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sábado, 22 de agosto de 2015

A colheita de 1991



«Mesmo tendo saído do FC Porto há duas temporadas, o argentino Nicolás Otamendi continua a render dinheiro aos dragões. Com a transferência confirmada esta quinta-feira, a equipa da Invicta encaixará 225 mil euros ao abrigo do mecanismo de solidariedade da FIFA, correspondentes a 0,5% do valor total da transação entre Valencia e Manchester City, feita por 45 milhões de euros. Estes 0,5 % referem-se à derradeira época de formação do defesa argentino, quando este cumpriu 23 anos.»
in record.pt, 20-08-2015


O que é isto do mecanismo de solidariedade?

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MECANISMO DE SOLIDARIEDADE

Artigo 1º - Contribuição de Solidariedade
Se um Profissional mudar de clube no decurso de um contrato, 5% do valor de qualquer compensação, à excepção da Compensação por Formação, paga ao Clube Anterior será deduzida ao valor total da compensação e distribuída pelo Novo Clube, como contribuição de solidariedade, aos clubes envolvidos na formação e educação do jogador ao longo dos anos. Esta contribuição de solidariedade será distribuída de acordo com o número de anos (calculado numa base percentual se for menos de um ano) que o jogador esteve inscrito em cada clube entre as Épocas do seu 12º e 23º aniversário, do seguinte modo:
- Época do 12º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 13º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 14º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 15º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 16º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 17º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 18º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 19º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 20º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 21º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 22º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 23º aniversário, 0,5% da compensação total

Artigo 2º - Procedimento de Pagamento
1. O Novo Clube deve pagar a contribuição de solidariedade ao(s) clube(s) formador(es), em conformidade com as disposições acima estabelecidas, o mais tardar no prazo de 30 dias após a inscrição do jogador ou, em caso de pagamentos parcelares, 30 dias após a data de tais pagamentos.

Fonte: FPF

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Há um ano atrás, a comunicação social referiu que o FC Porto também lucrou com a transferência milionária de James Rodrigues para Madrid.
E porquê?
James esteve três épocas no Porto, entre os 19 e os 21 anos, o que significa que o FC Porto teve direito a 1,5 por cento do valor pago pelo Real Madrid ao AS Monaco (cerca de 1,1 milhões de euros).

No futuro, para além de James, há mais três jogadores que, tendo passado pelo FC Porto e rendido aos cofres da SAD largas dezenas de milhões de euros, ainda poderão proporcionar mais uns “trocados”: são eles Mangala, Danilo e Alex Sandro.

Estes quatro jogadores têm em comum terem nascido em 1991, chegado ao Porto com 19/20 anos e saído após completarem o ciclo normal de 3 ou 4 anos. Ou seja, em termos do mecanismo de solidariedade, qualquer um destes quatro jogadores proporcionará à FC Porto SAD 1,5% de uma eventual transferência futura.

Ora, atendendo ao seu (indiscutível) valor e idade atual (24 anos), eu diria que a probabilidade de novas transferências, envolvendo estes quatro jogadores, é bastante elevada.

Onze inicial do FC Porto na deslocação a Braga (época 2012/2013)

Rica colheita, esta de 1991.

sábado, 5 de julho de 2014

As lágrimas do melhor


Ter o melhor jogador deste Mundial foi insuficiente para a Colômbia superar a equipa anfitriã.

P.S.1 James Rodriguez sofreu quatro ou cinco faltas duras, algumas delas a roçar a violência. Contudo, nenhum dos autores dessas faltas foi punido sequer com um cartão amarelo. E eu que pensava que a FIFA tinha dado instruções aos árbitros para protegerem os melhores jogadores…

P.S.2 No lance do penalty, por que razão o guarda-redes brasileiro, Júlio César, não foi expulso?

P.S.3 Alguém sabe quantas faltas foram cometidas, neste jogo, pela equipa do “Sargentão”? Eu perdi-lhes a conta…

domingo, 29 de junho de 2014

O bom e o mau negócio

Em Maio de 2013, após o FC Porto ter vendido, por um total de 70 milhões de euros, os passes de João Moutinho (25 milhões) e James Rodriguez (45 milhões), um idiota, de voz rouca, fez as seguintes afirmações:

Tivemos [Sporting] o azar do presidente Pinto da Costa não estar a conseguir fazer os negócios que tem feito. Ele sempre disse que os jogadores eram vendidos pela cláusula e sabemos que a [transferência] do João Moutinho era de 40 milhões, infelizmente não foi assim, foi por 25 milhões (…) às vezes as pessoas não vão tendo as mesmas capacidades e as mesmas competências

Normalmente, o FC Porto vende os jogadores pela cláusula de rescisão. Não aconteceu com o João Moutinho, o que é muito mau. Foi um grande negócio, o do James Rodrigues, um mau negócio do João Moutinho

O JOGO, 25-05-2013

Um ano depois, vendo o que foi o desempenho destes dois ex-jogadores do FC Porto na liga francesa e, principalmente, nos jogos que ambos disputaram no Mundial do Brasil, não é credível que houvesse algum clube disposto a pagar 25 milhões de euros pelo passe de Moutinho. Pelo contrário, no caso do James, se Dimitry Rybolovlev quisesse, estou certo que não teria qualquer dificuldade em vender o melhor jogador do Mundial (até agora) por 45, 50 milhões ou mais.

Afinal, qual foi o bom e o mau negócio?

P.S. Com um Radamel Falcao a 100%, até onde iria esta seleção da Colômbia?

terça-feira, 24 de junho de 2014

45 milhões: uma pechincha

Messi joga para ele próprio, James joga para o Mundo!

P.S.: Eu não irradiava só o "trincas", mas a equipa toda - que cambada de anormais.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

As duas faces de James

«James joined the ambitious Ligue 1 club earlier this summer for €45 million (...).
Speaking exclusively to Goal, he said: "I won't miss it at all. I can play in the Champions League another year. (...) Signing Falcao and Moutinho will help a lot. I've been playing with great players who have been top figures, and who are now here. I think that's important. With good players it's easy to play and adapt."
Operating as a winger for Porto last season the Colombian scored 11 times in 34 games and impressed a number of the continent's top teams. Monaco moved quickly to seal his signature, paying his release clause, and so in the space of three short years, the forward passed from relative obscurity as a little-known teenager with Argentine side Banfield to becoming one of the world's most expensive players. So how did he achieve his rise to prominence?
He explains: "Firstly, hard work. I'm someone who has always liked to train well and always wants to play well. The first six months [at Porto last season] were good. The last five unfortunately I had an injury. The most important moments were the first six months when I had a good level. I had a top level during those months

A entrevista completa de James Rodríguez à Goal.com pode ser lida aqui.

De facto, o James da primeira parte da época passada (Agosto a Dezembro de 2012) foi um jogador completamente diferente, para muito melhor, daquele que (não) esteve à disposição de Vítor Pereira na segunda metade da época 2012-13.

