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quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Crise!


O Dragões Diário veio confirmar, oficialmente, que o FCP entrou (ou estacionou) numa situação que o editor enquadrou como sendo de crise.

Sendo assim, torna-se, então, muito importante seguir a atitude e o comportamento da estrutura, face a este momento de ruptura e perda, provocado pela assumpção de políticas e processos, reconhecidamente, inadequados na sua concepção ou aplicação, com especial incidência nos últimos três anos.

Faz parte do glossário tradicional que trata desta coisa das crises, considerar que, desde que uma crise seja bem gerida, pode ser revertida e tornada equilibrada, primeiro, e não  inimiga do crescimento, depois, se bem montados os motores de gestão e de governança. Porém, a crise conduz necessariamente a um aumento da vulnerabilidade e, por isso, representa, necessariamente, um momento de alto risco. Pode, frequentemente, evoluir muito negativamente, quando os recursos estruturais e financeiros estão delapidados e o prestígio dos responsáveis estão diminuídos e em perda acelerada.

O FCP vive há mais de 30 anos sob o comando do seu Presidente que no seu primeiro mandato deixou claro o programa que nortearia toda a sua acção e que, em versão reduzida, definiria assim: total autonomia na gestão do futebol, tendência para auto sustentação das actividades de alta competição, arrumar as finanças, lutar contra o centralismo, crescer e ousar vencer. Os êxitos consolidaram o modelo e os processos. E têm servido ad aeternum. A figura do Presidente passou a servir como  aval de competência. A maioria dos portistas reconhece a sua superior sagacidade  quando superou algumas crises bem complicadas. E, ultrapassou-as  sem muitos danos.

A situação mudou a crer nas manifestações ocorridas ultimamente que, apesar de tudo, não considero tão significativas quanto isso. Mas, ouve-se muita gente profundamente desagradada. Muito mais do que o costume. O Dragão anda quase vazio, não ruge e assobia sem contemplações os da casas. A coesão tem sido abalada, significativamente. A figura do Presidente já não é suficiente como aval. A situação desportiva e financeira é preocupante. O povo portista reclama uma viragem, mas ainda não mexeu a sério no Presidente. E na sua autoridade. Pede-se muito mais uma “varredela” aos maus da fita que a sua destituição.

É este o quadro actual. A equipa está esfrangalhada, a situação financeira é muito complicada, os custos de contexto são enormes e as receitas da Liga dos Campeões estão em risco. E o 'fair play financeiro' é uma ameaça real. Os portistas têm boas razões para andar desalentados, mas acho que uma boa parte ainda não viu o filme todo. Os maus resultados talvez sejam a ponta do iceberg. E se o Presidente é mais contestado do que nunca, como temo que uma mudança caia num conjunto de personalidades que na ânsia de reverter o pecado, mais não faça de que nos encher de uma bondade inócua ou incompetente, vendendo o compromisso de chegar, ver e vencer. Como se bastasse a promessa de fazer diferente e sem os familiares próximos. E fintar os oportunistas e os intermediários. E recuperar a tal identidade que foi perdida. Não creio que haja qualquer piedade se a equipa não ganhar. Seja a quem for que governe. O afunilamento democrático no nosso clube é um facto. E uma dificuldade acrescida no próximo futuro.

O povo portista não deve ser muito diferente dos que habitam outras cores. Face ao actual declínio, fala-se com muito temor do regresso aos anos sessenta. Os nossos principais adversários passaram por períodos semelhantes e não sucumbiram. O pessoal dos anos sessenta mostrou sempre uma grande resiliência. Nunca desistiu e o FCP, com base nesse suporte, soube encontrar o seu caminho.

É isso que temos de porfiar no momento. Encontrar o caminho. Só que o caminho vai correr, nos próximos quatro anos, com os mesmos timoneiros. Não creio que hajam alterações substantivas nas políticas e procedimentos. Nem cortes, relativamente a alguns maus hábitos. A pergunta que fica é se a revolução na continuidade (em curso) vai ser seguida e o suficiente para mudar o estado das coisas. Tudo vai depender do futebol. Não havendo luta eleitoral, vão ser os resultados a definir os comportamentos. Temos a Taça de Portugal e o playoff de acesso à Liga dos Campeões. Em menos de seis meses muito pode acontecer na casa da Dragão. Desportiva e financeiramente. E como estão ligados umbilicalmente. O Presidente tem o maior desafio da sua vida. E tomou-o por espírito de missão. Espero que ganhe para bem do nosso clube. Confesso que penso que o seu contrário estará mais próximo. Espero que os portistas não desertem e vão a jogo. O FCP merece.
   

