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terça-feira, 25 de abril de 2017

O 25 de Abril do futebol português

Após décadas na escuridão…

O lápis azul e o azul ao fundo do túnel - Museu do FC Porto

… o 25 de Abril também chegou ao futebol português, muito pela mão de José Maria Pedroto.

José Maria Pedroto no meio do povo portista em pleno Estádio das Antas

O saudoso Zé do Boné, o grande revolucionário do futebol português, um homem do Norte, determinado, de carácter insubmisso, sem papas na língua, que mudou métodos e mentalidades e que, até à sua morte, nunca deixou de lutar contra o centralismo sufocante que existia (existe) no futebol.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Os casos e a 1ª página

Os casos do SL Benfica x Vitória Setúbal analisados em A BOLA (fonte: Tomo II)


Num jogo em que o próprio jornal A BOLA reconhece ter havido dois erros graves de arbitragem – penalty por assinalar contra o SLB e 2º golo dos encarnados precedido por uma falta claríssima – a 1ª página da mesma edição de A BOLA não faz qualquer referência a esses “erros” (vamos chamar-lhes assim…).


Limpinho, limpinho?

Claro! E branqueado por “especialistas” nestas coisas…

domingo, 27 de abril de 2014

Azul ao Fundo do Túnel


O SLB é o clube de todos os regimes e á sua mesa juntam-se altos dirigentes de todos os quadrantes do regime, sejam do arco da governação ou da oposição. O SCP é mais elitista, aristocrático e convencido. Bruno de Carvalho acrescentou-lhe a vertente populista que lhes fica tão bem. Ambos recebem fortes apoios institucionais. A proximidade ao poder ajuda. Com o SLB é mais íntima essa familiaridade que favorece o trânsito de favores e um tratamento diferenciado. Foi assim quando o governo da altura aceitou as acções do SLB para caucionar a dívida para com a SS ou  a forma como o ministério público permitiu a intromissão abusiva do SLB no processo AD e na divulgação das escutas, que ainda se ouvem nos órgãos de comunicação social colaboracionistas.

O FCP é um clube regional e não se deve envergonhar disso. É a oposição e o contrapoder ao centralismo desportivo que segue em linha com um país que vive obcecado com o primado absolutista da capital. E, por isso, deve continuar a ser um clube de resistência, e não se deve envergonhar disso. O maior cosmopolitismo do clube,  cujo nome passa a fronteira nacional e goza mais prestígio lá fora que cá dentro, deve acompanhar esse crescimento e esse perfil, sem perder as suas origens. Quando os amigos dos nossos rivais comentam que não estamos a jogar à Porto, estão a reconhecer uma assinatura que identifica os valores pelos quais nos batemos e pelos quais nos temem. E esse temor tem muitos rostos e matizes e é implacável quando estamos por cima. Tudo serve para denegrir o valor e a justeza do nosso sucesso. O FCP é um clube da cidade e tem um grande orgulho disso, como o tem demonstrado das formas mais diversas. Quem se tem portado menos bem é a cidade. O Rui Rio comandou o divórcio e o litígio foi abrandando, mas só terminou quando deixou a presidência da câmara. Estamos em tempo de apaziguamento, mas ainda há um certo constrangimento de considerar que, para a cidade, é muito importante o reconhecimento que o FCP é uma instituição que tem  uma história que se casa com o perfil da cidade e da sua gente. Quem tem uma dívida para com o FCP é a cidade que deve, sem medo  e vergonha, assumir essa estreita ligação que, obviamente, não dispensa a “separação de poderes” entre ambas as instituições. Rui Moreira já deu alguns passos que considero muito tímidos. Mas, percebo a timidez porque esses bacocos que têm as chaves do poder são capazes de tudo, nomeadamente de o apoucarem pelo mesmo que outros fazem, porque vivem bem mais perto do Terreiro do Paço e apoiam os clubes certos. Insisto: o FCP é um clube da cidade, da resistência e cosmopolita; não deve abdicar desse perfil em nome de projetos parolos de conquista aos mouros ou pseudo modernistas que visam entorpecer a resistência  quanto à influência asfixiante e às tendências hegemónicas dos clubes da segunda circular e dos seus aliados institucionais, públicos ou privados.


