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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Uma Muito Importante Efeméride: o Título de 1984/85




Completaram-se este ano trinta anos do nosso titulo de campeões nacionais em 1984/85, uma efeméride que passou praticamente despercebida. Mas esse título foi importantíssimo, a vários níveis.

No historial do F.C. Porto, bem como no imaginário dos adeptos que conhecem a história do clube, o título de 1977/78, quebrando o famoso jejum de dezanove anos, acabou por fazer esquecer o significado de outros títulos nacionais posteriores. Mas a vitória no campeonato de 1984/85 teve vários significados muito importantes:

1. A verdade é que, em 1984/85 quebrámos outro "mini-jejum", que já vinha de 1979, ano do segundo título de José Maria Pedroto;

2. Tratou-se do primeiro título de campeão nacional de Jorge Nuno Pinto da Costa como presidente, o que lhe permitiu cimentar a sua posição de líder e calar as últimas vozes que ainda não tinham digerido o "Verão Quente das Antas" de 1980;

3. Foi também o primeiro titulo de campeão nacional de Artur Jorge, à sua primeira tentativa, e quando muita gente ainda exibia dúvidas quanto à sua capacidade;

4. Provou-nos que podíamos ganhar sem Pedroto. O grande Zé do Boné partira deste mundo em Janeiro de 1985, a meio dessa época, portanto. Nos vinte cinco anos anteriores só ele tinha ganho alguma coisa no F.C. Porto: dois campeonatos e três Taças de Portugal;

5. Mostrou a nossa renovada capacidade de fazer das fraquezas forças: no defeso anterior a essa época, o Sporting, servindo-se de uma cláusula muito portuguesa no contrato colectivo dos futebolistas (ainda existe contratação colectiva para eles?) tinha desviado dois nossos fundamentais jogadores, António Sousa e Jaime Pacheco. Tivemos que lançar às feras duas recentes contratações, Quim e André, os quais responderam magnificamente. Mas, mais que isso, servindo-nos da mesma bizarra cláusula, retaliámos, subtraíndo ao Sporting um dos maiores talentos de sempre do futebol português, o nosso caro e sempre estimado Paulo Futre.

O título de 1984/85 tem vários "pais", claro: Pedroto, cujo trabalho estivera na base dessa grande equipa, Jorge Nuno Pinto da Costa, homem de sangue frio e galharda atitude nessas difíceis circunstâncias, Octávio Machado, treinador-adjunto de grande gabarito, mas, fundamentalmente, o homem do leme, o técnico que, dois anos depois, nos faria agarrar o "grande caneco" numa célebre noite em Viena: Artur Jorge.

sábado, 2 de maio de 2015

UMA GRANDE ESTREIA E UMA GRANDE TIRADA



30 de Junho de 1968, Lourenço Marques (actual Maputo). Portugal defronta o Brasil num jogo amigável e sai derrotado por 2-0.

Este jogo tem especial importância para nós, portistas, pois tratou-se do jogo de estreia de Fernando Pascoal Neves (Pavão, na foto) na Selecção Nacional. O flaviense seria substituído aos 55' pelo nosso antigo jogador e futuro treinador Artur jorge, à altura jogador da Académica ("substituí o melhor em campo", diria Artur Jorge).

Mas a melhor peripécia veio perto do final do jogo. Faltavam dois minutos, e o seleccionador nacional, José Maria Antunes, mandou entrar o nosso jogador Rolando. Este, visivelmente agastado, virou-se para ele e disse: "Entre você!"

Pavão e Rolando foram durante alguns anos os solitários representantes do F.C. Porto na Selecção - e nem sempre. Neste jogo, também o guarda-redes Américo alinhou.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Treinador - Mudar ou não mudar, eis a questão!

É a primeira derrota para o campeonato. Quem cresceu com o FC Porto nos anos 80 e 90 sabe perfeitamente que os campeonatos ganham-se com vitórias, empates e também com derrotas. Todos as vivemos. Mas a geração pós-Gelsenkirchen cresceu noutro mundo. Para isso contribuiu, sobretudo, a anemia de qualidade do nosso futebol. Nos últimos anos dois clubes - FC Porto e SL Benfica - quase nunca perdem, raramente empatam e dominam a belo prazer o campeonato decidindo, quase sempre entre si, o título. A péssima situação do Sporting, a incapacidade do Braga de dar o salto e a ausência de uma versão real do Boavista entre 1992-2004 ajuda a explicar essa situação. Mas não só. A diferença de orçamentos exige, praticamente, que FC Porto e SL Benfica não percam. Nunca as diferenças com o resto foram tão grandes na qualidade individual, nos planteis disponíveis, nos ingressos e nos gastos. Por isso hoje, para um adepto do FC Porto, perder um jogo tornou-se num drama. Pode não haver margem de manobra.

Pessoalmente sou contra o despedimento de treinadores durante a temporada.
Acho que quem arranca o barco deve levá-lo até ao fim, passe o que passar. Sobretudo porque a responsabilidade é de muitos, não só sua. Num clube como o FC Porto, onde muitas das decisões são tomadas sem ter em conta (ou em muitos casos, apesar da opinião do) o que pensa o treinador. Mas o futebol é o que é e não sou eu quem o vai mudar e muitas vezes a mudança de um só homem tem o condão de despertar outros 25. No nosso caso com particular sucesso...no ano seguinte!

Remontando-me apenas à era Pinto da Costa, houve apenas 4 treinadores despedidos durante a época (não conto aqui, naturalmente, com Del Neri e Adriaanse porque estavamos no defeso em ambos casos). A primeira vez foi com Quinito. Despedido à 11º jornada em 1988, nesse ano o FC Porto foi treinado brevemente por Murça antes de confirmar-se o regresso do "rei Artur". O FC Porto não foi campeão (o título foi para o Benfica) mas preparou-se para mais um título na temporada seguinte com o nosso primeiro campeão europeu. Depois foi a vez de Ivic, em 1993. O sérvio, voltou ás Antas sem sucesso. Quando saiu o FC Porto era terceiro no campeonato e para o seu lugar chegou Bobby Robson, recém-despedido de um líder Sporting. Com o inglês não só se ultrapassou o Sporting como se desenhou a base do que seria o Penta. A terceira vez sucedeu com Octávio Machado. Conseguiu passar o Natal mas não sobreviveu a Janeiro e com ele vivemos outro ano negro, terminando a época em 3º apenas graças a um grande sprint liderado por...José Mourinho. Não é preciso explicar o resto. Só por uma vez, a última, o homem que substituiu o treinador despedido não funcionou na época seguinte. Porque não estava lá. Victor Fernandez foi campeão do Mundo mas os maus jogos no Dragão e a irregularidade de uma equipa de campeões europeus e contratações de luxo custou-lhe o lugar. José Couceiro não fez melhor, o titulo perdeu-se no último dia e o treinador foi-se embora abrindo caminho a um novo Tetra, conquistado entre Adriaanse e Jesualdo.

