Amo o Futebol Clube do Porto. Com todas as minhas forças cresci celebrando cada triunfo, engolindo em seco cada tropeção, enraivecido com cada roubo em contra e com cada derrota. Não sei ser outra coisa que não portista. E cresci com uma cultura de vitórias. Sou muito novo para me lembrar de Viena com claridade mas tenho flashes na minha cabeça. Sei que vi o jogo em casa dos meus tios, com o meu pai e tio colados ao sofá e eu por ali, sem saber muito bem o que se passava. Sei que ouvi os gritos de golo e quando o Juary marcou o dele o meu tio não aguentou mais dos nervos e fechou-se no quarto de banho, não queria ver, não queria saber, enquanto o meu pai ia gritando o que se passava. Choraram. Eramos campeões europeus. Foi um 27 de Maio de 1987. No 26 de Maio de 2004 não só era consciente de tudo, era participe de tudo. Sócio cativo há mais de uma década, incapaz de perder um só jogo nas Antas - e desde há poucos meses no Dragão - mais algumas deslocações históricas, aquela era a minha geração. A minha gente, os meus jogadores, a minha equipa. Sofri mais com Sevilha, confesso, muito mais. Em Gelsenkirchen sempre soube que só um milagre nos ia custar uma Champions inesperada mas totalmente merecida. Festejamos até ás tantas nos Aliados, eu e os meus irmãos, e fomos receber a equipa como nos mereciamos todos. Já não tinha só memórias e flahses na cabeça, tinha o triunfo tatuado na pele. Os dragões eram reis da Europa outra vez. Vinte e quatro horas menos e dezassete anos depois.
Hoje e amanhã deviam ser dias de celebração.
No Reflexão Portista pensamos inclusive em fazer um especial de artigos e textos sobre os trinta anos de Viena - para quem queira, há um maravilhoso livro coordenado pelo João Nuno Coelho sobre os 25 anos dessa data histórica - para celebrar esse dia maravilhoso. Mas o clube não está agora mesmo para este tipo de celebrações nem de regressos ao passado nostálgicos. Nunca devemos esquecer quem somos, de onde viemos e o que conquistamos. Há clubes a celebrar um Tetra, convém recordar que disso temos dois, temos um Penta e não necessitamos setenta anos de história para os conseguir. Há clubes a celebrar duas Taças dos Campeões Europeus, a última conquistada em 1962, convém recordar sempre que disso temos duas, bem mais recentes, mas também duas Taça UEFA/Liga Europa e uma Supertaça Europeia e duas Intercontinentais, já agora, para que fique claro quem é o maior clube português em títulos internacionais. Taça Latina incluída. Isso nunca se esquece, isso está dentro de nós e recordar é viver. Mas ao ritmo que levamos corremos o sério risco de cair no poço em que outros viveram durante anos com o velho chavão do "antes é que era", do "naquela época é que eramos os maiores" e o "os meus títulos são melhores que os teus". Passar estes dois dias a celebrar Viena e Gelsenkirchen é uma tentação bonita porque são dois troféus maravilhosos e dois dias inesqueciveis. Mas fazê-lo, tal como estamos, é trair-nos a nós mesmos e à nossa memória. Sobretudo, é trair o que nos levou precisamente a ganhar esses dois troféus: viver o presente.
O FC Porto deixou de ser um clube gerido a pensar no presente e isso é um dos principais motivos pelo que estamos nesta etapa negra. Pelo menos no presente do clube. Os projecto não têm direcção, caem ao primeiro abanão, mudam de forma radical de ano para ano sempre a pensar em algo que tente recuperar o passado sem que ninguém se dê conta que o futebol mudou. Se algo sustentou o êxito dos anos 80 e 90 foi a capacidade do Porto se adaptar melhor que ninguém ao mundo que viviamos e ao futebol do seu tempo a distintos niveis. Essa realidade perdeu-se e cada vez mais nos entragamos à nostalgia, ao "jogador à Porto", ao "treinador à Porto", ao "Somos Porto", ao "no tempo de" e esquecemo-nos que cada semana há um jogo novo num mundo novo e que é aí onde nos temos de concentrar. O mercado não é o dos noventa, a formação não é a dos oitenta, os treinadores não são os dos 2000 e, sobretudo, a direcção há muito que não é a desse periodo em actitude, trabalho e entrega, já para não falar em idade. E não saimos desse circulo fechado e entregar-nos a esse ritual de celebração num ano triste onde perdemos tudo, outra vez, parece-me ser um erro e uma falta de respeito para com o que fomos e que deviamos ser.
