«A Liga espanhola está centrada no Barcelona e no Real Madrid, por isso seria inteligente encontrar uma fórmula para a criação de uma Liga de estados ibéricos», afirmou Laporta, em declarações prestadas à Antena 1.Joan Laporta, ex-presidente do Barcelona
El Barcelona podría jugar la Liga que le gustara más. Pero yo creo que en este punto no habría duda de que jugaríamos la liga de la Península Ibérica, o la LFP, y jugaríamos contra los rivales habituales”.Josep Bartomeu, vice-presidente Barcelona
Os eleitores catalães foram às urnas no passado domingo como nunca na sua história.
Viveu-se o maior registo de participação desde a queda do regime franquista e a maioria clara dos votos foram entregues a partidos que defendem a realização de um referundum que proponha a separação da Catalunha do resto de Espanha.
Apesar da derrota do partido que estava no governo - e que liderou a campanha independentista - o conservador CIU, os partidos de esquerda que apoiam a separação do estado catalão triplicaram a sua votação e garantem essa maioria necessária. Sem saber o que esperar nos próximos meses, os adeptos do Barcelona continuam a debater sobre onde deveria jogar o clube blaugrana em caso da improvável independência se tornar numa realidade.
Actualmente manejam-se três cenários (um quarto, que o Barça jogue na Ligue 1 é meramente retórico), para essa situação que incluiria igualmente o Espanyol e em menor medida o Nastic de Tarragona e o Girona, os outros dois clubes catalães que disputam a liga profissional mas no segundo escalão.
1) Que tudo fique na mesma e os clubes catalães joguem na liga espanhola, como sucede com o AS Monaco em França ou com o Swansea e Cardiff City em Inglaterra.
2) Que se crie uma liga própria, exclusiva para clubes catalães, emulando uma competição que já existe, a Copa Catalunya, dada a rejeição de muitos espanhóis em receber os dissidentes.
3) A criação de uma Liga Ibérica.
Enquanto o segundo ponto é o mais improvável, algo que a directiva do clube já se manifestou abertamente contra, consciente da insignificante realidade do futebol catalão para formar uma liga própria que seria muito inferior, por exemplo, à da Escócia, a grande polémica está entre os pontos 1 e 3. Ambos têm defensores e detractores com influência institucional e espelham bem o mosaico complexo que vive a sociedade espanhola.
Os mais radicais independentistas querem cortar todos os laços institucionais com Espanha e por isso, na impossibilidade lógica de ter uma liga própria, apenas aceitariam jogar com os clubes do país a que pertencem actualmente se essa prova incluísse também outros povos ibéricos, ou seja, nós.
Essa é a filosofia de Laporta e do laportismo, uma facção fortíssima entre os adeptos blaugranas e uma ideia que foi muito aplaudida nos sectores mais radicais durante a campanha eleitoral. Laporta prepara-se para voltar a disputar a presidência do clube e foi deputado independentista desde que abandonou o clube, e foi o primeiro, em 2009, a defender a ideia de uma Liga que reunisse os clubes catalães, vascos, galegos, espanhóis e portugueses, numa prova a 18 clubes. Convidaria o FC Porto, SL Benfica, Sporting de Braga e Sporting CP para juntar-se a Barcelona e Espanyol e 12 clubes mais espanhóis, entre bascos, galegos, andaluzes, valencianos ou castelhanos.
Essa liga tem sido um projecto utópico discutido - como o iberismo em si - desde há vários anos por vários intelectuais e pensadores do jogo na Península Ibérica. Muitos defendem a ideia como tábua de salvação financeira para os clubes portugueses, presos numa liga sem receitas e sem rivalidade para lá do top 4. Seria um torneio que agradaria a todos, já que a imprensa espanhola acredita que os clubes portugueses não aguentariam muito tempo na elite e acabariam por diluir-se na 2º divisão, a Liga Adelante, mantendo o status quo.
No entanto, essa pseudo-liga ibérica não deixa de ser uma tremenda utopia perfeitamente irrealizável.
Nunca teria o selo da UEFA - que de o permitir abriria a porta para o fim da sua base de apoio legal, o federalismo nacional - e o exemplo das propostas do Celtic e Rangers de juntar-se à Premier - rejeitadas - já o deixa antever.
Mais realista seria o ponto 1, emulando o que já acontece com clubes do Pais de Gales (o Swansea é o caso mais evidente) ou com o próprio AS Monaco, que actuam nas ligas profissionais inglesas e francesas, respectivamente, precisamente porque não há condições para subsistirem numa liga autonómica independente. Além do mais, ninguém, nem em Madrid nem em Barcelona, está disposto a viver sem os inevitáveis Clásicos anuais, o verdadeiro termómetro emocional do futebol espanhol. As directivas de ambos os clubes conhecem o impacto financeiro que esse duelo tem nas contas dos clubes e na sua imagem a nível mundial e seriam incapazes de abdicar dessa mais valia apenas por questões políticas.
No caso dos clubes portugueses, restará a possibilidade de melhorar as condições existentes na Liga ZON Sagres, seja pela renegociação dos contratos televisivos, a aposta na formação local e o ajuste dos preços dos bilhetes para manter longe o espectro dos estádios vazios. Porque sonhar com disputar o título ibérico com Real Madrid, Barcelona, Valencia ou Atlético de Madrid é apenas um sonho de impossível realização.

