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quinta-feira, 7 de maio de 2015

O estado natural das coisas!

Calabote e o estado natural das coisas

Esta não foi uma época perdida: esta foi uma boa época do FCP, dadas as profundas mudanças levadas a cabo. Com Mourinho e Vilas Boas, estivemos bem por cima. Não deu campeonato e a diferença está no SLB que encontrou no JJ o homem para liderar um projecto de continuidade que venceu a barreira da dúvida e recebe o apoio generalizado da mouraria vermelha. Todos os estorvos de JJ foram remetidos à sua insignificância.

Esta centralização do poder no treinador tem os seus perigos, mas JJ é uma figura consensual, como muito raramente aconteceu no futebol pátrio. A estrutura lisboeta acolheu os inputs do FCP e, hoje, está ao nosso nível, pelo menos. Para além disso, domina o Futebol como no antanho, ou quase.

O SLB recebeu benefícios arbitrais em quase todos os jogos, e o FCP na Luz não foi excepção. Aquela pretensa proposta que o presidente do SLB terá feito ao presidente do SCP de “partilha de campeonatos” é elucidativa da vontade de implantação da “situação” que dominou nos anos 60 e nos afastou da ribalta, até Pedroto. A dita proposta, constituiria a reposição do “estado natural das coisas” dos anos idos, ou seja: a atribuição do justo poder ao SLB, em reconhecimento do seu enorme mérito desportivo e força social. As vitórias seriam partilhadas generosamente com o SCP na proporção das forças em presença.

Ao FCP seria atribuído o papel de primeiro outsider a que caberia um triunfo de vez em quando, para alegar a malta e comprovar a bondade do sistema, e que seria concedido a bem da coesão nacional.

Naqueles anos de Calabote e Reinaldo Silva, a cada três campeonatos do SLB, correspondia um do SCP. O regresso ao “estado natural das coisas” seria nos tempos que correm um enorme “progresso”, porque ocorreria num quadro democrático que faria regressar a Lisboa os anos repletos de vitórias desportivas que os presidentes das camaras consagrariam com pompa e circunstância. A bem da Nação, pois claro.

Apesar de todos os colinhos, o SLB cresceu muito na era JJ o que muito o ajuda a consolidar a ideia que o “estado natural das coisas” acontecerá de forma gradual por mérito e força da instituição. Tão inevitável para eles como o rio que corre para o mar.

Lopetegui e Pinto da Costa

Salvo Adrián López, fomos capazes de contratar e criar uma equipa muito interessante. O investimento teve um bom retorno nesta época que está a findar com as receitas da CL. O risco no FCP decorre e acentua-se na execução de uma política menos certeira na gestão do futebol e que se constata (para quem não tem outros meios de prova) na demasiada rotação do plantel e das equipas técnicas. O FCP, no período “JJ”, teve como treinadores da equipa principal: Jesualdo, Vilas Boas, Vítor Pereira, Paulo Fonseca e Lopetegui. Este silêncio do FCP, relativamente à continuidade do actual treinador, poderá ser um sinal de incerteza que só gera instabilidade. Lopetegui tem dado o peito às balas como poucos e é mal amado internamente e odiado externamente.

A nossa querida comunicação social desanca forte e feio no homem e fez de Quaresma um mártir da sua incompetência. É certo que errou e se “perdeu” após o Bayern, mas compreende-se: foram-lhe exclusivamente assacadas todas as críticas e já se sabe que nestas fases os amigos minguam sempre. E há muito quem recorra ao: “eu previ, disse e escrevi...”, para atestar a sua ciência sobre a previsão das debilidades do actual mister. As duras críticas de comentadores alinhados (Porto Canal incluído) comprovam (a meu ver) as incertezas internas quanto ao seu futuro.

Obviamente, defendo a continuidade de Lopetegui, porque acho que é o homem certo para continuar a obra e construir um FCP suficientemente competente para combater a inevitabilidade do regresso ao “estado natural das coisas” do pontapé na bola cá do burgo. Tenho a certeza que Lopetegui saberá aprender com os erros que cometeu e espero que o nosso presidente não ceda à vox populi que exige sangue para salvar a honra por nada termos ganho esta época.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Reavivando o espírito Calabote

De vez em quando os portistas são “presenteados” com arbitragens vergonhosas que fazem lembrar os tempos desse monstro da arbitragem que dá pelo nome de Inocêncio Calabote. A última dessas arbitragens escandalosas tinha ocorrido em Barcelos, em 28/01/2012, quando Bruno Paixão apitou o Gil Vicente x FC Porto naquela que foi a última derrota do FC Porto para jogos na Liga. O Gil venceu por 2-1 com a preciosa ajuda da paixão de Bruno.

Nesse jogo de Janeiro de 2012 houve a registar (i) que o livre para o primeiro golo do Gil nasceu de uma falta inexistente, (ii) que Defour foi atingido com violência no nariz dentro da grande área gilista e que não foi marcado penalty contra os da casa, (iii) que o centro para a área portista onde Otamendi deu mão na bola (e nesse caso foi marcado penalty!) foi feito por um jogador em claro fora-de-jogo, e (iv) que o avançado Kléber foi travado pelo guarda-redes do Gil dentro da área, o que seria mais um penalty e que não foi marcado. Foram 4 lances críticos com influência directa no resultado.

Ao longo dos últimos quinze anos têm aparecido árbitros que teimam em reavivar o espírito de Calabote, com arbitragens tendenciosas e com erros (muito) grosseiros. A lista é longa e das suas performances temos dado nota no Reflexão Portista:


Agora temos mais um artista para fazer parte do quadro de honra do SLB: Rui Silva

No Domingo passado, na deslocação à Amoreira para jogar com o Estoril, em jogo da 5ª jornada da Liga, o FC Porto voltou a ser alvo de uma arbitragem habilidosa e tendenciosa, desta vez por parte desse Rui Silva, um indivíduo que já foi suspenso pela FPF por 20 meses no âmbito do processo Apito Dourado.


Desde cedo que o árbitro condicionou o comportamento e a exibição dos jogadores do FC Porto marcando faltas sem qualquer critério. Sempre que um jogador estorilista sentia contacto do adversário atirava-se para a “piscina”. O FC Porto tem mais de 20 faltas enquanto o Estoril nem chegou à dezena. Espectáculo lamentável de uma equipa de quem dizem maravilhas e mais lamentável ainda de um árbitro que se quer, naturalmente, imparcial. Num jogo com um resultado final equilibrado acaba por ser muito estranho que uma das equipas tenha cometido o triplo das faltas. O cúmulo de uma noite para esquecer (ou para relembrar) foi o penalty assinalado contra o FC Porto por mão na bola de Otamendi, quando este se encontrava completamente fora da grande área! Surgia assim o primeiro golo fantasma.


Aos 30 e aos 60 minutos o árbitro mostrou cartões amarelos a Mangala e a Alex Sandro, por faltas normais na disputa de bola, sendo decisões manifestamente exageradas e que condicionaram a posterior actuação destes jogadores. Aos 80 minutos veio o corolário de uma actuação brilhante, com o golo do empate do Estoril a surgir de um jogador que estava em posição irregular. E estava feito o segundo golo fantasma que deu um empate ao Estoril e deixou Marco Silva radiante. De notar que o treinador do Estoril chamou, com todas as letras, “fdp” a Paulo Fonseca, tendo o treinador do FC Porto optado por “dar a outra face”.

Uma noite de sonho para os cânones benfiquistas de arbitragem. Rui Silva terá a partir de agora, e à semelhança de Bruno Paixão, uma carreira fulgurante. Não admiraria muito que chegue rapidamente a internacional.
   

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O caso Calabote em livro

Hoje é apresentado o livro 'O caso Calabote', do jornalista João Queiroz, com prefácio de Álvaro Magalhães. A apresentação será feita por Rui Moreira e irá decorrer na Livraria Bertrand, no centro comercial Dolce Vita Porto, a partir das 17h30.

Em entrevista ao jornal i, João Queiroz refere que fez uma vasta pesquisa, em que analisou dezenas de jornais da época e fez questão de entrevistar as pessoas que estiveram ligadas à história.

O ano passado fiz uma pesquisa sobre este tema, que publiquei em 10 artigos no 'Reflexão Portista', onde fica claro que o designado caso Calabote é muito mais que um mero caso de arbitragem. Antes traduz o que era o futebol português há 50 anos atrás.

domingo, 22 de março de 2009

Lucílio presta singela homenagem a Calabote


Hoje, 22 de Março de 2009, completam-se 50 anos do célebre jogo Benfica-CUF arbitrado por Inocêncio Calabote, o árbitro que não conseguiu fazer do Benfica campeão apesar de ter feito todos os possíveis para que isso acontecesse. O outro obstáculo que acabou por se revelar intransponível foi o FC Porto que conseguiu vencer o seu jogo em Torres Vedras com três golos marcados que lhe permitiu sagrar-se Campeão Nacional 1958/1959 por desempate através de goal-average. Todo este episódio pode ser consultado aqui, no Reflexão Portista, devido ao excelente trabalho desenvolvido por José Correia.


