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quinta-feira, 30 de maio de 2019

O Clube do amanhã: apostar nos miudos ou nos bolsos alheios?


É sempre uma alegria especial quando o FC Porto levanta um título mas talvez seja maior ainda quando são títulos dos putos. Os putos da casa. Os que sentem a camisola, muitos deles andam ali desde muito pequenos. São o nosso ADN e seja qual for o futuro que lhes depara, sempre vão ser parte nossa. A formação do FC Porto foi campeã da Europa há um mês e sagrou-se campeã nacional ontem. Uma dobradinha sem paralelo na história do futebol português. O impacto mediático foi quase nulo em ambos casos. O FC Porto forma bem, muito bem, mas vende-se mal, muito mal. Para muitos esse é um problema. Não é. O grande problema é outro. O FC Porto forma bem, muito bem, mas aproveita pouco, muito pouco. Esse é talvez o maior desafio com que nos encontramos para o futuro imediato. Aproveitar uma geração excelente ou deitar fora uma oportunidade histórica para beneficio próprio de uns poucos.

Durante anos ouvimos lenga-lengas sobre a impossibilidade de ser competitivo recorrendo a jogadores da formação. O exemplo claro era o Sporting, um clube que raramente deveria servir de exemplo para o que fosse (formaram o melhor jogador europeu de sempre e deixaram-no sair por tostões), e o discurso apontava à necessidade de experiência, maturidade e que a formação fosse apenas um complemento. Claro que o Barcelona tratou de desmentir isso mas como tinham um génio absoluto como Messi tudo ficou relativizado. Também não ajudou o facto do Porto, entre a era Mourinho e os anos de Conceição, realmente, não ter tido uma grande formação. Geraram-se grandes expectativas com alguns jogadores pontuais mas nunca nenhum deu verdadeiramente o salto. Havia alguns títulos mas zero impacto no plantel e na própria evolução da carreira de muitos jogadores. Atrás tinham ficado os anos 90, onde havia realmente prata da casa de grande nivel. E apostar quando não há qualidade faz pouco sentido apostar forte, ainda que faz menos ainda ter o plantel recheado de jogadores piores vindos de fora para papeis absolutamente secundários quando a prata da casa podía cumprir perfeitamente essa função. As comissões, já sabemos.
O paradigma começou a mudar nos últimos anos, pouco a pouco. Foi-se trabalhando melhor, desde a base, mas esse trabalho leva o seu tempo. Os que hoje são campeões europeus e nacionais levam cinco, seis anos nessa dinâmica. Havia que esperar. Mas entre essa espera e o agora houve 4 casos singulares que explicam bem o que é a formação do FC Porto e como o clube a vive. E aí é onde se pode entender a gigantesca diferença entre o FC Porto e o Benfica. 
Lá em baixo vendem o Seixal como o novo Alcochete, o centro por excelência da formação mundial e talvez europeia. Foi sem dúvida uma jogada acertada terem contratado muitos dos treinadores e olheiros do Sporting e a qualidade subiu exponencialmente nos últimos anos, é impossível discutir. A formação do Benfica é boa, bastante boa. E vende muito porque estamos em Portugal, um país que fez do Mantorras o Eusébio. O minimo é que tivessem feito do Bernardo Silva o novo Cruyff. Mas tem algo que continua a faltar ao FC Porto, uma ideia de clube. Quer queiramos quer não a estrutura actual do FC Porto não existe. Sobrevive um Politburo soviético na pré-reforma, desfasado do tempo e onde primam os intereses pessoais ao mesmo tempo que se afiam facas. Cada decisão é vista sob essa perspectiva, a quem interessa, como, quanto e porquê. O Clube normalmente tem ficado para último plano com regularidade. No Benfica isso não acontece porque o seu Presidente, como o nosso foi durante décadas, não tem contestação e as suas decisões são a base da política de todo o clube. E é por isso que a formação do Benfica tem sido aproveitada e rentável, porque tudo é feito do primeiro ao último dia para ser assim. São vendas fáceis, sem custos, tê-los na primeira equipa é algo mediaticamente popular com os adeptos e permite criar uma liturgia óbvia de rendição ao mercado para beneficio do clube ("nós não queriamos vender, mas...". Por isso, desde há cinco anos para cá, uma formação pior que a nossa tem tido na primeira equipa mais jogadores (e a experiencia, quando se dá o salto, é FUNDAMENTAL) e portanto gerado mais valias superiores às que possamos gerar. No Porto, nesse periodo, há 4 jogadores que realmente tiveram um impacto minimo da formação, um abismo. Desses 4 um deles – Ruben Neves – tem o 60% dos jogos disputados. E não foi uma aposta do clube, foi uma aposta muito pessoal de um treinador que não teve problemas em fazer com que o jogador saltasse escalões porque tinha esse nivel (olá Fábio!!). E tem-o. Já o provou no campeonato mais exigente do mundo, com um treinador que contribuiu também para a sua desvalorização de mercado perante o olhar sereno de quem manda. Não esquecemos!

O restante 30% dos jogos disputados divide-se por André Silva, Diogo Dalot e Gonçalo Paciência. São 3 casos muito diferentes em si mas que resumen muitas coisas. 
André podia e devia ter ficado um ano mais. Ele era o primeiro a necessitar disso como tem provado a sua lenta evolução no Milan e Sevilla. Promete muito mas custa-lhe dar o salto, essa paciência que faltou num ano mais de etapa formativa na equipa principal do Porto (ele que no ano NES levou o ataque sozinho às costas,lembram-se?). 
Porque foi vendido? Porque uma gestão absolutamente desastrosa do Politburo teve as suas consequências práticas e era uma obrigação da UEFA cumprir com o FFP. Quando um clube é mal gerido, como o FC Porto tem sido, dentro e fora de campo, é o que sucede. Ter jogadores do nivel do André e não os aproveitar por culpa própria é uma pena mas pode passar. O caso Dalot é diferente. Há anos que o Dalot estaba bem referênciado por essa Europa fora, não enganava ninguém. Num clube com uma estrutura sólida dos pés à cabeça, com ideia de clube desde a base, o Dalot teria renovado muito antes do tempo. Quando o dossier chegou às mãos do novo director desportivo, Luis Gonçalves, a sua vontade não bastou, já era tarde. Nestas idades basta um movimiento em falso e tudo se pode perder e foi o que aconteceu (como o Barcelona, quando perdeu Pique e Fabregas para United e Arsenal pelos mesmos motivos, não somos um caso virgem, muito longe disso). O Dalot foi à procura do contrato da vida dele porque durante anos não foi mimado como seria expectável para quem, seguramente, será um lateral de topo europeu na próxima década. O desleixo foi evidente e quando se quis corregir já não havia margem. 
E Gonçalo? Gonçalo não tem perfil para titular do FC Porto, é um jogador muito limitado (no modelo de jogo táctico e na sua fragilidade física) e não vale a pena andar a vender narrativas em que é bom ter 11 titulares da casa se esses não estão à altura. O Gonçalo não está. Mas um plantel tem 23 ou 25 jogadores, o do Porto e o de qualquer outro clube. E as provas da UEFA exigem um minimo de jogadores da casa nos inscritos. E quando há vagas para dois ou três avançados suplentes, convén sempre ver os prós e os contras. Dizer que o Gonçalo não tem nivel de titular Porto não significa que não tenha nivel para ser plantel Porto. Não é inferior nem foi inferior a sua aportação a Adrian Lopez (o último resquicio da entrega do clube nas mãos de Mendes). Muito menos de Waris, uma escolha pessoal de Conceição. Ou de Andrade, outro jogador escolhido a meias entre técnico e estrutura que além de ser um desatre ocupou uma vaga no plantel Champions que podia ter sido de Manafá, por exemplo. Todos esses 3 negócios custaram ao Porto dinheiro, muito mais do necessário e muito mais do que foi recebido em troca. Gonçalo custava 0. Não é pior jogador do que André Pereira (que faz parte dessa política e foi uma escolha pessoal do treinador) e seguramente exemplifica outro dos usos possiveis para a formação. Nunca vai render milhões, não está para ser titular mas pode perfeitamente dar forma ao plantel. E foi repatriado para longe. Sem sentido.

O Benfica vende-se melhor mas também mima mais os seus. O Sporting, no longinquo apogeu da sua formação, vendia-se muito mais do que aproveitava os seus, mas ainda assim as suas grandes pérolas foram somando bastantes minutos. Quando um jogador salta dos juniores ou da equipa B o que precisa é disso. Minutos, confiança, apoio do treinador, paciência dos adeptos. O FC Porto tem tido muita dificuldade nesse processo. O treinador é claramente arisco a apostar na formação. Diz que só responde ao Presidente, o mesmo que diz que há muito jogador a aproveitar. Algo não cuadra. Sabemos que há gente que se move como sombras pela formação à procura da próxima comissão (basta ver o filho-agente ou o homem que se levou parte do negócio Ruben Neves para casa para entender) e talvez isso jogue contra os putos quando quem tem de se decidir por pô-los a jogar ou não é um homem extremamente emocional que sabe que tem inimigos dentro de casa que estão mortinhos por vê-lo sair para continurem a fazer o seu trabalho sujo e a sacar a sua suja recompensa. Sabemos tudo isso. Mas continuamos sem entender porque Fabiano é opção em jogos que podiam ser de Diogo Costa. Porque Diogo Leite desapareceu do mapa, porque Diogo Queirós tem zero minutos com a equipa principal quando está referenciado por olheiros dos maiores clubes da Europa como o futuro De Ligt. Porque nunca houve espaço para o Bruno Costa além dos jogos com o Liverpool ou porque nem mesmo nas Taças (esas obsessões de Conceição) não tivemos a oportunidade de começar a ver as jogadas do Baró ou os golos do Fábio.
 São campeões europeus e nacionais, são jogadores com o ADN da casa e que já mostraram ter o carácter ganador que se procura num futebolista de elite. E são jogadores com talento, é evidente. Não precisam de ser capas de jornais mas precisam que apostem neles. Uns vão ser vendidos por milhões seguramente porque o mercado é o que é e não vale a pena criar ilusões de que os vamos agarrar para todo o sempre. Mas também há outros muitos que poderiam acumular anos no plantel jogando mais ou menos. Quando virem as histórias deste ano futebolistico, muitos vão olhar para o Ajax, semi-finalista da Champions e campeão nacional com jogadores que têm praticamente a sua idade e jogam sem medo porque têm a confiança de quem neles aposta. Ninguém quer um FC Porto com 11 jogadores da casa porque não seria realista mas depois de anos a atravesar o deserto quem pode não querer um 11 – e mais com a hemorragia que o plantel vai sofrer este verão – onde esses putos tenham o seu espaço para crescer de mão dada com os que já estão e com o apoio de todos?

