas e ainda molho o meu corpo todo. Começo a aperceber-me que a minha garganta está esquisita, isto é, a minha voz, caput, foi com o caralho. Segunda parte. Os gajos marcam o golo. Foda-se. Um barulho descomunal. Nunca (ou)vi nada assim. É impressionante. Chega a ser assustador. Fico na merda. Novo golo do Porto. Foda-se. Agora já nao atropelei ninguem, abracei-me ao puto, caralho, vamos lá ganhar esta merda. "Vamos ganhar 3-1, vocês vão ver", diz-me um tripeiro mais velho. E volta a dizer o mesmo. Outra vez. E mais uma vez. E pimba!, os gajos empatam novamente, eh pá, puta que pariu, como é que deixam aquele cabrão ali sózinho na area, caralho? Olho para o tripeiro profeta com aquela cara de quem diz "devias ter estado calado meu ganda boi de merda". Os escoceses fazem outra vez um barulho ensurdecedor. O estádio até parece tremer. Os que estão atrás de mim berram-me ao ouvido. Há um deles que chega a pôr a mão na minha cabeça e despenteia-me todo. Eu estou fodido, claro, mas tenho fair play, nem olho para trás, o gajo está na boa, desde que não me meta a mão no cu. E não só. Começo a ficar fodido. Fico calado minutos a fio. Já nao sei se sinto nervosismo, ansiedade ou depressão. Estou sentado, calado que nem um rato, as mãos na cabeça, o coração a 320 batidas por minuto. Estou a sentir-me mal. Vejo o Celtic a dominar o jogo. Os gajos sempre a cantar. É tudo deles, foda-se. É uma tortura: começo a pensar que não devia ter ido, que sofrimento já chegava, que aquilo é tudo uma merda, que o futebol não vale um caralho, que são só meia dúzia de gajos básicos atrás da bola, que o que eu gosto é de música e poesia e que caralho, eu juro, foda-se, juro mesmo que nunca mais vou ao futebol na puta da minha vida. O puto ao meu lado deve estar como eu. Não diz nada. Às tantas abre a boca e diz-me: "Eu já não sei". Foda-se. Começo a experimentar a amargura do sofrimento mais forte que alguma vez senti. Tenho a vida reduzida a merda. Às tantas visualizo na minha mente pessoas e alguns nicks do pessoal aqui do forum (O Flash, O Plasmatron, o Manel Poças e a Anfield Road, tudo gente que nunca vi) e tento imaginar onde estarão eles àquela hora, e a pensar que deviam era estar aqui, mas, caralho, como não estão, tento entrar numa espécie de comunicação telepática com eles, de forma a, sei lá, encontrarmos um ponto de convergência mental, juntar as forças, lança-las para dentro do relvado, como se a nossa vontade pudesse cair ali dentro como uma espécie de relâmpago e fazer com que o Porto não perca bola e faça passes certos, foda-se.... eu quero que a bola esteja no meio campo deles, não passem a bola ao Baía, caralho, é para a frente que se joga, e às tantas há alguém (não me lembro quem) que volta a passar a bola ao Baía e eu aí é que me passo mesmo dos cornos. Levanto-me. Grito: "Ó FILHO DE UMA PUTA DO CARALHO É PARA A FRENTE CARALHO PARA A FRENTE CARALHO!!!!!!! (ou coisa do género, não me lembro bem). À minha volta, num raio de 20 metros está tudo sentado, o pessoal olha, quem é que aquele portuga lingrinhas e de tronco nu, cromo do caralho, a gritar qualquer coisa? Os escoceses atrás de mim comentam algo entre eles num calão indecifrável. E riem-se muito. Riem-se de mim. Estão-se a rir de mim, filhos da puta? O jogo acaba, há prolongamento e eu começo a ficar preocupado com a minha saúde. Tento respirar fundo durante alguns minutos e começo a sentir-me relativamente melhor. Até porque o Porto já parece saber jogar à bola. Vejo o tempo a passar e só desejo mais um golo, caralho, não peço mais, basta um, foda-se, onde está o Postiga quando preciso dele?, caralho, e entro outra vez no transe de sofrimento, estilo começar a pensar para mim "foda-se, eu até dou os meus discos todos e o meu ordenado só para ganharmos esta merda" e outras merdas do género completamente inconcebíveis num momento mais racional. Segunda parte do prolongamento. Sinto-me perto da morte. Tento acender um cigarro. A mão direita treme de tal forma que nem sequer consigo encostar a chama à ponta do tubo de nicotina.O telemóvel treme no bolso. É uma mensagem escrita do Junqueira a dizer "tem calma pá.... a gente já resolve isto" e, de repente, volto a pensar na história da telepatia, e pergunto-me "mas como é que o gajo sabe que eu estou assim?" e depois penso que s calhar até é natural ele imaginar mas não deixo de pensar na telepatia e sinto-me mais confortável com aquelas letras "tem calma pá" como se eu fosse um puto assustado com algo e tivesse chegado o pai para proteger. Há o 3º golo do Porto. Não sei o que escrever. É um momento muito prateado, uma espécie de luz branca à minha volta. Devo ter gritado e saltado, sei lá, eu já nem estava no lugar, fui para os degraus mais abaixo e estava a ver aquela merda em pé, pá, nem sei bem. Sim, era tudo branco, uma espécie de névoa, estava tudo meio desfocado, e convenci-me que era Deus que ali estava a ajudar-me e fiquei fodido por nunca ter ido á missa e essas merdas e o caralho, e por já ter tido a mania que era anti-cristo na minha adolescência, e que afinal, caralho, Deus existe, e estava ali ao meu lado e eu sem saber como agradecer-lhe e pedir-lhe desculpa por todos estes anos de falta de fé. O jogo acaba. Acho que abraço toda a gente e toda a gente me abraça e que tenho os braços no ar e que tento gritar qualquer coisa mas que não consigo porque já não tenho voz e então limito-me a saltar que nem um cavalo. Os escoceses atrás de mim dão-me os parabéns e apertam-me a mão e eu, pimba, toma lá um abraço também, e a puta da vida é isto e nada mais existe na vida para além disto e deste resultado.