Parece evidente que a temporada 2014-15 do FC Porto em campo tem quatro nomes próprios.
Jackson Martinez continua a demonstrar sem um avançado de excelência mas deve estar de saída. Um "pacto de cavalheiros" assinado no passado Verão, como sucedeu com Deco, que o clube vai cumprir. Ruben Neves foi a grande revelação e tem um futuro imenso pela frente, que a sorte o acompanhe contra as lesões. Brahimi foi a grande contratação do ano. Os primeiros quatro meses do argelino foram imensos. O jogador não teria chegado ao clube sem o apoio da Doyen e a mediação de Jorge Mendes e irá quando estes quiserem. É algo que o clube tem perfeitamente assumido. E depois, depois está Oliver Torres.
Oliver chegou emprestado em Julho. Um empréstimo de apenas uma temporada como petição expressa de Julen Lopetegui, treinador que o conhecia bem das camadas jovens do futebol espanhol, onde foi seu treinador. É uma das maiores pérolas do futebol europeu na sua posição. Com 19 anos é mais um nessa escola de "bajitos" como Xavi, Iniesta, Isco, Mata, Silva, Cazorla, Dennis Suarez e companhia. Um talento fora de série que a primeira parte da época confirmou. Naturalmente houve altos e baixos, o mais normal do mundo num jogador com menos de vinte anos que teve, em alguns casos, de jogar fora da posição medular. O FC Porto tinha o seu próprio "Oliver", Tozé, que continua emprestado e a dar boa conta do recado no Estoril mas o espanhol é um jogador mais fino, menos vertical e com melhor toque de bola. Para o modelo de jogo de Lopetegui era o eixo perfeito entre a classe de Brahimi, o estilo de jogo de Jackson e a visão de Ruben Neves. O eixo nuclear da equipa.
O médio espanhol chegou com empréstimo de um ano. O FC Porto quer algo mais. E pode ser que aquilo que até há uns meses era impossível possa mesmo suceder.
Porque Oliver tem um problema, um problema chamado Simeone. O treinador argentino é actualmente o senhor indiscutível do Atlético de Madrid. Nada sucede na área desportiva do clube sem o seu consentimento. Foi o responsável por lançar Oliver ás feras, o seu primeiro defensor. Mas Simeone sempre olhou para o "bajito" com suspeita. Via-o muito técnico e com pouca intensidade fisica para se adaptar ao seu estilo de jogo, um estilo que todos sabemos como funciona. Pressão alta de um meio-campo fisicamente possante e com boa visão de jogo, transições rápidas, muitos jogos decididos a bola parada. Nesse esquema Oliver conta pouco. Tanto que o técnico preferiu em Dezembro do ano passado, em plena luta pelo titulo - que ganhou - e pela Champions - que perdeu na final - enviar o jogador para o Villareal. Uma escolha com sentido. O clube levantino tem um modelo de jogo radicalmente diferente do praticado pelo Atlético, muito mais parecido ao de Lopetegui. Oliver foi e quem ficou na primeira equipa com minutos de jogo acumulados foi o pequeno Saul, um jogador da sua geração, igualmente talentoso mas muito mais do gosto de Simeone pelo seu trabalho sem bola. Saul é o elegido do argentino e o jogador que conta para assumir protagonismo no meio-campo. Oliver caiu lá para trás na sua lista de escolhas. Mas Simeone não é a única variante neste negócio.
Quando o Atlético de Madrid assinou com David Villa a principio da temporada passada por um valor irrisório, muitos ficaram surpreendidos. Na realidade os clubes chegaram a um acordo de cavalheiros em que os blaugrana tinham o direito preferencial sobre três jogadores da formação colchonera: o lateral Manquillo (actualmente no Liverpool) e os médios Saul e Oliver. O Barcelona tem direito de opção por um valor estipulado para cada jogador - no caso de Oliver ronda os 15 milhões de euros - e tinha três anos para exercer o direito de compra. Por um lado o clube blaugrana já tem em filas jogadores para essa posição como o já citado Dennis Suarez mas também Rafinha Alcantara e Sergi Robert. Por outro lado, e isso complicou muito as contas, a FIFA vetou o clube de acudir ao mercado de transferências. O Barcelona pode comprar mas não registar jogadores e isso esfriou o interesse do clube catalão nos jogadores do Atlético.
