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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Lopeteguices e outros desastres

Acabou a invencibilidade. Acabou o estado de graça na Champions League. Tinha de suceder. Lamentavelmente aconteceu no pior momento e sem paliativos. O FC Porto perdeu e perdeu muito bem. Não porque o Dinamo de Kiev tenha sido uma grande equipa. Foi uma equipa, sobretudo, inteligente a aproveitar-se dos erros alheios - do do árbitro, do de Casillas e do esquema de Lopetegui - e em deixar a sensação ao rival de que eram mais frágeis do que a realidade escondia. O Porto tem apenas a si mesmo para se culpar por ter agora de ir a Londres vencer ou esperar por uma improvável ajuda do Maccabi. O preço de mais uma lopeteguice.

Uma equipa não pode ganhar na Champions League quando não tem um remate de perigo à baliza rival durante noventa minutos de jogo. Particularmente se joga em casa. Particularmente se é favorito. O Porto de Lopetegui tanto é cara como coroa. Pode crescer e acreditar no impossível como se viu contra o Basel, Bayern ou Chelsea mas também - e mais vezes do que não - cai na desesperante auto-complacência. Uma coisa é querer controlar o jogo. Algo que se pode fazer de muitas maneiras. Com ou sem bola, com linhas adiantadas ou recuadas, com jogadores abrindo ou encurtando o campo. Outra coisa, muito distinta, é transformar esse controlo em algo absolutamente estéril. E é isso que - e na Liga, mais do que em qualquer outro cenário isso se aprecia - o Porto de Lopetegui é na maioria das vezes. Uma equipa sem chispa, incapaz de fazer algo mais com a bola que tê-la e trocá-la em posições de confronto.
Passes a rasgar a defesa contrária? Contam-se pelas mãos. Jogadas individuais brilhantes? Idem. Levar o jogo a um lado para desorientar o jogador passando rapidamente a bola para o outro? Também. No esquema de Lopetegui, esse 4-3-3 que é cada vez mais um 4-4-2 musculado com menos arte e mais trabalho, o Porto é o rei e senhor dos primeiros três quartos de campo. O último terço é o karma da equipa de tal forma que o modelo aplicado tem o condão inclusive de desactivar um Aboubakar que acaba engolido e afogado pelos rivais, desconectado da equipa ou forçado a vir buscar a bola lá bem longe da sua zona de influência. Tudo isso é conhecido já de todos.
De certa forma, é habitual. Menos na Champions e menos ainda no Dragão onde, durante o mandato de Lopetegui, honra lhe seja feita, a equipa conseguia ser radicalmente distinta. Hoje não o soube ser e essa falta de atitude e inteligência de jogo pode ter custado muito, muito caro.


Lopetegui continua a ser um esqueleto, um fantasma no banco. Incapaz de dar a volta a resultados adversos, ainda estamos para ver o jogo onde o Porto começa a perder e ganha. O jogo em que o basco dá um golpe de asa desde o banco e rompe o esquema de jogo com mudanças tácticas ou substituições. Com ele os adeptos sabem que ou a equipa começa forte, marca e gere o marcador ou então o caos é o cenário mais provável. Bem pode gritar, agitar os braços e olhar para o céu com o seu ar de personagem de romance de Miguel Torga. Mas o que nunca sai dali é uma ideia de futebol que fuja ao livro do trabalho semanal. Hoje, a troca de Maxi Pereira - até ao momento não foi confirmada nenhuma lesão que a justifique - foi um tiro no pé porque abriu, ainda mais, o canal preferencial do jogo dos homens de Rebrov, os contra-ataques pelas faixas laterais onde Yarmolenko, sobretudo ele, fizeram a diferença.
Colocar Osvaldo ao lado de Aboubakar e Corona a abrir na direita podia fazer sentido se a equipa tivesse tido um meio-campo capaz de apertar o Dinamo para dentro da sua área. Isso nunca sucedeu. O meio-campo, partido, sem linhas de passe com os jogadores da frente, foi quase sempre superado e a perder, tanto por um como por dois, o Porto foi incapaz de cinco minutos de asfixia na baliza rival capazes de criar o pânico e forçar o erro. Esteve perto do golo numa das poucas jogadas que exigia o jogo, com André André (em vontade ninguém lhe ganha) quase a provocar um auto-golo. Mas isso é pouco, muito pouco, para quem quer ser uma equipa a sério no espaço europeu. O Porto não foi. Num péssimo momento.

