Por Filipe Sousa (*)
Anteontem, como quase todos os dias, as escutas ao Pinto da Costa (PC) vieram à baila. Não porque um dos fedorentos se lembrou de referi-las, repeti-las ou parodiá-las numa das muitas crónicas pseudo-cómicas (ou lavagens cerebrais?) que escrevem diariamente, mas porque finalmente - o meu grande bem-haja! - alguém fez o favor de torná-las públicas.
Assim que tive oportunidade, procurei ouvi-las, não movido pela curiosidade mas pela necessidade de saber o que fora dito de facto, e se correspondia ou não a aquilo que os almuadems impressos nos impingem diariamente como sendo A verdade. Em todo o caso, o conteúdo geral das escutas já não era novidade, tendo algumas das transcrições já sido publicadas nos ditos almuadems, de forma tão exaustiva e repetitiva que não há hoje benfiquista, que não saiba recitar palavra por palavra as ditas escutas. Aliás, faço aqui uma sugestão à Planeta Agostini, para que considere editar as escutas do PC numa daquelas colecções em vários fascículos, com CD incluído - mesmo agora, um sucesso de vendas garantido.
Poupei-me ao trabalho de fazer qualquer pesquisa no google ou no próprio youtube - bastou-me ir ao minaret... perdão, blog "antitripa", e sem surpresa já lá estava o link para os ditos vídeos; aposto que o tal "tripulha do uganda", é um dos membros desse blog, que aqui há uns anos mantinham outro, o "golden whistle", em que procuravam difamar o Porto além fronteiras.
Ouvidas as escutas em que intervém o PC, reti alguns factos: no caso da "fruta", é o próprio Jacinto Paixão - se é que o "JP" é mesmo o Jacinto Paixão, e não o Joaquim Pinheiro, irmão do Reinaldo Teles; mas vamos aceitar que é o primeiro - que pede a dita "fruta", o que convenhamos, é um pouco estranho quando quem foi acusado de corrupção activa foi o Pinto da Costa - que raio de corruptor é que não oferece nada, ou está à espera que os corrompidos venham ter com ele?
Já no "caso do envelope", não há grandes novidades, continuando sem explicação o que levou o Augusto Duarte a casa do PC - mas se as motivações são desconhecidas, não vejo porque se há de partir logo do princípio de que houve algum ilícito. As restantes escutas são pura e simplesmente ridículas. Já vi por aí muitos lampiões indignados com o António Tavares-Telles, interveniente nas escutas, por ser um "vendido ao serviço do Pinto da Costa". São opiniões e há que respeitar. Eu podia contrapor com os exemplos do Rui Santos, do José Manuel Delgado ou do João Querido Manha, mas não seria correcto porque a verdade é que eles não são jornalistas ... Pelo menos, eu tenho alguma reserva em considerar como Jornalismo, relatos como o do jogo de quarta-feira para a Taça de Portugal, feitos na TVI: cada jogada de perigo do Belém era acompanhada por um guinchinho de entusiasmo; pelo contrário, as jogadas do Porto pareciam o relato de um velório; fantástico é que há lampiões que acham que o Sousa Tavares é simpatizante do Porto ...
Resumido, apesar das escutas serem um nojo e altamente sujeitas a interpretações variadas, conforme dá jeito a quem as lê/ouve, o PC não sai muito bem disto tudo, como já se sabia. Não se percebe a sua ligação com o Araújo, que se nota ser um escroque da pior espécie, nem o porquê de receber um árbitro em casa, e logo em vésperas de um jogo que este iria arbitrar. Qualquer observador externo e imparcial, constataria que o Porto tem tido equipas e futebol que justificam os títulos que tem conquistado, pelo que estas "cortesias" aos árbitros são incompreensíveis, a não ser que estes as exijam - reforço, é o JP que pede a "fruta" - sob pena de prejudicarem as equipas que não as atendem ...?
É também curioso que nestas escutas não se ouve uma única vez aquelas que neste caso seriam as expressões mágicas - "eu quero" ou "eu exigo". PC é o magnífico corruptor a quem os corrompidos se oferecem, e quem sim, faz exigências. PC limita-se a ser inquirido por Pinto de Sousa, sobre a nomeação do árbitro X para o jogo Y, de novo inquirido por António Araújo acerca do pedido do JP, e por sua vez pede um "favor" ao Major. Acho que é legítimo dizer que, no mínimo, PC é um corruptor fraquinho porque raramente pede ou exige seja o que for.

Por fim, o que é verdadeiramente revoltante é que são estas escutas - e a haver outras, não serão muito mais comprometedoras, ou teriam sido também divulgadas - que provam 20 e muitos anos de crimes, de corrupção, de batota, quando em situações idênticas - escutas - em que o Impoluto-Mor Luís Filipe Vieira se viu envolvido, toda a gente age como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, seja a escolher árbitros, seja a conluiar com membros de uma organização criminosa que faz vigilância a membros de outras claques, que rouba, mata, lida com armas e droga e tem sede no Estádio da Luz. E o mais grotesco, é a forma como branqueiam anos e anos de gestão danosa - Jorge de Brito, Damásio, Vale e Azevedo ... - com um suposto "sistema" arquitectado pelo PC, e deliberadamente esquecem episódios como os 7-0 de Vigo, e outras exibições memoráveis contra o Bastia, o Halmstads, Metalyst e demais humilhações, como demonstrações cabais de falta de capacidade e qualidade. Não foi o PC, o Augusto Duarte ou o Jacinto Paixão, que demitiram um treinador campeão (Toni), que descartaram o Jardel, o Deco, o Maniche, ou o João V. Pinto. E se de facto estas escutas são a "ponta do iceberg", alguém pode explicar como é que o todo-poderoso Pinto da Costa, que tudo corrompe e controla, que chegou ao ponto de "destruir" o Portimonense, permite que ainda hoje, e depois do famoso jogo de Campo Maior, que seja permitido ao Bruno Paixão arbitrar jogos do Porto (ou ainda ser árbitro sequer)? Isso é que dava uma escuta ...!
Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Filipe Sousa a elaboração deste artigo.