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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Ao serviço da cidade, da juventude e do desporto

Na sequência de um acordo entre a Câmara Municipal do Porto (CMP) e o FC Porto, que prevê a passagem da gestão da Piscina de Campanhã para o clube (ao longo dos próximos 25 anos), o FC Porto efectuou uma candidatura a fundos europeus, através da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN), para suportar as obras de recuperação e remodelação que se impunham.

Candidatura aprovada, as obras foram executadas em cerca de seis meses e custaram 2,3 milhões de euros (a comparticipação foi de 70%).






A inauguração foi hoje.



Importa dizer que a nova piscina de Campanhã é a única da cidade com dimensão olímpica (50 metros) e com homologações para natação pura e sincronizada, bem como, para pólo aquático.



Como portuense, parece-me que era uma (enorme) lacuna a cidade do Porto não ter um equipamento destes.
E, como portista, não tenho dúvidas: há muito que os atletas da secção de natação do FC Porto – os golfinhos – mereciam um equipamento com esta qualidade.

Equipa de Natação Feminina 2014/2015 - Hepta campeãs nacionais

Mais. Aproveitando as obras, o FC Porto criou condições para que o novo equipamento também possa ser utilizado pelos atletas das secções de Desporto Adaptado e Pugilismo.



No total, o novo equipamento irá acolher cerca de 300 atletas de três modalidades.
E, porque faz parte do acordo CMP - FC Porto, também haverá períodos em que a piscina irá estar à disposição da população em geral.

Em resumo, como portuense, portista e ex-frequentador daquele espaço, não tenho dúvidas: hoje foi um dia bom para a cidade, para o clube mas, acima de tudo, para quem gosta/pratica desporto e natação em particular.


Fotos (fonte): Secção Natação FC Porto, FC Porto

sábado, 14 de setembro de 2013

PPA: a “perequação” (2)



Os terrenos incluídos no Plano de Pormenor das Antas (PPA) eram detidos por catorze proprietários, mas a maior parte, cerca de ¾ da área abrangida, pertenciam a apenas três entidades: Futebol Clube do Porto (51%), Lameira-Imobiliária, que integra o grupo de empresas Jomar, (15%) e Câmara Municipal do Porto (8%).
Sendo este o ponto de partida, é óbvio que sem o envolvimento destas três entidades e, particularmente, sem a anuência de quem tinha mais de metade dos terrenos – o Futebol Clube do Porto –, nunca a Câmara Municipal do Porto (CMP) poderia ter avançado com este ambicioso projeto de renovação urbana, o qual incidiu numa zona abandonada da cidade, que incluía espaços altamente degradados e onde se pode dizer que cidade a sério nem sequer existia (daí a comparação que alguns fizeram com a intervenção que, uns anos antes, tinha sido feita em Lisboa, nos terrenos da EXPO 98).

O PPA foi baseado numa espécie de operação de loteamento, através do emparcelamento do solo urbano, de forma a reajustar a configuração e o aproveitamento dos terrenos existentes para a construção prevista no plano.
Para tal, usou-se o princípio da “perequação compensatória”, prevista no Decreto-Lei n.º 380/99, de 22 de Setembro.

A “perequação” consiste em calcular os metros quadrados (m2) de construção que caberiam ao conjunto dos terrenos, distribuindo-os depois pelos proprietários, a quem é depois atribuída capacidade construtiva em função dos terrenos com que participam. Ou seja, cada proprietário entra com os seus terrenos, recebendo uma parte da capacidade construtiva resultante do PPA na respetiva proporção (levando em conta o coeficiente de construção atribuído).

Nota: No caso do PPA, e relativamente aos pequenos proprietários, a CMP optou pela aquisição ou permuta de terrenos e, por isso, não foi atribuída área de construção a alguns proprietários.

Naturalmente, tal como acontece quando qualquer executivo camarário decide rasgar uma nova avenida ou renovar uma das ruas já existente no respectivo concelho, a CMP assumiu a responsabilidade da construção das infraestruturas (ruas, pavimentos, passeios, saneamento, etc.) que fizeram parte desta intervenção urbana.
Contudo, no caso do PPA, foi decidido que os proprietários envolvidos teriam de contribuir para o custo dessas infraestruturas. Assim sendo, 25% da capacidade construtiva atribuída a cada proprietário em resultado da “perequação”, foi-lhes subtraída e entregue à CMP.

