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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Relembrando: Malagueta, um talento fugidio


Nascido em Benguela em 1947, Serafim dos Anjos Mesquita Pedro, no futebol conhecido como "Malagueta", chegou ao F.C. Porto em finais da época de 1965/66, na companhia de outro angolano, o Chico Gordo.

Malagueta ocupava a posição de extremo esquerdo e além da rapidez característica da posição, possuía um excelente drible curto e uma grande imaginação. Lançado por José Maria Pedroto na sua primeira época como treinador no clube (1966/67), Malagueta tinha contra si a categoria e a tenacidade de Francisco Nóbrega, "dono" do lugar durante muitos e bons anos, mas o seu amor pela "má vida" foi uma nefasta influência na sua carreira. O seu Mini Cooper S amarelo torrado tornar-se-ia um dos automóveis mais conhecidos da cidade, e a certa altura passou uns dias estacionado à porta de uma discoteca na Foz do Douro, não sei se como penhor de calotes ou de estragos. Dizia-se que era desencaminhado pelo brasileiro Djalma, outro especialista em dribles ao recolher obrigatório.

Seja como for, no final da época de 1968/69 Malagueta foi dispensado e rumou ao Barreirense, que por essas alturas era um dos mais compulsivos sobe-e-desce do futebol português. Malagueta estava a cumprir o serviço militar e também aí as coisas não lhe correram pelo melhor, tendo até passado uns tempos no presídio militar de Elvas.

Mas o talento permanecia intacto e pelas Antas ele não estava esquecido, e em 1972/73 Malagueta regressou ao F.C. Porto. Foi sol de pouca dura, pois no fim dessa época deixou definitivamente o clube e rumou a Espinho onde, em 1977/78, marcaria o golo do empate (2-2) no jogo em que os "Tigres da Costa Verde" receberam o F.C. Porto.

Ao todo representou o F.C. Porto em apenas 31 jogos do campeonato, tendo marcado 5 golos. Um desperdício enorme.

Depois voltou à sua Angola natal, até que um dia de 1986 chegou a notícia da sua morte (aos 39 anos!), em circunstâncias pessoais constrangedoras.

Passou por esta vida como passava pelos adversários: com um drible curto e rápido.


Foto: Blogue "Paixão pelo Porto"

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Relembrando: Custódio Pinto, "o Cabecinha de Ouro"

Se se pedir ao adepto médio do F.C. Porto que nomeie um famoso jogador do clube natural do Montijo certamente a maioria responderá “Paulo Futre”. Mas bem antes dele, e cobrindo quase toda a década de sessenta, outro montijense vestiu com distinção a camisola azul-branca. Falo de Custódio Pinto, ali nascido em 1942 e há poucos anos falecido na zona do Porto.

Custódio Pinto representou o clube durante dez épocas –de 1961/62 a 1970/71 – tendo actuado num total de 242 jogos do campeonato e marcado 80 golos, o que decerto faz dele um dos principais marcadores da história do nosso clube. Na maior parte da sua carreira jogou como médio de ataque – aquilo que à época se chamava um interior – mas José Maria Pedroto, atento às suas qualidades de rematador com os dois pés e, principalmente, com a cabeça, faria dele um profícuo ponta-de-lança em 1968/69. Se tivesse jogado mais anos nessa posição decerto teria ultrapassado a centena de golos ao serviço do clube.

Pinto, como era mais comummente conhecido, foi capitão de equipa durante várias épocas e foi ele que ergueu no Jamor o único troféu ganho pelo F.C. Porto na década de sessenta – a Taça de Portugal de 1968.

Lembro-me bem de o ver jogar e lembro-me de vários golos dele: um contra o Benfica, em Dezembro de 1968 nas Antas, numa vitória por 1-0, acorrendo rápido a uma defesa incompleta de José Henrique a remate de Nobrega e empurrando a bola para a baliza, outro, de cabeça, na mesma época, contra o Sporting nas Antas, a poucos minutos do fim quando perdíamos por 1-0, e outro ainda, talvez o mais espectacular golo dele de que me recordo, contra o Boavista nas Antas na época seguinte, desembaraçando-se de vários adversários em corrida, num incrível “slalom”. Estávamos a perder esse jogo por 1-0 mas o Pinto marcou dois golos nos últimos dez minutos. Tinha um excelente drible em corrida e, como já referi, era um excelente rematador, para além de ser um dos melhores cabeceadores do futebol português da sua geração.