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A crise e o modelo de gestão portista (III)

O impacto da crise no futebol português (I)

A crise vista da 2ª circular (II)


O Decreto-Lei n.º 67/97, de 3 de Abril, no seu artigo 45º determinou que as suas normas entravam em vigor no dia 1 de Agosto de 1997. Assim, até ao início da época desportiva seguinte (1997/98) deveriam os clubes optar por um de dois regimes:
- sociedade desportiva;
- clube desportivo sujeito a regime especial de gestão.

Analisando o desempenho das sociedades desportivas de FC Porto, Sporting e Benfica neste período – últimas 11 épocas, de 1997/98 a 2007/08 – é evidente que, quer em termos desportivos, quer em termos financeiros, a gestão portista demonstrou ser a melhor do futebol português. Isto para mim é claro e não há ‘Apito Final’ que o consiga disfarçar.

E se em termos desportivos – a essência e objectivo primordial das SAD’s – a diferença é abissal (7 campeonatos, 1 Taça UEFA, 1 Liga dos Campeões, 1 Taça Intercontinental, contra apenas 3 campeonatos ganhos por Sporting e Benfica em conjunto), em termos financeiros também parece não haver grandes dúvidas, bastando olhar para os passivos globais dos três clubes grandes.


O modelo de gestão portista, particularmente nas últimas cinco épocas (2004/05 a 2008/09) tem sido, no essencial, baseado nos seguintes princípios orientadores:

i) prospecção de jogadores (privilegiando o mercado sul-americano) feita pela própria SAD ou por empresários;

ii) investimento anual significativo em passes de jogadores (a maioria com idade inferior a 24 anos);

iii) crescimento e rentabilização desportiva dos jogadores durante três ou quatro épocas, com o desempenho na Liga dos Campeões a ser fundamental, visto servir de montra privilegiada para os "tubarões" europeus;

iv) venda de pelo menos dois dos melhores (e mais valorizados) jogadores todos os anos, de modo a gerarem mais-valias que permitam equilibrar as contas e realimentar o modelo.

É um facto que tem havido um elevado desperdício associado a muitos falhanços nas compras e ao número excessivo de jogadores sob contrato (com dezenas a terem de ser emprestados), mas a SAD portista tem tido o inegável mérito de conseguir vender muito bem as suas “pérolas” a alguns dos clubes mais endinheirados da Europa (Chelsea, Barcelona, Dínamo Moscovo, Manchester United, Real Madrid, Inter Milão), o que lhe permitiu fazer encaixes impensáveis, particularmente no pós-Gelsenkirchen.

Contudo, é óbvio que este é um modelo de risco elevado.

Por exemplo, o que acontecerá se, por falta de liquidez dos compradores, a FCP SAD não conseguir vender as suas “pérolas” durante duas épocas seguidas?

Ou, pior ainda (do ponto de vista desportivo), se tiver de vender dois ou três dos seus melhores jogadores, para encaixar o mesmo dinheiro que nos últimos anos recebia por apenas um?

Em 10 de Outubro passado, em declarações ao PÚBLICO, Fernando Gomes afirmou o seguinte:
Esta ausência de liquidez vai tornar muito mais difícil o acesso ao crédito, que terá uma selecção muito mais rigorosa, ainda mais quando os clubes portugueses estão altamente endividados e necessitados de fundos de terceiros, nomeadamente da banca.”

Mais recentemente, em declarações que fez à Agência Lusa, Fernando Gomes reafirmou e reforçou as suas preocupações com o impacto que a crise poderá ter no futebol e, particularmente, no FC Porto.

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Fernando Gomes, Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD


O administrador da sociedade desportiva do FC Porto, afirmou à Lusa que a actual situação económica e financeira, tendo em consideração o nível de endividamento dos cubes, vai "ter reflexos nos clubes e SAD, que vão ter maiores dificuldades de acesso ao crédito devido à falta de liquidez e terão condições de crédito muito mais gravosas", o que terá efeitos na conta de exploração.

Aquele responsável observou que, "tendo em linha de conta que Portugal é um país exportador de jogadores e que essas exportações são necessárias para equilibrar as SAD, com as mais valias geradas", a área das transferências vai ter "reflexos negativos sobre a vida financeira dos clubes" nacionais.
Fernando Gomes realçou que os clubes estrangeiros, nomeadamente do mercado inglês, terão menos liquidez para fazer compras e "os valores das transferências de jogadores deverão baixar, devido à menor capacidade de investimento dos clubes importadores, o que se traduz numa diminuição" de aquisições de jogadores.

O dirigente da SAD do FC Porto recordou que os custos com publicidade são dos primeiros a ser cortados pelas empresas, o que se irá fazer sentir nos patrocínios.