O SLB (Sr. Lucílio Baptista) não ficou indiferente à comemoração dos 50 anos do episódio Calabote e, também ele, à sua maneira, quis participar na festa através de uma arbitragem tão ao seu jeito, na Final da Taça da Liga, marcando um penalty inexistente contra o Sporting que deu o empate ao Clube do Regime e lhe permitiu chegar à lotaria dos penalties para aí vencer o troféu. E assim se vê que passados 50 anos o SLB continua a vencer títulos com a ajuda dos árbitros. Foi uma bonita e singela homenagem de Lucílio ao seu grande inspirador na carreira na arbitragem, o lendário Inocêncio Calabote.



A análise do lance no Tribunal de OJOGO

“É bem assinalado o penalty que resulta no empate e provoca a expulsão de Pedro Silva?”

Jorge Coroado: “O penalty não teve razão de ser. O jogador utilizou o peito e não o braço. Equívoco grave com influência no resultado. Árbitro e árbitro-assistente deveriam ter-se entendido”.

Rosa Santos: “Não. A bola bate no peito do jogador do Sporting e é uma má decisão. Como tal, a expulsão também é errada, pelo que o Sporting foi duplamente penalizado”.

António Rola: “Pedro Silva jogou a bola com o peito, sem cometer qualquer infracção. Muito mal o assistente ao dar indicação para penalty, e mal o árbitro ao aceitá-la, pois cabia-lhe o último julgamento. Erro grave com influência no resultado”.


Já tive a oportunidade de denunciar aqui que esta competição não passa de uma enorme Farsa alimentada pelo “cola cartazes” Hermínio Loureiro e seus acólitos. Durante a competição muitos foram os exemplos de arbitragens miseráveis, tendenciosas, que alteraram a verdade desportiva ao longo da fase de grupos. Vimo-lo nos jogos Rio Ave x Sporting em que o clube lisboeta obteve o golo da vitória em claro fora-de-jogo e no Benfica x Belenenses em que o Bruno Paixão anulou um golo limpo ao Belenenses depois de já ter ignorado um penalty contra o Benfica. Este derby lisboeta foi um jogo escandaloso. Bruno Paixão (Lucílio não é caso único) continua a apitar jogos nas competições profissionais depois de anos e anos de péssimas e dolosas arbitragens. O FC Porto foi eliminado em Alvalade, depois de estar a vencer por 1-0, quando Carlos Xistra inventou 2 (dois!) penalties para o Sporting virar o resultado do jogo. Tenho muitas dúvidas que sem essa dádiva os sportinguistas, desorientados, conseguissem sequer empatar o jogo. E assim chegaram Sporting e Benfica à final.

O objectivo de Liga e Sponsor televisivo era claro: conseguir uma final entre os clubes da 2ª Circular para assim exultarem com “o verdadeiro clássico dos clássicos” como foi possível assistir à cansativa publicidade na comunicação social nos últimos dias. Com as arbitragens declaradamente tendenciosas a favor dos clubes de Lisboa, os estádios vazios, os erros na elaboração do regulamento e o resultado da Final gravemente influenciado pelo árbitro é caso para dizer com toda a certeza que esta competição foi uma Farsa. Só é pena que os patrocinadores, em particular a Carlsberg e a Unicer, não se tenham dado conta que não deviam ter financiado uma nova competição de uma instituição dirigida por miseráveis e incompetentes.


O Sporting acabou por pagar na Final o facto de ter sido conivente (e beneficiado) durante anos e anos com as arbitragens de Lucílio ‘Calabote’ Baptista, principalmente nos jogos em que defrontou o FC Porto. Talvez (ou provavelmente talvez não!) os calimeros consigam tirar daqui algumas lições do que não devem repetir no futuro. E talvez agora entendam que foram (e são) bastante prejudicados pelo Apito Encarnado, que continua a ser a mais efectiva e poderosa teia de interesses (transversal a Polícia, Ministério Público, Clubes, Árbitros e Comunicação Social) no futebol português.

O caso Calabote (X)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF
II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa
IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense
V. Deus deu o campeonato à melhor equipa
VI. Um Gama avermelhado na baliza da CUF
VII. Treinador do FC Porto comprometido com o SLB
VIII. Jornalistas de ‘A Bola’ lamentam título ganho pelo FC Porto
IX. Atraso inicial, penalties e descontos

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X. As mentiras e irradiação de Calabote


«A Comissão Central de Árbitros decidiu pedir esclarecimentos ao árbitro sr. Inocêncio Calabote sobre certos passos do relatório do jogo Benfica-CUF (...). Naquele seu documento, o sr. Inocêncio teria declarado que o jogo principiou às 15h, terminado a primeira parte às 15:45h. No que respeita à segunda parte, concedeu dois minutos como compensação de tempo perdido, registando o fim do encontro às 16:42.»
Jornal de Notícias, 26/03/1959


«Finalmente o sr. Inocêncio Calabote respondeu ao questionário que a Comissão Central de Árbitros lhe enviou, solicitando esclarecimentos sobre a cronometragem do jogo Benfica-CUF, no qual o referido indivíduo interveio como juiz da partida.
O sr. Calabote limitou-se a dar uma resposta ultra-sintéctica, afirmando que no seu relógio eram precisamente 15 horas quando deu o início ao jogo. Isto é, confirmou as declarações que redigiu no boletim.»
Norte Desportivo, 09/04/1959


Quer no boletim oficial do jogo, quer na resposta ao questionário que a Comissão Central de Árbitros lhe enviou, Calabote afirmou: “O jogo principiou às 15h e a 1ª parte terminou às 15:45. A 2ª parte começou às 15:55 e terminou às 16:42 (dei 2 minutos de compensação)”.

Ora, facilmente se provou que o Inocêncio estava a mentir descaradamente. Havia testemunhas? Sim, milhares de pessoas que no campo das Covas (nome do campo do Torreense) tinham ficado cerca de 15 minutos à espera que terminasse o Benfica x CUF e centenas de milhares de pessoas, que acompanharam o relato dos dois jogos feito pela Emissora Nacional.

Sabendo que seria facilmente desmascarado, o que levou Calabote a mentir de forma tão flagrante no boletim oficial do jogo e, posteriormente, a insistir nessa mentira?
Quem é que Calabote procurou proteger, com o harakiri ético-desportivo que cometeu?

Uma das primeiras pessoas a desmascarar Inocêncio Calabote foi precisamente um dos seus fiscais de linha, o qual, no âmbito do processo disciplinar que foi instaurado, diria o seguinte:

«Faltariam aproximadamente dois minutos para as quinze horas quando entrou a equipa do Benfica. Havia numerosos fotógrafos dentro do campo para fotografar a equipa. Isto deu lugar a uma certa demora, tendo o árbitro procurado que os fotógrafos abandonassem o campo. Isto fez com que o jogo principiasse uns três minutos, aproximadamente, depois das quinze horas.»
Manuel Fortunato, fiscal de linha de Inocêncio Calabote

Em 12 de Outubro de 1959, o ‘Mundo Desportivo’ refere: «O árbitro Inocêncio Calabote, da Comissão Distrital de Évora, foi irradiado após conclusão do respectivo processo disciplinar».

Três dias depois (15/10/1959), em entrevista publicada no ‘Norte Desportivo’, o Dr. Coelho da Fonseca, Presidente da Comissão Central de Árbitros (CCA), afirma:
é (...) um caso de ordem moral. Inocêncio Calabote fez uma coisa em campo, aliás controlada por toda a gente, e escreveu, precisamente, o contrário no boletim de jogo. Isto somado a uns tantos casos já passados com o referido árbitro levou-nos à decisão tomada.”

Saliento a referência a “tantos casos já passados com o referido árbitro”.

Em 7 de Novembro de 1959, ‘A Bola’ publicou uma outra entrevista do Dr. Coelho da Fonseca, em que este diz o seguinte:
Como é do conhecimento público, esse jogo [Benfica-CUF] principiou cerca de dez minutos depois da hora marcada e teve um prolongamento de cinco ou seis minutos. Tanto o atraso como o prolongamento não constituem, em si mesmos, ínfima matéria de culpa. O erro do sr. Calabote consistiu em pretender convencer-nos, contra as evidências dos factos, de que principiara o encontro às 15h precisas e de que o prolongara por dois minutos apenas. É aqui, nesta atitude escudada e incompreensível, que o antigo árbitro eborense deixa de merecer a confiança do público e da CCA”.