Ironicamente este foi também o jogo em que as três maiores apostas do mercado falharam estrepitosamente quando, justamente, vieram para fazer a diferença. Isso não significa nem que tenham sido um erro - não foram - nem que estejam a ter um mau ano - não estão. Mas não deixa de ser irónico que o fado juntasse precisamente no mesmo dia um frango épico de Iker Casillas - o espanhol sempre foi proclive a momentos assim mas, como disse em Julho, para isso já havia Helton no plantel - uma fraca exibição com substituição incluída do lateral uruguaio e uma desastrosa exibição de Imbula. O francês pode ter um futuro brilhante pela frente mas ainda não conectou com os colegas e a ideia de jogo. Os remates de meia distância são inofensivos, o trabalho de pressão desastrado e no lance do penalty - que a meu ver não o é - Imbula peca de ingenuidade. Foi um erro a meias entre o jogador do Porto e o árbitro que o Dinamo aproveitou, dando seguimento a cinco minutos muito bons depois da primeira meia hora que foi um monólogo do Porto. Mas, cuidado, um monólogo lopeteguiano, daquele que mastiga mas não trinca. Porque o Porto vulgarizou o Dinamo em posse, mas foi sempre incapaz de criar perigo e os ucranianos contavam com essa realidade. Qualquer equipa que conheça o Porto de Lopetegui sabe que não é uma equipa de killers mas sim uma equipa que demora a dar o golpe. Por isso o Kiev não se assustou nem se preocupou e, como um boxeador encostado ao seu campo, contou os minutos até levantar o punho e dar o soco decisivo...
Com a segunda parte, já sem Maxi e a equipa tacticamente desorientada, o Dinamo decidiu ser mais pragmático mas nem teve sequer de se preocupar muito. O Porto atacava pouco e mal e contra o guião previsto, Casillas cometeu um erro de principiante e matou o jogo. A partir daí o Dinamo esteve sempre mais perto do 0-3 do que o Porto do 2-1 o que diz muito do mau jogo dos locais. Tello - alguém me explica quem é este Tello? - foi um desastre pela esquerda e Corona, pela direita, está demasiado verde para este nível de exigência. Ao Porto, no momento mais duro da temporada, faltou criatividade no meio (este ano não existe um Oliver e nota-se muito) mas também nas alas onde o Dinamo tinha um jogador desse perfil. Olhamos para o plantel e vemos em noites como esta precisamente os problemas que se adivinhavam em Agosto: excesso de um perfil de médio musculado mas sem jogadores capazes de marcar a diferença. Jogadores como Yarmolenko, um futebolista fantástico que no pior momento da sua equipa a pegou às costas e não parou até ao fim de ser um quebra-cabeças. Para tomar nota.

A derrota significa o fim da invencibilidade no Dragão. O Dinamo, uma equipa vulgar, conseguiu o que clubes muito maiores foram incapazes de lograr. E coloca-se em posição privilegiada para seguir em frente. Basta ganhar o seu jogo. Porto e Chelsea, empatando, colocam-se com 11 pontos, os mesmos que teria o Dinamo. Mas, nesse cenário, o Porto cai eliminado por ter um pior resultado agregado entre os três. Isso significa que os homens de Lopetegui - que nos jogos fora da Champions são, precisamente, a pálida imagem que hoje foram em casa, como já se viu em Kiev, Munich, Basileia ou Bilbao - têm de ir a Londres e dar a sentença de morte a José Mourinho que tem na Champions a sua única tábua de salvação. Os Blues estão, paulatinamente, a recuperar e hoje foram igualmente convincentes em Israel. Vão jogar a época nesse encontro, a pior posição possível para ir ao Bridge disputar noventa minutos de máxima intensidade, tanto física como psicológica. Um Porto como este será carne para canhão até mesmo daquela que é, seguramente, a pior equipa da carreira de Mourinho. Mas um Porto como já vimos, felizmente, em algumas ocasiões, pode perfeitamente superar o obstáculo. Se não tiver o azar de acumular erros individuais como hoje e, sobretudo, se conseguir evitar cair na enésima lopeteguice desse jogo pastelento, vomitivo e que pode custar, pelo segundo ano consecutivo, muito caro ao clube.
   

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Um empate com sabor a vitória!