Por fim está a indefinição que um clube como o Atlético de Madrid sempre vive.
Simeone já avisou que, caso ganhe a Champions League ou repita triunfo na liga, sai do clube. Considera que cumpriu todos os objectivos e tem ofertas de Inglaterra (Liverpool) e Itália (Inter). Portanto nada será concretizado até Maio em entradas e saídas. Se Simeone ficar, os jogadores com que não conta num principio terão mais fácil decidir o seu futuro. É o caso de Oliver, que o clube não quer vender mas cujo prolongamento do empréstimo ao FC Porto ou a outro clube seria possível e desejável. Se Simeone for embora o desejo do clube é recuperar imediatamente o jogador salvo que o novo técnico diga algo em contrário. Por outro lado estão as saídas.
O Atlético é um clube vendedor e receberá ofertas sobretudo por Koke e Griezzman. No caso do espanhol a sua posição nuclear é similar à de Oliver ainda que o seu suplente actual seja Saul. Por outro lado Tiago - braço direito de Simeone em campo - está perto da reforma e Arda Turan tem ofertas para sair. O caso do turco é importante. Tecnicamente é o mais parecido que há no plantel do Atleti a Oliver. Mas Arda é um homem e Oliver um menino e Simeone valoriza essa diferença. Só há lugar para um jogador desse perfil na equipa. Estando o turco, o lugar é seu. O Atlético está pendente de ver se a estrutura da medular (quatro titulares aos que se podia juntar Mario Suarez também com ofertas de Itália) se mantém igual ou não e dependendo do que suceder valorizará recuperar Oliver Torres.
São muitos variantes ainda em jogo e é difícil que até Maio a situação se esclareça. Até porque ainda está o jogador. Oliver quer triunfar e muito no Calderón. A sua primeira opção é voltar e tentar demonstrar na pre-temporada a Simeone que cresceu. E é bastante possível que a pré-época a faça em Espanha. Salvo se Simeone é categórico com o jogador é que Oliver verá com bons olhos um novo (e último) empréstimo. E nesse caso o Porto terá sempre prioridade para o médio que conta com a confiança do treinador (e se Lopetegui sair é certo a 100% que Oliver não volta também) e a admiração dos colegas. Não é de descartar que o FC Porto guarda o ás na manga de recuperar um Oliver descartado por Simeone em Agosto e não desde o inicio do ano.
O que é certo é que actualmente há uma linha de diálogo aberta oficiosamente entre todas as vertentes desta equação, um diálogo que começou há alguns dias. A mediação de Mendes, como sempre, será fundamental. A sua influência nas mexidas dos colchoneros no mercado é mais do que conhecida e o FC Porto joga com essa carta. Mendes não é empresário de Oliver mas tem um papel chave neste (e noutros) negócios. O mais provável é que se estabeleça um acordo de cavalheiros em que nós tenhamos prioridade absoluta num novo empréstimo (nunca compra, repito!) e que o Atlético tenha até Junho para clarificar a situação com o Porto, o que não exclui o volte-face que mencionamos antes de um empréstimo express em Agosto.
Mas, se há um par de meses era impossível imaginar Oliver um ano mais, a prolongação do empréstimo é agora uma realidade cada vez mais lógico. Sem ser primeira opção do treinador (mas sim do clube que não considera vendê-lo ao FC Porto nem a outro clube, salvo oferta mirabolante superior aos 15 milhões de euros e com o OK do Barcelona) é perfeitamente possível que Oliver queira ficar. Dos negócios do Atlético, do destino e desejos de Simeone depende agora tudo. Até Junho muito pode passar mas Oliver pode ser perfeitamente o primeiro reforço para 2015-16.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
sábado, 17 de maio de 2014
Um treinador que faz a diferença
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| Atlético Madrid campeão de Espanha (fonte: Maisfutebol) |
17 de Maio de 2013. Final da Taça do Rei 2012/2013, entre as duas equipas de Madrid. O jogo foi disputado no Santiago Bernabéu e, também por isso, a constelação de estrelas sob a orientação técnica de José Mourinho era super favorita. Contudo, o Atlético não se deixou intimidar e, após 120 minutos, foram os jogadores superiormente comandados por Diego Simeone a vencer (2-1) e a erguer o troféu na casa do Real.
