O FC Porto está hoje de parabéns. A instituição. Os adeptos. E mais ninguém.
Em Leicester, contra uma equipa que viveu um sonho mas que não é nem será nunca um top10 do futebol inglês, manteve-se a maldição em ilhas britânicas. O FC Porto nunca ganhou na Velha Albion e se muitas vezes teve a desculpa, lógica, de enfrentar-se a grandes equipas, ontem não foi o caso. O Leicester não é uma grande equipa. Mas é uma equipa com um bom treinador, finalmente reconhecido. É uma equipa que se move pouco, mas bem, no mercado de transferências (com o plus de que, qualquer clube inglês da 2º Divisão gasta mais do que um clube português) e é uma equipa que tem um plano. O objectivo do Leicester não é atacar o título nem sequer o top4. É ganhar a Champions. Ou pelo menos tentar. Viu-se isso claramente no jogo contra o Manchester United de Mourinho, com um resultado muito enganador. Nuno viu esse jogo? Pelo visto no King Power Stadium, há que ter dúvidas.
Mourinho foi muito claro na sua análise ao Leicester. É uma equipa extremamente previsível, tanto nos processos defensivos como nos ofensivos mas é difícil de bater na sua previsibilidade. O FC Porto também tem sido uma equipa previsível neste mandato de NES - que vai com um 50% de maus resultados entre derrotas e empates em jogos oficiais - mas previsível pela sua falta absoluta de ideias e princípios. O FCP defende mal. O FCP ataca mal. O meio campo do FC Porto não cria. O meio campo do FCP não destrói. É confrangedor ver como Danilo nunca corrige os centrais. É confrangedor ver como os centrais não sabem sair a jogar e ora optam pelo passe lateral - que asfixia imediatamente a equipa - ou o lançamento em largo, que entrega o ouro ao bandido especialmente se esse bandido é inglês. Felipe tem o sindrome Maicon do passe largo, passe lateral. Marcano é, Marcano, um jogador mediano mas que nunca será a solução. Entre ambos o FC Porto não tem um bom central, quanto muito uma dupla. E esqueçam a opção Boly. Tempo ao tempo. No lance do golo, tão fácil de antecipar de Slimani, os erros defensivos são evidentes, desde a forma como Marhez - o melhor jogador do Leicester e que devia estar vigiado pelo interior esquerdo mas se encontrou só frente a um Telles que é um dos maiores enigmas do mercado de transferências - rompe sem problemas e encontra tempo e espaço para centrar até ao momento em que Slimani parece superar a defesa como se estivesse a jogar contra iniciados. Um golo que o FCP sofreu tantas vezes de Slimani nos últimos dois anos mas que teima em continuar a sofrer. Se isso não é falta de preparação é, seguramente, falta de qualidade. Nada de bom, portanto. Já agora, Marhez e Slimani tinham sido jogadores perfeitos para contratar, há cinco anos atrás, se o scouting do FC Porto - tão bom, tão elogiado - tivesse primazia sobre a direcção desportiva do FC Porto - tão má, tão interessada.

O Porto podia ter tido um melhor resultado na segunda parte. Podia. Mas quando os projectos desportivos não funcionam ás vezes a própria sorte decide assobiar para o lado. O que não teve, nem nos primeiros nem nos segundos quarenta e cinco minutos, foi futebol. A dificuldade de jogar entre linhas é pasmosa. Raramente os sectores conectam uma jogada pelo corredor central. Não há triangulações, não há passes que encadenem jogadores e permitam á equipa subir em bloco. Como num exercício de treinos, cada linha vai até a um ponto limite entregar a bola e de aí não passa. Raramente o FCP consegue empurrar os seus rivais como um grupo unido e raramente André Silva tem companhia. E se á esquerda ou á direita se continua a insistir em usar Adrian Lopez - e nenhum extremo porque nem Oliver nem Otávio o são - então os problemas aumentam exponencialmente. A profundidade que deviam dar os laterais é inócua e fica-se pelo apoio no último terço. Danilo não varre. André André não distribui e entre Oliver e Otávio há futebol e boas ideias, mas que podem fazer dois jogadores asfixiados entre seis contrários se ninguém se oferece, ninguém verticaliza o jogo? Herrera, o mal amado, tentou oferecer algo mais mas foi remar contra a maré. Esse era já um Porto sem ideias, a valer-se do individual e descurando, ainda mais, o colectivo. Podia ter provocado um golo, mas nunca gerado futebol.
No final de contas estamos ás portas de Outubro num ano com pré-época que começou em Abril. Supõe-se que este projecto leva já, na prática, meio ano. Que o treinador leva ao comando quatro meses. E no entanto, o futebol continua a não aparecer. Salvo lances de bola parada - uma das habituais armas do Nuno treinador - há pouco para oferecer em esquemas colectivos de jogo. NES pode não ter responsabilidades no desastroso mercado, afinal o FC Porto sempre foi um clube onde o treinador tem pouco que dizer nesses assuntos quando há interesses superiores. Mas o que NES tem, como responsabilidade, é procurar fazer com o que tem uma equipa de futebol. Mais de 100 dias depois está por se ver se é capaz mas o atraso com os competidores domésticos é evidente - o FCP não tem só pior plantel mas tem muito pior treinador, onze e estilo de jogo que Benfica e Sporting, não se tendo melhorado absolutamente nada do que já existia há um ano atrás - e corre o risco de cair na Champions League com o grupo mais fácil de que há memória na história do clube. Seis pontos contra os debeis belgas do Brugge são obrigatórios mas, ainda assim, é preciso ir a Copenhague pontuar e esperar que o Leicester faça 6 de 6 antes do jogo final no Dragão contra os ingleses. São muitos "ses" para duas jornadas disputadas. Sinal, mais do que evidente, de que muitas coisas estão longe de correr bem.
O FC Porto faz hoje anos. Os adeptos estão de parabéns. O clube está de parabéns. Quem permitiu que o clube esteja nesta situação e que vive em silêncio cúmplice não. Quem é assalariado do clube e é incapaz de demonstrar estar á sua altura em princípios básicos de jogo, também não. Infelizmente os primeiros terão de cantar os parabéns com uma lágrima de tristeza nos próximos tempos se os segundos continuarem a somar anos ao curriculo histórico do clube em vez de títulos e ambição.