Foi um jogo intenso: o Dinamo entrou agressivo, procurou ganhar os duelos pela maior envergadura física, explorando o jogo directo na expectativa de chegar mais depressa e ganhar as segundas bolas. Criou algum frisson, não criou perigo. O FCP, paulatinamente, foi-se recompondo e passou a controlar o jogo, tirando a bola ao adversário e circulando-a a propósito. Jogou-se, prioritariamente, longe das balizas, mas o FCP sempre com mais e melhor posse. Havia que dominar a fera e fizemo-lo muito bem. Um lance de golo e para o nosso lado: assistência de James, cabeça de Martinez (muito apertado) e uma excelente defesa do guardião adversário. Uma primeira parte muito séria. Um porto, à antiga, que me agradou

Na segunda parte, entrámos muito bem. Criámos várias jogadas de perigo e uma excelente oportunidade de golo que Varela falhou por pouco. Continuámos a controlar e impor o ritmo ao jogo que mais nos interessava. Perdemos alguns lances por má definição do último passe. E foi alguma falta de lucidez nesses momentos que retiro como menos positivo da nossa parte. Aos 66 minutos, Danilo atrasou-se no movimento para colocar em fora de jogo o adversário mais adiantado, e o Dinamo criou a sua melhor oportunidade. A partir daí, o jogo ficou mais divido e partido. Houve ameaças dos dois lados, mas o FCP foi sempre uma equipa muito solidária. Não comungo da convicção que o Dinamo é uma equipa menor: considero que fez um jogo intenso, agressivo, lutou até à exaustão e obrigou-nos a dar o litro . Não era jogo que apelava para a nota artística, mas, apesar disso, fomos de longe muito melhores tecnicamente e respondemos sempre com uma coesão que esta equipa ainda não tinha mostrado, como hoje. Provámos que sabemos sofrer e lutar. Gostei muito deste FCP e sinto-me muito orgulhoso com a exibição de hoje

Não realço nenhum jogador individualmente, porque neste jogo o todo foi superior à soma das partes. Se na época passada da presença na CL ficou alguma frustração, na presente época já garantimos a presença nos oitavos. Excelente!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

9 pontos e os oitavos à vista


Como o próprio Vítor Pereira reconheceu, nem tudo correu bem no FC Porto x Dinamo Kiev de hoje, particularmente na segunda parte, em que a equipa portista "desligou" do jogo muito cedo (algo que esta época já aconteceu noutras ocasiões).

Numa análise individual, poder-se-á dizer que:
Maicon, que tem sido o patrão da defesa, poderia ter feito mais nos dois golos dos ucranianos;
Danilo, sendo um bom jogador, tarda em justificar os quase 20 milhões de euros que a SAD investiu na sua contratação;
Moutinho, o pêndulo do meio-campo portista, não sabe jogar mal, mas esteve distante dos seus melhores dias (foi naturalmente substituído);
James, o genial Nº 10 colombiano, não esteve particularmente brilhante;
E podia continuar.
Contudo, prefiro salientar o potente e colocadíssimo remate do "Drogba da Caparica" no primeiro golo portista e, principalmente, a estreia de Jackson Martinez a marcar na principal "montra do futebol mundial", e logo com um bis.

Oito golos de Cha cha cha Martinez (1 na Supertaça, 5 no Campeonato, 2 na Liga dos Campeões) nos primeiros 10 jogos oficiais com a camisola do FC Porto. Era difícil pedir melhor a este ponta-de-lança sul-americano, que se está a estrear no FC Porto e no futebol europeu. Grande contratação! (e penso que a FC Porto SAD é detentora de 100% do seu passe)

De resto, com estas três vitórias em três jogos, o mal amado Vítor Pereira já superou os 8 pontos alcançados na Liga dos Campeões da época passada e está quase a alcançar o segundo objectivo da época: a qualificação para os oitavos-de-final da liga milionária (o Angelino Ferreira agradece...).

Ah, e com a vitória de hoje, o FC Porto distancia-se como o clube que mais contribuiu para o ranking de Portugal na UEFA e, além disso, superou a Juventus e subiu ao oitavo lugar do ranking referido no post anterior.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Uma sorte que não desagrada



Estão distribuídos os clubes entre os oito grupos que compõem a fase de grupos da Liga dos Campeões e, numa abordagem superficial, pode-se dizer que o sorteio foi interessante. Evitando os cabeças-de-série do Pote 1, sobravam algumas potenciais “pedras no sapato” nos restantes Potes. O “milionário” PSG vislumbra-se como o adversário mais perigoso para o FC Porto neste apuramento, onde a 1ª volta poderá ser decisiva para as nossas cores.