30 de Abril de 2014. 2ª mão das Meias-finais da Liga dos Campeões 2013/2014. Após um empate a zero no jogo da 1ª mão, Mourinho e Simeone voltam a encontrar-se. Apesar do jogo ser em Londres e do Chelsea precisar de ganhar, Mourinho adoptou novamente a "táctica do autocarro" e iniciou o jogo deixando no banco de suplentes Oscar, André Schürrle, Demba Ba e Samuel Eto’o. Contra a corrente do jogo, o Chelsea marcou primeiro, mas nem isso valeu aos comandados de Mourinho, porque a equipa de Simeone (a quem bastava um empate com golos), deu a volta ao resultado e venceu em pleno Stamford Bridge por categóricos 3-1.
17 de Maio de 2014. 38ª e última jornada do campeonato espanhol 2013/2014. Depois de várias vicissitudes, o FC Barcelona (2º classificado) recebia o líder Atlético Madrid no Camp Nou estando a apenas três pontos de distância e, por isso, bastava-lhe uma vitória para se sagrar bi-campeão de Espanha.
Os deuses da fortuna parecia estarem do lado da equipa catalã e, com apenas 22 minutos de jogo, já Diego Simeone tinha sido obrigado a queimar duas substituições, devido a lesões de Diego Costa e Arda Turan.
Sem praticamente nada ter feito para marcar, o Barça chegou à vantagem no marcador aos 34', através de um "remate impossível" de Alexis Sánchez.
Mas, mais uma vez, veio ao de cima a atitude competitiva, a garra, a raça, a alma deste Atlético de Simeone e os últimos 10 minutos da 1ª parte e os primeiros 15 minutos da 2ª parte foram impressionantes. Sinceramente, não me lembro de ver o Barcelona ser subjugado desta forma em pleno Camp Nou. No início da 2ª parte foi de tal maneira sufocado, que só conseguiu passar do meio campo aos 57 minutos!
O Atlético Madrid de Simeone fez hoje história no Camp Nou como, nos últimos 12 meses, já tinha feito no Santiago Bernabéu e em Stamford Bridge. Ou seja, nada disto foi sorte, nem foi por acaso.
18 anos depois, o argentino (*) Diego Simeone voltou a conquistar a Liga espanhola para o Atlético Madrid, clube que, 40 anos depois, volta a estar na final da principal competição europeia de clubes.
E Diego Simeone fez tudo isto tendo à sua disposição um plantel sem vedetas (não me consta que se tenha queixado de egos ou super-egos...), tendo ficado sem o seu jogador de referência – Radamel Falcao – transferido para o AS Monaco no Verão passado, o qual foi “substituído”, na missão de marcar golos, por um ex-jogador do SC Braga – Diego Costa – e com um plantel que inclui vários jogadores – Courtois (emprestado pelo Chelsea), Tiago (ex-Chelsea) e David Villa (ex-Barcelona) – que foram descartados por clubes que o Atlético Madrid derrotou ao longo da época.
A transformação do “Patético de Madrid” (um clube em pré-falência) numa das melhores equipas da Europa é obra de Diego Simeone e vem, mais uma vez, mostrar a importância decisiva de se escolher um treinador que, dentro de um determinado modelo de jogo, saiba potenciar as características dos jogadores que são colocados à sua disposição.
Não sei se este estrondoso sucesso será replicável noutros clubes, com outra cultura clubística, mas em Madrid, ao serviço dos colchoneros e com estes jogadores, Diego Simeone construiu uma EQUIPA com uma atitude e garra impressionantes e fez a diferença. E que diferença!
“Os aplausos dos adeptos [do Barcelona] coroaram um ano de campeonato grandioso de uma equipa [o Atlético Madrid] que sabe quais são os seus defeitos, que conhece as suas virtudes e que nunca deixou de lutar”
Diego Simeone, no final do FC Barcelona x Atlético Madrid
(*) Os três primeiros classificados do campeonato espanhol 2013/2014 - Atlético Madrid, FC Barcelona e Real Madrid - tinham treinadores estrangeiros (dois argentinos e um italiano).