Custódio Pinto foi um dos “Magriços” de 1966 em Inglaterra, e foi um dos sete jogadores nunca utilizados nesse Mundial pela selecção portuguesa. Na altura não havia ainda substituições, é preciso notar, mas também não é de estranhar a má-vontade contra os jogadores que provinham da Invicta. Uma longa história. Representou Portugal 13 vezes entre 1964 e 1969, tendo marcado o golo português num empate contra a Suécia em Estocolmo em 1967.

Algo prematuramente foi dispensado pelo clube no final da época de 1970/71 e rumou a Guimarães, onde, num total de quatro épocas, marcaria mais 28 golos, sendo por duas vezes o melhor marcador do Vitória de Guimarães. Um desses golos foi marcado nas Antas, numa vitória dos vimaranenses por 2-1, e Custódio Pinto, depois de ter marcado, levou curiosa e sintomaticamente as mãos à cabeça. Muitas recordações lhe terão passado na memória naquele instante.

Já retirado, Pinto serviria ainda o clube como treinador nas camadas jovens. Foi um daqueles “sulistas” que, cá chegados, assentaram arraiais. Estou a lembrar-me do também já desaparecido Alfredo Murça, que por cá ficou mesmo depois do fim da sua carreira.

Custódio Pinto, “o Cabecinha de Ouro”, um herói da minha adolescência, tem sem dúvida direito a figurar numa galeria dos maiores nomes do clube.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Relembrando: Azumir, "o Bola de Prata"

“Estamos em Alvalade. Fevereiro de 1962. Faltam 2 minutos para acabar o jogo e o marcador está 0-0. O Hernâni arranca por ali abaixo. Quando se aproxima da área do Sporting, grita: ‘Serafim! Serafim!’ Os lagartos vão ao Serafim mas o Hernâni cruza para o Azumir. A bola bate-lhe na canela e entra! É golo! É golo! Gooooooolo do Poooorto! Gooooooolo! Tudo aos saltos na bancada! Alto, a lagartada não gosta e vira-se a nós! Porrada nos gajos, carago! Ó, vem aí a bófia! Estamos f------! Mas não, carago! O polícia é de Miragaia e vira-se a eles! Porrada nos lagartos! Pooooortooo! A-zu-mir! A-zu-mir! A-zu-mir!”



Foi deste modo efusivo e saltando à minha frente como se ainda estivesse em Alvalade que, mais de 30 anos depois, o Sr. Reis, grande portista e veterano de muitas campanhas, me descreveu aquela inesquecível jornada da época de 1961/62.

O autor do golo da vitória, o brasileiro Azumir, de seu nome completo Azumir Luís Casimiro Veríssimo, nascido em 1935, viera do Vasco da Gama para o F.C. Porto naquela época. Não era um primor de técnica e habilidade, mas “facturava” a bom “facturar”, nem que fosse quase por acidente e com a canela, como naquele fim de tarde de Alvalade. Nessa época tornar-se-ia o primeiro jogador do F.C. Porto a conquistar a “Bola de Prata”, troféu instituído pelo jornal A Bola na década de 50 para o melhor marcador do campeonato português. E durante longos anos, mais precisamente até 1977 e Fernando Gomes, seria o único portista a figurar naquela prestigiosa galeria. Em 1961/62 Azumir marcaria 23 golos. O F.C. P. terminaria o campeonato em 2º lugar, a 2 pontos do campeão, o Sporting, e com mais 5 pontos que o Benfica, que naquele ano se sagraria campeão europeu pela segunda (e última) vez. A equipa era inicialmente treinada pelo húngaro György Orth, entre nós conhecido por Jorge Orth, que falecera subitamente em Janeiro e fora substituído por Francisco Reboredo.

Na época seguinte, sob o comando do também húngaro Janos Kalmar, o F.C.P. terminaria de novo em 2º lugar, desta vez a 6 pontos do campeão, o Benfica. Azumir, esse, voltaria a ser o melhor marcador da equipa, com 17 golos apontados (a "Bola de Prata" seria ganha pelo benfiquista José Torres , “o Bom Gigante”, com 26 golos). A pontaria mantinha-se. Contudo, em 1963/64, os dotes de “artilheiro” do Azumir começavam a empalidecer. Utilizado em apenas 5 jogos, o brasileiro marcaria 3 golos (Jaime, “o Ventoinha”, seria o melhor marcador da equipa, com 12 golos). Otto Glória substituíra Kalmar e o F.C. Porto alcançaria mais uma vez aquele que foi o seu lugar típico na primeira metade da década de 60: o 2º, de novo a 6 pontos do Benfica (de notar que as vitórias valiam apenas 2 pontos). E nessa época de 1963/64 terminava a carreira de Azumir no F.C. Porto. Curta mas memorável. Do Porto partiu para o Covilhã onde ficaria uma época.