Quer isto dizer que mudar de treinador, no FC Porto, além de ser algo raro (Carlos Alberto Silva, Fernando Santos, Jesualdo Ferreira e Vitor Pereira sofreram contestação dos adeptos, tal como Paulo Fonseca, durante a época mas o presidente não os deixou cair e o resultado foi positivo, salvo com Fernando Santos!) só dá resultados à posteriori. Mudar hoje de treinador não garante, portanto, tendo em base a nossa experiência, um passaporte automático para o sucesso. Claro que há uma primeira vez para tudo.
O último campeão nacional português que chegou com a época a meio foi Augusto Inácio, com o Sporting, em 2000. É preciso recuar décadas para encontrar um exemplo similar. E não é por acaso.



Não acho que Paulo Fonseca tenha perfil de treinador para o FC Porto. Acho que é parte do problema, não o todo. E que centrar-nos exclusivamente na sua incompetência - que é evidente - não nos permite ver todo o problema em que estamos envolvidos. Mas isso fica para outro debate que trarei. Até porque o actual treinador do FC Porto é o primeiro em muito tempo que me faz pensar que mudar agora pode ser mais benéfico que prejudicial.

Em primeiro lugar porque não existe uma grande desvantagem com os rivais. Quem quer que chegue começará praticamente do zero em pontuação com Benfica e Sporting. Por outro lado, a paragem do Natal permitirá tempo para aclimatar-se ao clube, ao plantel e preparar os necessários ajustes - porque terá de haver algum ajuste - em Janeiro. E por último, olhando para o plantel - onde carecem figuras que inspiram liderança - não vejo força emocional para dar a volta à situação desde dentro como sucedeu no primeiro ano de Vitor Pereira, por exemplo. Há demasiados jovens, demasiadas caras novas e jogadores sem perfil para pensar que vão ser os jogadores a dar a cara e a salvar um treinador com o qual não estão cómodos. Os sinais da directiva, no final do jogo de Coimbra, também não são positivos. Quando Vitor Pereira esteve com a corda ao pescoço, a presença de Pinto da Costa ao seu lado calou os rumores e mandou uma mensagem ao balneário. Paulo Fonseca saiu sozinho do Municipal de Coimbra. É assim que ele está, apesar de ter sido uma aposta muito pessoal de Antero Henriques, que até há bem pouco tempo lhe deu todo o seu apoio.

Sabemos então que no FC Porto pouco se muda a meio da época e quando sucede os resultados só sucedem à posteriori. Sabemos também que o timing agora é o ideal e que o plantel e a direcção não parecem estar com o treinador. Mas que alternativas podemos manejar?

O FC Porto é um grande clube, mas é um clube dirigido desde dentro. Um clube que nunca se sentiu cómodo com a ideia de um treinador de personalidade forte. Mesmo Mourinho fez-se dentro do clube, não chegou como o "Special One" e Villas-Boas preferiu não ter de descobrir o que ia suceder num segundo ano depois de uma época perfeita. Portanto, toda a Europa sabe como o FC Porto se move e poucos são os treinadores de topo interessados nesse tipo de gestão. Sobram poucas opções, entre portugueses e estrangeiros.

Portugueses:
Marco Silva - Para muitos o homem que devia ter sucedido a Paulo Fonseca. É adepto confesso do Benfica, o que poderia ter jogado contra si, e com o Estoril tem feito um excelente trabalho. Continua a fazer a sua equipa jogar bem, mesmo com várias baixas, mas não parece apresentar nada de novo e há o receio, natural, que seja um Paulo Fonseca II.

Domingos Paciência - É um nome falado há muito tempo, não só pelo seu passado dragão mas pela excelente temporada que fez com o Braga. Desde então a sua carreira tem sido um desastre, tanto com o Sporting como com o Deportivo (onde foi colocado pela pressão de Jorge Mendes e onde se acabou por ir embora por não conseguir lidar com a pressão). Está sem clube.

Pedro Emanuel - Durante dois anos foi considerado por muitos como o próximo André Villas-Boas. Agora está no Arouca. Não é propriamente um grande cartão de visita e não tem demonstrado confirmar as suspeitas positivas que se tinha dele.

Leonardo Jardim - Para alguns adeptos seria a escolha ideal mas está comprometido com o Sporting e tem uma oportunidade histórica de recuperar o prestigio do leão. Não irá sair de Alvalade.

Nuno Capucho - Está a ser preparado pela direcção mas ninguém quer queimar etapas. Desde que tomou controlo das equipas de formação que muitos vêm nele o perfil ideal para liderar a primeira equipa e os resultados dão-lhe razão. Tem um perfil calmo, tranquilo e um conhecimento táctico surpreendente. Será treinador do FC Porto mas não quererá pegar numa equipa "queimada" tão cedo salvo se não existir outra opção.

André Villas-Boas - Tem a corda ao pescoço em Inglaterra mas, ao contrário de Artur Jorge, não acredito que queira voltar tão cedo ao seu clube, mesmo desempregado. Seria a escolha número 1 de todos os adeptos.

Estrangeiros
Marcelo Bielsa - Apenas o cito porque foi alvo de comentários no RP. Não é opção pura e simplesmente porque não é do perfil da direcção e não é o treinador que goste de ser controlado.

Mano Menezes - Paixão antiga da SAD, esteve desempregado até há poucas semanas, depois de uma má época com o Flamengo. Acabou de assinar pelo Corinthians e não vai abandonar o clube.

Muricy Ramalho - Na mesma situação de Menezes. Outra paixão antiga, foi muito questionado pelo São Paulo este ano e está ligeiramente acima da linha de despromoção. Contestado, poderia ser tentado por uma boa oferta.

Tite - Provavelmente o melhor treinador do futebol brasileiro nos últimos quatro anos. Acabou um ciclo memorável no Corinthinas, incluindo o título mundial, e está sem emprego. Hipótese interessante para os que querem uma conexão sul-americana.