Em 1991, 32 anos depois de ter sido irradiado, Calabote ainda não mostrava arrependimento pelos seus actos como árbitro, nem pelas mentiras despudoradas que disse e escreveu.
Numa entrevista que deu sobre o caso, o "inocente" Calabote afirmou:
«Na manhã seguinte, em Évora, preenchi o relatório do jogo, que mandei para a Comissão. Tinha assinalado três penaltis e expulsado três jogadores da CUF. Creio que não houve mais nada de especial a registar. (...)
Em 1958/59, a presidência da Comissão Central de Árbitros, por força da rotatividade do cargo ou de qualquer coisa no género, foi parar às mãos do Belenenses, então um dos quatro grandes, na pessoa do Dr. Coelho da Fonseca.
O presidente anterior veio a Évora avisar-me um belo dia: 'Você ponha-se a pau, que a Comissão que entrou vem com intenções de o irradiar', disse-me ele, o Gameiro Pereira. Queriam vingar-se.

Logo de seguida, depois do tal Benfica-CUF, alegando má-fé minha no preenchimento do relatório do jogo – que teria começado não sei quantos minutos depois da hora, que teria tido um intervalo maior que o devido e um prolongamento excessivo também –, o Dr. Coelho da Fonseca abriu-me um inquérito e não descansou enquanto não conseguiu que me fosse aplicada a pena de irradiação da arbitragem.
Ao fim de 22 anos de bons e leais serviços, conseguiram pôr-me na rua alegando um pretenso erro meu de cronometragem. E se escrevi no relatório que prolonguei a partida durante quatro ou cinco minutos foi porque entendi que o devia ter feito e porque foi esse o tempo que o meu relógio realmente marcou. E qual é o relógio que conta?»

Enfim, para o Inocêncio tudo absolutamente normal... e, provavelmente, naquele tempo até era...
"22 anos de bons e leais serviços"?
Sobre isto não tenho a mais pequena dúvida.

Relativamente à "rotatividade do cargo ou de qualquer coisa no género", afirmação de Calabote referindo-se à presidência da Comissão Central de Árbitros, vale a pena perceber quem eram e como é que estas coisas eram feitas.

Filipe Gameiro Pereira (o dirigente da arbitragem amigo de Inocêncio Calabote que o foi avisar a Évora...) era um ex-árbitro, filiado na Associação de Futebol de Lisboa, entre 1931 e 1950.

Filipe Gameiro Pereira nas filmagens do filme 'O Leão da Estrela'

De 1950 a 1953 foi secretário-geral da Comissão Central de Árbitros por nomeação da Federação Portuguesa de Futebol e, de seguida, foi presidente da mesma Comissão durante cinco anos nomeado pelo... Governo (Ministério da Educação)!

No número 14 do Boletim ‘O Árbitro’, referente ao mês de Agosto de 1958, Filipe Gameiro Pereira escreveu um artigo no qual se despede do cargo de dirigente da Comissão Central de Árbitros, que exerceu durante oito anos.
Por curiosidade, nas Notícias Regionais do mesmo Boletim era destacada a palestra proferida pelo Tenente-Coronel Ribeiro dos Reis (lembram-se dele?) na Comissão Distrital de Árbitros de Lisboa. Eram todos amigos do peito…


No Boletim ‘O Árbitro’ Nº 15, referente ao mês de Setembro de 1958, é dado destaque à sucessão na presidência da Comissão Central de Árbitros, com a entrada de Coelho da Fonseca para o lugar de Filipe Gameiro Pereira.

José Coelho da Fonseca era um ex-Presidente do Belenenses (foi Presidente dos três órgãos do Clube, Assembleia Geral, Direcção e Conselho Fiscal) e, para além da presidência da Comissão Central de Árbitros, foi também Presidente da Associação de Futebol de Lisboa.

Percebem porque razão era quase impossível a um clube que não fosse da capital do Império ganhar o campeonato?

Inocêncio João Teixeira Calabote, árbitro da Comissão Distrital de Évora, foi considerado e premiado pela Comissão Central de Árbitros, «pelo Desporto e a Bem da Nação», como o melhor da época 1952/53.
Para premiar o "excelente" desempenho que tinha dentro de campo, Calabote foi indicado à FIFA como árbitro internacional em 1953/54 e 1956/57.

Numa entrevista concedida ao jornal A BOLA, em 26/03/1955, o presidente da Comissão Central de Árbitros da altura, o lisboeta Filipe Gameiro Pereira, referiu-se ao Inocêncio como «do melhor que tem passado pelo sector da arbitragem».

Enfim, foi com árbitros deste calibre, sempre devidamente premiados pelos dirigentes do BSB que rotativamente ocupavam os lugares na Comissão Central de Árbitros, que se escreveram quatro décadas da história do futebol português.


P.S. Hoje, 22 de Março de 2009, completam-se 50 anos desse tristemente célebre Benfica x CUF arbitrado por Inocêncio Calabote. Com a publicação deste artigo termino a viagem a um dos casos mais polémicos da história do futebol português (como lhe chamou o ‘Record’), o qual, conforme ficou evidente, é muito mais do que um mero caso de arbitragem.

Fontes:
[1] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008
[2] ‘Carta de Adriano Lima a Rui Moreira’, dragaodoente.blogspot.com, 2008
[3] Blog de Alberto Helder


Fotos: Record, Alberto Helder

quarta-feira, 18 de março de 2009

O caso Calabote (IX)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF
II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa
IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense
V. Deus deu o campeonato à melhor equipa
VI. Um Gama avermelhado na baliza da CUF
VII. Treinador do FC Porto comprometido com o SLB
VIII. Jornalistas de ‘A Bola’ lamentam título ganho pelo FC Porto

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IX. Atraso inicial, penalties e descontos

«(...) foi à custa de uma grande penalidade inexistente que os lisboetas conseguiram marcar o segundo tento. Cavém foi de facto obstruído (...) a falta só exigia livre indirecto. (...) Talvez por isso o sr. Inocêncio Calabote tenha tido tanto cuidado na apreciação das faltas dos cufistas evidenciando o propósito de, a ter que se enganar, o fizesse em relação à equipa que nada sofresse com a derrota. Assim podem anotar-se-lhe frequentes erros de julgamento, benefícios do infractor e, para culminar, aquele exorbitante "penalty" que deu o segundo golo dos encarnados
Guilhermino Rodrigues, Mundo Desportivo, 23/03/1959

No Benfica x CUF os encarnados beneficiaram de três penalties (!) e mesmo os jornais de Lisboa, claramente afectos ao SLB, não têm dúvidas que o 2º penálti foi uma invenção do árbitro.

«Regular comportamento no julgamento das faltas. Só não concordamos com a segunda grande penalidade. A falta existiu, na verdade, mas só por ter sido executada fora de tempo. E porque não vimos irregularidade, tratava-se, quanto a nós, de um livre indirecto.»
in Record

Alfredo Farinha (esse mesmo), escreveu o seguinte em ‘A Bola’: «Quanto aos penalties, não temos dúvida de que o primeiro e o terceiro existiram de facto; dúvidas temos, porém, quanto ao segundo, pois Cavém, ao que se nos afigurou, não foi derrubado por um adversário, antes foi ele próprio que se descontrolou e desequilibrou

Acerca do árbitro e das grandes penalidades, o treinador da CUF, Cândido Tavares (antigo guarda-redes do Benfica), diria no fim do jogo:
Árbitro??... Não houve árbitro!... Só estranho que o senhor Calabote não tivesse arranjado uma quarta grande penalidade, nos últimos minutos”.

A propósito das polémicas entre Benfica e FC Porto e, nomeadamente do caso Calabote, Carlos Pinhão (pai de Leonor Pinhão), escreveu o seguinte em ‘A Bola’, de 08/09/1990:
«Recorda-se a [celeuma] de 1959, quando os portistas, em Torres Vedras, tiveram de esperar largo tempo que, na Luz, chegasse ao fim um Benfica-Cuf cheio de penalties e… de minutos».

Outro jornalista de ‘A Bola’, Homero Serpa (pai do actual director, Vítor Serpa), escreveria:
«O árbitro era o Calabote – houve erros inaceitáveis na Luz, com uma sucessão de golos incríveis. O guarda-redes era o Gama, que seria substituído. Os jogadores do FC Porto ficaram no campo à espera que acabassem os golos na Luz».

Estes comentários de elementos históricos de ‘A Bola’, absolutamente insuspeitos de qualquer pingo de simpatia pelo FC Porto, são ilustrativos das anormalidades que se verificaram naquele Benfica x CUF.