No caso do FC Porto, cujos terrenos que possuía tinham sido adquiridos por diferentes direções do clube ao longo de décadas (e não, como aconteceu noutras latitudes mais a Sul, oferecidos pela respectiva câmara municipal…), a área com que entrou para a “perequação” foi de 161.749 m2 (mais tarde este valor haveria de ser revisto para 160.600 m2 [1] ). Desta área, o plano atribuiu a pouco mais de 5% (8.877 m2) um coeficiente de construção de 2.1, enquanto que aos restantes 152.872 m2 o coeficiente atribuído foi de apenas 1.05. Da aplicação destes coeficientes, resultou uma capacidade construtiva atribuída ao FC Porto de 179.157 m2.

Recordo que, poucos anos antes, em 1998, o Alvará de Loteamento emitido pela Câmara Municipal do Porto, abrangendo vários terrenos nas imediações do Estádio do Bessa, atribuiu a esses terrenos uma capacidade construtiva de 83.078 m2, o que correspondeu a um índice de 1.7 m3/m2. [2]

Para além do baixo coeficiente de construção atribuído à área que era detida pelo FC Porto (um coeficiente médio global de 1.1), a CMP, tal como fez em relação aos restantes proprietários abrangidos pelo PPA, retirou para si 25% à capacidade construtiva que tinha sido atribuída ao FC Porto, ou seja, 44.789 m2, sob o pretexto de comparticipação nos custos com as infraestruturas, ficando o clube com apenas 134.367 m2.

Posteriormente, através de um protocolo estabelecido entre a CMP e o FC Porto, a autarquia comprometeu-se a ceder ao clube uma área bruta de construção de 106.250 m2 (facto que iria motivar uma grande polémica… um ano depois, após a eleição de Rui Rio e de que falarei num próximo artigo).

Nota: Após os cortes feitos no PPA, e de acordo com a Cláusula 5.ª do Contrato-Programa estabelecido entre a Câmara Municipal do Porto e o Futebol Clube do Porto, datado de 4 de Fevereiro de 2003, a área bruta de construção cedida pela CMP ao FC Porto perfez um total de 90.245 m2 (e não os 106.250 m2 previstos inicialmente).

Rui Rio, após ser eleito (antes e durante a campanha eleitoral nada disse), insurgiu-se contra este subsídio em espécie dado pela CMP ao FC Porto (falarei nisso num próximo artigo).
Contudo, chamo à atenção que se a CMP tivesse atribuído aos terrenos com que o FC Porto entrou para o PPA (cerca de 161 mil metros quadrados) um coeficiente igual ao dos terrenos do Complexo Desportivo e Habitacional do Bessa (1.7), a capacidade construtiva resultante seria de cerca de 274 mil metros quadrados.
Isto é, depois de todos os cortes, ajustes, subtrações e adições, o Futebol Clube do Porto ficou com menos aproximadamente 50 mil metros quadrados de capacidade construtiva (224 mil versus 274 mil metros quadrados) do que aqueles que teria se, simplesmente, aos seus terrenos tivesse sido atribuído o mesmo coeficiente médio que foi atribuído aos terrenos do Boavista Futebol Clube.

(continua)

[1] Contrato-Programa entre a Câmara Municipal do Porto e o Futebol Clube do Porto, de 4 de Fevereiro de 2003

[2] Comunicado da Direção do Boavista Futebol Clube, de 14 de Fevereiro de 2002

Nota: Se alguém detectar erros grosseiros nos números que constam deste artigo, agradeço a respectiva correção na caixa de comentários, juntamente com a indicação da fonte dessa correção.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

PPA: os antecedentes (1)

Nota introdutória

No próximo dia 28 de Setembro o FC Porto completa 120 anos de existência e, se tudo correr dentro do previsto, nesse dia será inaugurado o novo museu do clube.

