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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O caso Calabote (II)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF

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II. A pouco inocente nomeação de Calabote

Chegados à última jornada do Campeonato Nacional da I Divisão da época 1958/59, tudo se ia decidir a 23 de Março de 1959, com o FC Porto a deslocar-se a casa do Torreense e o Benfica a receber na Luz o Desportivo da CUF.

Para um jogo que se previa escaldante, com o estádio da Luz totalmente esgotado, a Comissão Central de Árbitros entendeu nomear o Sr. Inocêncio Calabote (AF Évora), um árbitro de má memória para os portistas.

Mas afinal, quais eram os antecedentes de Inocêncio Calabote e que desaconselhariam a sua nomeação para um dos dois jogos decisivos, ainda por cima envolvendo o SLB?

Recuemos no tempo para relembrar os factos que estiveram na origem da fama que o Sr. Calabote já tinha (antes do Benfica-CUF).


Época de 1953/54

30 de Novembro de 1953, Sporting–FC Porto: vitória dos “leões” por 2-1, mas com o segundo golo, apontado por Vasques, a ser muito polémico.

No final do jogo, um Barrigana revoltado afirmou: “Quando a bola vinha no ar, a cair sobre a baliza, fiz-me ao lance para a captar, o Vasques antecipou-se e enfiou-a nas redes com um soco.”

O autor do golo retorquiu: “Foi um golo limpo, de cabeça, aliás o árbitro estava mesmo ao pé de mim.”

Quanto ao árbitro – Inocêncio Calabote – garantiu não haver tido dúvidas (mal seria se dissesse o contrário...) e afirmou:
E se eu expulsasse o Barrigana pelas atitudes que tomou? Essa foi a parcialidade de que me acusaram os portistas! Barrigana foi indisciplinado, só a responsabilidade do encontro é que me levou a não o expulsar pelo seu comportamento e pelas suas ameaças...”

Que rico árbitro! Diz que foi ameaçado por um jogador e não o expulsou... Pois, devia estar com a consciência pesada...

Anos depois, numa entrevista que deu após o final da carreira, o sportinguista Vasques reconheceu que esse célebre golo tinha sido de facto marcado com a mão.

Nota: Recorrendo a factos irrefutáveis, irei demonstrar ao longo destes artigos que Inocêncio Calabote era um individuo que mentia comprovada e descaradamente, incluindo naquilo que escrevia nos relatórios dos jogos.

Francisco Guerra (árbitro), Abel da Costa e Inocêncio Calabote, jogo Espanha-Turquia, em Chamartin, a 06/01/1954 (foto: Boletim 'O Árbitro', Nº5, Novembro de 1957)



Época de 1956/57

O FC Porto tinha como treinador Flávio Costa, o qual veio substituir Yustrich, e que antes de chegar ao Porto tinha no seu curriculum ter treinado dois dos maiores clubes brasileiros (o Vasco da Gama e o Flamengo) e sido seleccionador do Brasil.
Segundo relatos da época, bem como de quem assistiu e ainda é vivo, os azuis-e-brancos jogavam um futebol que deslumbrava e rapidamente se isolaram na liderança do campeonato. Após vencerem o Sporting (2-0), Belenenses (5-0) e Vitória de Setúbal (7-1), no início de 1957 também o Benfica foi derrotado nas Antas de forma concludente (3-0), isto apesar de Monteiro da Costa ter sido expulso ainda na primeira parte (aos 40 minutos).

O FC Porto estava embalado para a revalidação do título de campeão mas, como era habitual nesse tempo, houve forças exteriores que começaram a meter pedras na engrenagem.

Primeiro com a chamada de vários jogadores portistas a trabalhos da Selecção realizados em Lisboa. Ora, há 50 anos uma deslocação Porto-Lisboa não se fazia de auto-estrada, confortavelmente instalado, com ar condicionado, em duas horas e meia. O desgaste destas viagens era enorme e, indignado com estágios marcados em momentos cruciais da época, Flávio Costa acusou a Federação de “os impedir de treinar-se como deveria ser”.

Depois veio o Sporting-FC Porto, da 18ª jornada, disputado no dia 13 de Janeiro de 1957. O jogo teve uma arbitragem altamente polémica, tendo os azuis-e-brancos sido derrotados por 1-2.
No final do desafio, jogadores e treinador do FC Porto não calavam a sua revolta.

«O juiz de linha chamou-me parvo quando lhe reclamei um fora-de-jogo. E foi mais longe, utilizando termos ainda de maior incorrecção. Absolutamente lamentável, a linguagem que me dirigiu. E houve muita maldade nesta partida. Os sportinguistas mostraram-nos muitas vezes as solas das botas
Osvaldo Cambalacho

«Os jogadores do Sporting foram à liça apenas para não nos deixar ganhar, dando duro, sem bola
Hernâni

Flávio Costa não aguentou tamanha roubalheira e disse: "a arbitragem desse tal Calabote foi péssima".

Calabote?!! Pois é, foi ele mesmo que arbitrou esse Sporting-FC Porto de má memória da época 1956/57.

«Quando corria em todos os portistas a imensa esperança, um empeço, em Alvalade: derrota por 1-2, os benfiquistas outra vez à perna. Mas começavam a pressentir-se zoadas de forças secretas no caminho – com Inocêncio Calabote na ribalta
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA

Pedroto, perante o que se tinha passado e quase direi premonitório daquilo que haveria de ocorrer dois anos depois, não teve papas na língua e no final do jogo afirmou: “terei todo o prazer em ver Inocêncio Calabote na lista negra”.