De facto, para além dos três penalties, que foram muito contestados pelos jogadores e treinador da CUF, o desafio ficou também marcado pelo enorme desfasamento horário em relação ao jogo de Torres Vedras.

«Um golo marcado no último minuto por Teixeira valeu o Campeonato. Na Luz, por artes e manhas do pouco inocente Calabote, jogaram-se mais 12 minutos, mas em vão...»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA

Vírgilio, jogador do FC Porto, afirmou o seguinte ao Jornal de Notícias:
Pensava em ganhar, mas nunca julguei que custasse tanto. E já agora, um segredo: quando soube que o Benfica entrara em campo mais tarde 10 minutos para saber do nosso resultado, confesso que desanimei e julguei tudo perdido! Sabe o que nos valeu? Termos marcado muito tarde o segundo e terceiro golos!

Relativamente a tudo o que se passou durante o jogo, importa salientar que não havia transmissões televisivas que ajudassem a escrutinar as decisões dos árbitros. Havia, isso sim, os relatos que a Emissora Nacional transmitia e as crónicas dos jornais publicadas nos dias seguintes.

«Nesse dia eu estava no Restelo a assistir ao Belenenses-Sporting. Acabou o jogo e, depois, fiquei a ouvir o que se passava no Benfica - CUF, pela rádio, ouvindo a reportagem de Artur Agostinho para a Emissora Nacional. E ele ia dizendo que passavam dois, quatro, seis minutos... quando o jogo acabou, passavam oito minutos da hora.»
Dr. Coelho da Fonseca, presidente da Comissão Central de Árbitros

Ignorando o relato da Emissora Nacional e agarrando-se às crónicas de alguns jornais, nomeadamente de ‘A Bola’ e do ‘Record’, há benfiquistas que alegam que o Calabote “só” deu quatro minutos de descontos, dizendo que a restante diferença entre o final dos dois jogos – 12 minutos! – se deve ao propositado atraso da entrada da equipa do SLB em campo, de forma a poderem beneficiar do conhecimento do resultado em Torres Vedras.
Neste raciocínio está implicito que o árbitro do jogo Torreense x FC Porto não deu nem um minuto de descontos (o que, neste contexto, também importa destacar).

Convém também salientar que ao contrário do que se passa agora, em que é habitual haver jogos com 3 ou 4 minutos de descontos (devido às instruções que os árbitros têm da FIFA), na altura isso era muito raro. Havia apenas uma substituição, não havia cartões amarelos e o guarda-redes podia passear com a bola na grande área, batendo-a no chão as vezes que entendesse. Tudo isto não era motivo para prolongar um jogo de futebol.

Para se ter uma ideia da polémica que os descontos causavam, em 1959 ainda se falava de um caso ocorrido três anos antes, em Fevereiro de 1956, num Lusitano de Évora x SLB da 18ª jornada da época 1955/56. Nesse desafio, o árbitro Jacques Matias permitiu que Ângelo marcasse o golo da vitória dos encarnados dois minutos para além da hora, ignorando por completo os sinais do seu fiscal de linha a indicar-lhe o final do tempo. Os benfiquistas marcaram e, então, sim, o árbitro de Setúbal deu o jogo por findo...

Mas voltando ao Benfica x CUF, para além dos 4 ou 5 minutos de descontos algo, repito, verdadeiramente excepcional para a época, o facto de haver benfiquistas que desvalorizam o atraso da entrada da sua equipa no relvado, feito de forma deliberada para daí tirar uma vantagem ilegítima (os regulamentos eram claros e diziam que os jogos tinham de começar à mesma hora), mostra a forma “ética”, “limpa” e “desportiva” como encaram o futebol. E depois ainda vêm falar dos outros...

(continua: As mentiras e irradiação de Calabote)

Fontes:
[1] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008
[2] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[3] ‘Carta de Adriano Lima a Rui Moreira’, dragaodoente.blogspot.com, 2008


Fotos: fpf.pt

sexta-feira, 6 de março de 2009

O caso Calabote (VIII)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF
II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa
IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense
V. Deus deu o campeonato à melhor equipa
VI. Um Gama avermelhado na baliza da CUF
VII. Treinador do FC Porto comprometido com o SLB

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VIII. Jornalistas de ‘A Bola’ lamentam título ganho pelo FC Porto

O jornal ‘A Bola’ foi fundado em Lisboa, em 29 de Janeiro de 1945, por Cândido de Oliveira, Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo. Os dois primeiros foram os mentores deste projecto jornalístico, enquanto que o médico Vicente de Melo suportou os custos, com um investimento inicial de cinco mil escudos.
Álvaro de Andrade, redactor do Diário de Lisboa, foi o primeiro director, dada a impossibilidade de Cândido de Oliveira, por ter estado preso no Tarrafal, e de Ribeiro dos Reis, por ser oficial do Exército.

Cândido de Oliveira é uma figura conhecida do futebol português e, inclusivamente, a Supertaça tem o seu nome mas, quem era Ribeiro dos Reis?

António Ribeiro dos Reis era natural de Lisboa, onde nasceu a 10 de Julho de 1896. Foi jogador de futebol, seleccionador nacional, treinador, Secretário Geral da FPF, dirigente da FIFA para o Sector da Arbitragem e jornalista desportivo. Seguiu também a carreira militar, passando à reserva em 1950 com a patente de tenente-coronel.

A 2 de Novembro de 1913, com 17 anos, disputou o seu primeiro jogo com a camisola do Benfica, onde permaneceu até terminar a carreira de futebolista em 18 de Janeiro de 1925.
Ribeiro dos Reis haveria de continuar ligado ao SLB, quer como treinador (o Benfica foi o único clube que aceitou treinar), quer como dirigente ocupando diversos cargos, entre os quais vice-presidente, capitão-geral e presidente da Assembleia Geral. É no desempenho deste último cargo que apoia a ascensão de Joaquim Ferreira Bogalho à presidência do clube, em 1952, e impulsiona o processo de recolha de fundos para a construção do Estádio da Luz.

«Em 9 de Janeiro de 1943 o Benfica homenageou António Ribeiro dos Reis. (...) O dr. Magalhães Godinho, em nome da comissão organizadora, abriu a série dos brindes, para fazer o elogio de Ribeiro dos Reis, oferecendo-lhe uma linda salva de prata, com a seguinte dedicatória: “O Sport Lisboa e Benfica ao capitão Ribeiro dos Reis, comemorando os seus 30 anos de actividade desportiva, orgulho e honra da colectividade e do desporto nacional, aos quais tem servido com lealdade e nobreza.”»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes'

Paralelamente à dedicação e empenhamento com que servia o SLB, o que lhe valeria a atribuição da Águia de Ouro em reconhecimento pelos serviços prestados, Ribeiro dos Reis era também um dos redactores principais de ‘A Bola’, jornal de que assumiu formalmente a direcção mal passou à reserva, tendo sido director durante 10 anos, entre 1951 e 1961.

O director de 'A Bola', Ribeiro dos Reis, entrega a Bola de Prata a Matateu

«A segunda jornada da Taça dos Campeões só se realizou em Fevereiro (1 e 26). O coronel Ribeiro dos Reis, director de ‘A Bola’ já não chegou a vê-la, nem assistiu ao segundo grande êxito do clube pelo qual tanto fizera, durante dezenas de anos. Faleceu em 3 de Dezembro de 1962 e o seu funeral saiu da Secretaria do Benfica para o cemitério dos Prazeres.»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A Bola


Estes factos dão o enquadramento e ajudam a perceber porque razão ‘A Bola’ é, desde a sua criação, uma espécie de jornal semioficial do SLB. A proximidade e ligação (inclusive afectiva) ao SLB é algo que está no ADN do jornal da Travessa da Queimada.

Ora, apesar de se saber por quem foi criado e qual é a linha editorial que ‘A Bola’ sempre adoptou, há “pérolas” que ainda nos conseguem surpreender, como é o caso da crónica do Benfica – CUF, escrita por Alfredo Farinha há quase 50 anos atrás.

Título de primeira página: “Jogo empolgante e dramático de um campeão malogrado”
Título no interior: “A equipa cufista queimou muito tempo!”