Pepe Mel - Um dos melhores treinadores do futebol espanhol. Está com a corda ao pescoço no Real Bétis mas tem perfil para um clube de alto nível.



O cenário é este:
Mudar ou não mudar? 
A história do clube diz-nos que mudar não é habitual a opção da direcção e quando isso sucede o resultado só é visível na época seguinte. A situação actual no entanto dá a sensação de que Paulo Fonseca está só (sem plantel ao seu lado, sem o apoio da direcção e na mira dos adeptos) e que não tem capacidade para dar a volta por cima. O pior que pode suceder (perder o título) pode suceder com ele ou com qualquer outro treinador mas uma cara nova chegará com uma diferença pontual mínima e tempo para lutar pelo título até ao fim.

Se mudamos, quem ocupará o seu lugar?
Artur Jorge, Bobby Robson e José Mourinho foram três opções que tiveram resultados excelentes. José Couceiro a que correu mal. Actualmente só André Villas-Boas teria um perfil similar ao dos três primeiros. Todos os outros nomes despertam dúvidas, ora pela inexperiência e ausência de resultados sonantes (Pedro Emanuel, Marco Silva, Nuno Capucho, o passado recente de Domingos) ou porque despertam receio de uma conexão com o mercado brasileiro, quando muito raramente um treinador canarinho triunfa no futebol europeu.

O debate, na caixa de comentários!

PS: Não acredito que, actualmente, existam muitos adeptos do lado de Paulo Fonseca. O que não se admite é que uns meninos mal educados e que deviam ter passado uma noite nos calabouços recebam a equipa como receberam. Não sei se a manobra foi, oficialmente, dos SD ou iniciativa individual de quase 300 "adeptos". Nem me interessa. Há uma cultura de adeptos que só aceita a vitória. Que não entendo que o amor a um clube deve ser unidirecional. Se o clube devolve alegrias, tanto melhor. Se não, não se troca o amor por um soco só porque as coisas correm mal. Viveremos dias muito piores que estes, mais tarde ou mais cedo. Espero que muitos dos portistas de hoje sejam portistas então. Provavelmente os que receberam a equipa desta forma não estejam entre eles!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

As Noites Europeias de azul Viena

Viena.
Sempre teremos Viena.

Se o FC Porto nunca tivesse estado em Sevilha, Gelsenkirchen ou Dublin sempre teríamos Viena.
Não há cidade mais simbólica na história das competições europeias. E, para nós, é ouro sobre azul. Vamos a Viena amanhã começar mais um ano de aventuras europeias. Não é a primeira vez. Mas sabe sempre de forma especial. Porque havia um FC Porto antes e outro depois de Viena.

Não necessariamente pelo triunfo.
Antes já tinham ganho a Taça dos Campeões Europeus clubes de menor perfil e prestigio que nós. O Nottingham Forrest, o Steaua Bucareste e até o Celtic Glasgow e o Feyenoord, são bons exemplos de que o torneio não era um exclusivo das grandes equipas das grandes ligas da Europa. No ano seguinte o troféu foi ganho pelo PSV, dois anos depois pelo Estrela Vermelha e seis pelo Olympique Marseille. Se a história do futebol europeu fosse lida desde esse prisma, éramos mais um entre alguns. Mas somos mais do que isso. Somos um caso singular e único. Porque repetimos esse triunfo. E eles não.
Depois do Jamor o Celtic não ganhou um troféu europeu. O Feyenoord venceu duas Taças UEFA. O Nottingham Forest desapareceu do mapa do futebol inglês e há largos anos que vive na segunda divisão. O Steaua, alimentado pelo regime de Ceaucescu, desfez-se com o regime. Regressa este ano à Champions League depois de largos anos de ausência. O Marseille pagou o preço das ligações perigosas e o PSV não voltou a cheirar uma final. E o Estrela Vermelha acabou, de facto, com a própria Jugoslávia. Mas nós não. Nós crescemos. Nós ficamos mais fortes. Nós passamos a fazer parte dessa elite europeia.
Não em dinheiro, não na qualidade do plantel ano após ano. Mas em prestigio.



O FC Porto - graças ao trabalho de Pinto da Costa e de algumas das suas eleições mais acertadas para o banco - soube provar de novo o sabor do champanhe.
Somos únicos nesse feito entre as pequenas nações da Europa. E é algo do qual nos devemos sentir orgulhosos. Sempre que apareça Viena no horizonte, saber que foi aí que a gesta começou. Sim, Pedroto estabeleceu as bases. Para mim é a personalidade mais importante da história do clube porque foi ele quem marcou o antes e o depois. Mas partiu cedo, muito cedo, sob o fantasma de Basileia e aquele golo do Boniek, os gritos do Zé Beto e o medo de que aquela final não seria repetida. Mas em Viena, com o "rei Artur", com o calcanhar do Madjer, o sprint do Futre, a taça nas mãos do "capitão" e as lágrimas do presidente, soubemos que a festa estava a começar. Era algo dentro de nós que fervilhava por essa paixão das noites europeias.

O futebol europeu, continental claro, começou a desenhar-se em Viena.
As tardes europeias do início do século XX, os anos de ouro da Taça Mitropa, tudo sucedeu nessa cidade mágica, no campo do parque do Prater. Para o futebol europeu e para nós. Historicamente, o FC Porto era um clube a que se lhe dava mal as provas europeias.
Até meados dos anos setenta até o Vitória de Setúbal tinha um registo melhor que o nosso. Mas com Pedroto algo mudou. Para sempre. Hoje somos o melhor clube português na história das competições europeias. Somos uma das equipas com mais participações na Champions League. Nas quatro últimas vezes que disputamos a Taça UEFA/Europa League, vencemos duas. Ninguém tem estes números.
Estivemos no calor asfixiante de Sevilla. Desfrutamos da nossa superioridade evidente em Gelsenkirchen e tinhamos a certeza que Dublin era uma formalidade. São três noites europeias que ninguém esquecerá. Mas Viena, a nossa Viena, até para quem não a viveu como deve ser, é especial.



Amanhã, mais ou menos por esta hora, o mítico FK Austria - o tal das tardes europeias mágicas - vai ser o nosso rival em campo. Mas quando o escudo do dragão subir ao relvado, o Bayern, o Dinamo de Kiev, o Brondby, o Vitkovice e o Rabat também vão lá estar à nossa espera. Viena, o Prater, o Danúbio azul, a magia da história. O pontapé de saída para mais uma temporada europeia, difícil, exigente e que gera ilusão nos adeptos pelo local onde se disputa a final. Mas a cada jogo, a cada passe mal medido, a cada remate torto, a cada golo sofrido, convém não perder nunca a perspectiva. Podemos ir mais longe, devemos lutar por ir mais longe, queremos ir muito mais longe do que temos feito nos últimos anos. Mas o que o FC Porto conseguiu, isso, meus amigos, não conseguiu mais ninguém!

