Não há muito a dizer mas há muito a sentir.
O FC Porto sofreu a maior derrota da sua história em casa e igualou a sequência de pior derrota de sempre na Europa (cinco golos de diferença) de uma forma absolutamente indiscutivel. Foi um resultado duro, pesado mas não foi um resultado injusto. O Porto fez pouco para marcar e fez muito para deixar o Liverpool marcar à vontade. E quando se disputam os oitavos de final da Champions League e os detalhes contam, e muito, o banho de realidade é inevitável.
No primeiro jogo disputado este ano escrevi que esta não era a nossa luta.
Continua a não o ser. O FC Porto vai ser campeão nacional. O FC Porto vai ganhar a Taça de Portugal. E essa Dobradinha vai ser o culminar de um ano excelente. A derrota e inevitável eliminação com o Liverpool não muda nada mesmo com estes números. Não são bonitos, não estão à nossa altura e doi, doi sem dúvida, mas é preciso nestes momentos ser mais racional do que nunca e entender que todos aqueles que apontavam o dedo em Agosto - plantel curto, inexperiente, problemas de jogo tácticos - agora apenas constataram a realidade, que é a mesma, mas estamos agora a três meses do final da época e à beira de fazer história. Isso é o que conta.
Obviamente que o FC Porto, num dia normal, não é equipa para sofrer cinco golos em casa de ninguém, seja o Liverpool, o City ou o Barcelona mas quando se reunem determinadas condições o desastre é inevitável. Um jogo que chega numa altura em que a acumulação de jogos se nota; onde as lesões e suspensões de jogadores fundamentais, especialmente para este contexto, mais se fazem sentir e contra um rival poderoso, reforçado e que encara o confronto com outra mentalidade. O Porto luta para ser campeão, essa é a sua prioridade. O Liverpool sabe que tem mais possibilidades de chegar longe na Champions do que de vencer a sua liga. Se a isso juntamos a tempestade perfeita, tudo o resto se torna mais lógico.
José Sá é isto. Sempre foi isto e sempre será isto. Não é um adolescente de 19 anos. Mantém as mesmas debilidades de sempre e se bem que tem estado sério nos jogos na liga, na Europa o nível é outro. Teve uma noite para esquecer, mal em quase todos os golos e, sobretudo, incapaz de transmitir insegurança aos colegas. Para além do frango claro no golo que mudou o jogo, foi ainda lento a reagir no segundo golo ao remate, desviou com pouca força o disparo do terceiro e podia ter feito mais no quinto. Nunca mais vai esquecer este jogo mas é fundamental que até Maio não lhe pese sobre os ombros. Será fundamental ver se a sua maturidade competitiva o leva isso ou a fraquejar. Para os que se lembram que Iker estava no banco, é altamente improvável que o espanhol sofresse estes cinco golos mas quem se lembra igualmente da eliminação - mais séria porque foi noutro contexto totalmente diferente - frente ao Dinamo de Kiev, sabe também que Casillas não é a garantia exclusiva de portas fechadas na Champions em casa. A lembrar.
O certo é que se Sá esteve mal toda a defesa foi um desastre. Mané surge só no primeiro golo porque todos os jogadores vão bloquear um disparo de Wijnauldum que ressalta o esférico aos pés do senegales que nunca poderia estar tão só. No segundo remate Salah, igualmente, nunca poderia estar sem uma sombra ao lado do guarda-redes. Marcano desistiu de correr atrás de Mané no terceiro e Ricardo fez o mesmo no quarto golo com Millner. No quinto Sérgio Oliveira tentou fazer uma falta táctica mas foi tão macio que Mané acabou por fugir e o médio não aguentou o ritmo. Depois abriu-se uma auto-estrada á frente. Ninguém ficou impune aos erros. A derrota foi colectiva e isso que os primeiros vinte minutos, com um superlativo Brahimi e um Otávio sempre mexendo-se bem, parecia intuir outra coisa. Tivesse o remate do brasileiro tido melhor sorte no desvio como teve o de Mané ou o remate de Soares sido mais preciso e o jogo teria sido diferente. Mas nem um nem outro são jogadores de elite e nesses momentos nota-se. Marega passou ao lado do jogo, como tem sido habitual estes meses e quando Brahimi saiu, confirmando a rendição lógica de Conceição, o resto era fácil de adivinhar.
Para consumo interno esto FC Porto tem demonstrado ser mais do que suficiente graças sobretudo a um grande trabalho colectivo de intensidade e união que tapa algumas das misérias individuais que são reais. No contexto europeu a situação é diferente. O Porto qualificou-se num grupo repleto de surpresas - ninguém imaginaria o último posto do Monaco - e com base a uma grande eficácia nas bolas paradas. Não foi por qualidade de jogo corrido nem pelo talento individal de alguns dos seus jogadores e hoje, quando todos os livres e cantos foram bem anulados pelo Liverpool, essa debilidade ficou exposta. Não é um drama, é a aceitação de uma realidade entre um plantel que não pode ser reforçado e um Liverpool que gastou 80 milhoes de euros num central em Janeiro e que tem uma das linhas avançadas mais brutais do futebol mundial. É preciso caminhar com a cabeça alta mas com os pés no chão.
Nunca uma derrota teve tanto potencial para fazer tão bem. Além da poupança lógica que deve haver em Anfield - independente do resultado - este resultado deve ser para enfocar de novo a vista no que realmente importa e deve unir, mais do que nunca, quem joga e quem apoia. Quem sabe que tem de se redimir e tem oportunidade na próxima semana de o fazer em jogo e meio que podem ser decisivos na luta pelo título e quem tem a obrigação de não baixar agora os braços e deixar de apoiar aqueles que têm superado todas as expectativas. Não é um tropeção que marca uma época se todos tiverem bem claro que já haverá tempo e contexto para procurar emendar a mão na Europa dos tubarões. A nossa realidade é mais pequena e de cariz nacional e nenhuma casa se começa a construir desde o telhado. Depois de quatro anos sem títulos nacionais o importante é trabalhar o regresso ao topo em casa para depois crescer. Sem dramas, sem choro, sem esquecer. Que a noite de hoje seja a primeira noite dos campeões nacionais 2017/18.
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
É o que temos: (muita) atitude, garra e falta de qualidade individual
O FC Porto mereceu ter vencido o Bessiktas por mais de um golo de vantagem. Gerou jogo e caudal ofensivo suficiente para isso e raramente esteve ameaçado pelos turcos. O resultado não podia ser mais enganador em relação ao que se viveu no relvado e no entanto é o resultado natural dadas as circunstâncias. Uma equipa que quer atacar um jogo da Champions League com Marega, Hernâni, Soares e André André nos momentos de maior aperto é, claramente, uma equipa fora de lugar. O FC Porto não tem plantel para ombrear com a elite continental e hoje, viu-se, nem sequer para lutar contra equipas do mesmo nível quando o que está em causa é o talento individual. Houve quatro golos no Dragão e nenhum foi de um jogador azul e branco. O talento individual de Quaresma, de Talisca, de Babel ou a liderança de Pepe estão do lado de um Bessiktas que, como qualquer gigante do futebol turco, tem bom dinheiro para gastar e pagar em salários. O FC Porto de há uns anos podia perfeitamente competir com essa realidade e fazia-o. Esta versão não. Sérgio Conceição não tem culpa. Montou um esquema para dominar o esférico e usar os espaços e depois, quando se viu a perder - em duas ocasiões - meteu toda a carne no assador. Atitude e querer nunca faltou à equipa e essa é a melhor nota. Mas só isso não chega. Não a este nível. É a crua e dura realidade.
Também não ajudou que no dia em que bateu o recorde de Xavi e passou a ser o jogador com mais jogos de sempre na história da competição, Iker Casillas estivesse similar ao Iker de há dois anos, o que custou o lugar a Lopetegui. O segundo e o terceiro golo contaram com duas estiradas pouco determinadas, apesar do primeiro ser um disparo tremendo e o segundo ser uma tabela básica que deixou a nu as falhas defensivas que oferecem os laterais do FC Porto, neste caso Alex Telles, que depois de ver como tinha de ser dobrado no seguimento ao seu homem, esqueceu-se de acompanhar Babel e este conseguiu disparar a belo prazer, um remate que Iker Casillas podia ter feito mais para parar. Não o fez e o jogo morreu, matematicamente, ali. Na prática, apesar da sensação de máxima entrega, já tinha morrido quando todos perceberam que a linha ofensiva do Porto era inofensiva frente á baliza. Pouco acerto. Muito pouco para tanto caudal. Se com NES o problema era chegar á frente e criar perigo - e cada lance de André Silva era um oásis - aqui o problema é que a qualidade individual dos interpretes não está à altura da quantidade de opções criadas. Oliver e Brahimi, na primeira parte, e o argelino e Otávio, no segundo tempo, bem se esforçaram e fizeram mexer as peças do puzzle mas nem Ricardo nem Alex estiveram acertados nem apoio nem os dois avançados titulares - a baixa de Aboubakar hoje deu um reflexo do que poderá passar se o camaronês se lesiona - mostraram estar á altura entre manos a manos desperdiçados e remates sem sentido. Nem sequer a meia distância, que ás vezes pode fazer a diferença, resultou efectiva. O Porto fez um jogo à Porto no querer e na atitude mas não foi suficiente para bater um Bessiktas que, na prática, é uma equipa banal e a mais débil do grupo. Na altura do sorteio ficou claro que este grupo, sem nenhum cabeça de cartaz, pode acabar com o Porto em primeiro ou em último. Os sinais de hoje deixam claramente a sensação que com um plantel tão curto - uma vez mais não havia um só ponta-de-lança no banco para lançar - é muito difícil aspirar a algo mais do que ir amealhando pontos e euros e ver o que passa sem tirar a cabeça do que deve ser prioritário, a Liga.
Ao trabalho de Conceição, como tem sido apanágio, não há muito a dizer que não seja positivo. A retirada de um esforçado Oliver, que teve nos pés grandes destelhos e duas excelentes ocasiões, entende-se no conjunto da gestão de esforços e na ausência de opções de ataque, pouco se lhe podia exigir quando a terceira substituição resultou ser Hernâni. Em atitude, capacidade de empurrar a equipa para a frente e mostrar, ao abdicar de Danilo - que continua sem se sentir totalmente cómodo neste modelo - vontade de ganhar contra tudo e todos, foi o mesmo treinador que nos jogos da Liga, um excelente sinal de atitude ganhadora. Mas quando os erros individuais - de Casillas atrás e da linha de ataque frente a Fabricio - condenam o resultado final, pouco mais há a dizer. O enfoque principal é o que é. O plantel é curtíssimo e não podemos exigir pérolas a porcos. Quem é o responsável desta gestão - mais uma vez, por culpa da sanção da UEFA só havia 19 jogadores disponíveis para o técnico trabalhar opções - e da falta de um plantel de garantias que dê a cara no momento oportuno. Técnico e jogadores deram tudo o que tinham. Nalguns casos o melhor que têm é isto e não há como disfarçar. Pode, perfeitamente, ser suficiente para consumo interno como o Benfica tem vindo a demonstrar com planteis tão fracos e jogadores tão ineptos, ainda que eles tenham sempre um joker na manga e a chamada do público em cada jogo para utilizar em momentos de aperto, mas quando falamos de Champions League não há milagres. Venha o próximo duelo a sério!
Também não ajudou que no dia em que bateu o recorde de Xavi e passou a ser o jogador com mais jogos de sempre na história da competição, Iker Casillas estivesse similar ao Iker de há dois anos, o que custou o lugar a Lopetegui. O segundo e o terceiro golo contaram com duas estiradas pouco determinadas, apesar do primeiro ser um disparo tremendo e o segundo ser uma tabela básica que deixou a nu as falhas defensivas que oferecem os laterais do FC Porto, neste caso Alex Telles, que depois de ver como tinha de ser dobrado no seguimento ao seu homem, esqueceu-se de acompanhar Babel e este conseguiu disparar a belo prazer, um remate que Iker Casillas podia ter feito mais para parar. Não o fez e o jogo morreu, matematicamente, ali. Na prática, apesar da sensação de máxima entrega, já tinha morrido quando todos perceberam que a linha ofensiva do Porto era inofensiva frente á baliza. Pouco acerto. Muito pouco para tanto caudal. Se com NES o problema era chegar á frente e criar perigo - e cada lance de André Silva era um oásis - aqui o problema é que a qualidade individual dos interpretes não está à altura da quantidade de opções criadas. Oliver e Brahimi, na primeira parte, e o argelino e Otávio, no segundo tempo, bem se esforçaram e fizeram mexer as peças do puzzle mas nem Ricardo nem Alex estiveram acertados nem apoio nem os dois avançados titulares - a baixa de Aboubakar hoje deu um reflexo do que poderá passar se o camaronês se lesiona - mostraram estar á altura entre manos a manos desperdiçados e remates sem sentido. Nem sequer a meia distância, que ás vezes pode fazer a diferença, resultou efectiva. O Porto fez um jogo à Porto no querer e na atitude mas não foi suficiente para bater um Bessiktas que, na prática, é uma equipa banal e a mais débil do grupo. Na altura do sorteio ficou claro que este grupo, sem nenhum cabeça de cartaz, pode acabar com o Porto em primeiro ou em último. Os sinais de hoje deixam claramente a sensação que com um plantel tão curto - uma vez mais não havia um só ponta-de-lança no banco para lançar - é muito difícil aspirar a algo mais do que ir amealhando pontos e euros e ver o que passa sem tirar a cabeça do que deve ser prioritário, a Liga.