Mais comissões. Mais dinheiro gasto em vão. Mais bolsos cheios de meia dúzia de sanguessugas.
Mais miudos campeões. Mais ADN Porto. Mais negocios futuros de máxima rentabilidade para o Clube e não para quem o rodeia.

Nunca foi tão evidente o dilema e nunca a resposta que o FC Porto der nos próximos tempos vai ser mais exemplificativa de que clube estamos a falar para hoje e para amanhã.    

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Quem te viu e quem te vê

Disse aos jogadores que esta época acabou. E agora têm seis jogos até ao final da época, de pré-época, para mostrar quem tem caráter e valor para jogar no FC Porto

Há jogadores que não estão no FC Porto e que farão parte do plantel da próxima época, alguns emprestados, como é o caso do Rafa e do Otávio (...) O Josué é outro dos casos e também vai regressar

dar condições e motivação para que os jovens adiram ao futebol e ao FC Porto e tenham condições para chegar mais cedo à equipa principal (...) e não ter jogadores que, quando entram, perguntam qual é a porta de saída

Sabe quem é o Campaña? Foi um dos que acreditei que era jogador para o FC Porto, mas que nunca tinha visto...

Estas declarações foram feitas por Pinto da Costa, numa entrevista ao Porto Canal no dia 7 de abril, em que confessou ter-se sentido envergonhado com exibições da equipa e anunciou diversas mudanças para a época 2016/17.

Quatro meses depois (naquela que foi a pré-época mais longa de sempre...), comecemos, então, pelo caso de Rafa Soares.
Rafa Soares, capa de O JOGO de 27-06-2016

Bem, não só Rafa Soares não faz parte do plantel 2016/17 (foi mais uma vez emprestado) como, para a sua posição (lateral-esquerdo), a SAD presidida por Pinto da Costa gastou cerca de 13 milhões de euros (!) em dois jogadores: exerceu a opção de compra do passe do mexicano Layún e contratatou o brasileiro Alex Telles.

Outro jogador da formação portista que, tal como Rafa, Pinto da Costa anunciou que iria regressar para fazer parte do plantel 2016/17 é Josué. Na realidade, faz parte é do lote de proscritos que estão a treinar com a equipa B.

Quanto à anunciada aposta em jogadores da equipa B, depois da categoria demonstrada por vários deles na época passada e que culminou com a conquista do campeonato da II Liga, qual é o ponto da situação?

Plantel 2016/17, capa de O JOGO de 20-07-2016

Na realidade, no dia em que arranca o campeonato, nem o plantel é curto, nem há novos jogadores da equipa B a integrar o plantel principal.


«A pouco mais de uma semana do arranque da pré-temporada, Pinto da Costa confirma, ao JN, que o F. C. Porto persegue reforços para a defesa e o ataque, apesar de já ter contratado Felipe, central do Corinthians.
Estou convencido que vamos ter mais alguém. É prioritário ter mais um central e um ponta de lança”»

Um mês depois (em 19-07-2016)...

Ponta-de-lança, capa de O JOGO, de 19-07-2016

Com a "ajuda" do amigo Luciano D'Onofrio, à última da hora lá chegou o desejado ponta-de-lança, o qual, para além de não poder jogar no importantíssimo Play-off da Liga dos Campeões, apenas participou em 2 ou 3 treinos dos mais de 50 feitos pelos companheiros de equipa nesta pré-temporada.

Quanto à outra prioridade identificada por Pinto da Costa...

Alex, capa de O JOGO de 04-08-2016

... até agora nada (nem Alex, nem Boly, nem nenhum outro).

Revendo o "filme" desta pré-temporada e cruzando-o com as afirmações de Pinto da Costa, é com muita pena que cito um conhecido ditado (expressão) popular: quem te viu, quem te vê.


P.S. Apesar dos avanços, recuos, "certezas", indefinições e muitas vicissitudes que encheram esta pré-temporada do FC Porto, a expectativa para o jogo de logo à noite é que, obviamente, a equipa com o maior orçamento (de longe) entre no campeonato com o pé direito e traga uma vitória de Vila do Conde.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Uma aposta séria na formação

Sub-19 e Equipa B (fonte: facebook do FC Porto)

A equipa B do FC Porto, formada na sua esmagadora maioria por jogadores Sub-20 e, em grande parte, por jovens provenientes dos escalões de formação portista, conquistou o duro, extenso (46 jornadas!) e muito competitivo campeonato da II Liga.


Ao serviço da seleção portuguesa, cinco jogadores do FC Porto – o guarda-redes Diogo Costa, os defesas Diogo Dalot, Diogo Queirós e Diogo Leite e o médio Lameira – sagraram-se recentemente campeões da Europa de Sub-17 tendo, uns dias depois, sido recebidos e distinguidos pelo presidente do FC Porto.


E no passado fim-de-semana…

«O FC Porto sagrou-se campeão de Sub-19. Bicampeão para ser mais preciso, depois de ontem bater o Belenenses por 3-2 na última jornada do campeonato. Foi uma recuperação fantástica, com uma segunda volta de seis vitórias e um empate que permitiram transformar o antepenúltimo lugar no final da primeira volta, a seis pontos da liderança, num saboroso título de campeão. Este título e o do FC Porto B são uma bela afirmação da nossa formação
in Dragões Diário, 05-06-2016


Estes sucessos não deixam grande margem para dúvidas. Há muitos anos que não havia tanta “matéria-prima” de qualidade nas equipas de formação portista, nomeadamente dos Sub-17 à Equipa B.

Assim sendo, parece não haver grandes desculpas para, já na próxima época, deixar de ser feita uma aposta séria e consistente em vários destes jogadores.
Naturalmente, a equipa principal não pode ser toda ela baseada em jogadores da formação. Contudo, num plantel de 23-24 jogadores, tem de haver espaço para, pelo menos, meia dúzia destes jogadores, cuja qualidade parece ser indiscutível (de outro modo não tinham ganho o que já ganharam).

Agora, de palavras de circunstância e boas intenções... Sejamos claros, só haverá uma aposta séria em jogadores da formação azul-e-branca se, da parte da Administração da SAD, essa estratégia for assumida e cumprida. Porque, como é óbvio, se neste defeso voltarem a ser contratados 10, 12 ou 15 jogadores, dificilmente haverá espaço, no plantel principal, para mais do que um ou dois jogadores desta geração portista de jovens campeões.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Parabéns à equipa B

A equipa B do FCP conseguiu o feito de ser a primeira equipa B a ser campeã na 2a Liga - estão os jogadores e equipa técnica de parabéns! Isso ainda mais notável é quando na época anterior tinham terminado muitíssimo mais abaixo (nomeadamente na 13a posição).

Sendo motivo de regozijo (dá sempre gosto ver o FCP a vencer), penso que não é de todo caso para embandeirar em arco, e por 3 razões: primeiro porque é um troféu totalmente secundário e não somos lampiões (a propósito, quanto me ri quando há uns anos o slb fez uma enorme festa por vencer a Taça de Portugal chegando ao ponto de vender em grande número cachecóis estampados com «Campeões da Taça»); em segundo lugar, porque o plantel da nossa equipa B custou muito mais do que o de um Chaves (temos investido muitos milhões nos últimos anos em juniores e jogadores para a equipa B); e finalmente - e acima de tudo - porque a equipa B não foi criada para vencer títulos.

O objetivo principal da equipa B é servir de «forno» de talentos para a equipa A, obviamente. Como objetivos secundários temos a oportunidade de 1) dar ritmo competitivo a jogadores jovens, bem acompanhados «em casa», antes de serem lançados às feras a sério, e jogando num estilo de jogo que os preparem para a equipa A; e em menor medida 2) dar ritmo competitivo a um ou outro jogador da equipa A que quase nunca lá jogam ou que vêem de lesão prolongada.

Só depois, mais atrás, vem a classificação. Sendo assim, desde que não desçamos de divisão não há problema.

Dito isto, claro que dá sempre gosto ganhar competições e não deixa de haver uma correlação (longe de perfeita, mas existe) entre a classificação e o valor da matéria prima (que é o que mais interessa). Ou seja: é difícil acreditar q haja muita materia prima promissora se acabarmos no fundo da tabela, e no campo oposto ser campeões dá uma indicação de que há certamente matéria prima interessante e em alguma quantidade.

Esperemos que vários destes jogadores conquistem um lugar na equipa nos próximos tempos. Mais do que nunca, é importante que assim seja, dado o aperto financeiro que aí vem. Para isso todos terão que contribuir: os próprios jogadores jovens (que tenham cabecinha), o treinador da equipa A, o treinador da equipa B (que deve articular o seu trabalho com o treinador principal) e os dirigentes (que terão de resistir à tentação tantas vezes vista de contratar vários jogadores para posições onde temos jovens muito promissores).