No dia seguinte, 29 de Setembro, há eleições autárquicas e fecha-se um ciclo de 12 anos de Rui Rio à frente dos destinos da cidade invicta, durante o qual a Câmara Municipal do Porto e o principal clube da cidade estiveram de costas voltadas.

O ‘Reflexão Portista’ não é um blogue político e, portanto, não cabe aqui uma análise política ao que foi o desempenho de Rui Rio como presidente da Câmara Municipal do Porto. Contudo, importa recordar o que esteve na origem deste corte de relações institucionais entre duas entidades que, à partida, deveriam estar alinhadas e colaborar ativamente em iniciativas que contribuam para a dinamização, projeção e crescimento da cidade do Porto.

É o que tenciono fazer, num conjunto de artigos que irei publicar durante as próximas semanas e onde irei recordar factos, declarações de protagonistas, encargos com obras, etc.

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A decisão do FC Porto de construir um novo estádio foi tomada em 1997, muito antes do EURO 2004, já então por se considerar que o Estádio das Antas estava a chegar ao fim da sua vida útil e que os gastos de manutenção anuais não o tornavam rentável.

Por outro lado, a ideia da Câmara Municipal do Porto (CMP) de fazer uma nova centralidade na zona oriental da cidade era ainda mais antiga (conforme declarações dos responsáveis autárquicos e documentos existentes o podem comprovar).

Deste modo, sendo os interesses da câmara e do clube convergentes, em Agosto de 1998, e por iniciativa da autarquia, o arquitecto Pedro Guimarães apresentou um primeiro estudo de renovação da zona, que ficou conhecido como a “Cidade do Dragão”. Nesse estudo, a localização que o clube tinha previsto para o novo estádio era no local ocupado pelo antigo campo de treinos n.º 1, ao lado do já demolido Estádio das Antas.

Entretanto, e por não ter ficado satisfeita com o estudo de Pedro Guimarães (Nuno Cardoso, na altura vereador do pelouro do Urbanismo, considerou a proposta inconcretizável e qualificou o trabalho de “banda desenhada”), a CMP decidiu, em Agosto de 1999, entregar ao arquitecto Manuel Salgado (responsável pelos projectos da EXPO'98 e do Centro Cultural de Belém) o projecto de requalificação urbana daquela zona oriental da cidade.

Segundo a introdução do relatório do Plano de Pormenor das Antas (PPA), trata-se de “um projecto urbano de grandes dimensões na zona das Antas e que abrange uma vasta área onde se localiza o estádio do Futebol Clube do Porto (FC Porto), diversas unidades industriais – algumas obsoletas –, terrenos camarários e terrenos privados ao abandono”. Abrange uma área de 41,3 hectares e fixa “a implantação do novo complexo desportivo do FC Porto e define a reutilização a dar aos terrenos que vão ser disponibilizados, estabelecendo uma estrutura de espaços públicos diversificados e o redesenho da malha urbana circundante e assegurando a articulação com os bairros mais próximos e a acessibilidade e a circulação em toda a zona, respeitando o regulamento e zonamento das Normas Provisórias do Plano Director Municipal”.

O PPA contempla uma área delimitada pelo Bairro de Contumil (a Norte), pela Rua de S. Roque da Lameira (a Sul), pela via-férrea (a Nascente) e pela Avenida de Fernão de Magalhães (a Poente).

Imagem aérea que inclui a zona abrangida pelo PPA (fonte: APOR)

Em Janeiro de 2000, o arquitecto Manuel Salgado apresentou a primeira versão do estudo, a qual já definia, com detalhe, a estrutura de toda a área do ponto de vista urbanístico e, nomeadamente, já previa uma grande superfície comercial (que haveria de se tornar polémica… dois anos depois!).