Disclaimer

O título do artigo não é inocente.
Noites Europeias é o nome do livro que vai ser colocado à venda nos próximos dias, escrito por mim e pelo João Nuno Coelho, representante do FC Porto no programa do canal Q Sacanas sem Lei e coordenador do livro "Porto 25". É um livro que viaja às origens das competições europeias de clubes e se prolonga até à última temporada em mais de 100 anos de histórias, jogos, personalidades, sistemas de jogo e memórias. Inevitavelmente o FC Porto é um dos protagonistas dessa Europa periférica fora das grandes ligas. Não é por acaso o único clube - com a excepção honrosa do Ajax, noutro contexto - fora desse circulo de grandes fortunas que tem quatro troféus das provas da UEFA. Um feito único e histórico entre os muitos que relatamos.
Oficialmente a apresentação do livro é na tarde do dia 29 de Setembro, no bar Casa do Livro na zona das Galerias de Paris com moderação do Luis Freitas-Lobo e de alguns convidados-surpresa ligados à história europeia do FC Porto. A todos os adeptos do clube, amantes das "noites europeias", aqui fica o meu convite pessoal e o desejo de uma boa leitura, se for o caso.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Circo Cardozonali no Jamor

1. «Momento muito tenso em Dusseldorf, Luisão aproximou-se do árbitro a reclamar da expulsão de Javi, tendo empurrado o juiz alemão. Temeu-se o pior, pois o árbitro esteve durante alguns segundos deitado no chão sem reação. (...) Os jogadores do Benfica estão todos sentados no banco de suplentes ainda sem saber se o encontro irá recomeçar. Jesus e Javi García vão conversando, ao mesmo tempo que se riem da situação, que, diga-se, foi um pouco caricata.»
in record.pt

A época do slb começou com este “belo exemplo de conduta desportiva”, protagonizado pelo capitão dos encarnados, o qual, num jogo particular disputado em Agosto de 2012, deu uma peitaça no árbitro alemão Christian Fischer, que caiu desamparado no relvado.

Nem percebi que jogador foi. Ia mostrar o segundo cartão amarelo a outro jogador e há ainda dois outros jogadores do Benfica que se colocam no meu caminho. Foi como se tivesse ido contra uma parede. Estou chocado. Nunca me acontecera nada do género em 20 anos de arbitragem.
Nem o jogador, nem o clube pediram desculpa. Pelo contrário.
Christian Fischer

De facto, não só não pediram desculpa ao árbitro alemão, como se riram da situação. E mais, com o apoio da comunicação social do regime e dos comentadores talibans do costume (o que terá dito a benfica TV?), desculpabilizaram a atitude de Luisão e fizeram uma triste campanha contra o árbitro alemão.


2. Em Fevereiro, no jogo Nacional x slb para o campeonato, ocorreu mais um caso de indisciplina grosseira, envolvendo um árbitro e um jogador dos encarnados de Lisboa.
Após ser expulso, por ter pontapeado um jogador do Nacional, Cardozo dirigiu-se de forma agressiva ao árbitro do encontro, tendo, inclusivamente puxado a camisola de Pedro Proença.

(Cardozo e Pedro Proença, Nacional x slb)

Mais uma vez, dirigentes, comentadores e a generalidade dos adeptos do clube do regime, que ainda hoje, passados 20 anos, falam e dão como exemplo um célebre caso envolvendo o árbitro José Pratas e jogadores do FC Porto, uniram-se numa campanha de lavagem, desvalorizando o que todo o país viu, de modo a conseguirem uma pena mínima para o ponta-de-lança paraguaio. E conseguiram, não uma pena mínima, mas que o Conselho de (in)Disciplina da FPF lhe atribuísse uma pena verdadeiramente ridícula, equivalente a um castigo para uma expulsão por dois cartões amarelos: 1 jogo de suspensão!


3. Uns instantes após a conclusão da final da Liga Europa, numa altura em que os jogadores do Chelsea faziam a festa no ArenA de Amesterdão, Enzo Pérez dirigiu-se a Jorge Jesus de forma desabrida, apontando para a marca de canto. A “animada conversa” entre jogador e treinador dos encarnados durou alguns segundos, com o internacional argentino, completamente descontrolado, a agarrar a roupa de Jorge Jesus, que respondeu da mesma forma.

O que fizeram os dirigentes benfiquistas?
Nada.
Mais. Enzo Pérez foi titular no jogo seguinte (slb x Moreirense), disputado no estádio da Luz, tendo sido dos jogadores mais aplaudidos pelos adeptos que estavam nas bancadas da “catedral benfiquista”.


4. E se a época tinha começado em grande na Alemanha, terminou ainda melhor no Jamor.
Mal o árbitro deu por terminada a final da Taça de Portugal, Cardozo dirigiu-se ao seu treinador, puxou-o e, de dedo apontado em riste, acusou-o de ser o culpado da derrota.
Não satisfeito, e apesar das tentativas para o acalmarem, Cardozo ainda deu um encontrão no treinador-adjunto e dirigiu-se ao seu companheiro de equipa André Almeida, fazendo dele um outro alvo da sua ira.
Tudo isto se passou em pleno relvado do Jamor, perante milhares de pessoas, mais os milhões que assistiam atónitos via TV.

Evidentemente, num clube a sério, dirigido por pessoas que impusessem o mínimo de respeito, cenas de indisciplina grave como as que se verificaram esta época, protagonizadas por jogadores que ganham milhões, teriam consequências.
Por exemplo, se a coisa tivesse acontecido no FC Porto, não acredito que Cardozo voltasse a vestir a camisola azul-e-branca e, provavelmente, nem teria saído do Jamor na camioneta da equipa.
Mas, conforme disse o treinador Artur Jorge após ter sido dispensado, o slb é um circo e, por isso, tudo é possível.