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terça-feira, 1 de outubro de 2013
As infantilidades pagam-se caras amigos!
Na Europa os erros pagam-se caro. O FC Porto foi melhor durante 90 minutos mas isso não chega. As faltas sem sentido de Josué e Mangala permitiram ao Atlético vencer um jogo que os dragões tinham controlado desde o principio. Dois livres, dois lances estudados, anularam o grande trabalho colectivo dos azuis. Uma derrota amarga no Dragão, injusta por critérios futebolísticos mas natural entre uma equipa que sabe a que joga (e mesmo quando não joga, sabe como dar a volta à situação) e uma equipa verde, mentalmente, capaz de deitar por terra o excelente trabalho conseguido.
O Atlético não venceu por ser melhor. Venceu por ser mais inteligente. Venceu por saber resolver os seus problemas com engenho. Por estudar cada jogo com detalhe cirúrgico. E porque entre os erros infantis de Mangala e Josué e a eterna incapacidade de transformar a posse e as oportunidades em golos, condenou o FC Porto a ter de somar um duplo resultado positivo com o Zenit para seguir em frente. A liderança do grupo está praticamente fora de questão.
A primeira parte do jogo lembrou a excelente exibição dos dragões contra o Málaga, no ano passado.
Uma equipa confiante, autoritária, dominadora e desejosa de impor o seu modelo de jogo sob o rival. Foi o melhor FCP da era Fonseca, de longe. A equipa movia-se bem, era capaz de trocar a bola com segurança e dominava claramente os destinos do encontro. Simeone surpreendeu pela negativa, com uma equipa ainda mais defensiva do que se esperava, com Koke - o melhor jogador da equipa no último mês e meio, a par de Diego Costa, ausente por suspensão - no banco. No seu lugar jogou Leo Baptistão, uma jovem promessa brasileira, que passou totalmente ao lado do jogo. O Atleti foi mais defensivo e especulativo do que se podia esperar, sobretudo porque rapidamente os azuis e brancos os encostaram ás cordas e raramente os deixaram aproximar-se da baliza de Helton, um espectador durante quase todo o jogo.
Com Arda e Baptistão fora de jogo, Villa esteve demasiado só para criar perigo e Defour e Fernando entenderam-se perfeitamente com Alex Sandro e Danilo (excelente jogo) para apertar as linhas dos colchoneros para bem dentro da sua área. Aí começavam as combinações com Varela, Josué e Lucho. Entre eles cozinharam-se os problemas dos espanhóis mas, tal como tinha sucedido contra o Málaga, o domínio da posse de bola e a melhor qualidade de jogo não se traduziu em oportunidades de golo. O tento de Jackson Martinez - que continua a marcar, a marcar e a marcar - surgiu num lance pouco habitual, um livre bem estudado que apanhou desprevenida a defesa rival. Era um golo mais do que justo e que premiava uma excelente exibição colectiva.
O segundo tempo começou com outra dinâmica. E apareceram os erros que custaram a vitória.
Simeone abdicou do seu único avançado e lançou o Cebolla Rodriguez para povoar ainda mais o meio-campo. Com esse sopro de ar fresco o Atlético conseguiu, por minutos, o controlo do jogo e soltou-se da pressão de um FC Porto que entrou meio a dormir. Nesses dez minutos a equipa espanhola aplicou aos homens de Fonseca o mesmo remédio, empurrou-os para a área e começou a criar perigo.
