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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Banho de realidade

Não há muito a dizer mas há muito a sentir.
O FC Porto sofreu a maior derrota da sua história em casa e igualou a sequência de pior derrota de sempre na Europa (cinco golos de diferença) de uma forma absolutamente indiscutivel. Foi um resultado duro, pesado mas não foi um resultado injusto. O Porto fez pouco para marcar e fez muito para deixar o Liverpool marcar à vontade. E quando se disputam os oitavos de final da Champions League e os detalhes contam, e muito, o banho de realidade é inevitável.

No primeiro jogo disputado este ano escrevi que esta não era a nossa luta.
Continua a não o ser. O FC Porto vai ser campeão nacional. O FC Porto vai ganhar a Taça de Portugal. E essa Dobradinha vai ser o culminar de um ano excelente. A derrota e inevitável eliminação com o Liverpool não muda nada mesmo com estes números. Não são bonitos, não estão à nossa altura e doi, doi sem dúvida, mas é preciso nestes momentos ser mais racional do que nunca e entender que todos aqueles que apontavam o dedo em Agosto - plantel curto, inexperiente, problemas de jogo tácticos - agora apenas constataram a realidade, que é a mesma, mas estamos agora a três meses do final da época e à beira de fazer história. Isso é o que conta.
Obviamente que o FC Porto, num dia normal, não é equipa para sofrer cinco golos em casa de ninguém, seja o Liverpool, o City ou o Barcelona mas quando se reunem determinadas condições o desastre é inevitável. Um jogo que chega numa altura em que a acumulação de jogos se nota; onde as lesões e suspensões de jogadores fundamentais, especialmente para este contexto, mais se fazem sentir e contra um rival poderoso, reforçado e que encara o confronto com outra mentalidade. O Porto luta para ser campeão, essa é a sua prioridade. O Liverpool sabe que tem mais possibilidades de chegar longe na Champions do que de vencer a sua liga. Se a isso juntamos a tempestade perfeita, tudo o resto se torna mais lógico.
José Sá é isto. Sempre foi isto e sempre será isto. Não é um adolescente de 19 anos. Mantém as mesmas debilidades de sempre e se bem que tem estado sério nos jogos na liga, na Europa o nível é outro. Teve uma noite para esquecer, mal em quase todos os golos e, sobretudo, incapaz de transmitir insegurança aos colegas. Para além do frango claro no golo que mudou o jogo, foi ainda lento a reagir no segundo golo ao remate, desviou com pouca força o disparo do terceiro e podia ter feito mais no quinto. Nunca mais vai esquecer este jogo mas é fundamental que até Maio não lhe pese sobre os ombros. Será fundamental ver se a sua maturidade competitiva o leva isso ou a fraquejar. Para os que se lembram que Iker estava no banco, é altamente improvável que o espanhol sofresse estes cinco golos mas quem se lembra igualmente da eliminação - mais séria porque foi noutro contexto totalmente diferente - frente ao Dinamo de Kiev, sabe também que Casillas não é a garantia exclusiva de portas fechadas na Champions em casa. A lembrar.



O certo é que se Sá esteve mal toda a defesa foi um desastre. Mané surge só no primeiro golo porque todos os jogadores vão bloquear um disparo de Wijnauldum que ressalta o esférico aos pés do senegales que nunca poderia estar tão só. No segundo remate Salah, igualmente, nunca poderia estar sem uma sombra ao lado do guarda-redes. Marcano desistiu de correr atrás de Mané no terceiro e Ricardo fez o mesmo no quarto golo com Millner. No quinto Sérgio Oliveira tentou fazer uma falta táctica mas foi tão macio que Mané acabou por fugir e o médio não aguentou o ritmo. Depois abriu-se uma auto-estrada á frente. Ninguém ficou impune aos erros. A derrota foi colectiva e isso que os primeiros vinte minutos, com um superlativo Brahimi e um Otávio sempre mexendo-se bem, parecia intuir outra coisa. Tivesse o remate do brasileiro tido melhor sorte no desvio como teve o de Mané ou o remate de Soares sido mais preciso e o jogo teria sido diferente. Mas nem um nem outro são jogadores de elite e nesses momentos nota-se. Marega passou ao lado do jogo, como tem sido habitual estes meses e quando Brahimi saiu, confirmando a rendição lógica de Conceição, o resto era fácil de adivinhar.
Para consumo interno esto FC Porto tem demonstrado ser mais do que suficiente graças sobretudo a um grande trabalho colectivo de intensidade e união que tapa algumas das misérias individuais que são reais. No contexto europeu a situação é diferente. O Porto qualificou-se num grupo repleto de surpresas - ninguém imaginaria o último posto do Monaco - e com base a uma grande eficácia nas bolas paradas. Não foi por qualidade de jogo corrido nem pelo talento individal de alguns dos seus jogadores e hoje, quando todos os livres e cantos foram bem anulados pelo Liverpool, essa debilidade ficou exposta. Não é um drama, é a aceitação de uma realidade entre um plantel que não pode ser reforçado e um Liverpool que gastou 80 milhoes de euros num central em Janeiro e que tem uma das linhas avançadas mais brutais do futebol mundial. É preciso caminhar com a cabeça alta mas com os pés no chão.