P.S. Esqueci-me de dizer que a culpa disto tudo é dos árbitros e do Pinto da Costa…

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Os mal amados

Com excepção de Pedroto (que foi bem mais que um treinador no FCP) todos os restantes, uns mais do que outros, foram sujeitos a contestação por parte dos adeptos, do balneário ou de ambos.
Nem Robson escapou. Uma das críticas que lhe era dirigida frequentemente era sua incapacidade de ser mais interventivo no banco e, nessa perspectiva, gerir melhor “quem substitui quem” e o timing mais adequado para produzir essas mudanças. Rui Barros passou, a partir de certa altura, a ser o sacrificado da ordem e acho que o foi numa grande parte dos jogos. Também não foi muito bem entendido que tivesse recebido os “russos” do SLB e os tenha colocado a jogar de imediato e posto no banco o Domingos. Também não foi muito bem aceite, que tivesse sido eliminado da taça com o Marítimo e, pior, que tivesse levado 3-0 e um banho de bola do SCP de Octávio, na Supertaça em Paris. Estava no aeroporto quando a comitiva do FCP chegou de Paris e fiquei revoltado com a forma como foi recebida, tendo havido confrontos entre alguns dos palermas que lá se encontravam e alguns jogadores. Recordo que Vítor Baía e João Manuel Pinto eram dos mais inconformados com aquela estúpida recepção, depois de terem sido campeões com inteiro mérito.

Artur Jorge foi sempre muito contestado, e toda essa contestação começou no balneário e tinha como principal protagonista o Fernando Gomes, que queria a continuidade do António Morais no comando da equipa. Aliás, na época que vencemos a Taça dos Campeões perdemos o campeonato para o SLB e fomos eliminados da Taça pelo SCP, nas Antas. Artur Jorge trouxe modernidade ao futebol português e alguns conceitos novos, nomeadamente a “concentração” competitiva que exigia aos seus jogadores em todos os momentos de jogo. Octávio foi mais que um treinador adjunto, porque foi capaz de ser e fazer aquilo que Artur Jorge não era capaz, ou seja, assumir o lado desagradável do comando e ser duro e intransigente relativamente à disciplina dentro e fora do campo, ao que consta. Desse tempo vem as desavenças com Fernando Gomes e os Oliveira.

Ivic ganhou tudo no FCP, menos a Taça dos Campeões. Os sócios detestavam-no ainda mais que ao actual treinador e não foi por acaso que foi embora e substituído pelo Quinito, que fez haraquiri quando disse que o FCP era Gomes mais dez: ficou refém do balneário e sem mão na rapaziada. Depois foi o que se viu: uma equipa sem rumo do pior que tivemos nestes longos anos em que PdC comandou o clube.

Quanto ao actual treinador não alinho em muitas críticas que lhe são feitas, onde entra tudo, particularmente o que é suposto faltar-lhe: carácter, competência e experiência, um murcão como, de forma sucinta, alguns adeptos o qualificam. Estou em desacordo frequentemente com o treinador porque não “faz” como acho melhor, mas estaria com qualquer outro desde que não cumprisse o que eu acho melhor. No jogo com o SC Braga (para o campeonato) benzi-me quando meteu Kléber no fecho do jogo e não é que fomos ganhar por 2-0. No segundo, também não fez o que esperava que fizesse: meter mais gente no meio campo para equilibrar o jogo naquela zona, mas o brinde quem o deu foi Danilo, como antes Fernando tinha provocado uma grande penalidade com um claro erro individual. Quem ganha os jogos são os jogadores quem os perde é sempre o treinador, e nessa não alinho porque não é justo. A responsabilidade tem de ser partilhada, nomeadamente quando há erros individuais que influenciam o resultado final, por muito que se se especule que a desgraça já vinha a caminho. Acho que alguma coisa mudou desde o primeiro jogo com o SC Braga: Vítor Pereira apareceu muito tenso na entrevista após o jogo, pelo que – tendo em conta a cara muito zangada de Lucho quando saiu – se deva ter passado algo de desagradável no banco. Espero que se ajustem, se deixem de amuos e saibam dialogar.

Uma das criticas que têm feito ao nosso treinador é a eventual desvalorização dos activos do FCP, desde que VP tomou posse como treinador principal. Afinal, assim parece não acontecer a atentar na seguinte notícia:

“O plantel do FC Porto é o 18º mais valioso do mundo num ranking com 200 equipas, de acordo com um estudo efetuado pela empresa brasileira Pluri Consultoria, especializada em marketing desportivo, que lhe atribui um valor de mercado de 180 milhões de euros (ME) e 6,9 milhões (valor médio) a cada um dos 26 futebolistas”.

Por fim, considero que o Vítor Pereira se excedeu na rotação do jogo da Taça de Portugal, reagiu tarde quando Castro foi expulso e deixou James tempo demais em campo, já que era tempo de rodar os que haveria a proteger. Dito isto, considero que há jogadores que têm de “merecer tratamento especial”. Danilo e Alex porque estiveram nos Jogos Olímpicos, Moutinho, Varela, James e Martinez por causa das horas extra nas selecções, o Fernando porque saiu de uma lesão, voltou e teve uma recaída, logo no momento em que anunciou que gostava de sair, o Lucho porque é dos que corre mais e é quase um veterano. Nesse particular, dou o benefício da dúvida ao treinador, embora considere, insisto, que decidiu a rotação num laivo de deslumbramento que não é nada aconselhável.

Depois de Vercauteren e de avaliar a forma como tem dirigido o SCP, acho que devo continuar a conceder o benefício da dúvida a VP.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Adeus Porto, Bonjour Paris

Viena, 27 de Maio de 1987. Um clube do Norte de Portugal, um país pobre, pequeno e periférico, surpreende a Europa do futebol, ao derrotar o colosso da rica Baviera na final da Taça dos Campeões Europeus.
À boleia deste sucesso, o quase desconhecido Artur Jorge Braga Melo Teixeira (licenciado em Germânicas e que tinha estudado metodologia de treino em Leipzig, na antiga Alemanha de Leste), juntamente com uma geração de jogadores fantásticos – Madjer, Futre, Juary, João Pinto, etc. – saltaram para a ribalta europeia.

Ainda mal refeitos da “bebedeira”, os adeptos portistas sonhavam com novas conquistas além fronteiras na época seguinte. Contudo, uns dias depois de ter regressado ao Porto de braço dado com Pinto da Costa, Artur Jorge pede ao presidente do FC Porto para o deixar sair. De França, o milionário francês Jean-Luc Lagardére, presidente do Matra Racing, acena-lhe com uma pipa de massa e o desafio de transformar o ex-Racing Club Paris num grande do futebol europeu.

