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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A moralidade do FCP e a France2

Quando os jornais e as televisões portuguesas publicam artigos e reportagens sobre o FC Porto, o adepto azul-e-branco raramente espera algo positivo. É uma marca que vem de há muitos anos. A Bola, o Record e até O Jogo têm sido veículos predilectos para muitos interesses que estão por detrás de alguns dos capítulos mais desagradáveis do nosso futebol. A juntar a isso a tendência centralista e especulativa de alguma imprensa mainstream - e a falta de uma resposta à altura da imprensa regional e local, PortoCanal incluído - permitiu criar esse ambiente. Ou seja, para o adepto do FCP, uma má imagem do clube destas fontes vale pouco. Mas e se essa má imagem vem de fora, pensará o mesmo?

O canal francês France2 emitiu uma reportagem fabulosa sobre os podres do futebol mundial.
Uma dessas reportagens de investigação ao nível de programas como o Panorama da BBC - responsável por desmontar a corrupção da FIFA e do COI, por exemplo - e que analiss em detalhe a partir de uma perspectiva local para o espaço global como o futebol é hoje um negócio gerido por figuras perversas e que actuam nas sombras enquanto os adeptos se distraem com os jogos, os títulos, as desilusões. O trabalho jornalístico é de primeiro nível e a reportagem está a ser citada na imprensa de todo o Mundo como mais um exemplo de jornalismo de alto nível. Lamentavelmente para o FC Porto. Depois da emissão desta reportagem a nossa imagem pública internacional está bastante mais afectada.



Durante meia-hora o FC Porto é utilizado como exemplo para explicar como os fundos de investimento controlam hoje jogadores em todo o Mundo e, com eles, aumentam os seus interesses no desenrolar da temporada futebolística. O pretexto é o caso Mangala, internacional francês.
Podiam ter escolhido vários clubes na Europa. O FC Porto não é, de longe, o único que trabalha com fundos. Mas tem-no feito com regularidade e com sucesso nas vendas (aumentando as receitas de rentabilidade dos mesmos fundos e alguma inveja alheia, convenhamos) e o facto de contar com um internacional francês e ser presença regular na Champions League (e no vocabulário habitual do adepto do futebol) torna-o um alvo perfeito.
A reportagem analisa a forma como Mangala chegou ao FC Porto e o seu passe foi, meses depois, vendido a um fundo (33,3%, o mesmo valor de Defour que não entra nestas contas) o Doyen Group. Um fundo que ninguém sabe de quem é e que se dedica a tudo menos ao futebol. Os relvados servem, sobretudo, para a lavagem de dinheiro. Mais ainda, o programa destapa que o FC Porto deu - repito, DEU - 10% da receita de uma futura venda do francês a um grupo também desconhecido que, resulta, pertence a Luciano D´Onofrio, um empresário belga muito conhecido cá no burgo e tão exemplar que a própria FIFA - que não é propriamente flor que se cheire - o baniu de ser um agente oficial. Ora é fácil fazer as contas. Se Mangala sair por 30 milhões do FC Porto, 3 milhões são de Onofrio. Seja essa percentagem uma comissão que não podia ser paga legalmente (o que nos leva à pergunta, porque negoceia o FCP com agentes ilegais e sabendo-o não pode ser isso um eventual delito?), um favor antigo retribuído ou, pura e simplesmente, porque Luciano é um velho amigo de alguns membros da cúpula directiva do clube, o facto é que há 10% de um dos nossos melhores jogadores que não é nosso não porque tenha sido vendido mas sim dado. A um homem que, curiosamente, era o director-desportivo do Liege quando o mesmo jogador foi vendido. A palavra "suborno" poderia ser utilizada? Algum advogado seguramente não teria problemas em demonstra-lo!  Parece-me um dado suficientemente preocupante para alguém, de forma oficial, o venha a esclarecer.