Excertos da crónica de Alfredo Farinha:
«Estava escrito! Estava escrito que o Benfica perderia o campeonato! Eram estas, no final do empolgante e dramático jogo da Luz, as duas frases que brotavam dos lábios de uma grande parte dos adeptos benfiquistas. Nem um grito de revolta, nem uma recriminação, nem um queixume. Apenas esta frase, dorida, magoada, impregnada de resignação e conformismo: "Estava escrito!".
Ela bastava, porém, para dizer tudo: para fazer justiça à grande e desafortunada exibição dos jogadores "encarnados"; para evocar as muitas oportunidades de golo perdidas por alguns dos seus avançados; para lastimar as atitudes de exacerbada hostilidade dos jogadores cufistas; para gritar o seu protesto contra a fatalidade de um campeonato perdido nos derradeiros instantes.
Mereceria o Benfica ter perdido este campeonato?
A pergunta talvez não tenha cabimento nas linhas desta crónica, que tem de cingir-se, apenas, aos acontecimentos do encontro da Luz. Calma e imparcialmente, porém, temos de convir que na medida em que a questão do título estava dependente do número de golos que o Benfica marcasse na Luz, os seus jogadores e adeptos têm razão para se sentirem injustamente despojados do triunfo final. É que, independentemente das circunstâncias em que decorreram os últimos minutos deste histórico domingo de futebol; independentemente mesmo do grande nível da exibição produzida pela equipa "encarnada", o Benfica poderia, deveria e merecia ter vencido a CUF por diferença superior a 6 golos.
(...) a CUF não jogou, exclusivamente para si, mas também para uma outra equipa (a do FC Porto) que estava á margem da luta travada na Luz. Se assim foi – e por legítima temos a presunção – cremos existir aqui um problema de ética, digno de, em melhor oportunidade, ser devidamente apreciado e analisado.
(...) Até que ponto é lícito a uma equipa defender, contra outra, de maneira ostensiva e contrária ás leis e espírito de jogo, os interesses de uma terceira? Não será esse procedimento tão incorrecto e anti desportivo como o inverso, isto é, o de facilitar, propositadamente, com o fim de prejudicar os interesses doutrem, a vitória do adversário? As perguntas aqui ficam, por ora sem resposta. Mas talvez valha a pena, em próxima oportunidade, tomá-las para tema de um artigo.»

A forma como esta crónica está escrita é de tal forma insidiosa que nem sequer é preciso dizer nada. A própria crónica fala por si e pelo “jornalista” que a escreveu.

As crónicas deste “jornalista” haveriam de encher as páginas de ‘A Bola’ durante décadas, mas a sua máscara iria cair em meados dos anos 90 quando, como representante do Benfica, participou no programa da SIC 'Os Donos da Bola' (ficou célebre uma emissão em que ia tendo uma apoplexia em directo, devido a uma das suas acaloradas discussões com o portista Manuel Serrão). Saliente-se que o responsável pelo programa ‘Os Donos da Bola’ era um outro ex-jornalista de ‘A Bola’ – Jorge Schnitzer.


Mas os lamentos devido ao título ganho pelo FC Porto não eram um exclusivo de Alfredo Farinha. Uns dias depois, outro dos históricos de ‘A Bola’ – Aurélio Márcio – assinava um artigo cujo título era: «O Benfica seria campeão em França e Inglaterra».

«O FCP conquistou o título por um golo, que tanto pode ser o de Teixeira como o da CUF. Em França e Inglaterra, porém, o SLB seria campeão, pois o seu quociente (3,9) é superior em relação ao do FCP (3,6) [o quociente corresponde ao total de golos marcados a dividir pelo total de golos sofridos].
Fazemos votos para que numa próxima reforma do regulamento geral da FPF se recorra todos os meios de desempate, menos aos jogos extra, que não condizem com o espírito da competição.»

É caso para dizer que é tudo farinha do mesmo saco...

Enfim, por mais que isso tenha custado ao director e aos jornalistas de ‘A Bola’, por mais que o Sistema da altura tenha tentado “fazer as coisas por outro lado”, o que é certo é que o FC Porto se sagrou campeão na época 1958/59.

A foto seguinte regista a imposição das faixas aos campeões nacionais, num jogo particular (de homenagem a Pedroto) contra o Futth EV da República Federal da Alemanha, disputado no antigo Estádio das Antas em 29/03/1959 (o FC Porto venceu por 4-1).

Campeões 1958/59 (clique para ampliar)

Em cima: Dr. Paulo Pombo (Presidente), Virgílio, Lito, C. Alberto, Américo, Carlos Duarte, Luis Roberto, Monteiro da Costa, Béla Guttmann (Treinador), Amaral (Director), A. Sarmento e Osvaldo Silva.

Em baixo: Teixeira, Morais, Gastão, Noé, Acúrcio, Perdigão e Pedroto.

Faltam, entre outros: Hernâni, Miguel Arcanjo, Osvaldo Cambalacho, Pinho e Barbosa.

(continua: Atraso inicial, penalties e descontos)

Fontes:
[1] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008
[2] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[3] 'Ribeiro dos Reis. Vida que Brilhou em Tempos Sombrios', Astregildo Silva, 2004
[4] '100 figuras do futebol português', A BOLA, 1996


Fotos:
[1] '100 figuras do futebol português', A BOLA
[2] 'Sebastião Lucas da Fonseca (Matateu)', www.osbelenenses.com
[3] 'Paixão pelo Porto'

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O caso Calabote (VII)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF
II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa
IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense
V. Deus deu o campeonato à melhor equipa
VI. Um Gama avermelhado na baliza da CUF

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VII. Treinador do FC Porto comprometido com o SLB



No dia 1 de Novembro de 1958, com a época 1958/59 já a decorrer, chegou ao aeroporto da Portela um treinador que haveria de marcar o futebol português – Béla Guttmann.

O “mago”, como ficou conhecido, nasceu a 13 de Março de 1900, em Budapeste, e antes de chegar a Portugal para substituir o treinador do FC Porto – Otto Bumbel – já fora campeão na Hungria, Roménia e Brasil.

Guttmann era um treinador caro e, conforme conta A Bola, na 'Glória e Vida de Três Gigantes', «exigia que lhe pagassem como não se pagava a mais ninguém no mundo do futebol. (...) Para o F. C. Porto veio ganhar 300 contos por ano, exigindo também 100 contos de prémio pela conquista do Campeonato.»

Dispondo de grandes jogadores e impondo uma disciplina de ferro (na linha do que Yustrich tinha feito três anos antes), Guttmann rapidamente transformou o FC Porto na melhor equipa do futebol português e ao fim de algumas jornadas já tinha recuperado o atraso de cinco pontos com que partiu em relação ao Benfica.

Satisfeitos com o seu trabalho, os dirigentes do FC Porto abordaram-no várias vezes para renovar o contrato, ao que Guttmann retorquia dizendo que havia tempo. Esta posição de Guttmann era estranha e pouco habitual mas, veio-se a saber depois, havia fortes razões ($$$) por trás.

De facto, o trabalho de Guttmann não era só apreciado nas Antas. Na capital, os dirigentes do todo poderoso SLB não olhavam a meios e, apesar do bom relacionamento que havia entre os presidentes dos dois clubes – Dr. Paulo Pombo e Eng. Maurício Vieira de Brito – não se coibiram de secretamente, com o campeonato ainda a decorrer, contactarem o treinador húngaro naturalizado austríaco oferecendo-lhe um contrato significativamente superior ao que tinha no Porto para ir treinar as “águias” (de rapina!) na época seguinte.

Pedroto e Bela Guttmann


«Béla Guttmann, que pela vitória no Campeonato recebeu de um dirigente portista um emblema do F. C. Porto de... diamantes e por essa altura já sabia que seria treinador do Benfica na época seguinte»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA

«ao fazer a festa, sem que alguém sequer desconfiasse disso, Béla já tinha escolhido outro caminho, trocando o F. C. Porto pelo Benfica, num processo pouco leal»
in '100 figuras do futebol português', A BOLA

O aliciamento feito por Vieira de Brito ao treinador do clube com quem o SLB estava a disputar o título taco-a-taco, é mais um dos episódios fora das quatro linhas em que essa época foi fértil e mostra bem do que os dirigentes encarnados eram capazes.
Os benfiquistas alegam que isso não impediu o FC Porto de se sagrar campeão. Pois não, até porque Guttmann gostava muito de dinheiro e o contrato com os azuis-e-brancos previa um prémio de 100 contos pela conquista do campeonato...

«[Otto Glória] Ficou até 1958/59, estruturando o plantel que se sagraria depois Bicampeão Europeu. Não completou a temporada, pois havendo rumores da contratação de Bela Guttmann, decidiu sair do Benfica no ultimo dia de Junho de 1959, deixando a nossa equipa apurada para os quartos-de-final da Taça de Portugal.»
in ‘Há 92 anos nasceu Otto Glória’, O Benfica, 09/01/2009

Os rumores do acordo entre o SLB e Guttmann eram cada vez mais fortes e insistentes. Sabendo disso, no dia 13 de Junho de 1959, o ainda treinador do Benfica – Otto Glória – fechou contrato com o Belenenses para a época seguinte, sujeitando-se a um salário de 10 contos por mês (menos que aquilo que o Benfica lhe pagara cinco anos antes, na sua época de estreia em Portugal).