Essa tendência hegemónica suavizou com o advento da liberdade, mas está pronta a explodir se não cuidarmos convenientemente da nossa casa, pois os ventos correm de feição para os saudosistas da ordem desportiva do antanho. Mas, espreitar o futuro, ignorando as actuais dinâmicas desportivas, as condições dos mercados, a situação do país e uma avaliação actualizada das nossas forças e fraquezas, não chegará para que a mudança seja bem mais que cosmética. Resistir não pode ser apenas uma forma de continuar a estar vivo. Não nos devemos resignar á tarefa humilde e útil de animadores do campeonato que nos querem atribuir, a bem da Nação. Por isso, a tarefa é exigente e urgente. As últimas três épocas revelaram alguns sinais de erosão (e de cansaço) que devem ser identificados e atacados. Compete a quem de direito fazê-lo. Não é preciso uma revolução: basta rever processos e procedimentos, avaliar as competências dos que exercem altas funções na estrutura do clube, bem como do quadro de dirigentes e técnicos mais próximos da competição. Depois, reformar o que tiver de ser reformado. Não penso que seja suficiente uma configuração do plantel. Os sócios e adeptos devem perceber que não se pode ganhar sempre e ser solidários nos momentos maus ou menos bons, mas é difícil se não identificarem a justeza do percurso e os meios escolhidos para o percorrer. A diarreia propagandística das últimas semanas para enaltecer a conquista do SLB e o sucesso do SCP chateiam e assustam, se os erros cometidos pelo FCP não forem identificados e os méritos dos rivais não forem reconhecidos. Na “guerra” nunca se pode subestimar a força do “inimigo”, se queremos vencer.


O FCP divulgou que no dia 25 há ainda mais “Azul ao Fundo do Túnel”. É essa luz cheia de azul e de grandeza, que esperamos continue a brilhar. Para isso, é preciso  trabalhar bem no presente para que o futuro não se  esgote nas saudades do passado.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Salazar, o regime e o benfica

A propósito do 25 de Abril, vale a pena lembrar alguns aspetos singulares do futebol português, do período anterior à revolução dos cravos de 1974.

«A partir dos anos 60, o Benfica aparece como grande figura da união nacional, alimentando um sentimento patriótico com a conquista das Taças dos Campeões Europeus em 1960/61 e 1961/62.»
in Record, 25-04-2013


Na realidade, o regime salazarista não perdeu tempo a associar-se e explorar as vitórias europeias do slb.
A televisão dava os primeiros passos em Portugal mas, em Maio de 1961, a presença do slb na final da Taça dos Campeões Europeus, mereceu honras televisivas e o jogo foi transmitido em direto (embora cheio de interferências).
E se a presença na final já tinha sido motivo para “anestesiar o povo”, após a vitória (3-2, frente ao FC Barcelona) a propaganda do regime não fez por menos: durante toda a semana, uma vez por dia, a RTP transmitia o jogo em diferido!

Mas a coisa não se ficou pelos habituais instrumentos da propaganda – jornais, rádio e televisão. A colagem e interesse do regime no sucesso benfiquista foi demonstrada ao mais alto nível.
Assim, após terem sido recebidos no Palácio de Belém, onde o Presidente da República, Américo Thomaz, lhes atribuiu a medalha de mérito desportivo, jogadores treinador e dirigentes do slb foram também recebidos pelo homem forte do regime, o Presidente do Conselho, António Oliveira Salazar, o qual manteve com os elementos da comitiva benfiquista uma conversa amistosa, em que manifestou o seu apreço pela vitória alcançada e pela expressão que a mesma teve como serviço prestado à pátria.

(Salazar e o Ministro da Educação com os jogadores, treinador e dirigentes do slb, 1961)

Oito dias antes da final de Berna, no dia 23 de Maio de 1961, estreava-se pelo slb (num jogo de reservas contra o Atlético) um jovem moçambicano proveniente do Sporting de Lourenço Marques (filial do SCP): Eusébio da Silva Ferreira.

