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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Clubes à imagem do país


No artigo anterior, o João Saraiva refere o seguinte:
«Sem dúvida que é meritório [resultados líquidos da FCP SAD positivos pelo 5º ano consecutivo], mas o preocupante é que a soma destes 5 anos (16,1 m€) ainda só cobre 52% do último resultado negativo (30,5 m€ em 2006/2007).»

De facto, dá que pensar que cinco “anos bons” só tenham dado para recuperar 52% do prejuízo registado no último “ano mau”. Ou seja, quando as coisas correm mal e o “buraco” nas contas é grande, leva muitos anos a recuperar.

Alargando a análise à generalidade dos clubes/SADs portugueses, recordo que, em Julho passado, a Liga apresentou publicamente as principais conclusões de um Estudo que encomendou a uma equipa do Centro de Estudos em Gestão e Economia Aplicada da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica, no Porto, o qual contou com a colaboração de peritos da Deloitte. Nesse Estudo, é sublinhado que na primeira década do século XXI, o endividamento dos clubes de futebol profissional à banca aumentou em 500 milhões de euros. E que só na época 2009/10, os clubes da I Liga tiveram de pagar 25 milhões de euros em juros.

Naturalmente, e à boa maneira portuguesa, ninguém (dirigentes ou adeptos) ligou patavina às conclusões alarmantes deste Estudo. Estávamos em pleno defeso e, nessa altura (Julho e Agosto), o que interessou foi a corrida à contratação de novos jogadores, independentemente do seu custo.

Entretanto, para analisar os Relatórios e Contas das três principais SAD’s do futebol português, os quais foram recentemente tornados públicos, o jornal PÚBLICO contactou alguns especialistas.

António Samagaio, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, constatou que “a dívida financeira (empréstimos à banca e empréstimos obrigacionistas) da SAD do Benfica está em 157 milhões de euros, a do FC Porto em 98 milhões e a do Sporting em 95 milhões” e que, devido à dificuldade em obter créditos bancários, “os clubes estão a financiar-se a taxas proibitivas. O empréstimo obrigacionista do FC Porto é de 8% e do Sporting 9,5%”.

Hélder Varandas, especialista em finanças de futebol, salientou os encargos com juros que foram assumidos pelas SAD na época 2010/11: “Quase 14 milhões de euros no caso do Benfica e 5 milhões de euros nos casos de FC Porto e Sporting”.

Paulo Reis Mourão, professor de Economia na Universidade de Braga, referiu que o estado das finanças dos clubes deve “gerar uma séria preocupação nos adeptos. A volatilidade do financiamento pode levar a que um clube, que antes poderia permanecer longos anos num alto patamar, fique descapitalizado rapidamente e possa mesmo cair no risco de desaparecimento”.

Eu não sou economista, mas olho para estes números e vejo uma evolução parecida com as contas do país. Ou seja, enquanto houve crédito barato, Estado, empresas e famílias foram-se alegremente endividando. O problema é quando deixa de haver dinheiro barato e chega a factura da dívida colossal que é preciso pagar.

Há portistas que reagem a isto da seguinte maneira: Caaaalma, não vale a pena ficarmos preocupados, porque o slb e o SCP estão em situação pior que a nossa.
Pois, os portugueses também não precisavam de se preocupar com o endividamento crescente do país (o rating da dívida portuguesa até era AAA...) e, além disso, a situação da Grécia é pior que a nossa, certo?

P.S. Evidentemente, todos aspiramos por vitórias e sucessos desportivos. Contudo, a questão das contas e da saúde financeira dos clubes/SAD's não é um assunto menor, bem pelo contrário. Por isso, é importante que os adeptos estejam informados o melhor possível, para que ninguém diga que não sabia.