O lodo onde estamos tem muitas explicações. O lodo onde estamos pode prolongar-se muito ou pouco tempo, depende de aquilo que quem gere o clube tem preparado para o futuro. O que sim é fácil de entender é que não é celebrando o passado que vamos estar mais preparados para o depois de amanhã. Se queremos voltar a ser grandes é precisamente isso que devemos fazer. Pensar no hoje, no amanhã e no depois, pensar no presente e no futuro, em como vamos reorganizar o clube, as contas, a parcela desportiva. Não pensemos no que já foi e já não volta. O que talvez nem sequer se volte a repetir porque o mundo mudou. Sonhar com outro título europeu é bonito mas cada vez mais redutor, pensemos em como conquistamos nós o nosso Penta antes que o celebrem outros. Primeiro ganhamos um título...depois pensamos em ganhar o Bi...depois pensamos em ganhar o Tri...e ganhamos. Depois demos o salto ao Tetra e foi nosso. Depois preparamos tudo para assaltar o Penta, e celebramos como loucos. Hoje temos de pensar como vamos ser campeões em Maio do próximo ano. Em nada mais. Nem títulos passados nem em equipas de outras eras. Pensem no hoje. Pensem no amanhã. Pensem em Maio. E passo a passo pensem em voltar a ser grandes como o escudo do Dragão merece.
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sexta-feira, 26 de maio de 2017
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Eu vi, sofri, gritei e chorei… de alegria
O Futebol Clube do Porto é uma das paixões da minha vida e, naturalmente, interesso-me por factos, atletas, treinadores, dirigentes, modalidades, instalações, eventos, etc., etc., da sua história já bi-centenária.
De ler, ouvir e pesquisar, conheço factos que ocorreram aquando da fundação, em 1893, sei que o FC Porto foi o 1º campeão nacional (em 1921/22) e o 1º vencedor do campeonato da I Liga (em 1934/35), ouvi o meu pai contar-me estórias do “homão” (Yustrich), do Jaburú e do Hernâni, da “invasão” (pacífica) a Lisboa, por terra, mar e ar, feita por milhares de adeptos portistas, da marcha do FC Porto (“Porto, Porto, Porto, és a nossa glória,…”), que o meu pai punha a tocar antes de ir para os jogos no Estádio das Antas, mas tudo isto faz parte de um passado glorioso que eu não vivi, porque nem sequer era nascido.
Mas, há 28 anos atrás, a 27 de Maio de 1987, já era nascido e, sensivelmente a esta hora, estava em frente a uma televisão, a sonhar acordado, para ver, a cores e em directo, a equipa azul-e-branca, a equipa do meu querido FC Porto, no estádio do Prater, em Viena, na final da Taça dos Campeões Europeus 1986/87.
E, durante aqueles 90 minutos, sofri, gritei, sofri, disse palavrões, sofri, saltei e, quando o belga Alexis Ponnet deu o jogo por terminado, explodi num misto de emoções e chorei, chorei de alegria.
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| Estádio do Prater, 27 de Maio de 1987 (clicar na imagem para ampliar) |
Naquele dia, de imensa felicidade para todos os portistas, lembrei-me de Pedroto (o “pai” do FC Porto europeu, que três anos antes tinha saído injustamente derrotado de Basileia) e pensei em todos aqueles que não tiveram a mesma sorte, a sorte de terem vivido aqueles 90 minutos e de verem o seu clube “voar nos céus de Viena” e consagrar-se como a melhor equipa da Europa.
