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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Noite de gala: o day after


Grande exibição!
Golo monumental de Corona!
Obra de arte de Brahimi!
Bis de André Silva!
Mão cheia de golos!
Tudo isto e, claro, ganhar 5-0 ao campeão inglês em título é ganhar 5-0 ao… campeão inglês em título.

Mas (e há sempre um "mas"...), quem tem acompanhado a Premier League 2016/2017, sabe que este Leicester ocupa o 16º lugar (ganhou 3 dos 14 jogos já disputados e está apenas dois pontos acima da linha de despromoção) e é uma equipa que tem tido um desempenho muito distante da equipa que, na época passada, surpreendeu o Mundo do futebol, ao sagrar-se campeão inglês.

Mais. O onze inicial do Leicester que alinhou no Dragão, não tinha o guarda-redes titular (Kasper Schmeichel), não tinha o seu suplente (Ron-Robert Zieler), nem tinha outros nove dos jogadores mais utilizados esta época por Claudio Ranieri (Danny Simpson, Robert Huth, Christian Fuchs, Daniel Amartey, Andy King, Riyad Mahrez, Jamie Vardy, Marc Albrighton, Islam Slimani).
Ou seja, Claudio Ranieri alinhou no Dragão com 11 jogadores sem rotinas (isso viu-se bem no 1º golo) e que nunca tinham jogado juntos.

Yes, we can. Sim, o FC Porto cumpriu com a sua obrigação, ganhou e qualificou-se (em 2º lugar) para os Oitavos-de-final da Liga dos Campeões, sem precisar de ajudas de terceiros (esta é para o Rui Derrota…).

Mas, convém lembrar que, num grupo muito acessível, o FC Porto só foi capaz de ganhar a este Leicester (de segundas e terceiras escolhas) e a um fraquíssimo Club Brugge (uma equipa que perdeu os 6 jogos que disputou nesta fase de grupos, com um saldo de 2 golos marcados e 14 golos sofridos!).

Estamos, naturalmente, felizes com esta vitória gorda e com a continuidade na competição de clubes mais importante do panorama mundial. Contudo, é capaz de ser um bocadinho precipitado embandeirarmos em arco com estes 5 golos (CINCO, carago!), pensarmos que agora é sempre a abrir, que o campeonato está no papo e que mesmo na Liga dos Campeões, com um sorteio jeitoso na próxima 2ª feira, se calhar vamos longe…

Calma. Pés no chão, porque os problemas do FC Porto não estão todos resolvidos. Nem, tão pouco, os da equipa principal de futebol. E, sem querer ser pessimista, apesar do próximo adversário (Feirense) vir de cinco derrotas seguidas (quatro das quais em casa), cheira-me que, já no próximo domingo, não vai ser fácil trazer os três pontos do estádio Marcolino de Castro.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Com esta atitude, tudo se consegue

Como tudo é mais fácil quando jogam os melhores. Como tudo é mais fácil quando se joga ao ataque, sem render-se ao medo. O FC Porto fez uma enorme exibição contra uma equipa a meio gás - compreensivelmente - do Leicester. Claro que ninguém fala de que o Kovenhague também estava a jogar com um Brugges B na Bélgica. Não, isso não interessará a ninguém. Mesmo que o Leicester tenha chegado ao Porto sem algumas das suas figuras, havia ali jogadores importantes na conquista do título (Morgan, Drinkwater, Okazaki) e promessas de grande futuro (Mendy, Gray) e uma equipa com vontade de completar uma fase de grupos imaculada. Felizmente para os adeptos portistas o plano de NES foi, hoje, totalmente diferente daquele dos jogos anteriores. Sem meias tintas, o técnico portista apostou nos melhores (salvo no caso Telles-Layun, opinião exclusivamente pessoal). A lesão de Otávio pode até ter precipitado a entrada de Brahimi mas quem viu o jogo entende que um jogador assim como o argelino, com os seus altos e baixos, não pode ser um pária nem uma opção de último recurso. Brahimi pode perder muitas bolas, agarrar-se demasiado ao esférico. Ninguém vai descobrir isso agora. Mas o que é capaz de fazer com ela e como faz jogar - e condiciona o rival - é algo de que o plantel carece. E a sua presença foi importante ainda que não determinante porque hoje o FC Porto jogou a alto nível como equipa. E aí fez a diferença.