Apenas cinco dias depois, no dia 18 de Junho de 1959, ‘A Bola’ publicou uma noticia “sensacional”, dando como quase certa a transferência de Béla Guttmann do FC Porto para o Benfica!
Já na altura havia um canal de comunicação bem oleado entre a Travessa da Queimada e o estádio da Luz...

No dia 2 de Julho de 1959, ‘A Bola’ confirmou a saída de Béla Guttmann do FC Porto e a sua contratação pelo Benfica. Segundo a “bíblia dos benfiquistas”, o divórcio foi amigável porque “ambas as partes quiseram poupar dinheiro”.
Conforme se constata, a manipulação jornalística vem de há muito anos...

A final da Taça de Portugal, disputada em 19 de Julho de 1959, voltaria a colocar frente a frente os dois clubes de Guttmann. O que ainda lhe pagava o ordenado e aquele que já o tinha contratado para a época seguinte.
Do outro lado, quem se sentou no banco para orientar os encarnados nessa final foi Valdivielso (lembram-se dele?).

O FC Porto de Guttmann era, reconhecidamente, a melhor equipa do futebol português (rever, por exemplo, as declarações dos jogadores do Benfica B... perdão, Torreense), mas nesse jogo com o Benfica a equipa apareceu estranhamente abúlica e perdeu 0-1.
Ninguém poderá provar que Guttmann já estava a pensar mais no Benfica do que no FC Porto (ou, como diria Luís Filipe Vieira, a fazer as coisas por outro lado...), mas há quem lembre que, ao contrário do campeonato, o seu contrato com os “dragões” não previa um prémio chorudo pela conquista da Taça de Portugal...

Antes de sair do FC Porto, o novo treinador do SLB ainda teve tempo de fazer duas “maldades”, dispensando dois grandes jogadores:

• José Augusto, que veio do Barreiro treinar às Antas e que foi aconselhado por Guttmann a fazê-lo… na Luz (este facto pode ser atestado num artigo do jornalista Carlos Pinhão, em ‘A Bola’, de 08/09/1990);

• Osvaldo Silva (colocado na lista das transferências), o qual iria para o Leixões e, posteriormente, para o Sporting.

Quase clandestinamente, sem dizer nada aos directores azuis e brancos, Guttmann lá rumou a Lisboa, onde já tinha casa alugada. Deixou uma carta onde explicava que era por causa do clima frio do Porto e do nevoeiro, que lhe tinha provocado crónicas dores nas costas. Necessitava, por isso, do sol do sul...

Haveria de voltar ao Porto 14 anos depois, em 1973, devido à memória curta de um presidente do FC Porto - Américo de Sá -, que o convidou para treinar novamente os “dragões”. Apesar de já ser um septuagenário, nessa altura o “clima frio do Porto” não foi um óbice...

Guttmann foi para o SLB ganhar 400 contos líquidos por ano e prémios de 150 contos pela conquista do Campeonato, 50 pela Taça de Portugal e 300 pela Taça dos Campeões.
Para se ter uma ideia da dimensão destes montantes, a vitória sobre o Barcelona, em Berna (1960/61), rendeu a Guttmann 10 vezes mais que a maquia que coube a cada um dos jogadores do SLB.

O desvio de Guttmann (como lhe chamou Carlos Pinhão em ‘A Bola’), foi crucial para a construção do Benfica europeu, equipa que dominou o futebol português durante a década de 60. Recorde-se que os dois únicos títulos europeus da história do SLB foram ganhos com Guttmann como treinador (há quase 50 anos...) e no primeiro ainda nem sequer havia Eusébio.

Em 1964, Guttmann veio passar o Natal a Lisboa, tendo nessa altura afirmado:
“(...) fui eu que cozinhei o Benfica europeu, de que, depois, vieram outros comer. Ganhei o campeonato europeu com jogadores como Neto, Saraiva, Serra, Artur, Mário João... E agora que squadra tem o Benfica? Só Serafim ficou mais caro que todas as aquisições feitas no meu tempo: o Eusébio, o Torres, o Germano, o José Augusto. E não tem jogado”.

(continua: Jornalistas de 'A Bola' lamentam título ganho pelo FC Porto)

Fontes:
[1] '100 figuras do futebol português', A BOLA, 1996
[2] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[3] 'História dos 50 anos do desporto português', A BOLA, 1994
[4] 'Carta de Adriano Lima a Rui Moreira', dragaodoente.blogspot.com, 2008


Fotos:
'100 figuras do futebol português'
'Glórias do Passado'
'Planeta do Futebol'

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O caso Calabote (VI)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF
II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa
IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense
V. Deus deu o campeonato à melhor equipa

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VI. Um Gama avermelhado na baliza da CUF


O Grupo Desportivo da CUF não era um clube qualquer. Esteve 22 épocas consecutivas na 1ª divisão do futebol português (desceu de divisão após a revolução do 25 de Abril, na época 1975/76) e, logo a seguir aos quatro grandes da altura, o GD CUF foi das equipas mais fortes e regulares do futebol português entre o final da década de 50 e meados da década de 60, como atestam as seguintes classificações:
• 1958/59 - 11º
• 1959/60 - 5º
• 1960/61 - 6º
• 1961/62 - 4º
• 1962/63 - 12º
• 1963/64 - 5º
• 1964/65 - 3º

Conforme já foi referido, à entrada da última jornada do campeonato o Benfica tinha uma desvantagem de quatro golos em relação ao FC Porto. Ou seja, se os “dragões” vencessem o Torreense (último classificado) pela margem mínima, o SLB, para superar a diferença de golos global, teria de vencer a CUF por seis golos de diferença.

O SLB necessitava de uma goleada, mas será que a CUF era uma equipa propensa a sofrer goleadas?
Nesse campeonato, quantas vezes é que a CUF tinha perdido por seis golos de diferença?
A resposta é simples: nunca.
Aliás, olhando para os 25 jogos anteriores, verifica-se que só por uma vez a CUF tinha perdido por mais de três golos de diferença (em Guimarães). Nos jogos com os outros “grandes” da época, a CUF tinha perdido por 3-0 nas Antas e em Belém e apenas por 1-0 em Alvalade.
Mais. Nos 12 jogos fora que já tinha disputado, a CUF tinha sofrido 25 golos (2,08 golos por jogo), o que fazia da defesa da CUF a 5ª melhor fora de casa antes do jogo com o SLB.

Por tudo isto, fácil é concluir que, em condições normais, não era provável a CUF sofrer a goleada de que o SLB necessitava. Contudo, conforme se iria constatar, houve várias “anormalidades” nesse célebre Benfica x CUF.

A começar pelo desempenho do guarda-redes da CUF – um tal de Gama (que nome tão apropriado neste contexto...) – que, de tão “infeliz” nesse jogo, foi substituído quando a equipa perdia por 5-1... a pedido dos próprios colegas!

No Mundo Desportivo (23/03/1959) pode ler-se: «Gama, o guardião da turma que a determinada altura foi substituído aparentemente cansado do trabalho aturado que teve de suportar, respondeu-nos quando o interpelámos:
Faz pena, depois de tamanho esforço e tenacidade desenvolvidas verificar que o Benfica não conseguiu o número de golos suficiente para chegar a campeão! E a verdade é que ocasiões não lhe faltaram.”»

Leram bem. Quem disse isto não foi um jogador do SLB, foi o guarda-redes da equipa que tinha sofrido uma goleada com o prestimoso contributo dele próprio.

Ao contrário de Gama, José Maria, o guarda-redes que o substituiu a pedido dos colegas, afirmou:
Os benfiquistas obrigaram-me a trabalho intenso, e confesso que tive de realizar várias defesas em condições difíceis. Quanto ao resultado, considero-o expressivo em demasia, visto que nele interferiu o desacerto da arbitragem.”

Em declarações ao Norte Desportivo, o treinador da CUF, Cândido Tavares, diria:
Não posso acreditar no que se diz a respeito de Gama e, embora não seja seu costume falhar tantas jogadas, creio na sua honestidade! Simplesmente ele esteve, no domingo, demasiado infeliz. Vendo isso, e ainda porque dois dos seus próprios companheiros me solicitaram que alterasse o desempenho posto, mandei-o sair do terreno. Estava muito nervoso, e manifestava sintomas de total desorientação. Todavia daí a aventarem-se torpes insinuações terá de percorrer-se larga distância.”

Sim, não vale a pena fazer “torpes insinuações”. Os factos e as declarações do próprio Gama falam por si.

Mas, para além do estranho caso do guarda-redes “nervoso”, “desorientado” e “demasiado infeliz”, houve outras anormalidades.