P.S. Há adeptos de outras cores, cuja bazófia não tem limites, mas que nunca viram e provavelmente nunca irão ver, os seus clubes no topo da Europa e do Mundo (parafraseando o, agora, “simpático” Octávio Machado, vocês sabem de quem eu estou a falar...)
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quarta-feira, 15 de abril de 2015
Viena 87: O Céu na Terra
Por João Nuno Coelho
É impressionante a forma como o tempo altera a nossa percepção dos acontecimentos. A nossa enquanto indivíduos mas também enquanto colectivo. Viena 87 é hoje algo de completamente diferente porque aconteceram Sevilha 03, Gelsenkirchen 04, Dublin 11, e muitas outras datas deste Porto Feliz dos últimos 30 anos.
É impressionante a forma como o tempo altera a nossa percepção dos acontecimentos. A nossa enquanto indivíduos mas também enquanto colectivo. Viena 87 é hoje algo de completamente diferente porque aconteceram Sevilha 03, Gelsenkirchen 04, Dublin 11, e muitas outras datas deste Porto Feliz dos últimos 30 anos.
Viena 87 acabou por se tornar uma das referências máximas do sucesso portista, fénix renascida sob a égide de Pedroto e Pinto da Costa. Mas foi muito mais do que isso...
Pelo menos para nós, simples adeptos.
A realidade é que ao minuto 76 do jogo do Prater, para qualquer adepto portista, como eu que, com 17 anos, via o jogo no sofá de casa, ao lado do meu pai e do meu irmão (desde sempre a minha mãe decidiu que dava azar ao Porto e refugiava-se noutra divisão da casa) aquele não era um Porto de sucesso, muito menos um Porto Feliz. Tudo parecia demasiado semelhante a Basileia 84. Uma final perante um colosso europeu, bancadas preenchidas massivamente pelos adeptos contrários, uma resposta forte de excelente futebol portista a uma desvantagem no marcador que se eternizava, apesar do nosso domínio, por vezes asfixiante. E um frio no estômago a antecipar mais um troféu oferecido pelos adeptos para premiar outra extraordinária vitória moral.
![]() |
| Viena, 27 de Maio de 1987 |
E depois... Depois foi o que todos sabemos e não nos cansamos de rever e de reviver. E nunca nos cansaremos. Porque no fundo sabemos a importância deste depois no que aconteceu depois, anos a fio.
Mas na altura não sabíamos.
E, naquele minuto 77, quando uma jogada genial terminou com o mais genial dos toques de génio, eu, pelo menos, só sabia que afinal talvez a história não tivesse que se repetir. Talvez por isso desatei a correr pela casa fora aos saltos e acho que praticamente só voltei à sala quando o Madjer voltou ao campo depois de ser assistido, para partir os rins a um alemão e oferecer o golo da vitória ao Juary.
(Não sei se já pensaram nisto: decorreram cerca de 2
minutos entre os dois golos que mudaram a história do clube, mas o Madjer
precisou de pouco mais de 20 segundos em jogo para marcar o empate e assistir
para a vitória).
A história de Basileia não se repetiu e nada voltou a ser como dantes. Nunca saberemos como seria se o Porto tivesse perdido a sua
segunda final europeia. O Porto europeu pode ter nascido em Basileia mas só começou a andar em Viena. E demorou dois minutos a aprender a fazê-lo.
No fim do jogo, os meus pais, primeiro, e os meus amigos, depois, não entenderam porque é que eu não os acompanhava à festa da Baixa. Na altura, não havia 10 programas diferentes de comentários e tangas à volta do jogo recém-terminado e portanto nem foi por isso que fiquei sozinho em casa. Precisava era de desfrutar plenamente, sem distracções, aquilo que o meu clube (e eu) acabara de alcançar: o Céu na Terra. Porque
no futebol, deixemo-nos de tretas (nacionalistas... e outras), acima disto não há nada.
Éramos Campeões da Europa!
Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao João Nuno Coelho, autor, entre vários livros, do "Porto 1987-2012: 25 Anos no Topo do Mundo" e defensor habitual do FCP em tertúlias televisivas, a elaboração deste artigo.
Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao João Nuno Coelho, autor, entre vários livros, do "Porto 1987-2012: 25 Anos no Topo do Mundo" e defensor habitual do FCP em tertúlias televisivas, a elaboração deste artigo.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
As Noites Europeias de azul Viena
Viena.
Sempre teremos Viena.
Se o FC Porto nunca tivesse estado em Sevilha, Gelsenkirchen ou Dublin sempre teríamos Viena.
Não há cidade mais simbólica na história das competições europeias. E, para nós, é ouro sobre azul. Vamos a Viena amanhã começar mais um ano de aventuras europeias. Não é a primeira vez. Mas sabe sempre de forma especial. Porque havia um FC Porto antes e outro depois de Viena.
Não necessariamente pelo triunfo.
Antes já tinham ganho a Taça dos Campeões Europeus clubes de menor perfil e prestigio que nós. O Nottingham Forrest, o Steaua Bucareste e até o Celtic Glasgow e o Feyenoord, são bons exemplos de que o torneio não era um exclusivo das grandes equipas das grandes ligas da Europa. No ano seguinte o troféu foi ganho pelo PSV, dois anos depois pelo Estrela Vermelha e seis pelo Olympique Marseille. Se a história do futebol europeu fosse lida desde esse prisma, éramos mais um entre alguns. Mas somos mais do que isso. Somos um caso singular e único. Porque repetimos esse triunfo. E eles não.
Depois do Jamor o Celtic não ganhou um troféu europeu. O Feyenoord venceu duas Taças UEFA. O Nottingham Forest desapareceu do mapa do futebol inglês e há largos anos que vive na segunda divisão. O Steaua, alimentado pelo regime de Ceaucescu, desfez-se com o regime. Regressa este ano à Champions League depois de largos anos de ausência. O Marseille pagou o preço das ligações perigosas e o PSV não voltou a cheirar uma final. E o Estrela Vermelha acabou, de facto, com a própria Jugoslávia. Mas nós não. Nós crescemos. Nós ficamos mais fortes. Nós passamos a fazer parte dessa elite europeia.
Não em dinheiro, não na qualidade do plantel ano após ano. Mas em prestigio.
O FC Porto - graças ao trabalho de Pinto da Costa e de algumas das suas eleições mais acertadas para o banco - soube provar de novo o sabor do champanhe.
Somos únicos nesse feito entre as pequenas nações da Europa. E é algo do qual nos devemos sentir orgulhosos. Sempre que apareça Viena no horizonte, saber que foi aí que a gesta começou. Sim, Pedroto estabeleceu as bases. Para mim é a personalidade mais importante da história do clube porque foi ele quem marcou o antes e o depois. Mas partiu cedo, muito cedo, sob o fantasma de Basileia e aquele golo do Boniek, os gritos do Zé Beto e o medo de que aquela final não seria repetida. Mas em Viena, com o "rei Artur", com o calcanhar do Madjer, o sprint do Futre, a taça nas mãos do "capitão" e as lágrimas do presidente, soubemos que a festa estava a começar. Era algo dentro de nós que fervilhava por essa paixão das noites europeias.
O futebol europeu, continental claro, começou a desenhar-se em Viena.
As tardes europeias do início do século XX, os anos de ouro da Taça Mitropa, tudo sucedeu nessa cidade mágica, no campo do parque do Prater. Para o futebol europeu e para nós. Historicamente, o FC Porto era um clube a que se lhe dava mal as provas europeias.
Até meados dos anos setenta até o Vitória de Setúbal tinha um registo melhor que o nosso. Mas com Pedroto algo mudou. Para sempre. Hoje somos o melhor clube português na história das competições europeias. Somos uma das equipas com mais participações na Champions League. Nas quatro últimas vezes que disputamos a Taça UEFA/Europa League, vencemos duas. Ninguém tem estes números.
Estivemos no calor asfixiante de Sevilla. Desfrutamos da nossa superioridade evidente em Gelsenkirchen e tinhamos a certeza que Dublin era uma formalidade. São três noites europeias que ninguém esquecerá. Mas Viena, a nossa Viena, até para quem não a viveu como deve ser, é especial.
