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segunda-feira, 17 de junho de 2019

O que as manchetes não contam

Nas últimas semanas, poucos são os dias em que não tenha havido uma manchete sobre a transferência do Zé Luís - um nome que provoca tanto entusiasmo entre os adeptos do Porto, como uma maratona de discursos do 10 de Junho. A versão "oficial" que tem sido veículada, é que o jogador é um "desejo" do Sérgio Conceição - e que a sempre prestável SAD, tem envidado esforços para oferecer o avançado ao treinador.

Não é novidade para ninguém que algumas escolhas do Sérgio Conceição no que toca a reforços, são no mínimo questionáveis - com o inenarrável Fernando Andrade à cabeça, poucos ou nenhuns jogadores ditos "escolhidos pelo treinador" (porque são aposta mais ou menos habitual) têm impressionado. Assim sendo, é legítimo duvidar da capacidade do Sérgio Conceição para "detectar talentos", e não seria surpresa que o Zé Luís fosse mesmo parte uma lista de possíveis reforços entregue à SAD pelo treinador. O que me parece mais duvidoso, é que o Zé Luís esteja no topo dessa lista. Este jogador é o único que serve, e o treinador não quer saber de outros nomes? E a quem é que interessa essa estória? 


Aquilo que esta e outras novelas escondem, é (mais) uma abordagem completamente "desdentada" do Porto ao mercado, porque pura e simplesmente não há dinheiro, e o restrito grupo de empresários com quem o Porto trabalha, não tem melhor para oferecer que Zé Luíses e quejandos. E como interessa não levantar muitas questões sobre esses factos incómodos, há que entreter a malta com os reforços(?) "exigidos" pelo treinador - convém preparar o terreno para, no caso de a época acabar mal, o "bode respiratório" ser, como sempre, o treinador - porque a SAD até lhe colocou à disposição todos Zé Luíses que lhe aquele lhes pediu.

A narrativa que nos querem vender é "oh Sérgio, temos aqui o Messi e o Zé Luís; qual é que preferes?", e o Sérgio diz "gosto muito do Messi, mas quem agrada mesmo é o Zé Luís". Acredite quem quiser.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O Clube do amanhã: apostar nos miudos ou nos bolsos alheios?


É sempre uma alegria especial quando o FC Porto levanta um título mas talvez seja maior ainda quando são títulos dos putos. Os putos da casa. Os que sentem a camisola, muitos deles andam ali desde muito pequenos. São o nosso ADN e seja qual for o futuro que lhes depara, sempre vão ser parte nossa. A formação do FC Porto foi campeã da Europa há um mês e sagrou-se campeã nacional ontem. Uma dobradinha sem paralelo na história do futebol português. O impacto mediático foi quase nulo em ambos casos. O FC Porto forma bem, muito bem, mas vende-se mal, muito mal. Para muitos esse é um problema. Não é. O grande problema é outro. O FC Porto forma bem, muito bem, mas aproveita pouco, muito pouco. Esse é talvez o maior desafio com que nos encontramos para o futuro imediato. Aproveitar uma geração excelente ou deitar fora uma oportunidade histórica para beneficio próprio de uns poucos.

Durante anos ouvimos lenga-lengas sobre a impossibilidade de ser competitivo recorrendo a jogadores da formação. O exemplo claro era o Sporting, um clube que raramente deveria servir de exemplo para o que fosse (formaram o melhor jogador europeu de sempre e deixaram-no sair por tostões), e o discurso apontava à necessidade de experiência, maturidade e que a formação fosse apenas um complemento. Claro que o Barcelona tratou de desmentir isso mas como tinham um génio absoluto como Messi tudo ficou relativizado. Também não ajudou o facto do Porto, entre a era Mourinho e os anos de Conceição, realmente, não ter tido uma grande formação. Geraram-se grandes expectativas com alguns jogadores pontuais mas nunca nenhum deu verdadeiramente o salto. Havia alguns títulos mas zero impacto no plantel e na própria evolução da carreira de muitos jogadores. Atrás tinham ficado os anos 90, onde havia realmente prata da casa de grande nivel. E apostar quando não há qualidade faz pouco sentido apostar forte, ainda que faz menos ainda ter o plantel recheado de jogadores piores vindos de fora para papeis absolutamente secundários quando a prata da casa podía cumprir perfeitamente essa função. As comissões, já sabemos.
O paradigma começou a mudar nos últimos anos, pouco a pouco. Foi-se trabalhando melhor, desde a base, mas esse trabalho leva o seu tempo. Os que hoje são campeões europeus e nacionais levam cinco, seis anos nessa dinâmica. Havia que esperar. Mas entre essa espera e o agora houve 4 casos singulares que explicam bem o que é a formação do FC Porto e como o clube a vive. E aí é onde se pode entender a gigantesca diferença entre o FC Porto e o Benfica. 
Lá em baixo vendem o Seixal como o novo Alcochete, o centro por excelência da formação mundial e talvez europeia. Foi sem dúvida uma jogada acertada terem contratado muitos dos treinadores e olheiros do Sporting e a qualidade subiu exponencialmente nos últimos anos, é impossível discutir. A formação do Benfica é boa, bastante boa. E vende muito porque estamos em Portugal, um país que fez do Mantorras o Eusébio. O minimo é que tivessem feito do Bernardo Silva o novo Cruyff. Mas tem algo que continua a faltar ao FC Porto, uma ideia de clube. Quer queiramos quer não a estrutura actual do FC Porto não existe. Sobrevive um Politburo soviético na pré-reforma, desfasado do tempo e onde primam os intereses pessoais ao mesmo tempo que se afiam facas. Cada decisão é vista sob essa perspectiva, a quem interessa, como, quanto e porquê. O Clube normalmente tem ficado para último plano com regularidade. No Benfica isso não acontece porque o seu Presidente, como o nosso foi durante décadas, não tem contestação e as suas decisões são a base da política de todo o clube. E é por isso que a formação do Benfica tem sido aproveitada e rentável, porque tudo é feito do primeiro ao último dia para ser assim. São vendas fáceis, sem custos, tê-los na primeira equipa é algo mediaticamente popular com os adeptos e permite criar uma liturgia óbvia de rendição ao mercado para beneficio do clube ("nós não queriamos vender, mas...". Por isso, desde há cinco anos para cá, uma formação pior que a nossa tem tido na primeira equipa mais jogadores (e a experiencia, quando se dá o salto, é FUNDAMENTAL) e portanto gerado mais valias superiores às que possamos gerar. No Porto, nesse periodo, há 4 jogadores que realmente tiveram um impacto minimo da formação, um abismo. Desses 4 um deles – Ruben Neves – tem o 60% dos jogos disputados. E não foi uma aposta do clube, foi uma aposta muito pessoal de um treinador que não teve problemas em fazer com que o jogador saltasse escalões porque tinha esse nivel (olá Fábio!!). E tem-o. Já o provou no campeonato mais exigente do mundo, com um treinador que contribuiu também para a sua desvalorização de mercado perante o olhar sereno de quem manda. Não esquecemos!

O restante 30% dos jogos disputados divide-se por André Silva, Diogo Dalot e Gonçalo Paciência. São 3 casos muito diferentes em si mas que resumen muitas coisas. 
André podia e devia ter ficado um ano mais. Ele era o primeiro a necessitar disso como tem provado a sua lenta evolução no Milan e Sevilla. Promete muito mas custa-lhe dar o salto, essa paciência que faltou num ano mais de etapa formativa na equipa principal do Porto (ele que no ano NES levou o ataque sozinho às costas,lembram-se?). 
Porque foi vendido? Porque uma gestão absolutamente desastrosa do Politburo teve as suas consequências práticas e era uma obrigação da UEFA cumprir com o FFP. Quando um clube é mal gerido, como o FC Porto tem sido, dentro e fora de campo, é o que sucede. Ter jogadores do nivel do André e não os aproveitar por culpa própria é uma pena mas pode passar. O caso Dalot é diferente. Há anos que o Dalot estaba bem referênciado por essa Europa fora, não enganava ninguém. Num clube com uma estrutura sólida dos pés à cabeça, com ideia de clube desde a base, o Dalot teria renovado muito antes do tempo. Quando o dossier chegou às mãos do novo director desportivo, Luis Gonçalves, a sua vontade não bastou, já era tarde. Nestas idades basta um movimiento em falso e tudo se pode perder e foi o que aconteceu (como o Barcelona, quando perdeu Pique e Fabregas para United e Arsenal pelos mesmos motivos, não somos um caso virgem, muito longe disso). O Dalot foi à procura do contrato da vida dele porque durante anos não foi mimado como seria expectável para quem, seguramente, será um lateral de topo europeu na próxima década. O desleixo foi evidente e quando se quis corregir já não havia margem. 
E Gonçalo? Gonçalo não tem perfil para titular do FC Porto, é um jogador muito limitado (no modelo de jogo táctico e na sua fragilidade física) e não vale a pena andar a vender narrativas em que é bom ter 11 titulares da casa se esses não estão à altura. O Gonçalo não está. Mas um plantel tem 23 ou 25 jogadores, o do Porto e o de qualquer outro clube. E as provas da UEFA exigem um minimo de jogadores da casa nos inscritos. E quando há vagas para dois ou três avançados suplentes, convén sempre ver os prós e os contras. Dizer que o Gonçalo não tem nivel de titular Porto não significa que não tenha nivel para ser plantel Porto. Não é inferior nem foi inferior a sua aportação a Adrian Lopez (o último resquicio da entrega do clube nas mãos de Mendes). Muito menos de Waris, uma escolha pessoal de Conceição. Ou de Andrade, outro jogador escolhido a meias entre técnico e estrutura que além de ser um desatre ocupou uma vaga no plantel Champions que podia ter sido de Manafá, por exemplo. Todos esses 3 negócios custaram ao Porto dinheiro, muito mais do necessário e muito mais do que foi recebido em troca. Gonçalo custava 0. Não é pior jogador do que André Pereira (que faz parte dessa política e foi uma escolha pessoal do treinador) e seguramente exemplifica outro dos usos possiveis para a formação. Nunca vai render milhões, não está para ser titular mas pode perfeitamente dar forma ao plantel. E foi repatriado para longe. Sem sentido.