«Esta intervenção iniciou-se com a elaboração de um Estudo Urbanístico para a área compreendida entre a VCI, a Av Fernão de Magalhães, a Praça das Flores e a Praça da Corujeira e confinante com o Plano de Urbanização de Contumil (cerca de 85 ha) o que deu origem à realização do Plano de Pormenor da Zona da Antas (cerca de 40 ha). O Plano de Pormenor das Antas, assenta num princípio de reestruturação fundiária e de perequação compensatória de custos e benefícios e tem com objectivos criar uma nova cidade com funções variadas - 3000 fogos habitacionais que concentrarão uma população de cerca de 10000 pessoas; espaços comerciais e de serviços onde se prevêem a criação de cerca de 5000 postos de trabalho; 2 hotéis, um de 3 e outro de 4 estrelas; 1 estádio de futebol para 50000 espectadores, complementado ainda com áreas de lazer e desporto; 1 pavilhão multiusos; 1 centro comercial com cerca de 40000 m2 destinados a área de venda, armazéns e estacionamento para mais de 2000 viaturas; 1 parque verde urbano com 10 ha, equipado com zonas de desporto ao ar livre; 1 equipamento de saúde; 1 equipamento de ensino; estação e interface de metro; parques de estacionamento público para mais de 1000 viaturas.»
(fonte: APOR - Agência para a Modernização do Porto, S.A.)


Neste estudo, elaborado por Manuel Salgado para a CMP, o novo estádio do FC Porto é colocado numa localização diferente da inicialmente prevista, junto à VCI. Face a esta nova localização, que implicou custos acrescidos para o clube, o FC Porto aceitou discutir e negociar com a câmara o que tinha anteriormente preparado e que mais tarde virá a resultar no protocolo assinado entre a CMP e o clube.

Mapa do PPA com legenda (fonte: JN, 06-01-2000)

No dia 8 de Fevereiro de 2000, o estudo elaborado pelo arquitecto Manuel Salgado foi aprovado por unanimidade pelo executivo da CMP e, segundo a Direcção de Planeamento e Gestão Urbanística da CMP, foi desenvolvido de acordo com o conteúdo das normas provisórias do Plano Director Municipal (PDM). No estudo são propostas, regras e parâmetros que cumprem, quer as normas provisórias, quer o PDM.

(continua)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Os peritos da IGF

«O ex-presidente da Câmara do Porto, Nuno Cardoso, três responsáveis do FC Porto e dois antigos técnicos do município foram absolvidos, esta tarde, do crime de participação em negócio. Em causa estava uma permuta de terrenos contratualizada entre a câmara e uma família portuense, que acabou por ceder a sua posição, a meio do processo ao FCP.
A juíza dos Tribunal de Juízos Criminais do Porto considerou ainda “improcedente” o pedido de indemnização cível efectuado pela autarquia, por considerar ter sido lesada, neste negócio, em cerca de 2,5 milhões de euros. (…)
A juíza não considerou provado nenhum dos factos apresentados pela acusação, criticando o relatório da Inspecção-Geral de Finanças (IGF), que sustentou o processo – à semelhança do que já fizera o procurador do Ministério Público que, anteontem, pedira a absolvição de todos os arguidos. Esta tarde, a juíza confirmou que o tribunal “não logrou alcançar qualquer vontade ou intenção dos arguidos em beneficiar ilicitamente quer a família Ramalho quer o FC Porto”.»
in PUBLICO.pt


A tese do benefício do FC Porto, sustentada por Rui Rio e pela Inspecção-Geral de Finanças (IGF), foi estrondosamente derrotada em Tribunal. A juíza do processo entendeu não ter ficado provado qualquer prejuízo para o património municipal, nem conluio entre Nuno Cardoso e o FC Porto.

Esta decisão era esperada. Recorde-se que nas alegações finais, realizadas na segunda-feira, o próprio magistrado do Ministério Público já tinha pedido a absolvição de todos os arguidos, considerando que o processo se revelou “um balão sem ar”, que não se poderia condenar com base em suposições e que toda a história se resumiu a uma “ficção”.
Independentemente da decisão, chamo à atenção para a dureza das expressões utilizadas e para o facto da tese dos peritos da IGF ter sido completamente descredibilizada.