Nunca uma derrota teve tanto potencial para fazer tão bem. Além da poupança lógica que deve haver em Anfield - independente do resultado - este resultado deve ser para enfocar de novo a vista no que realmente importa e deve unir, mais do que nunca, quem joga e quem apoia. Quem sabe que tem de se redimir e tem oportunidade na próxima semana de o fazer em jogo e meio que podem ser decisivos na luta pelo título e quem tem a obrigação de não baixar agora os braços e deixar de apoiar aqueles que têm superado todas as expectativas. Não é um tropeção que marca uma época se todos tiverem bem claro que já haverá tempo e contexto para procurar emendar a mão na Europa dos tubarões. A nossa realidade é mais pequena e de cariz nacional e nenhuma casa se começa a construir desde o telhado. Depois de quatro anos sem títulos nacionais o importante é trabalhar o regresso ao topo em casa para depois crescer. Sem dramas, sem choro, sem esquecer. Que a noite de hoje seja a primeira noite dos campeões nacionais 2017/18.

Liverpool, fazer o que nunca foi feito

Hoje vai voltar a ouvir-se o hino da Champions no estádio de um clube português. É no local habitual, o Estádio do Dragão, num jogo da 1ª mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões 2017/18.

O adversário é o lendário Liverpool Football Club, um clube da pátria do football e, sabem os adeptos portistas, historicamente o FC Porto não se tem dado bem com equipas da Velha Albion.
Em 36 jogos frente a equipas inglesas, o FC Porto venceu apenas oito (22%) e nunca ganhou em Inglaterra.
8 vitórias, 9 empates e 19 derrotas não é brilhante.

E, se analisarmos em termos de eliminatórias, o panorama não é melhor. Em 11 eliminatórias, o FC Porto ficou pelo caminho oito vezes e apenas eliminou equipas inglesas em três ocasiões.

Em 1974/75, na 1ª eliminatória da Taça UEFA, o Wolverhampton;
Em 1977/78, na 2ª eliminatória da Taça das Taças, o Manchester United;
Em 2003/04, nos oitavos da Liga dos Campeões, o Manchester United.

No caso específico do Liverpool Football Club, os dois clubes já se defrontaram quatro vezes para as competições europeias e o FC Porto nunca conseguiu vencer:

2000/01 (Taça UEFA, quartos-de-final) FC Porto x Liverpool: 0-0
2000/01 (Taça UEFA, quartos-de-final) Liverpool x FC Porto: 2-0
2007/08 (Liga Campeões, fase grupos) FC Porto x Liverpool: 1-1
2007/08 (Liga Campeões, fase grupos) Liverpool x FC Porto: 4-1

A história não está do lado do FC Porto. Contudo, o jogo de hoje à noite é no Estádio do Dragão e nos jogos em casa contra equipas inglesas a vantagem é dos dragões: oito vitórias, sete empates e apenas três derrotas.

Pondo de lado a história e olhando para aquilo que as equipas têm feito esta época... o Liverpool continua a ser favorito. De facto, além de ter o 7º plantel mais caro da Europa (dados do CIES-Football Observatory), em termos desportivos os reds estão a fazer uma época muito boa.

Os 10 planteis mais caros da Europa (O JOGO, 13-02-2018)

Na fase de grupos da Liga dos Campeões, o Liverpool ficou em 1º lugar do seu grupo (sem qualquer derrota).
Na Premier League apenas foi derrotado três vezes (em 27 jogos) e está, nesta altura, no 3º lugar, a apenas 2 pontos do Manchester United de José Mourinho (a super equipa que, esta época, derrotou duas vezes o slb...) e à frente do campeão Chelsea, do vice-campeão Tottenham e do Arsenal.