O Benfica vende-se melhor mas também mima mais os seus. O Sporting, no longinquo apogeu da sua formação, vendia-se muito mais do que aproveitava os seus, mas ainda assim as suas grandes pérolas foram somando bastantes minutos. Quando um jogador salta dos juniores ou da equipa B o que precisa é disso. Minutos, confiança, apoio do treinador, paciência dos adeptos. O FC Porto tem tido muita dificuldade nesse processo. O treinador é claramente arisco a apostar na formação. Diz que só responde ao Presidente, o mesmo que diz que há muito jogador a aproveitar. Algo não cuadra. Sabemos que há gente que se move como sombras pela formação à procura da próxima comissão (basta ver o filho-agente ou o homem que se levou parte do negócio Ruben Neves para casa para entender) e talvez isso jogue contra os putos quando quem tem de se decidir por pô-los a jogar ou não é um homem extremamente emocional que sabe que tem inimigos dentro de casa que estão mortinhos por vê-lo sair para continurem a fazer o seu trabalho sujo e a sacar a sua suja recompensa. Sabemos tudo isso. Mas continuamos sem entender porque Fabiano é opção em jogos que podiam ser de Diogo Costa. Porque Diogo Leite desapareceu do mapa, porque Diogo Queirós tem zero minutos com a equipa principal quando está referenciado por olheiros dos maiores clubes da Europa como o futuro De Ligt. Porque nunca houve espaço para o Bruno Costa além dos jogos com o Liverpool ou porque nem mesmo nas Taças (esas obsessões de Conceição) não tivemos a oportunidade de começar a ver as jogadas do Baró ou os golos do Fábio.
 São campeões europeus e nacionais, são jogadores com o ADN da casa e que já mostraram ter o carácter ganador que se procura num futebolista de elite. E são jogadores com talento, é evidente. Não precisam de ser capas de jornais mas precisam que apostem neles. Uns vão ser vendidos por milhões seguramente porque o mercado é o que é e não vale a pena criar ilusões de que os vamos agarrar para todo o sempre. Mas também há outros muitos que poderiam acumular anos no plantel jogando mais ou menos. Quando virem as histórias deste ano futebolistico, muitos vão olhar para o Ajax, semi-finalista da Champions e campeão nacional com jogadores que têm praticamente a sua idade e jogam sem medo porque têm a confiança de quem neles aposta. Ninguém quer um FC Porto com 11 jogadores da casa porque não seria realista mas depois de anos a atravesar o deserto quem pode não querer um 11 – e mais com a hemorragia que o plantel vai sofrer este verão – onde esses putos tenham o seu espaço para crescer de mão dada com os que já estão e com o apoio de todos?

Mais comissões. Mais dinheiro gasto em vão. Mais bolsos cheios de meia dúzia de sanguessugas.
Mais miudos campeões. Mais ADN Porto. Mais negocios futuros de máxima rentabilidade para o Clube e não para quem o rodeia.

Nunca foi tão evidente o dilema e nunca a resposta que o FC Porto der nos próximos tempos vai ser mais exemplificativa de que clube estamos a falar para hoje e para amanhã.    

sábado, 18 de maio de 2019

Final Anunciado(?)


A 14 de Maio de 1994, Deportivo de La Coruña e Barcelona chegavam à última jornada da Liga Espanhola empatados; deixando de parte outros detalhes, curiosos mas pouco relevantes para o caso, tudo se resumiu a um penalty que o Deportivo teve oportunidade de concretizar - Djukic falhou, e o Deportivo falhou estrondosamente, em casa, a conquista do seu primeiro título.

Recordo esta situação, algo semelhante a aquela em que o Porto se encontra hoje - neste caso, o Porto está na posição do Barcelona, em que ganhar não basta - para dizer que nada, sequer remotamente parecido ao drama daquele dia em 1994, terá lugar mais logo - por razões sobejamente conhecidas, jamais o "benfiquistão" permitiria tal coisa. Assim sendo, é pouco sensato ter qualquer expectativa de que o Porto conseguirá renovar o título de campeão este ano. E não o consegue tanto porque não teve arte nem engenho para gerir uma vantagem pontual confortável, como porque aos outros acorre sempre um João Pinheiro - o árbitro que chegou à categoria internacional, sem ter dirigido um único jogo da Primeira Liga!!!, e rendeu recentemente pelo menos 6 pontos em jogos contra o Feirense e Braga - em momentos de aperto.

Se contra o "benfiquistão" pouco ou nada há a fazer, este miserável desfecho pode converter-se numa oportunidade para aprender e num merecido banho de humildade para o Sérgio Conceição, que apenas há alguns meses atrás zurzia nos adeptos e os mandava "ir ao Coliseu", se não estavam satisfeitos com as exibições da equipa - o tempo mostrou quem tinha razão. O psicólogo israelita Daniel Kahneman, galardoado com o "Nobel da Economia" em 2002, defende com base na sua pesquisa, que de forma mais frequente do que gostaríamos, o "sucesso" resulta em maior parte da "sorte" do que do talento - um mal que claramente aflige o Sérgio Conceição, que cheio de si, foi incapaz de analisar friamente a época passada, e perceber que apesar do resultado positivo, os erros e a "sorte" não foram poucos.

Se realmente o Sérgio Conceição retirará deste desaire - espera-se que seja o último a breve trecho - alguns ensinamentos, e se das contrariedades se fará melhor treinador (e homem mais humilde), só o tempo o dirá. Se o Porto retirará dessa hipotética aprendizagem algum proveito, é outra história. Por mais reuniões e juras de amor eterno de parte a parte, a verdade é que aqui e ali, seja nas imediações ou nas bancadas de estádios, há sinais de que a bota não bate com a perdigota - o Porto terá de disputar a pré-eliminatória da LC, o que obriga a que os trabalhos da próxima época comecem mais cedo, porém e com uma debandada de jogadores titulares à porta, a única garantia é o regresso do Sérgio Oliveira! A minha suspeita é que o desfecho dos dois próximos jogos é indiferente para a continuidade do Sérgio Conceição, que está no fim do seu percurso no Porto - o tempo o dirá; eu defendo a sua continuidade, quanto mais não seja por falta de alternativas minimamente viáveis. Sobra a pergunta: que condições teria para ficar, considerando a sua postura até aqui, se não vencer os dois jogos frente ao SCP?

quarta-feira, 20 de março de 2019

SMS do Dia

José Mourinho: O Liverpool é uma excelente equipa, mas o FC Porto sabe os erros que cometeu e certamente vai trabalhar na sua correção.

Sérgio Conceição: Erros?! Quais erros?

(os negritos são da minha responsabilidade)

sexta-feira, 1 de março de 2019

Jogar com cabeça

Um "jogo do título" com 10 jornadas por disputar e as duas equipas separadas por um ponto? Improvável.

A única real motivação para o Porto vencer o jogo de amanhã, é anular a vantagem no confronto direto, no caso de ambas as equipas acabarem com os mesmos pontos a última jornada. Vencer o rival é óptimo, mas não passa disso; já fomos campeões sem vencer o rival, mas acima de tudo, vencer o rival - este rival em particular - não rende nada de palpável. Foram derrotados recentemente na Taça da Liga - que efeito nefasto teve esse resultado? Nenhum. Partindo de uma derrota, falaram em "show de bola", "roubo" e seguiram para uma série de vitórias consecutivas. Duvido até que (mais) uma derrota por 5-0, fizesse grande mossa. No final, ficariam apenas a 4 pontos.

4 pontos (ou 1 ponto), como percebemos nas últimas semanas, equivale a nada. E deve-se isso a uma (no mínimo) duvidosa gestão de esforço dos jogadores do Porto, que se baseia num princípio de "jogar até rebentar". Com 10 jornadas por jogar, é virtualmente impossível não perder mais pontos. E o rival sabe disso - é tão certo como as goleadas que vão aplicar nessas 10 jornadas a equipas com "azar" e/ou num "dia mau" - o fenómeno das apostas online seguramente explicará um ou outro.


Por essa razão, e apesar de estarem atrás, é improvável que o adversário chegue amanhã ao Dragão com intenção se expor na procura de uma vitória - não precisa, tem o tempo a seu favor. A estratégia passará seguramente por jogar na expectativa, e apostar no contra-ataque. Desconheço o que planeia o Sérgio Conceição, mas uma postura semelhante à do jogo para a Taça da Liga, parece-me arriscada (e demasiado óbvia). E um mau resultado, pode obrigar o Porto, já de si desgastado, a fazer um esforço semelhante ao da equipa do Vítor Pereira em 2011/12 - a diferença é que desta vez não haverá mais confronto directo, nem "momento K" ou "H" nas últimas jornadas que nos valha.