Mas o Estádio das Antas ainda voltaria a ser palco de uma façanha do Azumir: numa noite de sábado do mês de Setembro de 1965 disputava-se o desafio da 1ª jornada do campeonato da época de 1965/66. O F.C. Porto, treinado por Flávio Costa, que regressava ao clube oito anos depois da sua anterior passagem pelas Antas, recebia o neo-primodivisionário Barreirense. Na frente de ataque desta equipa surgia Azumir. Num dos resultados mais surpreendentes dessa época o Barreirense venceria por 1-0. Autor do golo? Adivinharam, foi mesmo o Azumir… Mas desta vez, decerto que o Sr. Reis não saltou de euforia…

O Azumir representaria ainda o Barreirense na época seguinte, e jogaria no Desp. Beja em 1967/68. Depois disso, despediu-se de Portugal. Para nós continuou a ser “o Bola de Prata”.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Relembrando: Tommy Docherty, "The Doc"

Corria a época de 1969/70, aquela que acabaria por ficar na história como a pior de sempre do F.C. Porto, que terminaria o campeonato em 9º lugar. O romeno Elek Schwartz (na realidade austro-húngaro de nascimento, pois Timisoara, a sua cidade natal, pertencia nessa altura ao Império Austro-Húngaro) havia sido contratado para substituir José Maria Pedroto, que no meio de grande controvérsia fora despedido pelo Presidente Afonso Pinto de Magalhães perto do fim da época anterior e rumara a Setúbal.

Schwartz tornara-se conhecido entre nós por ter treinado o Benfica na época de 1964/65, tendo sido campeão nacional e tendo conduzido aquele clube à sua 4ª final da Taça dos Campeões Europeus, que perderia em San Siro por 1-0, contra o Inter de Helenio Herrera, com um famoso frango à Costa Pereira, especialidade culinária então muito em voga no nosso país. Se agora por vezes contratamos jogadores do Benfica, ou desviamos da Luz atletas anunciados com fragor na imprensa como estando a pontos de assinar por aquele clube, com o parcial intuito de aferroar aquele nosso inimigo de estimação, naquele tempo tínhamos, por assim dizer, o tique parolo de contratar quem já servira o Benfica, na vã esperança de que por cá repetissem as façanhas alcançadas em Lisboa.

Mas estou a divagar. Elek Schwartz teve um fraco começo de campeonato (nos primeiros três jogos teve dois empates e uma derrota) e durou apenas uns meses. Interinamente foi substituído pelo adjunto Vieirinha e a equipa até chegou a ter um ligeiro despertar, em parte devido à regular utilização do sangue jovem personificado por Chico Gordo e Seninho, este último na sua primeira época no clube. Lançando os seus olhares para o estrangeiro, a direcção do clube fez uma contratação de peso: o novo treinador era o escocês Tommy Docherty, popularizado pela alcunha de “The Doc”, que já treinara, entre outros, o Aston Villa e o Chelsea, e que mais tarde treinaria a selecção escocesa e o Manchester United.

Docherty nascera em Glasgow em 1928 e entre os clubes que representara como jogador contavam-se o Celtic, seu clube de infância, e o Arsenal. Era um homem extrovertido e famoso pelas suas frases retumbantes. Um dia negociava a sua saída de um clube e, quando os jornalistas lhe perguntaram se já havia acordo, respondeu: “Ofereceram-me £ 10.000 para fazermos um acordo amigável mas eu disse-lhes que terão de ser muito mais amigáveis que isso!”

Cá chegado, o “Doc”, com a carruagem em andamento, pouco podia fazer, e a equipa foi-se arrastando até ao fim do campeonato, perante a geral incompreensão dos adeptos e da crítica para com o escocês. Causou furor e indignação, por exemplo, a sua ideia de, num jogo no Mar, fazer alinhar o esquerdino Francisco Nóbrega do lado direito do ataque, coisa vulgar de hoje em dia.

Mas antes do começo da época de 1970/71, Docherty, a quem a direcção arranjara uma muleta na pessoa do antigo jogador do clube António Teixeira, um bom treinador de clubes pequenos, declarava: “Comigo à frente da equipa desde o princípio, as coisas vão ser diferentes!” E foram, de facto. Com poucas jornadas transcorridas o F.C. Porto foi empatar à Luz por 2-2, com dois golos de Lemos, que fazia a sua primeira época sénior no clube, depois de duas épocas emprestado ao Boavista. E não foi só o empate que espantou: a equipa jogou com grande personalidade e sem nunca revelar medo. O “Doc” era um típico treinador britânico, e achava que para a frente é que era o caminho.