Fernando Gomes afirmou que o FC Porto tem um número significativo de lugares vendidos para todo o ano no início da época desportiva, mas garantiu que a SAD estará atenta para quando se iniciar a venda de lugares anuais para a próxima época tentar manter o seu número, não excluindo uma redução de preços.

"No futuro, se houver maior condicionamento, o FC Porto é, dos três, aquele que terá de ter maior atenção relativamente ao facto de ver diminuída essa parte da sua conta de exploração. Se já é uma preocupação este ano, nos anos subsequentes será uma preocupação acrescida", assinalou Fernando Gomes.

Para o administrador da SAD "é um dado objectivo que o FC Porto necessitará de 25 milhões de euros (anuais) de mais-valias para equilibrar" as suas contas, apesar de a venda de Quaresma para o Inter de Milão já ter aliviado o exercício de 2008/09.
Fernando Gomes considerou preocupante a "estagnação do mercado" por parte dos clubes europeus mais gastadores, que terá "reflexos ao nível dos clubes de países periféricos e exportadores, que necessitam dessas transacções para equilibrarem as suas contas".
"De alguma forma, o FC Porto pode ressentir-se mais (do que o Benfica e o Sporting), pois, tendo em conta o passado recente, tem conseguido equilibrar as suas contas de exploração com a geração de mais-valias" provenientes da transferência de futebolistas para o estrangeiro, observou.

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Quando o Dr. Fernando Gomes diz que a FCP SAD precisa de 25 milhões de euros (anuais) de mais-valias para equilibrar as suas contas, é um número que assusta. Contudo, se olharmos atentamente para os relatórios e contas da SAD, a dúvida que fica é se 25 milhões por época será suficiente.

Vale a pena recordar o valor (em milhões de euros) e peso que as mais-valias das transferências de jogadores têm tido nas contas da SAD:

Exercício de 2003/04: 58.290 (equivalente a 97,7% das receitas operacionais)
Exercício de 2004/05: 48.579 (110,2%)
Exercício de 2005/06: 14.205 (32,2%)
Exercício de 2006/07: 33.365 (60,7%)
Exercício de 2007/08: 42.964 (78,2%)

Ou seja, no pós-Gelsenkirchen (últimas cinco épocas), a FCP SAD encaixou, em média, 39.4 milhões de euros por época em mais-valias de transferências.
Deste modo, se 25 milhões anuais de mais-valias fossem suficientes, estes quase 40 milhões de euros anuais (valor médio), deveriam ter permitido que a SAD tivesse acumulado 75 milhões de euros (15 milhões por época) de resultados líquidos positivos nos últimos cinco anos. Ora, não foi isso que aconteceu.

Balanços da FCP SAD do período 2001-2008 (clique na imagem para ampliar)

Nota: Conforme se pode constatar no quadro anterior, em Junho de 2008 os capitais próprios da SAD estavam ao mesmo nível de Junho de 2003.

Mais. O orçamento para 2008/09 prevê 35.213 milhões de euros de mais-valias (76,2% das Receitas Operacionais), 10 milhões de euros acima dos 25 referidos como necessários pelo Dr. Fernando Gomes. Em que ficamos?

A venda de Quaresma, concretizada em 1 de Setembro de 2008, irá gerar uma mais-valia na ordem dos 17 milhões de euros, mas para cumprir o orçamento desta época é necessário que até 30 de Junho de 2009 haja outra(s) transferência(s) que gere(m) 18 milhões de euros em mais-valias.
É neste cenário que a saída de Bruno Alves, de Lucho, ou de ambos, se afigura como altamente provável.

Importa sublinhar o seguinte: O Dr. Fernando Gomes é um homem da confiança do presidente Pinto da Costa, sendo o administrador da FCP SAD com o pelouro financeiro e o representante nas relações com o Mercado. Pelo seu passado no clube e na SAD e por aquilo que conhecemos dele, não me parece que seja o tipo de pessoa que diz coisas gratuitas e sem fundamento.


Estas suas declarações não são bocas de café ou feitas de forma ligeira em fóruns na Internet. São afirmações claras, feitas à Agência Lusa de forma institucional, e demonstram que a preocupação com a gestão económico-financeira da SAD não é infundada e muito menos uma especulação resultante dos "críticos", de "bloguistas ignorantes", ou de mentes maquiavélicas anti-SAD.

(continua, Transferências, publicidade e patrocínios no futebol português)

Nota: A selecção das fotos e os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A crise vista da 2ª circular (II)

O impacto da crise no futebol português (I)

Vale a pena recordar que o Sporting, depois de no final dos anos 90 e início deste século ter investido fortemente no futebol, acumulou um enorme passivo e atingiu uma situação de desequilíbrio financeiro tal, que obrigou a actual administração a vender património e a fazer cortes brutais na sua equipa de futebol (a propagandeada aposta na formação foi muito mais uma necessidade do que uma aposta estratégica). Como é óbvio, a politica de contenção dos últimos anos afectou a competitividade da sua equipa de futebol e só a partir desta época parece haver uma folga um bocadinho maior.