Este facto, que agora é reconhecido pelo próprio jogador colombiano, a que se juntou a lesão de João Moutinho num momento crucial (2ª mão dos oitavos da Liga dos Campeões) e a ausência de alternativas de qualidade para a frente de ataque dos dragões, ajuda a explicar algumas exibições menos conseguidas do FC Porto na segunda metade da época passada. É que sem ovos, é mais difícil fazer omeletes...

Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

domingo, 9 de junho de 2013

FC Monaco

O AS Monaco confirmou a contratação de Radamel Falcao. São números recordes, maiores ainda do que aqueles que o Atlético pagou ao FCP, sinal de que o colombiano se valorizou nestes dois anos em Espanha (uma Taça UEFA, Supertaça Europeia, Copa del Rey). É pena que na venda (da qual ainda falta receber 13 milhões) não tenham posto uma cláusula de valorização porque era dinheiro vivo no Banco.

O homem responsável por esta compra é o mesmo que está por detrás das contratações de Ricardo Carvalho (ele mesmo), de James Rodrigues e João Moutinho. 120 milhões gastos numa semana não é para qualquer um. Mas o senhor Dimitri Rybolovlev não é qualquer um. Um dos maiores milionários do mundo, um apaixonado do futebol e, suspeito, um fã do FC Porto desde pequenino.

Estou mesmo a ver o senhor Dimitri de camisola azul-e-branca a sofrer no lado de lá da cortina-de-ferro com Viena e Tóquio e a reservar um palco VIP em Sevilha, Gelsenkirchen e Dublin, bebendo vodka enquanto celebra cada golos dos dragões. Há quem o tenha visto no Dragão de bifana na mão a saltar a cada golo nos 5-0 contra o Benfica e não se surpreendam de que tatue o nome de Kelvin nas costas, junta do habitual cruz ortodoxa que todos os mafiosos de leste gostam de ter. O problema do senhor Dimitri chama-se Pinto da Costa. O seu sonho sempre foi ser presidente do FCP mas como o "Papa" é imortal, assumiu que tinha de comprar outro clube qualquer para fazer o seu sonho realidade. Como no Monaco tinha casa e sitio para estacionar o iate, foi aí.



A este leque de jogadores é bem possível que se junte Lisandro Lopez e já se fala, inclusive, no próprio Hulk. Seriam seis jogadores com passado azul-e-branco recente. Com o trio James-Falcao-Moutinho já recriou a conexão FCP Dublin (só falta mesmo Hulk) e com Ricardo Carvalho e, eventualmente, "Licha", junta outras duas gerações de grandes dragões no mesmo plantel.

Para os dragões vai ser aliciante ver como se comporta a nossa filial milionária este ano. Pena que o senhor Dimitri seja daltónico e tenha escolhido uma equipa com aquelas cores. Com tanto dinheiro não creio que demore muito a mudar o equipamento e a meter um dragão naquele emblema. E quem sabe, mudar o nome para FC Monaco!

PS: A razão verdadeiras dessas compras não é outra que Jorge Mendes, o homem que lhe auxiliou, com Peter Kenyon, na compra do clube no ano passado e dono do cartel de jogadores mais interessante do futebol europeu (é bem possível que o Coentrão acabe lá se o Mourinho não o levar para o Chelsea). 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A eterna questão do «modelo» de gestão

Anteontem o Miguel Pereira levantou aqui a eterna questão de que modelo de gestão & nível de ambição queremos ter.

Bem, em certa medida (que não totalmente) parece-me que é uma falsa questão, porque a venda de jóias da coroa não é necessariamente incompatível com ambições mais elevadas (vs a alternativa). 

Aliás, a médio prazo não é de todo incompatível, bem pelo contrário - e graças a Deus não me parece que estejamos desesperados com sede de títulos de forma a apostar o «tudo ou nada» no curto prazo (i.e. numa determinada época), sabendo-se que o ao fazê-lo o risco do descalabro total nas épocas que se seguem seria imenso.

Como foi afirmado na caixa de comentários, a gestão corrente é deficitária (não temos as receitas estruturais de um tubarão europeu, i.e. bilheteira, merchandising, patrocínios e TV) e esse buraco só poderá ser tapado através de grandes vendas. Para perspectiva: se não vendessemos nenhum jogador esta época iríamos fazer mais de 40M de prejuízo (e para o futuro há formas de fazer descer este valor, mas não de o eliminar). Temos portanto um certo grau de flexibilidade nas escolhas que enfrentamos na questão das vendas, sim, mas claramente limitado.

Até porque há a consciência de que, apesar de sermos um clube com prestígio, não somos um clube de topo na Europa (no cômputo geral desportivo-financeiro). Sendo assim será sempre de esperar que muitos dos nossos jogadores tenham a ambição (financeira apenas, ou financeira e desportiva) de mais cedo ou mais tarde «dar o salto», e seria contraprodutivo tomar sistematicamente uma posição intransigente bloqueando a sua saída.

E «contraprodutivo» porque 1. alguns dos jogadores que costumamos atraír (entre os que são jovens, promissores e com um CV já jeitoso) iam deixar de querer vir para o FCP, e. 2. porque os jogadores que já cá estão iriam começar a recusar-se sistematicamente em renovar contratos, e/ou a invocar unilateralmente a cláusula Bosman ao fim de 3 anos.

Concluindo: eu estou portanto totalmente resignado a que em média saia um par de titulares todos os anos.

Dito isto, acho que devíamos ter todas as condições de gestão para podermos decidir o timing exacto, quem sai, e em que condições ($) – e acho que podíamos estar melhor nesse aspecto do que estamos (mesmo que apoie as vendas específicas de James e Moutinho neste momento e nos moldes em que foram feitas - sabendo que não havia forma de os segurar mais um ano, a não ser que fossem vendidos outros como Jackson, ou contraindo novos empréstimos de dezenas de milhões a 10% de juros ao ano, partindo do pressuposto que há quem estivesse disposto a emprestar).

Nomeadamente, acho que podemos ser geridos de forma que em certas circumstâncias se consiga que numa dada época (se assim for desejável) não seja nenhum titular vendido, mesmo que na seguinte saiam 3; ou aguentar um certo titular mais uma época se for considerado mesmo imprescindível, mesmo que a oferta seja muito boa (como aliás fizémos por exemplo com o Deco em 2003) - o que hoje e nos últimos anos tem sido manifestamente impossível, fruto do deteriorar das finanças.

Ora o FCP vê-se mais na necessidade de vender do que seria desejável acima de tudo porque temos re-investido o que temos e o que não temos em contratações, nem sempre com critério e às vezes «tendo mais olhos do que boca», com a consequência de que o passivo financeiro aumentou imenso na última década resultando em cada vez mais dinheiro «deitado ao lixo» em juros para servir a dívida (andam já acima dos 10M/ano, uma machadada consideravel numa SAD que tem receitas estruturais que não chegam aos 40M/ano). Nós vendemos muito bem, mas o adepto comum não tem a mínima consciência de que também gastamos imenso em compras: só nos últimos 3 anos foram perto de 150M!