Infelizmente, o plantel do clube tinha as suas limitações, embora naquela época tivesse sofrido uma injecção de talento nas pessoas do referido Lemos, do também ponta-de-lança Abel, contratado ao Benfica, do defesa-central Armando Manhiça, vindo de Alvalade, e do médio brasileiro Bené, proveniente do Leixões. Qualquer ideia de ganhar o campeonato, que há 12 anos nos escapava, era um puro devaneio, pois de facto Benfica e Sporting tinham melhores equipas, o que não nos impedia de, volta e meia, terminarmos à frente dos lagartos, já que estes sofriam dos mesmos males de (des)organização interna que o nosso clube. Nessa época terminaríamos em 3º lugar, o que não deixava de ser um progresso comparativamente ao descalabro da época anterior.

Mas o melhor prato da época estava reservado para o jogo da segunda volta com o Benfica, disputado em Janeiro de 1971. Nesse dia, num jogo antecedido por uma auto-congratulatória homenagem a Afonso Pinto de Magalhães, o Lemos entrou definitivamente na História, marcando todos os golos numa histórica vitória de 4-0! No total “facturaria” 18 golos nessa época, ou seja, um terço dos golos que marcou tiveram o Benfica como vítima.

Mas o inepto Pinto de Magalhães achou que podia dispensar o “Doc”, que ganhava bom dinheiro, como é bom de ver, e remediar-se com a prata da casa António Teixeira. A aposta sair-lhe-ia furada, como se veria na época seguinte.
E Tommy Docherty regressou ao Reino Unido, ainda faltava uma ou duas jornadas para terminar o campeonato, já que entretanto a Federação Escocesa lhe acenara com um convite para o cargo de seleccionador. Passados poucos anos regressaria às Antas, à frente do Manchester United, para disputar um desafio particular que terminou 0-0. O grande Bobby Charlton, já no ocaso da sua magnífica carreira, jogou nessa partida e foi fartamente ovacionado pelo público portista, que já nessa altura sabia apreciar futebol.

Quanto ao “Doc”, mesmo já retirado, nunca saiu verdadeiramente da ribalta, sendo as suas “bocas” muito apreciadas pelo público inglês. O “nosso” José Mourinho, rapaz humilde como todos sabemos, também teve direito, quando treinava o Chelsea, a um “dochertiano” dito: “Se fosse feito de chocolate, José Mourinho lamber-se-ia a si próprio da cabeça aos pés!”.

Nota: Mudei o título destas crónicas, por este me parecer mais adequado.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Baía, o desportista da década


A revista Focus promoveu no seu website uma votação com o objectivo de eleger o melhor desportista português da última década. A votação estavam os seguintes atletas:
* Cristiano Ronaldo (Futebol)
* Fernanda Ribeiro (Atletismo)
* Francis Obikwelu (Atletismo)
* Gustavo Lima (Vela)
* Luís Figo (Futebol)
* Nelson Évora (Atletismo – Triplo Salto)
* Nuno Delgado (Judo)
* Telma Monteiro (Judo)
* Vanessa Fernandes (Triatlo)
* Vítor Baía (Futebol)

Em terceiro lugar ficou o Nelson Évora, em segundo o Figo e o primeiro lugar, com 82,6% dos votos, foi para o jogador mais titulado do futebol mundial, o Vítor Baliza.

Foto: Revista Focus Nº 541, 24/02/2010

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

8.1.1985/8.1.2010 - 25 Anos de Saudade


O título pode parecer um pouco chavão de jornal, mas cada vez que olho para trás e recordo José Maria Pedroto sinto de facto uma enorme saudade, misturada com a frustração de a morte ter levado tão cedo um homem tão genial.

Sobre o grande Zé do Boné já tudo se disse, já tudo se escreveu, e até aqueles que, quando ele vivia, lhe dedicavam o melhor da sua bílis, acabaram por se render às evidências, nalguns casos porventura por isso ser de bom tom.

É vulgar e normal dizer-se de José Maria Pedroto que foi o melhor ou um dos melhores treinadores portugueses de todos os tempos, mas tal descrição menoriza–o.
O Zé do Boné, tendo sido um técnico de enorme categoria e talento (na minha modesta opinião, de facto o melhor treinador português de sempre) foi muito mais do que isso. Para nós, portistas, a sua obra e o seu talento tiveram um significado especial, não só por ter sido ao serviço do nosso clube que ele alcançou os seus maiores êxitos, mas também porque ele foi o principal obreiro desses êxitos, não apenas no modo como orientou a equipa do clube, mas também na maneira arrojada, inovadora e profissional como revolucionou o futebol no F.C.P. E além disso, Pedroto vivia e sentia o clube como o mais dedicado dos adeptos. Mesmo quando, num dos seus “exílios”, treinava o Vitória de Setúbal, longe da Invicta, não deixava de discorrer e reflectir sobre os problemas do F.C.P e a sua penosa caminhada de então. Era dos nossos.