Amanhã, mais ou menos por esta hora, o mítico FK Austria - o tal das tardes europeias mágicas - vai ser o nosso rival em campo. Mas quando o escudo do dragão subir ao relvado, o Bayern, o Dinamo de Kiev, o Brondby, o Vitkovice e o Rabat também vão lá estar à nossa espera. Viena, o Prater, o Danúbio azul, a magia da história. O pontapé de saída para mais uma temporada europeia, difícil, exigente e que gera ilusão nos adeptos pelo local onde se disputa a final. Mas a cada jogo, a cada passe mal medido, a cada remate torto, a cada golo sofrido, convém não perder nunca a perspectiva. Podemos ir mais longe, devemos lutar por ir mais longe, queremos ir muito mais longe do que temos feito nos últimos anos. Mas o que o FC Porto conseguiu, isso, meus amigos, não conseguiu mais ninguém!
Disclaimer
O título do artigo não é inocente.
Noites Europeias é o nome do livro que vai ser colocado à venda nos próximos dias, escrito por mim e pelo João Nuno Coelho, representante do FC Porto no programa do canal Q Sacanas sem Lei e coordenador do livro "Porto 25". É um livro que viaja às origens das competições europeias de clubes e se prolonga até à última temporada em mais de 100 anos de histórias, jogos, personalidades, sistemas de jogo e memórias. Inevitavelmente o FC Porto é um dos protagonistas dessa Europa periférica fora das grandes ligas. Não é por acaso o único clube - com a excepção honrosa do Ajax, noutro contexto - fora desse circulo de grandes fortunas que tem quatro troféus das provas da UEFA. Um feito único e histórico entre os muitos que relatamos.
Oficialmente a apresentação do livro é na tarde do dia 29 de Setembro, no bar Casa do Livro na zona das Galerias de Paris com moderação do Luis Freitas-Lobo e de alguns convidados-surpresa ligados à história europeia do FC Porto. A todos os adeptos do clube, amantes das "noites europeias", aqui fica o meu convite pessoal e o desejo de uma boa leitura, se for o caso.
Sempre teremos Viena.
Se o FC Porto nunca tivesse estado em Sevilha, Gelsenkirchen ou Dublin sempre teríamos Viena.
Não há cidade mais simbólica na história das competições europeias. E, para nós, é ouro sobre azul. Vamos a Viena amanhã começar mais um ano de aventuras europeias. Não é a primeira vez. Mas sabe sempre de forma especial. Porque havia um FC Porto antes e outro depois de Viena.
Não necessariamente pelo triunfo.
Antes já tinham ganho a Taça dos Campeões Europeus clubes de menor perfil e prestigio que nós. O Nottingham Forrest, o Steaua Bucareste e até o Celtic Glasgow e o Feyenoord, são bons exemplos de que o torneio não era um exclusivo das grandes equipas das grandes ligas da Europa. No ano seguinte o troféu foi ganho pelo PSV, dois anos depois pelo Estrela Vermelha e seis pelo Olympique Marseille. Se a história do futebol europeu fosse lida desde esse prisma, éramos mais um entre alguns. Mas somos mais do que isso. Somos um caso singular e único. Porque repetimos esse triunfo. E eles não.
Depois do Jamor o Celtic não ganhou um troféu europeu. O Feyenoord venceu duas Taças UEFA. O Nottingham Forest desapareceu do mapa do futebol inglês e há largos anos que vive na segunda divisão. O Steaua, alimentado pelo regime de Ceaucescu, desfez-se com o regime. Regressa este ano à Champions League depois de largos anos de ausência. O Marseille pagou o preço das ligações perigosas e o PSV não voltou a cheirar uma final. E o Estrela Vermelha acabou, de facto, com a própria Jugoslávia. Mas nós não. Nós crescemos. Nós ficamos mais fortes. Nós passamos a fazer parte dessa elite europeia.
Não em dinheiro, não na qualidade do plantel ano após ano. Mas em prestigio.
O FC Porto - graças ao trabalho de Pinto da Costa e de algumas das suas eleições mais acertadas para o banco - soube provar de novo o sabor do champanhe.