Eusébio rapidamente se tornou a figura de proa do slb, sendo um elemento preponderante nos sucessos, a nível interno e europeu, dos encarnados durante a década de 60 do século XX.

Em 1964, quando a “Pantera Negra” já era uma estrela futebolística, conhecido em toda a Europa, a Juventus fez-lhe um tentador convite, oferecendo-lhe 25 mil contos. Quase na mesma altura, o Real Madrid, por influência de Di Stefano (seu ídolo da juventude), fez uma oferta igual.
Eusébio, que tinha apenas 22 anos, ficou eufórico ante a perspectiva de se transferir para Turim ou Madrid, mas “Salazar mandou-me chamar e disse-me que eu não podia sair do País, porque era património do Estado! Fui prejudicado nesse momento. Hoje teria uma grande fortuna”.

(Eusébio e Salazar, 1966)
Dois anos depois, após o Mundial de 1966, Eusébio e a sua mulher foram gozar férias para Itália, a convite do Inter de Milão, clube com o qual chegou a ter tudo acertado. O colosso italiano pagava-lhe 90 mil contos para assinar contrato, uma fortuna para a época (o equivalente a cerca de três milhões de dólares).
Disse Eusébio: “Naquele tempo dava-me para comprar os Restauradores”.
Mas, mais uma vez, surgiram obstáculos à sua saída. Para além da intransigência de Salazar, entretanto a Itália fechou as suas fronteiras a jogadores estrangeiros.

Outros convites se seguiriam, mas o clube encarnado, com o apoio do regime, foi irredutível e só permitiu a sua saída no final da carreira, em meados da década de setenta.

A propósito dos obstáculos que ele e outros jogadores do slb enfrentaram nos anos 60 e que os impediram de sair para clubes estrangeiros, Eusébio afirmou:
Queria ir para Itália, fui travado, houve muitos casos de outros colegas meus que não puderam sair, mas nunca houve ameaças.”
in Record, 25-04-2013


Podemos falar na maior ou menor proximidade de alguns dirigentes do slb ao regime, ou em desviar as atenções para aspectos meramente acessórios (como a letra do hino), mas factos são factos e a realidade é só uma: o regime primeiro cavalgou o sucesso internacional dos encarnados e depois, naquilo que verdadeiramente interessa, tratou de criar as condições necessárias para que esse sucesso se mantivesse, fazendo do slb e do seu principal jogador um dos símbolos do Portugal dos 3 F’s (Fátima, Fado e Futebol).

Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A Taça do Arsenal (I)

I. O enquadramento político e desportivo

Há 60 anos atrás a Europa estava ainda a tentar curar as feridas resultantes da II Guerra Mundial.

Em Portugal, a década de 40 do século XX foi um período de grandes obras públicas e da exaltação da nacionalidade, com Lisboa a ser promovida como a capital do Império português.

Neste contexto, a Exposição do Mundo Português, destinada a comemorar as datas da fundação de Portugal e da restauração da independência, foi inaugurada em 23 de Junho de 1940, em Lisboa, pelo Chefe de Estado Marechal Carmona, acompanhado pelo Presidente do Conselho Oliveira Salazar e pelo Ministro das Obras Públicas Duarte Pacheco.

Quatro anos mais tarde, a 10 de Junho de 1944, foi inaugurado nos arredores de Lisboa (em Oeiras) o Estádio Nacional, com uma arquitectura inspirada na Escola Paisagista Alemã, e que, para além de servir para a prática do desporto, visava também a criação de um espaço para manifestações públicas inspiradas nos princípios políticos do Estado Novo.

O futebol português não fugia a esta “ditadura do centralismo” e a década de 40 ficou marcada por um domínio esmagador dos clubes da capital. Foi o período de ouro do BSB – Benfica, Sporting e Belenenses – que, inclusivamente, chegavam a formar uma selecção de Lisboa para jogar contra equipas estrangeiras.