MAS, este FC Porto de Sérgio Conceição tem ultrapassado as expectativas, interna e externamente. E, contra a maior parte das previsões, o FC Porto é a única das três equipas portuguesas que continua na mais importante prova de clubes do mundo, após ter superado um grupo que incluía o bi-campeão turco (Besiktas), o campeão francês (AS Monaco) e o vice-campeão alemão (RB Leipzig).

Tudo “equipas fraquinhas”, conforme sugeriu a comunicação social lisboeta. “Equipas fraquinhas” como o AS Monaco que, após 25 jornadas, ocupa o 2º lugar do campeonato francês (à frente de Marselha e Lyon), ou como o RB Leipzig que, após 22 jornadas, ocupa o 2º lugar da Bundesliga (à frente do Borussia Dortmund, Bayer Leverkusen e Schalke 04).

Sim, o Liverpool é uma equipa de top do futebol inglês.
Sim, o Liverpool é favorito para esta eliminatória.
Sim, o FC Porto tem duas ou três baixas importantes - Danilo, Felipe e Aboubakar (?) - para o jogo de hoje.
MAS, este FC Porto de Sérgio Conceição tem qualquer coisa de especial e está na altura de fazer o que nunca foi feito: derrotar, pela primeira vez, o Liverpool.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Hillsborough: a Verdade 23 anos depois.




A 15 de Abril de 1989, antes da meia-final da Taça de Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest em Hillsborough, Sheffield (estádio do Sheffield Wednesday) 96 adeptos do Liverpool morreram em consequência da sobre-lotação da bancada que lhes estava reservada. Foi a maior tragédia de sempre do futebol inglês, e uma das maiores a nível mundial.

Estava-se em pleno período da suspensão dos clubes ingleses das provas europeias devido ao hooliganismo, pelo que muitos rapidamente concluíram que a culpa só podia ter sido dos adeptos.

Apesar dessa atitude geral, o Relatório Taylor, elaborado na sequência do desastre recomendou a abolição das vedações e dos lugares em pé nos estádios britânicos, o que foi posto em prática (com a consequente redução das lotações, o que ainda hoje afecta muitos clubes que não puderam ampliar os seus estádios ou construir novos).

Um luto geral abateu-se sobre a cidade de Liverpool, aquela, provavelmente, onde a paixão pelo futebol é maior em toda a Inglaterra (e a que ostenta mais títulos de campeão de Inglaterra, 27 no total, sendo 18 do Liverpool e 9 do Everton). O ambiente aqueceu especialmente quando uma famigerada capa de The Sun lançou a culpa sobre os adeptos.

Também a polícia, nos seus relatórios, procurou culpar os adeptos e isentar-se de responsabilidades.

Entretanto, ao longo dos anos, cresceu uma onda de revolta em Liverpool, com muitas vozes exigindo um inquérito independente à ocorrência (estes inquéritos, em Inglaterra, tendem a ser feitos e a ter consequências). Entre essas vozes contou-se a do Ministro da Cultura, Comunicação Social e Desporto (2008/2010) Andy Burnham, natural de Aintree, arredores de Liverpool, e adepto do Everton, o qual, por altura do vigésimo aniversário da tragédia, reclamou a divulgação pública por parte da polícia e dos serviços de emergência de documentação a que o Relatório Taylor não tivera acesso. Esta posição de Burnham levou à formação de uma Comissão Independente, presidida pelo Bispo Anglicano de Liverpool, a qual, na semana passada, tornou públicas as suas conclusões, devastadoras para a polícia e serviços de emergência. Ficou demonstrado que houve um grande encobrimento e distorsão dos acontecimentos por parte da polícia.

Perante uma Câmara dos Comuns visivelmente consternada, o Primeiro-Ministro David Cameron informou das conclusões da comissão e pediu desculpa às famílias das vítimas em nome do governo e do país. As conclusões foram encaminhadas para o Procurador-Geral, o qual poderá dar início a processos-crime.


Na passada 2ª feira realizou-se em Liverpool o primeiro jogo desde a divulgação do relatório, entre o Everton e o Newcastle. Numa grande manifestação de solidariedade, o Everton homenageou antes do jogo as 96 vítimas da tragédia. Passaram nos ecrans os nomes de todas elas, enquanto a instalação sonora tocava  "He ain't heavy, he's my Brother" dos Hollies. O futebol consegue, por vezes, unir os maiores rivais.