Pedroto num FC Porto–Sporting da 2ª metade da década de 50 (foto: ‘Glórias do Passado’)


Mas há mais. Nos 26 jogos da época 1956/57, Inocêncio Calabote foi nomeado para arbitrar o Benfica em cinco ocasiões:
11ª jornada, Barreirense – Benfica (2-4)
13ª jornada, Académica – Benfica (0-0)
15ª jornada, Sporting – Benfica (1-0)
22ª jornada, Setúbal – Benfica (2-3)
26ª jornada, Benfica – Académica (2-0)

Que regra ou critério esteve na base de se ter nomeado o mesmo árbitro – Inocêncio Calabote – para arbitrar quase 20% dos jogos de uma equipa – o SLB?
Havia alguma razão ou interesse especifico para nomear Calabote para tantos jogos do SLB?

Pior. Como é possível que esse árbitro tenha sido nomeado para arbitrar quatro dos jogos que essa equipa fez fora de casa, três dos quais seguidos (11ª, 13ª e 15ª jornadas)?
Imagine-se como reagiriam os benfiquistas (ou sportinguistas) e a sempre “isenta” imprensa de Lisboa se um árbitro conotado com o FC Porto fosse nomeado para arbitrar 30% dos jogos que os “dragões” fizessem fora de casa... De certeza que não era só o Carmo e a Trindade que cairiam...

Mais ainda. Nas últimas cinco jornadas da época 1956/57 o Sr. Calabote apitou dois jogos do Benfica incluindo, claro está, o decisivo jogo da última jornada (tal como iria acontecer dois anos depois).

Tudo absolutamente normal, não é?
Pois, parece que naquele tempo era.


Época 1957/58

19ª jornada, Benfica-FC Porto: os azuis-e-brancos venceram por 3-2, mas o que marcou este jogo, arbitrado por Calabote, foi a expulsão do melhor goleador do FC Porto e as consequências e (in)decisões subsequentes da FPF.

«Inocêncio Calabote pôs mascarra na tarde, ao expulsar o portista António Teixeira, num lance que suscitou dúvidas, muitas dúvidas.
Espantado, com as lágrimas bailando-lhe nos olhos, ciciou: “Sinceramente, não sei por que fui expulso. A jogada foi viril, mas não bati em ninguém. O Serra cuspiu-me na cara e eu, nesse instante, empurrei-o, perguntando-lhe apenas se isso se fazia. Claro que fiquei indignado, mas não bati em ninguém, nem sequer esbocei essa intenção.”»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA

No seu relatório Calabote escreveria: «Teixeira foi expulso porque bateu na cara do adversário.»

Com base no relatório de Calabote, o castigo aplicado a Teixeira foram três jogos de suspensão.
Inconformados, os dirigentes do FC Porto solicitaram à FPF a relevação da pena ou, no mínimo, a sua suspensão até à conclusão do inquérito que foi aberto (no estádio ninguém tinha visto a agressão).

A FPF recusou a solicitação do FC Porto e a Direcção Geral dos Desportos disse o mesmo.

«Demonstraram ambas, sem sequer cuidar de guardar as aparências, que agiam com dois pesos e duas medidas, até porque antes vários clubes lograram efeitos suspensivos em processos semelhantes de penalização de atletas seus
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA

Em meados de Março de 1958, com o campeonato quase concluído, a FPF emitiu, finalmente, um comunicado a propósito do caso Teixeira.

«Que sim, admitia-se que Teixeira fora mesmo mal expulso durante o jogo com o Benfica, que, por isso, fora injusta e ilegalmente obrigado a um castigo de que os dirigentes do FC Porto logo recorreram, pedindo baldadamente o efeito suspensivo que o regulamento da Federação estabelece e que tem sido concedido a todos os outros clubes portugueses que o invocam, mas que decidira passar uma esponja sobre tudo. Mais: ao fim de dois meses de inquérito (dois meses!) confirmava-se o que milhares de espectadores do Estádio da Luz já sabiam: que Teixeira nada fez que merecesse o castigo de expulsão – mas que o FC Porto tomasse tudo à conta de lamentável incidente ou partida do destino!»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA

O timing e conteúdo deste comunicado da FPF diz quase tudo sobre o que era o Sistema do antigamente. E, claro, demonstra que Calabote mentiu descaradamente no relatório do jogo.

No final do campeonato Sporting e FC Porto somavam ambos 43 pontos, mas com vantagem para os “leões” que assim ganharam mais um campeonato marcado por calabotices e pelos dois pesos e duas medidas da FPF.

Miguel Arcanjo, Yustrich e Teixeira, Outubro 1987 (foto: Revista 'Dragões', Novembro de 1987)


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Repare-se na quantidade de casos (e graves!) que já tinham envolvido Calabote em jogos do FC Porto contra Sporting e Benfica, não por acaso disputados em Alvalade e na Luz. Por tudo isto, Inocêncio Calabote era, pelas piores razões, um árbitro bem conhecido dos adeptos portistas. Foi pois com um misto de indignação e apreensão que no Porto se soube da nomeação de Calabote para um dos jogos decisivos da última jornada da época 1958/59.

Mas não foi só a "imprudente" nomeação de Calabote que marcou os dias que antecederam a última jornada do campeonato nacional de 1958/59. Os “tentáculos” do Sistema eram muitos e fizeram-se sentir em outras manobras de bastidores.

(continua: ‘Os estágios das selecções em Lisboa’)

Fontes:
[1] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[2] 'Norte Desportivo', Março de 1957
[3] ‘Paixão pelo Porto’, Julho de 2008


Fotos: ‘Paixão pelo Porto’, ‘Glórias do Passado’, Boletim 'O Árbitro' Nº5