Por Miguel Lourenço Pereira
Não são muitos os clubes que têm de enfrentar o peso da mudança de um ciclo poucos dias depois de se sagrarem reis da Europa. A saída, previsível mas tempestiva, de José Mourinho abriu um vácuo que parecia ser impossível de tapar. Pinto da Costa procurou a surpresa com que ninguém contava mas o risco pareceu-lhe demasiado e voltou atrás, mesmo antes da bola começar a rolar. Afinal, quais foram os pecados mortais de Luigi “Gigi” Del Neri?
Numa dessas noites quentes do Julho de 2004, o FC Porto defrontou o Liverpool. O titulo europeu conquistado sem discussão em Gelsenkirchen permitia ao clube do Dragão conseguir um cachet considerável num torneio de campeões nos States. A oferta era impossível de recusar. Camisola nova, rostos novos e um ambiente pesado. A imprensa veiculava um (real) mal-estar entre o novo técnico e os pesos pesados do balneário. As “vacas sagradas” não gostavam dos métodos de treino e de relação do novo técnico com o plantel, depois da experiência “cientifica” com Mourinho. O técnico sadino tinha levado consigo Ricardo Carvalho e Paulo Ferreira, enquanto que Deco (que tinha a transferência para o Barcelona garantida) Dimitri Alenitchev e Pedro Mendes também tinham abandonado o navio. Mas havia mais jogadores com vontade de abandonar o Porto. Derlei, Carlos Alberto, Costinha, McCarthy e Maniche à cabeça. Do outro lado, o grupo de veteranos da casa, liderados pelos capitães Baía, Jorge Costa e Pedro Emanuel, mostrava-se pouco partidário dos métodos do italiano e, mais ainda, da possibilidade de ficar de fora dos seus planos radicais. Nessa noite o FC Porto fez, talvez, a sua melhor exibição da época. Era um amigável, é certo. Mas o rival viria a suceder aos “dragões” como rei da Europa. E as mudanças no terreno de jogo face ao mandato Mourinho estavam à vista. Pinto da Costa não tinha trazido um técnico italiano convencional.
Del Neri foi um jogador medíocre e um técnico desconhecido até que aterrou em Verona. No Chievo, o segundo clube da cidade, fez milagres e levou os gialloazule da Serie B à Taça UEFA em dois anos, sempre assente num estilo de jogo ofensivo, que apostava num 4-4-2 aberto que rapidamente se transformava num 4-2-4. Um jogo sustentado por rápidas transições nos flancos e um meio-campo de combate. A sua escolha para treinar o FC Porto surpreendeu tudo e todos e chegou a uma equipa com um plantel que contava com muitas caras novas, como os laterais Seitaridis e Rossato, o central Pepe, o artista Quaresma, o médio Raul Meireles e o regressado Hélder Postiga. Depois da pré-temporada na Holanda onde o técnico começou a ensaiar o novo esquema táctico a equipa partiu para a digressão americana. E a contagem decrescente começou.
Neste ponto entramos já no campo das suposições porque Del Neri sempre teve o carácter de não querer fazer sangre, mantendo nas suas declarações que saía por vontade própria. Motivos familiares, evocou. Só que é difícil acreditar no italiano, especialmente a julgar pelos eventos que marcaram o ano azul e branco. Por um lado a direcção teve de lidar diariamente com os campeões insatisfeitos. Os problemas entre Derlei e Carlos Alberto, as saídas forçadas para a Rússia do brasileiro e também de Maniche e Costinha espelham bem o ambiente de “cortar à faca” que se vivia no balneário. Por outro lado estava o núcleo duro da casa. Os títulos da era Mourinho consagraram definitivamente a carreira de Baía, Jorge Costa ou Pedro Emanuel. Mas esses eram os principais alvos do novo técnico que entendia ser necessário sangue fresco para manter a dinâmica. Numa defesa rápida, em linha, jogadores veteranos e mais lentos como Emanuel e Jorge Costa seriam naturalmente rendidos por Pepe ou Ricardo Costa, as apostas do técnico. Uma questão de feeling, como quis Guardiola designar o caso Eto´o, muito similar a este. Com a diferença de que, aí, ganhou o treinador.
O certo é que a direcção, encurralada entre os dois grupos, teve de tomar uma posição. Manter a aposta em Del Neri, dando-lhe plenos poderes, significava hostilizar os capitães sem resolver o problema dos insatisfeitos. Ao contrário, apostar num técnico mais convencional, como se revelou Victor Fernandez, seria manter a velha guarda em paz à medida que os casos mais bicudos iam sendo resolvidos. Del Neri esteve sempre só. O seu despedimento espelhou bem a desorganização do clube sem Mourinho, dando a ideia de que foi o português a tapar os problemas que já se vinham manifestando desde o final de mandato de Fernando Santos.

O ano perdeu-se em duas trocas de técnicos, várias transferências goradas, muitos tiros no pé e uns quantos favores arbitrais. No entanto, serviu de lição. Na época seguinte Pinto da Costa teve a coragem que lhe faltou com Del Neri e voltou a apostar num técnico “revolucionário” que colocou de parte os três capitães (Jorge Costa saiu, Pedro Emanuel passou a figura secundária e Baía foi rendido por Helton) à medida que ia montando um esquema talvez não muito distinto ao que tinha idealizado o italiano. Uma revolução com um ano de atraso que abriu um ciclo de quatro títulos seguidos. Enquanto isso Del Neri voltou a mostrar, em Itália, que o seu modelo funcionava, como técnico do Palermo, Atalanta e Sampdoria. Agora viaja a Turim para ressuscitar a “Vechia Signora”. E nós ficaremos sempre com a dúvida na garganta. Perdemos um ciclo histórico de invencibilidade pela pressão das “vacas sagradas” do balneário? A imaginação de cada um terá a resposta.
Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Miguel Lourenço Pereira a elaboração deste artigo.