No final do jogo, Cândido Tavares (que, saliente-se, tinha sido jogador e campeão ao serviço do Benfica), não escondia a sua revolta relativamente à arbitragem e diria:
Só estranhei que Inocêncio Calabote não tivesse arranjado uma quarta grande penalidade nos últimos minutos. Não foi árbitro não foi nada...”


Manuel de Oliveira, que viria a ser um dos mais cotados treinadores portugueses, era na altura jogador da CUF. Em declarações ao jornal RECORD de 23/01/2006, não teve dúvidas em afirmar:
Estava tudo feito. Foram assinaladas três grandes penalidades contra nós e nenhuma delas existiu. (...)
O jogo foi preparado muito antes (...) Para começar, o Benfica promoveu um atraso de 7 minutos para o recomeço do jogo e depois confirmou-se o momento mau pelo qual passava o nosso guarda-redes, Gama, que foi muito pressionado durante a semana por elementos ligados ao adversário. E a verdade é que ele não foi feliz. (...)
O jogo obedeceu a um arranjo e, quanto a isso, não tenho a menor dúvida
”.


(continua: Treinador do FC Porto comprometido com o SLB)

Fontes:
[1] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008
[2] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[3] zerozero.pt, 1958/59


Fotos: Record, ‘Grupo CUF – elementos para a sua História

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O caso Calabote (V)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF
II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa
IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense

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V. Deus deu o campeonato à melhor equipa

Estando o FC Porto e o SLB empatados em pontos e nos jogos disputados entre si (empates 0-0 na Antas e 1-1 na Luz), a diferença global de golos era decisiva e, nesse item, o FC Porto dispunha de uma vantagem de quatro golos (78-22 contra 71-19).

Em termos de adversários, enquanto o FC Porto ia jogar a Torres Vedras contra o último classificado, o SLB recebia na Luz o Desportivo da CUF (uma equipa que estava no meio da tabela).
Ambos os jogos tinham início previsto para as 15h00, conforme os regulamentos impunham.


«Ao intervalo o F. C. Porto vencia por 1-0, ganhava o Benfica por 3-0.
A dois minutos do final do jogo no Campo das Covas fez o F. C. Porto o segundo golo, para euforia dos seus adeptos, que já descriam porque, no outro lado, vencia o Benfica por 6-1.
Marcaram os portistas e de rajada marcaram os benfiquistas: 7-1.
E, a meio do minuto 90, Teixeira, com esse golo que haveria de ficar histórico, colocou o F. C. Porto a vencer por 3-0 e de novo em vantagem. Tremularam, de novo, bandeiras azuis e brancas nas Covas, na Luz pairou um silêncio de dúvida e de desolação.

O jogo de Torres acabara... Houve invasão de campo, gente que tentava abraçar os seus heróis, camisolas rasgadas na euforia e eles, os jogadores, desesperadamente à espera de um sinal, com o sonho suspenso, fugindo, suplicando que os deixassem ouvir o que se ia passando na Luz naqueles minutos que se arrastavam e pareciam séculos. Nas bancadas, uma mole de gente que permanecia, quieta, de mãos enclavinhadas, olhos marejados de lágrimas, respiração opressa – na tortura da dúvida...
... Em Lisboa ainda havia luta e havia sonho, por o jogo ter imoralmente começado oito minutos mais tarde que a hora prevista, com a complacência de... Inocêncio Calabote – que, depois de já ter assinalado três penalties a favor do Benfica, foi prolongando o tempo do jogo sem que nada o justificasse...

Doze minutos tiveram de esperar os portistas pelo desfecho. Os corações arfavam, as gotas de suor (ou de impaciência) perolavam pelos rostos dos jogadores, que se sentavam no chão nunca mais entreviam o tal sinal, as bandeiras esvoaçando ao vento, os gritos Porto! Porto! Porto! ressoavam como tambores de vitória ainda por anunciar...

Enfim, a explosão de alegria. Teixeira, que marcara o golo que valeria o título, levantou-se e, como uma sombra densa que se empasta, como uma estátua de um herói acabado de sê-lo, ergueu os olhos para o céu e murmurou: «Deus encarregou-se de dar o Campeonato à melhor equipa
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA


De pé: Acúrsio, Barbosa, Luís Roberto, Monteiro da Costa (cap.), Miguel Arcanjo e Virgílio
De joelhos: Carlos Duarte, Hernâni, Noé, Teixeira e Perdigão.


Quando o FC Porto marcou o 0-2 (a dois minutos do fim do desafio), um jogador do Sport Clube União Torreense – Saldanha – para queimar tempo, chutou ostensivamente a bola para longe antes do recomeço. O árbitro, que já o tinha advertido várias vezes durante o jogo pelo mesmo tipo de conduta, considerou anti-jogo grosseiro e expulsou-o.

A perder e precisando de ganhar para continuarem a acalentar a hipótese de evitarem a descida de divisão, porque razão os jogadores do Torreense apenas se preocupavam em queimar tempo?

A explicação está nas declarações do jogador António Manuel, reproduzidas por ‘A Bola’, e que não podiam ser mais claras:
No meu último jogo ia dando uma vitória ao Benfica e não o consegui, o que lamento como benfiquista. O Porto talvez seja a equipa que pratica melhor futebol mas nós podíamos ter dado o campeonato ao Benfica. Paciência. Como homem do Benfica, sinto muito que assim não fosse.”

A pouca vergonha e desfaçatez desta gente é tão grande que nem merece comentários.

No final do jogo, em declarações feitas ao ‘Jornal de Notícias’, Virgílio diria: “Lamento a maneira como os torreenses se portaram connosco. Mas tiveram o pago! Os jogadores e o público acenando-nos com lenços a 10 minutos do fim!... Lamentável!

Na análise ao jogo de Torres Vedras, o ‘Mundo Desportivo’ refere a «dupla tristeza (dos jogadores do Torreense) porque, na maioria, os jogadores além da fuga ao último lugar também desejariam que o campeão se chamasse Benfica...».

Na crónica o jornalista afirma que a expulsão de Manuel Carlos (jogador do Torreense), aos 20 minutos da 2ª parte, foi justa (por jogo violento) e não tem dúvidas de que dois minutos antes ficou um penalty por assinalar a favor do FC Porto, num derrube sobre Carlos Duarte (foto ao lado), cuja «nitidez da falta tornou bizarra a decisão do árbitro, mandando prosseguir o jogo e ignorando a grande penalidade que se impunha assinalar».

No capítulo da apreciação ao árbitro Francisco Guiomar, o Mundo Desportivo diz que «...foi muito "caseiro" (aquele penalty negado aos portuenses é inaceitável), contemporizou com a rudeza em excesso por demasiado tempo e regra geral acompanhou o jogo de muito longe...».

O Sport Clube União Torreense esteve quatro anos na 1ª divisão, entre 1955/56 e 1958/59. Voltaria à principal divisão do futebol português em apenas mais duas ocasiões - 1964/65 (último classificado com apenas 7 pontos) e 1991/92 (16º classificado) - descendo novamente de divisão nessas épocas.

(continua: Um Gama avermelhado na baliza da CUF)

Fontes:
[1] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[2] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008


Fotos (clique para as ampliar): Paixão pelo Porto, A Bola

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O caso Calabote (IV)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF
II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa

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IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense

No jogo com o FC Porto ao Sport Clube União Torreense só a vitória interessava, porque esse era o único cenário que lhe permitiria acalentar a hipótese de escapar à descida de divisão. Contudo, segundo uma notícia do JN, “dizia-se em Torres Vedras, e os jogadores locais sorriam quando em tal lhes falava, que havia um prémio de cinco mil escudos para cada um no caso de conseguirem empatar ou pelo menos sofrer poucos golos.”

Nota: Veremos que durante o jogo, treinador e jogadores do Torreense estiveram sempre mais preocupados com os interesses do SLB do que na sua própria situação, ao ponto de continuarem a fazer anti-jogo e a queimar tempo mesmo quando já estavam a perder (resultado que os atirava inapelavelmente para a 2ª divisão).

Na semana que antecedeu o jogo, o Torreense transformou-se numa espécie de Benfica B, com os treinos a serem orientados por elementos dos encarnados.

Como se tal não bastasse, no dia do jogo aconteceu o impensável. O treinador-adjunto do Benfica – o argentino Valdivielso – sentou-se no banco de suplentes (!!) de onde deu instruções aos jogadores do Benfica B... perdão, do Torreense.


Alguns benfiquistas, cujo fair play, ética e moral desportiva só se aplica aos outros, desvalorizam este inacreditável episódio, dizendo que Valdivielso era um elemento pouco importante na estrutura benfiquista, o que fez com que o árbitro do jogo não o tenha reconhecido e, por isso, permitido que ele continuasse no banco de suplentes do Torreense.
Este argumento, além de ser ridículo, é mentira.