NES abandonou um modelo mais medroso de jogo, em que os extremos muitas vezes recuavam para formar um 4-1-4-1 ou um 4-4-1-1 com Jota no apoio a André para assentar um 4-2-3-1 ofensivo onde Oliver começava a armar jogo desde atrás, com Danilo a fechar as subidas dos laterais ao mesmo tempo que o seu irmão gémeo tapava o bloco central com a sua autoridade habitual. Menos mal que ninguém se deu conta que eram dois e não um os que estavam a jogar com a camisola daquele que tem sido, provavelmente, o melhor jogador da época até agora. Corona bem aberto pela direita e Brahimi, idem pela esquerda, permitiam a Jota e Silva moverem-se com facilidade entre linhas frente a um Leicester apático e que deixava todo o espaço do mundo aos dragões. Com Maxi e Telles bem nos apoios laterais desde cedo o Porto deu sinal mais e deixou claro que ia atacar por todos os meios e caminhos possíveis. Foi o que fez sempre, mesmo quando se viu com um golo a favor quando, até agora, esse golo era o toque habitual de retirada para um jogo de contenção. Fosse o medo aos golos do Kovenhague - dois em doze minutos - fosse por uma mudança de paradigma, o certo é que o Porto hoje vulgarizou - e essa é a palavra mais simpática para os adeptos do Leicester - o campeão inglês. Pode não ser a melhor equipa inglesa nem ser a equipa com todos os titulares mas não deixa de ser o campeão inglês e esse boost de confiança chega no momento certo depois da fome de golos acumulada e que a explosão de Rui Pedro saciou de forma brilhante contra o Braga.

Os golos foram consequência do domínio e da atitude. André Silva, de cabeça, sem ter qualquer necessidade de saltar - falha clara de marcação - abriu a contagem e acabou com a ansiedade normal das últimas semanas. Tudo o que não entrou nos jogos anteriores, mesmo quando tanto se merecia, entrou hoje com uma naturalidade abismal. Corona fez um golo assombroso, um remate seco ao ângulo que mais parecia sacado dos últimos minutos de um treino do que um duelo decisivo da Champions League tal foi a naturalidade com que fuzilou a baliza inglesa. Em dois lances o Porto matou as dúvidas geradas, o borrego de golos e a ansiedade em relação ao resultado dos dinamarqueses. Depois dedicou-se a jogar á bola, na melhor acepção da palavra, com um bom jogo combinativo entre linhas e com a baliza contrária sempre em mente. Uma mudança de atitude que permite encarar o futuro com outros olhos. O golo de Rui Pedro com o Braga pode ter tirado o desespero da ineficácia - e ninguém sabe o que passará no fim-de-semana - mas a atitude desse jogo contra um Braga focado anti-jogo e sobretudo a de hoje, de uma equipa claramente ofensiva e competitiva, deixa a sensação de que tudo ainda se pode conseguir se lhe for dado o devido seguimento nas próximas semanas para que não se perca este estimulo. Para isso convinha não voltar a perder um génio como Brahimi - mesmo que a sua saída em Janeiro seja quase inevitável- que com um golo madjeriano voltou a demonstrar que tem um talento superlativo que tem sido desaproveitado de forma absolutamente incompreensível. Ao 3-0 merecido do intervalo seguiu-se uma segunda parte de monologo e em que Casillas foi mero espectador. Um penalti bem assinalado e melhor convertido por André Silva começou o desenho da goleada. NES trocou então Danilo - os dois - por Ruben Neves e Corona por Herrera, uma atitude lógica que não mudou a dinâmica vertical do colectivo e já com Rui Pedro merecidamente em campo - André Silva tinha amarelo e convinha não arriscar, além do justo prémio ao jovem da formação de disputar os primeiros minutos de Champions League na carreira - chegou o quinto golo anotado por um Diogo Jota que sempre se mostrou irrequieto e que teve a devida recompensa. O Leicester mesmo com as substituições continuou a ser uma equipa apática - e apesar de haver jogo contra o City no fim-de-semana esperava-se mais de muitos teóricos não-titulares de tal modo que a expressão facial de Ranieri dizia tudo o que havia para dizer - e o Porto manteve a tremenda sensação de superioridade que já devia ter demonstrado noutros momentos. Convém recordar que este foi, talvez, o (ou um dos) grupo mais fácil da história do clube na Champions League - algo que era quase comummente aceite em Setembro - e que com esta atitude nos jogos contra o Kovenhague e em Inglaterra, o apuramento podia ter sido resolvido a meados de Novembro. O Porto é hoje o que era em Setembro, maior e melhor do que qualquer um dos seus rivais, mesmo o Leicester na máxima força. Demorou a confirmar essa superioridade mas hoje ficou claro que ela não era produto da nossa imaginação.