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Jogar à Porto sem jogadores à Porto


Depois do empréstimo de Maicon ao São Paulo - prévia renovação de contrato para comprar o silêncio de quem não explicou sequer, como devia como capitão, aos sócios e adeptos o motivo do seu comportamento e as suspeitas levantadas pelos familiares nas redes sociais - o plantel do maior clube português conta apenas com 3 jogadores com mais de dois anos de primeira equipa. Sim, leram bem. Em 25 jogadores, o FC Porto tem 3 jogadores com mais de dois anos de azul e branco e dragão ao peito. Soa a ridículo. E se soa, é porque o é. Sobretudo quando este clube, talvez mais do que nenhum outro, se fez grande precisamente imprimindo um estilo próprio - "o jogar à Porto" - com jogadores que sentiam a mística do clube e a interpretavam como ninguém depois de incorporar todos os conceitos mais básicos do portismo servindo de porta-estandartes para os que vinham depois.

O FC Porto sempre foi um clube de ciclos curtos até mesmo na realidade pré-Bosman. Sempre tivemos jogadores estrangeiros - e até aos anos 70 em proporção superior ao dos rivais de Lisboa que usavam a "batota" das colónias para manterem-se competitivos - e sabíamos que os jogadores da casa que se destacavam tarde ou cedo teriam tubarões atrás. Para contra-balançar essa realidade criou-se, sobretudo com a chegada de José Maria Pedroto e Pinto da Costa, uma genuína cultura de balneário assente em jogadores que - formados em casa ou contratados cedo na sua carreira - formavam um núcleo duro que raramente se rompia. Sabiam que não eram provavelmente nem os segundos melhores na sua posição mas que, em conjunto, eram invencíveis. Esse espírito cimentou a história do FC Porto até há bem poucos anos. Das gerações dos operários de Pedroto e Artur Jorge passou-se aos homens lançados nos anos noventa nos mandatos de Carlos Alberto Silva, Bobby Robson e António Oliveira e projectados para o novo milénio por Fernando Santos. Ano sim, ano também o FC Porto continuava a ser o que sempre foi, um clube vendedor. Não havia dúvidas, já com a lei Bosman em acção, que futebolistas como Jardel, Zahovic, Deco, Sérgio Conceição, Vítor Baía, Fernando Couto e afins tinham mercado e iam sair. Mas havia sempre os que ficavam - os Paulinho, os Aloísio, os Folha, os Jorge Costa - - ou os que saiam já muito tarde na carreira depois de ter dado tudo o que tinham. Entre uns e outros o clube garantiam ter sempre uma dezena de futebolistas imbuídos no espírito da casa. Os treinadores mudavam, as estrelas iam e vinham, mas eles seguravam o edifício. Mesmo no pós-Gelsenkirchen, quando a razia fez-se mais evidente, soube-se encontrar veículos de transmissão e jogadores que, vindos de fora, aprenderam depressa a lição como demonstrou sempre Lucho Gonzalez, João Moutinho ou Hulk que, sem ser da casa ou dos arredores, souberam ser "jogadores à Porto".

Ora, face à politica comissionista, a politica de "contentores", de relações com fundos e agências, perseguida de forma implacável e sem olhar para trás da coluna dirigente - uma politica que se aplica cada vez mais à própria formação, contratando-se jogadores por cinco vezes mais o seu valor em negócios difíceis de explicar (Juca, da próxima vez tenta lá fazer jornalismo a sério e perguntar a Pinto da Costa os porquês detrás dos negócios Kayembe, Victor Garcia ou a renovação de Ruben Neves e os 5% para o irmão de um dos administradores) - o espírito à Porto tem vindo a desaparecer. Os próprios homens - ou homem, se quiserem - que alimentaram com êxito e visão essa política de jogadores da casa ou imbuídos no espírito da casa, são os mesmos - ou, o mesmo, se preferirem - que se encarregaram de dinamitar essa realidade. Hoje, em Fevereiro de 2016, o FC Porto tem 25 jogadores inscritos no primeiro plantel e desse lote há três futebolistas que têm mais de dois anos de primeira equipa. A saída de Maicon - veteraníssimo e capitão por antiguidade, que não por mérito próprio de liderança - outro sinal evidente de que algo está podre - deixou Helton, Varela e, pasmem-se, Herrera, como os nomes mais antigos no balneário.
Helton é o rei dos veteranos e um farol de portismo absoluto que suportou estoicamente tudo - de criticas a lesões quase impossíveis de recuperar a lugares de suplente difíceis de explicar - e Varela um jogador que quis forçar a sua saída mas que escolheu o destino errado e foi forçado a voltar com o rabo entre as pernas. O terceiro em discórdia, Herrera, não podia ser maior patinho feio (herda o posto na hierarquia de Maicon) e seguramente é jogador com guia de marcha em Junho. A estes podem juntar-se ainda Ruben, Chiodzie, André André ou André Silva, com passado mais ou menos largo na formação mas com muito poucos kms de equipa  principal.
Em comparação o Benfica tem 9 jogadores com mais de dois anos de primeira equipa - a que podem juntar outros seis da formação num total de 15 futebolistas - e o Sporting tem 11 jogadores no primeiro plantel com mais de dois anos de casa a que podem juntar ainda outros dois jogadores da formação para um total de 13.
Esta é a nossa triste realidade. Algo de quem não tem culpa Paulo Fonseca, Julen Lopetegui e, naturalmente, muito menos, José Peseiro. Os treinadores no FC Porto são excelentes bodes expiatórios mas os ciclos têm sido tão curtos e o seu poder tão exíguo que na hora da verdade só existe um local para onde se olhar para apontar culpados a esta realidade.

Ninguém pode criticar uma política que tem décadas - a de comprar barato e desconhecido, vender caro e preparando estrelas de primeiro quilate para outros - a funcionar perfeitamente. Esse não é nem nunca foi o problema do FC Porto entre outras coisas porque é algo absolutamente inevitável. China e Premier serão amanhã o que a liga espanhola, francesa e russa foram no passado. Não, esse não é o problema. O problema está no orçamento descontrolado - ano após ano - nas exíguas mais valias entre comissões, vendas de percentagens e investimentos em activos cada vez mais caros e, sobretudo, na ausência de uma visão desportiva - o FC Porto é um dos poucos clubes de elite que não conta com um Director Desportivo digno de usar esse titulo - que garanta que paralelamente a esses negócios necessários exista uma guarda pretoriana que garanta que os que venham a seguir saibam o que é "jogar à Porto". Ninguém está a pedir que existam dez jogadores que fiquem uma década no clube, um cenário que é cada vez mais irreal em qualquer liga. Mas ter apenas três jogadores - dois suplentes e um mal amado - é cair no fundo. Para o próximo ano ninguém sabe que será dos três. Podem estar cá todos ou até mesmo nenhum o que faria de Ruben Neves (se fica, que esperemos que sim), o mais veterano do plantel. Um miúdo da casa não pode levar esse peso nos ombros com 20 anos de idade. É o caminho mais curto para atropelar uma futura referência. Todos antes dele que prometiam muito, de Gomes a Postiga, tiveram em quem se apoiar. Ruben pode acabar só como o último sobrevivente do espírito de jogador à Porto num plantel sem jogadores - formados ou comprados, nacionais ou estrangeiros - que saibam realmente o que isso significa. Não é por casualidade que até Sapunaru - um desses estrangeiros que souberam entender isso de ser um "jogador à Porto" - afirmou publicamente o choque que lhe provocou visitar o Olival. E ele, mais do que nós, sabia por dentro o que o Porto foi e o que o Porto é hoje.

Ás vezes, entre resultado positivo e resultado negativo, entre bola na trave e bola dentro, estas questões ficam esquecidas mas depois, quando as coisas correm mal, todos levantam a cabeça à procura de referências mas hoje em dia só as encontram nos jogos de veteranos. O gesto de Maicon só é possível no contexto deste FC Porto do pós-pintocostismo com Pinto da Costa, um clube sem lideres a nenhum nível e onde os jogadores vêm trabalhar todos os dias como se estivessem noutro sítio qualquer.
   

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Uma forma desastrada de queimar promessas

Lopetegui sabe perfeitamente como funciona o futebol de formação. Sabe, provavelmente, mais do que a maioria. Não só treinou o Castilla - a equipa B do Real Madrid - como teve excelentes resultados nos Europeus sub21 com Espanha (pior no caso dos Mundiais sub20). Quando foi anunciado como treinador do FC Porto uma das grandes expectativas que gerou foi a forma como podia dar impulso à estancada formação do clube que parecia gerar bons jogadores à etapa junior que, por um motivo ou outro, falhavam em dar o salto para a elite.

Passou-se exactamente o contrario. Ruben Neves foi uma excelente surpresa – para todos – mas uma andorinha não fez a Primavera e depois dele…o vazio. Gonçalo teve alguns minutos, quase sempre irrelevantes. Á defesa (Lichnovsky, Rafa e Victor Garcia) e ao meio-campo (Francisco Ramos, Podstwaski, Mikel, entretanto recuperado, ou Ivo Rodrigues) o tratamento foi de ignorância absoluta e André Silva passou por um largo purgatorio que mais teve a ver com questões de contratos do que com temas desportivos. Lopetegui não deu na primeira época o passo esperado e isso foi uma desilusão mas também se pensou, talvez com propriedade, que no seu primeiro ano a treinar um clube a sério, o treinador preferira apostar em jogadores mais curtidos. Deixamos as expectativas para o segundo ano mas uma vez mais, já com meia época decorrida, o cenário é similar. Até agora salvo por André Silva, ninguém da equipa B tinha sido chamado a jogar com os A. Nem sequer a brilhante carreira dos B na II Liga, lideres indiscutiveis e de longe a melhor das formações em prova, parece ser suficiente.