Ao contrário da “formiga” sportinguista, o seu vizinho da 2ª circular continua a adoptar a postura da “cigarra”. Todos os anos gastam milhões no suposto reforço da equipa de futebol, sem se perceber muito bem de onde vem tanto dinheiro.

Em declarações prestadas à Agência Lusa, primeiro em 6 de Novembro e, mais recentemente, a 3 de Janeiro, responsáveis das sociedades desportivas do FC Porto, Benfica e Sporting afirmaram que o futebol português não escapará à recessão que afecta a economia europeia, mas que os efeitos da crise devem sentir-se de forma desigual nos três "grandes".

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Filipe Soares Franco, Sporting SAD


O presidente do Sporting antevê "com toda a segurança" um "crédito bancário mais difícil e mais caro, sobretudo para as organizações que apresentem menos sustentabilidade", porque os bancos vão ser mais restritivos na concessão de crédito devido à crise de liquidez.

Relativamente ao mercado de transferências, aquele empresário, presidente do grupo Opway, considerou que a crise "vai afectar os negócios em geral e os clubes fortes poderão ficar menos fortes e os clubes médios vão ficar mais fracos", admitindo uma quebra nos valores das transferências, normalmente essenciais para os principais clubes nacionais equilibrarem as contas.
Os clubes “vão ser mais selectivos” e só quererão comprar os melhores por um preço mais baixo, admitindo que, como vai haver menos procura e muita oferta, os preços de venda dos passes dos jogadores tendem a reduzir-se.

Em relação às receitas de bilheteira e merchandising, Soares Franco salientou que terá de haver um grande esforço dos clubes para manterem a assistência e as receitas, indicando que no caso do Sporting cerca de metade dos lugares estão vendidos para toda a época, razão pela qual, pelo menos na época em curso, não haverá reduções de preços para não prejudicar quem comprou bilhetes antecipadamente.

Filipe Soares Franco garantiu que o Sporting está "preparado para enfrentar os tempos difíceis que aí vêm, mas isso não quer dizer que está imune a esses problemas", pois ainda tem "um endividamento muito alto e precisa de, pontualmente, vender alguns dos seus activos para poder fazer face à diminuição de lucros e reduzir o passivo".
"Isso é algo que o Sporting não deve parar de fazer, sobretudo numa altura destas. Espero que o Sporting consiga, com a reestruturação financeira que está a terminar, ter uma sustentabilidade que lhe permita passar esta fase difícil de forma mais suave", advogou.

Para o presidente dos “leões”, 2009 "não será um ano fácil em nenhuma vertente e o futebol terá que se adaptar à nova realidade económica que o mundo está a viver e que passa por uma enorme falta de liquidez nos mercados" e os "colossos" europeus não são excepção.
Filipe Soares Franco lembrou que "esses clubes não são ilhas desertas que contornam todas as dificuldades criadas pelo cenário internacional" e descartou a possibilidade de abdicar da política de austeridade para agradar aos sócios em ano de eleições.

Evolução dos Proveitos vs Custos da Sporting SAD (fonte: Fórum SCP)

"O Sporting nunca seguirá esse rumo. O Sporting pauta as suas decisões pela racionalidade e não pelo facto de ser ano eleitoral. Aliás, o maior investimento que fizemos esta época foi não termos vendido nenhum jogador importante", assegurou o presidente "leonino".

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Domingos Soares de Oliveira, Benfica SAD

O administrador financeiro da SAD do Benfica afirmou ter consciência das maiores restrições ao crédito por parte das entidades bancárias em geral, mas assinalou que a maioria dos créditos contratados pelo clube estão negociados a longo prazo. O responsável assinalou que se o Benfica precisar de novos empréstimos, além de falar com os parceiros habituais, poderá optar por outros meios de financiamento, como empréstimos obrigacionistas, observando que até à data o clube não teve dificuldades de crédito.

As receitas de bilheteira têm estado acima do orçamentado, embora em situações pontuais haja indícios de menor disponibilidade dos espectadores, garantiu Domingos Oliveira, considerando que "face à qualidade da equipa, as dificuldades são compensadas porque a qualidade do espectáculo é boa".

Aquele gestor prevê que possa haver restrições na importação de jogadores se os clubes destinatários tiverem dificuldades financeiras ou de crédito, mas assinalou que o Benfica "não tem uma dependência por aí além das vendas de jogadores" para equilibrar o seu balanço e não será muito afectado por isso, recordando que o clube não vendeu jogadores no fim da época passada e apresentou resultados positivos.