Espero que esta decisão de um Tribunal, contribua para fazer reflectir os portistas (para os anti-portistas é irrelevante) que, neste e noutros casos relacionados com o Plano de Pormenor das Antas, tinham embarcado de cabeça nas teses dos peritos da IGF.

sábado, 11 de julho de 2009

Os comerciantes que se lixem

Afinal não é só no futebol que “o que hoje é verdade amanhã é mentira”, os políticos portugueses têm-no demonstrado bastas vezes. Um destes casos tem vindo a comprovar-se ao longo dos mandatos do actual presidente da Câmara Municipal do Porto. Há uns anos atrás, no início de 2002, aquando da aprovação do Plano de Pormenor das Antas (PPA) – essencial para a construção do Dragão – Rui Rio tudo fez para aniquilar o projecto do novo estádio do FC Porto. Na altura fez oposição cerrada ao PPA defendendo que era necessária uma redução da volumetria do centro comercial em nome dos interesses dos comerciantes da Baixa da cidade. Fê-lo sem se munir de qualquer estudo credível que o demonstrasse. O importante era afrontar o clube e o seu presidente e impedi-los a todo custo de construírem uma excelente infra-estrutura que iria acabar por beneficiar a zona Oriental da cidade. Para a prossecução do seu objectivo político serviu-se da Associação de Comerciantes e da sua presidente, a Dona Laura, que depois de algumas peixeiradas lá conseguiu obter 5 milhões de euros de indemnização do Grupo Amorim. Esse dinheiro terá servido, supostamente, para a dinamização do comércio tradicional.


Para o Rui Rio de 2002 um centro comercial a mais de 5 km da Baixa poderia influenciar negativamente o comércio nesse local. Para o Rui Rio actual já não é bem assim. A comprová-lo estão os projectos para o Mercado do Bolhão e para o Mercado do Bom Sucesso. Este autarca prepara-se para transformar dois espaços que fazem única esta cidade em centros comerciais com lojas, hotéis e restauração concessionada a privados por 30 ou 50 anos. É a solução fácil do "mangas de alpaca" que assim consegue retirar peso à estrutura de custos camarária, mesmo sabendo que o modelo de negócio está mais que esgotado para a cidade do Porto. Mas como se costuma dizer "quem vier atrás que feche a porta". No caso do Bom Sucesso passarão a existir 4 centros comerciais em menos de 1 km quadrado. Os comerciantes tradicionais, esses, que se lixem, obviamente.

domingo, 23 de novembro de 2008

Pinto da Costa, o F.C.P. e os Políticos

A propósito do interessante artigo do Mário Faria sobre as relações entre Rui Rio e o F.C. Porto e da posição do presidente da Câmara Municipal do Porto acerca da “promiscuidade” entre política e futebol ocorreu-me historiar em breves linhas o que foi ao longo dos anos a atitude do próprio presidente do F.C. Porto em relação à política e aos políticos. Se nos dermos ao trabalho de recuar no tempo chegaremos à conclusão de que, de certa maneira, Jorge Nuno Pinto da Costa foi, nesse aspecto, uma espécie de imagem simétrica de Rui Rio.

De facto, logo desde os tempos do “Verão Quente das Antas” de 1980 que Pinto da Costa se insurgiu contra a intimidade entre o clube e a política, especialmente a propósito do cargo de deputado a que o presidente da altura, o Dr. Américo Sá, acedera devido à notoriedade que a presidência do clube lhe dera. Mais, no âmago da questão em liça nesse atribulado verão, estava o que Pinto da Costa, José Maria Pedroto e outros viam como a submissão do Dr. Américo Sá à vontade de colegas seus de bancada com posições de relevo no panorama futebolístico da capital, entre os quais o Dr. Martins Canaverde, antigo presidente do Benfica e da F.P.F. Teria sido, na óptica da facção “pintista” de 1980, por pressões de Canaverde & Cª que Américo Sá acabara por deixar cair Pinto da Costa do cargo de chefe do departamento de futebol, com isso arrastando a demissão de Pedroto e todos os factos daí decorrentes.

Foi, pois, a distanciação do clube da política e dos políticos uma das palavras-fortes da campanha de Pinto da Costa para a presidência do clube em 1982. E, se bem o pensou, melhor o fez. De facto, nos primeiros anos do seu consulado, Pinto da Costa manteve uma linha inflexível no trato com os políticos, bem ilustrada por dois episódios: em 1986, aquando da participação da selecção nacional no Campeonato do Mundo do México, o recém-eleito Presidente da República, Dr. Mário Soares, convidou os presidentes dos clubes com jogadores na selecção para assistirem com ele em Belém, pela televisão, ao jogo inaugural da nossa equipa contra a Inglaterra. Todos marcaram presença. Todos? Não! A Norte um resistente rejeitou o convite e primou pela ausência: o presidente do F.C. Porto.

