Acabou a invencibilidade. Acabou o estado de graça na Champions League. Tinha de suceder. Lamentavelmente aconteceu no pior momento e sem paliativos. O FC Porto perdeu e perdeu muito bem. Não porque o Dinamo de Kiev tenha sido uma grande equipa. Foi uma equipa, sobretudo, inteligente a aproveitar-se dos erros alheios - do do árbitro, do de Casillas e do esquema de Lopetegui - e em deixar a sensação ao rival de que eram mais frágeis do que a realidade escondia. O Porto tem apenas a si mesmo para se culpar por ter agora de ir a Londres vencer ou esperar por uma improvável ajuda do Maccabi. O preço de mais uma lopeteguice.
Uma equipa não pode ganhar na Champions League quando não tem um remate de perigo à baliza rival durante noventa minutos de jogo. Particularmente se joga em casa. Particularmente se é favorito. O Porto de Lopetegui tanto é cara como coroa. Pode crescer e acreditar no impossível como se viu contra o Basel, Bayern ou Chelsea mas também - e mais vezes do que não - cai na desesperante auto-complacência. Uma coisa é querer controlar o jogo. Algo que se pode fazer de muitas maneiras. Com ou sem bola, com linhas adiantadas ou recuadas, com jogadores abrindo ou encurtando o campo. Outra coisa, muito distinta, é transformar esse controlo em algo absolutamente estéril. E é isso que - e na Liga, mais do que em qualquer outro cenário isso se aprecia - o Porto de Lopetegui é na maioria das vezes. Uma equipa sem chispa, incapaz de fazer algo mais com a bola que tê-la e trocá-la em posições de confronto.
Passes a rasgar a defesa contrária? Contam-se pelas mãos. Jogadas individuais brilhantes? Idem. Levar o jogo a um lado para desorientar o jogador passando rapidamente a bola para o outro? Também. No esquema de Lopetegui, esse 4-3-3 que é cada vez mais um 4-4-2 musculado com menos arte e mais trabalho, o Porto é o rei e senhor dos primeiros três quartos de campo. O último terço é o karma da equipa de tal forma que o modelo aplicado tem o condão inclusive de desactivar um Aboubakar que acaba engolido e afogado pelos rivais, desconectado da equipa ou forçado a vir buscar a bola lá bem longe da sua zona de influência. Tudo isso é conhecido já de todos.
De certa forma, é habitual. Menos na Champions e menos ainda no Dragão onde, durante o mandato de Lopetegui, honra lhe seja feita, a equipa conseguia ser radicalmente distinta. Hoje não o soube ser e essa falta de atitude e inteligência de jogo pode ter custado muito, muito caro.
Lopetegui continua a ser um esqueleto, um fantasma no banco. Incapaz de dar a volta a resultados adversos, ainda estamos para ver o jogo onde o Porto começa a perder e ganha. O jogo em que o basco dá um golpe de asa desde o banco e rompe o esquema de jogo com mudanças tácticas ou substituições. Com ele os adeptos sabem que ou a equipa começa forte, marca e gere o marcador ou então o caos é o cenário mais provável. Bem pode gritar, agitar os braços e olhar para o céu com o seu ar de personagem de romance de Miguel Torga. Mas o que nunca sai dali é uma ideia de futebol que fuja ao livro do trabalho semanal. Hoje, a troca de Maxi Pereira - até ao momento não foi confirmada nenhuma lesão que a justifique - foi um tiro no pé porque abriu, ainda mais, o canal preferencial do jogo dos homens de Rebrov, os contra-ataques pelas faixas laterais onde Yarmolenko, sobretudo ele, fizeram a diferença.
Colocar Osvaldo ao lado de Aboubakar e Corona a abrir na direita podia fazer sentido se a equipa tivesse tido um meio-campo capaz de apertar o Dinamo para dentro da sua área. Isso nunca sucedeu. O meio-campo, partido, sem linhas de passe com os jogadores da frente, foi quase sempre superado e a perder, tanto por um como por dois, o Porto foi incapaz de cinco minutos de asfixia na baliza rival capazes de criar o pânico e forçar o erro. Esteve perto do golo numa das poucas jogadas que exigia o jogo, com André André (em vontade ninguém lhe ganha) quase a provocar um auto-golo. Mas isso é pouco, muito pouco, para quem quer ser uma equipa a sério no espaço europeu. O Porto não foi. Num péssimo momento.