Ora se não coloco em causa (a um nível «macro») o modelo genérico de comprar relativamente barato e jovem para vender um par de jóias da coroa todos os anos, estando de total acordo nesse princípio, já coloco em causa em alguns pormenores (ou «pormaiores») na execução desse modelo, e em particular um ênfase desequilibrado no curto prazo e um exagero no número de contratações (peço desculpa mas os jogadores não são de todo como os melões - até porque se fossem, os Man Utds e Reais Madrids deste mundo açambarcavam o mercado comprando aos 20 e 30 jogadores por ano, emprestando os melões podres). Ou seja: penso que podíamos estar algo melhor (o que poderia levar a maiores ambições), mesmo que certamente não estejamos mal.

Em particular penso que devíamos palautinamente (mas de forma gradual) reinvestir um pouco menos durante uns poucos anos, sendo mais criteriosos nas necessidades do plantel, até que o passivo financeiro desça para um nível que faça muito menos danos (em juros); até porque me parece que é um luxo incomportável para um FCP ter várias dezenas de milhões em passes & salários «empatados» no banco, na bancada e em empréstimos, como temos tido em média nos últimos anos. Haveria um bocadinho mais de risco a curto prazo, sim (e daí eu defender que o abate do passivo financeiro não seja à maluca) mas caramba, o dinheiro que se poupava em juros dava para comprar um Moutinho novo todos os anos...

Penso também que temos negligenciado um pouco a formação (um pouco, reitero; não tenho qualquer ilusão de que é um «filão» para ser explorado apenas moderamente e em boa parte para o papel de «actores secundários») e o mercado nacional (os Coentrões, Antunes, Limas e Ghilas custam uma pechincha quando comparados com sul-americanos de valor desportivo idêntico – mas é comprando-os quando estão ainda em clubes pequenos, claro).

Finalmente, penso também que a tesouraria pode ser gerida de forma mais inteligente, muito menos no fio da navalha, de forma que se evite vender % de passes de jogadores com valor seguro para depois as re-comprar por muitíssimo mais (só em James e Moutinho perdemos mais de 10M nessas operações de venda e re-compra).

Na época que agora termina houve uma certa inflexão nesses detalhes de execução tendo havido mais contenção nas contratações, fruto da necessidade (e mesmo assim gastámos mais de 30M). Como se viu, não foi por aí que se perdeu o campeonato (e a haver lacunas agudas no plantel foi muito mais por falta de vontade ou colocar o dinheiro no lado errado do que por falta dele – tendo gasto 33M em passes, não foi certamente por falta de um par de milhões que por ex um Ghilas não veio no Natal). No entanto alguns sinais fazem-me suspeitar que seja sol de pouca dura: para já não entendo que estando nós tão bem servidos de centrais (e nenhum deles perto da reforma, longe disso) se tenha dado prioridade a gastar imensos milhões em mais outro, por muito jeitoso que seja. Por outro lado temos a contratação por baixos valores de jovens promissores como Tiago Rodrigues, o que é encorajante.

A ver vamos, mas espero que a investir forte ($$) neste defeso isso seja feito apenas em posições em que estamos claramente deficitários (extremos em particular) e não onde já estamos bem servidos (pelo menos a titular). E espero também que se use uma % considerável das vendas para abater os empréstimos (na consciência de que, depois de subtrair o que é necessário para cobrir o prejuízo corrente, não sobra tanto dinheiro como isso).

Quanto a ambições, penso que devemos apontar para ir o mais longe possível na LC, certamente para além da fase de grupos - na consciência de que isso depende imenso de quem se for encontrando pela frente. Mas é precisamente através das grandes vendas (usando parte das mesmas para abater o passivo financeiro) que estaremos em melhor condições para sermos cada vez mais ambiciosos.

E se não é um Pinto da Costa (com o CV e credibilidade que tem) que esteja disposto a correr um bocadinho de riscos a curto prazo para colocar o clube em muito melhor condições para o médio prazo, não me parece que vai ser o próximo presidente a fazê-lo, seja ele quem for....

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O impacto da venda de João Moutinho

Comecemos com um disclaimer. O negócio da venda de James Rodriguez e João Moutinho é absolutamente brutal. Num mundo em forte crise económica, conseguir 70 milhões de euros de um clube por dois jogadores no mercado europeu é algo só ao alcance dos maiores. E Pinto da Costa pertence a essa categoria. Será ofuscado como negócio do ano pelas eventuais vendas de Neymar, Bale, Cavani ou Suarez. Mas quem conhece bem o mundo do futebol - e foi só ler a imprensa internacional nestes últimos dias - sabe que este é o melhor negócio de todo o defeso. Que só agora começou.

Os números são alucinantes também porque do outro lado está o novo dono do AS Monaco, uma espécie de Abramovich em versão gaulesa. O FC Porto faz milhões à custa destes senhores, estejam na Rússia (Dinamo Moscovo com Derlei, Maniche, Costinha, Thiago Silva; Zenit com Bruno Alves e Hulk), quer estejam em Inglaterra (Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Mourinho, Vilas-Boas). Que agora algum se tenha mudado para a Cote d´Azur é-nos indiferente. O importante é que o dinheiro entre nos cofres do clube e entre fresco. Ao contrário de emblemas como o Atlético de Madrid, fortemente endividados, estes clubes têm cash flow para pagar e pagar uma maior quantia de entrada - óptimo para aliviar os problemas imediatos de tesouraria - e são relativamente fiáveis a médio prazo. Essa realidade permite ter mais dinheiro agora para evitar vender percentagens de passes a fundos e para segurar alguns jogadores também cobiçados no mercado. No primeiro caso, reconheço que a minha Cruzada moral está perdida. O FC Porto vai continuar com esse tipo de negócios com terceiros misteriosos mesmo que tenha 100 milhões de euros no banco, disso tenho poucas dúvidas. Faz parte dos jogos do submundo e quem fica a perder é o futebol. Quanto ao segundo, o de segurar jogadores no plante, leva-me à venda de Moutinho e à sua real importância.


Considero João Moutinho o jogador mais importante do tricampeonato.
Não é nem nunca foi a estrela que tivemos em Falcao, em Hulk e agora em Jackson. Não é um menino-bonito dos alternativos como foram Guarin ou James. Mas é o jogador que faz mover as peças. O Benfica de 63 foi tanto de Eusébio como de Coluna. O Brasil de 70 não teria sido igual sem Gerson atrás de Pelé e todos sabemos que Messi é maior quando se associa a Xavi. Dentro do panorama português, um deserto de soluções criativos  Moutinho era esse equivalente. Não digo que esteja ao mesmo nível desses nomes, mas para o nosso país e para a nossa realidade económica, era o jogador ideal. Entrega absoluta desde o primeiro dia, melhoria de registos estatísticos ano após ano (só lhe aponto um defeito, a falta de eficácia goleadora, importante num médio das suas características) e sentido de liderança. Quando se perdeu Moutinho, na primeira parte em Málaga, a equipa veio abaixo. Na ausência de Falcao e de Hulk continuou-se a ganhar porque estava alguém a impor o ritmo, a pensar o jogo, a abrir espaços e a fazer fluir a bola. Esse alguém era Moutinho. Em 2000 sentimos muito a falta de Zahovic porque Deco ainda não era Deco. Cinco anos depois ao FC Porto faltou o "Mágico" para dar forma ao jogo ofensivo, algo que Diego quase nunca fez. Em 2010 a orfandade de Lucho, desse primeiro Lucho, era mais evidente do que nunca. Sempre que o FC Porto perde um jogador dessas características, sofre. Porque é provavelmente a posição mais dificil de preencher num plantel.

