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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Chicago PD e a seleção do Bentinho

«Não tem nada a ver com o equipamento ser vermelho. A minha cor preferida ser o azul - do céu, do mar, do F. C. Porto - não faz de mim um touro que marra sempre contra o vermelho, da mesma maneira que amar o Porto e odiar o centralismo não me impede de achar Lisboa uma cidade muito bela.

Não tem a ver com o vermelho, mas a Seleção cada vez me diz menos. Quando começou o jogo com a Albânia, eu ia a meio do 2.° episódio do Chicago PD e não interrompi a gravação. Não perdi nada. Mais tarde, aos 52 minutos de jogo, se estivesse no relvado de Aveiro, fazia como o Pepe e dava os parabéns ao Balaj pelo magnífico golo que marcou. Não é de agora. O primeiro responsável pelo meu divórcio da Seleção foi o pateta do Luís Filipe Scolari, que hostilizou a nação portista ao não convocar Vítor Baía e perdeu o jogo inaugural do Euro 2004 por teimar em não usar como espinha dorsal da Seleção o Porto de José Mourinho, que acabara de ganhar a Champions com dez portugueses em campo.

A incompetência de Scolari, evidenciada pela proeza de com um equipa de luxo perder em casa a final do Euro contra a Grécia, foi no entretanto confirmada por um percurso imaculado de organizador de derrotas - foi despedido do Chelsea, atirou com o Palmeiras para a 2.ª divisão, proporcionou ao Brasil a suprema humilhação de levar 7-1 da Alemanha no seu Mundial - com a exceção do título de campeão nacional do Uzbequistão, ao comando do prestigiado Bunyodkor.

Após a tragédia Scolari (que deixou o nome associado a fraudes fiscais e às trafulhices do BPN) e o mal-entendido Carlos Queiroz, esperava-se que Paulo Bento conseguisse duas coisas: o apuramento para o Euro 2012 e reconciliação de toda a nação com a Seleção. Teve êxito na primeira, falhou a segunda.

Bentinho (assim era conhecido quando debutou aos 13 anos no Académico de Alvalade) não conseguiu despir o benfiquismo fanático da adolescência, nem ultrapassar o reconhecimento por o Sporting lhe ter dado os únicos quatro títulos (duas Taças de Portugal e duas Supertaças) do seu currículo como treinador, que não chega a encher uma página A4.

Em vez de fazer mais amigos e gerar consensos, Bentinho está sempre a arranjar inimigos, a fomentar divisões e a armar zaragatas. Divide, em vez de somar. Na gestão dos jogadores, é forte com os fracos e fraco com os fortes, dando a ideia de que quem manda não é ele mas Ronaldo. Na gestão da convocatória, dá a ideia de não ser o selecionador mas tão-só o zelador dos interesses de Jorge Mendes.

No discurso, irrita com frases arrogantes debitadas no irritante ritmo do Espanhol que lhe ficou da passagem por Oviedo. Na hora dos lenços brancos, Bentinho não compreende que é preferível sair pelo seu próprio pé do que ser empurrado - que é muito melhor que as pessoas se interroguem sobre os motivos que nos levaram a sair, do que perguntarem, impacientemente, por que é que que ainda não demos a vaga.

Bentinho não merece ter um salário de 1,5 milhões de euros por ano, o que equivale a receber em três meses e meio mais do que a média dos portugueses ganham em 35 anos de trabalho. Se persistir em não querer perceber que estamos fartos dele, não resta outra solução ao presidente da FPF senão despedi-lo - e pedir-nos desculpa pelo equívoco (que custará três milhões) de lhe renovar o contrato após a tragicomédia brasileira. A ver se daqui em diante todos nós, portugueses, podemos olhar a Seleção como Nacional e uma coisa nossa.»
Jorge Fiel
JN, 10-09-2014


Subscrevo, quase a 100%, esta crónica do jornalista Jorge Fiel (subdiretor do JN).
E só não o faço a 100% porque, à hora em que a “seleção do Bentinho” estava a defrontar os “briosos” albaneses, eu estava entretido a ver outro programa, que não o 2° episódio do Chicago PD…

Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A mitologia benfiquista

«Há muitos anos, os nossos antepassados inventaram deuses para explicar fenómenos - o vento e a chuva, o sol e a lua, o fogo e a tempestade, o dia e a noite - para os quais não tinham explicação, e organizaram religiões com o objetivo de influenciar os humores imprevisíveis da mãe Natureza. (...) os antigos egípcios arquitetaram uma narrativa religiosa bastante completa, onde, por exemplo, Rá, deus do Sol, cuspiu Shu, deus do Ar, e Tefnut, deus da Humidade. No panteão de deuses egípcios, Ísis encarregava-se dos seres vivos, mas nem o futuro (Osíris superintendia a todo o processo da jornada até ao Além) nem os sentimentos - Seth era a divindade que tratava do ódio - eram negligenciados.
Interesseiros, os gregos abriram espaço na sua mitologia para Hermes, deus dos comerciantes, a quem rezavam e dedicavam o sacrifício de animais, na tentativa de o satisfazer e melhorarem as vendas.
Coube aos hebreus o louvável esforço de racionalização desta confusão panteísta de adoradores de uma multidão de deuses. (...) fundação de uma religião monoteísta, em que um só Deus, todo poderoso, responsável por toda a Criação, que se ocupa em regime de acumulação de todos os pelouros - e a quem os fiéis podem recorrer seja qual for a índole da sua aflição.

Nove em cada dez dos seis milhões de benfiquistas refugiaram-se na religião para achar uma explicação para a esmagadora hegemonia portista no nosso futebol. Os panteístas atribuem as culpas a efeitos conjugados da ação malfazeja de alguns anjos e demónios, como Jesus (o Jorge), Vítor Pereira (o dos árbitros), Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa. Outros, monoteístas, optam por culpar apenas os árbitros por todas as suas desgraças.

Como portista e agnóstico compreendo a desorientação teológica que se apoderou dos benfiquistas. (...) Demonizar os árbitros e sacrificar animais à Fortuna (a deusa romana da Sorte) é o drama da mitologia benfiquista. Para voltar às vitórias, o Benfica tem de aprender com Minerva (a deusa romana da Sabedoria) a lição de que as vitórias portistas são filhas da combinação de talento com competência e muito, muito, trabalho. Só assim a sua fé no futuro terá fundamento.»
Jorge Fiel
JN, 11/05/2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A aldeia gaulesa da comunicação social

«O nó do problema reside na incapacidade demonstrada pelos nossos governantes – de Soares a Passos, passando por Cavaco, Guterres, Durão, Lopes e Sócrates – em sequer verem que o pecado original está na estratégia de concentrar todos os recursos na capital, na esperança que essa locomotiva reboque o resto do país, o que nunca acontecerá porque Lisboa já há muito que está desengatada das outras carruagens do comboio português.
Quando se está no Terreiro do Paço perde-se a perspectiva do resto do país, que passa ao estatuto secundário de paisagem (ou província). O resultado é o acentuar das desigualdades internas.
Quem olha para o país de fora de Lisboa já percebeu que a chave para o desenvolvimento consiste em repensar tudo e apostar numa cobertura equilibrada do território nacional.»
Jorge Fiel (JN, 27/12/2011)


«Na distribuição de recursos e de benesses, quem está próximo do Terreiro do Paço tem sempre direito a um maior quinhão; quem está próximo consegue influenciar as decisões; quem está perto consegue obter os cargos que, depois, determinarão os destinos do país, acentuando os desequilíbrios. (…) Foi assim sempre ao longo da história, tem sido assim desde o 25 de Abril. (…)
Para isso contribuiu, também, muita da classe política do Norte, que resulta desse modelo, e que sabe que a sua carreira depende, em larga medida, da sua subjugação aos interesses da capital. Tudo isso só é possível porque o Porto, em vez de se fazer voz diferente, e de representar o resto do país, também se imaginou capital. E, falhado esse processo inexequível, que morreu com o fracasso da regionalização, embrenhou-se em querelas, deixou-se ficar pelo queixume surdo, e não cuidou de se unir para fazer frente à afronta. Só assim se compreende que não se reconheça o papel único e motivador de instituições como o FC Porto. Só assim se entende que um putativo candidato à câmara da cidade critique o Metro do Porto. Só assim se percebe que a população, e em particular a sua elite, não exerça o poder que tem à sua disposição. Numa civilização em que o consumo é rei, estou à espera do dia em que um banco que faz a aquisição de outro, que era do Porto, e que obriga os seus trabalhadores portuenses a migrarem para a capital como alternativa ao despedimento, veja os portuenses acorrerem aos seus balcões para levantarem os seus depósitos. Quando isso acontecer, o dragão da cidade cantará de galo e, acredito, ninguém o calará.»
Rui Moreira (JN, 01/01/2012)