Este é um jogo para ganhar porque jogamos em casa, mas com cabeça. Os riscos são grandes e não devem ser ignorados. Mesmo vencendo, o título está longe de garantido, portanto não vale a pena jogar como se a vitória o garantisse. A chave desse título está nas 10 jornadas seguintes.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Vencer é o nosso destino


No último domingo fomos a Lisboa defrontar uma equipa que joga poucochinho e que, contra o FC Porto, joga quase sempre como equipa pequena.

Desta vez, os dragões estiveram ao nível da equipa da casa e também jogaram pouco. Criamos poucas oportunidades de golo e só nos últimos minutos tivemos um vislumbre do Fê-Cê-Pê entusiasmante da época passada.

E sim, é verdade que, esta época, as exibições dos campeões nacionais têm sido… desconsoladoras. Tipo comida sem tempero, aquecida no micro-ondas.
Razões para isso?
Bem, sendo o “cozinheiro” o mesmo e os “ingredientes” praticamente os mesmos (talvez um pouco menos frescos), não vejo qualquer razão para que não voltemos, brevemente, a saborear umas fantásticas “tripas à moda do Porto”.

E fazer das tripas coração é sempre o primeiro passo para jogar à Porto e para voltarmos a ter uma Equipa (com “E” grande).

O resto virá por acréscimo, de forma natural, com mais treinos, mais jogos, mais minutos nas pernas e mais vitórias. E o resto é…

A recuperação dos níveis físicos, ritmo competitivo e confiança (neles próprios) dos jogadores que estiveram lesionados – Danilo, Soares, Mbemba;

A integração plena de todos os reforços – João Pedro, Mbemba, Jorge, Bazoer, … - os quais, espero, não se venham a revelar apenas meras contratações para encher o… plantel;

Uma melhor mecanização entre os dois jogadores que constituem a dupla de centrais – Felipe e Militão ou, quem sabe, Felipe e Mbemba (com Militão a ser desviado para lateral direito);

Um entrosamento adequado entre o triângulo constituído pela dupla de centrais e o médio mais defensivo (Danilo);

E, claro, a recuperação da forma desportiva dos “três mosqueteiros” – Alex Teles, Herrera, Brahimi e Marega –, que foram os principais pilares da maior parte da época passada.

O capitão Herrera a mostrar a camisola e emblema, no SLB x FCP da época passada

É verdade que os sinais da pré-temporada, dentro e fora do campo, não foram os melhores.

É verdade que a maior parte das contratações efetuadas foram feitas tardiamente e, até agora, apenas o Éder Militão revelou ser um reforço.

É verdade que as exibições têm sido desconsoladoras e que, no “salão de festas”, jogamos pouco.

Tudo isto é verdade, mas eu estou optimista.

Estou optimista, porque apesar de tudo o que referi anteriormente, os nossos rivais também não impressionam e estamos a apenas dois pontos (um empate!) da liderança do campeonato.

Estou optimista, porque o nosso mister não é o Rui Vitória, nem o José Peseiro, é o Sérgio Conceição! Alguém que já mostrou o que vale – como treinador, como aglutinador, como líder – e que continua com fome de ganhar. Por isso, estou certo, não vai deixar os jogadores acomodarem-se ao título da época passada e espero que consiga renovar-lhes a ambição, metendo-lhes na cabeça que, até agora, ganharam quase nada e que há muito mais para ganhar.

Sérgio Conceição a mostrar o emblema, no final do último SLB x FCP

Estou optimista, porque faltam oito meses (outubro, novembro, dezembro, janeiro, ..., maio) e 27 jogos para terminar o campeonato, tempo mais do que suficiente para este Porto colheita 2018/19 amadurecer e melhorar o seu “sabor” (é inevitável).

Estou optimista, porque apesar de já termos perdido dois jogos (tantos como em todo o campeonato passado), tal como o nosso treinador, estou confiante que não iremos perder muitos mais (se é que iremos perder mais algum).

Estou optimista, porque já fizemos três das seis deslocações ao sul do país (Belém/Jamor, Setúbal, Luz) e, na 2ª volta, vamos receber o slb no Dragão (e haverá melhor motivação, do que o Sérgio Conceição fazer a palestra desse jogo ao som da música com que o slb terminou o jogo de domingo?).

Estou optimista, porque os Portistas não abandonaram a equipa e o mar azul continua a encher estádios.

E finalmente, estou optimista, porque temos a melhor equipa do campeonato português e vencer é mesmo o nosso destino.

sábado, 11 de agosto de 2018

De volta à linha de partida

O FC Porto inicia hoje mais uma participação no campeonato nacional. Ao contrário dos últimos anos, parte de uma posição mais confortável que os demais concorrentes: é o campeão em título (e já amealhou mais um troféu). Mas este "conforto" pode não configurar uma vantagem. Há um ano atrás, tínhamos um treinador novo (e sem certezas sobre a sua capacidade); uma equipa sem contratações  de relevo por causa do fair-play financeiro da UEFA - apenas um guarda-redes (inútil) - e um par de pretensos reforços na figura de jogadores regressados de empréstimos. Estavamos longe de ser vistos como favoritos. No entanto, dispondo de uma garra que há muito não se via, e com a felicidade de os "emprestados" se revelarem verdadeiros reforços, conquistamos o título de forma justa e inequívoca.


Alguns meses passados desde essa conquista, encontramo-nos porém, e contra (todas?) as expectativas, numa posição idêntica há de um ano atrás, quiçá ainda mais frágil. Perderam-se dois jogadores titularíssimos e importantes na conquista do título - Marcano e Ricardo - com as suas saídas a serem colmatadas com jogadores novos (e sem garantia de que estarão à altura do desafio, como é natural); perdeu-se também o factor surpresa e como campeões, somos o alvo a abater (mais do que o habitual); não há grande possibilidade de os jogadores regressados de empréstimo, virem a ter semelhante impacto a aquele que tiveram na época passada. Em paralelo com a época passada, perderam-se também jovens promessas, que poderiam trazer sangue novo e aumentar o leque de opções.


Neste aquecimento antes do tiro de partida, Marega está na ordem do dia. Sobre ele, há que dizer que, sem que ninguém o esperasse, se revelou (para mim) o jogador-chave para a vitória no campeonato. Nos últimos anos, é nos jogos contra as equipas "pequenas" mais do que nos jogos contra os "grandes" que se decide o título, e foi precisamente nos primeiros que o Marega brilhou. É um jogador que soube conquistar a admiração dos adeptos, e pessoalmente gostaria que ficasse. No entanto, o valor acima do qual a sua transferência é "obrigatória", é discutível, mas tranferi-lo por 30 milhões, não é um mau negócio... se a sua "rendição" estivesse acautelada. E não foi. Neste momento o Porto, de novo sem contratações de relevo, arrisca-se a ter nas suas fileiras um jogador desmotivado (ou um nada menos empenhado, o que para alguém com conhecidas debilidades, não é coisa pouca), porque não tem quem o substitua.


Ninguém estava à espera de facilidades, mas as adversidades são mais que muitas, e incluem até lesões - Soares está novamente lesionado no início da campanha; Mbemba já tem mais tempo de "estaleiro" do que de treino. Talvez a pressão de ser campeão seja melhor (e menor) do que a de não ganhar há vários anos, mas não há certezas sobre isso. Sérgio Conceição já tem o seu nome inscrito na história do Porto, quanto mais não seja, por ter sido campeão nas condições mais adversas de que há memória. Como "encore", o desafio que se lhe apresenta, é repetir o feito em condições ainda mais difíceis.

domingo, 5 de agosto de 2018

A tinta vermelha do polvo

Sérgio Conceição protestou e foi expulso (foto: O JOGO)

«Sérgio Conceição foi expulso e, por isso, não falou no final da partida. O treinador do FC Porto foi a segunda vítima de um critério estranho de Luís Godinho no que toca a expulsões: em janeiro de 2017, o árbitro foi contra Danilo e mostrou o cartão vermelho ao médio português; ontem, Herrera sofreu uma falta, ficou com a cara neste estado (…) e na sequência do lance Sérgio Conceição recebeu ordem de saída. Vá-se lá perceber…»
in ‘Dragões Diário, 05-08-2018


Estranho?
O critério disciplinar do senhor Luís Godinho não teve nada de estranho.
Pelo contrário, foi aquilo que se esperava de um “padre”… perdão, de um árbitro desta estirpe.
E a agressão (impune) a Herrera foi, apenas, mais um lance, no meio de um festival de cacetada, a lembrar os tempos da “canela até ao pescoço”.

Herrera atingido no rosto (fonte: Tribunal de O JOGO)

Aliás, logo aos 28 minutos, um dos melhores jogadores do campeonato português foi cirurgicamente “arrumado”, mais uma vez com a complacência do senhor Godinho.