Claro que a reportagem não fica só aqui.
Com imagens do Porto, do Dragão, do Olival, o FC Porto transmite também uma imagem de inflexibilidade que soa claramente a receio de que se descubram coisas que alguém não quer que sejam públicas. A meio de uma entrevista com o próprio jogador - que confessa que nem sequer sabia que 10% seus pertenciam a D´Onofrio e 33% à Doyen - a responsável de comunicação do clube proíbe-o de falar do seu próprio passe e contrato com o jornalista. Ante a sua estupefacção - a do jornalista, claro, porque o Mangala mostra-se obediente como não se esperaria outra coisa - a desculpa é que no FC Porto só os dirigentes falam de negócios. Algo entendível se o jornalista estivesse a pedir ao seu compatriota que comentasse a política de contratações do clube, o salário de um colega ou o valor de um negócio realizado no defeso. Mas a conversa com Mangala era sobre Mangala. E o jogador do FC Porto descobre que está proibido pelo clube para falar de si mesmo. Jogadores como gado podia dizer-se, jogadores como mercadoria como o próprio Mangala confessa. Nada mais.



No decorrer do trabalho fica claro que o FC Porto não comete nenhuma ilegalidade.
O próprio secretário-geral da FIFA, Jerome Valcke, confessa-o. Há demasiados buracos na legislação para poder castigar o clube ou o jogador. É a Doyen e, em maior medida, o próprio D´Onofrio, quem se movem em águas turvas neste negócio (como em tantos outros). Mas basta um pequeno ajuste legal e, de repente, negócios como este (e como tantos outros que fazemos) podem cair num buraco legal perigoso que homens como Platini (que também aparece em cena) poderiam aproveitar para aplicar uma jeitosa suspensão como a que já está a ser colocada em prática com clubes turcos ou em casos que envolvem o Financial Fair Play. Sem cometer nenhum crime legal parece-me evidente que, ao longo de trinta minutos, qualquer espectador deste documentário ficará com uma imagem do FC Porto como um clube que ultrapassa todos os códigos morais e éticos.

Comercializar com fundos, em vez de clubes. Oferecer percentagens de jogadores grátis a empresários que estão banidos pela própria FIFA. Proibir os jogadores de falarem do seu próprio contrato e da sua situação contratual com a imprensa do seu país. Comprar jogadores por inteiro para vendê-los às fatias. Tudo atitudes da SAD que tenho criticado habitualmente aqui e que agora são reflectidas na imprensa internacional com a isenção que sabemos que nunca vamos encontrar em Portugal. O clube que por um lado impressiona pela qualidade das suas vendas - protagonista de duas séries especiais com a Marca - é agora também o clube que desilude pelos seus métodos de compra, venda e as suas amizades perigosas.

Entendo que o FC Porto SAD deva realizar uma operação de charme na imprensa europeia porque reportagens como esta valem tanto para o público europeu como uma vitória contra o Paris Saint-Germain. Vender esta imagem, lá fora, onde se tomam as decisões importantes, é algo que devemos evitar. Que em Lisboa digam o que quiserem, isso já nem nos afecta (nem devia afectar). Que o digam em Paris ou, eventualmente, em Londres, Berlim ou Roma é outra história. Não somos o único clube do Mundo que se move em areias movediças, longe disso. Não somos nem os mais podres, nem os piores, nem os mais "mafiosos", nem os que manobramos amizades mais perigosas e muito menos os que temos o hábito de anunciar que vendemos jogadores que afinal continuam a ser nossos. Nem de longe nem de perto. Temos comunicados relativamente transparentes, temos o hábito de revelar que percentagens temos e a quem (e por quanto) vendemos o que não temos e isso é de louvar. Mas talvez não seja a transparência ou não o problema.

Tal como defende a reportagem - e eu subscrevo - o problema não é legal. É moral. A partir de aí entra a percepção de cada adepto. Pode haver os que entendam que é normal que o FCP tenha esta atitude. Pode haver até os que achem que não só é normal como desejável. Entendo também que exista gente que não gosta mas se resigna. O clube é de todos e a imagem manchada de um clube mancha a todos os seus adeptos. E tudo pela nossa forma de fazer (muitos) negócios. Para mim, a moralidade da gestão do FC Porto em muitos negócios deixa muito que desejar. E não é essa a imagem que eu quero que o Mundo tenha do meu clube quando há tantas coisas boas que podemos reivindicar como a nossa verdadeira imagem de marca.


PS: Para os que sabem francês, aqui podem ver o documentário completo. A parte afecta ao FC Porto arranca ao minuto 33 e prolonga-se até à hora e dois minutos de exibição.