Grande trabalho colectivo, grande atitude competitiva e muito boa iniciativa de jogo por parte de Nuno e dos seus, foi o que foi preciso para garantir o regresso, depois de um ano de ausência, aos Oitavos de final da Champions League. Todos somos conscientes das nossas limitações e que não seremos favoritos contra nenhum dos cabeça de serie - o mais débil será o Leicester com quem não podemos jogar - e que entre Barcelona, Juventus, Atlético de Madrid e Dortmund estão quatro favoritos a ganhar o troféu. Napoles, Arsenal e Monaco são equipas mais acessíveis mas os duelos seriam sempre intensos e nunca com o Dragão como favorito. O que pode ser até um bom sinal. O market pool e as receitas futuras da Champions vão ajudar a paliar as contas, o grande jogo de Brahimi poderá facilitar ainda mais a sua saída e Danilo e André Silva continuam a aumentar o seu valor a cada jogo que passa. Dezembro começou em cheio. Que termine do mesmo modo e abra caminho a uma nova dinâmica é a melhor forma possível de fechar um ano muito negro. Que os desenhos do NES vos acompanhem!

Fotos: MaisFutebol

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Parabéns amargos

O FC Porto está hoje de parabéns. A instituição. Os adeptos. E mais ninguém.
Em Leicester, contra uma equipa que viveu um sonho mas que não é nem será nunca um top10 do futebol inglês, manteve-se a maldição em ilhas britânicas. O FC Porto nunca ganhou na Velha Albion e se muitas vezes teve a desculpa, lógica, de enfrentar-se a grandes equipas, ontem não foi o caso. O Leicester não é uma grande equipa. Mas é uma equipa com um bom treinador, finalmente reconhecido. É uma equipa que se move pouco, mas bem, no mercado de transferências (com o plus de que, qualquer clube inglês da 2º Divisão gasta mais do que um clube português) e é uma equipa que tem um plano. O objectivo do Leicester não é atacar o título nem sequer o top4. É ganhar a Champions. Ou pelo menos tentar. Viu-se isso claramente no jogo contra o Manchester United de Mourinho, com um resultado muito enganador. Nuno viu esse jogo? Pelo visto no King Power Stadium, há que ter dúvidas.

Mourinho foi muito claro na sua análise ao Leicester. É uma equipa extremamente previsível, tanto nos processos defensivos como nos ofensivos mas é difícil de bater na sua previsibilidade. O FC Porto também tem sido uma equipa previsível neste mandato de NES - que vai com um 50% de maus resultados entre derrotas e empates em jogos oficiais - mas previsível pela sua falta absoluta de ideias e princípios. O FCP defende mal. O FCP ataca mal. O meio campo do FC Porto não cria. O meio campo do FCP não destrói. É confrangedor ver como Danilo nunca corrige os centrais. É confrangedor ver como os centrais não sabem sair a jogar e ora optam pelo passe lateral - que asfixia imediatamente a equipa - ou o lançamento em largo, que entrega o ouro ao bandido especialmente se esse bandido é inglês. Felipe tem o sindrome Maicon do passe largo, passe lateral. Marcano é, Marcano, um jogador mediano mas que nunca será a solução. Entre ambos o FC Porto não tem um bom central, quanto muito uma dupla. E esqueçam a opção Boly. Tempo ao tempo. No lance do golo, tão fácil de antecipar de Slimani, os erros defensivos são evidentes, desde a forma como Marhez - o melhor jogador do Leicester e que devia estar vigiado pelo interior esquerdo mas se encontrou só frente a um Telles que é um dos maiores enigmas do mercado de transferências - rompe sem problemas e encontra tempo e espaço para centrar até ao momento em que Slimani parece superar a defesa como se estivesse a jogar contra iniciados. Um golo que o FCP sofreu tantas vezes de Slimani nos últimos dois anos mas que teima em continuar a sofrer. Se isso não é falta de preparação é, seguramente, falta de qualidade. Nada de bom, portanto. Já agora, Marhez e Slimani tinham sido jogadores perfeitos para contratar, há cinco anos atrás, se o scouting do FC Porto - tão bom, tão elogiado - tivesse primazia sobre a direcção desportiva do FC Porto - tão má, tão interessada.