Para 2013/14 o FC Porto tem os seguintes médios no plantel: Steven Defour, Tiago Rodrigues, Carlos Eduardo, Lucho Gonzalez, Marat Izmailov e eventualmente Tozé. Herrera ainda não está oficializado mas é quase certo que venha. Fernando e Castro jogam mais atrás e não entram nestas contas. Destes elementos temos dois muito verdes mas com potencial (Tiago e Carlos), dois "veteranos" cuja condição física pode passar factura ao longo de uma época exigente (Lucho e Izmailov) e Defour, um jogador muito interessante para tapar buracos mas que terá agora de assumir a batuta de lider. Tenho as minhas dúvidas que o faça. Não é Fellaini, não é Witsel e muito menos, não é Hazard, o trio de ases do meio-campo da mágica geração belga. Espero estar enganado. Sobra Herrera, um futebolista que conheço e que vejo mais adaptado ao perfil da posição de Lucho do que, propriamente, para a de Moutinho. De qualquer das formas é outro jogador jovem e habituado a outro ritmo. A outro nível de exigência.

Sendo assim, o FC Porto 2013/14 vai atacar o Tetra e os Quartos-de-Final da Champions League sem o jogador mais importante do seu plantel. Além de ter um verdadeiro oásis na frente de ataque (neste momento o plantel conta com Jackson, Varela e Ricardo, já que Liedson volta ao Brasil e Atsu está de saída), não tem líder nem pensador de jogo. Com Moutinho, em 2010, o FC Porto conseguiu um jogador já feito que pegou directamente na equipa. Precisa de um futebolista desse nível para ocupar o seu vazio. Mas há muito poucos no mercado e menos ainda que queiram vir para Portugal. Dentro do nosso plantel, só Jackson Martinez tinha um estatuto parecido ao de Moutinho porque os golos pagam-se caros e ninguém marcou tantos como ele desde os dias de Jardel. Todos os outros poderiam ter sido vendidos, como o foi James Rodriguez, sem criar demasiados problemas em procurar solução. Reyes será o senhor que se segue na defesa, Ricardo é o sucessor de Varela, Herrera poderá desempenhar o papel de Lucho e apesar da dificuldade em encontrar bons laterais, é na direita e não na esquerda que temos um problema (de rendimento e de saída de mercado). Portanto, a venda de Moutinho pode ter gerado uma mais valia financeira importante - mesmo ignorando as contas apresentadas para dar o mínimo possível ao Sporting, algo com que todos contavam - mas desportivamente é um problema de difícil solução.



Alguns dirão que o jogador queria sair. Não acredito que seja o sonho da sua vida, o mesmo jogador que em Setembro se recusou em sair às pressas para equipas que pagavam bem e jogavam provas europeias. Nestes negócios já sabemos muitas vezes que a vontade dos jogadores chocam com os clubes (ver Hulk) e acabam por partir porque não têm muito remédio (apesar do lucro financeiro real que lhes oferece o negócio). Outros dirão que já estava a entrar numa idade que é para vender, lembrando-me que os adeptos do FC Porto deixaram de o ser para tornar-se em brokers da bolsa do compra e venda quando as acções se movem, esquecendo-se que um balneário precisa de vida própria e durabilidade para ser estável e ganhador. Provavelmente o valor real de mercado de Moutinho não fosse sequer superior aos 30 milhões (o de James andaria nos mesmos valores, pela projecção de futuro e não pelo que fez no último ano e meio, o que significa como mínimo uns 10 milhões de lucro, acrescentados) mas voltamos à velha história de sempre. O que quer ser o Futebol Clube do Porto? Um clube de futebol ou uma empresa? Um clube de futebol com um papel importante na Europa ou um clube de futebol que se limite a limpar o burgo, uma das ligas mais desequilibradas e desinteressantes da Europa? Um clube de futebol que quer aspirar com Vienas, Sevilhas, Gelsenkirchens e Dublins ou que se conforma com cair com os Málagas ou Schalkes do futebol europeu?

O que quer ser, realmente, o Futebol Clube do Porto está escrito neste negócio. Financeiramente somos uma máquina, um exemplo para ser dado nas escolas de gestão. Desportivamente somos cada vez menos ambição, cada vez menos querer e cada vez menos uma equipa que impõe a sua lei e que por isso tem de sofrer até aos suspiros finais de uma liga bipolarizada quando três meses antes deixou a Europa cedo demais para quem tão bons negócios é capaz de fazer!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Moutinho e James vendidos por 70M

Já é oficial - Moutinho vendido por 25M e James por 45M:


Primeiros pensamentos:

1) Boa sorte para os dois, que a merecem

2) Não vai ser fácil substituí-los. Suspeito no entanto (e um pouco contra-corrente) que será mais difícil substituir  James (mas para isso precisaremos de um modelo de jogo diferente que não dependa de um trinco e 2 médios de transição).

3) Os valores em questão são muito, muito bons, sem dúvida (para mais depois de uma época algo apagada de James); se me tivessem perguntado há um mês, eu teria dito que seria bom vender os dois por um total de 50 e tal milhões.

4) Espero que agora não seja preciso vender mais nenhuma jóia da coroa

5) Quanto dinheiro líquido é que vai sobrar para o FCP? Para além das comissões de intermediação, é certo que o SCP terá a receber 3.5M (25% de 25-11) mas para além disso há a questão dos direitos de formação (em princípio pagos diretamente pelo Mónaco, mas a confirmar) e a situação sobre James é muito confusa, tenho ouvido de tudo na imprensa - o que eu sei oficialmente é que a 31 de Dez tínhamos 55% do passe e em Fevereiro recomprámos (com enorme markup) 35% pelo que em princípio teremos 90% do passe (o que levaria a que 4.5M desta venda tenham que ser reencaminhados para esses terceiros).

6) Espero que hajam garantias sólidas da parte do Mónaco, já que a) não sei se este russo é de confiança (quem sabe, daqui a uns meses cansa-se do «brinquedo» e deixa de continuar a pagar) e b) pelo que tem vindo a público a situação do Mónaco está longe de ser pacífica perante as autoridades francesas. A propósito, pergunto-me que % terá sido paga como sinal, e os prazos do resto.