Somos únicos nesse feito entre as pequenas nações da Europa. E é algo do qual nos devemos sentir orgulhosos. Sempre que apareça Viena no horizonte, saber que foi aí que a gesta começou. Sim, Pedroto estabeleceu as bases. Para mim é a personalidade mais importante da história do clube porque foi ele quem marcou o antes e o depois. Mas partiu cedo, muito cedo, sob o fantasma de Basileia e aquele golo do Boniek, os gritos do Zé Beto e o medo de que aquela final não seria repetida. Mas em Viena, com o "rei Artur", com o calcanhar do Madjer, o sprint do Futre, a taça nas mãos do "capitão" e as lágrimas do presidente, soubemos que a festa estava a começar. Era algo dentro de nós que fervilhava por essa paixão das noites europeias.
O futebol europeu, continental claro, começou a desenhar-se em Viena.
As tardes europeias do início do século XX, os anos de ouro da Taça Mitropa, tudo sucedeu nessa cidade mágica, no campo do parque do Prater. Para o futebol europeu e para nós. Historicamente, o FC Porto era um clube a que se lhe dava mal as provas europeias.
Até meados dos anos setenta até o Vitória de Setúbal tinha um registo melhor que o nosso. Mas com Pedroto algo mudou. Para sempre. Hoje somos o melhor clube português na história das competições europeias. Somos uma das equipas com mais participações na Champions League. Nas quatro últimas vezes que disputamos a Taça UEFA/Europa League, vencemos duas. Ninguém tem estes números.
Estivemos no calor asfixiante de Sevilla. Desfrutamos da nossa superioridade evidente em Gelsenkirchen e tinhamos a certeza que Dublin era uma formalidade. São três noites europeias que ninguém esquecerá. Mas Viena, a nossa Viena, até para quem não a viveu como deve ser, é especial.
Amanhã, mais ou menos por esta hora, o mítico FK Austria - o tal das tardes europeias mágicas - vai ser o nosso rival em campo. Mas quando o escudo do dragão subir ao relvado, o Bayern, o Dinamo de Kiev, o Brondby, o Vitkovice e o Rabat também vão lá estar à nossa espera. Viena, o Prater, o Danúbio azul, a magia da história. O pontapé de saída para mais uma temporada europeia, difícil, exigente e que gera ilusão nos adeptos pelo local onde se disputa a final. Mas a cada jogo, a cada passe mal medido, a cada remate torto, a cada golo sofrido, convém não perder nunca a perspectiva. Podemos ir mais longe, devemos lutar por ir mais longe, queremos ir muito mais longe do que temos feito nos últimos anos. Mas o que o FC Porto conseguiu, isso, meus amigos, não conseguiu mais ninguém!
Disclaimer
O título do artigo não é inocente.
Noites Europeias é o nome do livro que vai ser colocado à venda nos próximos dias, escrito por mim e pelo João Nuno Coelho, representante do FC Porto no programa do canal Q Sacanas sem Lei e coordenador do livro "Porto 25". É um livro que viaja às origens das competições europeias de clubes e se prolonga até à última temporada em mais de 100 anos de histórias, jogos, personalidades, sistemas de jogo e memórias. Inevitavelmente o FC Porto é um dos protagonistas dessa Europa periférica fora das grandes ligas. Não é por acaso o único clube - com a excepção honrosa do Ajax, noutro contexto - fora desse circulo de grandes fortunas que tem quatro troféus das provas da UEFA. Um feito único e histórico entre os muitos que relatamos.
Oficialmente a apresentação do livro é na tarde do dia 29 de Setembro, no bar Casa do Livro na zona das Galerias de Paris com moderação do Luis Freitas-Lobo e de alguns convidados-surpresa ligados à história europeia do FC Porto. A todos os adeptos do clube, amantes das "noites europeias", aqui fica o meu convite pessoal e o desejo de uma boa leitura, se for o caso.
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domingo, 27 de maio de 2012
Recordações de Viena (IV)
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João Pinto,
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Zé Beto
Coisas 'esquisitas' 25 anos depois
A cal a "saltar" sempre que a bola passava por uma linha.