Mais do que o "apertar do cinto" de Chelsea, Manchester United, Real Madrid ou Inter de Milão, o drama para o Benfica passa por novo afastamento da "liga milionária", pois, como notou Domingos Soares de Oliveira, "a diferença entre a Liga dos Campeões e a Taça UEFA situa-se entre os sete e dez milhões de euros".

"Desenvolvemos um modelo que visava não depender da venda de jogadores. Esta quebra do mercado é-nos mais favorável do que em relação a alguns concorrentes. Mas se todos os proveitos se reduzirem, em 2010, o Benfica também terá necessidade de vender jogadores", preveniu.

O administrador da SAD do Benfica espera quebras nas receitas de bilheteira e quotização, pois "é impensável julgar que as pessoas vão continuar a pagar, quando até o consumo de bebidas e gasolina diminui", mas salienta que é a Liga dos Campeões que faz a diferença: "Não podemos manter esta ausência durante muito tempo".

Para Domingos Soares de Oliveira, é o "sucesso ou insucesso na performance desportiva" que pode determinar uma boa ou má época para a tesouraria benfiquista e não os proveitos com a venda de jogadores, pois "a última grande venda foi a de Simão (para o Atlético de Madrid), já há quase dois anos".
"Não diria que vai secar, mas esse mercado vai diminuir significativamente. Não se atingirão os níveis, nem em valores, nem em quantidade, que se atingiram nos últimos anos. Vermos clubes que, num ano, fazem 50 ou 60 milhões de euros de vendas... não acredito que isso aconteça", defendeu.


(continua, A perspectiva de Fernando Gomes, administrador da FCP SAD)

Fonte: Agência Lusa
Nota: A selecção das fotos e os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O impacto da crise no futebol português (I)

Os efeitos da crise mundial no futebol já se começam a sentir. Exemplos não faltam, incluindo no milionário futebol inglês (o mais rico a nível mundial). A AIG, principal patrocinadora do Manchester United, esteve à beira da falência, sendo salva pelo governo dos EUA; o Chelsea, tudo o indica, está à venda (basta que apareça alguém com dinheiro fresco para comprar o “brinquedo” de Roman Arkadyevich Abramovich).

Em Portugal, apesar de 90% das discussões serem à volta da arbitragem, têm-se também multiplicado os sinais de alerta (para quem esteve atento). O BES já anunciou que no final desta época vai deixar de patrocinar as camisolas dos três grandes e as declarações de responsáveis das SAD’s do FC Porto, Sporting e Benfica têm todas um denominador comum: a crise financeira mundial vai-se fazer sentir no futebol português, principalmente nas receitas das transferências de jogadores, publicidade e de bilheteira, que irão diminuir.

Há cerca de três meses, o Nuno Nunes abordou este assunto no ‘Reflexão Portista’. Primeiro, no artigo ‘Futebol e a crise financeira mundial (I)’, onde referiu que “as dificuldades poderão ter diversas origens e previsivelmente irão fazer-se sentir tanto no lado da receita – uma retracção no consumo poderá afectar negativamente a receita de bilheteira e de merchandising e a médio e longo prazo a receita proveniente da sponsorização se as assistências tiverem uma forte diminuição e, principalmente, uma redução dos valores envolvidos no mercado de transferências, a maior fonte de receita do FC Porto – como do lado da despesa – uma aumento das taxas de juro fará com que os encargos com a dívida aumentem e que o acesso ao crédito bancário seja mais restrito”.

Em 04/11/2008, com a publicação da 2ª parte – ‘Futebol e a crise financeira mundial (II)’ – analisando o caso concreto do FC Porto, o Nuno Nunes refere que “no ano passado, o Balanço da SAD evidenciava um total de dívida bancária de 59,3 milhões de euros, sendo 62% de médio e longo prazo e 38% de curto prazo. Este ano o Balanço apresenta um montante de dívida bancária de 79,6 milhões de euros (mais 20 milhões do que no ano passado!) sendo 44% da sua composição dívida de médio e longo prazo e 56% de curto prazo. Ou seja, em apenas um ano, a SAD aumentou o seu endividamento em 34% sendo que a maior fatia desse endividamento é exigível num prazo inferior a um ano”.

Embora saibamos que este assunto não merece muita atenção por parte dos adeptos (basta ver a quantidade residual de comentários que são feitos a este tipo de artigos), e o seu interesse diminua ainda mais numa semana em que regressamos à liderança do campeonato, entendo ser fundamental os portistas estarem cientes do impacto que esta situação poderá ter no modelo de gestão que tem vindo a ser seguido pela sociedade desportiva do FC Porto na última década.
Nesse sentido, irei recordar em três artigos análises e declarações feitas nos últimos dois meses por consultores, economistas e responsáveis das SAD’s dos três principais clubes portugueses.