7) SCP, desculpa lá qualquer coisinha... ;-)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Estrangular o futebol dos pequenos

A FIFA revelou nesta sexta-feira que o comité do organismo para o futebol, liderado por Michel Platini, presidente da UEFA, solicitou “a criação de regulamentos que proíbam a propriedade por parte de terceiros” dos passes dos jogadores.

Esta notícia vinha publicada na edição online do PÚBLICO de Sábado. E não surpreende ninguém.

Michel Platini é uma figura que divide opiniões como dirigente (menos como futebolista). É, sobretudo, um excelente político com máscara de figura desportiva. Cresceu ao lado de Sepp Blatter, nesse antro de mafiosos que é a FIFA. Foi o seu homem forte na luta contra Johansson, um dos amigos mais íntimos de Pinto da Costa e da maioria dos homens do G14, e venceu. A partir de então a sua atitude com os clubes que entravam nesse grupo foi fria, distante e tensa em muitos casos. Salvo casos pontuais, como o Barcelona, que se afastaram do modelo original para aproximar-se da sua gestão presidencial, os clubes do G14 tiveram dificuldades com a UEFA nos últimos oito anos. O FC Porto, um dos que mais. Tivemos de sofrer as ameaças do francês, sem nenhum critério legal, e seguramente que Platini não se esquece do que teve de suar para vencer os azuis e brancos na polémica final de Basileia.


A gestão de Platini de devolver o futebol aos adeptos tem tido aspectos positivos.
Na sua luta contra os grandes, apostou num novo formato de Champions League que abre mais a porta à fase final a clubes campeões nacionais dos seus modestos países, ao livrarem-se de disputar o play-off final com os quartos ingleses, espanhóis  alemães e terceiros das ligas portuguesas, italianas ou francesas. Com gestos como esse (e o Euro 2008 e 2012, e as finais europeias que começam a chegar ao leste do continente), assegurou os votos para a reeleição e vendeu a ideia de ser um presidente dos mais fracos. Mas  como negociador nato que é, nunca se afastou em demasia dos países grandes. Não é por acaso que Londres recebe duas finais da Champions em três anos. Que Munique, Madrid, Paris e Moscovo tenham sido eleitas antes. Que os milhões da Champions sejam cada vez mais para cada vez menos e que o dinheiro investido na Europe League - a liga dos pobres - seja cada vez mais insignificante.

Platini quer chegar à FIFA e quer chegar com o apoio dos grandes. Precisa de sentir-se respaldado pela ECA, pela elite do futebol europeu e não apenas pelos clubes de países pequenos e sem expressão mundial. Por isso a nova medida vem apenas confirmar a sua deriva política. Acabar com a co-propriedade, algo que já existe nas ligas inglesa e francesa, é uma estocada de morte na ambição de muitos desses clubes. Os portugueses, por exemplo.

Com a situação actual de mercado, é cada vez mais difícil aos clubes como o FC Porto competirem com os milhões dos históricos do continente e com as novas fortunas do leste. A co-propriedade tornou-se numa ferramenta possível para comprar jogadores incomportáveis a preço total e também para aliviar o passivo quando a necessidade de cash flow se tornava iminente e aparecia um fundo qualquer para comprar uma pequena parte do passe de um jogador promissor. Sem esse mecanismo, não se enganem, não existia futebol profissional em Portugal. E em muitos países do Mediterrâneo. Em Itália a co-propriedade entre clubes é habitual desde os anos 90. Em Espanha, a esmagadora maioria dos clubes não detém o 100% do passe dos seus melhores atletas. Falar da Grécia, Chipre, Turquia, países eslavos e centro-europeus é apenas repetir a mesma história. A co-propriedade permite-lhes manter o pulso sem asfixiar-se (ainda mais) financeiramente. Sem ela, a Superliga europeia torna-se inevitável.

A missão de Platini nos últimos anos como presidente da UEFA é abrir caminho para essa realidade.
Abolir a co-propriedade significa dar aos clubes ingleses, alemães, russos, ucranianos e à elite espanhola, francesa e italiana, o domínio exclusivo e absoluto do futebol europeu. Deixa de haver margem de manobra para qualquer desafio externo. O FC Porto, como tantos outros, desapareceria entre o passivo acumulado e a venda dos seus activos para não acabar. Sem jogadores top não há performances top, não há ameaça, não há vitórias ao PSG, não há gestas como 2004. Não há nada.



Pessoalmente sou contra o modelo da co-propriedade. Absolutamente contra a entrada de fundos e empresários, muitas vezes para lavar dinheiro, no futebol gerido por um clube independente.
Mas também sou contra os salários praticados de forma infame pelos donos da pasta árabes e russos. Também sou contra a Lei Bosman, tal como está actualmente, e sou contra o modelo de distribuição de lucro das provas europeias desenhado pela UEFA.
Ou se é contra tudo ou a favor de tudo. Por um lado, se tudo isto fosse revisto, o futebol voltaria a ser mais igualitário  mais justo, mais divertido. Mas aos grandes isso não lhes interessa nada. O caminho é o oposto, aumentar ainda mais os desafios aos pequenos, roubando-lhes os melhores jogadores sem limite (mesmo que seja para preencher o banco), pagando-lhes fortunas impensáveis, ficando com números impensáveis de pagamentos por parte da UEFA e do império televisivo que vive à sua sombra. Acabar com a co-propriedade é só facilitar que os James, Jackson, Moutinho, Alex Sandro, Fernando, Danilo sejam suplentes do PSG ou do Shaktar em vez de serem jogadores do FC Porto.

É mais um golpe baixo e sujo, mais uma jogada muito bem pensada por parte da elite europeia. A tornar-se real - e ninguém duvida que Platini tem o poder necessário para lográ-lo - poderia ser também o fim do FC Porto como um potentado europeu. E talvez o fim do profissionalismo, tal como o conhecemos, do futebol do sul da Europa. Estejam atentos!

sábado, 17 de novembro de 2012

A dupla James e Jackson


James e Jackson. Esta dupla de internacionais colombianos tem andado nas bocas do Mundo e, entre jogos do FC Porto e da Selecção da Colômbia, pode-se também dizer que tem andado numa roda viva, com jogos, deslocações e muitos minutos nas pernas.

É indiscutível o peso que esta dupla tem tido no FC Porto 2012/13 e, se olharmos para a sua utilização (ver quadros seguintes), verificamos que qualquer um deles tem sido quase insubstituível.



E porquê?
Bem, por boas e más razões.
Comecemos pelas boas. À sua conta, já levam 18 golos marcados (7 de James Rodriguez e 11 de Jackson Martinez) esta época em jogos oficiais do FC Porto (e nenhum foi contra "adversários menores" em provas secundárias, como a Taça de Portugal ou a Taça da Liga).
Mas, por outro lado, se Vítor Pereira quiser gerir a sobrecarga competitiva destes dois jogadores ou se, por lesão ou castigo, tiver de recorrer a outros jogadores, que alternativas existem no plantel portista para James ou Jackson?

