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sábado, 17 de setembro de 2011

"Mais que um clube, era uma família"

Extractos de uma entrevista recente de Józef Mlynarczyk ao jornal i:

«(...) o FC Porto era mais que um clube, era uma família. Muito unida. Nunca senti nada assim. Era um clube com jogadores tão próximos uns dos outros. Até arrepia, só de pensar. Mérito para o presidente Pinto da Costa. Nos treinos, todos se portavam bem mas bastava chegar ao balneário para começar a brincadeira. Aí, eu entendia a mística e a verdadeira amizade entre nós. E quem te diz isso sou eu, que nunca cheguei a falar muito bem português. Portanto, às vezes, nem entendia as piadas em português mas estávamos sempre a rir. E já se sabe que a alegria contagia.»

«(...) nunca senti tanto frio como nesse jogo [Taça Intercontinental] e olha que eu joguei anos e anos na Polónia, com neve e gelo. Mas nesse dia em Tóquio o tempo estava insuportavelmente frio. Cada vez que ia ao chão para agarrar uma bola, a relva molhada e gelada, juntamente com flocos de neve, entranhava-se no meu corpo, não sei muito bem como. E era cá um incómodo.»

«No FCP, não há um só momento inesquecível. Há vários. Foi muita coisa junta. Depois da Taça Internacional, ainda ganhámos a Supertaça Europeia. E ao Ajax, que tinha mais nome que nós. Esse Ajax era treinado por Cruijff e o adjunto era um tal Van Gaal. Ganhámos 1-0 em Amesterdão naquele que terá sido uma das melhores exibições do Rui Barros. Ele correu mais que todos os outros 21 jogadores em campo. Correu, correu e marcou-nos o golo da vitória.»

«(...) Aproveito para mandar um grande abraço ao Pinto da Costa. Foi ele que tornou estas memórias possíveis. E um abraço a todos os jogadores do FC Porto. E a todos os adeptos. E a todos aqueles que conheci na minha passagem por aí. A todos aqueles que me deram força quando me lesionei [facto aproveitado para se dar a passagem de testemunho para Vítor Baía]. E, é o último agradecimento, prometo, a todos aqueles que me mostraram o bem que se come e vive em Portugal. É um país magnífico. Parabéns.»


Lembro-me da serenidade que o Mly transmitia à equipa, o que contrastava com um certo nervosismo que prespassava quando o guarda-redes era o malogrado Zé Beto.

Lembro-me, também, da forma como este guarda-redes polaco fazia lançamentos longos com a mão, colocando a bola nos pés de jogadores portistas à entrada do meio-campo adversário.

domingo, 27 de junho de 2010

F.C. Porto nos Mundiais (VIII)


Josef Mlynarczyk, "o Papa"

Proveniente do Bastia, chegou em Janeiro de 1986 ao F.C. Porto um guarda-redes polaco que viria a tornar-se famoso na história do clube, pois foi ele que defendeu a baliza azul-branca na histórica Final de Viena, nos dois jogos da Supertaça Europeia, e também na famosa Taça Intercontinental em Tóquio, tudo em 1987.

Josef Mlynarczyk - era esse o seu nome - nasceu em Nowa Sól em 1953 e foi internacional 42 vezes pela Polónia, e é essa parte que aqui hoje nos interessa especialmente. Antes de cá chegar, Mlynarczyk, a quem alguns adeptos do FCP chamavam "o Papa" por ser compatriota do Papa João Paulo II, já participara, sempre a titular, no Campeonato do Mundo de 1982 em Espanha, no qual a Polónia conseguira um brilhante terceiro lugar.

Já ao serviço do F.C. Porto Mlynarczyk participou no Mundial do México em 1986, onde foi também sempre titular, e logo no mesmo grupo que Portugal. A Polónia seguiria em frente como um dos quatro melhores terceiros (o Mundial era disputado nessa altura por 24 equipas), e seria derrotada nos 1/8 de Final pelo Brasil.

Tendo empatado a zero com Marrocos (o 1º classificado do grupo e primeira equipa africana a passar à segunda fase na história da prova), os polacos defrontaram a seguir Portugal, que vinha de uma surpreendente estreia positiva (vitória de 1-0 sobre a Inglaterra) atendendo ao caos gerado pelo "caso Saltillo". E com um golo do famoso Wlodzimierz Smolarek, os polacos levariam Portugal de vencida. Na terceira partida "o Papa" encontrou pela frente o temível Gary Lineker, ponta-de-lança do Everton e recente melhor marcador do campeonato inglês, com 30 golos em 41 jogos. Pois aos 34' da primeira parte já Lineker (que viria a ser o melhor marcador da competição) completava um hat-trick, tendo o resultado final ficado em 3-0. Ao comando da selecção inglesa estava o nosso futuro treinador Bobby Robson, e a Inglaterra seria eliminada nos 1/4 de final pela Argentina. Os outros três desafios dessa fase foram todos resolvidos por penalties, mas esse encontrou a sua chave na "mão de Deus", como é de todos consabido. Essa mesma mão tem sido recentemente avistada em alguns estádios da África do Sul (tenho aqui uma, mas não de Deus, para lhe acenar, quando chegar a hora de eles irem para casa;-)).

O destino da Polónia nesse Mundial ficaria então decidido nos 1/8 de Final, em que a aparentemente imparável selecção brasileira (seria eliminada pela França nos 1/4 de Final) a derrotou por 4-0, com golos de Sócrates (o médico, não o engenheiro), Josimar, Edinho e Careca, sendo o primeiro e o último de penalty. Mas no ano seguinte Mlynarczyk atingiria o que foi sem dúvida o ponto alto da sua carreira, no Prater de Viena.

Foto: pfutebol.com