Equipa de Lisboa num jogo contra o Vasco da Gama em 1947, com a inscrição no galhardete de "Selecção Benfica, Sporting e Belenenses" e "BSB" no emblema (fonte: Blog 'Futebol inesquecivel')


Após ter ganho os campeonatos de 1938/39 e de 1939/40, este último de forma brilhante (17 vitórias, 0 empates, 1 derrota), o FC Porto entrou num longo período de jejum de títulos.
No início de Maio de 1948 (a quatro jornadas do fim do campeonato) os “andrades” iam a caminho da 8ª época consecutiva na sombra dos clubes de Lisboa.

1940/41: 2º classificado
1941/42: 4º
1942/43: 7º
1943/44: 4º
1944/45: 4º
1945/46: 6º
1946/47: 3º

De facto, o Sporting, treinado por Cândido de Oliveira, iria ganhar o campeonato de 1947/48 (“o campeonato do pirulito” por ter sido decidido por um golo) e o FC Porto ficaria em 5º lugar, atrás dos habituais BSB e também do Estoril.



Em oito épocas, entre 1946/47 e 1953/54, o Sporting dos “cinco violinos” – Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travaços e Albano – sagrou-se sete vezes campeão nacional, impondo recordes (um tri e um tetra) que só viriam a ser ultrapassados pelo FC Porto do Penta na década de 90.

Os “cinco violinos”


Quanto à Selecção dita nacional não diferia muito da equipa do BSB. Reflectindo a visão, poder e domínio avassalador dos clubes da capital, normalmente só incluía um portista – Araújo – sendo, por isso, designada ironicamente por Sport Lisboa e... Araújo.

António de Araújo nasceu em Paredes, a 28/09/1923, tendo chegado ao FC Porto na época 1942/43, onde ainda jogou ao lado do seu ídolo, Artur de Sousa (Pinga), até 1946.
Araújo era um exímio marcador de golos, quer no campeonato (foi o melhor marcador na época 1946/47, com 36 golos em 25 jogos), quer na Selecção Nacional. Aliás, logo na sua estreia, contra a França, foi o autor de um dos golos da vitória por 2-1 sobre os gauleses. No entanto, o jogo onde mais brilhou foi contra a Espanha, a 26 de Janeiro de 1947, no qual marcou dois golos que contribuíram para a primeira vitória (4-2) oficialmente reconhecida de Portugal sobre nuestros hermanos. A sua exibição neste jogo teve um tal impacto, que foi recebido na sua terra natal com bandas de música, foguetes e sessão oficial de boas vindas.
Entre Abril de 1946 e Novembro de 1947, Araújo fez nove jogos pela Selecção Nacional em que marcou seis golos. Numa altura em que os jogadores da “província” tinham o acesso à Selecção praticamente vedado Araújo, com a sua indiscutível qualidade, relegava para a reserva o sportinguista Vasques, impedindo que na Selecção se repetissem os «cinco violinos».

Apesar das vitórias sobre a França e a Espanha, foi também neste período que Portugal sofreu a derrota mais humilhante da sua história futebolística. A 25 de Maio de 1947, a Selecção inglesa veio ao Jamor derrotar a sua congénere portuguesa por 10-0, num desafio que ficou conhecido como «dez a fio».

A forma como a Inglaterra (a pátria do futebol) esmagou a Selecção Nacional, reforçou o seu enorme prestigio e a áurea de invencibilidade que tinham as equipas inglesas.

(continua logo à tarde)

Fontes: Wikipedia; 'História de 50 anos do Desporto Português', A BOLA

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O Porto, o FC Porto e Pinto da Costa (I)

Um benfiquista do Porto, Bruno Carvalho (director-geral do Porto Canal), publicou um artigo num dos principais blogues benfiquistas onde, entre outros aspectos, dissertou sobre a Região Norte, o Porto, o centralismo, o regionalismo, o FC Porto, o SLB e Pinto da Costa.
Naturalmente, discordo de algumas das coisas que Bruno Carvalho escreveu e, também, temos perspectivas diferentes sobre diversos aspectos. Contudo, considero que é um artigo interessante, que traduz uma visão pouco habitual nos benfiquistas (os do Norte, então, costumam estar entre os mais fanáticos) e que merece ser lido e ser objecto de alguma reflexão.

Nota: Devido à extensão do artigo, optei por o partir e publicar em várias partes.

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Apesar de estarmos num blog do Benfica, não me parece nada estranho que falemos do nosso principal adversário dos últimos anos.