Nota: Esta solidariedade entre Everton e Liverpool teve, aliás, há poucos anos, semelhante expressão em Anfield, na homenagem a um rapazinho, adepto do Everton, morto por uma bala perdida num parque de estacionamento. O Liverpool convidou a  família do infeliz e a instalação sonora de Anfield tocou o hino oficioso do Everton "Z Cars", antes de um jogo da Liga dos Campeões.

PS. Noutros tempos, vi muitos jogos em pé em Portugal, e que nem sardinha em lata. Não sei como uma tragédia destas nunca por cá aconteceu.


quinta-feira, 12 de maio de 2011

Obrigado City...

Temos de agradecer ao Man. City pela sua vitória contra o Tottenham na passada terça-feira!

O que é que o Man. City e o Tottenham têm a ver com o FC Porto? É fácil de explicar. Com esta vitória dos Citizens, o Liverpool ficou condenado a não fazer melhor que o 5º lugar no campeonato inglês e consequentemente afastado da Liga dos Campeões da próxima época.


Mas a minha felicidade não é apenas por o Liverpool ficar de fora da Liga dos Campeões (por solidariedade com o meu co-autor Alexandre), mas também porque o FC Porto sai beneficiado com isso na distribuição dos potes do próximo ano, podendo por isso ficar num grupo com equipas potencialmente mais fracas.


O FC Porto terminou a época em 9º lugar do ranking, o que o colocaria no Pote 2 do próximo sorteio para a Liga dos Campeões se todas as equipas acima de si no ranking também se classificasse. No entanto, para felicidade nossa, a equipa posicionada no 5º lugar da tabela acima ficou recentemente impossibilitada de se classificar para a próxima edição da competição europeia por falta de pontos na sua liga. Com isto, o FC Porto tem lugar assegurado no Pote 1.

O facto de nos termos livrado das equipas mais fortes dos últimos anos não significa que não apanhemos uns tubarões na rede do sorteio. Equipas como AC Milan, Valencia, Roma, Werder Bremen ou Juventus estão abaixo de nós e poderão sair-nos em sorteio, se se qualificarem para a competição.
Por outro lado, tendo uma equipa mais forte (do Top 10) num grupo garante também vitórias sobre as equipas mais fracas, deixando mais espaço para outra equipa forte passar em segundo lugar do grupo com maior facilidade.

O Pote 1 não significa maiores facilidades, apenas que não vamos encontrar equipas teoricamente tão fortes...

sábado, 28 de agosto de 2010

Ainda não há confirmação, mas...

No site da CMVM ainda não há confirmação da transferência de Raul Meireles para o Liverpool, e muito menos dos valores envolvidos na mesma, mas no site do Liverpool há uma notícia reproduzida do Daily Telegraph, que não representa a posição do clube inglês (it does not necessarily represent the position of Liverpool Football Club), mas que traduz a visão inglesa da situação e que vale a pena ser lida. Também recomendo uma vista de olhos às dezenas de comentários associados a esta notícia.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

The Fab Four from Liverpool


O técnico do slb, Jorge Jesus, é um grande fan dos quatro de Liverpool.

Nesta foto, Jesus explica ao seu banco que em Liverpool não iria perder a oportunidade de ouvir a melodia dos quatro.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

You'll Never Walk Alone


Os que tanto exultaram com os 5 de Londres vêm agora de Liverpool com 4 no bucho.

Nota: as minhas desculpas ao Alexandre Burmester por ter colocado no blog o lema dos de Anfield. Já que o Everton não nos deu alegrias este ano...

sábado, 9 de agosto de 2008

Por que não há no Porto dois grandes clubes? (ou requiem, talvez precipitado, pelo Boavista F.C.)

A pergunta que titula este artigo coloca-se devido à actual lenta agonia do Boavista F.C., cujos dissabores no âmbito do Apito Final apenas disfarçam a crise profunda em que o clube mergulhou no início deste ano civil.

Será que a cidade do Porto e sua área urbana podem alimentar dois clubes de peso?

Digo de peso porque, convém não esquecer, além de F.C. Porto e Boavista, temos também o Desportivo de Portugal, o Ramaldense, o Pasteleira, o Foz e o Progresso, sem esquecer o velho Salgueiral, agora tristemente confinado às provas dos escalões jovens, e os vários clubes de amadores. E se passarmos ao Grande Porto, há ainda o Leixões, o Leça, o Gondomar, o Vilanovense e o Infesta, entre muitos outros.