Ironicamente este foi também o jogo em que as três maiores apostas do mercado falharam estrepitosamente quando, justamente, vieram para fazer a diferença. Isso não significa nem que tenham sido um erro - não foram - nem que estejam a ter um mau ano - não estão. Mas não deixa de ser irónico que o fado juntasse precisamente no mesmo dia um frango épico de Iker Casillas - o espanhol sempre foi proclive a momentos assim mas, como disse em Julho, para isso já havia Helton no plantel - uma fraca exibição com substituição incluída do lateral uruguaio e uma desastrosa exibição de Imbula. O francês pode ter um futuro brilhante pela frente mas ainda não conectou com os colegas e a ideia de jogo. Os remates de meia distância são inofensivos, o trabalho de pressão desastrado e no lance do penalty - que a meu ver não o é - Imbula peca de ingenuidade. Foi um erro a meias entre o jogador do Porto e o árbitro que o Dinamo aproveitou, dando seguimento a cinco minutos muito bons depois da primeira meia hora que foi um monólogo do Porto. Mas, cuidado, um monólogo lopeteguiano, daquele que mastiga mas não trinca. Porque o Porto vulgarizou o Dinamo em posse, mas foi sempre incapaz de criar perigo e os ucranianos contavam com essa realidade. Qualquer equipa que conheça o Porto de Lopetegui sabe que não é uma equipa de killers mas sim uma equipa que demora a dar o golpe. Por isso o Kiev não se assustou nem se preocupou e, como um boxeador encostado ao seu campo, contou os minutos até levantar o punho e dar o soco decisivo...
Com a segunda parte, já sem Maxi e a equipa tacticamente desorientada, o Dinamo decidiu ser mais pragmático mas nem teve sequer de se preocupar muito. O Porto atacava pouco e mal e contra o guião previsto, Casillas cometeu um erro de principiante e matou o jogo. A partir daí o Dinamo esteve sempre mais perto do 0-3 do que o Porto do 2-1 o que diz muito do mau jogo dos locais. Tello - alguém me explica quem é este Tello? - foi um desastre pela esquerda e Corona, pela direita, está demasiado verde para este nível de exigência. Ao Porto, no momento mais duro da temporada, faltou criatividade no meio (este ano não existe um Oliver e nota-se muito) mas também nas alas onde o Dinamo tinha um jogador desse perfil. Olhamos para o plantel e vemos em noites como esta precisamente os problemas que se adivinhavam em Agosto: excesso de um perfil de médio musculado mas sem jogadores capazes de marcar a diferença. Jogadores como Yarmolenko, um futebolista fantástico que no pior momento da sua equipa a pegou às costas e não parou até ao fim de ser um quebra-cabeças. Para tomar nota.
A derrota significa o fim da invencibilidade no Dragão. O Dinamo, uma equipa vulgar, conseguiu o que clubes muito maiores foram incapazes de lograr. E coloca-se em posição privilegiada para seguir em frente. Basta ganhar o seu jogo. Porto e Chelsea, empatando, colocam-se com 11 pontos, os mesmos que teria o Dinamo. Mas, nesse cenário, o Porto cai eliminado por ter um pior resultado agregado entre os três. Isso significa que os homens de Lopetegui - que nos jogos fora da Champions são, precisamente, a pálida imagem que hoje foram em casa, como já se viu em Kiev, Munich, Basileia ou Bilbao - têm de ir a Londres e dar a sentença de morte a José Mourinho que tem na Champions a sua única tábua de salvação. Os Blues estão, paulatinamente, a recuperar e hoje foram igualmente convincentes em Israel. Vão jogar a época nesse encontro, a pior posição possível para ir ao Bridge disputar noventa minutos de máxima intensidade, tanto física como psicológica. Um Porto como este será carne para canhão até mesmo daquela que é, seguramente, a pior equipa da carreira de Mourinho. Mas um Porto como já vimos, felizmente, em algumas ocasiões, pode perfeitamente superar o obstáculo. Se não tiver o azar de acumular erros individuais como hoje e, sobretudo, se conseguir evitar cair na enésima lopeteguice desse jogo pastelento, vomitivo e que pode custar, pelo segundo ano consecutivo, muito caro ao clube.