Imagens: ojogo.pt, zerozero.pt

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Um fim-de-semana em pleno



Nada mais saboroso. Foi de barriga cheia que o FC Porto mandou os seus adeptos para fim-de-semana depois aviar o Marítimo com cinco golos sem resposta. Uma exibição de grande qualidade onde Jackson – pois, claro – e James Rodriguez bisaram, coroando boas prestações ao longo de todo o encontro. Pinceladas individuais a dar brilho à força do colectivo, essa sim, a maior estrela da noite. Tudo “quase” perfeito, não fossem as arreliantes lesões.

E que melhor encanto quando um jogo começa com golos? Ritmado e forte, a equipa azul e branca pautou o seu jogo sem disposição para dar tréguas ao seu adversário. O conjunto insular pouco resistiu e sucumbiu. Em quatro minutos Jackson Martinez fez a rede dançar finalizando um sublime ensaio colectivo. O primeiro de muitos. De trás para frente Moutinho trouxe o esférico até James até o delegar ao testemunho final. Um rendilhado fantástico que resultou numa fabuloso golo.

O Marítimo organizava-se em linha no seu reduto defensivo. Ensaiava a tentativa de deslocação dos avançados portistas mas, invariavelmente, via-se quinado da sua própria estratégia e pela velocidade elevada que a nossa equipa imprimia. Entre foras-de-jogo na nesga e outros que nem o foram o avolumar do marcador pressentia-se próximo. E assim foi, para lá da meia hora de jogo, num pontapé certeiro – é que pontapé – de Varela.

Um momento de felicidade que contrastava com a agonia dupla vivida momentos antes. Em cinco minutos Vítor Pereira viu-se privado de Fernando e Maicon com mazelas que geram incógnita na deslocação a Kiev. Resquícios de problemas passados ou algo novo, não se sabe ao certo. Factual é este número exagerado de condicionamentos físicos e aquele relvado que levanta a cada embrulhar de jogadores e que nada contribuiu à boa saúde das suas articulações.

A 2ª parte trouxe mais problemas destes com Helton e Lucho metidos ao “barulho”, mas felizmente também nos deu mais do bom futebol que nos primeiros 45 minutos já se observara. Jackson voltou a engordar a sua conta pessoal e a cimentar a liderança dos melhores marcadores da Liga. Em ritmo colombiano James fez mais dois, completando uma mão cheia de golos o entusiasmo com que o bicampeão nacional trilhava o seu jogo.

Ao sentimento do dever cumprido juntou-se o consolo de uma exibição conseguida. Um encontro que agradou a todos – jogadores e adeptos -, porque tudo se torna mais fácil quando se joga futebol com paixão e sem rendilhados. Este grupo alimenta-se do colectivo onde o potencial individualista de Hulk parece já pertencer a um sonho que quase ninguém lembra. Agora não será melhor, nem pior. É apenas diferente. E que bom é o FC Porto rapidamente ter sabido encontrar esse caminho.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Pequenos apontamentos, oito jogos depois...



Oito jogos oficiais depois do início da temporada, num somatório de seis triunfos e dois empates e após a vitória no primeiro clássico da temporada, algumas nuances já se podem apontar a este FC Porto de Vítor Pereira, versão 2012/13. Diferente?! Nem por isso.

- Com a saída de Hulk aconteceu à equipa portista aquilo que praticamente ninguém vaticinara – nada de significativo mudou. Para o bem e para o mal, este Porto vem resolvendo os seus encontros na mesma cadência como quando o avançado brasileiro ainda por cá andava. Talvez mais assente num perfil mais colectivista e menos dado à espontaneidade vulcânica do jogador do Zenit, mas sem dar mostras de orfandade deste portentoso atleta.

- Estabelecer uma regularidade exibicional e intensidade competitiva ao longo dos 90 minutos das partidas continua a ser um empecilho árduo de resolver na nossa equipa. Este encontro com o Sporting foi eloquente nesse aspecto; Depois de 15 minutos iniciais muito fortes, a equipa fez um restante primeiro tempo amorfo e desconexo. Felizmente, no jogo de grau mais elevado da temporada até agora – PSG -, os jogadores nunca se abstraíram dos seus objectivos. Mas se queremos outros voos este aspecto tem de ser revisto rapidamente.

- E por falar em Liga dos Campeões, ao fim de duas jornadas e depois do mau agoiro da temporada passada, as perspectivas de atingir os oitavos de final são muito fortes. Ambos os triunfos foram seguros e indiscutíveis, onde vitória diante do milionário Paris Saint-Germain ofereceu um capital de confiança à equipa e adeptos que poderá ser decisivo.

- James Rodriguez, naturalmente, tornou-se na coqueluche da equipa. Todo o seu virtuosismo ficou bem explanado no golo marcado no mais recente encontro da Champions. Entre as faixas laterais ou no meio, o colombiano tem dado um contributo importante no trajecto que a sua equipa tem feito. Vítor Pereira não o quer ver fixado ao meio, mas a fragilidade da maioria dos adversários da Liga Portuguesa bem lhe pede que James apareça por lá mais vezes.

- Continuando nas análises individuais, o reforço do FC Porto mais caro deste defeso, Jackson Martinez, vai valendo o investimento. Cinco golos já leva no campeonato, alguns deles de belo efeito. Segura e domina a bola com facilidade, que é condição fundamental para um avançado jogar de costas para a baliza e em apoio com a sua equipa. Interage bem com os seus companheiros, apenas lhe faltando ser mais espontâneo em alguns momentos de finalização. Por agora, promete.

- Sendo o balanço até agora positivo, ainda várias dúvidas se levantam nesta equipa. Conseguirá Vítor Pereira elevar a fasquia exibicional dos seus jogadores? Irão eles corresponder-lhe? Varela vai continuar a fazer apenas um jogo bom em cada dez? Não será Atsu, actualmente, melhor do que ele? E porque não aproveitar Danilo, de quando em vez, no miolo do terreno? E agora, que Alex Sandro se lesionou, irá novamente Mangala para a uma posição onde claramente não se sente à vontade? E serão estas lesões musculares um fenómeno estranho a ter seguimento?

sábado, 6 de outubro de 2012

James na posição 10

 
 
«A troca de Varela por Atsu pareceu injusta para o português, dos melhores em campo. Mas Vítor Pereira acabou por ter razão em acreditar num momento de inspiração de James (que passou a ocupar uma zona mais central, porque Defour foi para a direita). Mas aquele remate certeiro e de classe não teria sido possível sem a diagonal que permitiu a Moutinho cruzar.»
Bruno Prata, PUBLICO, 04.10.2012

My name is Rodriguez, James Rodriguez

sábado, 22 de setembro de 2012

Com um "Bandido" à solta



Foram quatro golos por outros tantos homens mas bastou apenas um deles para desbaratar a teia aveirense que Ulisses Morais teceu em volta da baliza de Rui Rego. O extremo, que na realidade é um playmaker de luxo, James Rodriguez, multiplicou aos seus companheiros o caminho para golo. Serviu, marcou e reinou num jogo onde o FC Porto goleou de forma fácil mais uma medíocre equipa do nosso campeonato. Às vezes torna-se difícil "arranhar" motivação para enfrentar adversários destes.