Quando hoje se fala da famosa “estrutura” do F.C.P. muitos ignoram que quem esteve na origem dessa afinadíssima máquina foi precisamente José Maria Pedroto. Foi com ele que o clube percebeu, de uma vez por todas, que não ganhava essencialmente por culpa própria, e não por causa dos Calabotes e quejandos, que sendo factor de peso, não eram o factor decisivo (com Calabote até fomos campeões, convém não esquecer). Pode dizer-se que a feliz conjugação Pedroto/Pinto da Costa foi o que de melhor aconteceu ao clube na sua centenária história.

Acima de tudo Pedroto era um homem que tinha a coragem das suas convicções e não cedia no que considerava fundamental. Por esse motivo bateu com a porta aquando do funesto “Verão Quente das Antas” em 1980, como já fizera ao serviço do Vitória de Setúbal, no início de 1974, quando aquele clube liderava o campeonato, “fresquinho” de uma vitória na Luz.

Além das épocas que representou o F.C.P. como jogador – de 1952 a 1959 -, nas quais fez parte das equipas campeãs de 1955/56 e 1958/59, Pedroto foi treinador do clube num total de nove épocas, decerto um recorde no principal escalão do futebol português. E foram "só" nove porque a doença que haveria de levá-lo veio intrometer-se. Foi na sua segunda passagem pelo clube (1976-1980) que o Zé do Boné lançou as fundações do F.C.P. que hoje conhecemos: pujante, organizado, profissional, vencedor. Os que se recordam do título de 1977/78 e das muitas frustrações e amarguras dos longos anos que esperámos por esse triunfo, certamente estarão de acordo comigo.

Termino com uma sugestão: por que não uma estátua de José Maria Pedroto junto ao Estádio do Dragão? Creio que seria um símbolo digno da gratidão e reconhecimento de todos nós a tão grande figura.
Até sempre Pedroto!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ainda se Lembram? (III) O "Xico" Nóbrega



Cabeça caída, queixo quase colado ao peito, com um passo melancólico, esta era, de certo modo, a imagem de marca de Francisco Lages Pereira Nóbrega, que viu a luz do dia em Vila Real em 14 de Abril de 1942. De tal modo essa imagem se lhe colou que alguns adeptos de humor mais espontâneo diziam que ele perdera “cinco coroas” (antiga moeda de 2$50) no relvado das Antas.

Mas isto era nas pausas do jogo. Com ele a decorrer, o Nóbrega era um fogoso extremo-esquerdo, senhor de um drible mais que competente e um dos melhores jogadores a centrar uma bola que já vi actuar no F.C. Porto. E a isso aliava um poderoso pé esquerdo, que o viu facturar um número apreciável de golos durante a sua longa carreira no F.C. Porto, que decorreu de inícios da década de 60 a meados da década seguinte. Pelo meio, o Nóbrega foi quatro vezes internacional “A” por Portugal, entre 1964 e 1967.

Mas, de facto, pareceu sempre faltar-lhe alguma chama, dava a ideia de ser um jogador pouco motivado. O grande jornalista Vítor Santos frequentemente, ao escrever sobre ele, dizia que o Nóbrega patenteava “sempre os mesmos defeitos e as mesmas qualidades”.

A certo ponto dos anos sessenta irrompeu no clube um jogador da mesma posição que chegou a tirar-lhe o lugar, o angolano Serafim dos Anjos Mesquita Pedro, popularizado pela alcunha de “Malagueta”. Mas o Malagueta, coitado, que já não está entre nós e teve um fim triste, gostava muito das noitadas, e paulatinamente o “Xico” Nóbrega recuperou o lugar. Fez, por essa altura, parte da equipa que no Jamor venceu a Taça de Portugal de 1968, contra o Vitória de Setúbal (2-1), tendo apontado um dos golos, salvo erro o da vitória.

Ainda por cá estava, “sempre com os mesmos defeitos e as mesmas qualidades”, na época em que o Pavão morreu, em 1973, e participou nessa partida, também contra o Vitória de Setúbal.