Aos 41 anos, entre a possibilidade de continuar como treinador principal dos dragões e os francos franceses, o portuense e portista Artur Jorge nem hesitou e Pinto da Costa não teve outro remédio senão deixá-lo ir. E, como na altura ainda não havia cláusulas de rescisão nos contratos dos treinadores, o FC Porto ficou sem treinador e de mãos a abanar.

Lagardére (uma espécie de Abramovich dos anos 80) contratou diversos craques, mas as coisas não correram bem e em Novembro de 1988 o “Rei Artur” estava de regresso ao Porto, para substituir Quinito. Ficou duas épocas e meia – 1988/89, 1989/90, 1990/91 – até voltar a ser seduzido pelo perfume ($$$) parisiense, desta vez do Paris Saint-Germain, que tinha sido comprado pelo Canal+.

Ao comando do PSG, Artur Jorge haveria de ganhar uma taça de França e um championnat (1993/94), para além de bons desempenhos nas competições europeias. Regressou novamente a Portugal em 1994/95, mas dessa vez para treinar o… slb!

Apesar de ter trocado duas vezes as margens do Douro pelo charme da cidade luz, não ficaram mágoas e, hoje em dia, Artur Jorge é visto como um dos nossos: portuense, portista e o homem que ficou para a história ao comando da nau azul-e-branca em Viena, vencendo o Adamastor.

P.S. Não me lembro se o Artur Jorge recebeu algum dragão de ouro mas, a acontecer, não me parece que isso fosse motivo de grande contestação.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O excesso de sucesso


"É uma sucessão natural, inclusive já prevista há algum tempo. Aquilo que aconteceu faz parte da vida e do futebol. Nós admitíamos isso. Já tínhamos a garantia do professor Vítor Pereira que, se isso acontecesse, ele estaria disponível.
Quando o nosso treinador [André Villas-Boas] foi passar um fim-de-semana a Londres, há um mês e tal, falei com o professor [Vítor Pereira] a questionar a sua disponibilidade. Ele disse-me que sim e fiquei descansado.
"
Pinto da Costa, 21/06/2011


Conforme o presidente FC Porto referiu na apresentação de Vítor Pereira, e o novo treinador confirmou, a saída de André Villas-Boas era uma situação encarada como provável, que até já tinha sido discutida entre ambos.

Na realidade, se quisermos analisar os factos friamente, verificamos que:

1986/87, o portuense e portista Artur Jorge ganhou a Taça dos Campeões Europeus e saiu para o Matra Racing de Paris (na altura, uma forte aposta do dono do Canal+).

2003/04, o setubalense José Mourinho ganhou a Liga dos Campeões e saiu para o Chelsea.

2010/11, o portuense e portista André Villas-Boas ganhou a Liga Europa e saiu para o Chelsea.

Sempre que o FC Porto ganhou uma competição europeia o treinador, independentemente de ser portista ou não, saiu.
A excepção? José Mourinho em 2002/03, o qual permaneceu mais um ano no FC Porto após ter ganho a Taça UEFA.
Foi por gostar do Porto? Claro que não, foi porque nessa altura não chegou ao Dragão uma proposta de um dos grandes (e mais endinheirados) clubes europeus.

Para um clube da dimensão económica do FC Porto, o excesso de sucesso desportivo que temos tido (é quase uma blasfémia dizer isto), torna inevitável estas saídas. E, não tenhamos ilusões, quanto maior for o sucesso, mais curtos serão os ciclos.

A alternativa a este “sofrimento” (o sofrimento de ano após ano vermos sair os melhores) é passar a ganhar menos, ou mesmo não ganhar nada. Num cenário desses, é certinho que nenhum dos “tubarões” europeus vai cobiçar os “peixinhos” (jogadores e treinadores) que temos no nosso aquário.

Têm dúvidas? Apesar da propaganda, vejam lá se alguém se chegou à frente disposto a pagar as clausulas de rescisão de jogadores do SCP ou mesmo do slb (já nem falo nos treinadores). Talvez com a excepção do Coentrão, só sairão se for a preço de saldo e mesmo assim…

Chamem-me nomes mas, como portista, quem me dera voltar a desfrutar de uma época como a de 2010/11 e, no final, sofrer uma “traição” semelhante a esta do André Villas-Boas. E seria óptimo que o próximo “traidor” fosse já o Vítor Pereira que, pelo sim, pelo não, tem no seu contrato uma clausula de rescisão de 18 milhões...

sábado, 15 de janeiro de 2011

A escola do FC Porto


A propósito da atitude de Mossoró, devido a ter sido substituído por Hélder Barbosa aos 37 minutos, Domingos afirmou:
"Vou contar com aqueles que querem, aqueles que vão lá para dentro e dão tudo para ajudar a equipa e o clube a ganhar. Isto de sair aos 35... uma vez [no FC Porto] o Artur Jorge meteu-me a 10 minutos do final e tirou-me a cinco. Tive de aceitar e serviu-me de lição para o resto da carreira, que durou 19 anos."

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O Homem do Leme ideal não existe (I)

Por Miguel Lourenço Pereira

O futebol como fenómeno de massas acaba, invariavelmente, por influir e ver-se directamente influenciado pelos valores que predominam na sociedade. É um jogo social e acompanha o dinamismo de tal forma que poucos se relembram da sua origem como desporto de elites estudantis ou da sua evolução como distração do proletariado. Hoje o futebol é mais burguês que nunca, com os direitos televisivos, os estádios-centro comerciais, os lugares anuais e ordenados milionários. Com tudo isso chegaram também os valores. Do espirito gentleman e desportivo dos primórdios passou-se ao cinismo do vale tudo para ganhar. E a evolução da mentalidade dos adeptos acompanhou também essa dinâmica. O nosso FC Porto e os seus seguidores não são excepção.

Marcados pelo pensamento colectivista herdeiro da herança cultural judaico-cristã, mesclada com o pensamento da igualdade proletária do século XIX, há muito que o conceito individualista deixou de ser tolerado e entendido pela anónima massa. Ninguém pode destacar-se sobre os demais, ninguém pode ser um por cima de muitos mas sempre um elevado pelos restantes. A imagem dos heróis clássicos da mitologia hoje é inaceitável. A humildade é hoje o santo e senha e fiel de balança à hora de avaliar homens, performanes, profissionais.

No futebol isso vive-se cada vez com mais intensidade e marca profundamente a relação entre o adepto e o técnico do seu clube (com os jogadores em menor medida já que eles são, forçosamente, parte de um colectivo). Ainda hoje existem muitos adeptos nas bancadas do Dragão que não suportam a imagem de José Mourinho. O homem que devolveu o FC Porto à glória europeia raramente é criticado pelo seu talento, mas especialmente pela sua falta de humildade e o excesso de individualismo que o levou a auto-catalogar-se de “Special One”.