E cedo se percebeu o que esta partida tinha para oferecer. Um visitante acanhado para um dragão mandão. De bola parada saíram os primeiros frissons do estádio com o guarda-redes oponente a corresponder positivamente. Domínio evidente apenas mergulhando em lume brando nos vinte minutos subsequentes. Nada de grande alarve, pois aqui e ali, surtiam uns pequenos ensaios tentadores. Faltava o génio dos grandes talentos para timbrar estas iniciativas sem rótulo.

Mais encostado ao seu companheiro de área, James foi tentando até finalmente combinar em pleno com os demais parceiros de ataque. Assim, nessa sua visionária missão, serviu Jackson Martinez para um grande golo e, nem muito tempo depois, triangulou de modo perfeito com Varela que dobrou a contagem. Em meia dúzia de minutos o colombiano partiu a loiça, viu os seus companheiros a darem sequencia a tudo de bom o que seus pés desenharam e o Porto foi a descanso, tranquilo e feliz.

Ao regresso, e logo de entrada, veio a retribuição ao miúdo. Varela cruzou com James a rematar enroscado fazendo a bola rodopiar até ao fundo das redes de Rui Rego. E aí vão três, que fácil é ganhar neste campeonato português. Culpa a nós não vem, se aos outros pouco ou nada tem.

Quarenta minutos faltavam até que o Sôr árbitro nos mandasse ir ver a Casa dos segredos com este jogo que já não come nem dá de comer, venha de lá, pois, esse Iturbe que tanta tinta escorreu nestes jornais lusitanos de lana-caprina. Calma, primeiro o que é da nossa horta. E só depois o “Messi”, ou qualquer coisa parecida com isso. O povo gosta destes bolos, mas eu cá me diverti mais com paulada de criar bicho que Mangala arreou todo o santo jogo.

Vá de retro mau feitio, que hoje mais uma goleada se deu, Maicon pôs as contas na ordem e quem agora se vem lembrar de Hulk com este futebol positivamente mais colectivo? A missão foi cumprida com total e inteiro sucesso. Aí vão dez pontos no saco e muitas – boas – interrogações para Vítor Pereira deslindar. Quem vais tu tirar para lá no meio James colocar?

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A Lei do mais forte



É sempre muito bom, seja em que circunstância for, somar três pontos numa competição de nível tão elevado como é a Liga dos Campeões. O 0-2 definido já bem perto do final espelha melhor a décalage entre a equipa da casa e campeão português. O conjunto azul e branco esteve muito longe de fazer uma exibição de gala. Bastou-lhe gerir a posse de bola com segurança e ir aproveitando as fragilidades evidentes do setor recuado do adversário croata. Vitória saborosa, pois claro. Mas, por aquilo que se viu, tinha de ser obrigatória.

Com efeito, este Dínamo de Zagreb não demonstra melhoras da paupérrima prestação da Champions da temporada passada. Pouca capacidade na posse de bola e demasiada tremedeira ao sair da sua área cristalizam as limitações desta equipa sem andamento para esta competição. Vítor Pereira, mesmo assim, não facilitou e respeitou o adversário. Sinal claro através da inclusão de Miguel Lopes à direita, privilegiando a robustez defensiva. O português cumpriu e integrou-se em manobras ofensivas sempre que solicitado.

Bem cedo a equipa azul e branca chamou a si a condução do jogo. Num ritmo sempre pausado o FC Porto circulava a bola de forma confortável perante a inépcia pressionante adversária. James e Varela fletiram muitas vezes das laterais para dentro afunilando a construção portista. Mas, curiosamente, eram mais perigosos e desequilibradores quando alargavam o jogo pelas suas alas. Alex Sandro, o outro defesa lateral, foi igualmente importante nestas manobras.

Se ao domínio do encontro já nada faltava para os comandados de Vítor pereira fazer o que queriam, pecava a equipa nos poucos lances de finalização que criava. James ainda tentou fora de área uma vez e depois veio o brinde de Kelava onde Jackson Martinez resvalou para o lado anedótico do futebol. Sem tempo para a merecida risada – ou insulto de todo o dragão que se preze, Lucho deu vantagem às nossas cores, na sequência de um bom “raide” de Alex Sandro até á linha final. O capitão corrigia o que deveria ter sido confirmado pouco antes.

Ao regresso das cabines as bases do encontro foram-se mantendo inalteráveis, num domínio portista total, sem um perceptível incómodo dos homens da casa. Até ao minuto 65 tudo era simplificado e fácil de ordenar. Uma letargia que quase contagiou o dragão, passando depois por um par de sustos quando o discernimento se toldou, o Dínamo acelerou e nosso meio campo se perdeu. Helton foi resolvendo sempre com muito acerto e ainda lançou dois contra ataques venenosos.

Ainda assim durou pouco a investida croata. Em pouco mais de dez minutos o entusiasmo caseiro afrouxou e a crença na reviravolta no resultado era quase nula. Cristian Atsu, pouco incomodado com os humores do adversário, lançou-se ao ataque do golo da tranquilidade. Com uma bela arrancada e um passe certeiro pôs Defour à mercê do golo que viria a selar o resultado final. Finalmente, mais folgado, como poderia e deveria ter saído, mais cedo.

domingo, 2 de setembro de 2012

Respirar fundo antes de voltar a sofrer...



Uma verdadeira montanha russa de emoções. Depois de se ver nos primórdios do encontro em desvantagem no marcador o campeão nacional foi capaz de fazer uma reviravolta assertiva sob a batuta de um “bandido” colombiano. Num ocaso que parecia tranquilo, Targino pôs a equipa azul e branca em estado de alerta quando o seu meio-campo perecia como uma manta de retalhos incapaz de suster o equilíbrio de um jogo que num ápice se tornou incómodo. Vitória justa, mas desnecessariamente tremida, num batateiro inqualificável.

Aos 72 minutos, quando Hulk fuzilou as redes de Ricardo no terceiro tento portista da noite, a história do jogo ficou definitivamente sentenciada. O que Vítor Pereira não previu foi a perda de Defour na sua zona intermediária, isto depois de já ter retirado para os aposentos Lucho Gonzalez. O miolo portista perdeu preponderância e controlo sobre o jogo, tornando os 7 minutos finais num calvário para o qual já ninguém estava preparado. Foi azar perder o médio belga por lesão. Mas foi pouco ajuizado retirar “El Comandante” mais cedo quando o estanque Fernando por lá não morava.

Enfim, sofrimentos de última hora à parte, que ficam sempre mais retina, houve felizmente muita matéria que nos faça merecer um sorrir. Inevitavelmente com James Rodriguez logo à cabeça. Transcreveu em prática um agitar de encontro que parecia querer nos fugir. Futebol prático, circulado e de passe bem medido, tudo o que a equipa não tinha e que felizmente Vítor Pereira descortinou necessário impregnar sem ter de aguardar pelo intervalo da praxe. Uma proatividade que só lhe fica bem.