Ao trabalho de Conceição, como tem sido apanágio, não há muito a dizer que não seja positivo. A retirada de um esforçado Oliver, que teve nos pés grandes destelhos e duas excelentes ocasiões, entende-se no conjunto da gestão de esforços e na ausência de opções de ataque, pouco se lhe podia exigir quando a terceira substituição resultou ser Hernâni. Em atitude, capacidade de empurrar a equipa para a frente e mostrar, ao abdicar de Danilo - que continua sem se sentir totalmente cómodo neste modelo - vontade de ganhar contra tudo e todos, foi o mesmo treinador que nos jogos da Liga, um excelente sinal de atitude ganhadora. Mas quando os erros individuais - de Casillas atrás e da linha de ataque frente a Fabricio - condenam o resultado final, pouco mais há a dizer. O enfoque principal é o que é. O plantel é curtíssimo e não podemos exigir pérolas a porcos. Quem é o responsável desta gestão - mais uma vez, por culpa da sanção da UEFA só havia 19 jogadores disponíveis para o técnico trabalhar opções - e da falta de um plantel de garantias que dê a cara no momento oportuno. Técnico e jogadores deram tudo o que tinham. Nalguns casos o melhor que têm é isto e não há como disfarçar. Pode, perfeitamente, ser suficiente para consumo interno como o Benfica tem vindo a demonstrar com planteis tão fracos e jogadores tão ineptos, ainda que eles tenham sempre um joker na manga e a chamada do público em cada jogo para utilizar em momentos de aperto, mas quando falamos de Champions League não há milagres. Venha o próximo duelo a sério!
sexta-feira, 26 de maio de 2017
Não celebrem Viena, não celebrem Gelsenkirchen, celebremos o depois de amanhã
Amo o Futebol Clube do Porto. Com todas as minhas forças cresci celebrando cada triunfo, engolindo em seco cada tropeção, enraivecido com cada roubo em contra e com cada derrota. Não sei ser outra coisa que não portista. E cresci com uma cultura de vitórias. Sou muito novo para me lembrar de Viena com claridade mas tenho flashes na minha cabeça. Sei que vi o jogo em casa dos meus tios, com o meu pai e tio colados ao sofá e eu por ali, sem saber muito bem o que se passava. Sei que ouvi os gritos de golo e quando o Juary marcou o dele o meu tio não aguentou mais dos nervos e fechou-se no quarto de banho, não queria ver, não queria saber, enquanto o meu pai ia gritando o que se passava. Choraram. Eramos campeões europeus. Foi um 27 de Maio de 1987. No 26 de Maio de 2004 não só era consciente de tudo, era participe de tudo. Sócio cativo há mais de uma década, incapaz de perder um só jogo nas Antas - e desde há poucos meses no Dragão - mais algumas deslocações históricas, aquela era a minha geração. A minha gente, os meus jogadores, a minha equipa. Sofri mais com Sevilha, confesso, muito mais. Em Gelsenkirchen sempre soube que só um milagre nos ia custar uma Champions inesperada mas totalmente merecida. Festejamos até ás tantas nos Aliados, eu e os meus irmãos, e fomos receber a equipa como nos mereciamos todos. Já não tinha só memórias e flahses na cabeça, tinha o triunfo tatuado na pele. Os dragões eram reis da Europa outra vez. Vinte e quatro horas menos e dezassete anos depois.
Hoje e amanhã deviam ser dias de celebração.
No Reflexão Portista pensamos inclusive em fazer um especial de artigos e textos sobre os trinta anos de Viena - para quem queira, há um maravilhoso livro coordenado pelo João Nuno Coelho sobre os 25 anos dessa data histórica - para celebrar esse dia maravilhoso. Mas o clube não está agora mesmo para este tipo de celebrações nem de regressos ao passado nostálgicos. Nunca devemos esquecer quem somos, de onde viemos e o que conquistamos. Há clubes a celebrar um Tetra, convém recordar que disso temos dois, temos um Penta e não necessitamos setenta anos de história para os conseguir. Há clubes a celebrar duas Taças dos Campeões Europeus, a última conquistada em 1962, convém recordar sempre que disso temos duas, bem mais recentes, mas também duas Taça UEFA/Liga Europa e uma Supertaça Europeia e duas Intercontinentais, já agora, para que fique claro quem é o maior clube português em títulos internacionais. Taça Latina incluída. Isso nunca se esquece, isso está dentro de nós e recordar é viver. Mas ao ritmo que levamos corremos o sério risco de cair no poço em que outros viveram durante anos com o velho chavão do "antes é que era", do "naquela época é que eramos os maiores" e o "os meus títulos são melhores que os teus". Passar estes dois dias a celebrar Viena e Gelsenkirchen é uma tentação bonita porque são dois troféus maravilhosos e dois dias inesqueciveis. Mas fazê-lo, tal como estamos, é trair-nos a nós mesmos e à nossa memória. Sobretudo, é trair o que nos levou precisamente a ganhar esses dois troféus: viver o presente.
O FC Porto deixou de ser um clube gerido a pensar no presente e isso é um dos principais motivos pelo que estamos nesta etapa negra. Pelo menos no presente do clube. Os projecto não têm direcção, caem ao primeiro abanão, mudam de forma radical de ano para ano sempre a pensar em algo que tente recuperar o passado sem que ninguém se dê conta que o futebol mudou. Se algo sustentou o êxito dos anos 80 e 90 foi a capacidade do Porto se adaptar melhor que ninguém ao mundo que viviamos e ao futebol do seu tempo a distintos niveis. Essa realidade perdeu-se e cada vez mais nos entragamos à nostalgia, ao "jogador à Porto", ao "treinador à Porto", ao "Somos Porto", ao "no tempo de" e esquecemo-nos que cada semana há um jogo novo num mundo novo e que é aí onde nos temos de concentrar. O mercado não é o dos noventa, a formação não é a dos oitenta, os treinadores não são os dos 2000 e, sobretudo, a direcção há muito que não é a desse periodo em actitude, trabalho e entrega, já para não falar em idade. E não saimos desse circulo fechado e entregar-nos a esse ritual de celebração num ano triste onde perdemos tudo, outra vez, parece-me ser um erro e uma falta de respeito para com o que fomos e que deviamos ser.
O lodo onde estamos tem muitas explicações. O lodo onde estamos pode prolongar-se muito ou pouco tempo, depende de aquilo que quem gere o clube tem preparado para o futuro. O que sim é fácil de entender é que não é celebrando o passado que vamos estar mais preparados para o depois de amanhã. Se queremos voltar a ser grandes é precisamente isso que devemos fazer. Pensar no hoje, no amanhã e no depois, pensar no presente e no futuro, em como vamos reorganizar o clube, as contas, a parcela desportiva. Não pensemos no que já foi e já não volta. O que talvez nem sequer se volte a repetir porque o mundo mudou. Sonhar com outro título europeu é bonito mas cada vez mais redutor, pensemos em como conquistamos nós o nosso Penta antes que o celebrem outros. Primeiro ganhamos um título...depois pensamos em ganhar o Bi...depois pensamos em ganhar o Tri...e ganhamos. Depois demos o salto ao Tetra e foi nosso. Depois preparamos tudo para assaltar o Penta, e celebramos como loucos. Hoje temos de pensar como vamos ser campeões em Maio do próximo ano. Em nada mais. Nem títulos passados nem em equipas de outras eras. Pensem no hoje. Pensem no amanhã. Pensem em Maio. E passo a passo pensem em voltar a ser grandes como o escudo do Dragão merece.
Hoje e amanhã deviam ser dias de celebração.
No Reflexão Portista pensamos inclusive em fazer um especial de artigos e textos sobre os trinta anos de Viena - para quem queira, há um maravilhoso livro coordenado pelo João Nuno Coelho sobre os 25 anos dessa data histórica - para celebrar esse dia maravilhoso. Mas o clube não está agora mesmo para este tipo de celebrações nem de regressos ao passado nostálgicos. Nunca devemos esquecer quem somos, de onde viemos e o que conquistamos. Há clubes a celebrar um Tetra, convém recordar que disso temos dois, temos um Penta e não necessitamos setenta anos de história para os conseguir. Há clubes a celebrar duas Taças dos Campeões Europeus, a última conquistada em 1962, convém recordar sempre que disso temos duas, bem mais recentes, mas também duas Taça UEFA/Liga Europa e uma Supertaça Europeia e duas Intercontinentais, já agora, para que fique claro quem é o maior clube português em títulos internacionais. Taça Latina incluída. Isso nunca se esquece, isso está dentro de nós e recordar é viver. Mas ao ritmo que levamos corremos o sério risco de cair no poço em que outros viveram durante anos com o velho chavão do "antes é que era", do "naquela época é que eramos os maiores" e o "os meus títulos são melhores que os teus". Passar estes dois dias a celebrar Viena e Gelsenkirchen é uma tentação bonita porque são dois troféus maravilhosos e dois dias inesqueciveis. Mas fazê-lo, tal como estamos, é trair-nos a nós mesmos e à nossa memória. Sobretudo, é trair o que nos levou precisamente a ganhar esses dois troféus: viver o presente.
O FC Porto deixou de ser um clube gerido a pensar no presente e isso é um dos principais motivos pelo que estamos nesta etapa negra. Pelo menos no presente do clube. Os projecto não têm direcção, caem ao primeiro abanão, mudam de forma radical de ano para ano sempre a pensar em algo que tente recuperar o passado sem que ninguém se dê conta que o futebol mudou. Se algo sustentou o êxito dos anos 80 e 90 foi a capacidade do Porto se adaptar melhor que ninguém ao mundo que viviamos e ao futebol do seu tempo a distintos niveis. Essa realidade perdeu-se e cada vez mais nos entragamos à nostalgia, ao "jogador à Porto", ao "treinador à Porto", ao "Somos Porto", ao "no tempo de" e esquecemo-nos que cada semana há um jogo novo num mundo novo e que é aí onde nos temos de concentrar. O mercado não é o dos noventa, a formação não é a dos oitenta, os treinadores não são os dos 2000 e, sobretudo, a direcção há muito que não é a desse periodo em actitude, trabalho e entrega, já para não falar em idade. E não saimos desse circulo fechado e entregar-nos a esse ritual de celebração num ano triste onde perdemos tudo, outra vez, parece-me ser um erro e uma falta de respeito para com o que fomos e que deviamos ser.
O lodo onde estamos tem muitas explicações. O lodo onde estamos pode prolongar-se muito ou pouco tempo, depende de aquilo que quem gere o clube tem preparado para o futuro. O que sim é fácil de entender é que não é celebrando o passado que vamos estar mais preparados para o depois de amanhã. Se queremos voltar a ser grandes é precisamente isso que devemos fazer. Pensar no hoje, no amanhã e no depois, pensar no presente e no futuro, em como vamos reorganizar o clube, as contas, a parcela desportiva. Não pensemos no que já foi e já não volta. O que talvez nem sequer se volte a repetir porque o mundo mudou. Sonhar com outro título europeu é bonito mas cada vez mais redutor, pensemos em como conquistamos nós o nosso Penta antes que o celebrem outros. Primeiro ganhamos um título...depois pensamos em ganhar o Bi...depois pensamos em ganhar o Tri...e ganhamos. Depois demos o salto ao Tetra e foi nosso. Depois preparamos tudo para assaltar o Penta, e celebramos como loucos. Hoje temos de pensar como vamos ser campeões em Maio do próximo ano. Em nada mais. Nem títulos passados nem em equipas de outras eras. Pensem no hoje. Pensem no amanhã. Pensem em Maio. E passo a passo pensem em voltar a ser grandes como o escudo do Dragão merece.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Onde colocar a Europa League na lista de prioridades?
Que queremos de uma competição como a Europa League a partir
de Fevereiro?
Esse é seguramente um dos grandes dilemas da Porto SAD agora
mesmo. Ninguém pensava nesse cenário este ano. O sorteio da Champions League parecia
perfeitamente acessível a uma equipa que tinha chegado aos Quartos-de-Final do
ano anterior e, como disse bem Mourinho, depois da dupla ronda contra o Macabbi
instalou-se no clube e nos adeptos a sensação de que “estava feito”. Não
estava. Agora o futebol europeu hiberna mas a partir de Fevereiro é preciso
tomar decisões. Em que ponto da equação devemos colocar a relevância de um
torneio como a Europa League?
Parece claro que o grande objectivo do Porto permanece
absolutamente inalterado.
A cada ano o clube orçamenta a temporada e traça como
objectivo mínimo lutar pelo título e por um lugar nos oitavos da Champions. As
Taças são torneios cada vez mais residuais nesta equação. O orçamento é
planificado com base nesse raciocínio (terminar num lugar de acesso directo à
Champions, preferencialmente com o título e a soma dos milhões da Champions via
oitavos-de-final…depois, logo se vê). O plano para este ano – um ano de ajustes
– ficou destroçado. Não só a equipa caiu antes do previsto como hipotecou superar o lucro do ano passado uma vez que o aumento dos prémios da UEFA
significam na prática que alcançar agora os oitavos-de-final equivale a
alcançar os quartos no modelo anterior. Repetir o (difícil) feito do ano passado
seria aumentar ainda mais o bolo e tão necessitados estamos que imaginar um
cenário distinto deve provocar ataques aos responsáveis de tesouraria. Basta pensar que vários reforços foram
concretizados precisamente a pensar na exigência máxima do universo Champions
(e por isso a folha salarial subiu e subiu) e que agora o clube estará a pagar
o dobro ou triplo do expectável a jogadores para alcançar objectivos bem mais acessíveis.
Mas agora que o sonho de fazer mais uma pequena fortuna na
Champions se esfumou, que podemos fazer com o cenário Europa League, uma
competição que provoca um profundo desinteresse nos principais clubes da Europa
e até em alguns emblemas de segunda fila das ligas principais. Razão? A quase
total ausência de prémios monetários que justifiquem o desgaste de varias rondas
em troca de nada. É isso que queremos priorizar?
Há outro cenário em equação.
O FC Porto tem, em principio,
um dos dois primeiros lugares ao seu alcance, os que dão o apuramento directo para a Liga dos Campeões 2016/17.