Sinais dos tempos que contrastam bem com a admiração que o velho estádio das Antas teve por outro rei europeu, um tal Artur. Esse filho da Invicta e da Constituição sempre caiu no goto dos adeptos, e até o seu jeito intelectual e honesto sobreviveu às duras criticas do “tribunal” por ser uma pessoa com quem os adeptos conseguiram empatizar desde o princípio, perdoando-lhe mesmo os seus dias de goleador na Luz. Dois técnicos campeões europeus (os únicos portugueses), duas formas distintas de abordar o jogo (a mais institiva de Artur Jorge, mais tarde rei de Paris, também ele a abrir caminho para o sucesso fora de portas do setubalense, mais científico) e de relacionar-se com a massa adepta. Os mesmos que elogiaram o “seremos campeões em situações normais e anormais” são hoje os que criticam a evolução do herói de Sevilla e Gelsenkirchen lembrando, muitas vezes o estilo dialogante do grande Artur Jorge (apesar das polémicas com Madjer e Gomes no seu segundo mandato) como exemplo a seguir.

Mas se esses são os dois grandes icones dos últimos 25 anos dos bancos azuis e brancos, que dizer da relação dos adeptos com os restantes mentores dos bancos e as suas diferentes personalidades?
(continua)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Dois treinadores campeões europeus

Extractos de duas entrevistas recentes com os dois únicos treinadores portugueses - Artur Jorge e José Mourinho - que se sagraram campeões europeus, ambos ao serviço do FC Porto.

“Repare, eu sou portuense e portista. Como a minha família. Nasci no Porto e cheguei a ver, veja lá bem, jogos na Constituição [campo do FC Porto, de 1912 a 1952]. Lembro-me nitidamente de um FC Porto-Oriental e eu lá todo espremido entre os adeptos, que, não sendo muitos, entre 4 a 5 mil, enchiam aquele campo e conferiam uma atmosfera especial. Também vi jogos no Estádio do Lima [só utilizado para jogos grandes por ter mais lugares que o da Constituição]. Nessa altura, o FC Porto nem sempre era a terceira potência do futebol português. Agora, com o passar dos anos, com o Estádio das Antas, com o Dragão, com o centro de estágio no Olival, percebemos a real dimensão do clube. No meu tempo de criança, ninguém sonhava sequer que o FC Porto pudesse ser campeão europeu. Quando muito, campeão nacional e e...

“Para mim, uma equipa precisa de tempo e organização. O FC Porto deu-me isso. Havia jogos em 1984 ou 1985 em que pressentia que aquela equipa ia ser imbatível a todos os níveis, como aconteceu em 1987. O Benfica pediu-me isso, para ontem. Quis fazer uma equipa e comecei pela baliza. Trouxe o Preud'homme, mas a engrenagem não funcionou. Há pessoas boas e más. Há dirigentes competentes, outros nem tanto. Há os que remam para a mesma direcção e os da contracorrente. Enfim...”
Jornal i, 19/12/2009




[PUBLICO]: Tal como no Chelsea, é sempre você a dar o peito às balas. Preferia ter a rodeá-lo dirigentes com uma cultura desportiva mais belicista?

[José Mourinho]: Dou o peito às balas e sempre o darei. Nasci assim no futebol e vou morrer assim. Mas também lhe confesso que sabe bem, de vez em quando, ver aparecer alguém com um colete à prova de balas! Dois anos no FC Porto habituaram-me mal...

[PUBLICO]: Como estão as suas relações com Pinto da Costa? Ainda hoje, os adeptos do FC Porto parecem manter consigo uma relação de amor e ódio...

[José Mourinho]: Diz-me que os adeptos do FC Porto têm amor por mim. Parece-me lógico, pois fui o treinador que chegou com a equipa em crise e que, em dois anos e meio, ganhou a Taça Uefa, a Champions, dois campeonatos, uma Taça de Portugal e uma Supertaça. Parece-me, portanto, normal que gostem de mim. Quanto ao ódio... Só se queriam que eu ganhasse também a Taça Intercontinental. Mas isso era fácil, bastava ganhar a uns colombianos e o FC Porto fê-lo sem mim. Por isso, não vejo razão para me odiarem. Quanto ao presidente... um grande presidente!
PÚBLICO, 25/12/2009

Nota: Os destaques a negrito são da minha responsabilidade.
Fotos: Jornais i, PÚBLICO

domingo, 20 de dezembro de 2009

Joga ou não joga?

Estávamos em Outubro de 1989, na altura o Rui Águas estava em grande forma, era o abono de família do FCP, mas num jogo da selecção, salvo erro contra a Suiça, lesionou-se, mas vinha aí um clássico e tudo se fez para o recuperar.

Sexta-feira dia da convocatória e o Rui Águas está fora da mesma. Não foi possível recuperá-lo.

Nessa 6ª feira, após sair a convocatória passei pelas Antas e ali junto ao departamento de futebol juntavam-se sempre uns grupos de adeptos, algumas dessas pessoas passavam lá os dias, conheciam a vida do clube de ponta a ponta, sabiam quem se andava a baldar nos treinos, apertavam os calos aos jornalistas, ou aos jogadores a quem "guardavam" os carros, ...  nesse dia juravam a pés juntos que o Artur Jorge lhes tinha dado a "indicação" que o Rui Águas ia jogar no domingo.

Por ali também andavam jornalistas, mas nos dias seguintes nenhum orgão de comunicação social fez eco disso, o Rui Águas estava mesmo fora.

No dia de jogo é dada a constituição da equipa com o Domingos no onze, faz o aquecimento e eis que as equipas sobem ao relvado, e quem é que entra com o n.º9? Rui Águas, ele mesmo.




É verdade que aos 15 minutos já estava a ser substituído, foi um bluff que acabou por não correr bem, mas de uma coisa fiquei ciente: aqueles grupos de adeptos sabiam muita coisa.

Com o início da utilização do centro de estágio, estes grupos desapareceram, já não se sabem os novidades como antigamente. Para o bem e para o mal são os novos tempos.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Setúbal, 13 de Abril de 1986


A propósito do jogo de hoje em Setúbal lembrei-me da nossa talvez mais épica jornada naquele estádio e decidi debitar esta prosa. Foi, de facto, um dia inesquecível.