De facto, os 3 primeiros jogos da equipa azul e branca poderão ditar a nossa continuidade na prova. Com a deslocação a Zagreb, mas sobretudo a receção no Dragão dos franceses e ucranianos, tornará decisiva a resolução deste grupo. Os jogos em casa são de vital importância, mais ainda quando disputados com os potenciais concorrentes. Amealhar 6/7 pontos antes da deslocação a Kiev é crucial. Depois disso sobrará o penúltimo encontro em casa para salvaguardar a posição do momento, nunca descartando, é claro, conquista de pontos nos campos adversários.

O Paris Saint-Germain foi a coqueluche do defeso. Thiago Silva, Ibrahimovic, Lavezzi e Lucas juntam-se a Pastore numa equipa tão recheada de dinheiro como de estrelas, mas ainda por comprovar se é capaz de formar um bom conjunto. Foram 2ºs classificados na Liga francesa e recebem-nos na última jornada da fase de grupos.

O Dinamo de Kiev orientado por Yuriy Semin, recebeu os reforços Taiwo e Miguel Veloso para esta época. À sétima jornada da liga da Ucrânia segue na 2ª posição a 3 pontos do líder Shakhtar. O FC Porto desloca-se a Kiev a 6 de Novembro.

O Dínamo de Zagreb fez uma campanha dececionante na edição anterior da Liga dos Campeões. Não somou qualquer ponto e foi goleado e três ocasiões. Abriremos esta competição com a viagem à Croácia.

A saber a ordem dos jogos;

1ª jornada (18 de setembro)
Dinamo Zagreb-F.C. Porto
PSG-Dínamo Kiev

2ª jornada (3 de outubro)
F.C. Porto-PSG
Dínamo Kiev-Dínamo Zagreb

3ª jornada (24 de outubro)
F.C. Porto-Dínamo-Kiev
Dínamo Zagreb-PSG

4ª jornada (6 de novembro)
Dínamo Kiev-F.C. Porto
PSG-Dínamo Zagreb

5ª jornada (21 de novembro)
F.C. Porto-Dínamo Zagreb
Dínamo Kiev-PSG

6ª jornada (4 de dezembro)
PSG-F.C. Porto
Dínamo Zagreb-Dínamo Kiev

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Petição "Estátua a José Maria Pedroto"

Como aqui sugeri no artigo comemorativo dos 25 anos do falecimento de José Maria Pedroto, e na sequência dos vários comentários favoráveis à ideia na respectiva caixa, está já lançada a petição online para a colocação de uma estátua do Zé do Boné junto ao Estádio do Dragão.



Parafraseando Sir Winston Churchill "nunca na história do F.C.P. tantos deveram tanto a um só homem".

Este tipo de iniciativa não é inédita. O Ipswich Town homenageia do mesmo modo o saudoso Sir Bobby Robson junto ao seu estádio de Portman Road, o mesmo fazendo o Manchester United em relação a Sir Matt Busby junto a Old Trafford (fotos neste artigo) e o Dínamo de Kiev a Valeriy Lobanovskyi em frente ao seu estádio.



Os interessados em assinarem a petição devem seguir este link:

http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N1035

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Estamos vivos!


Jesualdo Ferreira, fez questão de vincar no seu discurso perante a imprensa da falta de sorte que a sua equipa teve nos últimos encontros em que saiu derrotada. A verdade, porem, é que a sorte faz-se por merecer e há que lutar por ela. É precisamente nesse ponto que reside a diferença no resultado no jogo na Ucrânia relativamente ao do Dragão. A equipa acreditou que poderia conseguir algo mais e, mesmo bafejada pela sorte do Deuses, chegou à vitória.

Pela forma como a partida se desenrolava, parecia que o filme de há quinze atrás se iria repetir. Um FC Porto mais dominador, mais posse de bola, maior número de remates, bolas nos postes, mas o Dínamo na frente do marcador. Um golpe de Rolando alimentou a esperança azul e branca, abrindo um novo capítulo no encontro.