Aliás, estou em crer que é a dificuldade em perceber qual a relação que o Benfica deve ter com o FC Porto que nos tem levado a tantos equívocos e dissabores.

Acho, igualmente, positivo clarificar, desde já, que tenho um grande respeito pelo FC Porto e que muitos dos meus melhores amigos são portistas, o que até é natural atendendo a que eu vivo na cidade do Porto.

Não me parece que seja possível compreender o que é actualmente o FC Porto sem fazer um retrato da realidade social vivida na cidade do Porto e na Região Norte de Portugal.

Se olharmos para o Índice de Poder de Compra (IPC) verificamos que, sendo a média de Portugal 100, o Índice de Poder de Compra na Região de Lisboa e Vale do Tejo é de 149 e o do Norte é de 83.

Lisboa é, de facto, o local de Portugal onde o poder de compra é mais elevado, situando-se, claramente, acima da média do País, enquanto no Norte o poder de compra é apenas 55% do de Lisboa (praticamente metade) e situa-se muito abaixo da média nacional.

Se, por outro lado, olharmos para os dados de desemprego do final de 2007, verificamos que a Taxa de Desemprego em Portugal se situava nos 7.9%, enquanto no Norte atingia 9.5%, sendo a zona do País mais afectada por este flagelo.

Apesar de alguma recuperação em 2008, é previsível que o Norte seja atingido com violência pela actual crise devido às características exportadoras de muitas das suas empresas, numa altura em que os principais mercados (Estados Unidos, Espanha, Alemanha, etc.) estão em clara recessão.

Pode-se, ainda, constatar que as oportunidades de emprego nas multinacionais, na Administração Pública e na área dos serviços estão quase todas em Lisboa. Assim, o Porto vê constantemente os seus jovens irem viver para a capital ou para o estrangeiro.

Mas não é preciso olhar muito para os números para se perceber a difícil situação que o Porto e o Norte do País atravessam.


A cidade do Porto assistiu, nos últimos anos, a uma confrangedora perda de importância no contexto nacional.

Tomemos, por exemplo, o caso dos bancos. Várias instituições financeiras que tinham sede no Porto, transferiram o seu centro de decisão para Lisboa, de uma forma formal ou informal. O BPA, BCP e até o BPI são casos disso.

Ao nível da Comunicação Social o panorama também tem sido deprimente, tendo fechado um título emblemático como “O Comércio do Porto” e com “O Primeiro de Janeiro” reduzido a quase nada. Mesmo o grande jornal da região, o “JN”, está longe de ser o jornal do Porto como era no passado.

O Porto é humilhado e mal tratado quase diariamente. Por exemplo, o aeroporto do Porto é controlado por Lisboa e agora até a gestão do Metro do Porto foi assumida pelo governo e retirada às instituições locais, apesar do Metro ser considerado um caso de enorme sucesso.


Em largas franjas da população do Porto há o sentimento que a capital portuguesa é centralista, egoísta e pouco solidária com o resto do País.

Pode-se dizer, sem exageros, que o Norte de Portugal e a cidade do Porto em particular, vivem uma das situações mais difíceis da sua história, onde a pobreza, a falta de perspectivas de futuro e a sensação de abandono predominam.

Provavelmente muitos dos que estão a ler o que escrevo, e muitos são de Lisboa, não acreditam em mim ou acham que estou a exagerar.

Infelizmente não estou. A situação é ainda pior do que aquela que eu consigo transmitir.

É importante que se diga que eu não tenho nada contra Lisboa. É uma cidade de que eu muito gosto, da qual me orgulho (em especial do Estádio da Luz) e onde tenho diversos amigos.

Isso não me impede de constatar que já há vários anos os nossos políticos optaram deliberadamente por concentrar toda a riqueza e quase todo o investimento em Lisboa na tentativa de criar uma cidade que fosse capaz de competir com as principais metrópoles europeias e designadamente com Madrid e Barcelona.

