O FC Porto sagrou-se campeão de Juniores B mas num dia de celebrações merecidas há sempre o outro lado da moeda. Um dos melhores jogadores da equipa, João Caminata, está previsivelmente a caminho de Londres.
O jogador madeirense que recrutamos ao Marítimo acaba contrato este ano e o seu agente já anunciou ao site inglês The Elastico que no final do ano é muito provável que o jogador assine pelo Chelsea. Renovar-se-ia a ponte área que existe entre os dois clubes - o Chelsea venceu a sua primeira Champions no último sábado com três ex-portistas no plantel - mas desta vez sem a habitual entrada de dinheiro vivo que tem feito dos ingleses um dos nossos melhores parceiros de negócios. Como sucedeu com Nuno Morais, que chegou ao clube no mesmo ano que Mourinho mas onde não teve oportunidades, acabando por actuar no APOEL onde se destacou este ano na Champions, é mais um jogador que decide emigrar antes de sentir o que é vestir a camisola da primeira equipa.
Caminata é uma dessas promessas do nosso sistema de formação que, por um motivo ou outro, nunca chegam à primeira equipa. Ou porque abandonam o clube antes para procurar oportunidades noutras paragens - entre pressões de empresários e promessas não cumpridas pelo clube - ou porque o próprio clube os envolve numa espiral de empréstimos que acabam com a história antes dela mesmo ter começado.
Quem segue o futebol de formação do clube, em especial a equipa treinada por Nuno Capucho que acaba de sagrar-se campeã nacional, diz que este era, claramente, a mais destacada individualidade da equipa. Não é a única promessa da equipa - e o nosso sistema de formação tem gerado bons jogadores que inexplicavelmente desaparecem - mas, como disse Capucho no final do jogo, se não existe por parte do clube a estratégia de lhes dar minutos ao mais alto nível, o mais natural é que os jogadores percam a ilusão e procurem a solução noutras paragens.
O projecto da equipa B na Liga Vitalis podia ter sido um incentivo mais para que estes miúdos de 16, 17 e 18 anos, trabalhem a pensar que terão direito a lutar por um lugar na primeira equipa, em vez de serem emprestados enquanto chegam "contentores" de jogadores estrangeiros que ficam um ou dois anos e depois seguem o seu caminho com pouco lucro para as arcas do clube.
Caminata no Chelsea será um de muitos e talvez nunca chegue a dar o salto e tenha o mesmo destino de Morais. O problema é que o feedback que encontra no FC Porto, ele e tantos outros, não lhe deixa muitas oportunidades de futuro. Numa época onde a situação financeira é preocupante a todos os níveis, o FC Porto deveria apostar de forma mais séria e consciente na sua própria formação. Vencemos títulos para depois deixar escapar as jóias dos dedos e por meia dúzia de tostões.
Gostaria de ver alguns desses miúdos que ontem golearam o Vitória de Guimarães e venceram um titulo sem derrotas na última fase algum dia a vestir a camisola da equipa principal. O problema é que nos últimos anos temos somado vários títulos e depois, na hora de verdade, nenhum jogador passa do estágio de pré-temporada. Nessa situação vivia o Barcelona, como disseram tantas vezes Xavi, Iniesta ou Puyol, antes da chegada de Van Gaal, e agora o clube catalão é um símbolo internacional de aposta na cantera. Talvez mais cedo do que tarde o FC Porto pense em seguir esse caminho e quando os Caminatas do futuro saiam, que seja pela porta grande, com muitos números no livro de cheques e o coração dos adeptos ganho para o resto das suas vidas. Não há muito tempo era assim que o clube trabalhava.
