No longo historial de desafios entre o SL Benfica e o FC Porto, nos 80 jogos anteriores (ao de hoje) para o campeonato, que foram disputados em Lisboa, o saldo, naturalmente, era (e continua ser) muito favorável aos encarnados:
- Vitórias SL Benfica: 42 (52%)
- Empates: 24 (30%)
- Vitórias FC Porto: 14 (18%)
- Vitórias do FC Porto por mais de um golo: 1
E no presente?
Há várias semanas que ouvimos jornalistas, comentadores e adeptos dizerem que, em casa, este SLB é uma equipa muito forte.
E, de facto, os números sustentavam essa tese. Esta época, nos 14 jogos anteriores disputados em casa, o saldo do SL Benfica era o seguinte:
- Vitórias: 13
- Empates: 1
- Derrotas: 0
- Golos marcados: 40
- Golos sofridos: 4
E o FC Porto?
Bem, na passada terça-feira, o FC Porto jogou na Alemanha, contra a melhor equipa do Mundo, e saiu de Munique vergado ao peso de uma goleada.
Ou seja, perante um calendário pouco favorável (é preciso ter “sorte” para jogar fora, em Munique e na Luz, num espaço de poucos dias…), a equipa do FC Porto chegou ao “jogo do título” fisicamente desgastada e emocionalmente esgotada.
Perante um cenário destes, jogando em casa, com o Estádio da Luz completamente cheio, o que fez Jorge Jesus?
Aproveitou o colinho das 29 jornadas anteriores e uma conjuntura muito favorável para a sua equipa?
Aproveitou a fragilidade do adversário para vir para cima do FC Porto, dominar o jogo, encostar os azuis-e-brancos às cordas e dar o golpe de misericórdia a um Dragão ferido?
Não, nem pensar.
A equipa liderada por Jorge Jesus jogou de forma cínica, com uma táctica parecida à que tinha utilizado no Estádio do Dragão, uma táctica de equipa pequena, cujo principal (único?) objectivo era não deixar a equipa adversária jogar.
Não é exagero dizer-se que, neste jogo, o “mestre da táctica” começou o jogo com um “autocarro” e terminou com dois “autocarros”. E com os jogadores encarnados a queimarem tempo…
Ao menos, o Mourinho, quando leva o “autocarro” é para os jogos fora de casa…
Na primeira parte, quantas vezes é que os jogadores encarnados entraram na área do FC Porto, em lances de bola corrida?
Quantas vezes é que os médios do SLB passaram do meio-campo?
Nos primeiros 45 minutos, o criativo Gaitán (o melhor jogador do SLB), destacou-se mais a construir jogadas ofensivas, ou a vir atrás, em ajudas defensivas?
Aliás, basta verificar a que minuto o SLB fez o 1º remate à baliza do Helton e olhar para as substituições feitas pelos dois treinadores, para se perceber qual era o objectivo de cada um deles.
O SLB terminou o jogo em branco (2206 dias depois, os encarnados voltaram a ficar a zero num encontro em casa para o campeonato), com 8 jogadores de perfil defensivo - Júlio César, Maxi, Luisão, Jardel, Eliseu, Samaris, André Almeida e Fejsa - e apenas três jogadores supostamente ofensivos - Ola John, Gaitán e Lima - mas cujo principal objectivo era também defender.
Perante uma equipa encarnada que, mesmo a jogar em casa, perante os seus adeptos, teve como prioridade, desde o minuto inicial, defender, não deixar jogar, defender, não deixar jogar, defender, não deixar jogar… o FC Porto poderia ter feito melhor?
Sim, apesar de tudo, podia.
Faltou frescura física e um maior dinamismo para sair da teia de aranha montada por Jorge Jesus.
Faltou um Brahimi em melhor forma. O Brahimi pós-CAN não é o mesmo que encantou os portistas (e não só) até Dezembro.
Faltou Tello. Conforme se previa, um jogador com as características de Tello fez (faz) muita falta e as bolas em profundidade, nas costas da "Linha Maginot" encarnada, raramente saíram bem.
Faltou marcar primeiro. Jackson falhou o golo que teria colocado o FC Porto em vantagem no marcador e obrigado (?) Jorge Jesus a mudar de táctica.
O FC Porto já demonstrou, várias vezes, que é melhor que o pré-definido e futuro vencedor do campeonato mais fraudulento de que há memória.
E hoje voltou a fazê-lo, indo a casa do rival mostrar que é uma equipa grande e jogando como tal.
Por isso, e apesar do treinador, dos jogadores e dos adeptos terem saído desiludidos do Estádio do Luz, por "apenas" regressarem ao Porto com um empate, eu acho que a forma como este desafio foi disputado e a atitude dominadora evidenciada ao longo do jogo, foi a 1ª vitória da próxima época para esta equipa.

P.S. Há quem tenha memória curta (mesmo entre os portistas) e já se tenha esquecido dos inúmeros casos de arbitragem que mancharam este campeonato. Mas eu não me esqueço e não fossem os muitos pontos que o SLB deve a “erros” de arbitragem e tenho a certeza que o jogo de hoje teria tido outra história. Pelo menos, não haveria “autocarros” porque, seguramente, o empate seria um resultado que não serviria os interesses matemáticos de Jorge Jesus.
P.S.2 E por falar em memória curta… Na época passada, o FC Porto foi ao estádio da Luz perder 0-2 para o campeonato e perder 1-3 para a Taça de Portugal (num desafio em que o SLB jogou com menos um desde o minuto 28). Esta época, o FC Porto saiu do estádio da Luz com um empate e com Jorge Jesus, à rasca, a trocar Talisca por Fejsa e Pizzi por André Almeida. Sem estar tudo bem, longe disso, penso que estamos no caminho certo.