Amilton "arruma" Brahimi de forma impune (fonte: Tribunal de O JOGO)

Brahimi não perdoa lesão provocada por Amilton (fonte: O JOGO)

Perante a autêntica escandaleira que se viu ontem em Aveiro, aquilo que me surpreendeu foi a contenção do Sérgio Conceição, que aguentou, estoicamente, 57 minutos até explodir.
Mas, perante uma agressão de um defesa do Aves, em que o árbitro nem sequer falta marca, só um manhoso, sem intestino delgado é que não reagiria.

Sangue no rosto de Herrera

O “polvo” continua vivo, dentro e fora das quatro linhas.
Luis Godinho e os seus assistentes demonstraram-no dentro do campo.
O ‘Correio da Manhã’ demonstrou-o, mais uma vez, na sua capa de hoje.

A "tinta vermelha" do Correio da Manhã

domingo, 29 de julho de 2018

Conceição, Jesus e as previsões de José Eduardo Simões

José Eduardo Simões e Sérgio Conceição (foto: Record)

José Eduardo Simões (ex-presidente da Académica) conhece bem Sérgio Conceição…

«O acórdão do Conselho de Justiça (CJ) que mantém a suspensão de 50 dias a Sérgio Conceição, aplicada na sequência dos insultos dirigidos ao árbitro Bruno Paixão e a José Eduardo Simões durante o Sp. Braga-Académica de março de 2015, revela vários pormenores dos relatórios de árbitro, delegados e polícia que ajudam a perceber o que aconteceu.
Assim, nos "factos provados", é descrito que "aos 22 minutos da primeira parte (...), José Eduardo [Simões], dirigindo-se a Sérgio Conceição, disse 'ò filho da p..., vai trabalhar'". (…)
Já no túnel de acesso aos balneários, Conceição "agarrou José Eduardo Simões, chamou-lhe 'filho da p...' e disse-lhe 'paga o que deves'", pode ler-se ainda nos "factos provados" do acórdão.»


Hoje, no jornal O JOGO, José Eduardo Simões escreve o seguinte:

«Sérgio Conceição é um exemplo de capacidade de trabalho, de talento e de ambição. Sabe treinar qualquer equipa; é um óptimo treinador de jogo; sabe valorizar activos perdidos; e mostrou capacidade para apresentar resultados com meios algo escassos face aos da concorrência. Tem objetivos muito claros. Ele quer conquistar títulos europeus e não apenas nacionais. Pretende ter no currículo pelo menos o que Artur Jorge, Mourinho ou Villas-Boas alcançaram. E quer ter condições para poder alcançar rapidamente esses objectivos. Se as não tiver, sairá do Porto e de Portugal no final da época. Não sei por que razão, mas vejo escrito nas estrelas o regresso de Jesus no final desta temporada, mas o equipamento que virá usar não será vermelho nem verde


Não conhecia os dotes de Zandinga do ex-presidente da Académica.
Pois bem, fica aqui, para memória futura…

domingo, 22 de julho de 2018

Um adeus que tarda

Nota prévia: este texto foi escrito pouco depois da conquista do título; entretanto deu-se o caso de Alcochete e os nossos problemas até nem pareciam assim tão graves. O problema é que depois da poeira assentar, percebe-se que os problemas são inegáveis e não vão desaparecer com o tempo.

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Após quatro longos anos de travessia do deserto, encontramos finalmente o messias que nos guiou de volta à "terra prometida". Aqui chegados, talvez esteja na hora de olhar para trás e pensar no quão fortuita foi essa descoberta, e acima de tudo, como poderemos evitar futuras travessias - uma pista: não adorar falsos deuses.


Para quem já não estiver relembrado, o Sérgio Conceição não foi a primeira escolha para a "dança de cadeiras" em que se transformou o banco do Porto - foram 5 treinadores em 5 anos - mas a 2ª ou 3ª escolha depois do Marco Silva, o inútil que achou não ser possível lutar pelo título com os jogadores que teria à disposição - rapaz, deves estar a sentir-te muito estúpido...! O Sérgio Conceição foi, portanto, um incrível golpe de sorte. O mesmo que avaliar a montra de electrodomésticos do Preço Certo em 10 euros... e mesmo assim acertar. Só que a sorte não dura sempre; e quando ela faltar, outros factores entram em jogo como a dedicação, o profissionalismo...

É por isso que, neste momento de grande alegria e euforia, se impunha que esta direcção, completamente esgotada e sem mais para oferecer, aproveitasse a porta que o Sérgio Conceição lhes entreabriu, e saísse de cena. Com eterna gratidão por tudo o que fez de bom... mas sem esquecer que há 5 anos deixaram sair um treinador campeão - e viu-se como eles são fáceis de encontrar; atolaram o Clube em dívidas a ponto ficar sob vigilância da UEFA, e de forma completamente passiva, deixaram que o tal "polvo" tomasse conta de tudo, comendo e calando. Só um elemento novo, alguém vindo de fora, poderia retirar o Porto do atoleiro; com quem já cá estava, nunca se poderia contar... porque foi quem já cá estava que levou o Porto a esse mesmo atoleiro.


A pergunta que se impõe é: o que é que esta direcção tem para oferecer? E a resposta é simples: nada. Nada do que esta direcção fez nos últimos 5 anos foi extraordinário, excelente ou sequer a um nível compatível com a experiência acumulada. Em desespero, contrataram o primeiro treinador que disse "sim". Contratações não houve porque não há dinheiro. É isto o melhor a que o Porto pode almejar? Eu não acredito. Nem aceito.

Haja consciência de que tudo tem um fim. O desta direcção já chegou (há algum tempo). Aproveite-se a oportunidade para sair (merecidamente) pela porta grande. E para virar a página. O próximo deserto está aí à porta. Se nada mudar, engole-nos.

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Como é óbvio, a janela de oportunidade para o tal virar de página, esgotou-se, mas o pior é perceber que nada mudou. É neste momento mais provável perdermos o treinador, do que assistirmos a um esforço consciente para evitar erros recentes. Ainda há tempo para emendar a mão, mas fica claro que esta Direção não consciência do que fez mal, e como tal não tem qualquer interesse em mudar de rumo. O Porto não precisa de um presidente-adepto, mas seguramente também não precisa do presidente que tem actualmente.

sábado, 3 de março de 2018

Oito vitórias...

Não quero saber de tropeções alheios e estou preparado para aceitar tropeções próprios, mesmo no pior cenário. O que sei, apenas e só, é que o FC Porto está matematicamente a oito vitórias de ser campeão nacional. Podem ser 7+1 empate na Luz, podem ser 6+2 empates do Benfica, podem ser até 5+6 pontos perdidos do Benfica em tantos jogos. Tanto me faz. Este Porto vive jogo a jogo e é assim que tem de continuar a viver nos próximos dois meses. São oito triunfos para fechar em casa, com os Dragões, frente ao Feirense, um título que ontem ficou, mais uma vez, claro que tem tons azuis e brancos já escritos. Tudo pode passar até Maio mas nenhuma equipa tem sido melhor, mais competente e mais querido vencer que o FCP de Conceição. Mesmo numa noite de escasso mérito futebolistico tudo o resto fez a diferença e além de atirar o Sporting para fora da luta, praticamente, logrou-se reforçar uma sensação de invencibilidade emocional que nestes momentos conta mais do que tudo.

Há duas formas de olhar para o Clássico de ontem no Dragão mas apenas uma conclusão: o Porto tem sido sempre melhor, no cômputo geral, nos duelos com todas as equipas nacionais este ano. É o quarto duelo com os leões - falta um, igualmente importante porque a Dobradinha pode e deve ser objectivo - e uma vez mais ficou claro que o Sporting nunca conseguiu ser superior. Foi melhor, em momentos do jogo, mas superior nunca. Nunca o tem sido como não foi o Benfica no jogo do campeonato nem qualquer outra equipa. Num torneio claramente nivelado por baixo em talento individual e colectivo o Porto tem sabido fazer das suas fraquezas forças e entendido a natureza cada vez mais evidente do futebol luso, para o bem e para o mal. O que nos leva a ver o duelo de ontem de duas perspectivas diferentes mas forçosamente complementares.



Por um lado não se pode dizer que tenha sido um bom jogo. Foi emocionante, tenso mas fraco. O Porto jogou pouco e durante alguns momentos do choque foi superado. É uma equipa que lhe custa muito, muito controlar os jogos, parar os jogos, adormecer os jogos. Vive na vertigem. Conceição foi apresentado e já se sabia da sua boca que era homem de preferir o 1-0 ao 4-3 e que o 4-3-3 era um modelo historicamente ligado ao clube com o que se identificava. Não procurou nem uma coisa nem outra todos estes meses, para o bem e para o mal. A equipa joga, quase sempre, um 442 ou 424 de peito aberto exposto no meio-campo e demasiado dependente da velocidade das transições, e apesar de ter uma boa defesa permite aos rivais mais oportunidades do que seria desejável. Quando esses rivais têm nível - leia-se Liverpool ou até mesmo o caso do Bessiktas - pode sofrer e muito a ousadia. Quando em causa está o nivel médio do futebol português actual a coisa muda de figura. Conceição não inventou nada. Em 2009 Jesus chegou ao Benfica com essa mentalidade. Excluindo (se é que isso é possível) factores extra-desportivos, aquele seu onze era o que Conceição procura hoje mas com uma qualidade individual muito superior á que dispomos e sempre com jokers para momentos de aperto que já conhecemos. Mas durante uma década o futebol português converteu-se nisso. O 433 inteligente de Vitor Pereira salvou-se por um milagre mas as restantes equipas campeãs sempre procuraram modelos similares e Conceição, inteligentemente, fez o mesmo. O que isso provoca são jogos como os de Portimão, na maioria dos casos, o que dá os números ofensivos que nos levam aos dias de Robson, mas também jogos como ontem, contra rivais de outro nível, onde se sofre muito porque não há rotinas de posse e não há uma coesão táctica no meio-campo que permita respirar. Também essa exigência fisica constante tem dois efeitos colaterais importantes. Exilia a jogadores inteligentes e influentes mas sem esse ritmo - caso de Oliver Torres mas, como se depreende das palavras de Conceição, do próprio Paciência - e leva ao limite do desgaste físico os habituais titulares. O histórico de lesões musculares de este ano não pode surpreender quando se exige tanto fisicamente aos jogadores que não param em nenhum momento e que são apenas humanas. Marega foi a última vitima, um jogador que nem sequer foi alvo de rotação mesmo quando a equipa vencia com tranquilidade vários jogos, e o melhor exemplo dessa cultura. Com dois meses pela frente ainda e o lote de lesionados a tender a aumentar progressivamente á medida que o cansaço sobe esse será um importante ponto a gerir.