Chega então a Taça da Liga, a oportunidade ideal para começar a introduzir os melhores da B junto com os jogadores da A. Lopetegui realmente premiou dois desses jogadores mas fê-lo num contexto completamente despropositado. Alex Ferguson, que de lançar putos entende alguma coisa, seguramente mais do que Lopetegui, sempre disse que era importante, quando se sobe um jogador dos juniores aos A, garantir que este se integre numa equipa estável e com rotinas. Ele já tem trabalho suficiente para ocupar-se do seu lugar como para ter de se preocupar que os colegas ao lado ou á frente nunca tenham jogado juntos. Ferguson defendia - e colocou isso em prática á medida que lançava os Giggs, Beckhams, Scholes, Nevilles e afins - que os jovens deviam ser lançados um por um junto com o onze mais forte em jogos que a equipa pudesse impor o seu estilo para habituá-lo ao cenário que ia encontrar. Nem lançá-los contra rivais claramente inferiores (que poderia sobrevalorizar essa experiência e dar sensações erradas sobre o seu real valor), nem excessivamente complicados (com a pressão inerente a esse tipo de duelos). E sobretudo nunca num onze sem rotinas onde será impossível avaliar até que ponto trabalhou bem no contexto ideal.
Que fez então Lopetegui?

No primeiro jogo a titular de Victor Garcia e de André Silva este ano, o treinador mudou dez jogadores do onze habitual. Mudou absolutamente tudo. Victor Garcia jogou ao lado de uma dupla de centrais que não é a habitual (ainda que tenha experiência) e com um meio-campo com quem associar-se nas subidas que nunca tinha jogado ao mesmo tempo (o que se notou claramente nos apoios). André Silva não sabia com quem conectar-se porque quem jogava atrás dele e pelos flancos estava a conhecer-se ao mesmo tempo que o onze do Maritimo, na máxima força, trazia a lição bem estudada. O resultado é conhecido de todos mas o mais grave é que não se pode sacar nenhuma conclusão da sua introdução ao futebol sénior do clube. Na evidente ausência de rotinas colectivas, como avaliar a prestação de dois jogadores que foram enfiados num onze inédito e pouco ou nada preparado? Como se pode entender isso como integração na primeira equipa quando o ambiente dentro do relvado era totalmente alheio aos jogadores que já pertencem ao plantel principal, quanto mais a dois miudos que queriam dar o tudo por tudo para impressionar?

Está claro que a gestão de uma selecção - com os seus timings, a necessidade de contar sempre com jogadores diferentes por questões de suspensões e lesões - e a de clubes é muito diferente e que Lopetegui, do segundo, entende muito pouco. A necessidade de um onze estável com três ou quatro variáveis é algo que o treinador do FC Porto ainda não assimilou totalmente desde que chegou ao Dragão. O problema está quando as suas próprias dúvidas lhe obrigam a tomar decisões técnicas que prejudicam o futuro de jogadores que podem dar muito ao clube.
Não teria Victor realizado um jogo melhor (ele quem nem foi dos piores) se tivesse ao lado a serenidade de contar com a defesa e o interior direito que são titulares?
André não saberia melhor entender os movimentos dos extremos e interiores habitualmente rotinados nas transições?
E quando chegue a altura de Rafa, de Ramos e companhia, vai-se repetir a experiência?

Porque se for para replicar o universo Porto B com algumas reservas, de nada vale acumular jogos na primeira equipa a esses jogadores. Serão experiências vazias de sentido. Lançar jovens na primeira equipa devia ser uma missão de qualquer treinador do FC Porto especialmente quando há evidentes sinais de que a qualidade e o carácter estão lá para serem aproveitados. Se para Lopetegui isso significa misturar meia duzia de suplentes habituais, um par de titulares e um par de miudos, então temos um problema porque o que estes vão aprender da experiencia será praticamente nulo. E ficamos todos a perder.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O que é um jogador da «formação»?

Fala-se amiúde em jogadores saídos da «Formação» ou «prata da casa». Mas a definição não é tão simples ou consensual como seria de esperar.

Para uns, por essa expressão estão a referir-se a jogadores que tenham passado pelos escalões jovens (i.e. no mínimo, pelos Juniores A). Outros têm uma definição mais generosa e incluem mesmo jogadores contratados já adultos - i.e. com 18 ou mais anos - para a equipa B. Outros ainda têm outros critérios (não necessariamente consistentes).

Pessoalmente vejo a coisa num sentido lato, num contínuo temporal - afinal de contas, mesmo jogadores com 30 anos (nem todos...) continuam a aprender e melhorar - mas reconheço que temos que estabelecer uma «linha» arbitrária para simplificar discussões.

Sendo assim, pessoalmente faço uma distinção entre «Formação» e «prata da casa», com um critério mais apertado para o segundo caso. Para um jogador fazer parte deste grupo, espero que tenha feito pelo menos um par de épocas nos escalões jovens do FCP, i.e. nos Juniores A.

Para ser considerado «formação», aí já uso o critério da UEFA que é a idade-limite de 21 anos (usada para quotas nas inscrições nas competições europeias, e também na % a pagar por direitos de formação aquando de transferências, o vulgo «mecanismo de solidariedade»). Parece-me fazer sentido porque se é verdade que muitos jogadores continuam a aprender bastante por alguns anos depois dos 21 anos, também é verdade que tipicamente essa curva de aprendizagem se torna muito menos inclinada a partir daí (enquanto entre os 18 e os 21 anos - i.e. nos primeiros anos de senior - tipicamente aprendem imenso e às vezes mais do que nos juniores).

Ora sendo assim considero que jogadores como Pepe ou James Rodriguez são em parte fruto da Formação do FCP, mas já não os considero «prata da casa». 

Da mesma forma não posso considerar jogadores como Vieirinha, Cândido Costa ou Rabiola «prata da casa», já que foram contratados para a equipa B adultos, com 18 anos (ou quase), ao contrário do que muitos afirmam. Aliás, nem eles nem sequer jogadores que chegaram ao FCP no último ano de Juniores A (como o Leonardo Ruiz, que joga na equipa B); é subjectivo mas a mim não me parece que uma única época nos escalões jovens seja suficiente para se poder falar em «prata da casa».

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O melhor sub19 do Mundo

Olhem para qualquer lista das maiores promessas do futebol mundial. Coloquem a fasquia na idade onde a etapa de formação júnior habitualmente termina, os sub19. A partir de aí começa o salto definitivo ao futebol profissional. Alguns demoram mais do que outros a chegar lá. Outros, génios precoces, chegam antes. São predestinados para o jogo. Aqui está uma lista de 100 jogadores que cumprem em 2015 os 20 anos de idade. Com menos um ou dois anos é ainda mais dificil encontrar futebolistas que possam já ser consideradas primeiras figuras. Entre eles está Ruben Neves, o filho do Dragão que é o melhor do Mundo na sua faixa etária.

Não é fácil encontrar na formação do Porto casos como o de Ruben.
Houve grandes jogadores formados na casa mas alguns foram de afirmação tardia (caso de Ricardo Carvalho) e outros, apesar de terem agarrado a titularidade cedo, não eram nos seus primeiros anos primeiras figuras mundiais (casos de Baía ou Gomes, por exemplo). Ruben Neves tem tudo. Não só se afirmou antes do tempo e de toda a lógica - "gracias Lopetegui" - como é claramente o mais completo futebolistica a nivel mundial com a sua idade. Há muitos bons jogadores com menos de 19 anos mas custa-me encontrar alguém que seja tão adulto, tão profissional numa etapa que ainda é, a todos os efeitos, de formação.

Não se enganem. Ruben vai ser, daqui a quatro anos - quando cumprir os 22 e se assume definitivamente na etapa adulta de um profissional de futebol - um jogador diferente. O seu processo evolutivo, como o de qualquer jogador, será forçosamente progressivo. Quem viu jogar Xavi, Iniesta ou Pirlo com 18 anos e com 22 sabe perfeitamente que eram diferentes. Mas aos 18 nenhum estava ao nivel onde hoje está Ruben, estrela em jogos da Champions League por mérito próprio, futebolista determinante nos processo defensivos e ofensivos de uma equipa que pertence à eltie do futebol continental. Não. Habitualmente, a essa idade, brilham os jogadores tacticamente anárquicos, os que triunfam pelo instinto da grandeza. Os extremos endiabrados, os avançados oportunistas. Jogadores que chamam à atenção precisamente porque quebram a ordem com a sua irreverência juvenil. O tempo e a formação tratará de determinar se assimilam ou não os processos colectivos de jogo. A maioria fica pelo caminho. Alguns chegam á elite mundial. Mas quando médios organizadores ou pivots defensivos - e aqui pivot é mais no sentido de regista do que de trinco - começam a dar cartas a essa idade? Muito, muito poucos. Ruben é um deles.

O jovem que foi 6 e 8, que sabe patrulhar bem a linha interior ou varrer a bola à frente da defesa com igual frieza, tem uma maturidade sobrehumana. Fisicamente tem crescido muito (há dois anos disputava jogos de 80 minutos de duração contra miudos da sua idade, hoje joga contra os melhores do mundo e quem nota realmente a diferença?) e ainda aprenderá a gerir melhor o seu esforço. Sabe ler o campo como quem joga xadrez, abrindo e fechando espaços com aberturas largas ou passes curtos. Também domina a progressão com o esférico, recorrendo a um truque aqui ou ali que nos seus pés soa quase a exótico mas que é o mais normal num jogador da sua idade, procurar sempre a estética antes do pragmático. Ruben podia estar perdido na equipa sub19. Podia estar perdido na equipa B. Podia até estar emprestado a um Paços de Ferreira. Graças a Lopetegui - e daqui a 10 anos Lopetegui talvez seja mais conhecido por ser o homem que lançou Ruben que por outra coisa qualquer - temos a sorte de poder viver a ascensão de uma carreira que promete ser impar. A importância de Ruben para o futuro do futebol português (tanto na selecção como mediaticamente) é imensa mas o que realmente importa é não estragar o menino.