Daí em diante o jogo ficou aberto, com ambas as equipas em busca de algo mais. Jesualdo Ferreira procurou soluções alternativas para disfarçar defeitos comuns da sua equipa e seguir rumo à vitória. Mexe nas laterais retirando o brioso Capitão P. Emanuel e Sapunaru, fazendo entrar Pelé para o miolo puxando Fernando à direita. Lino, pelo esquerdo, tentava imprimir maior profundidade.

Curiosamente foi neste período que o Dínamo de Kiev provaria do seu próprio veneno. Longe de serem dominadores, os Ucranianos criaram nos últimos dez minutos flagrantes oportunidades de golo, mas foi a vez do FC Porto demonstrar eficácia num excelente ataque rápido finalizado pelo até aí apagado Lucho.

A maldição parecia estar a ser definitivamente afastada, e nem um arbitro tão prepotente como caseiro conseguiu alterar o rumo dos acontecimentos. Afinal ainda estamos vivos!

Positivo: O acreditar até ao fim do FC Porto.

Negativo: Um árbitro de pacotilha que quase estragou o encontro.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Na antecâmara de Viena


Estádio Olimpico de Kiev

Após a excelente exibição da 1ª mão, mas que produziu um resultado escasso, o FC Porto de Artur Jorge partiu para Kiev sabendo que ia enfrentar uma equipa poderosíssima e que em casa era praticamente imbatível.

Só para dar uma ideia das dificuldades que nos esperavam, o Dínamo, nessa época e na anterior, tinha o seguinte registo de resultados em casa para as competições europeias:

1985/86, Taça das Taças
4-1: FC Utrecht (Holanda)
3-0: Universitatea Craiova (Roménia)
5-1: Rapid Viena (Áustria) (1)
3-0: Dukla Praga (Checoslováquia) (2)

(1) O Rapid Viena tinha sido finalista da Taça das Taças na época anterior (1984/85)
(2) O Dukla Praga tinha eliminado o SLB nos quartos-de-final

1986/87, Taça dos Campeões Europeus
2-0: FC Beroe (Bulgária)
3-1: Celtic (Escócia)
5-0: Besitkas (Turquia)

Ou seja, 0 derrotas, 0 empates e 7 vitórias (praticamente todas por goleada). Era esta máquina trituradora, treinada por Lobanovsky, que o FC Porto ia enfrentar.

Em 22 de Abril de 1987, o FC Porto entrou no Estádio Olímpico de Kiev com o seguinte onze:

Mlynarczyk, João Pinto, Celso, Lima Pereira, Eduardo Luís, André, Quim, Jaime Magalhães, Madjer, Gomes (cap.) e Futre.

Toda a gente esperava um massacre do Dínamo nos minutos iniciais mas, perante o espanto de 95 mil ucranianos, que enchiam por completo as bancadas do estádio, aos 11 minutos os dragões venciam por 2-0!

Vídeo do golo do Celso (ao terceiro minuto):




Vídeo do golo do bi-bota de ouro (aos 11 minutos de jogo):




Mikhailichenko haveria de reduzir aos 13 minutos e os ucranianos ainda enviaram uma bola à trave, mas um FC Porto com classe, altamente personalizado e a jogar à Porto, controlou o desafio até ao árbitro Ronald Bridges (País de Gales) apitar para o final do encontro, obtendo uma nova vitória por 2-1 e regressando a Portugal com o bilhete para a final de Viena.



Como recordação e em jeito de homenagem, os 23 'dragões' que participaram nos nove jogos que culminaram com a vitória de Viena (clique para ampliar):

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Um jogo com pouca história

Entrámos relativamente bem, dispostos em 4x3x3 com a repetição, nesta época, de Lucho a jogar mais adiantado e Meireles mais retraído e próximo de Fernando. Sem jogarmos bem, dominámos e criámos ocasiões de golo, sem nunca termos conseguido um jogo fluente, intenso e atraente. Porém, ia dando para dominar um adversário muito retraído, defensivo e que posicionava no ataque apenas uma unidade, que Rolando cobriu sempre muito bem.

Num livre, numa daquelas faltas que não vale a pena provocar, um remate forte e cheio de efeito traiu Nuno, que nunca mais se recompôs. É uma bola tramada para qualquer guarda redes. Porém, a partir desse momento Nuno mostrou um nervosismo excessivo e não foi o guarda redes seguro que uma equipa de top carece.