De facto ontem o Porto foi superior mas não foi uma grande equipa. Raramente houve triangulações, saídas a jogar em colectivo, trocas de bola largas. Não. Houve precipitação - sobretudo na linha defensiva, sempre nervosa a aliviar bolas que a segunda linha do Sporting quase sempre recuperava por superioridade númerica - e pouca paciência. Os golos nasceram de um lance de bola parada mal defendido e de dois momentos de grande inteligência individual, de Maxi Pereira que viu Herrera só, com tempo para colocar um centro tenso e perfeito, e também de Gonçalo, que soube colocar a bola no momento certo e no local certo para que Brahimi, com a frieza das estrelas, acabasse com a malapata de não anotar em jogos grandes. Houve ainda três oportunidades - um lance confuso na área que Marega não aproveitou, o remate sem força mas com intenção que antecedeu a lesão do maliano a uma saída de Rui Patricio e a brilhante corrida de Dalot que terminou com um disparo precipitado de Paciência - mas fora isso a produção ofensiva foi escassa e defensivamente a equipa mostrou-se insegura em muitos momentos, cedendo faltas desnecessárias - sobretudo Felipe - e permitiu um golo que deixa louco qualquer treinador. Pela perda da bola em zona central (Brahimi), porque nem Oliveira nem Herrera souberam apertar Ruiz e porque entre dois centrais demasiado espaçados, Leão soube encontrar com comodida o espaço para disparar sem pensar e colocar a bola debaixo das pernas de Casillas (que pareceu Baía em alguns momentos ontem, para o bem e para o mal) num remate que surpreendeu o espanhol, que mais tarde se resserciu brilhantemente com uma defesa espectacular a Montero. Entre essa defesa e o remate isolado de Leão (fosse Dost e seria outra conversa seguramente) e não se pode dizer que o Sporting não tenha gerado ocasiões suficientes para merecer mais. Mostrou querer mais em muitos momentos e foi um digno rival, mas também ficou vivo demasiado tempo porque, inexplicavelmente, Conceição continua a acreditar em Corona. O mexicano vai seguramente entrar na história como um dos piores investimentos do clube. Um jogador que toma sempre mal a decisão que tem de tomar, seja no passe, no controlo ou no remate. Esforçado mas trapalhão, rápido mas sem aproveitar os metros que ganha e sobretudo incapaz de ser pro-activo no passe ou no remate, Corona só contribuiu com os seus erros a fazer um jogo que devia ter sido controlado num encontro de carrinhos de choque. O jogo pedia claramente Oliver mas a lesão de Marega levou Conceição a colocar Reyes (antes já Aboubakar, ainda sem ritmo claramente, rendeu Gonçalo) e a meter-se ainda para mais atrás e a expor-se a um ultimo ataque desesperado dos leões. Um ataque que o próprio Dragão ajudou a suster numa noite de ambiente incrivel.



Dito tudo isso, e sabendo que este modelo é o que nos trouxe aqui e a dois meses dificilmente será alterado - outra coisa é o futuro mais distante - não podemos terminar sem deixar de prestar a devida vénia ao trabalho de Conceição. Em Agosto a imensa maioria dos adeptos - portistas muitos, eu inclusive - temiam o pior. Outro ano de seca, mau futebol, jogadores sem nível, entrega mas sem resultados. O plantel era curto e escasso de talento. E Conceição era um enigma. Dizer que o Porto seria lider e disputaria um Clássico decisivo com seis titulares inesperados naquele mês é dizer muito. O Porto foi a jogo com um miudo da equipa B (que futuro terá Dalot se quiser e lhe deixarem na SAD), um dispensado chamado Maxi, um Oliveira que muitos nem se lembravam que existia. Com um hiper-questionado Herrera, com um emprestado repescado com um grande histórico de lesões como Gonçalo e com a epitome de todas as criticas como era Marega. Seis de cinco. E todos eles foram determinantes na vitória. O certo é que este plantel é um milagre com pernas e isso deve-se ao jogador e ao trabalho táctico e emocional de Sérgio Conceição e jamais pode ser ignorado. Sem um cêntimo para gastar, com toda a imaginação do mundo, a cada problema o técnico tem encontrado solução. Sem Danilo há mês e meio Oliveira deu um passo em frente. Sem Telles lançou-se sem medo Dalot e um Maxi com um pé na China aguentou bem a ausência de Ricardo. Casillas voltou merecidamente a marcar diferenças e Herrera, que sofre quando se exige jogar em posse, encontrou neste modelo o paraíso. Soares, perdido completamente em Dezembro agora parece fundamental e Marega vai deixar saudades este mês - quem diria - mas seguramente terá também alternativa milagrosa. Não há, na memória recente, uma história mais bonita que a de este plantel do FC Porto e da forma como está a superar qualquer sonho e expectativa. Todos os adeptos merecem celebrar o título mas, por primeira vez em muito tempo, atrevo-me a dizer que mais do que nós, este título merecem, antes que todos, esses jogadores e essa equipa técnica.

Oito vitórias amigos. Oito...

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Marega e o mercado

JN de 19-12-2017

«Às costas de Marega».
Foi este o título escolhido pelo JN, para a notícia de capa referente à vitória (3-1) do FC Porto sobre o Marítimo.

É um título feliz, ilustrado por uma foto de Brahimi (duas assistências) às costas de Marega (dois golos e MVP deste FC Porto x Marítimo).

Com os dois golos que marcou no jogo de ontem à noite, Marega já leva 12 golos em 1150 minutos no campeonato português (1 golo a cada 96 minutos). E nenhum destes golos foi de penálti.

Marega é o melhor exemplo de como o Sérgio Conceição foi capaz de “esticar” um plantel curto (de cuja qualidade muitos desconfiavam), tirando o máximo partido dos jogadores à sua disposição.

Mas há mais. Do onze inicial de ontem, fizeram parte quatro jogadores – Diego Reyes, Ricardo Pereira, Aboubakar e Marega – que não serviram para outros treinadores do FC Porto e, por isso, foram dispensados (emprestados).

Pois bem, foi com estes que o FC Porto ganhou e é com estes que a EQUIPA liderada por Sérgio Conceição chegou à “paragem” do Natal 2017 na frente do campeonato, com o melhor ataque e a melhor defesa.

E depois, a gente olha para os jogadores que ontem estavam no banco de suplentes – Casillas, Felipe, André André, Óliver Torres, Hernâni, Corona, Soares – a que se juntaram, num treino após o jogo, mais alguns que ficaram de fora (Layun, Sérgio Oliveira, etc.) e começa a ser difícil acreditar que o plantel 2017/18 é curto.

Treino noturno com os jogadores menos utilizados

Reforços em Janeiro?
Não me parece que, nesta altura, haja muitos jogadores disponíveis melhores do que aqueles que ontem ficaram fora do onze titular (e, já agora, que estejam ao alcance da bolsa da FCP SAD).

Veremos o que o mercado de janeiro irá trazer. Da minha parte, os reforços que considero prioritários, são as renovações com a atual dupla de defesas centrais - Iván Marcano e Diego Reyes.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Unidos, com Sérgio, até ao fim...

Iker Casillas é um dos jogadores mais titulados da História, um jogador que já jogou (e venceu) todas as grandes competições de elite, um dos melhores guarda-redes de sempre - numa lista alargada, é certo - e um homem que sabe liderar, quando quer. Sérgio Conceição não ganhou nem um quinto do que ganhou Casillas, como jogador, mas o seu carácter e liderança sempre foram imagem de marca e desde que passou do relvado ao banco sempre fez da honestidade, do trabalho colectivo e do espírito de grupo, caracteristicas marca da casa da sua filosofia de trabalho. É por isso, sobretudo, que estamos a viver o melhor arranque de temporada dos últimos cinco anos. E é por isso que não nos podemos permitir deixar que um problema interno, de resolução interna, afecte a crença neste projecto, neste grupo e, sobretudo, neste Mister.