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O consultor da Deloitte Ricardo Gonçalves previu que no curto e médio prazo haverá clubes e sociedades desportivas que vão cessar a actividade profissional de futebol, na Europa como em Portugal.

"A indústria de futebol é uma actividade económica como as outras e não está imune à crise", disse à agência Lusa aquele analista da Deloitte, especializado na área do desporto.

Ricardo Gonçalves assinalou que o crédito mais escasso e mais caro, uma previsível redução dos proveitos de patrocínios e publicidade, menor rendimento da venda de jogadores para o estrangeiro e quebra de receitas de bilheteira e merchandising (vendas de camisolas e outros artigos), vai implicar "um aperto de cinto" dos clubes portugueses.

Salientou que com a baixa da taxa Euribor serão aliviados os custos dos clubes com empréstimos passados mas, num contexto de problemas de liquidez, a obtenção de novos empréstimos será dificultada: "Vai haver menos dinheiro para emprestar aos clubes", e o custo do crédito vai agravar-se, com spreads muito maiores.

Aquele consultor da Deloitte sublinhou que a indústria de futebol, não só em Portugal como na Europa, está bastante endividada e apresenta um risco superior à média, "tem um balanço muito débil e vai ter problemas nesta conjuntura" de contracção económica.

Ricardo Gonçalves salientou que os custos com pessoal (salários mais amortizações de transferências) se situam em média em Portugal em 69 por cento das receitas correntes, acima dos 60 por cento recomendados pela UEFA, o que significa que é preciso um "pequeno ajustamento" no sector.

Mas o consultor da Deloitte acredita que, após uma fase de redução de preços de transferências e contenção de salários nas renegociações de contratos no curto/médio prazo, devido à crise económica, estas variáveis vão voltar ao normal e crescer no longo prazo.
Ricardo Gonçalves acredita que a longo prazo a receita gerada pela indústria do futebol vai voltar a crescer, porque o rendimento disponível das famílias aumentará e haverá mais tempo de lazer, o que significa que os valores de transferências e os salários vão voltar a subir.

Adiantou que existe uma correlação directa entre o crescimento do PIB de cada economia e o crescimento das respectivas indústrias desportivas, em que o futebol ocupa lugar de relevo no caso europeu.

Ricardo Gonçalves salientou a tendência de globalização da indústria do futebol, com entrada em novos mercados, destacando que a opção pela realização de campeonatos mundiais em países como o Japão e Coreia do Sul ou na África do Sul se insere nessa lógica.


"Há grandes clubes europeus que estão a fazer as suas pré-épocas na China, numa lógica de globalização de marcas", observou.

O especialista da Deloitte considera que a indústria mundial de futebol tem futuro e Portugal tem vantagens competitivas neste sector, porque é um mercado com grande apetência para a prática de futebol, que atrai muitos jovens, e para o seu consumo, além de ter um clima que permite jogar todo o ano e bons estádios espalhados por todo o país.

Além disso, nos últimos sete anos houve dois jogadores de futebol portugueses considerados como os melhores do mundo (Figo e Cristiano Ronaldo), o que contribui para que os futebolistas nacionais sejam mais valorizados nos mercados internacionais.

Ricardo Gonçalves defende que os clubes portugueses devem continuar a racionalização nos salários e custos de compra dos jogadores, que já começou há uns quatro anos, e transformar os modelos salariais, com maior componente de remuneração variável em função dos resultados, para se ajustarem a receitas também variáveis.

(continua, A opinião de responsáveis das SAD do Sporting e Benfica)

Fonte: Agência Lusa, 10/12/2008
Nota: A selecção das fotos e os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Futebol e a crise financeira mundial (II)

A enorme crise financeira abateu-se definitivamente sobre o desporto. Agora, até o desporto mais rico e que mais milhões faz girar à sua volta parece estar a sofrer o impacto da falta de liquidez a nível mundial: a Fórmula 1. Ao que se sabe algumas escuderias lutam com falta de fundos e colocam a hipótese de abandonar a competição. O dinheiro que as grandes empresas têm disponível para patrocinar eventos desportivos é cada vez menor e, normalmente em alturas de crise, o primeiro departamento a sentir os cortes orçamentais é o Marketing e Publicidade.