Reagimos e tivemos uma boa iniciativa de Lisandro que fugiu bem pela esquerda e rematou de forma sesgada ao golo, saindo a bola rente ao poste. Antes do golo do Dínamo, tínhamos tido uma bola no poste de Lucho e mais uma outra oportunidade, mas com um futebol sempre trapalhão e intermitente. Um remate um golo: o futebol é cruel, principalmente para os que não estão fortes.

Na segunda parte Hulk rendeu Fernando e entramos a jogar num 4x2x4. A equipa entrou bem e mais entusiasmada, sobretudo em função das iniciativas de Hulk que confundiram momentaneamente a defesa de Kiev. Foi sol de pouca dura e mais uma vez não fomos capazes de colocar o individual no colectivo, e a pouca organização do nosso jogo foi-se desmanchando à medida que as forças iam faltando.

O Kiev, tacticamente, subiu na 2ª parte. O avançado que rendeu Bangoura, mais corpulento, deu que fazer à nossa defesa, passando a criar enormes problemas, jogando muito bem com bola e sem ela e usando o seu poder atlético de forma sempre muito conveniente. Rolando oscilou nesse período e Bruno ajudou pouco.


Depois desses momentos de algum frenesim, e de uma perdida de Sapu (que jogou bem melhor na 1ª parte e, nesse período, muito melhor a atacar que a defender) no cabeceamento de um canto, a equipa voltou a repetir a sua grande dificuldade em bater defesas muito povoadas, e a sua organização foi piorando com as alterações que Jesualdo ia introduzindo.

Praticamente não entrámos na grande área, e todos os remates saíram de fora dela e com pouco perigo. Bastou ao guarda redes estar atento e concentrado. Hulk ainda teve na marcação de um canto uma boa oportunidade, mas cabeceou de forma acrobática, mas muito longe do alvo.

A equipa apareceu mais uma vez não estar muito bem fisicamente, Lucho e o Cebola arrastaram-se em muitos momentos na 2ª. parte, e parece-me um pouco primitivo querer ganhar um jogo plantando avançados, fora das suas posições, longe da baliza, com pouca mobilidade e atropelando-se, frequentemente, um aos outros. Rodriguez continua a não repetir o nível que atingiu no SLB e parece um peixe fora da água, tal é a falta de identificação com o modelo do jogo e o entendimento com os colegas.

Do Kiev não gostei especialmente, mas na 2ª. parte foi muito superior ao FCP tacticamente. Obviamente que a tarefa era mais fácil – ganhava por 1-0 – mas o FCP da CL deveria ser suficientemente competente para ser capaz de lhes colocar problemas sérios. E não foi!

Falta qualidade, pelo menos para já, falta capacidade física, falta confiança, falta entrosamento, falta intensidade para jogar a um nível elevado. Para virar um resultado – contra uma equipa que na 2ª. parte foi sempre muito organizada – é muito difícil fazê-lo sem esses atributos.

O treinador também não ajudou, e se precisava de um segundo ponta de lança quem deveria entrar era o Farías e não o Tarik, que jogou sempre no meio dos centrais e não na sua posição habitual, para daí fazer as diagonais que tão bem executa.

JF foi infeliz neste jogo e cometeu vários equívocos, a meu ver. Tem tantas responsabilidades na derrota como os seus jogadores. Não entendo como é possível que Lucho e Rodríguez estivessem tanto tempo em campo, custa-me ver como os jogadores protestam tanto uns com os outros, sendo que Lisandro parece ter sido promovido a general, pois barafusta com toda a gente.


Tivemos o que merecemos o que não invalida que o Kiev tenha sido um vencedor feliz.

Positivo: Alguns momentos da 1ª e 2ª parte e uma jogada muito bonita, com calcanhar de Tarik, para remate de Hulk que infelizmente saiu com pouca pólvora.

Negativo: Jesualdo e o colectivo do FCP.

O árbitro não esteve mal, embora fosse lento na tomada das decisões. Parecia indeciso. Deve ter sido do Xanax que tomou.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Dinamo Kiev de Lobanovsky

Equipa da URSS finalista do EURO 88, treinada por Lobanovsky e cuja base era o Dinamo Kiev


Na caminhada para Viena, depois de termos eliminado os campeões de Malta (Rabat Ajax), da Checoslováquia (Vitkovice) e da Dinamarca (Brondby), as meias-finais da Taça dos Campeões Europeus de 1986/87 afiguravam-se quase intransponíveis isto, claro está, se atendermos à valia dos três possíveis adversários que nos podiam sair em sorte: o campeão de Espanha (Real Madrid), o campeão da RFA (Bayern Munique) e o campeão da URSS e detentor da Taça das Taças (Dínamo Kiev).