De igual modo, poucos anos depois, o Engº Armando Pimentel, de saudosa memória, vice-presidente do clube, foi eleito vereador da Câmara Municipal do Porto e, acto contínuo, demitiu-se do cargo que ocupava no clube, por tácita e implícita incompatibilidade de funções. Aliás, o próprio Jorge Nuno Pinto da Costa foi várias vezes sondado pelos mais díspares partidos (creio que, segundo o próprio, apenas com a excepção do P.C.P.) para uma possível candidatura à Câmara e sempre o recusou. Ao contrário de muitos outros, cargos no futebol e na política eram para ele incompatíveis (posição que, estou certo, manterá).

Mas, de um período inicial de total ou quase total alheamento do clube, sob Pinto da Costa, do mundo da política, começaram a dar-se alguns passos de aproximação. O princípio da não ingerência nos assuntos políticos era inatacável mas - terá Pinto da Costa pensado – algum contacto aqui e ali não seria prejudicial ao clube, antes pelo contrário, já que não era para ele próprio que algum dia procuraria tirar vantagens de um relacionamento com os políticos. O primeiro desses passos veio a ter lugar no relacionamento de Pinto da Costa com o Gen. Ramalho Eanes, que conheceu através de um amigo comum, o comendador António Gonçalves Gomes, “o Samarra”. Esse relacionamento viria a dar lugar a uma grande amizade, como é do domínio público. E em Eanes Pinto da Costa encontrava, aliás, um político bem à sua medida: era, por excelência, o político anti-políticos, e até criara um partido anti-partidos.

É com mágoa que actualmente vemos a equipa do F.C. Porto não ser recebida nos paços do concelho aquando dos seus êxitos, e da varanda dos mesmos festejar com a massa anónima dos adeptos. Essa suposta tradição (um bom hábito, diga-se) foi quebrada pelo Dr. Rui Rio. Mas a verdade é que se não tratava de tradição alguma: antes da presidência do Dr. Fernando Gomes nunca as equipas do F.C. Porto eram recebidas na Câmara para daí festejarem com os adeptos.
Nem mesmo no tempo do antecessor do Dr. Gomes, por sinal um antigo vice-presidente do F.C. Porto, o Dr. Fernando Cabral, tal se verificou, inclusivamente aquando da vitória na Taça dos Campeões Europeus em 1987. A Câmara Municipal do Porto ignorava o clube mais importante da cidade e a este, por sua vez, desagradava o convívio com os políticos.

O atrás referido Dr. Fernando Gomes foi, pois, o precursor do estreito relacionamento entre câmara e clube. Mesmo antes de chegar ao topo da edilidade tripeira o Dr. Gomes, sobre quem, aliás, sempre pendeu uma nunca satisfatoriamente desmentida suspeição de sportinguismo, ensaiara já uma aproximação (alguns diriam colagem) ao F.C. Porto. Efectivamente, na qualidade de euro-deputado convidou o nosso bi-Bota de Ouro, também ele Fernando Gomes, para ser apresentado no Parlamento Europeu. Na sua gentileza o Dr. Gomes, que já fora presidente da Câmara de Vila do Conde, sua terra natal, mais do que apresentar o seu homónimo aos deputados de Estrasburgo, pretenderia era apresentar-se ele mesmo aos eleitores tripeiros.

Não sei se alguém algum dia votou no Dr. Gomes levando em conta a sua simpatia para com o F.C. Porto mas, caso isso tenha acontecido, aí sim, estaríamos perante um caso a merecer reflexão política e sociológica, para usar a expressão do Mário Faria. Bem sei que, por causa do futebol, até dois países da América Central em tempos se envolveram em guerra, mas daí a acreditar que o portuense médio, mesmo adepto do F.C. Porto e com toda a paixão pelo clube, dê muito relevo a aspectos dessa ordem na hora de votar em eleições autárquicas, vai uma distância. Isso mesmo explicará o aparentemente paradoxal reforço de votação do Dr. Rio de 2001 para 2005, manifestamente não afectado pela sua antipática posição para com o F.C. Porto.