A época de 1985/86 aproximava-se do fim. Faltavam precisamente duas jornadas e o F.C. Porto estava a dois pontos do Benfica, o primeiro classificado (e na altura as vitórias ainda valiam só dois pontos). Ao FCP restavam uma deslocação a Setúbal e uma recepção ao condenado Covilhã (treinado pelo nosso antigo jogador Vieira Nunes, aliás cunhado do nosso treinador Artur Jorge).
O Benfica recebia o “eterno rival” e deslocava-se ao recinto das “panteras”, então ainda não conhecidos por esse nome, mas já pelo de “remendados”. Ainda vinha longe o tempo do Boavista campeão, e mais longe ainda o dos jantares de solidariedade para com essa espécie de BPN do futebol.

Depois de ter sido campeão com bastante folga na época anterior, o FCP estava à beira de perder o título. De facto, datava da já longínqua época de 1965/66 a última vitória dos “lagartos” na Luz (por 4-2, com os célebres 4 golos do Lourenço). Além disso, as relações do FCP com o SCP eram do pior que imaginar se possa (presidia ao clube o famoso João Rocha, por José Maria Pedroto poucos anos antes alcunhado de “J.R.”) e, sem que se esperasse pouco profissionalismo da parte dos jogadores de Alvalade, ninguém os via a dar a pele em campo por uma causa alheia. Acresce que o nosso jogo em Setúbal não era propriamente favas contadas.


Com este estado de espírito pouco auspicioso se deslocaram ainda assim ao Bonfim uma mão-cheia de milhares de portistas para quem, para usar o chavão, a esperança era a última coisa a morrer. Na semana antes do jogo Artur Jorge lançou uns, nele inabituais, bitatites a propósito da necessidade de os árbitros desse fim-de-semana serem “corajosos”. Decerto preocupava-o a eventual “falta de coragem” de quem arbitrasse o jogo da Luz.

E lá começaram os jogos. Além de ainda estarmos nos bons tempos do futebol na tarde de domingo, estávamos nas três últimas jornadas, pelo que todos os jogos tinham de disputar-se à mesma hora. E de repente, das bocas dos portistas “transistorizados” nas bancadas do Bonfim sai o brado de “Gooolo!”. É verdade! Na Luz o Sporting inaugurara o marcador! Em Setúbal o jogo estava ainda 0-0. Passado pouco tempo novos festejos da falange portista em Setúbal: os surpreendentes lagartos acabavam de fazer o 2-0! Para que conste, e por uma questão de justiça, devo mencionar aqui os marcadores dos golos do Sporting, salvo erro Morato (que mais tarde seria jogador do FCP) e o inefável Manuel Fernandes, fundador da escola de mergulhos de Alvalade, a qual ainda hoje enobrece aquela ecléctica colectividade.

Em cima do intervalo, no Bonfim, Mlynarczyk faz uma reposição de bola em jogo com um passe longo, com a mão, na direcção de Futre, descaído sobre o lado direito do nosso meio-campo. O genial filho do Montijo, cuja presença nas nossas fileiras devíamos, como sabemos, ao atrás referido J.R., arrancou por ali abaixo no seu peculiar e empolgante estilo e inaugurou o marcador! Com o que estava a passar-se na Luz, aquilo era ouro sobre azul!

O Benfica viria a reduzir para 2-1, enquanto que em Setúbal as coisas se mantinham. O nosso jogo terminou antes do da Luz. No relvado, jogadores, técnicos e dirigentes do F.C. Porto, de transistor no ouvido, aguardavam ansiosamente o fim do jogo da Luz, no qual o Benfica desesperadamente procurava salvar-se de um inesperado naufrágio. Nas bancadas, entre os adeptos portistas, o ambiente era o mesmo. O espectro do Calabote chegou a pairar na imaginação de muitos, recordando as cenas de Torres Vedras 27 anos antes. Até que na Luz soava o apito final! Momentos indescritíveis no relvado do Bonfim, com uma festa verdadeiramente inesperada. O próprio Artur Jorge, indivíduo habitualmente calmo e ponderado, correu com os jogadores na direcção da bancada onde se situava o maior número de portistas, e todos festejaram esfusiantemente.

Era dia 13 de Abril. No meio da falange azul-branca um adepto bradava emocionado: 13 de Abril! Nª Srª de Fátima antecipou-se um mês! (nota: o campeonato acabava inusitadamente cedo para que a selecção nacional tivesse mais tempo para preparar devidamente a vergonha de Saltillo, o que efectivamente não deixou de fazer).

Uma semana depois o Benfica perderia de novo, desta vez por 1-0, no Bessa, como atrás referi, e nós, no meio de uns sustos (o Covilhã chegou a estar a ganhar nas Antas) venceríamos por 4-2. Dos dois pontos de atraso a duas jornadas do fim, acabávamos o campeonato em primeiro lugar e com dois pontos de avanço. Não fora este título e, obviamente, não teríamos disputado a Taça dos Campeões Europeus na época seguinte, precisamente a da Final de Viena! Tal é por vezes a estreita fronteira entre a glória e o fracasso.

sábado, 28 de junho de 2008

O bom futebol


O que é o bom futebol?

É o futebol do Jesualdo Ferreira que dá 21 de avanço, é o futebol do CAS ou é a loucura ofensiva do Co? Com o Octávio e nos 2 últimos anos do Fernando Santos em que não obtivemos títulos jogámos mal?

Claro que ninguém gosta de ver bom jogos e perder, mas às vezes há vitórias que sabem a pouco - parece que lhes falta o sal. O ideal é sempre aliar a beleza do jogo (o espectáculo) às vitórias, pelo que nem sempre as grandes vitórias correspondem a grandes espectáculos. Olhando para a minha memória, as épocas que na relação espectáculos/vitórias me deram mais gozo foram:
  • 2002/2003 - Mourinho - Conquista da Taça UEFA

  • 1984/1985 - Artur Jorge - Conquista do Campeonato (Curiosamente, ou talvez não, esta foi a época do Wrexham)

  • 2003/2004 - Mourinho - Conquista da LC

  • 1996/1997 - António Oliveira - Conquista do Tri

  • 1998/99 - Fernando Santos - Conquista do Penta (nomeadamente o último terço referente à altura do trio de meio-campo Peixe, Deco e Zahovic)
Fiz este exercício há 3 anos, e passadas estas três épocas estava na hora da actualização (ou nem por isso, já que nenhuma das últimas épocas entrou no top)