Desportivamente Casillas tem tido um papel positivo desde que chegou. Não superlativo - não foi capaz, até agora, de reproduzir o papel de um Mlynarzick ou Schmeichel, por exemplo - mas a sua classe não está nem esteve nunca em discussão. Teve falhos importantes, sobretudo na Champions, mas também momentos de brilhantês que ajudaram a equipa ainda que, no final, por muitos outros factores, os objectivos não fossem alcançados. O melhor exemplo comparativo de Casillas destes últimos três anos seria talvez o do belga Michel PreudHomme, um grande guarda-redes que não foi suficiente para que um mau Benfica fosse competitivo. 
Casillas foi também fundamental no processo de adaptação de vários jogadores jovens e de muitos dos colegas espanhóis - ou com passagem por Espanha - e nesse sentido é uma referência importante no balneário. Sem estar na lista de capitães é um líder, silencioso, como aliás tem sido sempre. Se houve algo que sempre se lhe apontou foi a dificuldade em assumir o papel de máximo líder de grupo. Em Madrid sempre foi ofuscado por perfis superiores, nesse sentido, como eram primeiro Hierro, Raul e até Roberto Carlos ou Guti e mais à frente, já de braçadeira, por Sérgio Ramos ou Alvaro Arbeloa. Na selecção espanhola, da qual foi capitão uma década, também o central de Camas ou jogadores como Puyol ou Xavi, passou o mesmo. Não esperem de ele outra coisa e para alguns treinadores isso é um incómodo porque imaginam que tanta experiência deve vir acompanhado de algo mais, desse plus. O que também sempre faltou a Iker, desde a sua ascensão meteórica, foi o compromisso de dedicação absoluta ao trabalho. Todos os seus treinadores passaram por problemas com a sua implicação com os treinos ou, nalguns casos, nos seus inicios, com a sua vida fora do terreno de jogo. Desde del Bosque a Ancelotti, passando por Capello ou Mourinho, sempre se comentou que a dedicação nos treinos era inferior à exigência do seu posto, que Iker pouco procurava melhorar os seus pontos fracos - jogo de pés ou cruzamentos à área, sobretudo - e que devido ao seu perfil mediático, primeiro com o Real Madrid e com Espanha e logo no Porto, dava demasiadas vezes a sua titularidade por assumida. Esse desleixo custou-lhe vários problemas, a saída do Real Madrid, primeiro, e da selecção espanhola depois. E essa desconexão está agora a provocar um fait-divers que só tem contribuído em ofuscar este brilhante inicio de temporada.



Sérgio Conceição tomou a decisão que se exige a um líder de um vestuário de muitos. Instaurou umas regras e decidiu punir quem entendeu que não as cumpria. Fê-lo sem olhar a nome, apelido, número e salário como corresponde a um líder. O exemplo dá-se precisamente quando se demonstra que ninguém é intocável. 
Desportivamente claro que a equipa sai a perder - José Sá está a anos-luz do pior Casillas, que nem sequer era o que estávamos a ver - mas se Conceição quer manter o grupo unido debaixo de uma ideia, é necessário actuar em consequência. Se este projecto tem sido competitivo é, precisamente, pelo grupo e pelo trabalho de Conceição. Não é pelo talento individual  - que quase não há - não é por nenhuma inovação táctica bestial - o sistema habitual é bastante elementar - e não é seguramente por Casillas. É pelo grupo, pelo espírito restaurado e pela disciplina que nos mantemos altamente competitivos. E isso é o que não se pode perder.
Casillas cometeu um erro. Acontece. Qualquer profissional comete erros. Que seja recorrente na sua carreira é um reflexo do tipo de atleta que é e foi mas não é motivo para criar um drama. Conceição actuou como tem de actuar, como devíamos todos esperar que actue um treinador do FC Porto. Não acredito que tenha feito uma cruz a um jogador importante mas também não quis deixar de marcar posição. Havia uma regra de grupo - reforçada depois do incidente com Aboubakar (que, recordemos, foi apanhado por um telemóvel que não era o seu num directo gravado por um colega, não por ele) e que os jogadores estão a respeitar. O telemóvel em dias de jogo não existe, as redes caladas, a concentração máxima. Desrespeitar uma regra elementar é um erro que deve ser assumido diante do grupo e entre todos passar página. Não é motivo de drama, é motivo de união, ainda mais se for possível, entre todos. Se Iker, com os seus quase vinte anos de carreira e balneários, tiver a humildade de desculpar-se ao grupo e se Sérgio tiver a liderança necessária para saber reforçar essa união, este episódio tem tudo para unir ainda mais o plantel. Se um deles decidir continuar fiel a uma postura inflexível, teremos um problema e José Sá corre o risco de sofrer um dano colateral que não merece. Se for ele o titular este sábado deve ter o apoio de todos. Se não o for deve entender a dificil natureza da sua situação. O que todos esperam é que isto seja um fait-divers e não um ponto de viragem. 

No entanto, uma coisa é certa. Todos os que pediam o "velho Porto", o da cultura de balneário, o de não saltar nada para fora, o do final das vedetas e o de um treinador capaz de fazer grupo, têm de saber que este é o momento para mostrar o verdadeiro apoio ao único homem que tem, dentro da estrutura, lutado pelo regresso a essa realidade. Um Porto onde quem decide é o treinador, nem interesses da SAD ou de agentes externos. Um Porto à Porto. Conceição cumpriu o seu papel - não foi ele que faltou a uma regra de grupo -  e no pior dos casos, se Casillas não demonstrar o arrependimento necessário que a situação exige e o seu afastamento siga, por muito que desportivamente signifique sair a perder, os adeptos devem mostrar o seu apoio incondicional ao homem que tem estado detrás de tudo o bom que tem sucedido desde Julho, desde a recuperação de jogadores ostracizados à recuperação do espírito competitivo e ofensivo de sempre sem esquecer a liderança isolada da liga e a luta pelo apuramento aos oitavos-de-final da Champions (objectivo realista neste contexto presente). Com todo o respeito para Iker - e qualquer jogador que se coloque voluntariamente nessa situação - o orgulho que eu tenho desta equipa, neste momento, tem um responsável principal e não tenho problemas em afirmar, estou com Sérgio, até ao fim.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Espremer a casca do limão

24 horas depois, a frio, meia-dúzia de bitaites sobre o jogo de ontem no Red Bull Arena:


1. Resultado bem melhor do que a exibição. Por aquilo que foi o jogo, seria normal a equipa da casa, que não por acaso é vice-campeã da Alemanha, ter ganho por 2 ou 3 golos (mas atenção, nem o RB Leipzig é o FC Basel, nem levamos 5 secos…).

2. Neste jogo, em que os “dragões” tiveram pela frente uma equipa mais forte fisicamente, mais intensa e que ganhou as bolas divididas quase todas, vieram ao de cima as lacunas qualitativas de muitos jogadores da nossa equipa (mas, para mim, continua a ser o Marega e mais 10…).


3. Num jogo de Liga dos Campeões, de intensidade máxima, contra uma equipa muito agressiva (no bom sentido) e que pressionava o portador da bola com 2 ou 3 jogadores, era quase deprimente olhar para o banco de suplentes do FC Porto e ver que não havia ali qualquer solução para aquilo que o jogo estava a exigir (por exemplo, já imaginaram o que seria lançar o Otavio contra os “panzers” desta equipa alemã?).


4. Ontem, mais do que erros individuais de alguns jogadores (que os houve); mais do que equívocos do treinador (que os houve); vieram ao de cima as limitações deste onze titular e deste plantel.

5. Foi neste século, não foi no século passado, que planteis do FC Porto tinham jogadores do nível do Vítor Baía, Danilo, Pepe, Ricardo Carvalho, Otamendi, Mangala, Alex Sandro, Casemiro, Maniche, Moutinho, Lucho, Deco, Anderson, Quaresma, Hulk, McCarthy, Falcao, James, ... Quando penso nisso e olho para o plantel atual do FC Porto, até dá vontade de chorar.

6. Nem esta equipa do FC Porto é tão boa como pareceu após o jogo no Mónaco e os primeiros 45 minutos do jogo em Alvalade, nem é tão má como pareceu após os jogos com o Besiktas ou RB Leipzig. Contudo, convém manter os pés bem assentes no chão, ter consciência que o “cobertor é curto” e não esquecer que a prioridade das prioridades é o campeonato português.


7. Nem o Sérgio Conceição é um novo “special one”, nem na “Loja dos 300” há jogadores à disposição com a qualidade dos que havia em 2002. Mas se, independentemente de opções pontuais, o Sérgio Conceição continuar a conseguir espremer o limão (a casca do limão!) como tem feito até agora, terá o meu reconhecimento.

8. Depois de algumas coisas que li ontem à noite, escritas por portistas nas redes sociais, lembrei-me e tive saudades do Prof. Bitaites. Ó meus amigos, é preciso baixarmos um bocadinho as expectativas. Depois das asneiras e algumas loucuras cometidas pela Administração da SAD nos últimos anos, os próximos tempos vão ser de “vacas magras” (em termos de meios à disposição do(s) treinador(es) ).