Num lance igualmente estudado, como se esperava aliás, empatou o jogo. Josué cometeu uma falta infantil (e livrou-se do segundo amarelo) e Godin desviou o centro para as redes de um Helton que tinha salvado duas ocasiões saindo da área mas que, desta vez, não foi ajudado pelos centrais que deixaram o uruguaio cabecear. Era um golo que premiava o esforço dos espanhóis nesses escassos minutos mas injusto no computo global do encontro onde o FCP continuava a ser claramente a melhor equipa. Demonstrou-o reagindo muito bem. Voltou a tomar conta da bola, do ritmo de jogo e empurrou os espanhóis para trás, conseguindo algumas combinações interessantes, ainda que, como sempre, inconsequentes. A saída de Lucho - quando saiu o jogo perdeu-se - permitiu a entrada de Quintero que, com Licá, também ele lançado para o lugar de Josué (o mais apagado talvez), outro sopro de ar fresco. Mas as oportunidades escasseavam e era o Atlético - cada vez mais duro nas entradas (Juanfran podia ter sido perfeitamente expulso) quem era capaz de criar os lances de maior perigo em contra-ataques rápidos. E foi num desses lances que surgiu o segundo erro infantil.
Uma falta de Mangala numa zona proibida, e um posicionamento defensivo do livre que ignora por completamente a cartilha de Diego Simeone, um treinador que procura sempre a originalidade. Gabi enganou toda a gente, isolou Arda à frente de Helton e o turco disparou o tiro de morte. Com ele caiu o Dragão, por culpa própria!
O empate do Zenit em casa com o FK Austria foi a melhor noticia possível num dia histórico, pela negativa. É com os russos que se vai decidir o apuramento, algo que já se suspeitava nas últimas semanas. Ninguém pensaria que, jogando como jogou, o FC Porto fosse perder em casa um encontro controlado. É um aviso sério para os jogos em São Petersburgo e Madrid. E sobretudo, para a visita do Zenit, o jogo do tudo ou nada. Nos últimos anos, com qualquer treinador, o estádio do Dragão tinha sido um forte. Foi assim com Vitor Pereira contra os milhões do PSG, Málaga, Zenit e Shaktar. Foi assim com Jesualdo Ferreira na esmagadora maioria dos seus anos (para não falar na etapa AVB, numa competição menor). Esta derrota doi, emocionalmente, mas, lamentavelmente, não surpreende. Pelos motivos contrários, é certo. Mas não surpreende. Infantilidades como as de hoje repetidas podem ser fatais. Injustas, mas determinantes.
PS: Hoje estavam 34 mil adeptos no Dragão. Era o segundo jogo mais importante do ano em casa, depois do duelo com o Benfica. Lembro-me quando nos jogos da Champions não se baixavam dos 40 mil. Há a crise, é certo, mas também há um desencanto com esta equipa. A exibição de hoje podia dar um balão de oxigénio ao crédito de Paulo Fonseca porque, apesar do resultado, não se jogou tão mal. Mas os erros dos jogadores e a falta de capacidade do banco em mudar a situação não auguram um mês fácil.
O Atlético não venceu por ser melhor. Venceu por ser mais inteligente. Venceu por saber resolver os seus problemas com engenho. Por estudar cada jogo com detalhe cirúrgico. E porque entre os erros infantis de Mangala e Josué e a eterna incapacidade de transformar a posse e as oportunidades em golos, condenou o FC Porto a ter de somar um duplo resultado positivo com o Zenit para seguir em frente. A liderança do grupo está praticamente fora de questão.
A primeira parte do jogo lembrou a excelente exibição dos dragões contra o Málaga, no ano passado.
Uma equipa confiante, autoritária, dominadora e desejosa de impor o seu modelo de jogo sob o rival. Foi o melhor FCP da era Fonseca, de longe. A equipa movia-se bem, era capaz de trocar a bola com segurança e dominava claramente os destinos do encontro. Simeone surpreendeu pela negativa, com uma equipa ainda mais defensiva do que se esperava, com Koke - o melhor jogador da equipa no último mês e meio, a par de Diego Costa, ausente por suspensão - no banco. No seu lugar jogou Leo Baptistão, uma jovem promessa brasileira, que passou totalmente ao lado do jogo. O Atleti foi mais defensivo e especulativo do que se podia esperar, sobretudo porque rapidamente os azuis e brancos os encostaram ás cordas e raramente os deixaram aproximar-se da baliza de Helton, um espectador durante quase todo o jogo.