No que respeita ao futebol, sabemos bem que os clubes estão fortemente endividados, sendo que no Reino Unido o valor da dívida dos clubes ascende a 3,85 biliões de euros. Os receios de que clubes de topo possam falir são fundamentados, o aviso foi feito recentemente pelo Presidente da FA, David Triesman. Bem vistas as coisas só dessa forma (dívida) é que os gestores conseguem, por um lado, avançar para aquisições alavancadas de participações de capital dos clubes e, por outro, competir pela contratação dos seus craques pagos a peso de ouro.


O grande problema vem do facto dessa dívida ter origem no sistema bancário que, actualmente, está a passar por graves dificuldades sendo certo que haverá uma limitação de crédito a conceder bem como a utilização de um critério mais rigoroso na sua atribuição. Mas falemos do caso concreto do FC Porto. No ano passado, o Balanço da SAD evidenciava um total de dívida bancária de 59,3 milhões de euros, sendo 62% de médio e longo prazo e 38% de curto prazo. Este ano o Balanço apresenta um montante de dívida bancária de 79,6 milhões de euros (mais 20 milhões do que no ano passado!) sendo 44% da sua composição dívida de médio e longo prazo e 56% de curto prazo. Ou seja, em apenas um ano, a SAD aumentou o seu endividamento em 34% sendo que a maior fatia desse endividamento é exigível num prazo inferior a um ano.

Após a divulgação das contas relativas ao exercício 2007/08 entende-se o aumento do endividamento. Os Custos com Pessoal dispararam, incluindo os custos com os Órgãos Sociais com aumentos obscenos e até insultuosos para com os sócios e accionistas (principalmente pelo esquema de bónus criado com prémios absurdos em caso de obtenção de 2º ou 3º (!) lugar na Liga), e os Fornecimentos e Serviços Externos também subiram embora em menor percentagem. A juntar a isto, a SAD investiu cerca de 20 milhões de euros em contratações no início da época passada e mais de 25 milhões de euros nesta época em aquisições de novos jogadores.


A primeira consequência da actual crise no sistema financeiro será o abrandamento das transferências milionárias pagas com recurso à dívida e neste caso o FC Porto terá muito a perder porque continua, ano após ano, a assentar a sua estrutura de custos em proveitos obtidos em grande parte em transferências de jogadores por valores bastante elevados.

Como consequência da crise e da falta de liquidez, as instituições financeiras irão também exigir o cumprimento integral dos pagamentos do serviço da dívida e com isso accionarem o recebimento das receitas caucionadas pelos clubes a essa mesma dívida, no caso de incumprimento destes, o que poderá acontecer por uma retracção generalizada da procura e, em consequência, das receitas. O que está a acontecer actualmente ao Estrela da Amadora é um caso semelhante: as receitas de TV e de publicidade estão penhoradas até que o clube honre os seus compromissos para com os credores.


O que os clubes devem fazer é maximizar as receitas e simultaneamente minimizarem os seus custos. Fazer isto e equilibrar as suas contas através de uma gestão mais racional, eliminando gastos supérfluos e contratações desnecessárias, construindo plantéis mais curtos e equilibrados e com a maioria dos jogadores formados nas suas escolas, o que acabará por tornar os clubes de futebol em instituições mais transparentes e mais úteis à economia dos seus países.

Os clubes a nível europeu, e o FC Porto em particular, poderão apesar de tudo ver nesta conjuntura difícil uma oportunidade para mudarem de vida, gastando menos e potenciando a criação de talentos para assim despertarem nos adeptos uma maior identificação com as suas equipas e com os seus jogadores.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Futebol e a crise financeira mundial (I)


Com o avolumar da crise financeira global na semana passada assistimos às maiores quedas de sempre nas bolsas mundiais. Pânico foi a palavra certa para descrever o ambiente vivido em torno dos investidores bolsistas. Dizem os analistas (agora, como o nosso João Pinto dizia “prognósticos só no fim do jogo”) que a crise era previsível e inevitável.


A crise foi desencadeada no ano passado com o colapso das hipotecas subprime nos Estados Unidos e durante um ano acabou por tomar conta de bancos, casas de investimento, hedge funds e até de especuladores em todo o Mundo. O aparecimento e a disseminação de instrumentos financeiros sofisticados (denominados com acrónimos pomposos) baseados em créditos (activos) de recuperação muito duvidosa foram o passaporte para a implosão do sistema financeiro mundial. Warren Buffett tinha considerado há dois anos atrás estes créditos derivados como “armas financeiras de destruição maciça”. Aliás, o FMI tem liderado as críticas a esta nova estrutura financeira mundial e ao longo dos últimos quatro anos tem publicado as explicações pormenorizadas dos perigos que essa estrutura representa para a estabilidade económica mundial.