No entanto, esse modelo adoptado, que existe na prática, mas não é comunicado formalmente às pessoas, tem graves consequências, quer para o resto do País quer para a própria cidade de Lisboa, que também sofre com essa opção, uma vez que esta acarreta enormes inconvenientes, desde problemas sociais, de exclusão, de violência, de criminalidade, de mobilidade e muitos outros.

É neste contexto de grave crise no Norte do País e de profundo desânimo, que temos que olhar para o FC Porto e para as suas vitórias.


É que o FC Porto tornou-se a alegria e a esperança de muita gente.

Bruno Carvalho, 26/11/2008


Nota: As fotos e negritos são da minha responsabilidade.

(continua)

sábado, 19 de abril de 2008

O clube das Forças Armadas?


«Essas altas funções [presidência do Sporting] têm sido exercidas por vigorosas personalidades clubistas com destacadíssimas posições no meio social português.»
in website ‘Centenário do Sporting’

Ainda a propósito da discussão havida no último ‘Trio de Ataque’, sobre qual era o clube do Regime durante o Estado novo, há um aspecto que me chamou à atenção: o número de altas patentes militares que foram presidentes do Sporting.

O Comandante Joaquim Guerreiro de Oliveira Duarte, foi presidente do clube de Alvalade durante 12 anos, em dois períodos distintos (1928-29 / 1932-42). Mais tarde, nos anos 60, sucederam-se na presidência dos “leões” mais três militares de alta patente:
- O Comodoro Joel Azevedo da Silva Pascoal (1962-1963);
- O Brigadeiro Horácio de Sá Viana Rebelo (1963-1964), que uns anos mais tarde haveria de fazer parte do governo de Marcello Caetano, como ministro da defesa nacional e exército;
- O General Martiniano Piçarra Homem de Figueiredo (1964-1965).

No último programa do ‘Trio de Ataque’, Rui Oliveira e Costa afirmou que Casal-Ribeiro não marcava golos. Pois, mas ter gente bem colocada às vezes é muito útil. Por exemplo, com o início da guerra colonial, todos os homens (com idade para isso), incluindo os jogadores de futebol, tiveram de cumprir serviço militar. Contudo, os critérios de colocação de jogadores nas unidades militares não parece terem sido muito claros. Recordemos três casos de jogadores portistas:

Lemos, que se tinha destacado como goleador nos juniores portistas, e que na época de 1970/71, com apenas 21 anos, marcou 6 golos ao Benfica nos dois jogos do campeonato (2-2 e 4-0) foi mobilizado e cumpriu o serviço militar na Guiné-Bissau entre 1973-74, em condições particularmente difíceis, conforme testemunho de um seu camarada de armas. Apenas regressou ao FC Porto em Setembro de 1974, mas nunca mais foi o mesmo.

Chico Gordo, que fez parte de uma grande equipa de juniores do FC Porto (que incluía o Lemos, o Vítor Silva, o Luís Pinto, o Aníbal na baliza entre outros) estreou-se na equipa principal do FC Porto na época 1968/69 (4 jogos a titular, 8 a suplente e 1 golo) e na época seguinte disputou 15 jogos (2 golos). Viria a ser mobilizado para Angola tendo ajudado o FC Moxico a ser campeão em 1972/73, destronando o Benfica do Huambo que tinha sido campeão na época anterior.


Seninho chegou ao FC Porto com 20 anos, na época de 1969/70. Natural de Sá da Bandeira, foi mobilizado em 1972 e teve de cumprir o seu serviço militar em Angola, tendo jogado no FC Moxico entre 1972-74. Voltaria ao FC Porto em 1974/75 e viria a ser um jogador decisivo no fim do jejum portista em 1977/78 (para a história ficou a sua exibição em Manchester, que lhe abriu as portas do Cosmos de Nova Iorque).

Se jogadores do FC Porto, como Lemos, Chico Gordo e Seninho, e também de outros clubes tiveram de cumprir o serviço militar numa das ex-colónias, com o argumento de que, como de lá eram naturais, tinham de "defender a sua terra", porque razão isso não se aplicou a todos?

O caso mais mediático foi o do Eusébio, que foi colocado a uns milhares de quilómetros da sua terra natal – Moçambique – , mais propriamente em... Lisboa!