A Europa League, desde o ano passado, permite aos campeões qualificarem-se
directamente para a fase de grupos da Champions. É um plus de atracção para
equipas como o Sevilla, Napoli, Fiorentina, Tottenham, Monaco, Liverpool ou
Dortmund que possam ter mais concorrência interna. É uma justificação para
colocarem todas as fichas no torneio se as coisas na liga correm mal. Para o
Porto isso não parece ser sequer uma necessidade. Mas para muitos dos seus hipotéticos rivais será e isso significará medir-se com clubes com outras - genuínas - aspirações no torneio dispostos a tudo para ganhar. Vale a pena igualar esse esforço por nada?
Por fim está o suposto prestigio. O FC Porto venceu o
torneio em duas ocasiões, em 2003 e 2011, e em ambas temporadas esse sucesso
consagrou duas grandes equipas que pareciam destinadas a grandes coisas (a segunda ficou em modo coitus interruptus mas à época estava cotada perfeitamente entre as melhores do continente). O
cenário deste ano parece-se, no entanto, muito mais com o do ano de estreia de
Vítor Pereira. O Porto tem plantel para lutar pelo titulo na competição no
papel mas a equipa não gera nos adeptos a sensação de que esse cenário
actualmente é lógico e gastar energia para competir num torneio que não
precisamos de ganhar para ter lucro económico ou desportivo e que a nível de
prestigio é cada vez mais irrelevante a nível internacional – o nível tem
decaído muito desde 2003 como o Sevilla, incapaz de competir na Champions
League, bem demonstrou – parece ser bastante superfulo.
Está claro que o objectivo máximo e absoluto deve ser a
partir de agora a aposta no campeonato. Ficou evidente no ano passado, a partir de
certo momento, que Lopetegui preferiu sempre colocar as fichas na Champions do
que na liga e o preço a pagar chegou precisamente na Luz quando uma equipa física
e mentalmente destruída em Munique foi incapaz de dar um golpe de efeito no
campeonato como sim logrou Vítor Pereira três anos antes, sem o desgaste da Europa em cima. Já não há desculpa
para que este ano se duvide no rumo a seguir. O campeonato tem de ser a primeira,
segunda e terceira prioridade absoluta e inequívoca e as taças nacionais um bom
momento para testar alternativas, distribuir minutos e procurar chegar às
últimas rondas (no caso da Taça de Portugal) ou de ignorar por completo (no caso
da Taça da Liga) no plano de prioridades.
Se existia uma lógica financeira e de prestigio no
raciocínio da SAD e do treinador em 2014/15 em partilhar o protagonismo da liga
e Champions nos objectivos de grupo, o mesmo não se pode dizer agora nem faz
sequer sentido que a direcção defina a Europa League como algo prioritário.
A
partir de Fevereiro o cenário pode ser muito diferente porque não sabemos como
vai estar a tabela classificativa no fim do Inverno, depois da equipa ter passado
já por Alvalade. Uma liderança – eventualmente folgada a mais de tres pontos de
diferença – dão uma liberdade que uma luta apertada (ou um segundo lugar) não
permitem.
A natureza do rival, a conhecer em sorteio na segunda-feira, também pode condicionar muita coisa. No ano de Vítor Pereira o Porto teve o azar de ser sorteado com um dos máximos candidatos ao troféu (ironicamente eliminados pelo Sporting na ronda seguinte) mas os homens de Paulo Fonseca tinham apenas de medir-se ao Eintracht Frankfurt quando foram sorteados os 16 avos de final o que permitia uma preparação totalmente diferente.
A natureza do rival, a conhecer em sorteio na segunda-feira, também pode condicionar muita coisa. No ano de Vítor Pereira o Porto teve o azar de ser sorteado com um dos máximos candidatos ao troféu (ironicamente eliminados pelo Sporting na ronda seguinte) mas os homens de Paulo Fonseca tinham apenas de medir-se ao Eintracht Frankfurt quando foram sorteados os 16 avos de final o que permitia uma preparação totalmente diferente.
Faz portanto sentido colocar a Europa League no topo das
prioridades do clube? Deve-se, em contrapartida, ignorar a competição sendo que
o FC Porto nunca entra em campo para não ganhar mas sabendo que há jogos que devem ser
tratados com mais ou menos exigência consoante o que o clube quer? É, para o
Porto, a Europa League mais importante, agora mesmo, que uma Taça de Portugal e
uma possível dobradinha, muito mais fácil de conquistar e talvez mais relevante a
nivel emocional para adeptos que levam três anos sem levantar um troféu?
Pessoalmente acho que Lopetegui e a SAD devem esquecer por
completo o futebol europeu até Fevereiro, dando ZERO importância agora mesmo à
segunda competição da UEFA, gerindo os esforços absolutamente pensando a nível
doméstico. Tendo em conta o rival e a conjuntura em Fevereiro, pode-se
perfeitamente rever a ordem de prioridades mas não acredito que o clube deva
desgastar-se em tentar ganhar um torneio que, actualmente, não parece ser
minimamente relevante para os objectivos a médio prazo da instituição. O Porto
pode ir tentando passar fase a fase, como o orgulho ao escudo exige, mas nem os
adeptos nem a direcção deveriam colocar o peso das expectativas no plantel e
staff técnico numa perspectiva europeia. O erro está feito e é irreversível e a
Europa, a Europa a sério, só chegará mesmo para o ano. O importante agora é
tratar de voltar com o escudo de campeão ao peito e acabar de vez com uma
seca de títulos importantes de três anos num mano a mano com um rival que, ainda que gaste muito mais do
que proclama, continua a estar perfeitamente à altura do investimento
realizado.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Já foi?
"Maicon e a eliminação: «Já foi, bola para a frente»", in "Maisfutebol", 10/12/2015
Eis (mais) um péssimo exemplo de abordagem ao nosso momento actual, ainda para mais vindo de um "capitão".
"Já foi"? Não, Maicon. Ainda dói e muito. Pelo menos para nós, os adeptos. Somos aqueles que não recebem um tostão do FCP (pelo contrário, ainda pagamos) e dele só reclamamos emoções.
Pelo contrário, o tempo deve ser de profunda reflexão. A pouca qualidade do treinador é apenas uma das razões destas tristes figuras. Existem outras a que convém estar tão ou mais atento.
"Já foi e bola para a frente", é o mesmo que respondem os jogadores de clubes menores, que já não sabem bem o que mais dizer perante os repetidos fracassos. São parte daqueles que não ficam para a história.
A Maicon, que tem a felicidade de jogar num grande clube europeu, discursos destes deveriam estar proibidos.
Se não, o que resta? Perdermos em Alvalade, em Janeiro, e "bola para a frente"? Somos depois eliminados da Taça de Portugal e "bola para a frente"?
E, reparem, estamos a falar de alguém que tem uma ligação ao nosso clube muito mais duradoura que a maioria dos jogadores do actual plantel. Imaginem o pouco que doerá a outros...
"Já foi"? O pior é que, neste caminho errado que actualmente trilhamos, Maicon, virá já aí outra a seguir.
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terça-feira, 20 de outubro de 2015
Que bom é resolver cedo
No papel seria este o jogo mais desinteressante desta fase de grupos e a prática confirmou-o.
Não sem antes o Maccabi ter causado alguns calafrios, ainda o nulo subsistia no marcador.
Continua, pois, muito por fazer nos acertos defensivos.
Mas o que tem que ser tem mesmo muita força e tanto Aboubakar teimou que acabou por ver a sorte sorrir-lhe, após muito ter ele tentado antes.
E tratou-se mesmo de sorte, sem aspas, pois o guarda-redes sérvio foi mal batido.
E como quem tem o camaronês, tem muito mais que um mero "matador", eis que, logo após, Aboubakar decidiu acabar definitivamente com a partida ao assistir Brahimi na perfeição. O argelino, mesmo que muito abaixo daquilo que produziu contra o Chelsea, não perdoou e sentenciou a partida.
E como é raro ver um 2-0, antes do intervalo, nos tempos que correm.
Como é bom de ver, seguiu-se um tranquilo segundo tempo, apenas à espera que o tempo passasse.
Deu até para fazer descansar algumas unidades. Um luxo, portanto.
O facto mais marcante desta nossa jornada europeia acabou por ser mesmo a promoção de Ruben Neves a capitão aos 18 anos. Record absoluto na Liga dos Campeões. Excelente para ele mas o que, efectivamente, diz isto de nós? Será mesmo inevitável apresentar um "11" em que ninguém tem mais de ano e meio no nosso plantel?
Não sem antes o Maccabi ter causado alguns calafrios, ainda o nulo subsistia no marcador.
Continua, pois, muito por fazer nos acertos defensivos.
Mas o que tem que ser tem mesmo muita força e tanto Aboubakar teimou que acabou por ver a sorte sorrir-lhe, após muito ter ele tentado antes.
E tratou-se mesmo de sorte, sem aspas, pois o guarda-redes sérvio foi mal batido.
E como quem tem o camaronês, tem muito mais que um mero "matador", eis que, logo após, Aboubakar decidiu acabar definitivamente com a partida ao assistir Brahimi na perfeição. O argelino, mesmo que muito abaixo daquilo que produziu contra o Chelsea, não perdoou e sentenciou a partida.
E como é raro ver um 2-0, antes do intervalo, nos tempos que correm.
Como é bom de ver, seguiu-se um tranquilo segundo tempo, apenas à espera que o tempo passasse.
Deu até para fazer descansar algumas unidades. Um luxo, portanto.
O facto mais marcante desta nossa jornada europeia acabou por ser mesmo a promoção de Ruben Neves a capitão aos 18 anos. Record absoluto na Liga dos Campeões. Excelente para ele mas o que, efectivamente, diz isto de nós? Será mesmo inevitável apresentar um "11" em que ninguém tem mais de ano e meio no nosso plantel?
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Ainda não foi desta...
...que Lopetegui conseguiu uma reviravolta. Segundo jogo mais complicado na presente temporada e segundo empate. Continua a faltar muita coisa a esta equipa.
Desde logo, convém que Brahimi deixe de começar a fintar tão perto da nossa baliza e o faça no lugar próprio: uns bons 60 metros à frente.
Bem longe do relvado, do alto do seu lugar no camarote, era de esperar que o basco fosse mais lesto na terceira substituição. Enquanto pensou e voltou a pensar no assunto, no relvado Danilo cometeu um erro de principiante e, do nada, este monocórdico Dínamo lá conseguiu a tal bola parada que tanto necessitava. Depois, a passividade de Casillas e o árbitro fizeram o resto. Sim, o marcador do golo veio de trás mas, se o atacante que se encontra parado e em posição de fora-de-jogo, não interfere na jogada (a bola veio direitinha para ele), então isto tudo começa a deixar de fazer qualquer sentido.
E os amarelos, senhor? Mais uma catrefada deles para as nossas cores. E isto contra Aroucas e Dínamos de Kiev. O que acontecerá quando encontrarmos um verdadeiro "grande"? Muito possivelmente não chegaremos ao fim com 11 em campo. Houve dualidade de critérios, sim, mas tal não explica tudo.
De positivo temos Maxi que continua a surpreender pela positiva e Aboubakar que se confirma como um avançado de qualidades interessantíssimas. Teve apenas o azar de aparecer após um "monstro" como Jackson Martinez, o que poderá dar azo a comparações absurdas.
Não será por ele que as coisas não funcionarão.
Mas que dizer da defesa e destes tremeliques de Casillas? Que dizer de um Danilo verde-verdinho para este tipo de (altos) voos? Idem aspas para Rúben Neves. Todos nós desejamos muito ver portugueses (e portistas) no nosso "11" inicial mas, a não ser que se tenha a qualidade ímpar de um Futre ou Domingos, a um jovem promissor com apenas 18 anos aconselha-se outro tipo de percurso.
O pequeno-grande Rui Barros, sentado naquela cadeira de sonho por uma só noite, que o diga.
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quarta-feira, 13 de maio de 2015
Deixa lá, Bayern
Não te importes se alguém te aponta teres ontem perdido uma eliminatória avançada da Champions com uma diferença de dois golos...
...Serão os mesmos insensatos que pretendem censurar outros, por perderem a eliminatória por diferença de três golos...
É malta que nunca lá chega e que não sabe o que são estas fases avançadas da Champions...
Parabéns!
...Serão os mesmos insensatos que pretendem censurar outros, por perderem a eliminatória por diferença de três golos...
É malta que nunca lá chega e que não sabe o que são estas fases avançadas da Champions...
Parabéns!
terça-feira, 21 de abril de 2015
Somos Porto (até mesmo no lado negro da lua)
Há uma portagem a pagar.
Uma portagem que separa os clubes da primeira e da segunda divisão. Se queremos jogar com os melhores temos de nos preparar para perder com os melhores. E perder com os melhores - os que jogam com os Messis, Cristianos, Guardiolas, Mourinhos - é normal e pode até parecer doloroso. Mas é a portagem que pagamos para não ser um clube vulgar na Europa, não ser um clube pequeno, de derrotas. Para ser um grande da Europa temos de nos medir com eles. Ás vezes ganhamos, a maior parte das vezes vamos perder. E algumas poucas vezes vamos perder por muitos. O Barcelona goleou o Arsenal porque tinha Messi. O Real Madrid goleou o Bayern porque tinha Ronaldo. E o Bayern goleia o FC Porto porque tem Guardiola e porque não temos meios para disputar 180 minutos ao mesmo nivel com a elite. Não há outra explicação.
Esqueçam a propaganda, não tenham vergonha jamais de ser portistas numa noite assim. Porque numa noite assim, não há espaço para a dor. Só para o orgulho de dizer que chegamos até aqui quando os clubes do nosso nivel ficam muito lá atrás. As feridas são maiores consoante o teu rival. O Bayern é um grandissimo rival, o FC Porto um ambicioso mas modesto gladiador. O resultado vai ecoar mas não vai ter força suficiente para apagar o logrado até ao dia de hoje e os cimentos de um projecto que - já se viu no Dragão - deve continuar. Com ajustes, obviamente. Com outros protagonistas que sejam de um nivel superior. Mas que não pode ser interrompido por um banho de realidade que só nos deve fazer bem!
