Enzo Perez, Mais Futebol
Não é a primeira. Não é segunda. E seguramente não será a última vez.
Nos últimos anos a imprensa afim ao Benfica – uma forma
diferente de dizer “toda a imprensa portuguesa” – tem alardeado da grande
capacidade vendedora do clube. Muitos desses jogadores, ao que parece, saem por
milhões que depois ninguém vê e, supostamente, fazem-se estrelas lá fora apesar
de que, na imensa esmagadora maioria dos casos, ninguém lhes presta demasiada
atenção. Uma das principais razões para que esses futebolistas sofram tanto é o
chamado síndrome “pós-colinho do Benfica” que afecta a defesas, médios,
extremos e avançados por igual. É uma doença difícil de tratar, quase sem cura,
e cujo o principal sintoma é o de continuar a comportar-se nos campos de
futebol como se ainda fossem impunes, pagando as devidas consequências. Muitos
dos jogadores que a sofrem nem sequer se apercebem que jogar em Inglaterra,
França, Espanha, Itália ou até no Burkina Faso não é o mesmo que jogar em
Portugal com o Benfica. Os árbitros são muito mais imparciais e isso complica,
e muito, as coisas. É nesse momento que os sintomas se começam a fazer notar e o paciente se dá conta que algo não está bem!
Entre os exemplos mais recentes dessas vitimas do síndrome “pós-colinho
do Benfica” podemos encontrar extremos que gostam de se atirar para o chão a simular
penalties como Angel Di Maria ou Lazar Markovic, tão habituados a que estavam
que alguém fosse imediatamente a correr, de apito na mão, para marcar o que o
seu visionário treinador chamaria de “penalte”. Também há os avançados como
Oscar Cardozo, habituados a mover-se na área com os cotovelos bem altos,
empurrando defesas á vontade, que depois na Turquia descobrem que afinal isso é
falta e ás vezes até dá direito a cartão vejam lá bem. Mas claramente é no
sector defensivo que a doença se manifesta com maior força. Todos sabemos que
uma falta no mundo do futebol não é igual a uma falta com a camisola do
Benfica. Nem sequer um amarelo ou um vermelho é aplicado na mesma situação.
É
por isso que a Enzo Perez – o tal melhor jogador da liga e arredores –
encontrou em Valência os primeiros sintomas da doença. E ainda só saiu há dois
meses. Diz o argentino que sofre de impetuosidade e que não está habituado a
que lhe marquem tantas faltas ou que os árbitros não o deixem falar. Já leva seis amarelos, um recorde para um jogador
incorporado no mercado de Inverno. Há médios que não têm tantos cartões a jogar
desde Agosto. Claro que Enzo não entende. Não entende porque lhe marcam uma
falta quando ele só está a cortar uma jogada inocentemente como fazia na Luz
debaixo dos aplausos do seu treinador visionário que dele diria, seguramente,
que é um jogador limpo e honrado. E muito menos entende os cartões – dois deles
por protestos – porque quando falava com os árbitros com a camisola vermelha ao
peito eles até lhe diziam algo do estilo, “Não se preocupe Sr. Enzo que isto
está tudo tratado, não fique nervoso”. Imagine-se, agora exigem-lhe que fale baixinho, com respeito e devagar. Que mundo! Agora já ninguém o trata por senhor, já
ninguém acha que as suas entradas são inocentes e já ninguém se surpreende
porque leva tantos cartões.
A sua história não é muito diferente da de um David
Luiz – que quando chegou à Premier League tornou-se alvo de chacota pelas
entradas sem sentido que fazia semana sim, semana também e os amarelos que lhe davam os “dialogantes” árbitros
ingleses por palavras – ou de um Matic, que embora tenha um treinador que
também o acha “limpo e honrado”, já foi expulso vezes suficientes na Premier
para sentir brotar na pele os sintomas mais agudos do síndrome “pós-colinho”.
Em Madrid estão cansados - bastar ler os jornais, os sites e as redes sociais - das entradas fora de tempo dos laterais esquerdos dos
dois clubes grandes da cidade, um tal de Coentrão e um tal de Siqueira,
habitualmente castigados com cartões quando em Lisboa e arredores se teria
aplaudido de pé a sua destreza em realizar uma falta táctica inocente.
Á medida que mais jogadores do Benfica chegam a países onde
o futebol é respeitado, os árbitros se fazem respeitar e a imprensa não tem
porque esconder as misérias dos seus jogadores, mais claro fica que o “colinho”
é algo muito sério. É uma pena que a maioria dos jornalistas desportivos internacionais não se
preocupe em investigar os sintomas dessa doença para encontrar a fonte da
epidemia e se limitem a pensar que Enzo é duro porque é argentino, David Luiz
faz faltas porque é idiota ou Di Maria se atira ao chão a pedir penalti em cada
jogada porque lhe está na genética sem entender que todos eles levaram anos e
anos onde tudo lhes era permitido.
A síndrome “pós-colinho do Benfica” é uma doença grave que
não pode ser tratada pelo médico de família nem sequer pelas urgências. Neste
momento há vitimas da doença em potência como Luisão ou Maxi Pereira que nunca
poderão ser curados tal é o alcance do vírus. Houve outros pacientes no passado
como Katsouranis, Binya, Karagounis, Javi Garcia, Witsel que foram ostracizados
precisamente porque não se conseguiam livrar do “síndrome” que outros jogadores
vindos de Portugal não pareciam manifestar. Dizem que a norte se respira melhor, deve ser isso!
É preciso assumir "partantos" que é uma epidemia
e que só se pode estripar desde as suas origens. Mas como com tantas doenças no
mundo parece haver interesses superiores em que o brote se mantenha vivo. E lá continuaremos a ver, com o passar dos anos, mais pobres vítimas da síndrome do "pós-colinho".
PS: Estou há espera do dia em que a síndrome “pós-colinho do
Benfica” salte do terreno de jogo para o banco de suplentes. No dia em que
Jorge Jesus atravessar a fronteira a pensar que é a reencarnação divina de Rinus
Michels e Helenio Herrera, teremos a oportunidade de ver como os seus insultos,
agressões a agentes da autoridade, empurrões a árbitros e rivais e, sobretudo,
o seu total desconhecimento táctico e das leis do jogo funciona em clubes e países
um pouco mais exigentes do que aqueles onde se vive o “colinho”.

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