José Valdivielso não era um elemento menor da estrutura do futebol encarnado e muito menos um desconhecido do público.
Em 1954 assumiu o cargo de treinador principal do Benfica e, por exemplo, durante esse período orientou a equipa em cinco derbies.
Depois, e durante quatro épocas consecutivas (entre 1954/55 e 1958/59), foi treinador-adjunto de Otto Glória, a quem haveria de suceder durante uns meses na transição do treinador brasileiro para o húngaro Bela Guttmann (de quem continuou a ser treinador-adjunto).

Plantel do SLB 1961/62


De notar que em 1954, o “pouco importante” Valdivielso ganhava, como treinador-adjunto do SLB, 6 contos por mês, tanto como José Szabo (treinador de campo do Sporting), Fernando Riera (treinador do Belenenses) e apenas menos um conto que Fernando Vaz (treinador do FC Porto).

Para além de treinador-adjunto, Valdivielso era também responsável pelos treinos de captação. Acerca destas funções, José Henrique, guarda-redes do SLB entre 1967 e 1976, contou a seguinte estória:

"Tinha treze anos na altura [época 1956/57]. Fui aos treinos de captação e, naquela altura eram trezentos ou quatrocentos miúdos que iam para o Campo Grande. O treinador era o Valdivielso. Ele pediu um guarda-redes e eu levantei a mão. (…)
O Valdivielso estava na parte de cima a ver o treino, a observar os seniores, começou a ver-me a defender e, quando acabou o treino, pôs-me na baliza com eles todos a chutarem. Resumindo e concluindo, já não me deixou sair, meteu-me dentro do carro, trouxe-me para a rua do Jardim do Regedor para assinar contrato."

Ou seja, Valdivielso era uma espécie de treinador da casa, onde trabalhou cerca de 10 anos, tendo desempenhado diverso tipo de funções (incluindo orientar outras equipas em jogos oficiais contra adversários directos do SLB...).

O que disseram os jornais sobre este estranho e inédito caso (mais um naquela época)?

«Surpreendeu toda a gente a presença de Valdivielso, treinador-adjunto do Benfica, nos bancos dos técnicos do Torreense. Na verdade, o técnico benfiquista "viveu", longe da Luz, os "assaltos" finais deste emocionante campeonato. Findo o jogo fomos encontrar Valdivielso, chorando na cabina do Torreense.
Quisemos saber a razão da sua presença e acabámos por ser esclarecidos por Fernando Santos, orientador técnico da equipa de Torres Vedras, que nos afirmou: “Valdivielso não teve qualquer interferência na orientação da equipa, nem nós a aceitaríamos sequer. Veio a Torres como espectador e só por deferência esteve sentado junto a mim.”»
A BOLA


O ‘Mundo Desportivo’ (23/03/1959) reproduz a versão de Valdivielso, em que este diz que «chegou à porta do campo e o fiscal negou-lhe a entrada porque o cartão não tinha validade. Os bilhetes estavam esgotados e dificilmente conseguiria lugar na geral. Foi saudar os treinadores do Torreense e contou-lhes o sucedido. Estes, "como cavalheiros", convidaram-no a sentar-se no banco, o que aceitou. Disse ainda que foi ver o jogo para observar um jogador do Torreense num jogo de responsabilidade com vista a futura contratação.»


O ‘Norte Desportivo’ (26/03/1959) publica uma imagem de Valdivielso no banco do Torreense e refere:
«Antes do encontro, o treinador-adjunto dos encarnados esteve nos vestiários da equipa local e ali ministrou uma prelecção de ordem técnico-táctica. Depois acompanhou a equipa até ao terreno e, com o mais espantoso à-vontade, sentou-se no chamado banco dos técnicos.
Durante o jogo (...) deu instruções para o campo, fez gestos teatrais, refilou com o juiz-de-linha e até interferiu num ligeiro episódio com Hernâni


Em 02/04/1959, o ‘Norte Desportivo’ publicou uma entrevista de António Costa, defesa do Torreense, em que este diz:
"Bem, ele não nos treinou. Esteve na cabina a conversar connosco e, depois, foi sentar-se no banco dos nossos técnicos. Mas não nos deu indicações algumas.
A verdade é esta: receberíamos, por intermédio dele, um prémio se vencêssemos ou perdêssemos com o Porto por margem escassa. Cinco contos a cada jogador. (...) quero esclarecer um ponto: Valdivielso não chorou na cabina, por termos perdido. Limitou-se a regressar a Lisboa com o dinheiro..."

Para além da ridicula explicação de Valdivielso, repare-se na contradição entre o que diz A BOLA (“fomos encontrar Valdivielso, chorando na cabina do Torreense”) e o jogador do Torreense (“Valdivielso não chorou na cabina por termos perdido”). Podiam ter ensaiado melhor...

Como prova do bom relacionamento e para selar o “pacto de amizade” entre os dois clubes, após o final do campeonato e antes de se iniciar a disputa da Taça de Portugal, Benfica e Torreense fizeram dois jogos entre si, um em cada campo, para manter a forma...

Nem o SLB, nem o Torreense, nem Valdivielso sofreram qualquer punição da parte da Federação Portuguesa de Futebol ou da Direcção Geral dos Desportos.
Zelar pela defesa da ética e da moral desportiva fazia parte das competências destas duas entidades, mas era algo que elas só costumavam aplicar a outros clubes mais a Norte...

(continua: ‘V. Deus deu o campeonato à melhor equipa’)

Fontes:
[1] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008
[2] ‘Todos os treinadores do Benfica’, Maisfutebol Especiais, Novembro de 2007
[3] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O caso Calabote (III)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF

II. A pouco inocente nomeação de Calabote

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III. Os estágios das selecções em... Lisboa

Nas décadas de 50 e 60, havia três selecções de futebol sénior: a selecção principal, a selecção B e a selecção militar.

Selecção B, década de 50 (foto: ‘Glórias do Passado’)


Ora, conforme referido atrás, já em 1956/57 o treinador do FC Porto – Flávio Costa – tinha ficado indignado por, em momentos cruciais da época, jogadores do FC Porto serem convocados para trabalhos das selecções em... Lisboa.

Pois desta vez não podia ter havido melhor altura para agendar um estágio em Lisboa da Selecção Militar: precisamente na semana que antecedeu a última e decisiva jornada do campeonato 1958/59!

Este facto verdadeiramente inacreditável, levou Monteiro da Costa, capitão do FC Porto, ao seguinte desabafo:
Calcule que nesta semana não pudemos realizar um treino de conjunto com todos os nossos jogadores. Faltaram-nos o Hernâni, o Arcanjo e o Barbosa, os três em Lisboa por causa da selecção militar. Eu compreendo os interesses da selecção, mas numa altura destas de campeonato, com um jogo decisivo para a atribuição do título, é, evidentemente, uma dificuldade que nos foi criada”.

Miguel Arcanjo, Mendes (SLB) e Hernâni entrevistados na RTP, 1958 (foto: ‘Glórias do Passado’)


De facto, a utilização do serviço militar e dos trabalhos das selecções era outro dos aspectos onde o Sistema mostrava toda a sua eficácia.

Hernâni Ferreira da Silva, o “furacão de Águeda” , é um caso exemplar de como algumas destas coisas funcionavam.
Vindo do Recreio de Águeda, ingressou no FC Porto em 1951 onde jogou até 1964. Contudo, em 1952 teve de representar outro clube – o Estoril – por se encontrar a cumprir o serviço militar em... Lisboa.
Hernâni foi 28 vezes internacional A e pela Selecção Militar jogou sete vezes, tendo sido o capitão na fase final do Torneio Internacional inter-selecções Militares de Países Europeus, realizada em Portugal, em 1958, e em cuja final disputada no Estádio de Alvalade Portugal venceu a França por 2-1.

Repare-se no seguinte pormenor: o Hernâni, que era só o melhor jogador do FC Porto (e considerado por muitos um dos melhores jogadores portugueses de sempre), cumpriu o serviço militar em 1952 e sete anos depois, aos 28 anos, ainda era convocado para os trabalhos da Selecção Militar realizados, claro está, em Lisboa.

Selecção Militar, 1958 (foto: ‘Glórias do Passado’)


Tentei encontrar um caso semelhante no Benfica ou no Sporting, isto é, um caso em que um dos melhores jogadores desses clubes, sete anos após concluir o respectivo serviço militar, continuasse a ser convocado para trabalhos da Selecção Militar a... 320 km de distância.
Não descobri, deve ter sido lapso da minha pesquisa...

(continua: ‘Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense’)

Fontes:
[1] ‘Glórias do Passado’, Outubro de 2008
[2] ‘CSI – Calabote Scene Investigation’, Pobo do Norte, Maio de 2008


Fotos: ‘Glórias do Passado’