Os atrasos para os guarda-redes.
Não sair de campo após assistência médica.
O árbitro não indicar o tempo extra.
Camisola virgens de publicidade.
Ler coisas como: “A partir do momento em que recebemos no estágio um telex deles, ficámos com mais força.”
Lembrar-me que vi o jogo nos jardins do Palácio - para ficar mais perto dos Aliados para a festa - e havia restaurante e coisas que tais por lá. E que fui a pé do Oliveira Martins para lá.
O Presidente da Câmara do Porto estava em Viena.
Os atrasos para os guarda-redes.
Não sair de campo após assistência médica.
O árbitro não indicar o tempo extra.
Camisola virgens de publicidade.
Ler coisas como: “A partir do momento em que recebemos no estágio um telex deles, ficámos com mais força.”
Lembrar-me que vi o jogo nos jardins do Palácio - para ficar mais perto dos Aliados para a festa - e havia restaurante e coisas que tais por lá. E que fui a pé do Oliveira Martins para lá.
O Presidente da Câmara do Porto estava em Viena.
Recordações de Viena (III)
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Madjer,
Taça Campeões Europeus,
Viena
Até os comemos!
Estamos a jogar muito abaixo daquilo que sabemos, é necessário outra atitude para a 2ª parte.
Mas estou com fé de que vamos dar a volta a isto, aposto no 2-1.
Porra! A bwin (e companhias) não estão a aceitar apostas para o jogo. Era desta que ficava rico.
Mas estou com fé de que vamos dar a volta a isto, aposto no 2-1.
Porra! A bwin (e companhias) não estão a aceitar apostas para o jogo. Era desta que ficava rico.
Recordações de Viena (II)
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Recordações de Viena (I)
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1987,
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Taça Campeões Europeus,
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O dia de maior glória da nossa história
Estava quente, naquela manhã de 27 Maio de 1987.
Ainda as finais se disputavam, felizmente, nas mágicas quartas-feiras.
Seria uma data que qualquer portista jamais esqueceria.
Ainda na véspera, ouvíamos, à noite, a "Bola Branca" na "RR".
Sem net, era a única forma de, na altura, ficarmos a par das últimas, directamente do hotel em Viena.
O último jornal na TV limitara-se a um "Esperemos que a notícia de abertura de amanhã seja a vitória do FCP!".
Jaime Pacheco seria o único jogador a ficar de fora, dizia-se. E, assim, fomos todos dormir.
Saberíamos mais tarde que, naquela mesma madrugada, Madjer estava a meditar em todas as fintas e dribles que poderia fazer no dia seguinte. Não queria deixar nada ao acaso. Confessou-o no seu livro "Madjer, l'artist".
No dia D, acordamos com o programa de manhã da RTP.
Ainda por lá não se dançava música-pimba com cachecóis à mistura, mas o vidente de serviço assegurava que os ventos estariam de feição para as nossas cores. "Não era um garantia, mas...".
Ainda por lá não se dançava música-pimba com cachecóis à mistura, mas o vidente de serviço assegurava que os ventos estariam de feição para as nossas cores. "Não era um garantia, mas...".
E como foi difícil trabalhar ou ir para as aulas naquele dia.
Nunca mais eram as 19h15...
E tudo muito quente
continuou, naquela esplêndida tarde de sol.
Como habitualmente na altura, a emissão da RTP começaria praticamente em cima do apito inicial.
Ninguém se via nas ruas da baixa. Silêncio se fez. Era o jogo das nossas vidas.
E o resto é História.
Discurso do rei Artur ao intervalo: "Daqui a 45 minutos não há bola que foi à trave e, por azar, não entrou; não haverá também desculpas com o árbitro nem outras quaisquer.
Daqui a 45 minutos, vocês são Campeões da Europa ou não!".
Frasco, Juary e Madjer. Madjer e Juary. 10 minutos intermináveis, mas o Mly lá nos acalmava um pouco.
Apito final.