Um banho de bola.
Não há outra expressão que resuma melhor o que se passou em Munique. O FC Porto - que na passada semana deu, durante grande parte do jogo, um banho de bola, levou o troco. De uma forma dura, cruel mas inevitável. O realismo obriga-nos a aceitar que há um abismo entre equipas como o FCP - especialmente este projecto de FCP cheio de gente nova, sem experiência - e a elite mundial onde está o Bayern. Os alemães não cometeram nenhum erro, entraram a saber o que tinham de fazer e onde não podiam errar e quando todas as suas peças encaixam e funcionam em unissono, é muito dificil dar-lhes a volta. Não temos nem os meios, nem os recursos nem as individualidades para em 180 minutos impor a nossa lei. Somos um plantel com muitas carências, carências com um preço elevado se o objectivo é competir com a elite. Uma equipa sem laterais suplentes na lista UEFA, uma equipa sem um guarda-redes de nivel é uma equipa que se arrisca a sofrer o acosso ofensivo pelo ar que o Porto sofreu. O Bayern pode ser uma equipa de Guardiola mas é também uma equipa alemã e foi á velha escolha alemã que nos bateu, com bombardeios pelo ar, desde as alas, onde estava o nosso ponto débil, frente a um guarda-redes incapaz de parar uma.
O FC Porto fez um jogo horrível e sem desculpas. Se o da semana passada foi um dos maiores da nossa história na Europa, o de hoje entrará seguramente na galeria dos piores. O lado negro da lua.
Fisicamente destroçados pelo esforço de há uma semana, não houve nem pernas nem cabeça. Não se pode estar a este nivel sem rematar á baliza do rival em toda a primeira parte. Tudo aquilo que foi bem feito no Dragão desapareceu. Não havia pressão na saida da bola, não havia pressão nos interiores. Os laterais encolheram-se e a equipa baixou com eles. Em nada jogava-se no ultimo terço do nosso campo. Cada recuperação era um pontapé para longe que acabava em terra de ninguém. Porque ninguém andava por lá, só mesmo a sombra de Neuer. Nem Oliver, nem Brahimi nem Quaresma tiveram critério para construir. Não havia linhas de passes porque, ao contrário do jogo com o Porto - onde parece claro que Guardiola nos subestimou - a lição estava bem estudada. Jackson engolido por Badstuber, os extremos presos á linha, sem mobilidade, condicionando todo o nosso processo ofensivo. Com a bola nos pés eramos inofensivos, sem ela fomos cordeiros. Depois de uma serie de entradas no inicio para "assustar", ficou claro que os alemães não se iam encolher e até esse feito desapareceu.
O Bayern fez o que quis com a bola, com o espaço e connosco. Empurrou a equipa até á grande área e esperou para morder. Repetiu a formula constantemente. Basculação lateral, posses largas e esperar. Sem pressas, sem medos, sem ansiedade.
Aos 25 minutos o jogo tinha acabado. Três golos muito parecidos entre si. Centros bem medidos, erros de marcação individuais na defesa, guarda-redes incapaz de travar remates não demasiado complicados e bolas pelo ar que acabam na baliza. Um desnorte completo, um reflexo das nossas debilidades. No Dragão tinha-se evitado esse modelo de jogo do Bayern pressionando mais, empurrando as linhas. Em Munique foi impossível. Ao quarto golo - uma pifia de Fabiano imperdoável - a humilhação era completa. Justa, porque só dava Bayern, mas dolorosa. Depois foi só contar os golos com a inevitabilidade de quem sabe que não pode fazer absolutamente nada para travar os acontecimentos. Na segunda parte o jogo mudou porque o resultado convidava a isso, ao Bayern a baixar o nivel e a pressão o que dava espaço e ar para o Porto fazer o seu jogo. Sem Quaresma (nada a apontar ao 7, nada) e sem Reyes, a equipa estava mais segura na construção e foi subindo linhas. É preciso aplaudir a atitude de quem, a perder por 5 no Allianz, não baixou os braços e lutou. E marcou. Um golo de Jackson, talvez o seu ultimo nas provas europeias pelo Porto, que resume bem tudo aquilo que o colombiano dá a esta equipa. Mas mesmo maquilhando o marcador, que sempre é melhor, e quebrar uma longa imbatibilidade do Bayern em casa (algo que ninguém vai mencionar) já se sabia que era impossivel.
Impossível porque o Bayern é uma grande equipa. Porque saiu tudo mal e porque o nosso plantel não tem opções para competir a este nivel. Ao Bayern tudo funcionou depois de um jogo de erros individuais que deu uma impressão errada do seu real valor. Mas não dá. E dificilmente dará salvo se se reunem - como em 2004 - todas as circunstâncias perfeitas (e nem Lopetegui é ou será Mourinho nem o plantel actual tem o nivel e a mentalidade daquele). "Vergonha" é gastar mais de 400 milhões como tem feito o PSG ao longo dos anos para depois ser vulgarizado pelo Barcelona como se fosse uma equipa do "nosso" campeonato. Nunca se esqueçam disso!
A equipa sofreu o peso da noite, sofreu o peso da pressão dos adeptos e do rival.
Lopetegui pouco podia fazer da linha. Gritou. Bem que gritou. Mas colocar Reyes foi abrir um corredor (a substituição era inevitável). Ter insistido em Andrés Fernandez em Agosto para competir com Fabiano em vez de apostar-se num guarda-redes de topo foi um erro que se pagou agora e o resto limitou-se a suceder com a naturalidade das goleadas. Uma noite destas pode passar a todas as grandes equipas. Basta os astros se unirem contra. Inglaterra levou sete da Hungria, o Brasil da Alemanha, o Bayern do Real e o Real do Barcelona. Mas como são gigantes - como nós - o tempo permite esquecer e seguir o caminho. É o que temos e vamos fazer. Porque este FC Porto, o mesmo desta goleada, é um projecto para ser aplaudido de pé. Esta foi a nossa noite negra mas não apaga o brilhante trabalho nos onze jogos anteriores, jogos sem derrotas, jogos onde impusemos o nosso modelo, a nossa atitude e o nosso valor. Jogos que valeram a admiração do futebol mundial. Justa admiração. A esta equipa, á mesma que perdeu hoje e que ganhou no Dragão, a que aplaudir a evolução e a forma como defenderam o escudo do FC Porto mesmo quando correu mal. O FC Porto que foi uma das revelações da Champions League não se resume a um jogo - bom ou mau. Chegamos onde poucos chegam, ganhamos a uma das melhores equipas do Mundo "sem espinhas" e depois encontramos um buraco negro emocional que nos sugou a alma. Que nos devolveu á realidade de ser o maior clube da segunda divisão europeia, uma segunda divisão que vive num mundo muito distante da primeira.
Estes jogadores, este treinador, este projecto merece hoje um reforço do nosso apoio, da nossa confiança. Porque quem chegou á lua merece passar pelo seu lado negro. No domingo há mais um jogo para vencer - e já disse Mourinho, há uns anos atrás, "alguém tem de pagar" - e mesmo que este ano acabe num vazio de titulos é preciso não perder a perspectiva, não perder a consciência de que esta viagem é larga e não deve ir afundo á primeira tempestade com que nos cruzamos. Todos sabíamos que jogar com gigantes raramente acaba bem e que podemos ser esmagados. Não devemos perder nunca a perspectiva, esta não é a nossa guerra, não é a nossa batalha. O FC Porto saiu humilhado no marcador de Munique como nunca na sua história mas essa ferida vai sarar e vai fazer-nos mais fortes porque os melhores guerreiros são aqueles que mais cicatrizes levam no corpo. Esta é para não esquecer e algum dia devolver. Mas não é uma ferida de morte. Porque o FC Porto é imortal!
Uma portagem que separa os clubes da primeira e da segunda divisão. Se queremos jogar com os melhores temos de nos preparar para perder com os melhores. E perder com os melhores - os que jogam com os Messis, Cristianos, Guardiolas, Mourinhos - é normal e pode até parecer doloroso. Mas é a portagem que pagamos para não ser um clube vulgar na Europa, não ser um clube pequeno, de derrotas. Para ser um grande da Europa temos de nos medir com eles. Ás vezes ganhamos, a maior parte das vezes vamos perder. E algumas poucas vezes vamos perder por muitos. O Barcelona goleou o Arsenal porque tinha Messi. O Real Madrid goleou o Bayern porque tinha Ronaldo. E o Bayern goleia o FC Porto porque tem Guardiola e porque não temos meios para disputar 180 minutos ao mesmo nivel com a elite. Não há outra explicação.
Esqueçam a propaganda, não tenham vergonha jamais de ser portistas numa noite assim. Porque numa noite assim, não há espaço para a dor. Só para o orgulho de dizer que chegamos até aqui quando os clubes do nosso nivel ficam muito lá atrás. As feridas são maiores consoante o teu rival. O Bayern é um grandissimo rival, o FC Porto um ambicioso mas modesto gladiador. O resultado vai ecoar mas não vai ter força suficiente para apagar o logrado até ao dia de hoje e os cimentos de um projecto que - já se viu no Dragão - deve continuar. Com ajustes, obviamente. Com outros protagonistas que sejam de um nivel superior. Mas que não pode ser interrompido por um banho de realidade que só nos deve fazer bem!
Um banho de bola.
Não há outra expressão que resuma melhor o que se passou em Munique. O FC Porto - que na passada semana deu, durante grande parte do jogo, um banho de bola, levou o troco. De uma forma dura, cruel mas inevitável. O realismo obriga-nos a aceitar que há um abismo entre equipas como o FCP - especialmente este projecto de FCP cheio de gente nova, sem experiência - e a elite mundial onde está o Bayern. Os alemães não cometeram nenhum erro, entraram a saber o que tinham de fazer e onde não podiam errar e quando todas as suas peças encaixam e funcionam em unissono, é muito dificil dar-lhes a volta. Não temos nem os meios, nem os recursos nem as individualidades para em 180 minutos impor a nossa lei. Somos um plantel com muitas carências, carências com um preço elevado se o objectivo é competir com a elite. Uma equipa sem laterais suplentes na lista UEFA, uma equipa sem um guarda-redes de nivel é uma equipa que se arrisca a sofrer o acosso ofensivo pelo ar que o Porto sofreu. O Bayern pode ser uma equipa de Guardiola mas é também uma equipa alemã e foi á velha escolha alemã que nos bateu, com bombardeios pelo ar, desde as alas, onde estava o nosso ponto débil, frente a um guarda-redes incapaz de parar uma.
O FC Porto fez um jogo horrível e sem desculpas. Se o da semana passada foi um dos maiores da nossa história na Europa, o de hoje entrará seguramente na galeria dos piores. O lado negro da lua.
Fisicamente destroçados pelo esforço de há uma semana, não houve nem pernas nem cabeça. Não se pode estar a este nivel sem rematar á baliza do rival em toda a primeira parte. Tudo aquilo que foi bem feito no Dragão desapareceu. Não havia pressão na saida da bola, não havia pressão nos interiores. Os laterais encolheram-se e a equipa baixou com eles. Em nada jogava-se no ultimo terço do nosso campo. Cada recuperação era um pontapé para longe que acabava em terra de ninguém. Porque ninguém andava por lá, só mesmo a sombra de Neuer. Nem Oliver, nem Brahimi nem Quaresma tiveram critério para construir. Não havia linhas de passes porque, ao contrário do jogo com o Porto - onde parece claro que Guardiola nos subestimou - a lição estava bem estudada. Jackson engolido por Badstuber, os extremos presos á linha, sem mobilidade, condicionando todo o nosso processo ofensivo. Com a bola nos pés eramos inofensivos, sem ela fomos cordeiros. Depois de uma serie de entradas no inicio para "assustar", ficou claro que os alemães não se iam encolher e até esse feito desapareceu.
O Bayern fez o que quis com a bola, com o espaço e connosco. Empurrou a equipa até á grande área e esperou para morder. Repetiu a formula constantemente. Basculação lateral, posses largas e esperar. Sem pressas, sem medos, sem ansiedade.
Aos 25 minutos o jogo tinha acabado. Três golos muito parecidos entre si. Centros bem medidos, erros de marcação individuais na defesa, guarda-redes incapaz de travar remates não demasiado complicados e bolas pelo ar que acabam na baliza. Um desnorte completo, um reflexo das nossas debilidades. No Dragão tinha-se evitado esse modelo de jogo do Bayern pressionando mais, empurrando as linhas. Em Munique foi impossível. Ao quarto golo - uma pifia de Fabiano imperdoável - a humilhação era completa. Justa, porque só dava Bayern, mas dolorosa. Depois foi só contar os golos com a inevitabilidade de quem sabe que não pode fazer absolutamente nada para travar os acontecimentos. Na segunda parte o jogo mudou porque o resultado convidava a isso, ao Bayern a baixar o nivel e a pressão o que dava espaço e ar para o Porto fazer o seu jogo. Sem Quaresma (nada a apontar ao 7, nada) e sem Reyes, a equipa estava mais segura na construção e foi subindo linhas. É preciso aplaudir a atitude de quem, a perder por 5 no Allianz, não baixou os braços e lutou. E marcou. Um golo de Jackson, talvez o seu ultimo nas provas europeias pelo Porto, que resume bem tudo aquilo que o colombiano dá a esta equipa. Mas mesmo maquilhando o marcador, que sempre é melhor, e quebrar uma longa imbatibilidade do Bayern em casa (algo que ninguém vai mencionar) já se sabia que era impossivel.