Aliás, era normal grande parte dos jogadores serem colocados em Lisboa, os do Benfica, os do Sporting e os do... FC Porto. Foi o caso do portista Serafim, que jogou com Eusébio na selecção militar (Serafim que mais tarde haveria de ser transferido para o Benfica por 2.500 contos e, depois de duas ou três épocas no SLB, foi para a Académica).

Talvez os senhores Rui Oliveira e Costa e António Pedro Vasconcelos saibam e, num futuro programa, queiram explicar os critérios “transparentes” subjacentes à mobilização e colocação de jogadores de futebol durante os 13 anos que durou a guerra colonial.
Até lá, continuará a discussão sobre qual dos dois, Benfica ou Sporting, foi mais "acarinhado" pelos interesses e homens do Regime...


(1) Foto do Presidente da República, Almirante Américo Tomás, a condecorar os futebolistas do Sporting, que venceram a Taça das Taças em 1964 (única competição europeia ganha pelo clube de Alvalade)

(2) Plantel do FC Moxico (que incluía Chico Gordo e Seninho), campeões de Angola na época de 1972/73

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Casal Ribeiro, um homem do Regime

No último ‘Trio de Ataque’, quando se falava do que era o futebol português nas décadas anteriores ao 25 de Abril de 1974, António-Pedro Vasconcelos referiu que o clube do Regime tinha sido o Sporting e não o seu Benfica, dando como exemplos o nome de dois antigos presidentes leoninos na década de 50: Góis Mota e Casal-Ribeiro.

Se Góis Mota foi recentemente recordado, a propósito do triste episódio em que entrou de pistola em punho no balneário de um árbitro, quem foi Francisco Casal Ribeiro?

Casal-Ribeiro sucedeu a Góis Mota na presidência do Sporting. Sendo Administrador da CIDLA, foi também vereador da câmara municipal de Lisboa, deputado salazarista e a voz dos chamados ultras durante o marcelismo (ver ‘Políticos Portugueses da Ditadura Nacional e do Estado Novo (1926-1974)’, de José Adelino Maltez).

E o que era a CIDLA?

A SACOR – Sociedade Anónima Concessionária da Refinação de Petróleos foi criada em 1936 e quatro anos depois, em 1940, foi constituída a CIDLA – Combustíveis Industriais e Domésticos, com 51% de capitais da SACOR, destinada à venda e distribuição de GPL. A CIDLA manteve-se sozinha no mercado até 1960. Em 1958 desenvolveu-se o mercado de gases de petróleo liquefeitos, tendo a CIDLA lançado o Gazcidla (butano) e propacidla (propano). Em 15 de Abril de 1975, foram nacionalizadas a Sacor, Sonap, Petrosul e Cidla e em 1976 nasceu a Petrogal, resultante da fusão destas sociedades petrolíferas.

Qual a importância da CIDLA na teia de interesses e influências em que Casal-Ribeiro se movia?

O testemunho de Cecília Supico Pinto, sobre o Movimento Nacional Feminino, não deixa dúvidas: «Aqui, na rectaguarda, tínhamos uma secção de empregos, dirigida pela minha irmã, Teresa Lopes Alves, sobretudo para os militares que regressavam do Ultramar. Arranjámos n empregos, desde pilotos para a TAP até pessoas para a CIDLA, através do Francisco Casal-Ribeiro.»

A posição de Casal-Ribeiro como administrador da CIDLA não servia apenas para estreitar ligações com pessoas e grupos do Regime, era também usada como agência de empregos para atletas do Sporting. O exemplo de Armando Aldegalega é elucidativo, conforme refere o próprio site ‘Centenário do Sporting’:
«Armando Aldegalega tornou-se particularmente famoso pela sua longevidade, sempre com a camisola do Sporting vestida. (...) O desporto proporcionou-lhe a obtenção das antigas terceira e quarta classes (sem quais não podia começar a competir) e um emprego, na Cidla (actual Galp).»