9. P-O-O-O-O-O-R-T-O

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Temos homem


Começo por dizer que tive, no momento do anúncio de Sérgio Conceição como treinador do FCPORTO, alguns receios e muitas dúvidas.
A grande questão que se me levantava (e não está resolvida) tem a ver com a forma como SC poderá reagir em momentos mais complexos do campeonato.
Temos vindo a ganhar - SC tem tido muito boa influência nos resultados, não sendo um mero assistente - e, quando se ganha, tudo é mais fácil.
Devemos, no entanto, contar com momentos difíceis a breve prazo: o plantel é curto, as "missas" vão continuar e é possível que surjam lesões e castigos.
Nesse momento veremos se "temos homem" com pulso para o lugar.
Devo dizer que a forma natural (sem grande futebolês e frases feitas) como tem lidado com a imprensa, tem vindo a surpreender-me e faz esperar que venha a aparecer um treinador mais maduro e mais seguro do que era há poucos anos.

Do ponto de vista técnico-tatico, SC é, para mim, um enorme treinador.
De facto, sempre me irritou a figura do "treinador estrela", aquele que arrogantemente coloca as "suas equipas" a jogar do mesmo modo, sejam elas compostas de catalães ou ingleses, ou uma amálgama de nacionalidades.
Para mim um treinador não deve colocar as equipas a jogar à sua imagem. Deve, pelo contrário, construir a sua forma de jogar olhando aos jogadores que tem, procurando retirar de cada um o melhor possível e assim construindo jogo da forma que as características dos verdadeiros artistas - os jogadores - aconselham.

Por outro lado, não deve também um treinador ter "um" estilo de jogo.
Em minha opinião, as equipas devem saber ler os momentos do jogo: há momentos para pressing e momentos para contenção; momentos para posse e momentos para transições rápidas; momentos para arriscar no ataque e momentos para adormecer o jogo. Tudo isso deve ser treinado e vivido durante um jogo, dificultando a vida ao oponente e não permitindo que este arme só uma estratégia para se defender de um só estilo de jogo.

SC faz isto muito bem.
Todos e cada um dos jogadores estão a jogar muito acima do que pensávamos possível. Parece até, comparando com os últimos anos, que alguns ganharam uma inteligência e uma visão que não lhes conhecíamos.
Acresce que SC faz a equipa cair em cima do adversário (o que contrasta com a posse estéril que vigorou até há pouco), embora saiba, quando é preciso, trocar a bola e controlar os ritmos.
Quando começamos o jogo, logo no apito inicial, a bola é normalmente atrasada e depois lançada para cima da defesa adversária que, ainda a frio, leva com choque de duas locomotivas como Abouba e Marega. Este movimento é um grito ao adversário: "Vamos para cima de vocês e é desde o minuto zero"

Não fui um entusiasta do SC, mas estou a gostar e espero que aquilo de que me tenho vindo a aperceber se confirme.

O tempo o dirá, mas estas primeiras impressões são muito positivas.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Marega e mais dez!

É difícil olhar para trás e ver um avançado do FC Porto com tão poucas condições para triunfar na elite como Moussa Marega. Nenhum portista, absolutamente nenhum vou arriscar, olhava com bons olhos a sua inclusão no plantel mesmo depois de alguns números e exibições com o Vitória de Guimarães na época passada. Marega era um patinho feio para todos e com toda a lógica.

Habituados, em muitos casos, a caviar, é difícil entender que às vezes uma bifana sabe bem melhor. De jogador mal querido o maliano converteu-se numa figura fundamental, simbólica, do projecto Sérgio Conceição. Não é o melhor jogador - é aliás pior jogador, como tal, que quase todos os do plantel - e enerva ver a quantidade de bolas perdidas, dribles falhados e passes desperdiçados. No final do jogo, olhando friamente para os números, é difícil encontrar um pior jogador em campo do que Marega.

Vendo o jogo como outra coisa, como uma sequência de momentos, é difícil encontrar um mais importante. Para o FC Porto de Sérgio Conceição é cada vez mais evidente que são "Marega e mais 10", como diria Quinito.

Como se processa esse paradoxo?
É bastante fácil o de jogo, este plantel e esta atitude de grupo o Marega é um jogador determinante e um símbolo do projecto de jogadores descartados - emprestados recuperados, jogadores sem mercado - com os quais Sérgio conseguiu fazer uma genuína equipa, um plantel unido e sob a qual montou um projecto com fome de vitórias.

Se no balneário ter alguém como Marega é determinante - um tipo alegre, que vem literalmente do nada e nada tem a perder e tudo a demonstrar, um jogador que se quer reivindicar perante todos e que dará tudo pela camisola e pelo homem que nele confiou - em campo o africano encaixa com a ideia que tem transmitido o mister.

- É determinante porque corre como ninguém e aproveita os espaços que este modelo de jogo procura sempre entre as linhas defensivas dos rivais, sobretudo nos flancos.

- É determinante porque é possante e isso dá-lhe vantagem nos duelos directos por muito que tecnicamente perca com qualquer jogador em campo. Essa força física tem-se feito notar cada vez mais e é um plus fundamental nesta gestão de transições a espaços mas igualmente nos duelos em zonas limitadas do terreno de jogo.

- É determinante porque tacticamente dá distintas variações sobre as quais a equipa pode trabalhar. Com Aboubakar como um jogador mais fixo e Brahimi constante a meter-se dentro, deixando a ala a Alex Telles, a inclusão de Marega permite ter um atleta a jogar a falso extremo, a avançado num 4-2-4 mais claro e isso dá variantes tácticas como a inclusão de Tiquinho numa posição mais central ou o avanço do Oliver/Otavio, num perfil mais técnico, e Herrera/André André, num modelo mais vertical, no apoio a Danilo e o reforço do meio.

- É determinante porque tem fome de golo, não comete tantos erros como o Aboubakar - é impressionante a dificuldade do Aboubakar em marcar de primeira, a quantidade de ressaltos que apanha são brutais - e ao mesmo tempo é generoso, um complemento ideal para um jogador mais fixo como se tem visto ao largo dos dois meses de trabalho em conjunto da dupla de ataque.

Moussa Marega

O certo é que Marega é um símbolo deste FC Porto low cost, pelo que vale realmente, pelo seu valor de mercado, pelo valor que tinha para os adeptos e também pela atitude e mentalidade que traz e que Sérgio Conceição tem sabido potenciar.

Noutro plantel, noutro contexto, noutro desenho táctico, com outro treinador, seria um desastre pegado porque, a nível técnico e táctico é provavelmente o jogador que mais erros comete de todo o plantel, com controlos e passes falhados de nível básico e erros de toma de decisão recorrentes. Mas neste cenário onde nos encontramos, Marega é chave sobretudo porque tem respondido. Tem golos, assistências, implicação, trabalho e no final de cada jogo, por muito que os números digam o contrário, encontra quase sempre forma de se tornar em determinante para os êxitos da equipa.

Com Brahimi e Oliver como virtuosos, com Danilo como todo-terreno, com uma defesa sólida e um Aboubakar renascido para os golos, é fácil olhar para Marega e ver o elo mais fraco, o patinho feio. Seguramente Conceição pensa distinto, para ele o maliano é o cisne!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

É o que temos: (muita) atitude, garra e falta de qualidade individual

O FC Porto mereceu ter vencido o Bessiktas por mais de um golo de vantagem. Gerou jogo e caudal ofensivo suficiente para isso e raramente esteve ameaçado pelos turcos. O resultado não podia ser mais enganador em relação ao que se viveu no relvado e no entanto é o resultado natural dadas as circunstâncias. Uma equipa que quer atacar um jogo da Champions League com Marega, Hernâni, Soares e André André nos momentos de maior aperto é, claramente, uma equipa fora de lugar. O FC Porto não tem plantel para ombrear com a elite continental e hoje, viu-se, nem sequer para lutar contra equipas do mesmo nível quando o que está em causa é o talento individual. Houve quatro golos no Dragão e nenhum foi de um jogador azul e branco. O talento individual de Quaresma, de Talisca, de Babel ou a liderança de Pepe estão do lado de um Bessiktas que, como qualquer gigante do futebol turco, tem bom dinheiro para gastar e pagar em salários. O FC Porto de há uns anos podia perfeitamente competir com essa realidade e fazia-o. Esta versão não. Sérgio Conceição não tem culpa. Montou um esquema para dominar o esférico e usar os espaços e depois, quando se viu a perder - em duas ocasiões - meteu toda a carne no assador. Atitude e querer nunca faltou à equipa e essa é a melhor nota. Mas só isso não chega. Não a este nível. É a crua e dura realidade.

Também não ajudou que no dia em que bateu o recorde de Xavi e passou a ser o jogador com mais jogos de sempre na história da competição, Iker Casillas estivesse similar ao Iker de há dois anos, o que custou o lugar a Lopetegui. O segundo e o terceiro golo contaram com duas estiradas pouco determinadas, apesar do primeiro ser um disparo tremendo e o segundo ser uma tabela básica que deixou a nu as falhas defensivas que oferecem os laterais do FC Porto, neste caso Alex Telles, que depois de ver como tinha de ser dobrado no seguimento ao seu homem, esqueceu-se de acompanhar Babel e este conseguiu disparar a belo prazer, um remate que Iker Casillas podia ter feito mais para parar. Não o fez e o jogo morreu, matematicamente, ali. Na prática, apesar da sensação de máxima entrega, já tinha morrido quando todos perceberam que a linha ofensiva do Porto era inofensiva frente á baliza. Pouco acerto. Muito pouco para tanto caudal. Se com NES o problema era chegar á frente e criar perigo - e cada lance de André Silva era um oásis - aqui o problema é que a qualidade individual dos interpretes não está à altura da quantidade de opções criadas. Oliver e Brahimi, na primeira parte, e o argelino e Otávio, no segundo tempo, bem se esforçaram e fizeram mexer as peças do puzzle mas nem Ricardo nem Alex estiveram acertados nem apoio nem os dois avançados titulares - a baixa de Aboubakar hoje deu um reflexo do que poderá passar se o camaronês se lesiona - mostraram estar á altura entre manos a manos desperdiçados e remates sem sentido. Nem sequer a meia distância, que ás vezes pode fazer a diferença, resultou efectiva. O Porto fez um jogo à Porto no querer e na atitude mas não foi suficiente para bater um Bessiktas que, na prática, é uma equipa banal e a mais débil do grupo. Na altura do sorteio ficou claro que este grupo, sem nenhum cabeça de cartaz, pode acabar com o Porto em primeiro ou em último. Os sinais de hoje deixam claramente a sensação que com um plantel tão curto - uma vez mais não havia um só ponta-de-lança no banco para lançar - é muito difícil aspirar a algo mais do que ir amealhando pontos e euros e ver o que passa sem tirar a cabeça do que deve ser prioritário, a Liga.