Os textos anteriores são extratos de crónicas recentes de Jorge Fiel e Rui Moreira, publicadas no Jornal de Notícias.

Com a “morte” por asfixia (financeira) do Comércio do Porto e do Primeiro de Janeiro, e os projetos ainda imberbes do Porto Canal e do semanário Grande Porto, o JN transformou-se numa espécie de aldeia gaulesa da comunicação social, sendo um dos últimos redutos onde ainda são denunciados os abusos centralistas e se podem ler cronistas desalinhados dos cânones ditados pela capital do ex-Império.

Contudo, se o JN se tornar demasiado incómodo, corre o risco de ser esmagado pelo poder imperial de Olissipo. Por exemplo, seria interessante que fosse divulgado o montante gasto em publicidade no ano passado, nomeadamente pelo Estado e ex-empresas do Estado (PT, EDP, …), em cada um dos jornais diários generalistas. Além disso, é sabido que Joaquim Oliveira (o dono do JN) vive em Lisboa, gosta de jogar golfe e tem interesses que vão muito para além dos jornais…

Sobram os consumidores, conforme salientou Rui Moreira no final da sua crónica de ontem. Somos nós, com as nossas decisões (escolha de um canal, compra de um jornal, etc.), que podemos ser a “poção mágica”, que dá força e ajuda o JN (e o Porto Canal e o Grande Porto) a resistir às “legiões imperiais”.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"Estamos fartos de ser chulados"

«Há alguns anos (não muitos), com os ânimos incendiados pela vã tentativa do estado-maior benfiquista de quebrar a hegemonia portista com manobras na secretaria, esteve em voga a palavra de ordem "Nós só queremos Lisboa a arder".

A provocação não caiu no goto da generalidade dos residentes na capital, pelo que amiúde alguns lisboetas, meus amigos ou conhecidos, perguntavam-me se também eu achava bem a ideia de pegar fogo à sua cidade.

"Não. Lisboa é uma bela cidade. O que defendo é o uso de uma bomba de neutrões, de modo a preservar o magnífico património edificado". Foi esta a resposta que formatei para dar nessas ocasiões. Quando a pergunta não é séria, sinto-me desobrigado de responder a sério.

Neste novo século, trabalhei oito anos em Lisboa, uma das mais bonitas cidades do Mundo, pela qual é muito fácil uma pessoa ter uma paixão fugaz e à primeira vista.

Estou imensamente feliz por o JN me ter proporcionado voltar a viver na cidade que amo e onde nasci, mas não posso negar que, de vez em quando, ainda sinto uma pontinha de saudade de alguns pequenos prazeres que Lisboa pode oferecer, como um fim de tarde no miradouro da Graça, petiscar ao almoço uma sanduíche de rosbife e um copo de branco no terraço do Regency Chiado, ou tomar o café matinal na esplanada da Ponta do Sal, em S. Pedro do Estoril.

Quando alguém é incapaz de diferenciar se estamos a falar em sentido estrito ou figurado, geram-se situações embaraçosas e terríveis mal-entendidos. Ninguém quer mesmo Lisboa a arder. O que queremos a arder, num fogo purificador, é a governação centralista que empobrece o Norte e desgraça o país.

O modelo centralista de pôr todas as fichas em Lisboa, partilhado por todos os partidos do arco da governação, é o responsável por 2000-2010 ter sido a pior década de Portugal desde 1910-20 - anos terríveis em que vivemos uma guerra mundial, golpes de Estado e a epidemia da gripe espanhola.

Na primeira década deste século, o crescimento médio anual da nossa economia foi de 0,47%, apesar do afluxo diário médio de seis milhões de euros de Bruxelas, que valiam todos os anos 2% do PIB.