Sejam as coisas como forem, o Dr. Gomes, aquando do anúncio público da sua tentativa de reconquista do lugar de presidente da edilidade em 2001, estava ladeado por Jorge Nuno Pinto da Costa. Este não estava ali como presidente do F.C. Porto, mas JNPC e o presidente do F.C. Porto são a mesma pessoa, além de que o apoio público de JNPC, se nunca tivesse sido presidente do FCP, pouco interessaria ao Dr. Gomes. Decerto que Pinto da Costa manifestou esse apoio por motivos para ele bons e sãos, mas as aparências são, em muitos aspectos da vida, fundamentais. Nada terá, portanto, impedido o Dr. Rio de, na sua sanha anti-“promiscuidade” e na sua imaginação aquecida pelo fragor da luta eleitoral, ter achado que defrontava realmente Pinto da Costa e não o Dr. Gomes, e que a sua vitória acabou por ser sobre JNPC e não sobre o candidato socialista. Ele próprio, aliás, declarou depois de eleito que a sua vitória se fizera contra “os poderosos”. Nessa sua sanha a figura de Pinto da Costa teria assim assumido na imaginação do Dr. Rio contornos semelhantes aos de um cacique saído das páginas de um romance de outro eminente portuense, Júlio Dinis.

Perguntar-se-á: e se Pinto da Costa não tivesse apoiado o Dr. Fernando Gomes em 2001, teria a atitude do Dr. Rui Rio no caso do Plano de Pormenor das Antas sido diferente? Isso, ninguém pode dizer, mas cada um que avente a sua hipótese.

De toda esta saga de distanciamentos e aproximações entre Jorge Nuno Pinto da Costa e os políticos uma conclusão me parece legítimo tirar: JNPC gere essas relações conforme lhe parece convir ao F.C.P. em cada momento; nunca se aproxima de um político por qualquer interesse pessoal, nem pelos seus lindos olhos. Fá-lo friamente e em nome do que considera ser o interesse do F.C. Porto, e em nome desse mesmo interesse, tal como se aproximou, pode afastar-se. Jorge Nuno Pinto da Costa tem um lado sentimental na sua actividade à frente do F.C.P., mas reserva-o exclusivamente para aqueles que, como atletas, treinadores ou adeptos, estão directamente ligados à vida do clube.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Rio, a cidade e o clube

Não é fácil falar de Rui Rio e de Pinto da Costa, exclusivamente no âmbito político e desportivo, respectivamente, como se a vida de cada um começasse e terminasse nessa condição.
O homem que é Presidente do FCP tem todo o direito de fazer as suas escolhas políticas, mas deve-o fazer em seu nome pessoal e não misturar o clube com motivações do tipo partidário.

O mesmo tipo de registo seria exigível ao Presidente da Câmara e a Rui Rio, relativamente ao FCP, embora não seja a mesma coisa, porque os cargos que ambos exercem pedem responsabilidades diferentes.


Relativamente ao Presidente da Autarquia, é esquisito que não lhe interesse o desporto – ainda que profissional – e os clubes que moram cá no burgo, nomeadamente o FCP que é uma marca que beneficia claramente a cidade. No seu programa, fala no apoio ao desporto amador. Deve ser, por isso, que a autarquia tanto se empenhou nas corridas de automóveis e aviões. Entre o desporto amador (que fica muito bem em qualquer programa) e o ego do nosso presidente, ganharam os motores e as acrobacias aéreas.


Nem oitenta como era com Fernando Gomes, nem abaixo de zero como faz Rui Rio. Um Presidente da Câmara tem todo o direito de não se querer misturar (nem parecer que o faz) em situações que sejam (ou pareçam) promíscuas. Com o FCP, Rui Rio não se distanciou: criou a ruptura. Houve exageros e alguma violência absolutamente reprovável por parte da claque, mas o pecado original foi cometido por Rui Rio e a sua entourage, que na sua grande maioria detesta o futebol ou o FCP. Pior, agiu como se o facto fosse uma mais valia política. Depois da vitória nas eleições, o que antes era um desejo - partir a espinha dorsal ao FCP -, passou a ser um projecto exequível. Se já tinha ganho as eleições contra tudo e todos, porque não aspirar chegar mais longe?