Ruben já mostrou ter muita cabeça ao rejeitar uma oferta do Chelsea no ano passado. Sabe que precisa de crescer e muito e que não há sitio melhor para o fazer do que em casa, com alguém que confia nele e sabe medir os minutos e os jogos onde deve ser protagonista. A SAD deve entender o mesmo e não olhar para o Ruben como um próximo James, um próximo negócio da china. Por uma vez é preciso tentar guardar os trunfos até ao fim, deixar passar o máximo de tempo possível. Não só porque Ruben precisa desse tempo, como futebolista, como também o Porto precisa, cada vez mais, de um "Ruben" como referência emocional e um sinal de que, quando queremos, podemos fazer as coisas bem na formação (talvez o problema esteja cada vez mais na prospeção ou no salto aos seniores do que no trabalho feito nas primeiras faixas etárias). E claro, Ruben valerá amanhã (e depois) muito mais do que pode valer hoje. É desse tipo de jogadores. A situação financeira do clube convida à decisão fácil, a de aceitar os primeiros 40 ou 50 milhões que alguém ponha na mesa mas Ruben e o "portismo" merece um pouco mais de paciência. Daqui a 4 anos - são 4 anos - Ruben Neves terá apenas 22 anos de idade. Aqueles que querem vender William Carvalho ou Bernardo Silva como "the next big thing" farão bem em lembrar-se de que a grande promessa do futebol português nem sequer pertence a essa geração. Poder ver ao nosso "menino" três ou quatro anos mais de Dragão ao peito seria importante a todos os sentidos. Não há dinheiro que pague, agora mesmo, tudo aquilo que Ruben pode ainda dar ao clube. Resta desfrutar de um jogador que é, actualmente, o melhor futebolista do mundo da sua geração.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Queimar etapas

A propósito de elogios recentes a André Silva (e Ruben Neves), vi a seguinte afirmação de um adepto do FCP;

"Nada de cair em euforias e queimar patamares de evolução bem necessários a um jogador de futebol."

Quantas vezes não vimos este tipo de afirmação para justificar empréstimos de «prata da casa»? É de facto muito frequente, já se tornando um cliché.

Ora o que acho engracado é que quando o FCP contrata um estrangeiro de 18, 19 - a idade de André Silva - ou 20 anos para o plantel A nunca se vê gente a torcer o nariz dizendo que se estão a «queimar etapas». Pelos vistos «queimámos etapas» quando incorporámos um Fucile, um Reyes, um Alex Sandro, um Anderson, um James, um Pepe, um Oliver, etc etc etc. 

Parece-me pois que muitos adeptos (e, suspeito, muita gente na Direção da SAD) usam 2 pesos e 2 medidas neste assunto - e isto independentemente de eu achar que o jogador X ou Y deve ou não ficar no plantel A.

Sem dúvidas que o Ruben Neves (para dar um exemplo, e este até era 2 anos mais novo qdo entrou no plantel no ano passado do q o André é agora) teria evoluido muito mais se tivesse passado mais um ano nos juniores, depois 2 anos a «pastar» na B seguido de 2 anos emprestado a um Moreirense e depois mais 1 ano emprestado a uma Académica (e quem sabe depois mais outro ao Estoril)... Claro.

Aí sim, ia estar no «ponto» ao chegar ao plantel A do FCP aos 21 ou 22 anos (quer dizer... se algum dia chegasse, o que duvido muito. Se se perdesse pelo caminho - devido a mau acompanhamento, ou equipa sem condições, etc etc - a conclusão seria logo; «estão a ver, não serve para o FCP»). Há que processar as «etapas» todas, carago!

Pois bem, o que eu acho em geral?

Antes de mais nada como já disse, acho que muita gente usa dois pesos e duas medidas. O argumento da idade ou serve para todos ou não serve para ninguém. Ponto.

Acho também, para dar uma Lapalissada, que o mais importante é a qualidade do jogador. Tenha ele 17, 20 ou 33 anos.

Acho ainda que se alguém saído dos escalões tem qualidade q.b. para fazer parte do plantel (e potencial para melhorar, o que quase todos têm) - i.e. nem que seja para ser 2a ou 3a escolha, não precisa de ser fora-de-série da mesma forma que ninguém exige a todos os estrangeiros contratados que sejam foras-de-série e venham para ser titular - em princípio é para ficar no plantel.

Acho também que quando temos casos desses não ajuda ninguém - nem o jogador, nem o clube - que se vá gastar muito dinheiro em mais 2 ou 3 jogadores para a mesma posição, tapando completamente o tal jogador da casa. Quer dizer... quando digo «ninguém» minto: é capaz de ajudar os intermediários nas transferências, já que ninguém recebe comissão quando se aproveita alguém da formação.

E finalmente, também acho que um jogador saído dos escalões não deve ficar mais do que 2 anos a fio no plantel A jogando muito poucos minutos (mas um ou dois, porque não). Nesses casos deve ser de facto emprestado - ou vendido.

domingo, 5 de abril de 2015

Prospecção mundial sub19, um passo inevitável Parte II

Continuação da primeira parte do artigo publicado aqui sobre como o FC Porto deve apostar a sério numa prospecção mundial em jogadores cada vez mais jovens para evitar entrar numa espiral descontrolada de gastos.

O problema de uma ausência de politica de cantera em 20 anos
Sem o cashflow dos Fundos e agentes para comprar na América ou no Leste Europeu, sem querer ser um balão de ensaio regular para os grandes clubes europeus, a única solução para manter-se competitivo no espaço europeu e nacional é reduzir gastos com o pessoal ao máximo, ter um plantel barato e essencialmente produzido em casa. Isso significa comprar mais (e melhor) a nível doméstico (uma inversão que se vai assistindo ainda que com escasso resultado) mas também lançar mais produtos de formação.
Se o FC Porto tivesse, historicamente, uma cantera como a de um Ajax, Feyenoord ou Lyon (que apostou neste modelo há sete anos, prevendo o que ia suceder, quando estavam na mesma posição que o FC Porto a nível mundial, e agora estão a colher os lucros) o problema resolvia-se mais facilmente. Mas não temos.
Ruben Neves e Gonçalo Paciência são a excepção.

Ainda faltam a André Silva, Ivo Rodrigues, Tomas Podstawski, Rafa Silva, Francisco Ramos ou Rui Pedro muitos tropeções para serem jogadores grandes. E eles são a nata da nossa formação. Para procurar reequilibrar a balança o clube desviou o investimento em grandes nomes para a primeira equipa num novo modelo para as camadas jovens que inclui o empréstimo com opção de compra para jovens promessas entre os 16 e os 19 anos.
Essa é a faixa etária ideal. Antes disso é impossível avaliar com certeza o potencial de um jogador, há problemas legais em excesso e o risco é tremendo. Mas entre os 16 e os 19 tudo se facilita. Os jogadores são menores (e muitos têm de mudar-se com familiares) mas a avaliação real de potencial é mais certeira, o seu desenvolvimento físico está quase completo e a maturidade mental está noutro estado. A margem de erro reduz-se ao mínimo ao mesmo tempo que o preço de custo é ainda relativamente baixo, salvo casos pontuais.



Apostar na prospecção juvenil, uma solução a médio prazo inevitável
Até essa franja etária (os 16 anos) o lógico é que o clube procure, essencialmente, jogadores nas escolas Vitalis e, em casos muito pontuais, jogadores a nível regional de valor contrastado. A partir de aí, até aos 18 anos, devem começar a chegar os primeiros jogadores de fora do Grande Porto (ampliando a nível nacional a prospecção) e esses casos de estrangeiros que são apostas de futuro. A partir dos 18 até aos 20 – e fim da etapa lógica na equipa B – entende-se a contratação pontual de um Pité, por exemplo, que demonstre potencial real a um nível competitivo já profissional, mas o resto deve vir directamente dos escalões base para alimentar a primeira equipa.

Esta claro que a ideia não é nova e ninguém a tem explorado melhor que a Udinese mas o certo é que todos os grandes europeus têm feito isso na última década e meia.
Foi assim que Messi chegou a Barcelona, Fabregas ao Arsenal, Piqué, Pogba e Januzaj ao Manchester United, etc. Os grandes clubes europeus têm-se dedicado a essa prospecção a fundo, filtrando cada vez mais o talento que dispõem. Só que há mercados ainda por explorar e há jogadores que entendem que mais vale fazer a formação num clube médio do que num clube grande. Menor concorrência, maior facilidade de chamar a atenção são motivos de sobra,
Por isso, para um clube como o FC Porto, o modelo a seguir é simples. Os jogadores são seguidos nos torneios juvenis pela nossa excelente rede de scouting a nível mundial, sabendo que muitos dos melhores não estão ao nosso alcance. Aos restantes, os seus respectivos clubes são abordados para negociar o empréstimo de um  ou dois anos com opção de compra. Se o jogador demonstra valer o investimento, activa-se a compra definitiva e acaba-se a formação em casa (outro ponto a favor à medida que as restrições impostas pela UEFA nesse campo vão aumentando).

Riscos e beneficios
Estes não são jogadores de tostões.
Os clubes de onde vêm sabem disso e negoceiam bem. Para a sua idade e experiência são caros. E até agora não há provas de sucesso desde que o processo começou com Kelvin, Atsu, Ba e Kadu já nos dias de AVB e Vitor Pereira. No total chegaram já cerca de 15 futebolistas nessa modalidade para a equipa B e juniores nos últimos anos. A taxa de sucesso é, até ver, reduzida. Um golo que valeu um titulo (Kelvin) e um extremo que quis sair antes de "explodir" (Atsu.) É no entanto interessante entender que esses jogadores, quanto mais novos chegarem, menor deveria ser o custo.
Kayembe custou mais de 2,5 milhões de euros ao clube. Lichnovsky 1,9 milhões (e já se vendeu 45%). Caballero custou cerca de 1 milhão. São 6 milhões em jogadores que não têm tido minutos na equipa principal. O investimento tem de caminhar para a redução do risco controlado. Depois destes exemplos (e de Victor Garcia e Pavlovski)  recentemente tanto Gudiño e Leonardo Ruiz chegam com opção de compra em valores que superam o milhão de euros.
E há também Siemann, Lumor, Johansen, Elvis, Chidozie, Ezeh, Fede Varela, os irmãos Djim, Anderson Dim, tudo apostas de baixo custo para trabalhar em casa. Com a esperança de que saia, entre vários, uma pérola que justifique o projecto.