As ligações de Francisco Casal Ribeiro ao Regime, e particularmente aos movimentos mais radicais, duraram até à revolução de 1974. Veja-se o que refere o blog ‘Legião Patriótica’ sobre os anos anteriores ao 25 de Abril de 1974:
«O Movimento Vanguardista (MV) foi talvez o mais importante grupo fascista ante-25 de Abril. Embora a sua existência não ultrapassasse 1971, o MV, desenvolveu uma cerrada e feroz oposição a Caetano e à sua política. (...) Até 1974, nenhum outro grupo fascista seria criado. Os quadros dos grupos anteriormente referidos agrupar-se-iam na Liga dos Antigos Graduados da Mocidade Portuguesa, dirigida por Luís de Avillez e Elmano Alves, e na Força Automóvel de Choque (dependente da Legião) comandada pelo então deputado “ultra” Francisco do Casal Ribeiro.»

Francisco Casal Ribeiro foi preso na Cidla, no dia 8 de Maio de 1974, e libertado da prisão da Trafaria em 17 de Agosto de 1974.

Perante tudo isto, não surpreende que Rui Oliveira e Costa praticamente não tenha reagido, quando António-Pedro Vasconcelos acusou o Sporting de ter sido o clube do Regime. Há alturas em que o silêncio é de ouro.

terça-feira, 8 de abril de 2008

De pistola no balneário do árbitro


Pimenta Machado, antigo presidente do Vitória de Guimarães, afirmou hoje à saída do Tribunal de Gondomar, onde foi prestar depoimento como testemunha, que “o futebol português é uma mentira. Isto (processo Apito Dourado) é um apêndice. São pormenores.”

O ex-dirigente, que vive em Lisboa e chegou a ser falado como possível candidato a presidente do Benfica (clube cuja simpatia nunca escondeu), acrescentou:
«O futebol foi assim durante os últimos 50 anos. Agora dá jeito falar de Pinto da Costa. Está na moda. Porque não se fala das décadas de 50, 60 e 70 em que, inclusive, até houve um presidente de um clube que entrou de pistola no balneário a coagir um árbitro? Querem empolar, querem aumentar o share e as tiragens dos jornais. Tudo isto é um circo»

Porque não se fala das décadas de 50, 60 e 70?
Ora, deixa cá ver se eu adivinho...

Melhor ainda é a história do presidente de um clube que entrou de pistola no balneário do árbitro.
Esta história, referida hoje por Pimenta Machado, passou-se no dia 11 de Novembro de 1956, no Campo da Tapadinha, num Atlético – Sporting.
Ao intervalo o jogo estava empatado 1-1 e, pelos vistos, o presidente do Sporting – Carlos Góis Mota – não estava a gostar da arbitragem de Braga Barros, árbitro de Leiria. Vai daí, não esteve com meias medidas, invadiu a cabine do árbitro e, segundo foi referido na altura, de pistola em punho “aconselhou-o a tomar mais atenção na 2ª parte pois poderia prejudicar-se”.

Não, não é verdade que Góis Mota fosse da PIDE. Era “apenas” presidente da Legião Portuguesa, uma milícia criada em 1936, que estava sob a alçada dos Ministérios do Interior e da Guerra, e que nas décadas de 50 e 60 se caracterizou pela perseguição e repressão às forças oposicionistas ao regime, para a qual contribuiu o seu Serviço de Informações e a sua vasta rede de informadores.

Nota: O Dr. Carlos Cecilio Nunes Góis Mota tomou posse como presidente do Sporting em 28 de Janeiro de 1953 exercendo o cargo até 31 de Janeiro 1957. Participou por mais nove vezes na Direcção do Clube, duas como vogal e sete consecutivas como vice-presidente, desde 19 de Janeiro de 1946 a 30 de Janeiro de 1952.

Que este facto não sirva para manchar a história "imaculada" do Sporting. Toda a gente sabe que o Sporting sempre foi um clube de gente seríssima, acima de qualquer suspeita e que nunca, mas nunca, se envolveu em manobras nos bastidores do futebol...

De certeza que este caso é uma excepção... quer dizer, também houve os casos do Mário Luís (“o chinês”), do auto-golo de Manaca (previamente anunciado), da “fruta” para o árbitro inglês Howard King, das máquinas fotográficas para o árbitro Donato Ramos, etc., etc., mas pronto, são situações que foram muito empoladas...