O Porto podia ter tido um melhor resultado na segunda parte. Podia. Mas quando os projectos desportivos não funcionam ás vezes a própria sorte decide assobiar para o lado. O que não teve, nem nos primeiros nem nos segundos quarenta e cinco minutos, foi futebol. A dificuldade de jogar entre linhas é pasmosa. Raramente os sectores conectam uma jogada pelo corredor central. Não há triangulações, não há passes que encadenem jogadores e permitam á equipa subir em bloco. Como num exercício de treinos, cada linha vai até a um ponto limite entregar a bola e de aí não passa. Raramente o FCP consegue empurrar os seus rivais como um grupo unido e raramente André Silva tem companhia. E se á esquerda ou á direita se continua a insistir em usar Adrian Lopez - e nenhum extremo porque nem Oliver nem Otávio o são - então os problemas aumentam exponencialmente. A profundidade que deviam dar os laterais é inócua e fica-se pelo apoio no último terço. Danilo não varre. André André não distribui e entre Oliver e Otávio há futebol e boas ideias, mas que podem fazer dois jogadores asfixiados entre seis contrários se ninguém se oferece, ninguém verticaliza o jogo? Herrera, o mal amado, tentou oferecer algo mais mas foi remar contra a maré. Esse era já um Porto sem ideias, a valer-se do individual e descurando, ainda mais, o colectivo. Podia ter provocado um golo, mas nunca gerado futebol.

No final de contas estamos ás portas de Outubro num ano com pré-época que começou em Abril. Supõe-se que este projecto leva já, na prática, meio ano. Que o treinador leva ao comando quatro meses. E no entanto, o futebol continua a não aparecer. Salvo lances de bola parada - uma das habituais armas do Nuno treinador - há pouco para oferecer em esquemas colectivos de jogo. NES pode não ter responsabilidades no desastroso mercado, afinal o FC Porto sempre foi um clube onde o treinador tem pouco que dizer nesses assuntos quando há interesses superiores. Mas o que NES tem, como responsabilidade, é procurar fazer com o que tem uma equipa de futebol. Mais de 100 dias depois está por se ver se é capaz mas o atraso com os competidores domésticos é evidente - o FCP não tem só pior plantel mas tem muito pior treinador, onze e estilo de jogo que Benfica e Sporting, não se tendo melhorado absolutamente nada do que já existia há um ano atrás - e corre o risco de cair na Champions League com o grupo mais fácil de que há memória na história do clube. Seis pontos contra os debeis belgas do Brugge são obrigatórios mas, ainda assim, é preciso ir a Copenhague pontuar e esperar que o Leicester faça 6 de 6 antes do jogo final no Dragão contra os ingleses. São muitos "ses" para duas jornadas disputadas. Sinal, mais do que evidente, de que muitas coisas estão longe de correr bem.

O FC Porto faz hoje anos. Os adeptos estão de parabéns. O clube está de parabéns. Quem permitiu que o clube esteja nesta situação e que vive em silêncio cúmplice não. Quem é assalariado do clube e é incapaz de demonstrar estar á sua altura em princípios básicos de jogo, também não. Infelizmente os primeiros terão de cantar os parabéns com uma lágrima de tristeza nos próximos tempos se os segundos continuarem a somar anos ao curriculo histórico do clube em vez de títulos e ambição.