Impossível porque o Bayern é uma grande equipa. Porque saiu tudo mal e porque o nosso plantel não tem opções para competir a este nivel. Ao Bayern tudo funcionou depois de um jogo de erros individuais que deu uma impressão errada do seu real valor. Mas não dá. E dificilmente dará salvo se se reunem - como em 2004 - todas as circunstâncias perfeitas (e nem Lopetegui é ou será Mourinho nem o plantel actual tem o nivel e a mentalidade daquele). "Vergonha" é gastar mais de 400 milhões como tem feito o PSG ao longo dos anos para depois ser vulgarizado pelo Barcelona como se fosse uma equipa do "nosso" campeonato. Nunca se esqueçam disso!
A equipa sofreu o peso da noite, sofreu o peso da pressão dos adeptos e do rival.
Lopetegui pouco podia fazer da linha. Gritou. Bem que gritou. Mas colocar Reyes foi abrir um corredor (a substituição era inevitável). Ter insistido em Andrés Fernandez em Agosto para competir com Fabiano em vez de apostar-se num guarda-redes de topo foi um erro que se pagou agora e o resto limitou-se a suceder com a naturalidade das goleadas. Uma noite destas pode passar a todas as grandes equipas. Basta os astros se unirem contra. Inglaterra levou sete da Hungria, o Brasil da Alemanha, o Bayern do Real e o Real do Barcelona. Mas como são gigantes - como nós - o tempo permite esquecer e seguir o caminho. É o que temos e vamos fazer. Porque este FC Porto, o mesmo desta goleada, é um projecto para ser aplaudido de pé. Esta foi a nossa noite negra mas não apaga o brilhante trabalho nos onze jogos anteriores, jogos sem derrotas, jogos onde impusemos o nosso modelo, a nossa atitude e o nosso valor. Jogos que valeram a admiração do futebol mundial. Justa admiração. A esta equipa, á mesma que perdeu hoje e que ganhou no Dragão, a que aplaudir a evolução e a forma como defenderam o escudo do FC Porto mesmo quando correu mal. O FC Porto que foi uma das revelações da Champions League não se resume a um jogo - bom ou mau. Chegamos onde poucos chegam, ganhamos a uma das melhores equipas do Mundo "sem espinhas" e depois encontramos um buraco negro emocional que nos sugou a alma. Que nos devolveu á realidade de ser o maior clube da segunda divisão europeia, uma segunda divisão que vive num mundo muito distante da primeira.
Estes jogadores, este treinador, este projecto merece hoje um reforço do nosso apoio, da nossa confiança. Porque quem chegou á lua merece passar pelo seu lado negro. No domingo há mais um jogo para vencer - e já disse Mourinho, há uns anos atrás, "alguém tem de pagar" - e mesmo que este ano acabe num vazio de titulos é preciso não perder a perspectiva, não perder a consciência de que esta viagem é larga e não deve ir afundo á primeira tempestade com que nos cruzamos. Todos sabíamos que jogar com gigantes raramente acaba bem e que podemos ser esmagados. Não devemos perder nunca a perspectiva, esta não é a nossa guerra, não é a nossa batalha. O FC Porto saiu humilhado no marcador de Munique como nunca na sua história mas essa ferida vai sarar e vai fazer-nos mais fortes porque os melhores guerreiros são aqueles que mais cicatrizes levam no corpo. Esta é para não esquecer e algum dia devolver. Mas não é uma ferida de morte. Porque o FC Porto é imortal!
Um mais para a colecção
No dia 19 de Maio o Bayern de Munich preparou-se para ganhar a
Champions League. Jogavam em casa – no seu próprio estádio. Eram os máximo
favoritos. Tinham eliminado, em grandes penalidades, o Real Madrid. O seu rival
dessa noite jogava feio, jogava porco e jogava mal para a esmagadora maioria de
adeptos neutrais e analistas. Era mais uma questão de quantos e quando e não
uma questão de se. Afinal era o Allianz, a cidade estava já a preparar-se para
esvaziar os stocks de cerveja e havia instruções claras sobre como o cortejo ia
ter lugar no dia a seguir. O Bayern ia ser campeão europeu em casa. Diante dos
seus. Deutschland Uber Alles e todas essas coisas.
O Bayern dominou. Dominou. Dominou. Bola aquí, bola ali.
Flanqueava o jogo, conduzia o esférico. Trocava a bola no meio-campo do rival.
O seu sobrava. Não estava lá ninguém. Só Neuer. Todos os azuis no seu
meio-campo, na sua área. Rezavam, rezavam e rezavam. A bola mexia-se, mexia-se
mas não encontrava o espaço, a oportunidade. Não entrava. Até que chegou o
minuto 83. O minuto da euforia. A bola encontrou Muller. Muller encontrou o
espaço. Cech não podía fazer nada. O Bayern ia ser campeão europeu em casa.
Diante dos seus. A velha arrogância voltou ao de cima. A mesma de todas noites
bávaras, a de Viena 87, a de Barcelona 99, estava tudo lá. O Bayern era campeão
europeu para tanta gente que até o seu treinador, Jupp Heynckes, decidiu tirar
a Muller de campo para receber o aplauso, a ovação. A medalha no peito. Mas o
Bayern, o todo poderoso Bayern, o que jogava em casa, no Allianz, não foi
campeão europeu. Não foi nada nessa noite.
A um minuto do fim o Chelsea decidiu que era a hora de
atacar. Algum dia tinha de acontecer. Foi ali. Ataque, defesa, canto, centro,
cabeceamento, golo. Drogba. Outro africano como Madjer. Outro fantasma para o
baú. Do golo ao prolongamento foi um instante. Do prolongamento aos penaltis
também. A velha arrogância no Allianz, a sensação de invencibilidade que aqui mandamos
nós, apanhou o primeiro autocarro para casa e deixou os adeptos entregues a si
mesmo. Vieram os penaltis. Veio Neuer e veio Cech. O primeiro era um expert
reconhecido, tinha defendido até dois penaltis do Real Madrid na ronda
anterior. O segundo tinha atravessado os penaltis de Moscovo, quatro anos
antes. Foi Cech, foi o Chelsea, foram os pequenos que não jogavam a nada, os
azuis, que ganharam. E o Allianz lá teve de trocar as cores que brilhavam. Saia
o vermelho, entrava o azul. A ordem lógica do Mundo estava estabelecida.
Hoje o Allianz vai outra vez estar vermelho.
Hoje a velha
sensação de invencibilidade vai estar lá. Hoje vamos ser nós os pequenos,
modestos, os que não contam para nada. Os que vão ter de esperar quando
entrarão os golos alemães de forma quase subserviente porque é assim que
funcionam as coisas na Baviera, dirão. Uber Alles e todas essas coisas. Mas
não. De ir ganhar a casas vermelhas sabemos nós. De ultrapassar a arrogância e
sobranceria alemã também. Tal como em 2012, o FC Porto também não conta para
nada na opinião de muitos (até de alguns que, pasme-se, viram o jogo da
primeira mão!!). E tal como em 2012 há uma sensação na Baviera de que aqui não
ganha ninguém a não ser eles.
Uma mentira contada mil vezes não deixa de ser mentira. Já se
ganhou no Allianz uma Champions – e hoje, é uma final de Champions para nós e
ainda mais para eles, depois da lição levada no ano passado – e não foram eles
a ganhar. Já passou um exército azul desconsiderado e mandou calar com golos os
que gritavam de peito feito e coração vazio. O Bayern não é nenhum papão e o
Allianz não é o terceiro nível do purgatório. De infernos e criaturas mitológicas
entendemos nós. E de perder em casa com azuis quando todos os davam por
vencedores entendem eles.
O Allianz hoje é só mais um estádio. Só mais um Old
Trafford, um Gerland, um Riazor, um Olimpico de Kiev, um Olimpico de Roma, um
Werderstadion, um Pittodrie, um De Kuip. Um estádio mais para a nossa colecção de noites europeias memoráveis.
Hoje o Allianz pode ter acordado vermelho e com a arrogância de quem já canta
vitória só porque joga em casa. Mas vai dormir azulinho, ao som de uma valsa de
acordes que nunca se esquecem.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
O jogo mais importante do ano?
É humanamente impossível pensar que, depois de uma noite europeia histórica, há pernas e cabeça para que uma equipa se consiga concentrar como se exige para um jogo do campeonato em casa.
José Mourinho, que não é suspeito, disse em 2004 que para que o seu FC Porto pudesse ambicionar ir à final da Champions League era necessário um colchão pontual importante para evitar essa tensão e as suas consequências. Onze anos depois estamos em boas condições de voltar a umas meias-finais mas, ao mesmo tempo, temos três pontos de atraso (e alguns golos) do rival do jogo de domingo a oito dias. Antes da Luz há uma super-desgastante viagem a Munique (ninguém duvida que o Bayern vai vender cara qualquer derrota) e um jogo fundamental contra a Académica. O jogo seguinte.
“Partido a partido” foi a máxima do Atlético de Madrid para ganhar a maratona ligueira contra o Real e o Barcelona e ainda assim chegar à final da Champions. Não tinham como adversário um rival com dez pontos de borla como se um cupão de descontos do Lidl fosse mas sim duas hiper-equipas (uma delas também tiveram de eliminar na Champions). Essa mentalidade não era só uma questão semântica. O sucesso passa pela capacidade de concentração e crença. Uma equipa não pode ou deve ligar e desligar porque algum dia pode confundir-se nos botões. Uma cultura de vitória é precisamente aquela que olha para cada jogo como se fosse o mais importante. E é isso que o FC Porto tem de fazer neste ciclo infernal e no que venha depois se tudo correr bem.
Não deixa de ser verdade que para o jogo no Dragão contra a Académica há importantes condicionantes. Fisicamente o plantel sofreu com alguns desajustes e lesões que forçaram jogadores a acumular minutos (as ausências de um Adrian ou Tello, a ida de Brahimi à CAN). Um descanso – se queremos repetir o mesmo desgaste na Alemanha e na Luz – é inevitável para pernas cansadas como as de Herrera, Oliver e um recuperado Jackson. Também há o temor dos amarelos – e Duarte Gomes inspira genuinamente temor – sobretudo no caso de Danilo que jogará seguramente (não vai a Munique), mas que tem o fantasma pendente de não ir também a Lisboa.
Temos de dar por garantido que a forma como o Belenenses já se despiu e deitou na cama em posição adequada com a série de ausências que recorda a vergonha da primeira volta dará não só três pontos como vários golos (e os golos vão ser importantes, acreditem) ao rival. Nós só podemos fazer o nosso trabalho, a saber, somar seis pontos e um goal-average superior nos próximos 180 minutos de campeonato. Nada mais. Quem jogou como jogou na quarta-feira é seguramente capaz de o lograr. Outra coisa é que o consiga fazer.
É nessa dinâmica que o trabalho de Lopetegui – que saiu hiper-reforçado do jogo da passada quarta-feira – é fundamental. Tem de convencer os que vão jogar, de entre os titulares habituais, no sábado, que é um jogo tão importante como qualquer outro. É verdade mas digam lá isso a miúdos que só querem brilhar na Champions e voltar aos seus clubes de origem ou assinar os contratos da sua vida. Não será fácil mas é nesses momentos que os “pastores de homens”, como dizia Homero, se mostram realmente. Lopetegui tem também de saber motivar os menos habituais, os que seguramente não vão jogar mais neste ciclo de três jogos de que a sua participação contra a Académica é tão importante para o clube como a de ontem. Muitos terão uma decisiva oportunidade, outros terão de responder à confiança do mister.
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| Lopetegui na conferência de imprensa antes do FC Porto x Académica |
Vencer a Académica em casa devia ser quase uma garantia mas com muitas cabeças na noite de ontem e na de terça-feira (ou até no domingo a oito) claro que todos se lembram de tropeções históricos do passado. Chegar á Luz com possibilidade de passar à frente é tudo aquilo que se pode exigir a uma equipa roubada desde o primeiro minuto do campeonato do seu legitimo direito de aspirar a um título que merece muito mais que o seu rival.
Tendo em conta as ausências em Munique – Danilo, Alex Sandro – e a importância do jogo com o Bayern (não se enganem, a eliminatória vai a meio, um 2-0 não é um resultado tão improvável mas a 90 minutos de fazer história e sabendo a roubalheira que nos espera na Luz, o normal é mudar o chip) Lopetegui deverá apostar num onze que misture o melhor de dois mundos. Marcano, Danilo e Alex devem jogar com Reyes a fechar no centro. Ruben deveria ser titular como trinco – jogamos em casa e é a Académica – e Evandro e Quintero devem terminar por fechar o meio-campo. Para o colombiano pode (deve) ser a ultima oportunidade. Hernâni e Aboubakar são fixos no ataque e eu, pessoalmente, jogaria com Gonçalo. Dois avançados, intenção clara: marcar golos e dominar em casa.
Essa poupança de pernas permitia aos jogadores que sim vão ser titularíssimos em Munique descansar e não tirar a cabeça dos alemães e aos restantes membros do plantel demonstrarem que esta é uma equipa unida e que todos remam em conjunto, ainda que com tarefas divididas. No final as medalhas ao peito têm de valer por algo e há ali nomes que precisam de dar o seu contributo de forma definitiva. Não há melhor momento que agora.
Vencer a Académica garante um Jorge Jesus cagado na Luz. Um Jorge Jesus que vai passar a vergonha histórica de defender em casa um empate miserável que depois o resto dos seus amigos de negro confirmem que a diferença pontual se mantém vigente até ao fim da liga. Um Jorge Jesus que está eufórico com o desgaste físico desta eliminatória esquecendo-se de que o prestigio acumulado em noites europeias como estas valem mais que todas as suas pseudo-finais de UEFA e títulos de liga encomendados. Mentalidades pequenas pensam sempre da mesma forma.
O FC Porto tem no seu ADN o futebol europeu a cores e 3D e a vitória histórica de quarta-feira abre as portas a uma meia-final inesperada. Em casa temos de ser fiéis a nós próprios e competentes. Vencer a Académica garante um “showdown” na Luz, já com a questão alemã resolvida (para bem ou para mal). É por isso um jogo fundamental.