Já ultrapassado pelo Alentejo e Açores, o Norte é a região mais pobre do país, apesar de ser a que mais contribui para a riqueza nacional, com 28,3% do PIB, logo a seguir a Lisboa e Vale do Tejo, com uns 36% enganadores, já que aí está contabilizada a produção feita noutras partes do país pelas grandes companhias nacionais e multinacionais com sede na capital.

Quando leio (ver página 2) que ao abrigo do famoso efeito de dispersão - uma vigarice inventada para desviar para Lisboa fundos comunitários - dinheiro destinado às regiões mais pobres está a ser usado pelos serviços gerais e de documentação da Universidade de Lisboa, dá-me vontade de ir para a rua gritar "Nós só queremos Lisboa a arder".

Não. Nós não queremos mesmo Lisboa a ser consumida pelas labaredas. O que queremos é dizer que estamos fartos de ser chulados e já é tempo de impedir que Portugal continue a arder em lume brando, por culpa de governantes incompetentes ou corruptos.»
Jorge Fiel
JN, 12/12/2011


Que grande artigo do Jorge Fiel!

sábado, 25 de julho de 2009

A vida e o futebol

Uma bela crónica de Jorge Fiel, com interessantes analogias futebolísticas, e que foi publicada no Diário de Notícias de 23/07/2009:

«Jardim Gonçalves, que também fez na vida muitas coisas de aplaudir, costumava dizer que não se devem tratar os filhos todos da mesma maneira, pois são diferentes uns dos outros. Usava esta imagem para explicar porque estruturou a oferta do banco em diversas redes, uma estratégia de segmentação reconhecida como uma das razões do rápido sucesso do BCP, o primeiro banco a perceber que Américo Amorim, o seu motorista e o director financeiro da Corticeira Amorim não podiam ser todos tratados da mesma maneira, pois tinham patrimónios e necessidades diferentes.

Quando contou num livro algumas das histórias da sua passagem dourada pelo FC Porto, José Mourinho declinou de uma forma ainda mais rica a regra de que é errado tratar os filhos todos da mesma maneira.
Conta Mourinho, que chamou Sicrano para uma conversa a dois, antes de o lançar pela primeira vez na equipa, e lhe explicou que não tinha de estar nervoso com a estreia. Mesmo que o jogo lhe corresse mal, era garantido que seria titular no fim-de-semana seguinte.
Já quando se tratou de anunciar a titularidade a Beltrano, o treinador avisou-o de que a estreia era uma oportunidade única. Se ele a desperdiçasse, bem podia pensar em ir tratar de vida, porque no Porto não teria futuro.
Mourinho é bem sucedido porque percebe como funciona a cabeça das pessoas que lidera e é capaz de adaptar a mensagem ao destinatário. Sabia que Sicrano reagia mal à pressão, por isso pô-lo à vontade. Sabia que Beltrano só conseguia elevadas performances sob pressão, por isso tratou de o pôr em tensão.

Os aspectos mais importantes e dramáticos da vida estão condensados num jogo de futebol, que é um compêndio onde se pode aprender a desembrulhar-nos neste mundo em acelerado mudança, em que as dez profissões mais procuradas em 2010 não existiam há seis anos. Pode aprender-se mais com um jogo de futebol do que numa aula de MBA.

Ao longo dos 90 minutos, um avançado raramente tem a bola mais de três minutos, durante os quais tem de decidir num segundo qual a melhor opção - driblar, passar ou rematar.
A rapidez na decisão é fundamental para sobreviver e prosperar num mundo em que se prevê que os actuais estudantes terão dez a 14 empregos diferentes antes de fazerem 38 anos.
Um bom médio não é o que falha menos passes (porque mal recebe a bola faz logo um passe curto, de pouco risco) mas aquele que cria situações de golo ao arriscar passes de ruptura.

Com o céu carregado de nuvens, a única coisa de que devemos temer é de ter medo de decidir, de falhar, e de arriscar. Não é a jogar para o lado que se ganham jogos. Só marca quem chuta à baliza – e não tem medo que o remate saia torto. O mundo não está para cobardes.»