Percorrendo as minhas memórias do Nóbrega, recordo-me da sua fulcral intervenção na jogada que deu o único golo da partida num jogo contra o Benfica nas Antas em Dezembro de 1968: antecipando-se a um defesa adversário dentro da grande-área, o Nóbrega rematou com violência à meia-volta, o guarda-redes do Benfica, José Henrique, apenas conseguiu rechaçar a bola, e o Custódio Pinto, ali mesmo à mão de semear, empurrou-a para a baliza. Nessa época disputámos o título renhidamente com o Benfica, e já dela falei no artigo sobre o “Bacalhau”. Voltarei a ela aqui, um dia, com mais pormenor. Hoje a tinta da minha pena virtual é derramada em homenagem ao “Xico” Nóbrega.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ainda se Lembram? (I) O Bacalhau

Corria a época de 1968/69 e o F.C. Porto, dez anos depois do seu último triunfo na prova, disputava taco-a-taco com o inevitável Benfica o Campeonato Nacional da I Divisão (os patrocinadores, tal como "a luta pela verdade desportiva", os "paineleiros" e as "transições rápidas" eram ainda uma coisa do futuro).

Atendendo ao aquecer da luta pelo título, José Maria Pedroto, que cumpria a sua terceira época à frente da equipa, elaborou um programa especial de estágios. Esse programa, contudo, viria a enfrentar a oposição dos jogadores, especialmente do trio formado pelo guarda-redes Américo, o médio Eduardo Gomes e o ponta-de-lança Custódio Pinto. O trio foi suspenso por indicações de Pedroto e no jogo seguinte, frente à tradicionalmente difícil equipa da CUF (actual Fabril do Barreiro), no seu Estádio Alfredo da Silva, surgiu uma surpresa de monta: a lateral-esquerdo estreava-se um jovem de 19 anos e, mais, era ele o capitão de equipa. Com esse gesto, José Maria Pedroto pretendeu significar aos restantes jogadores que nenhum deles era imprescindível ou mais importante que a equipa. Assim nascia para o futebol da alta roda o Leopoldo, que os adeptos do F.C. Porto viriam a popularizar com a alcunha de "o Bacalhau".

O F.C. Porto venceria o desafio por 1-0, mas o título, esse, depois de novas peripécias e de algumas ignóbeis atitudes por parte da direcção do clube, culminando no despedimento de Pedroto, ficaria "no tinteiro".

Entretanto "o Bacalhau", de seu nome completo Leopoldo José Nogueira Amorim, foi singrando no clube, o qual, como sabemos, atravessava uma época de vacas magras em matéria de êxitos desportivos. Sem nunca ser um jogador brilhante, não estava, porém, abaixo da média - muito pelo contrário - dos ocupantes do lugar de defesa-esquerdo antes da sua aparição. Com os tempos chegou a ser utilizado a defesa-direito, e recordo-me bem de um jogo no Bessa, em Dezembro de 1973, precisamente uma semana depois da morte do grande Pavão, em que o primeiro golo do F.C. Porto numa vitória de 2-0 foi da autoria do "Bacalhau". E não sei mesmo se não terá sido o seu único golo ao serviço do clube.

Mais tarde, por volta de 1976, o "Bacalhau" rumaria ao Varzim, onde jogou, segundo creio, até 1980. Ou seja, falhou por pouco a época em que aquele que o lançara na equipa principal, regressado triunfalmente, haveria de levar o F.C. Porto de novo ao título nacional.

É também dos "Bacalhaus" deste mundo, jogadores da casa e dedicados ao clube, que se faz a história do F.C. Porto. Bem hajas, Bacalhau!

Nota: nesta foto de uma equipa do F.C.P. do iníco da década de 70, o "Bacalhau" é o terceiro a contar da esquerda na fila de trás, entre os "monstros" Pavão e Rolando.

Créditos: O Baú dos Cromos, Paixão pelo Porto

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Rui Filipe: Eterno Campeão!

Por José Martino

Seria muito fácil falar dos momentos gloriosos que tenho guardado na memória da minha (ainda curta) vida portista, mas como já quase todos foram referidos e é sempre mais fácil falar das coisas boas, pensei aproveitar esta minha oportunidade para homenagear um jogador e descrever um acontecimento que me marcou profundamente: a morte de Rui Filipe.

(clique na foto para ampliar)

Rui Filipe perdeu a vida aos 26 anos num trágico acidente de automóvel a 28 de Agosto de 1994. Recordo-me perfeitamente, como se fosse hoje, que o Porto ia a Aveiro nesse dia defrontar o Beira-Mar para a 2ª jornada do campeonato, Rui Filipe estava castigado depois de um jogo na Luz para a Supertaça, onde tinha marcado um golo fantástico a Michel Preud'homme – deixando-o completamente sentado no chão - mas onde acabou expulso (tal como Secretário, Nelo e João Vieira Pinto) tendo o jogo acabado empatado a uma bola. Quis o destino que o jogo de castigo tivesse de ser cumprido na jornada seguinte do campeonato.