Uma vitória encherá a equipa de confiança, de vontade de vencer não só o Bayern mas também o Benfica. Uma sensação de dever cumprido que ajuda sempre ao ego. Uma sensação de – nem todos derrotados nos conseguem fazer perder o rumo – tão à Porto. Uma derrota ou empate, pelo contrário, condiciona a corrida ao título de forma definitiva e pode ser um golpe psicológico e um acrescento de pressão para Munique que a equipa não precisa nem merece. Resolver a equação matando o jogo de sábado cedo é fundamental. Se o Dragão ajudar como na quarta-feira, muito melhor.
No entanto, cuidado. Num campeonato viciado, ninguém poderá apontar o dedo se no meio deste ciclo de jogos de alto nível haja no plantel quem pense mais nas estrelas e nos hinos de glória que outros nunca ouvem do que em dar tudo contra uma equipa que na Luz foi amiga, amiga, para depois encontrar-se com os dados viciados na esquina seguinte. Este FC Porto pode não vencer nenhum titulo em Maio, mas já fez mais em meia dúzia de jogos que outras equipas em cinco anos. Essa memória não deixaremos que se apague.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Uma arbitragem do (Carlos Velasco) Carballo
Como qualquer adepto, vivo no Dragão as emoções do jogo. E ontem foi um dia de emoções fortes. Um dia memorável, sobre o qual queremos manter as boas recordações: a garra; a força; a inteligência; a qualidade; a vitória.
No entanto, talvez por defeito profissional, não consigo desenquadrar as emoções do jogo de pormenores que me fazem duvidar do que - ou melhor, perceber o que - realmente se está a passar à minha frente.
Ontem foi um desses dias.
A arbitragem de Carlos Velasco Carballo (que apitou, no Mundial, o célebre Brasil x Colômbia) foi uma verdadeira vergonha, tal a predisposição, a premeditação e a organização de tudo o que fez.
A única coisa em que falhou – o árbitro ainda estava frio e foi surpreendido pela rapidez da jogada – foi ter marcado falta (na verdade, inexistente) ao Jackson, no princípio da jogada do penalti, com o que teria impedido o primeiro golo do Porto. Escapou-lhe essa, mas logo a compensou…
De facto, o senhor Carballo mostrou, ao longo de todo o jogo, ao que vinha: não mostrou cartão vermelho a Neuer numa jogada em que inquestionavelmente o merecia; apitava em favor do Bayern tudo o que eram lances a meio campo; amarelou os nossos laterais e ignorou o segundo amarelo ao lateral direito do clube alemão. Amarelou o Casemiro numa jogada de meio campo absolutamente normal e ignorou amarelos aos germânicos quando cortaram contra-ataques.
O resultado é o seguinte:
1. O Bayern jogou o jogo todo com um jogador a mais do que o que devia;
2. O Neuer jogou cá e vai jogar em Munique, quando não devia;
3. O lateral direito dos alemães vai jogar em Munique, quando não devia;
4. Nós vamos sem laterais para Munique.
O serviço estava bem encomendado para cá e não deixará de ser solicitado a outro servente em Munique.
Claro que, como adepto, tenho esperança. Mas só com uma exibição sem erros (difícil) e sempre contra a arbitragem que se adivinha conseguiremos passar.
Agora que desabafei, vou fingir para mim próprio que não me apercebi de nada disto e gozar, como uma criança, o sabor da grande vitória ontem alcançada.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Melhor que a melhor equipa do Mundo
Tenho inveja.
Tenho genuína inveja de quem hoje esteve no Dragão. Há noites que nunca se esquecem. Tive a sorte de viver muitas ao vivo. Hoje houve 50 mil afortunados que jamais se vão esquecer da noite em que o FC Porto foi - como contra o Dinamo de Kiev em 1987 - melhor que a melhor equipa do Mundo. Que jogadores que estavam lesionados até há dois dias correram como búfalos. Que egos imensos foram encolhidos para encaixar no coração da equipa. Em que ninguém poupou uma gota de oxigénio a pensar no amanhã. A noite em que o Dragão engoliu o Bayern como poucas vezes alguém sonhou ser capaz. A noite em que Julen Lopetegui mostrou a Pep Guardiola que com menos ovos podia fazer uma omelete melhor. A noite, enfim, em que se demonstrou porque é que o FC Porto é a melhor equipa da Europa fora dos grandes das grandes ligas. E que de vez em quando até a esses mostramos que não andamos nisto para fazer número.
A primeira parte foi uma das maiores delicias futebolísticas da última década.
A entrada da equipa resume-se numa palavra: Avassaladora.
Julen Lopetegui tinha a lição bem estudada. Pode entender pouco do que significa jogar na Madeira mas o Bayern conhecia-o á perfeição. Sabia o que era preciso fazer. Asfixiar o processo de posse de bola roubando todas as opções de passe aqueles que sabem jogar. A equipa marcou á zona todos aqueles jogadores em quem Guardiola confia - Alonso, Lahm, Thiago - e deixou aos centrais, aos desastrados centrais, a tarefa de criar jogo. Com isso ganhou a partida. Forçou erro atrás de erro. E, por uma vez, o FCP soube aproveitar o erro alheio com precisão de cirurgião. Jackson - esse imenso avançado que vai deixar muito mais saudades do que deixou Falcao e que não devia ser vendido por menos de 50 milhões de euros - esteve imenso. Para quem vinha de uma lesão muscular parecia um tigre, um mamute de outras eras. Correu, correu, defendeu como o primeiro gladiador, ajudou nas compensações e não deixou respirar Xabi Alonso. Nos instantes iniciais roubou a bola ao ex do Real Madrid e frente a Neuer driblou o guarda-redes caindo de imediato. Penalti claro.
Neuer devia ter visto o cartão vermelho. O árbitro espanhol Vellasco Carballo no entanto deve ter ficado a pensar que Jackson fizera falta sobre Alonso (se fosse ao contrário, eu teria pedido falta) e para não condicionar os 180 minutos de eliminatória que faltaram quis ser diplomático. Fez mal. O FC Porto foi prejudicado nesse momento chave e o Bayern salvou-se de um cataclismo. Quaresma, que tinha estado naquela eliminatória dolorosa com o Schalke 04 quando Neuer se fez famoso pela primeira vez, tinha contas a ajustar e não perdeu a oportunidade. Estes foram os melhores 45 minutos de Quaresma desde que deixou o Porto. A confiança de Lopetegui - esteve impecável o basco no alinhamento inicial - foi recompensada. O numero 7 fez tudo para merecer ser titular. Não havia réstia do "velho Quaresma". Havia malabarismos e classe, sim, mas também recuperações ao sprint, desarmes, ajudas a Danilo, linhas de passe oferecidas a Herrera e Oliver e uma constante pressão sobre Bernat (que devia ter sido expulso no inicio da segunda parte depois de mais um baile quaresmiano) e Dante. Graças a esse exercício "sachianno", chegou o segundo golo. Outra recuperação, outro vendaval de ataque e Quaresma, frente a Neuer, define com a classe dos génios. Não tinham passado dez minutos e o Dragão já se tinha levantado duas vezes para fazer tremer os cimentos da Terra.
O FC Porto foi nesses primeiros vinte minutos a melhor equipa do Mundo.
Com bola fez maravilhas. A visão periférica de Brahimi e Oliver e o trabalho do colectivo manteve o Bayern atónito, como se tivesse subido ao ring e estivesse a ponto de cair por K.O. Na recuperação a equipa esteve tremenda. É provavelmente o maior mérito de Lopetegui a forma como a equipa ocupa os espaços para haver sempre alguém a recuperar a bola. Naturalmente houve a reacção do Bayern. Os alemães continuam a ser a melhor equipa do mundo e encontraram a bola quando o ataque, como era inevitável, baixou ligeiramente o pressing. Não há equipa que aguente noventa minutos o que o FCP fez em vinte. Nesses seguinte quinze minutos o Bayern teve mais a bola mas não o controlo. O FC Porto mantinha-os longe da sua área, recuperava bem a bola e sai-a a jogar. Alex Sandro teve o terceiro nos pés - Neuer evitou um golo olímpico - e Casemiro podia também ter marcado de cabeça depois de um centro de Quaresma num livre indirecto. O Bayern raramente criou perigo real mas conseguiu marcar numa jogada onde a defesa estava totalmente fora de sitio. Casemiro foi fechar um centro de Boateng mas não chegou a tempo. Sandro estava na direita, Danilo na esquerda e Maicon perdeu a marcação a Thiago que apareceu a desviar na pequena área. Era um golo evitável, o unico erro colectivo em toda a primeira parte. O nível Champions é assim. Não se podia dizer que era imerecido - a reacção do Bayern foi positiva - mas doeu tendo em conta o imenso esforço que a equipa estava a fazer para reduzir ao mínimo o erro. Com esse resultado chegou-se ao intervalo, uma sensação de superioridade emocional tremenda mas com esse golo fora a pesar na consciência.
E o que faz uma equipa depois de 45 minutos assim? Quando se chama FC Porto a resposta é fácil: faz-se melhor.
A segunda parte foi isso. Melhor, em todos os sentidos menos no marcador. Só entrou um (golaço de um Jackson divino) mas o Bayern foi engolido pelo jogo de posse do Porto. Se na primeira parte havia a estratégia de pressionar, morder e contragolpear, na segunda parte os Dragões quiseram e tiveram a bola. Pautaram o ritmo, levaram o esférico para longe da sua área (onde tinha rondado muito na primeira parte), criaram lance atrás de lance e esmagaram a resistência escassas que o Bayern parecia oferecer. Herrera e Jackson conectaram para o 3-1 e pouco antes, numa jogada "a la Brasil de 70", o esférico rodou entre o colombiano, Oliver, Brahimi e Quaresma para Herrera forçar Neuer á defesa da noite. Uma jogada perfeita que o Bayern jamais soube emular. O momento mais simbólico da noite deu-se precisamente quando um Guardiola claramente superado - Lopetegui é, a partir de hoje, um nome em qualquer lista de um grande europeu e que "cojones" teve o basco ao encarar de frente o Bayern e ganhar-lhe no seu próprio jogo - tirou a Gotze e colocou Rode. Queria não sofrer mais, não sofrer mais golos, não sofrer mais sem a bola e para isso abdicava de atacar. O todo poderoso Bayern do mágico e melhor treinador do Mundo Pep Guardiola rendia-se á evidência. O Porto era superior. E assim foi durante todo o jogo. Um jogo que podia não ter acabado nunca.
Pouco me importa hoje do que vai passar na terça-feira que vem em Munique. Não estão Danilo e Alex Sandro (mas sim Marcano) sendo que Ricardo e Indi nas laterais são a única opção que sobra. O Bayern seguramente terá outro ritmo, outra pressão e tocará sofrer, sofrer muito. Mas ninguém no seu perfeito juízo podia pensar noutro cenário que não fosse esse. O Bayern continua a ser o Bayern, o Porto continua a ser o Porto. Em noites assim é extremamente importante por tudo em perspectiva. Sonhar sim, sempre, sempre, mas sem esquecer que tudo o que se consiga, tudo é bónus, resultado de um grande trabalho colectivo desenvolvido desde o Verão. Resultado de uma politica de jogo recuperada depois do desastre do último ano, do talento de muitos jogadores que chegaram agora ou se têm consolidado e que sabem que hoje são a conversa de ordem dos maiores clubes mundiais. Depois da noite de hoje todos saem reforçados. A SAD que apostou forte, o treinador que muitos - eu incluído - duvidavam estar á altura mas também os jovens jogadores que alguns grandes da Europa descartaram ou que outros não tiveram o engenho de pescar. Todos eles são o baluarte desta noite, desta mágica noite europeia á moda do Porto.
O FC Porto até pode ganhar a Liga dos Campeões. Também pode sair goleado do Allianz. Não me interessa nada. Hoje nada interessa. Em noites assim, com chuva ou céus iluminados pelas estrelas, não há outra coisa a fazer senão sentir um imenso orgulho em ser portista. Um imenso orgulho em ser da equipa que sabe ser melhor que as melhores equipas do mundo.
Tenho genuína inveja de quem hoje esteve no Dragão. Há noites que nunca se esquecem. Tive a sorte de viver muitas ao vivo. Hoje houve 50 mil afortunados que jamais se vão esquecer da noite em que o FC Porto foi - como contra o Dinamo de Kiev em 1987 - melhor que a melhor equipa do Mundo. Que jogadores que estavam lesionados até há dois dias correram como búfalos. Que egos imensos foram encolhidos para encaixar no coração da equipa. Em que ninguém poupou uma gota de oxigénio a pensar no amanhã. A noite em que o Dragão engoliu o Bayern como poucas vezes alguém sonhou ser capaz. A noite em que Julen Lopetegui mostrou a Pep Guardiola que com menos ovos podia fazer uma omelete melhor. A noite, enfim, em que se demonstrou porque é que o FC Porto é a melhor equipa da Europa fora dos grandes das grandes ligas. E que de vez em quando até a esses mostramos que não andamos nisto para fazer número.
A primeira parte foi uma das maiores delicias futebolísticas da última década.
A entrada da equipa resume-se numa palavra: Avassaladora.
Julen Lopetegui tinha a lição bem estudada. Pode entender pouco do que significa jogar na Madeira mas o Bayern conhecia-o á perfeição. Sabia o que era preciso fazer. Asfixiar o processo de posse de bola roubando todas as opções de passe aqueles que sabem jogar. A equipa marcou á zona todos aqueles jogadores em quem Guardiola confia - Alonso, Lahm, Thiago - e deixou aos centrais, aos desastrados centrais, a tarefa de criar jogo. Com isso ganhou a partida. Forçou erro atrás de erro. E, por uma vez, o FCP soube aproveitar o erro alheio com precisão de cirurgião. Jackson - esse imenso avançado que vai deixar muito mais saudades do que deixou Falcao e que não devia ser vendido por menos de 50 milhões de euros - esteve imenso. Para quem vinha de uma lesão muscular parecia um tigre, um mamute de outras eras. Correu, correu, defendeu como o primeiro gladiador, ajudou nas compensações e não deixou respirar Xabi Alonso. Nos instantes iniciais roubou a bola ao ex do Real Madrid e frente a Neuer driblou o guarda-redes caindo de imediato. Penalti claro.