Era certo que o FC Porto dominava - fê-lo desde cedo – mesmo que enrolado naquele jeito repelão e pouco corrido, tantas vezes já revisto noutras batalhas. As finalizações saíam de forma esporádica e bolas paradas sempre na miséria que se lhe reconhece. A compor o ramalhete Alex Sandro faz um erro de palmatória com um passe transviado a meio terreno oferecendo a vantagem aos homens de Olhão. Assustado o dragão só se recompôs quando o miúdo James veio a jogo. Catapultou para frente os seus companheiros e fez o empate. E que chapelada!

Mais animados com a ponta final da 1ª parte o campeão nacional aproveitou o embalo para arrumar a contenda. Numa bola metida a régua e esquadro pelo “dínamo” de serviço, Jackson Martinez sentou Ricardo para a reviravolta já merecida. Era o período onde domínio se sentia por inteiro e onde o dilatar do resultado chegaria não muito depois. Tudo aparentemente sob controlo… Não recalquemos, pois, a tremedeira final. Meritoriamente induzida pelos comandados de Sérgio Conceição. Mas não a ponto de merecer roubar os 3 pontos à nossa equipa.

sábado, 3 de março de 2012

A revolta dos predestinados


De entre todas as supremas subtilezas, aquela que mais fundo toca no adepto de futebol está no derrubar da guarda em território rival. Esta noite o FC Porto voltou a elevar esse desígnio aos púlpitos dos Deuses pela terceira vez consecutiva, mercê de uma reviravolta “in extremis”, a passos largos do cair do pano. Num jogo de domínios repartidos e de alternâncias no marcador, sobressaiu aquele miúdo Colombiano que atravessou o Atlântico a correr e o central de peito feito revogado à condição de lateral, que em nada condicionou a sua crença imensa na vitória.

Se melhor antídoto alvitrasse, Hulk, no seu jeito imprevisível, não foi de modas e incendiou um jogo já de si bem quente. Uma bomba fenomenal numa diagonal de marca própria e registada colocou o Dragão na frente, materializando o desejo azul e branco nos primórdios do encontro. Contrariamente ao que seria expectável, a vantagem não fez luz e serenidade à nossa equipa, entregando o domínio das operações ao adversário, regredindo a um princípio de jogo básico, fatal e pouco cerebral, onde as perdas de bolas constantes e faltas em zona proibida puseram em xeque as redes de Helton.

O previsível empate tornou-se numa certeza antes do intervalo, e pior cenário se montou quando Cardozo, no recomeço do 2º tempo, pôs em vantagem o conjunto sitiado lá mais ao fundo do mapa Lusitano. Era a materialização da incapaz fórmula portista em gerir o encontro. Tal acossamento resultante da desvantagem fez vislumbre nas ideias de Vítor Pereira, restaurando, finalmente, a ordem de todas as coisas. A recolocação de Maicon a central e, sobretudo, a chamada ao jogo de James Rodriguez, catapultou o FC Porto para a “remontada” final.


Houve, na 2ª parte, um antes e um depois de James. Aquele predestinado da bola recolocou o Dragão na órbita dos princípios que balizam a construção ofensiva de uma equipa. A sua magia tecida dos seus pés aliada a uma visão que encurta linhas, fê-lo tricotar a meias com Fernando o princípio da estocada final. A igualdade no marcador esbatia o odor de desonra, mas não sossegava o espírito sofredor do adepto num jogo tão intenso e desconcertante.

A expulsão justa de Emerson constituiu uma janela de oportunidade para a equipa de Vítor Pereira ir em busca do triunfo. E esta não se fez rogada. Nem sempre com o melhor acerto ou a mais cristalina clarividência, o FC Porto recostou a agremiação local à sua área residente, levando-a a perecer através do mesmo veneno que nos havia servido no primeiro tempo. Maicon, com uma cabeçada vigorosa a coroar uma exibição portentosa, fez a nação azul e branca rejubilar, com mais um arraial no palco que nos faz tragar mais e melhores recordações.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Angústias nas vésperas de um Clássico


Surpreendente, ou nem por isso, levando em conta o amadorismo costumeiro do dirigismo desportivo português, marcar o jogo mais importante do campeonato para uma Sexta-Feira, intercalado com compromissos das Selecções, já me fez dar mil e uma voltas à cabeça tentado perceber como isso promove a modalidade e vai de encontro aos melhores interesses dos seus destinatários, os adeptos. O alegado chico-espertismo galináceo a meu ver não cola, pois só estão a fazer aquilo que nós também faríamos, defender os respectivos interesses. A falha está na desconexa regulamentação da Liga, que tem como legisladores os seus clubes, todos eles dados a estas manobras de vão de escada e pouco claras. Não será altura da FPF chamar a si o poder de impor as regras sem estas palhaçadas?

Com este corrupio de jogadores para cá e para lá, ficou o FC Porto refém das vontades de Pékerman e das companhias aéreas para que disponha a tempo e horas do grande jogo o seu mais virtuoso e importante atleta do momento, James Rodriguez. Não será tanto o desgaste físico de dois jogos em menos de 48 horas que afectarão um jovem jogador na flor da idade. Mas as longas viagens e o jet-lag provocarão certamente mossa na disposição e concentração do atleta na hora de encarar este desafio.


Por incrível que possa parecer, a provável nomeação do benfiquista Pedro Proença para o Benfica - FC Porto é a melhor escolha possível entre o pobre lote de disponíveis. Não obstante da sua cor clubística, é um árbitro que vem demonstrando competência suficiente nas suas actuações e não esconde a cara quando assim não acontece. Isto não invalida que não possa trocar os pés pelas mãos neste importante encontro, dando trunfos às sanguessugas da comunicação social – esses seres que nunca erram - sempre tão sedentas de picar tudo o que se mexe. Dê por onde der, o homem terá uma pressão grande sobre os ombros, e pessoalmente não gostava de estar na posição dele.

As escolhas de Vítor Pereira para este encontro não deverão fugir muito da sua linha habitual. Para além da perda do seu recém fetiche – Varela – onde deverá regressar o seu anterior fetiche – Djalma – em pouco se diferenciará a estrutura da equipa. Isto porque já dou de barato a não titularidade de James. A manutenção de Maicon no eixo da defesa parece-me ser mais fiável no momento em detrimento do ultimamente lento e apático Otamendi. E o bom jogo aéreo do central brasileiro poderá ajudar a dar frutos como deu na última jornada. Reze-se às alminhas para que aquele meio campo faça aquilo que sabe – e é capaz de muito num dia sim – sem cair em gafes que em jogos destes se dispensam. Por último, que Vítor Pereira se inspire na história e personalidade singular do nosso clube, ganhe cagança e faça um discursos assertivo, cativante e cheio de ambição aos seus jogadores, levando-os a crer e acreditar, nem que seja só desta vez, que navegam num barco com um timoneiro que lhes aponta a rumo e sabe o que quer!