Cerca da hora do almoço, acordo e tenho conhecimento da noticia, tinha 13 anos, acabado de me inscrever como sócio do Porto - já acompanhava regularmente o Porto ao vivo mas só naquela altura tinha arranjado "patrocinadora" para me inscrever como sócio - e tinha assistido ao meu último jogo na antiga Superior Norte uma semana antes, onde vira Rui Filipe marcar o 1º golo do Porto no campeonato (uma vitória 2-0 frente ao Braga).

Chorei como se tivesse perdido um amigo. A minha mãe, preocupada, até pensava que eu o conhecia… E conhecia!! Era o Rui Filipe!! Um dos médios mais promissores do Porto, tinha apenas 26 anos, vestia habitualmente a camisola 6, e estava a embalar já há algum tempo para o que se pensava ser uma grande carreira, que infelizmente tinha sido tragicamente interrompida nesse dia.

O Porto acabou por ganhar esse jogo em Aveiro por 2-0 e dedicar a vitória ao Rui. Aliás, durante os 5 anos seguintes, o Rui foi figura de proa das conquistas e sempre lembrado como o marcador do 1º golo daquele ciclo de vitórias que culminou no Penta, sendo até construído um busto em sua homenagem. Tenho alguma pena da forma como foi esquecido subitamente, e pelo desconhecimento de onde se encontra hoje o seu busto, e já agora, o do também falecido Pavão.

Carlos Alberto foi o 1º treinador a apostar no então jovem de 23 anos nascido em Vale de Cambra, dando-lhe algumas oportunidades, mas foi com Bobby Robson que se afirmou num meio campo que partilhava com o brasileiro Emerson e o russo Kulkov. Ao serviço do Porto conquistou 3 campeonatos nacionais, 1 Taça de Portugal e 2 Supertaças Cândido de Oliveira.

Confesso que ainda hoje tenho saudades de o ver jogar. Tenho na retina momentos fantásticos, grandes golos e boas exibições de um jogador “á Porto”, e sobretudo pena… Pena da sua carreira ter acabado tão cedo. Eu percebia certamente pouco de futebol na altura, mas estou convencido que o Rui tinha muito ainda para dar...




Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Martino a elaboração deste artigo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Hernâni, Ramin e um célebre FC Porto - Académica

Hernâni estava lançado em voo de glória. Goleador de auréola cada vez mais refulgente. Nascera em Águeda e mal começara a dar os primeiros passos seu pai levava-o garboso a assistir aos seus treinos de basquetebolista no Recreio. E entranhara-lhe já paixão pelo Benfica, de tal forma o catraio não parava de dizer, ufano, que era «benfiquista até à medula». Mas para o basquetebol não mostrava muita inclinação. Para o futebol, sim – e só pensava imitar os seus ídolos, o Albino, o Francisco Ferreira, o Pinga (cujo único defeito era, cria, não ser do... Benfica).

A sua fama de futebolista no Futebol Clube de Águeda (outro desgosto ter de jogar de azul e branco...) depressa alastrou e um dia Soares dos Reis chegou a Águeda para o levar para o F. C. Porto. Dona Aurora ouviu a «trágica» notícia e impediu o filho de sair de casa durante dois dias. Tinha 16 anos. Pouco depois, dois emissários do Benfica procuraram seu pai, tudo ficou mais ou menos combinado, o senhor Manuel Ferreira Barreira até ficou com o dinheiro para as passagens de comboio, em primeira classe, de Águeda para Lisboa. Ao sabê-lo, a mãe entrou em depressão, Hernâni, vendo-a assim, desistiu da aventura...

Até que em 1949, mal acabara de fazer 18 anos, Alberto Augusto, o célebre «Batatinha», que jogara no Benfica e, de parceria com Ribeiro dos Reis e Cândido de Oliveira e de seu irmão Artur Augusto (o primeiro «internacional» do F. C. Porto), fizera parte da primeira Selecção que defrontou a Espanha, era, nesse comenos, treinador portista. Foi a Águeda ele próprio falar com D. Aurora, pedindo-lhe que não permitisse que o seu desvelo de mãe destruísse o destino do filho fadado para altos voos. A senhora impressionou-se e com poalha de orgulho acedeu – que sim, que fosse jogar a bola para o F. C. Porto, mas com uma condição: continuar a viver em casa, em Águeda.