Neuer devia ter visto o cartão vermelho. O árbitro espanhol Vellasco Carballo no entanto deve ter ficado a pensar que Jackson fizera falta sobre Alonso (se fosse ao contrário, eu teria pedido falta) e para não condicionar os 180 minutos de eliminatória que faltaram quis ser diplomático. Fez mal. O FC Porto foi prejudicado nesse momento chave e o Bayern salvou-se de um cataclismo. Quaresma, que tinha estado naquela eliminatória dolorosa com o Schalke 04 quando Neuer se fez famoso pela primeira vez, tinha contas a ajustar e não perdeu a oportunidade. Estes foram os melhores 45 minutos de Quaresma desde que deixou o Porto. A confiança de Lopetegui - esteve impecável o basco no alinhamento inicial - foi recompensada. O numero 7 fez tudo para merecer ser titular. Não havia réstia do "velho Quaresma". Havia malabarismos e classe, sim, mas também recuperações ao sprint, desarmes, ajudas a Danilo, linhas de passe oferecidas a Herrera e Oliver e uma constante pressão sobre Bernat (que devia ter sido expulso no inicio da segunda parte depois de mais um baile quaresmiano) e Dante. Graças a esse exercício "sachianno", chegou o segundo golo. Outra recuperação, outro vendaval de ataque e Quaresma, frente a Neuer, define com a classe dos génios. Não tinham passado dez minutos e o Dragão já se tinha levantado duas vezes para fazer tremer os cimentos da Terra.
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| Jackson e Neuer (foto: UEFA.com) |
Com bola fez maravilhas. A visão periférica de Brahimi e Oliver e o trabalho do colectivo manteve o Bayern atónito, como se tivesse subido ao ring e estivesse a ponto de cair por K.O. Na recuperação a equipa esteve tremenda. É provavelmente o maior mérito de Lopetegui a forma como a equipa ocupa os espaços para haver sempre alguém a recuperar a bola. Naturalmente houve a reacção do Bayern. Os alemães continuam a ser a melhor equipa do mundo e encontraram a bola quando o ataque, como era inevitável, baixou ligeiramente o pressing. Não há equipa que aguente noventa minutos o que o FCP fez em vinte. Nesses seguinte quinze minutos o Bayern teve mais a bola mas não o controlo. O FC Porto mantinha-os longe da sua área, recuperava bem a bola e sai-a a jogar. Alex Sandro teve o terceiro nos pés - Neuer evitou um golo olímpico - e Casemiro podia também ter marcado de cabeça depois de um centro de Quaresma num livre indirecto. O Bayern raramente criou perigo real mas conseguiu marcar numa jogada onde a defesa estava totalmente fora de sitio. Casemiro foi fechar um centro de Boateng mas não chegou a tempo. Sandro estava na direita, Danilo na esquerda e Maicon perdeu a marcação a Thiago que apareceu a desviar na pequena área. Era um golo evitável, o unico erro colectivo em toda a primeira parte. O nível Champions é assim. Não se podia dizer que era imerecido - a reacção do Bayern foi positiva - mas doeu tendo em conta o imenso esforço que a equipa estava a fazer para reduzir ao mínimo o erro. Com esse resultado chegou-se ao intervalo, uma sensação de superioridade emocional tremenda mas com esse golo fora a pesar na consciência.
E o que faz uma equipa depois de 45 minutos assim? Quando se chama FC Porto a resposta é fácil: faz-se melhor.
A segunda parte foi isso. Melhor, em todos os sentidos menos no marcador. Só entrou um (golaço de um Jackson divino) mas o Bayern foi engolido pelo jogo de posse do Porto. Se na primeira parte havia a estratégia de pressionar, morder e contragolpear, na segunda parte os Dragões quiseram e tiveram a bola. Pautaram o ritmo, levaram o esférico para longe da sua área (onde tinha rondado muito na primeira parte), criaram lance atrás de lance e esmagaram a resistência escassas que o Bayern parecia oferecer. Herrera e Jackson conectaram para o 3-1 e pouco antes, numa jogada "a la Brasil de 70", o esférico rodou entre o colombiano, Oliver, Brahimi e Quaresma para Herrera forçar Neuer á defesa da noite. Uma jogada perfeita que o Bayern jamais soube emular. O momento mais simbólico da noite deu-se precisamente quando um Guardiola claramente superado - Lopetegui é, a partir de hoje, um nome em qualquer lista de um grande europeu e que "cojones" teve o basco ao encarar de frente o Bayern e ganhar-lhe no seu próprio jogo - tirou a Gotze e colocou Rode. Queria não sofrer mais, não sofrer mais golos, não sofrer mais sem a bola e para isso abdicava de atacar. O todo poderoso Bayern do mágico e melhor treinador do Mundo Pep Guardiola rendia-se á evidência. O Porto era superior. E assim foi durante todo o jogo. Um jogo que podia não ter acabado nunca.
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| Quaresma (foto: UEFA.com) |
Pouco me importa hoje do que vai passar na terça-feira que vem em Munique. Não estão Danilo e Alex Sandro (mas sim Marcano) sendo que Ricardo e Indi nas laterais são a única opção que sobra. O Bayern seguramente terá outro ritmo, outra pressão e tocará sofrer, sofrer muito. Mas ninguém no seu perfeito juízo podia pensar noutro cenário que não fosse esse. O Bayern continua a ser o Bayern, o Porto continua a ser o Porto. Em noites assim é extremamente importante por tudo em perspectiva. Sonhar sim, sempre, sempre, mas sem esquecer que tudo o que se consiga, tudo é bónus, resultado de um grande trabalho colectivo desenvolvido desde o Verão. Resultado de uma politica de jogo recuperada depois do desastre do último ano, do talento de muitos jogadores que chegaram agora ou se têm consolidado e que sabem que hoje são a conversa de ordem dos maiores clubes mundiais. Depois da noite de hoje todos saem reforçados. A SAD que apostou forte, o treinador que muitos - eu incluído - duvidavam estar á altura mas também os jovens jogadores que alguns grandes da Europa descartaram ou que outros não tiveram o engenho de pescar. Todos eles são o baluarte desta noite, desta mágica noite europeia á moda do Porto.
O FC Porto até pode ganhar a Liga dos Campeões. Também pode sair goleado do Allianz. Não me interessa nada. Hoje nada interessa. Em noites assim, com chuva ou céus iluminados pelas estrelas, não há outra coisa a fazer senão sentir um imenso orgulho em ser portista. Um imenso orgulho em ser da equipa que sabe ser melhor que as melhores equipas do mundo.
Viena 87: O Céu na Terra
Por João Nuno Coelho
É impressionante a forma como o tempo altera a nossa percepção dos acontecimentos. A nossa enquanto indivíduos mas também enquanto colectivo. Viena 87 é hoje algo de completamente diferente porque aconteceram Sevilha 03, Gelsenkirchen 04, Dublin 11, e muitas outras datas deste Porto Feliz dos últimos 30 anos.
É impressionante a forma como o tempo altera a nossa percepção dos acontecimentos. A nossa enquanto indivíduos mas também enquanto colectivo. Viena 87 é hoje algo de completamente diferente porque aconteceram Sevilha 03, Gelsenkirchen 04, Dublin 11, e muitas outras datas deste Porto Feliz dos últimos 30 anos.
Viena 87 acabou por se tornar uma das referências máximas do sucesso portista, fénix renascida sob a égide de Pedroto e Pinto da Costa. Mas foi muito mais do que isso...
Pelo menos para nós, simples adeptos.
A realidade é que ao minuto 76 do jogo do Prater, para qualquer adepto portista, como eu que, com 17 anos, via o jogo no sofá de casa, ao lado do meu pai e do meu irmão (desde sempre a minha mãe decidiu que dava azar ao Porto e refugiava-se noutra divisão da casa) aquele não era um Porto de sucesso, muito menos um Porto Feliz. Tudo parecia demasiado semelhante a Basileia 84. Uma final perante um colosso europeu, bancadas preenchidas massivamente pelos adeptos contrários, uma resposta forte de excelente futebol portista a uma desvantagem no marcador que se eternizava, apesar do nosso domínio, por vezes asfixiante. E um frio no estômago a antecipar mais um troféu oferecido pelos adeptos para premiar outra extraordinária vitória moral.
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| Viena, 27 de Maio de 1987 |
E depois... Depois foi o que todos sabemos e não nos cansamos de rever e de reviver. E nunca nos cansaremos. Porque no fundo sabemos a importância deste depois no que aconteceu depois, anos a fio.
Mas na altura não sabíamos.
E, naquele minuto 77, quando uma jogada genial terminou com o mais genial dos toques de génio, eu, pelo menos, só sabia que afinal talvez a história não tivesse que se repetir. Talvez por isso desatei a correr pela casa fora aos saltos e acho que praticamente só voltei à sala quando o Madjer voltou ao campo depois de ser assistido, para partir os rins a um alemão e oferecer o golo da vitória ao Juary.
(Não sei se já pensaram nisto: decorreram cerca de 2
minutos entre os dois golos que mudaram a história do clube, mas o Madjer
precisou de pouco mais de 20 segundos em jogo para marcar o empate e assistir
para a vitória).
A história de Basileia não se repetiu e nada voltou a ser como dantes. Nunca saberemos como seria se o Porto tivesse perdido a sua
segunda final europeia. O Porto europeu pode ter nascido em Basileia mas só começou a andar em Viena. E demorou dois minutos a aprender a fazê-lo.
No fim do jogo, os meus pais, primeiro, e os meus amigos, depois, não entenderam porque é que eu não os acompanhava à festa da Baixa. Na altura, não havia 10 programas diferentes de comentários e tangas à volta do jogo recém-terminado e portanto nem foi por isso que fiquei sozinho em casa. Precisava era de desfrutar plenamente, sem distracções, aquilo que o meu clube (e eu) acabara de alcançar: o Céu na Terra. Porque
no futebol, deixemo-nos de tretas (nacionalistas... e outras), acima disto não há nada.
Éramos Campeões da Europa!
Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao João Nuno Coelho, autor, entre vários livros, do "Porto 1987-2012: 25 Anos no Topo do Mundo" e defensor habitual do FCP em tertúlias televisivas, a elaboração deste artigo.
Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao João Nuno Coelho, autor, entre vários livros, do "Porto 1987-2012: 25 Anos no Topo do Mundo" e defensor habitual do FCP em tertúlias televisivas, a elaboração deste artigo.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Podem algumas lesões ajudarem no sprint final?
A comunicação social tem vendido nos últimos dias a ideia de que o FC Porto pode vir a ser beneficiado por uma praga de lesões no Bayern de Munich. Ora quem escreve ou não sabe que, desde que chegou á capital bávara Pep Guardiola só teve o plantel completo em meia dúzia de semanas, ou não tem olhado para a lista de baixas do FCP. O Bayern está habituado a jogar ao máximo das suas capacidades sem alguns dos seus mais influentes jogadores. Têm plantel para isso. Não está Robben? Está Muller. Não está Schweinsteiger? Estará Javi Martinez. E assim sucessivamente. Já o Porto joga com as suas naturais limitações – muito superiores á dos alemães – e para nós uma baixa é um problema muito mais grave. É mesmo?
A eliminatória contra o Bayern vai ser bonito e emocionante especialmente porque há muito tempo que não se respira o vento dos quartos de final no Dragão. Mas, tal como sucedeu da última vez, o FC Porto não só não é favorito como tem pela frente o máximo candidato ao titulo. Em 2009 foi o Manchester United - detentor do troféu e agora é o Bayern. O que o FCP deve (e pode) fazer é, como mínimo, repetir a mesma atitude que teve então, obrigando o todo poderoso Man Utd a sofrer até ao fim para passar. Fomos Dragões em Old Trafford e em casa só caímos com um golo do outro mundo. Ninguém dava nada por nós e ninguém podia apontar-nos nada no final da eliminatória. Tudo o que não seja isso é um milagre (que também acontece no futebol) e é preciso assumir essa realidade sem baixar nunca a cabeça.
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| (foto: Mais Futebol) |
A prioridade é e deve ser o campeonato.
A equipa perdeu uma grandíssima oportunidade na Madeira de depender de si mesma para ser campeã com um grau de dificuldade menor. Ainda depende de si, sim, mas depende sobretudo de marcar mais de 2 golos na Luz. Possível mas difícil, especialmente tendo em conta que em casa o Benfica nunca fica a zero. O que era impossível há dois meses agora não o é tanto (ainda que continue a ser muito difícil) e deve ser aí que Lopetegui tem de apontar o arsenal. O objectivo mínimo da Champions (chegar aos oitavos) e o óptimo (chegar aos quartos) foi cumprido. A Liga é outra história.
Tudo isto a propósito das lesões. A de Tello é um problema. Vai falhar o jogo com o Bayern e também, seguramente, o jogo na Luz. Contra os dois rivais seria um futebolista extremamente útil a explorar espaços e a utilizar o seu 1x1 nos duelos directos. Vamos sentir a sua falta. Mas qualquer outra baixa para os jogos europeus pode ser uma benesse para a liga. É verdade que o FC Porto tem de ganhar os dois jogos antes da Luz (Rio Ave e Académica, que não vão ser pêras doces) para ter alguma opção mas não é menos certo que chega com jogadores a recuperarem de lesões como Jackson e Oliver e, portanto, mais frescos que alguns dos seus colegas a que se nota claramente a falta de pernas. O mesmo se pode dizer de Danilo ou Casemiro, cujas breves paragens ajudaram a repor oxigénio. E Brahimi, que levou uma sova tremenda em Janeiro na CAN, está a pouco e pouco a recuperar o seu ritmo.