Entre falências e vendas de gigantes a preço de saldo no mundo financeiro, nos dias que correm vemos de tudo. Só nos Estados Unidos já estiveram em apuros, e salvos apenas pelo Governo, o Bear Stearns, o Indymac, o Fannie Mae e o Freddy Mac. O quarto maior banco americano, o Lehman Brothers faliu e o Merril Lynch foi comprado pelo Bank of América a metade do preço. Em Março, já o Bear Stearns tinha sido adquirido a preços de saldo pelo JP Morgan. Nem a gigante seguradora americana AIG que patrocina o poderoso Manchester United escapou e teve praticamente de ser nacionalizada (80% do seu capital pertence agora ao banco central norte-americano). Na Europa as instituições financeiras a revelarem problemas são muitas e provavelmente nunca imaginadas, como o Royal Bank of Scotland, o HBOS e o Lloyds TSB no Reino Unido, o Grupo Fortis na Bélgica e na Holanda, o Hypo Real Estate na Alemanha, o Landsbanki, o Kaupthing e o Glitnir Bank na Islândia e o Bonusbanken na Dinamarca. Isto para além de quase todos os Governos europeus terem anunciado a ajuda de muitos milhares de milhões de euros aos sistemas bancários nacionais quer seja através da participação no capital dos bancos (nacionalização) quer seja através da disponibilização de linhas de crédito para garantir a sua liquidez.


Perante este cenário negro podemos questionar de que forma é que o futebol nacional e mais concretamente a FC Porto, SAD serão afectados. As dificuldades poderão ter diversas origens e previsivelmente irão fazer-se sentir tanto no lado da receita – uma retracção no consumo poderá afectar negativamente a receita de bilheteira e de merchandising e a médio e longo prazo a receita proveniente da sponsorização se as assistências tiverem uma forte diminuição e, principalmente, uma redução dos valores envolvidos no mercado de transferências, a maior fonte de receita do FC Porto – como do lado da despesa – uma aumento das taxas de juro fará com que os encargos com a dívida aumentem e que o acesso ao crédito bancário seja mais restrito.

O próprio administrador da SAD do FC Porto responsável pela área financeira, Fernando Gomes, confessou as suas preocupações numa entrevista ao PÚBLICO em 10.10.2008:
“(…) a grande preocupação está centrada na inevitável contracção do mercado de transferências, fonte insubstituível de receitas para um país exportador de "mão-de-obra qualificada", como é Portugal. "Antevejo extremas dificuldades para o futebol nacional", confessou Fernando Gomes.

"A circunstância agravante para os clubes portugueses resultará da diminuição da capacidade de aquisição de outros clubes europeus, que são habituais clientes de jogadores em Portugal. Uma situação que terá evidentes reflexos nos clubes nacionais ao nível da capacidade de gerar mais-valias, que constitui um parâmetro essencial do nosso equilíbrio financeiro", garantiu o responsável dos "dragões", que acredita que os seus receios serão confirmados já na reabertura do mercado de transferências, em Janeiro.


Também Domingos Soares de Oliveira, administrador da SAD do Benfica, considera "inquestionável" que o enfraquecimento da posição dos principais mercados importadores terá impacto no futebol português, ainda mais se conjugado com as restrições ao crédito bancário. "Se se comprovar o impacto da crise no mercado de transferências, que impeça os clubes de concretizarem mais-valias e equilibrarem com isso as suas contas, a alternativa, que é a fonte bancária, terá condições mais restritivas e, obviamente, irá afectar os clubes de outra maneira. Só o efeito do acesso ao crédito em termos nacionais não seria suficiente para provocar grandes problemas, agora os dois factores conjugados podem, efectivamente, ter aqui algum impacto", defendeu.


A questão do passivo bancário e do acesso ao crédito foi também destacada por Fernando Gomes. "Esta ausência de liquidez vai tornar muito mais difícil o acesso ao crédito, que terá uma selecção muito mais rigorosa, ainda mais quando os clubes portugueses estão altamente endividados e necessitados de fundos de terceiros, nomeadamente da banca", referiu.”


Na verdade, as receitas com transferências em Portugal caíram cerca de 60% de 2007 para 2008. O FC Porto só conseguiu 18,6 milhões (mais o passe de Pélé) pela venda do passe do Quaresma. Tendo em conta os valores por que foram vendidos outros atletas do FC Porto nas últimas épocas e a aparente intransigência de Pinto da Costa no pagamento da cláusula de rescisão (40 milhões) para a saída de Quaresma, não foi estranha esta descida súbita nos valores pagos por transferências de jogadores? Será que o mercado de transferências já está a ressentir-se da crise financeira internacional ou será apenas uma questão de conjuntura?


Este artigo continua (parte II).

Nota: os negritos são da minha responsabilidade