II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa
----------
IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense
No jogo com o FC Porto ao Sport Clube União Torreense só a vitória interessava, porque esse era o único cenário que lhe permitiria acalentar a hipótese de escapar à descida de divisão. Contudo, segundo uma notícia do JN, “dizia-se em Torres Vedras, e os jogadores locais sorriam quando em tal lhes falava, que havia um prémio de cinco mil escudos para cada um no caso de conseguirem empatar ou pelo menos sofrer poucos golos.”Nota: Veremos que durante o jogo, treinador e jogadores do Torreense estiveram sempre mais preocupados com os interesses do SLB do que na sua própria situação, ao ponto de continuarem a fazer anti-jogo e a queimar tempo mesmo quando já estavam a perder (resultado que os atirava inapelavelmente para a 2ª divisão).
Na semana que antecedeu o jogo, o Torreense transformou-se numa espécie de Benfica B, com os treinos a serem orientados por elementos dos encarnados.
Como se tal não bastasse, no dia do jogo aconteceu o impensável. O treinador-adjunto do Benfica – o argentino Valdivielso – sentou-se no banco de suplentes (!!) de onde deu instruções aos jogadores do Benfica B... perdão, do Torreense.
Alguns benfiquistas, cujo fair play, ética e moral desportiva só se aplica aos outros, desvalorizam este inacreditável episódio, dizendo que Valdivielso era um elemento pouco importante na estrutura benfiquista, o que fez com que o árbitro do jogo não o tenha reconhecido e, por isso, permitido que ele continuasse no banco de suplentes do Torreense.
Este argumento, além de ser ridículo, é mentira.
José Valdivielso não era um elemento menor da estrutura do futebol encarnado e muito menos um desconhecido do público.
Em 1954 assumiu o cargo de treinador principal do Benfica e, por exemplo, durante esse período orientou a equipa em cinco derbies.
Depois, e durante quatro épocas consecutivas (entre 1954/55 e 1958/59), foi treinador-adjunto de Otto Glória, a quem haveria de suceder durante uns meses na transição do treinador brasileiro para o húngaro Bela Guttmann (de quem continuou a ser treinador-adjunto).
Plantel do SLB 1961/62
De notar que em 1954, o “pouco importante” Valdivielso ganhava, como treinador-adjunto do SLB, 6 contos por mês, tanto como José Szabo (treinador de campo do Sporting), Fernando Riera (treinador do Belenenses) e apenas menos um conto que Fernando Vaz (treinador do FC Porto).
Para além de treinador-adjunto, Valdivielso era também responsável pelos treinos de captação. Acerca destas funções, José Henrique, guarda-redes do SLB entre 1967 e 1976, contou a seguinte estória:
"Tinha treze anos na altura [época 1956/57]. Fui aos treinos de captação e, naquela altura eram trezentos ou quatrocentos miúdos que iam para o Campo Grande. O treinador era o Valdivielso. Ele pediu um guarda-redes e eu levantei a mão. (…)O Valdivielso estava na parte de cima a ver o treino, a observar os seniores, começou a ver-me a defender e, quando acabou o treino, pôs-me na baliza com eles todos a chutarem. Resumindo e concluindo, já não me deixou sair, meteu-me dentro do carro, trouxe-me para a rua do Jardim do Regedor para assinar contrato."
Ou seja, Valdivielso era uma espécie de treinador da casa, onde trabalhou cerca de 10 anos, tendo desempenhado diverso tipo de funções (incluindo orientar outras equipas em jogos oficiais contra adversários directos do SLB...).
O que disseram os jornais sobre este estranho e inédito caso (mais um naquela época)?
«Surpreendeu toda a gente a presença de Valdivielso, treinador-adjunto do Benfica, nos bancos dos técnicos do Torreense. Na verdade, o técnico benfiquista "viveu", longe da Luz, os "assaltos" finais deste emocionante campeonato. Findo o jogo fomos encontrar Valdivielso, chorando na cabina do Torreense.
Quisemos saber a razão da sua presença e acabámos por ser esclarecidos por Fernando Santos, orientador técnico da equipa de Torres Vedras, que nos afirmou: “Valdivielso não teve qualquer interferência na orientação da equipa, nem nós a aceitaríamos sequer. Veio a Torres como espectador e só por deferência esteve sentado junto a mim.”»
A BOLA
O ‘Mundo Desportivo’ (23/03/1959) reproduz a versão de Valdivielso, em que este diz que «chegou à porta do campo e o fiscal negou-lhe a entrada porque o cartão não tinha validade. Os bilhetes estavam esgotados e dificilmente conseguiria lugar na geral. Foi saudar os treinadores do Torreense e contou-lhes o sucedido. Estes, "como cavalheiros", convidaram-no a sentar-se no banco, o que aceitou. Disse ainda que foi ver o jogo para observar um jogador do Torreense num jogo de responsabilidade com vista a futura contratação.»
O ‘Norte Desportivo’ (26/03/1959) publica uma imagem de Valdivielso no banco do Torreense e refere:
«Antes do encontro, o treinador-adjunto dos encarnados esteve nos vestiários da equipa local e ali ministrou uma prelecção de ordem técnico-táctica. Depois acompanhou a equipa até ao terreno e, com o mais espantoso à-vontade, sentou-se no chamado banco dos técnicos.
Durante o jogo (...) deu instruções para o campo, fez gestos teatrais, refilou com o juiz-de-linha e até interferiu num ligeiro episódio com Hernâni.»
Em 02/04/1959, o ‘Norte Desportivo’ publicou uma entrevista de António Costa, defesa do Torreense, em que este diz:
"Bem, ele não nos treinou. Esteve na cabina a conversar connosco e, depois, foi sentar-se no banco dos nossos técnicos. Mas não nos deu indicações algumas.
A verdade é esta: receberíamos, por intermédio dele, um prémio se vencêssemos ou perdêssemos com o Porto por margem escassa. Cinco contos a cada jogador. (...) quero esclarecer um ponto: Valdivielso não chorou na cabina, por termos perdido. Limitou-se a regressar a Lisboa com o dinheiro..."
Para além da ridicula explicação de Valdivielso, repare-se na contradição entre o que diz A BOLA (“fomos encontrar Valdivielso, chorando na cabina do Torreense”) e o jogador do Torreense (“Valdivielso não chorou na cabina por termos perdido”). Podiam ter ensaiado melhor...
Como prova do bom relacionamento e para selar o “pacto de amizade” entre os dois clubes, após o final do campeonato e antes de se iniciar a disputa da Taça de Portugal, Benfica e Torreense fizeram dois jogos entre si, um em cada campo, para manter a forma...
Nem o SLB, nem o Torreense, nem Valdivielso sofreram qualquer punição da parte da Federação Portuguesa de Futebol ou da Direcção Geral dos Desportos.
Zelar pela defesa da ética e da moral desportiva fazia parte das competências destas duas entidades, mas era algo que elas só costumavam aplicar a outros clubes mais a Norte...
(continua: ‘V. Deus deu o campeonato à melhor equipa’)
Fontes:
[1] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008
[2] ‘Todos os treinadores do Benfica’, Maisfutebol Especiais, Novembro de 2007
[3] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995