Ao trabalho de Conceição, como tem sido apanágio, não há muito a dizer que não seja positivo. A retirada de um esforçado Oliver, que teve nos pés grandes destelhos e duas excelentes ocasiões, entende-se no conjunto da gestão de esforços e na ausência de opções de ataque, pouco se lhe podia exigir quando a terceira substituição resultou ser Hernâni. Em atitude, capacidade de empurrar a equipa para a frente e mostrar, ao abdicar de Danilo - que continua sem se sentir totalmente cómodo neste modelo - vontade de ganhar contra tudo e todos, foi o mesmo treinador que nos jogos da Liga, um excelente sinal de atitude ganhadora. Mas quando os erros individuais - de Casillas atrás e da linha de ataque frente a Fabricio - condenam o resultado final, pouco mais há a dizer. O enfoque principal é o que é. O plantel é curtíssimo e não podemos exigir pérolas a porcos. Quem é o responsável desta gestão - mais uma vez, por culpa da sanção da UEFA só havia 19 jogadores disponíveis para o técnico trabalhar opções - e da falta de um plantel de garantias que dê a cara no momento oportuno. Técnico e jogadores deram tudo o que tinham. Nalguns casos o melhor que têm é isto e não há como disfarçar. Pode, perfeitamente, ser suficiente para consumo interno como o Benfica tem vindo a demonstrar com planteis tão fracos e jogadores tão ineptos, ainda que eles tenham sempre um joker na manga e a chamada do público em cada jogo para utilizar em momentos de aperto, mas quando falamos de Champions League não há milagres. Venha o próximo duelo a sério!

sábado, 2 de setembro de 2017

Zero reforços

Sérgio Conceição é um tipo com coragem. Tem feito um trabalho admirável de coesão, colocou a equipa a jogar bastante mais (sem ser brilhante tem logrado momentos de brilhantês, o que não é o mesmo), assumiu uma abordagem vertical, ofensiva e de riscos e, sobretudo, um projecto que hoje lhe dá menos a ele do que ele pode dar ao projecto. E para isso é preciso ser um tipo de coragem.

O "negócio" de Vaná - a posição que o FC Porto seguramente mais precisava de reforçar - impede que podamos afirmar que o FC Porto não contratou ninguém neste defeso. Também há quem defenda que além dessa "contratação", o FC Porto também recebeu na forma dos emprestados do ano passado "reforços", casos de Ricardo Pereira, Moussa Marega (um jogador que a esmagadora maioria dos adeptos há um ano ofereceria grátis a quem quisesse pegar nele) e Vincent Aboubakar. Recuso-me a chamar "reforços" a jogadores que já pertenciam ao clube e que, pelo menos no caso de Ricardo e Aboubakar, jamais deviam sequer ter saído do plantel principal. Portanto, sendo intelectualmente honestos, o FC Porto não contratou ninguém útil e não se reforçou no mercado. Sérgio Conceição sabia que chegava a um clube com problemas financeiros - motivo por qual a maioria dos treinadores sondados por Pinto da Costa lhe deu as costas - e debaixo do olho atento da UEFA. O que provavelmente não sabia é que não ia sequer ter um pequeno brinde até ao fim do mercado na forma de um ou dois jogadores da sua escolha. Conceição é o primeiro treinador que começa uma época com o FC Porto sem um reforço pedido. Nem um. Se nos lembramos que Co Adriaanse abandonou o barco por algo parecido há pouco mais de uma década, fica claro como as coisas mudaram no Dragão. O Porto vai para a guerra com os mesmos do ano passado, entre os que estavam e os emprestados. Nem mais nem menos.

Tudo o que suceda a partir de agora é, portanto, um milagre.
Para ser segundos o clube já tinha os Lopetegui e NES da vida. Depois de quatro anos o clube tinha de fazer um esforço para ser campeão e quebrar um ciclo nefasto. Não o fez. E o treinador será o menos culpado. Conceição pode cometer erros (vale a pena pensar na formação e no seu tratamento da mesma num futuro) de cariz táctico em determinados jogos (o esquema original já deu para perceber qual é e ninguém vem enganado) ou ter problemas de gestão de balneário. Mas sem ovos nem o melhor cozinheiro faz omeletes. O Benfica e, sobretudo, o Sporting, reforçaram-se bastante melhor e têm planteis com mais soluções para a maioria das posições. Se o Porto já não partia em superioridade face ao que havia em cada onze no ano passado, este ano o abismo aumenta. Uma lesão de Soares/Aboubakar, de Oliver, de Danilo ou de Brahimi abre um problema muito sério. São 41 jogos, o mínimo, por temporada, números que, provavelmente, se aproximem dos 50 com as Taças. E na prática há posições onde há uma solução e meia. Há três avançados centro para dois lugares segundo o esquema actual. Oliver e Otávio nunca demonstraram ter o pulmão para aguentar uma época a somar noventa minutos constantemente e nem André André nem Herrera cumprem o mesmo papel que Danilo, que deixou de ter concorrência directa. Na ala os únicos extremos puros são Brahimi, Hernâni e Corona, admitindo-se que tanto Ricardo como Layun podem dar uma mão, mas sempre obrigando a recorrer a planos B e C´s noutras posições. A manta é curta. Ponto.



Felizmente a ausência de dinheiro real - e não aquele que outros clubes movem alegremente no mercado - e o olho atento da UEFA (ficaram 37 milhões de euros por contabilizar nas vendas, um problema mais para resolver que Luis Gonçalves não soube driblar) obrigaram o clube a actuar com prudência. No caso desta SAD actuar com prudência é um bom sinal, pelo menos, salvo o caso Vaná, não houve comissionistas a beber da teta da vaca e quase metade dos excedentários encontraram colocação. O lado negativo, responsabilidade de Gonçalves - o director de futebol continua sem existir no mercado - e também de uma política que depende excessivamente da gestão de Mendes, D´Onofrio e Teixeira para que os jogadores saiam do clube, foi o facto de vários excedentes não terem sido colocados e os que foram terem aportado muito pouco ao clube, que se livra em alguns casos dos salários mas não recupera nem parte do investimento. Muito triste. Se a isso juntamos que jogadores que não vão ser titulares e podiam ter rendido bom dinheiro como Maxi, Reyes/Indi e Herrera ficaram no plantel e o buraco de 37 milhões continua aí (quando, há um ano, só Herrera, segundo o Presidente, valia mais dos 30 milhões que recusou), não se pode dizer que tenha sido um verão positivo. Só saíram dos jogadores da casa, com um futuro superior às cifras que foram pagas por eles como vão seguramente demonstrar. Muito pouco.

Na prática foi também Conceição - e tendo em conta a sua coragem e a forma como tem trabalhado acho que merece sem dúvida o beneficio da dúvida nestes casos, se teve intervenção directa na decisão - quem decidiu virar as costas à equipa B e à formação. Todos os que podiam reforçar o plantel e abrir passo a algumas saídas úteis foram "despachados". Fonseca (lateral direito), Rafa (lateral esquerdo), Mikel (médio defensivo) e, sobretudo, Rui Pedro (avançado) podiam ter sido opções úteis para complementar o plantel, mais tendo em conta as restrições da lista da UEFA. Um caso para abordar mais à frente, com paciência e perspectiva.

Conceição tem um desenho táctico que funciona claramente em Portugal - na Europa, como Jorge Jesus, o seu primeiro grande defensor, e mais tarde Rui Vitória, têm demonstrado, nem tanto - e esse é e tem de ser o grande objectivo. Até agora, por jogo e por atitude, o seu trabalho tem sido muito superior às expectativas mas o ano é largo e haverá algum momento em que olhar para o banco e ver que não há um só avançado para entrar (como tem sucedido na ausência de Soares) pode ser a morte do artista. Conceição aceitou o desafio e nós aceitamos o desafio com ele. A responsabilidade, um ano mais, mais do que nunca, tem nomes próprios e apelidos. Em Maio, se o FC Porto for campeão, nunca será tanto por culpa de um treinador e tão pouco por mérito de um Presidente. Oxalá assim seja. O espírito do Dragão que Sérgio e os jogadores têm reactivado, muito mais real e sentido que o "Somos Porto", bem o merece!

Sérgio, estamos contigo!