Tanto para os empréstimos como opção de compra como para as contratações de jovens sub19 a valores inferiores ao milhão de euros, o sinal é o mesmo. Esperar, desenvolver e (forçosamente) apostar para tentar rentabilizar. No caso dos empréstimos a situação é ainda mais evidente. Depois de um ano no Porto é fácil entender se há potencial real ou não e o risco de activar opção de compra é sempre menor. Menor do que apostar num Quintero ás cegas, por exemplo, ou num contentor de jogadores para encher. Este processo é largo e só agora começou pelo que os resultados vão demorar a fazer-se sentir na primeira equipa. Muitos destes jovens chegarão com idade de juvenil ou júnior, terão de passar pela equipa B, talvez ser emprestados e só depois chegarão ao plantel principal. Três a seis anos como disse. É um risco porque é muito tempo para um clube que pode, entretanto, ficar sem a referencia presidencial. Mas sem dinheiro para investir, sem fundos a que recorrer e sem possibilidade de crescer à sombra dos Real e Barcelona, esta é uma das soluções mais lógicas.

Tornar a primeira equipa mais sustentável a nível de custos de salários e aquisição de passes e manter viva a possibilidade de manter-nos atentos aos “Jacksons” do mercado. Também é certo que pode implicar um menor investimento na primeira equipa a curto prazo (e de aí os empréstimos) e uma perda de competitividade (vide caso Lyon).
No entanto, a possibilidade de ter vários elementos de um onze formados em casa (ainda que venham dos quatro cantos do Mundo, pagos a bom preço, mas com quatro ou cinco anos de Olival) é talvez o melhor cenário de futuro para o FC Porto.   

sábado, 4 de abril de 2015

Prospecção mundial sub19, um passo inevitável Parte I

Qual é o futuro do FC Porto agora que parece evidente que os Fundos vão desaparecer (até encontrar forma de se transformar em algo novo) e o clube vai ter menos opções para vender a clubes das grandes ligas por cifras milionárias quando o cerco do FFP vai apertando?
Uma das respostas possíveis – há sempre mais do que um caminho – já se vai dando com as políticas de contratação do clube. Não para a primeira equipa mas para os sub19 e a equipa B. Formar antes, formar melhor e formar jogadores vindos dos quatro cantos do Mundo.

Uma política difícil de sustentar
Desde 2004 que o FC Porto se especializou a ser um dos clubes que melhor vende no mundo. Até a Gelsenkirchen conseguíamos vendas excepcionais mas eram mais fruto do valor per se dos jogadores (Futre, Jardel, Zahovic, Baía, Couto) do que parte de uma política pensada pela direcção.

O pos-Champions mudou tudo. O clube passou a investir mais do que nunca em passes – sobretudo nos chamados contentores de sul-americanos – mas também encontrou mercados periféricos onde vender caro. Começou na Rússia (Derlei, Maniche, Costinha, Thiago Silva), seguiu para Inglaterra (onde Mourinho já por lá andava com escolhas pessoais da sua equipa campeã) e Espanha graças á mediação de Jorge Mendes (Anderson, Pepe, Meireles) e aproveitou-se dos novos oligarcas mais recentemente (Moutinho, Falcao, James, Hulk). Tudo isso foi feito a partir do pressuposto que havia equipas – e presidentes – dispostos a pagar muito e bem pelos nossos melhores jogadores. Isso acabou. Para o bem e para o mal o Financial Fair Play obrigou os clubes a medir muito bem os seus gastos e só mesmo a emergência de um clube do nada que tenha tudo para acabar mal pode abrir na Europa uma válvula de escape.

Sem haver quem ponha, em regra, mais de 30 milhões na mesa por um jogador, urge pensar duas coisas. Se é mais difícil vender caro, deve-se vender bem. E se ninguém paga demasiado por um jogador nós devemos pagar menos ainda. Porque sim, o FC Porto tem vendido muito em jogadores mas também paga mais do que nunca pagou e a margem de lucro vai-se reduzindo progressivamente. Ainda somos capazes de apanhar algumas gangas no mercado mas o que custou Danilo, Alex Sandro, Jackson ou Brahimi (onde só poderemos comprar até 55% do passe, o resto é da Doyen) fará com que as suas respectivas e inevitáveis vendas rendam muito menos do que um Falcao, James e afins há uns anos atrás.

Financial Fair Play e adeus aos Fundos, um problema sério
O FFP foi criado para estabelecer uma espécie de equilíbrio entre grandes e pequenos mas são os “pequenos” vendedores como o Porto (e o Benfica, o Lyon, o Sevilla, a Udinese ou o Ajax) quem mais vão sofrer com isso. O final dos Fundos servirá apenas (de momento) para rematar o morto. Os Fundos nunca irão desaparecer. É altamente provável que regressem os clubes fantasma onde os Fundos inscrevem os jogadores para depois jogar com eventuais empréstimos, vendas a 50% do passe, etc. Mas o grande beneficio dos Fundos era a liquidez financeira que geravam e isso sim vai começar a desaparecer. Os grandes clubes – com as suas gigantescas Academias – vão-se aproveitar disso e ocupar o vazio enviando os seus activos a valorizar emprestados a esses mesmos clubes. Não lhes dão cashflow para investir mas oferecem jogadores de qualidade.



Para o clube que recebe os jogadores o negócio é dúbio. Ficam com a qualidade, sim, mas sabem que é um negócio sem futuro e entram num ciclo vicioso (o FCP está nesta posição, por exemplo, a partir do momento em que se confirme que depois de Casemiro voltar a Madrid venha agora Lucas Silva fazer o mesmo) enquanto que os grandes não só aligeiram a ficha de salários, como mantêm jogadores seus a render desportivamente. Sem os Fundos os clubes têm de encontrar caminhos alternativos. O FC Porto optou pelo mais fácil no momento, mas o de menor margem de sobrevivência. Decidiu seguir por aí por vários motivos mas um deles, evidente, foi a ausência de uma formação de nível a que recorrer.

O fracasso do projecto Visão 611 foi evidente para todos e foi preciso fazer um reboot na ideia. Para que surjam jogadores de nível terão de passar uns bons 3 a 6 anos. Muito tempo. Até lá o clube tentará tapar os problemas com decisões a curto prazo como os empréstimos. Não é caso único. O Sevilla tem feito o mesmo com bons resultados para a dimensão do clube. Mas tudo isso terá, mais tarde ou mais cedo, de acabar. E é aí onde entra a opção que a SAD parece estar a tomar, a de gerar talento em casa para depender ao mínimo de variantes externos. Mas não um talento pescado nas ruas de Amarante, Gondomar ou Espinho. Talento analisado escrupulosamente pela nossa scouting network a nível mundial que devemos captar muito cedo para que esse mesmo jogador, dois ou três anos depois, não custe o triplo. Conseguir um Danilo, um Anderson ou um James três anos antes da idade em que os contratamos para garantir o talento pagando muito, muito menos. Esse é o objectivo. O como na segunda parte!

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O futuro essencial da nossa formação nacional

O FC Porto nunca foi uma grande potência nacional em formação de jogadores. Sempre tivemos algumas posições onde fizemos escola (guarda-redes, centrais, sobretudo) mas nunca vivemos à sombra da fama que outros clubes tiveram com os seus "fabulosos" projectos de formação que em muitos casos foram fogos de vista. No entanto, a marca de jogadores à Porto, sobretudo recrutados e formados na região do Grande Porto sempre fez parte do nosso ADN, particularmente após a chegada de Pinto da Costa à presidência do clube. O FC Porto quer ter os melhores, seguramente, mas também quer - ou melhor, queria - ter os melhores no espaço físico que mais depressa se identificava com o clube. 

Foi com essa politica desportiva que se trabalhou muito e bem durante os anos oitenta. O FC Porto tinha uma excelente equipa de olheiros espalhados pelo país mas concentrados essencialmente na região Norte. Os jogadores estrangeiros que aterravam nas Antas eram, quase sempre, recomendações de empresários e não fruto do trabalho de prospecção. Foi graças a isso que as camadas jovens dos Dragões se encheram de jovens promessas que marcaram a geração do Penta, a dos Vitor Baía, Fernando Couto, Jorge Costa, Jorge Couto, Rui Filipe, Domingos Paciência, António Folha, Rui Jorge, Paulinho Santos que sucederam aos André, Jaime Magalhães, Fernando Gomes, Rui Barros ou Lima Pereira de outras eras. 
Esse modelo de gestão, complementado por alguns dos melhores jogadores estrangeiros da liga (os Drulovic, Zahovic e companhia) e alguns estrangeiros de grande qualidade como apostas certeiras da direcção (de Kostadinov a Jardel) funcionou até ao virar do século em que o abandono da formação se tornou evidente. Desde o ano 2002 que o FC Porto deixou de produzir jogadores de elite para passar a ser exclusivamente uma marca de importação. Primeiro de consumo nacional no biénio de José Mourinho (Maniche, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Bosingwa, Raul Meireles, César Peixoto, Ricardo Fernandes, Pedro Mendes) para depois passar a ser exclusivamente um projecto de consumo externo. Desde 2002, quando Hélder Postiga se estreou na primeira equipa, os jogadores da formação quase que se tornaram personas non gratas para o Clube. 
Seguiu-se, brevemente, Hugo Almeida e Bruno Alves, hoje já instalados na casa dos 30, e depois as sucessivas gerações desaproveitadas dos Bruno Vale, Zé António, Ivanildo, Vierinha, Paulo Machado, Hélder Barbosa, Candeias, Ventura e companhia.