Com Arda e Baptistão fora de jogo, Villa esteve demasiado só para criar perigo e Defour e Fernando entenderam-se perfeitamente com Alex Sandro e Danilo (excelente jogo) para apertar as linhas dos colchoneros para bem dentro da sua área. Aí começavam as combinações com Varela, Josué e Lucho. Entre eles cozinharam-se os problemas dos espanhóis mas, tal como tinha sucedido contra o Málaga, o domínio da posse de bola e a melhor qualidade de jogo não se traduziu em oportunidades de golo. O tento de Jackson Martinez - que continua a marcar, a marcar e a marcar - surgiu num lance pouco habitual, um livre bem estudado que apanhou desprevenida a defesa rival. Era um golo mais do que justo e que premiava uma excelente exibição colectiva.
O segundo tempo começou com outra dinâmica. E apareceram os erros que custaram a vitória.
Simeone abdicou do seu único avançado e lançou o Cebolla Rodriguez para povoar ainda mais o meio-campo. Com esse sopro de ar fresco o Atlético conseguiu, por minutos, o controlo do jogo e soltou-se da pressão de um FC Porto que entrou meio a dormir. Nesses dez minutos a equipa espanhola aplicou aos homens de Fonseca o mesmo remédio, empurrou-os para a área e começou a criar perigo.
Num lance igualmente estudado, como se esperava aliás, empatou o jogo. Josué cometeu uma falta infantil (e livrou-se do segundo amarelo) e Godin desviou o centro para as redes de um Helton que tinha salvado duas ocasiões saindo da área mas que, desta vez, não foi ajudado pelos centrais que deixaram o uruguaio cabecear. Era um golo que premiava o esforço dos espanhóis nesses escassos minutos mas injusto no computo global do encontro onde o FCP continuava a ser claramente a melhor equipa. Demonstrou-o reagindo muito bem. Voltou a tomar conta da bola, do ritmo de jogo e empurrou os espanhóis para trás, conseguindo algumas combinações interessantes, ainda que, como sempre, inconsequentes. A saída de Lucho - quando saiu o jogo perdeu-se - permitiu a entrada de Quintero que, com Licá, também ele lançado para o lugar de Josué (o mais apagado talvez), outro sopro de ar fresco. Mas as oportunidades escasseavam e era o Atlético - cada vez mais duro nas entradas (Juanfran podia ter sido perfeitamente expulso) quem era capaz de criar os lances de maior perigo em contra-ataques rápidos. E foi num desses lances que surgiu o segundo erro infantil.
Uma falta de Mangala numa zona proibida, e um posicionamento defensivo do livre que ignora por completamente a cartilha de Diego Simeone, um treinador que procura sempre a originalidade. Gabi enganou toda a gente, isolou Arda à frente de Helton e o turco disparou o tiro de morte. Com ele caiu o Dragão, por culpa própria!
O empate do Zenit em casa com o FK Austria foi a melhor noticia possível num dia histórico, pela negativa. É com os russos que se vai decidir o apuramento, algo que já se suspeitava nas últimas semanas. Ninguém pensaria que, jogando como jogou, o FC Porto fosse perder em casa um encontro controlado. É um aviso sério para os jogos em São Petersburgo e Madrid. E sobretudo, para a visita do Zenit, o jogo do tudo ou nada. Nos últimos anos, com qualquer treinador, o estádio do Dragão tinha sido um forte. Foi assim com Vitor Pereira contra os milhões do PSG, Málaga, Zenit e Shaktar. Foi assim com Jesualdo Ferreira na esmagadora maioria dos seus anos (para não falar na etapa AVB, numa competição menor). Esta derrota doi, emocionalmente, mas, lamentavelmente, não surpreende. Pelos motivos contrários, é certo. Mas não surpreende. Infantilidades como as de hoje repetidas podem ser fatais. Injustas, mas determinantes.
PS: Hoje estavam 34 mil adeptos no Dragão. Era o segundo jogo mais importante do ano em casa, depois do duelo com o Benfica. Lembro-me quando nos jogos da Champions não se baixavam dos 40 mil. Há a crise, é certo, mas também há um desencanto com esta equipa. A exibição de hoje podia dar um balão de oxigénio ao crédito de Paulo Fonseca porque, apesar do resultado, não se jogou tão mal. Mas os erros dos jogadores e a falta de capacidade do banco em mudar a situação não auguram um mês fácil.
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