Como atrás referi, da sua agenda (pessoal e informal) constava quebrar a espinha ao FCP (e a PdC) e retirar-lhes todo o apoio que até aí tinham recebido da CMP. O PPA que viabilizou a construção do Dragão, era o instrumento que precisava para consolidar a personalidade de antes quebrar que torcer. Serviu, ao mesmo tempo, para funcionar como um instrumento fundamental para o seu projecto político. Com um cajado matou dois coelhos: o PS, despesista e promíscuo, o FCP uma espécie de tecto que encobria toda um seita de malfeitores.

Com a ajuda da Associação de Comerciantes do Porto tudo fez para bloquear o projecto do Dragão. Amorim que é um conhecido apoiante da causa do PSD, interveio e conseguiu um acordo.

Sinceramente, era interessante conhecer como tem sido monitorizado esse empréstimo e o que é que ganharam os Comerciantes, para além da exploração do cinema Batalha. Parece-me óbvio que o problema dos pequenos comerciantes é sistemático e não vai com as bolhas de dinheiro que Rio generosamente lhes "concedeu", via acordo com o Grupo Amorim.

Para que serviu tanto alarido? Obviamente, prejudicar o FCP e ficar bem na fotografia para a opinião publicada. Para além disso, servirá para memória futura, quando o partido for chamado a eleger um novo presidente, o que deverá acontecer a curto prazo. Aliás, esta é a fórmula ganhadora, que Scolari seguiu e que tem o nome de “Princípio de Rio”: hostiliza o FCP e tens o país aos pés.

Depois do acordo entre Rio, Amorim e os Comerciantes, o que ganhou a cidade? E que problemas viram os comerciantes resolvidos? A quem interessa isso agora? Fazer todo o mal de uma vez, relativamente ao FCP, foi a estratégia. Agora, o seu desprezo, mais silencioso e cuidadoso, é quase reconhecido como um benefício.

Firmou acordos com o Grupo Amorim e com a Soares da Costa. Satanizando o FCP, obviamente só podia criar anti-corpos junto do clube, dirigentes e adeptos. O tempo cura algumas chagas, mas as marcas ficam lá. Apesar disso, honra lhe seja feita, conseguiu fixar e aumentar o seu pecúlio eleitoral, o que é obra que merece reflexão, política e sociológica.

A ambiciosa intervenção do Plano de Pormenor das Antas visava o propósito de criar uma nova centralidade com funções variadas. Para aqui previram-se três mil fogos, dois hotéis, um estádio de futebol, um pavilhão multiusos, um centro comercial, equipamentos de saúde e de ensino, um parque urbano com dez hectares, estacionamento para três mil viaturas e um interface para o metro.


Parte do Plano de Pormenor das Antas está construído mas, o equipamento de saúde, o de ensino e o tal parque urbano ficaram pelo caminho, confirmando o imobilismo camarário instalado há anos na cidade.

A revitalização da baixa, os bairros camarários, as corridas de automóveis e aviões, o recente amor pelo fogo de artifício, são a obra que é elencada pelos seus seguidores como meritória. O Metro serve para demonstrar a sua sanha regionalista, e mostrar os dentes a Lisboa, sem morder.

A relação entre o FCP e Rui Rio já foi bem pior. Agora, simplesmente preferem silenciar o ódio de estimação que merecem um do outro. A Rui Rio já não interessa afrontar o clube porque já não retira dividendos disso – os ganhos conquistados estão consolidados, não é preciso bater mais no ceguinho – e o FCP porque sabe que a maldição de Rui Rio há-de passar e o FCP há-de continuar por muitos e bons anos como o clube de referência da cidade.

Devo confessar que sou de mais do FCP e de menos do PSD, apesar disso, desejo a melhor sorte para o Dr. Rui Rio. Estou ansioso por vê-lo no Parlamento, ou noutro qualquer lugar, bem longe da Câmara e da nossa cidade. O país espera-o!