Qualidade pobre dos jogadores, poucos minutos na equipa A, predilecção por estrangeiros de qualidade duvidosa, falta de trabalho competente na base?
Tudo está certo e ainda sim tudo é manifestamente insuficiente para explicar a razia de jogadores da casa na primeira equipa. A criação do Projecto Visão 611 deveria servir para mudar a situação mas acabou por piorar ainda mais o esquema. Enquanto o Sporting se consolidava internacionalmente como a "cantera" por excelência do futebol português e o Benfica ia, pouco a pouco, "recrutando" alguns dos melhores olheiros e técnicos do Sporting para desenvolver o seu projecto, no Olival tudo continuou na mesma. Paralelamente o clube tem investido bastante em recrutar jovens promessas sub-18 espalhadas pelo Mundo. 
Sul-americanos (Kelvin, Victor Garcia, Caballero, Roniel, Elvis, Lichnovsky), europeus (Pavlovski, Djim, Johanssen) e africanos (Ba, Atsu, Mikel, Kaymbe) foram sendo integrados aos escalões de formação e à equipa B. Ainda nenhum com resultados excepcionais mas que dão conta de uma clara tendência de gestão. Parece-me, desde já, uma aposta extremamente inteligente da SAD. 
Não há dinheiro para continuar a gastar recorrentemente mais de 10 milhões de euros em Reyes, Herreras, Alex Sandro, Danilos ou Mangalas eternamente e fintar um mercado cada vez mais caótico e lotado de candidatos que oferecem melhores condições do que nós (o caso Bernard é exemplar) e descobrir essas promessas uns anos antes pode supor um desembolso infinitamente menor e um lucro desportivo e financeiro maior a médio prazo. É uma aposta sensata, inteligente e que seguramente dará frutos no médio prazo. Mas é insuficiente. 

O FC Porto não deve nem pode continuar a negligenciar o que devia ser o seu mercado primordial, o nacional. Num país capaz de produzir de forma surpreendente jogadores de elevada qualidade para a sua percentagem de população e atletas federados, Portugal é cada vez mais um mercado apetecível lá fora. Há olheiros de clubes franceses, italianos, ingleses e espanhóis a pescar futuros internacionais portugueses entre os 15-18 anos. Jogadores que podiam perfeitamente estar na nossa formação e que, inexplicavelmente, não estão. 
Bruno Fernandes, Marcos Lopes, Edgar Ie, Ruben Vezo são apenas exemplos de uma tendência crescente no mercado europeu. Paralelamente, enquanto é aceitável que seja difícil (e caro) recrutar atletas ao SL Benfica e Sporting, continua a não ser lógico que emblemas como o Vitória de Guimarães (Paulo Oliveira, Josué, Ricardo), Sporting de Braga (Rafa), Nacional da Madeira (Miguel Rodrigues) ou Maritimo (José Sá, Danilo) sejam capazes de produzir com regularidade jovens promessas e que esses jogadores escapem aos olheiros do FC Porto.


Tendo em conta os futebolistas portugueses que podem singrar na próxima década entre aqueles que contam com mais de 15 anos actualmente, o FC Porto conta com muito poucos. Rafa, Tozé, Tomás Podtawski e Gonçalo Paciência são as nossas melhores perspectivas de sucesso. Quase nenhum teve ainda minutos na primeira equipa nem convocatórias acumuladas. O Sporting pode apresentar, na mesma geração, jogadores que vão desde Ricardo Esgaio, Bruma (já transferido), João Mário, André Martins, Tobias Figueiredo a Alexandre Guedes, e o Benfica a Bernardo Silva, André Gomes, João Cancelo, Ivan Cavaleiro, Bruno Varela ou Nelson Oliveira.
Muitos desses jogadores entraram nos escalões de formação dos respectivos clubes entre os 14 e 16 anos, tendo antes feito a formação em clubes onde os olheiros do FC Porto se podiam ter antecipado. André Gomes e Alexandre Guedes são casos ainda mais paradigmáticos. O primeiro passou pela formação azul-e-branca e foi dispensado. O segundo foi recrutado aos 15 anos pelo Sporting do Arcozelo de Vila Nova de Gaia, o mesmo concelho onde a equipa treina. Ter olheiros no Grande Porto - ou na Grande Lisboa - não deveria supor nenhum gasto particular para os cofres do clube e em contrapartida poderia reproduzir significativos lucros futuros. Ter um onze titular futuro com jogadores formados em casa tem vários aspectos positivos. Máximo lucro em vendas, maior prestigio internacional na formação, cimentar uma cultura de balneário local que ajuda a integração das contratações estrangeiras que foi perdido com as saídas de Bruno Alves e Raul Meireles e jogadores formados localmente em número suficiente para garantir a inscrição constante de 25 jogadores nas provas da UEFA.

Não se trata de maior ou menor bairrismo, de querer uma "sportinguização" do FC Porto ou de deixar de apostar naquele que tem sido o core business da SAD de forma compulsiva. Trata-se de reinventar uma fórmula ganhadora, algo que a SAD já está a fazer com a sua aposta em sub18 estrangeiros. O que não me parece lógico é que o maior clube português, que graças ao sucesso obtido nos últimos trinta anos tem agora adeptos espalhados por todo o território nacional e milhares de miudos desejosos de vestir a camisola azul-e-branca, continue a negligenciar de forma tão evidente a prospecção e o treino da sua própria formação nacional. O futuro do futebol português não é tão negro como os catastrofistas pintam e não é motivo para o clube abandonar totalmente a prospecção local por outros (e interessantes) mercados. Ter um onze nos próximos sete anos competitivo com meia dúzia de jogadores portugueses é perfeitamente possível. Como também o é com jogadores formados em casa se esses forem recrutados antes que os nossos rivais e directamente em clubes com um bom trabalho na área. Ter um novo Ricardo Carvalho, Rui Barros, Domingos Paciência ou Vitor Baía não é só altamente desejável. É também possível. Basta fazer as coisas bem!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Mudança de Paradigma!

O ex-seleccionador espanhol chegou ao Porto. Já tinha passado por clubes espanhóis de segunda linha. O seu perfil de formador e de saber liderar jovens era conhecido e, também por isso, foi uma aposta do clube. Pinto da costa deixou-lhe palavras de apoio: “Pode estar seguro que está num clube que lhe dará todas as condições e dirigentes do melhor que há em Portugal. Este é um projecto novo que procura um novo rumo”.

Estou a falar de Moncho Lopez.

Treinou o Gijon, o Breogan e um clube de basquetebol de Sevilha. Treinou a selecção espanhola durante pouco tempo (em 2002) e a selecção portuguesa antes de chegar ao FC Porto. A selecção portuguesa por si orientada ficou em último lugar do Grupo na qualificação para o Europeu de Basquetebol de 2011. Um fracassado.

No entanto o clube apostou forte no Basquetebol e o trabalho de Moncho deu frutos. Foi campeão em 2010/2011 pelo FC Porto (entre outras conquistas) e jogou a final de 2011/2012 contra o SLB. No final dessa época a SAD do Basquetebol entrou em declínio e... faliu. O FC Porto, no entanto, convidou Moncho para iniciar um projecto com o nome Dragon Force feito de jovens jogadores e começar do zero nos escalões secundários e este, contra todas as expectativas, aceitou. A partir daí o projecto Dragon Force é uma história de vitórias e de sucessos e disputa actualmente a final da Proliga com o Illiabum.

Salvaguardadas as devidas distâncias, o paradigma do negócio futebolístico também está a mudar e irá mudar muito nos próximos anos, principalmente para os clubes de países com Ligas mais fracas e crónica incapacidade de geração de receita, como é o caso português.

Às medidas do fair-play financeiro da UEFA (City e PSG poderão ter de pagar 60m€ cada) poderá juntar-se a breve trecho a proibição da co-propriedade de passes de jogadores. Assim, a opção pela formação e pela construção de equipas "à Porto", com jogadores formados na casa, faz mais sentido que nunca. Embora desconhecendo se tudo isto foi ponderado e assumido estrategicamente no Dragão, a verdade é que o FC Porto não tem actualmente condições para apresentar orçamentos de 100M. As contas estão como se sabe e é necessário assumir a mudança. Acredito que o clube e a SAD estão conscientes das suas limitações, nomeadamente a incapacidade de competir financeiramente com um poço sem fundo como o SLB e terão, por isso, tomado a decisão de contratar um treinador especialista na formação.


Neste momento a decisão tomada parece fazer sentido. O perfil de Lopetegui revela a escolha de um caminho diferente, moderno e ambicioso, representado pela escola espanhola. O facto de o contrato assinado com o treinador ser de 3 anos, algo pouco comum no FC Porto, indica também que esta é uma aposta forte de Pinto da Costa e Antero Henrique com um foco na formação.

A contratação foi um processo “à Porto”: tratada em sigilo, cirúrgica e com uma mensagem forte. E não menos importante: ocorreu ainda antes do final desta época desastrosa de forma a terminar com o desgaste moral provocado por sucessivas derrotas. O FC Porto disputará em Agosto a 3ª pré-eliminatória de acesso à Liga dos Campeões pelo que a preparação da próxima época terá forçosamente de começar mais cedo. Também por isso este foi o timing ideal.

Espero uma gestão do FC Porto mais disciplinada e menos propensa ao modelo de negócio impor/expor de jogadores que está a ficar saturado, é de alto risco e muito intensivo em capital. Os jogadores entram como mercadoria e comportam-se como uma mercadoria. Querem valorizar-se para poderem render noutros mercados (leia-se noutras Ligas). Assim não há colectivo que resista.

Que Lopetegui trabalhe e faça o melhor que pode pelo clube. Desejo-lhe a maior sorte do mundo.

domingo, 26 de maio de 2013

O impacto das inscrições na UEFA na formação do plantel

No seguimento do artigo de anteontem do José Correia sobre a formação do plantel, chamo (mais uma vez) a atenção para um factor que a maior parte do pessoal se esquece sempre quando se fala de (eventuais) saídas e entradas: as inscrições na UEFA (Liga dos Campeões).