Após o sorteio de Zurique, que colocou o Dínamo Kiev no caminho do FC Porto, a ‘Dragões’ escrevia o seguinte:
«Todos se lembram, certamente, do futebol de sonho que a selecção soviética patenteou no Mundial do México, levando inclusive alguns comentadores a considerar que tal futebol era já do próximo século. (...) Pode aliás dizer-se que, grosso modo, é a própria selecção da URSS que os “dragões” vão defrontar nos próximos dias 8 e 22 (...). É que, como é sabido, entre os 22 atletas que os soviéticos levaram ao México estavam nada mais nada menos que uma dúzia de elementos do Dínamo (...).
E quem não se recorda, também, da bela campanha do Dínamo na Taça das Taças da época transacta, concluída com um triunfo esclarecedor (3-0) sobre o Atlético de Madrid no encontro da final (...)
»
in Revista Dragões nº 25, Abril de 1987


Equipa do Dínamo Kiev que venceu a Taça das Taças 1985/86, em 2 de Maio de 1986


O Dínamo Kiev era, de facto, uma autêntica máquina de jogar futebol treinada por Lobanovsky, que também era seleccionador da URSS.

Valery Vasilyevich Lobanovsky nasceu em 6 de Janeiro de 1939 e era um oficial de carreira do Exército Vermelho, que chegou ao posto de coronel. Daí que não surpreenda a disciplina que impunha aos jogadores das suas equipas. Mas como treinador Lobanovsky era muito mais que um “coronel” disciplinador. Ele seguia uma abordagem cientifica do treino e foi o primeiro treinador do Mundo a usar um computador para analisar as tácticas e o planeamento da equipa.

Os resultados começaram a ver-se logo em 1975, quando levou o Dínamo Kiev à vitória na Taça das Taças, derrotando na final os húngaros do Ferencváros, naquela que foi a primeira conquista de uma competição europeia por um clube da antiga União Soviética.

Contudo, para além da disciplina, preparação física e metodologia de treino altamente avançada para a época, que davam forma a colectivos fortíssimos, no Dinamo de 1986/87 também pontificavam vários jogadores acima da média.

Alexander Zavarov e Pavel Yakovenko (6º e 21º respectivamente na classificação da Bola de Ouro 1986) eram dois médios de classe mundial, a que se juntou a jovem estrela emergente Alexei Mikhailitchenko. Por estes três jogadores passava toda a organização de jogo da equipa ucraniana.

Oleg Blokhine era o nome mais sonante e, apesar de estar em final de carreira, mantinha a classe que fez dele em 1975, aos 22 anos, o Bola de Ouro com a maior votação de sempre (à frente de jogadores como Franz Beckenbauer ou Johan Cruyff).
Blokhine era um jogador rápido, de dribles curtos e com um enorme sentido de baliza.
Ao serviço do Dínamo Kiev, onde fez praticamente toda a sua carreira, disputou 432 jogos e marcou 211 golos, tendo conquistado 2 taças das taças, 8 campeonatos e 5 taças da URSS.
Na selecção soviética foi o jogador mais internacional de sempre – 112 jogos – e marcou 42 golos.

E havia ainda Igor Belanov, que era “apenas” o Bola de Ouro 1986. Sobre ele, o Dínamo Kiev e a Selecção da URSS, a revista France Football, promotora deste prestigiado prémio, escreveu o seguinte:

«En cette année 1986, Igor Belanov fut présent constamment sur tous les fronts. Il marqua de nombreux buts, gagna la Coupe des Coupes, brilla en Coupe du monde (trois buts contre la Belgique) et arracha le titre de champion d'URSS. Il ne fut, certes pas, tout seul à récolter tous ces lauriers, mais il ne vola pas sa part du jeu. Son Ballon d'Or, en fait, honora le jeu d'une équipe radieuse et inspirée, le Dynamo Kiev, conduite par un maître: Valeri Lobanovski. Il récompensa ceux qui cherchent et qui croient aux voies de l'inspiration. Il aurait tout aussi bien pu revenir à un autre joueur soviétique, Zavarov ou Yakovenko, ses coéquipiers en club, voire à Dassaev, son partenaire en sélection, tous les trois cités par le jury de France Football. (...)
Le triomphe d'Igor Belanov, s'il est aussi celui d'une sélection et d'un football soviétiques qui ont causé une petite révolution technique en 1986 (...)
»
in France Football

Por tudo isto, não admira que a Selecção da União Soviética... perdão, o Dínamo Kiev fosse considerado a melhor equipa do Mundo e o adversário que todos queriam evitar.