Para melhor se responder à pergunta deitemos os olhos na direcção de uma cidade inglesa bem parecida com a nossa: Liverpool.
Não está geminada com o Porto - essa honra cabe a Bristol - mas é, como a Invicta, um importante porto (no início do século XIX 40% do comércio mundial passava pelas suas docas!) e um centro industrial com antigas ligações à indústria têxtil.
E se, no campo da música, o Porto deu ao mundo Toni de Matos, Rui Veloso e os GNR, Liverpool deu os Beatles, claro, mas também Gerry & the Pacemakers (intérpretes de uma das mais famosas versões de “You’ll Never Walk Alone”) e Cilla Black. Tal como o Porto, também Liverpool tem uma importante comunidade chinesa, a qual, aliás, é a mais antiga da Europa. Shop-suei e pato Li-Jing são, portanto, mais dois pontos em comum entre as duas cidades!

A população do Porto-cidade é actualmente bastante menor que a de Liverpool (230.000 vs. 430.000 habitantes), mas a área metropolitana do Porto tem cerca de 1,9 milhões de habitantes, enquanto que o burgo metropolitano de Merseyside, no qual Liverpool se insere, tem 1,4 milhões. Não é portanto por causa da população que o Porto, globalmente considerado, estaria em desvantagem.

Liverpool alberga dois dos mais históricos clubes ingleses, Everton e Liverpool (por ordem alfabética, que é mais neutro!), os quais, conjuntamente, fazem com que a cidade seja de longe a que mais títulos de campeão inglês reúne: 27, contra 19 de Manchester e 18 de Londres.

O Everton, aliás, é o clube com mais épocas na divisão principal do futebol inglês, e foi um dos doze fundadores da Football League (Liga Inglesa) em 1888, feito de que nem Liverpool, nem Arsenal, nem Manchester United nem, muito menos, Chelsea se podem gabar.

Aliás, foi do seu “ventre” que saiu o próprio Liverpool, quando um aumento de renda por parte do senhorio de Anfield levou o Everton a deixar aquele recinto em 1892 (onde se sagrara pela primeira vez campeão inglês, em 1891), tendo alguns dissidentes ficado para trás e, juntamente com o senhorio, fundado o Liverpool.
Este último - saído da sombra do seu vizinho na década de 70 do século passado - com os seus 18 títulos de campeão é o clube mais vezes vencedor do campeonato inglês, além de ostentar variadíssimas vitórias em provas europeias, com destaque para os seus 5 triunfos na Taça dos Campeões Europeus/Liga dos Campeões.

Perante este grandioso palmarés dos clubes de Liverpool e o atrás referido contexto demográfico é legítimo dizer-se que também o Porto poderia ter dois grandes clubes.
A meu ver, não os tem, não simplesmente por um qualquer efeito hegemónico da força do F.C. Porto, mas pela natureza do boavisteiro típico das últimas décadas.

De facto, ao longo dos tempos sempre houve no Porto e arredores um número substancial de pessoas (uma minoria numerosa, digamos) que não eram adeptas do F.C. Porto, mas nem por isso o eram de um dos outros dois principais clubes da cidade. Estamos a falar dos benfiquistas e sportinguistas do Porto (estes últimos em menor número, e actualmente em vias de extinção – embora não conste terem sido declarados espécie protegida pelo WWF). Muitos deles acabaram por aderir ao “boavistismo” quando os nossos vizinhos da Av. da Boavista começaram a dar um ar da sua graça (que é coisa que lhes não encontro, a bem da verdade), mas rapidamente desertaram quando o proverbial coche à meia-noite se transformou de novo em abóbora, e os cocheiros, muito apropriadamente, em ratos.

Este êxodo dos boavisteiros do bom tempo reduziu de novo o Boavista ao seu curto e tradicional núcleo de indefectíveis, personificados pelo popular Manuel do Laço, núcleo esse incapaz de fornecer um presidente ao clube nesta hora trágica por que passa, sendo o actual líder da colectividade, ironicamente, um portista. Se acaso o Boavista chegar mesmo ao fim não faltarão, daqui a uns anos, os revisionistas da história a proclamarem que isso apenas aconteceu porque o presidente era portista!

Conclui-se assim que, se a cidade do Porto nunca teve dois grande clubes mas apenas um, tal ficou a dever-se, não à escassez populacional, mas à adesão provinciana a clubes da capital por parte de um sector da sua população amante do futebol.

Isto distingue flagrantemente o Porto de Liverpool: em Merseyside não há lugar para adeptos de clubes da capital nem, muito menos, da vizinha Manchester. Torce-se por um clube da terra, nas boas e nas más horas.