Só temos 17 vagas livres - o que é extremamente curto, ate' porque:

1. se alguém se lesionar nao pode ser substituido na lista de inscrições até Fevereiro, e
2. em muitos casos é difícil ao treinador decidir já em Agosto quem é que vai dar mais jeito em Outubro ou Novembro.

Para além disso temos 4 vagas para jogadores formados no FCP, e mais outras 4 para formados em Portugal; e uma lista ilimitada de sub21 (se tiverem passado 3 épocas completas no FCP, o que cada vez é menos o caso com os ex-juniores).

Ora do plantel A actual so' Castro e Atsu cumprem a 'formação no FCP', e o segundo bem provavelmente está de saida, sobrando portanto Castro (se ficar) - e possivelmente Abdoulaye Ba, que se não cumpriu este ano 3 épocas antes de fazer 22 anos esteve muito perto disso. 

Curiosamente James cumpriu agora a 3ª época no FCP e antes de fazer 22 anos, o que quer dizer que a partir de agora é considerado como «formado no FCP»... mas a jogar no Mónaco.

Para além disso: com a saída de Moutinho, formados em Portugal temos neste momento Varela e (salvo erro, se não cumpre o critério será por muito pouco) Maicon.

Conclusão: é previsível que do plantel que acabou agora o campeonato, só iremos preencher umas 3 das tais 8 vagas condicionadas (o que seria um recorde pela negativa e condicionando imenso o treinador na LC). Quer isso dizer que estou convicto que a SAD e equipa técnica se irão ver compelidos neste defeso a:

1)     segurar Castro e Abdoulaye no plantel
2)     contratar um par de portugueses para ficar no plantel e não emprestar (por exemplo Licá? Quanto a Tiago Rodrigues duvido que não seja emprestado, mas quem sabe, até pela razão que aqui abordo), e
3)     promover um ou outro que seja prata da casa (emprestado ou da equipa B),  e atenção que por ex Sebá não conta nesta discussão por não ter sido formado no FCP; por exemplo parece-me quase certo que Tozé seja incorporado de vez

...de forma a preencher pelo menos mais 2 ou 3 dessas 8 vagas, chegando a um total de pelo menos cerca de 22 inscrições (mais uns quantos putos na lista B), o que já é muitíssimo mais «gerível».

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Resolver a questão da co-propriedade

«Se se proibirem totalmente fundos de investimento vai ser uma tragédia, vão matar o futebol português tal como o conhecemos hoje em dia, com a competitividade atual e com a capacidade para formar jogadores», garantiu Mário Figueiredo em declarações exclusivas à Agência Lusa.

Desde que escrevi aqui, na passada semana, sobre a problemática da extinção da co-propriedade, muitas têm sido as vozes que se têm igualmente levantado contra a medida. Alguns por oportunismo, outros por convicção. O que está claro é que a medida não é popular nos países afectados e não há na Europa um caso tão flagrante como o de Portugal e dos seus clubes.

As palavras do actual presidente da Liga são a mais pura verdade.
Significa isso que tem razão? Em parte, porque de certa forma, a necessidade dos clubes portugueses em recorrer de forma constante a este modelo deve-se também à sua péssima gestão financeira da última década. Se os clubes tivessem tido abordagens radicalmente diferentes das que tiveram, a situação não seria tão dramática. O drama é real, ninguém pense o contrário.

Clubes podem desaparecer, clubes podem perder o pouco que têm e mesmo os grandes minguarão, forçosamente, até encontrar forma de se levantar outra vez. Com este modelo permitiu-se que os clubes portugueses tenham ajudado da Liga Sagres a trepar ao quinto posto do ranking UEFA. Com este modelo permitiu-se vencer uma Europe League - com um semi-finalista e um finalista vencido no mesmo ano - mas também as boas performances europeias tanto em Champions League (2009, FC Porto, 2012, SL Benfica) como na Europe League (campanhas de Braga, a épica de 2011 e a semi-final do Sporting no ano passado). Ninguém duvida que as equipas que aí chegaram não o poderiam ter feito se tivessem de arcar com o 100% da ficha salarial mais o 100% dos passes dos seus jogadores. Com as dividas já acumuladas pelas principais instituições do futebol português, esse sobrepeso financeiro o que fará, não se iludam, é acabar com a competitividade desses mesmos clubes contra os rivais europeus.

Mas se Platini e Blatter conseguem aprovar a lei, que podem os clubes fazer?
O projecto está agora em discussão e diz-nos a experiência que demorará sempre um par de anos até ser aplicado. No caso da UEFA a ideia do Fair Play Financeiro, desde a sua divulgação até à sua aplicação, tardou mais de cinco anos enquanto que o 6+5 ainda está em discussão - por envolver a lei comunitária - enquanto que a utilização obrigatória de 6 jogadores de formação nacional no plantel de 25 na Europa (3 do mesmo clube) foi aplicada em três temporadas. Tempo providencial para clubes como o FC Porto adoptarem medidas urgentes a olhar para o futuro.



1) Aposta séria e inequívoca na formação.

É inevitável. O fim da co-propriedade vai impedir que o clube mergulhe em mercados estrangeiros com a mesma regularidade. Não se enganem. Muitas vezes a co-propriedade não é uma eleição nossa mas uma exigência de quem vende. Os empresários e fundos compram jogadores para sacarem lucro e quanto mais tempo detenham parte do passe, melhor. Caso este cenário acabe, o preço dos jogadores subirá porque a margem de lucro, forçosamente, será menor. Um James, a 100%, custará bem mais do que custa a 70%, não tenham dúvidas.
Para evitar esta realidade há que captar jogadores cada vez mais novos e fazê-los parte do nosso sistema de formação, como já fazem o Arsenal e o Barcelona há uma década e que também é uma das ideias por detrás do 6+5 que Platini quer aplicar.



2) Comprar nacional

O mercado português é o que é e um jogador na liga lusa vale sempre menos que um jogador das ligas sul-americanas ou europeias. É lei de mercado. Para poder deter a 100% o passe de um jogador ele tem de ser mais baixo e mais acessível. Lima, quando estava no Belenenses, poderia ter sido do FC Porto por muito menos do que se pagou por Jackson. Não quer dizer que seja melhor, quer dizer que no futuro, quando não exista tanto dinheiro disponível para jogar com os passes, será nesses jogadores que nos temos de focar.

3) Fim dos empréstimos entre clubes da mesma divisão

Uma ideia que esteve perto de se tornar real este Verão e que continua a ser fundamental para garantir que os clubes não possuem planteis de 50 jogadores para depois usá-los para manobras políticas de bastidores e garantem que esses jogadores permanecem nos clubes de origem.


4) Criar um lobby dentro da ECA.

Portugal não é o único país afectado por esta realidade. A co-propriedade envolve clubes sul-americanos mas também clubes do sul da Europa, de Espanha à Turquia, da Grécia a Itália passando por ligas como a romena, sérvia ou croata. É a realidade de uma Europa a duas velocidades.
O FC Porto, um clube com um peso institucional na Europa incomparável em relação aos outros clubes portugueses, deveria procurar dentro da ECA - European Club Association - construir pontes que exijam da FIFA e da UEFA outras medidas que, aplicadas ao mesmo tempo que o fim da co-propriedade, defendam a competitividade de clubes como o nosso. Medidas que podem ser, por exemplo:

- A aplicação definitiva do 6+5.
A UEFA tem encontrado problemas com a União Europeia porque estes entendem que não se podem restringir a cidadãos europeus a actuação em clubes dentro da UE. Mas o que podem é exigir que exista um máximo de 5 jogadores não-europeus no onze titular. Isso permitira que o mercado sul-americano e africano não seja exclusivo de uns poucos e se mantenha uma via livre para clubes como o FCP.

- Acabar com o Marketpool da Champions League e repartir os valores pelas ligas mais prejudicadas.
Actualmente há clubes de Inglaterra e Espanha que, eliminados na fase de grupos, acabam por ganhar quase tanto dinheiro com a Champions como se o FC Porto fosse campeão. Sem o Marketpool ou, pelo menos, desenhado noutros moldes, e esse dinheiro redistribuído os clubes poderiam encontrar um importante balão de oxigénio numa fase de transição. A medida não seria definitiva mas sim um mecanismo de solidariedade.

- Obrigatoriedade por parte da UEFA da venda colectiva de direitos televisivos
Esta medida não só tornaria a distribuição do dinheiro entre os clubes europeus mais equitativa como acabaria com o profundo desequilíbrio entre clubes no espectro nacional como também sucederia o mesmo no espectro europeu. A Bundesliga e a Ligue 1 são o melhor exemplo.

- Obrigatoriedade da UEFA em passar de 6 para 10 os jogadores de formação nacional no plantel europeu
Essa medida, que agora mesmo nos seria prejudicial, no futuro poderia ser uma tábua de salvação. Obrigaria os tubarões europeus a alinhar com 10 jogadores formados no seu país nos seus planteis europeus - que são, no fundo, os seus planteis anuais - e defenderia os melhores jogadores dos vários países europeus de ser alvo de constante cobiça. Se o clube apostasse nos primeiros dois pontos que mencionei e os restantes clubes europeus fossem forçados a fazer o mesmo, os jogadores sul-americanos, africanos, asiáticos ou de outros países da Europa não estariam concentrados numa dúzia de clubes forçosamente.

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Com estas medidas - ou metade delas pelo menos - teríamos um clube mais sustentável, mais financeiramente saudável, mais preparado para os desafios do futuro e igual de competitivo.

 É um processo longo, complexo e que acabaria com algumas das políticas de favores em que directivos da SAD têm sido tristemente protagonistas, com um certo compadrio com agentes, fundos e personagens externos à realidade do clube. Não existem gestões perfeitas nem clubes perfeitos mas encontrar um rumo auto-sustentável, com olhos para o depois de amanhã, seria uma jogada importante por parte da directiva e um sinal de que no Dragão há quem consiga ver para lá do imediato.