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| (foto: Mais Futebol) |
Não são as condições ideias para uma eliminatória Champions mas podem ser condicionantes positivos para preparar o assalto final á Liga onde temos de ser perfeitos em todos os sentidos. E são muitos minutos nas pernas (o Benfica está de férias desde Dezembro a meio da semana) para aguentar sem quebras esta tensão final. Ás vezes pausas forçadas – porque nenhum jogador quer parar de moto próprio e menos para jogos europeus – são um auxilio inesperado para o treinador. No final de contas, algumas das lesões em questão podem vir a ter efeitos positivos neste sprint final.
terça-feira, 24 de março de 2015
O que queremos para o futuro, o Campeonato ou a CL?
Não são objectivos mutuamente exclusivos, mas têm de ser compatíveis no seio de qualquer plantel do FC Porto.
A FC Porto, SAD terá que responder a esta pergunta para começar a planear a próxima época e decidir qual o lote dos jogadores que fará parte do plantel disponível para Julen Lopetegui. E aqui surge uma importante equação: queremos ser campeões nacionais e esse será o principal desígnio ou queremos fazer uma boa campanha na Champions League?
O jogo na Madeira, contra o Nacional, mostrou que existem jogadores pouco focados no campeonato, em deficiente forma física ou com a cabeça nos jogos a disputar nos quartos-de-final da Champions League contra o Bayern de Munique. Sem ter feito uma primeira parte brilhante, a equipa chegou ao balneário a vencer por 1-0, fruto da inspiração de Tello que, da direita, flectiu para o centro e à entrada da área desferiu um pontapé indefensável. Esperava-se que na segunda parte o FC Porto conseguisse aguentar o resultado ou até dilatá-lo para segurar um triunfo que deixaria o campeonato em aberto praticamente até ao fim.
Como aqui já sugeriu o Miguel Lourenço Pereira, Lopetegui poderia fazer subir Marcano ou Maicon para a posição de pivot e colocar Indi a central ou fazer entrar mais cedo o Quaresma, substituindo o desinspirado Brahimi ou ainda colocar o argelino no meio campo tirando o Evandro. E tinha no banco Oliver, que presumo estivesse em condições de jogar, caso contrário não teria sido convocado. O jogo pedia jogadores meio campistas com capacidade para fazer pressing e segurar o jogo. As substituições realizadas (Casemiro por Ruben e Quintero por Evandro) não surtiram efeito e permitiram a continuação das jogadas de perigo do Nacional que, verdade seja dita, só sabe jogar em contra-ataque. Lopetegui leu mal o jogo.
Mas o problema não foi apenas o treinador. Viu-se bem que há demasiados jogadores que não metem o pé e que não arriscam o contacto físico. Uma equipa que quer ser a melhor a nível interno tem de dar o máximo e encarar com grande seriedade todos os jogos do campeonato. Em minha opinião estamos, também, com um problema de atitude. Jogadores como Tello, Brahimi, Alex Sandro e Quintero não deram tudo o que tinham na Choupana e não têm dado tudo em vários jogos disputados na liga nacional. O próprio Herrera, que tem feito exibições de grande nível na Champions League, mostra-se uns furos abaixo quando o jogo é a contar para o campeonato.
A meu ver, o projecto FC Porto foi vendido a demasiados jogadores apenas e só como uma oportunidade para jogarem na Champions League. Não sabem o que é o FC Porto, não sabem qual é a sua história e sobretudo não sabem que não lhes basta ser melhores, que têm de ser muito melhores para conseguirem vencer. A montra mundial pode atrair muitos jogadores mas não aqueles com a disponibilidade e a capacidade de entrega que o clube precisa para ser campeão nacional.
E por isso, quando se constrói um plantel, é necessário entender que nem só de jogadores talentosos se constrói um campeão. É preciso jogadores com garra, com querer, com ambição e com capacidade de sofrimento. Porque também é disto que um jogador “à Porto” é feito. A preparação para a próxima época já estará, seguramente, em curso. Cabe à Administração da SAD, em articulação com o treinador, construir um plantel com ambição e talento, mas também com garra para disputar todos os jogos da principal competição interna com nível máximo de intensidade, não apenas os jogos que respeitam à competição favorita dos jogadores, a Champions League.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Os potenciais rivais para o sorteio da Champions
Amanhã vai realizar-se o sorteio dos Quartos-de-Final da Champions League.
Pela primeira vez desde 2008/09 o FC Porto marca presença, reflexo de uma brilhante campanha europeia. Na última ocasião que chegamos tão longe na competição, fomos eliminados pelo vigente campeão (e finalista vencido desse ano), o Manchester United. Na anterior, fomos campeões europeus. O certo é que tendo o clube superado as expectativas possíveis, a partir de agora tudo é positivo para o clube. O encaixe financeiro, a exposição mediática, a possibilidade de medir-se com algumas das melhores equipas do planeta. Salvo uma goleada (difícil), não há nada que possa passar que suponha um problema, pelo que o importante será desfrutar da eliminatória, crescer com ela como equipa e clube e, sobretudo, sonhar. É grátis.
Entre os sete possíveis rivais – recordamos que o sorteio é puro e por isso pode haver duelos nacionais – do FC Porto aqui segue uma lista ordenada de forma descendente desde aquele que os portistas parecem considerar o rival mais favorável – apalpando um pouco o ambiente – e aqueles que não queremos ver nem pintados de ouro. Pessoalmente, já o disse aqui depois do jogo com o Basel, a minha escolha seria o Real Madrid. Uma equipa em fase descendente física e animicamente, com um pedigree que justificaria qualquer derrota e imortalizaria qualquer vitória e ainda o facto de ser o campeão em titulo (e todos sabemos que nenhum campeão renovou o titulo na era Champions League).
AS MONACO
Toda a gente quer o Monaco. Pudera. Os franceses são quartos na liga – e é muito provável que para o ano estejam na Europa League – e têm passado os últimos meses a viver de uma boa organização defensiva. Foram piores que o Arsenal colectivamente, mas cometeram menos erros e aproveitaram melhor o hara-kiri ofensivo dos gunners em Londres para marcar em contra-golpes rápidos e incisivos. É a sua arma. Vão defender os 180 minutos e atacar pontualmente. Já sofremos isso em Basileia. É uma equipa que nos vai dar a bola e deixar jogar o nosso jogo até ao último terço, que vai ser dura nas marcações e jogar no nosso erro. Não têm, como nós, nada a perder. O precedente é positivo. Todos temos Gelsenkirchen tatuado na alma.
A Favor: A equipa mais fraca do sorteio
Contra: A velocidade a explorar os espaços na defesa (cuidado Fabiano, Maicon e Alex)
PARIS SAINT-GERMAIN
Quando o PSG jogou contra o FC Porto – há duas temporadas atrás – já era um dos novos-ricos do futebol europeu com jogadores de nivel mundial. Essa mesma equipa melhorou com o tempo. Está mais compacta em defesa, organizada na criação e demonstrou em Londres ter a garra que parecia faltar – e que na Ligue 1 às vezes ainda falta – para triunfar na Europa. Sem Ibrahimovic para a primeira-mão, o PSG conta com um grupo de jogadores talentosos o suficiente para não sentir a falta do sueco. São uma equipa que aposta forte na Europa, é a sua máxima prioridade e desde os anos 90 que não chegam a uma meia-final. Vão disputar a bola a qualquer equipa e só o eventual desgaste de estarem numa luta a três pelo titulo pode supor um problema num conjunto que tem opções válidas em todos os sectores.
A Favor: Já os conhecemos e é uma equipa que joga o jogo pelo jogo, deixando espaços que podemos aproveitar graças à nossa notável capacidade de recuperação de bola.
Contra: Vão apostar tudo este ano na Champions e chegam hiper-motivados. Têm jogadores de sobra para fazer a diferença.
JUVENTUS
A Juve já ganhou praticamente o Scudetto e vai concentrar os próximos dois meses a sonhar com um regresso à ribalta europeia. Não disputam uma final desde 2003 a última vez que chegaram também ás meias. É mais de uma década. Muito tempo. Graças ao génio imortal de Pirlo e ao trabalho incansável de Pogba, possuem um dos melhores meio-campos do mundo. Tevez e Morata parecem ter encaixado e o jogo colectivo da equipa, agora sobre o comando de Allegri, é uns furos superiores ao do ano passado. Ainda assim não é um “papão”, nem de longe nem de perto. Sofrem contra equipas bem organizadas e que sabem medir os tempos de jogo e podem ser encurralados no seu campo com relativa facilidade com uma boa circulação de bola. Apostam forte na Champions mas ao mesmo tempo são claros outsiders.
A Favor: Equipa acessível como colectivo, Pogba estará lesionado provavelmente por alturas da primeira mão e anulando Pirlo a equipa sofre imenso.
Contra: Não tem de se preocupar com o campeonato e sabem que são outsiders.
REAL MADRID
São o campeão em título. São o Real Madrid. Parece ser suficiente cada uma das frases por si mesma e juntas mais ainda. Mas este Real nem é o do ano passado – tacticamente muito mais desorganizado, fisicamente muito mais condicionado – nem a equipa tem estado á altura do pedigree desde que começou 2015. Cristiano Ronaldo está uma sombra de si mesmo, a dupla Kroos-Isco está sem fôlego e tanto Bale como Benzema continuam a ser questionados. Tacticamente não necessitam da bola mas exploram os espaços como nenhuma outra equipa, quando estão em forma. No entanto, até nisso têm estado decepcionantes. Foram fracos contra o Schalke, têm um guarda-redes que é um ponto fraco assumido e jogam com toda a pressão nos ombros. Se perderem este domingo em Barcelona, renovar o titulo europeu pode ser o único troféu a que aspiram. E como sabemos, nunca ninguém conseguiu isso.
A Favor: Estão na pior fase física-anima desde que Ancelotti chegou ao banco e o cenário não parece ter-se alterado. Jogam com toda a pressão de favoritos.
Contra: Está em baixo de forma mas, quando está bem, Cristiano Ronaldo é o maior killer do futebol mundial. E tê-lo frente a Maicon naquelas diagonais dá pesadelos.
ATLETICO DE MADRID
Este Atletico é claramente uma equipa mais débil que a do ano passado. Diego Costa, Filipe Luis e Courtois fazem muita falta, nenhum dos seus suplentes parece ter estado ao mesmo nivel. No entanto a chegada de Torres, a consagração definitiva de Koke e a ascensão de Gimenez têm sido boas noticias. Griezzman é um jogador fenomenal e eléctrico e Tiago e Arda continuam a dominar a bola e os tempos de jogo como poucos. São, sobretudo, um rival temível a 180 minutos. Jogam com as falhas do rival como nenhum outro, exploram muito bem as poucas ocasiões que criam e são uma rocha defensiva. Contra o Leverkusen concederam meia dúzia de oportunidades em 210 minutos de futebol. Sofrem mais no capitulo ofensivo mas têm também a consciência de que em casa são intransponíveis. Com a revalidação do titulo quase impossível (o esperado) apostam tudo na Champions. É o único titulo que falta a Simeone.
A Favor: Uma equipa que nos deixará a bola, que conhecemos bem e que tem sofrido para marcar.
Contra: Peritos em bola parada, difíceis de vencer fora e ainda mais em casa, jogam sempre no erro do adversário e aproveitam-no como poucos.
BARCELONA
Não é o Pep Team mas tem o melhor trio de ataque do mundo. Não tem Guardiola mas recuperou o Messi mais estelar. Neste Barcelona não há tanto aquela magia quase inocente dos dias de Pep, mas a forma como Luis Enrique entendeu que o meio-campo se tornou prescindível, quando há três demónios no ataque, tornou o Barcelona uma equipa ainda mais perigosa. Apanhou as virtudes do melhor Real Madrid (jogar em velocidade, transições, bola da defesa directamente ao ataque) mas sem abdicar, quando quer, da cultura de posse e de domínio de jogo no meio-campo, onde ainda conta com Xavi, Iniesta, Mascherano, Busquets e Rakitic. Tem o melhor Messi dos últimos três anos e isso, só por si, pode valer meio titulo.
A Favor: Que o Dragão possa voltar a ver um génio chamado Messi
Contra: Os defesas laterais sofrem muito – Dani Alves sobretudo ainda que Alba esteja a uns furos do que foi – e o meio-campo já não é tão protagonista. Se conseguimos pressionar a saída de bola e recuperá-la, são frágeis na recuperação posicional.
BAYERN MUNCHEN
Favoritos absolutos a tudo. São a melhor equipa da Europa. Possuem o melhor jogo colectivo, algumas das melhores individualidades posicionais, de longe o melhor treinador e a melhor estrutura. Atípica foi a sua eliminação em 2014, o normal seria que este Bayern fosse campeão europeu perene enquanto os astros continuem a manter viva a conexão do clube com Guardiola. O técnico tem tudo para conquistar o seu terceiro titulo europeu (outro que pode ultrapassar pela direita o Special One depois de Ancelloti) e salvo um surto de lesões (que tem sido habitual) é muito difícil defrontar o Bayern e sair vivo para contar a história. A melhor opção até agora que algumas equipas conseguiram foi defender bem uma das mãos para acabar trucidada na segunda.
A Favor: Que o Dragão veja pela primeira vez o baile de Guardiola desde o banco. Ou que se reencarne o espírito de 1987.
Contra: Tudo. São o máximo favorito e quase não possuem pontos fracos. Exigem a posse – o que faz sofrer equipas habituadas a ela como a nossa – e quando perdem a bola são ainda melhores que nós na recuperação, muitas vezes com Neuer a jogar na linha do meio-campo.
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