Pinto da Costa a desmaiar, ainda no camarote, e o João Pinto a não largar o caneco nem por nada. "Um rapaz como eu com a Taça dos Campeões nas mãos!"
E eis a a foto de família dos vencedores: os saudosos Teles Roxo e Zé Beto. Também nomes, agora algo "estranhos", como D'Onofrio, Álvaro Braga Júnior ou mesmo Octávio. O grande Dr. Domingos Gomes: "Destas fotos, já ninguém me poderá retirar".
Casagrande, que não chegou a ser preciso. Festas, um júnior, que ainda andava pelo "Alexandre" a estudar. O "Moreno" e o Rodolfo Moura. O Prof. João Mota. Até o
inefável Delano Vieira lá pelo Prater circulava.
Os grandes favoritos, esses que até se davam ao luxo de jogar com o veterano Hoeness, para a sua despedida, perdiam ali mesmo ao pé de sua casa.
Mais derrotas muito penosas, em finais europeias, se seguiriam para este Bayern.
E pronto, os noticiários começariam mesmo com a frase mais bonita que um adepto pode desejar ouvir: "Boa noite, o FCP é Campeão Europeu!".
E depois aquela multidão imensa nos Aliados.
Até Domingos Paciência, júnior já famoso de tantas vezes ser chamado ao plantel principal, por lá andava.
Poucas horas se dormiriam.
Os atletas ainda chegariam a aparecer no relvado das Antas, já a madrugada ia bem alta, mas meio tímidos.
E eram primeiras-páginas de chorar de orgulho, as do dia seguinte:
"Porto, Rei da Europa", no "JN".
Até mesmo o Alfredo Farinha d'"A Bola", que teria levado a pá para Viena, se renderia ao "Danúbio Azul".
Crianças festejavam, felizes, jogando à bola pelas ruas e escolas do Porto.
Importante mesmo, naquele dia 28, era marcar um golo de calcanhar.
Foi preciso esperar até ao Domingo seguinte para voltar a sentir grandes emoções.
Último jogo do campeonato contra o Elvas. Grande enchente nas Antas. Já de manhã, Juary e Madjer, abraçados na capa do Record, asseguravam: "Heróis só nos
filmes!".
E era vê-los, todos ali, a entrarem em campo com a Taça dos Campeões nas mãos. Afinal, tudo aquilo
tinha sido mesmo verdade.
Goleada das antigas. Madjer e Futre poupados, jogariam apenas meia-parte. Chegou e sobrou.
Meses depois e com tempo para reflectir, ainda a muitos custava acreditar que tudo tinha acontecido assim mesmo: de modo tão perfeito.
Em 27 Maio de 1987 tudo mudou.
Nunca mais seriamos os mesmos.
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Foi assim - II
O conjunto de relatos que fui reunindo ao longo destes anos sobre Viena (e a caminhada até lá):
Salvo erro boa parte disto veio do blog Pobo do Norte, por isso aqui ficam os créditos.
Salvo erro boa parte disto veio do blog Pobo do Norte, por isso aqui ficam os créditos.
sábado, 19 de maio de 2012
Foi assim - I
Daqui a um bocado começa em Munique a final da L. Campeões e como estas duas palavras trazem grande recordações:
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
SMS do dia - CXVIII
A praça será sempre Velasquez.
A rotunda será sempre da Boavista.
O aeroporto será sempre de Pedras Rubras.
E o estádio do Prater.
A rotunda será sempre da Boavista.
O aeroporto será sempre de Pedras Rubras.
E o estádio do Prater.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Viena, 27 de Maio de 1987

É sempre bom recordar esta data! Não foi "só" um título europeu. Foi o jogo que inscreveu para sempre o nome do F.C. Porto na História do futebol mundial. Foi um espectáculo emocionante e de alta qualidade. A todos os heróis de Viena, obviamente incluindo Jorge Nuno Pinto da Costa e Artur Jorge, parabéns pela efeméride!
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Verão 2009, Viena
Para um portista, ir a Viena e não visitar o Prater (agora chama-se estádio Ernst Happel), é pior do que ir a Roma e não ver o Papa...
Nota: Clique nas imagens para as ampliar.
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