A 1ª mão das meias-finais disputou-se no Estádio das Antas, a 8 de Abril de 1987, numa típica noite chuvosa do Porto.

FC Porto: Mlynarczyck, João Pinto, Lima Pereira, Celso, Eduardo Luís, André, Sousa, Jaime Magalhães, Vermelhinho, Gomes (cap.) e Futre

Substituições: Sousa por Juary (45); Jaime Magalhães por Madjer (81)
Suplentes não utilizados: Zé Beto, Inácio e Semedo

Dínamo Kiev: Tchanov, Baltacha, Bal, Kuznetsov, Demianenko (cap.), Yakovenko, Zavarov, Mikhailitchenko, Rats, Belanov e Blokhine
Substituições: Blokhine por Morozov (75); Belanov por Yevseyev (85)

O rebaixamento das Antas tinha sido concluído uns meses antes e, apesar da intempérie, o estádio estava quase cheio (ainda sem cadeiras deviam estar cerca de 75 mil pessoas).
Eu assisti ao jogo no novo 1º anel da Superior Norte, perto da bancada dos cativos, e aquilo que vi superou largamente as minhas melhores expectativas. O FC Porto, cujas exibições e resultados no campeonato estavam longe do que seria de esperar de uma equipa que era bi-campeã nacional (haveríamos de perder o titulo, e o sonho do Tri, para um sofrível SLB treinado por John Mortimore), fez uma exibição de luxo, na minha opinião a melhor dessa época, emperrando e vulgarizando a máquina futebolística soviética.

O intervalo chegou ainda com o resultado em branco, mas no início da 2ª parte, em apenas 10 minutos, o FC Porto marcou dois golos – Futre (49') e André (55', gp) – traduzindo no marcador a superioridade que vinha evidenciando no terreno.

Os dois golos do FC Porto neste jogo podem ser revistos no vídeo seguinte:



Quando o árbitro holandês, Jan Kaiser, mostrou o 2º cartão amarelo a Andrei Bal, ficando os ucranianos reduzidos a 10 unidades, a presença no Estádio do Prater pareceu, pela primeira vez, ao nosso alcance, mas aos 74 minutos Yakovenko haveria de deitar um balde de água fria nos encharcados adeptos portistas, quando reduziu para 1-2.
Daí e até ao final do jogo o 3º golo esteve à vista em três ocasiões, mas o fado que nos perseguia nas alturas decisivas não o permitiu e à saída do estádio eram poucos os portistas que acreditavam poder resistir 90 minutos ao inferno de Kiev, levando na bagagem uma vantagem tão curta (na altura o peso de jogar fora de casa era muito maior do que agora).

Duas semanas depois, a epopeia de Kiev haveria de ficar gravada a letras de ouro no historial do FC Porto, mas isso são outras estórias, quiçá futuros artigos.


P.S.1 O FC Porto 1986/87 tinha estrelas de nível mundial como o Futre e o Madjer, que faziam maravilhas com a bola e que perduram no imaginário dos portistas que tiveram a felicidade de os ver jogar. Mas deixem que vos diga que aquilo de que tenho mais saudades é de ver uma equipa formada por jogadores da estirpe e da raça do João Pinto, Lima Pereira, André, Jaime Magalhães, Gomes, entre outros, os quais, para além da sua inegável categoria, eram portistas e tinham orgulho em envergarem a gloriosa camisola azul-e-branca.



P.S.2 Valery Lobanovsky morreu de ataque cardíaco em 13 de Maio de 2002. A seguir à sua morte recebeu o titulo de herói da Ucrânia (a mais alta distinção do país) e o estádio do seu Dínamo Kiev foi renomeado Estádio Lobanovsky.
Em 2003, após o AC Milan ter ganho a Liga dos Campeões, Andrei Shevchenko voou para Kiev e colocou a sua medalha no monumento do seu antigo treinador.