Com uma emoção confusa, feita de medo e de ilusão de fastígio, Hernâni estreou-se, pelo F. C. Porto, contra o Estoril, substituindo Araújo. Como se houvesse nisso, simbolicamente, passagem de testemunho. Marcou um golo e ficou lançado. Com pátulo para a glória. E prazer no sofrimento de ter de fazer, duas vezes por semana, 150 quilómetros para se ir treinar à Constituição.

Numa manhã de 1952, o carteiro deixou na sua casinha do Bairro da Venda Nova uma carta que sobressaltou toda a família – estava convocado para o Regimento de Cavalaria 7, em Lisboa. Teve de partir. E foi jogar para o Estoril. No final da época transferiram-no para Santa Margarida e... regressou, naturalmente, ao F. C. Porto. Apenas se poderia treinar uma vez por semana na Constituição, estando obrigado a entrar no quartel logo após os jogos para que fosse dispensado, mesmo que madrugada dentro. Era um pequenino privilégio, que agradecia muito...

Em 1953, o Sporting chamou-o a integrar a sua equipa, em digressão ao Brasil. Convidado foi, também, Mário Wilson. Ficou quente a amizade. Mas, por vezes, no calor da luta há sentimentos que se apagam. Foi o que aconteceu naquela tarde em que os deuses pareciam querer evitar que Hernâni ganhasse o seu primeiro título de Campeão Nacional da I Divisão, durante o dramático jogo com a Académica...

«Ramin defendia tudo, quando o árbitro assinalou a grande penalidade a nosso favor, os meus companheiros já perturbados pelo teimoso nulo viraram as costas, não quiseram, sequer, ver-me apontar a falta. Mas esse foi o penalty mais fácil de marcar da minha vida. Estávamos havia mais de uma hora sem marcar, a Académica não podia perder, era uma dificuldade tremenda para nós, Mário Wilson e Torres mandavam na defesa, Ramin defendia tudo. Quando o penalty surgiu apoderou-se imediatamente de mim a ideia de que tinha chegado a hora de fazer o que não conseguíramos durante uma hora, quando já muita gente descria. Tive concentração, bati a bola, foi uma enorme explosão no estádio, uma alegria extraordinária. Sempre tive o melhor relacionamento com Mário Wilson, amizade que tinha ficado consolidada nessa famosa digressão que o Sporting fez ao Brasil. Quando o árbitro assinalou a grande penalidade, gerou-se a habitual confusão, eu fugi do barulho, com o intuito de não me enervar e não perder a concentração. O Mário Wilson, com aquela habitual calma, veio junto de mim e, em tom de chalaça, tratando-me por... Ferreira da Silva, disse-me que iria deitar a bola para fora! Repetiu a frase e quando se preparava para a lançar pela terceira vez, respondi-lhe com meia dúzia de asneiras, agastado com ele. Retirou-se. No final do jogo, naquele momento emocionante da festa indescritível do título, abeirou-se de mim, abraçou-me e ainda comovido disse-me que não sabia que era tão malcriado

Glória e Vida de Três Gigantes
in A BOLA


Quando eu era miúdo, o meu pai contou-me a história deste FC Porto - Académica, da época 1955/56.

Quatro anos antes, em 1952, os portistas tinham concretizado um sonho, com a inauguração do Estádio das Antas, mas desportivamente o FC Porto já não era campeão há 16 anos.
Em 1955/56 o treinador era Yustrich (o homão), um disciplinador que impôs maior profissionalismo e, dispondo de jogadores como Miguel Arcanjo, Virgílio, Monteiro da Costa, Pedroto, Hernâni, Perdigão e Jaburu, entre outros, conseguiu formar uma equipa fantástica e encher de esperança os adeptos portistas.

Contudo, naquela tarde, o destino parecia mais uma vez estar contra nós. Na baliza da Académica estava um guarda-redes, de seu nome Ramin, que defendia tudo. Os minutos passavam, o FC Porto não conseguia marcar e o Estádio das Antas, cheio como um ovo, parecia uma chaminé, com milhares de adeptos, de nervos em franja, a fumar cigarros atrás de cigarros.

Até que ocorreu o tal lance do penalty, convertido por Hernâni, transformando o Estádio das Antas num vulcão e abrindo caminho a uma vitória por 3-0 e ao titulo de campeão nacional, que nos fugia desde 1939/40.

Hernâni Ferreira da Silva e Orlando de Carvalho Ramin, nunca os vi jogar, mas de tantas vezes obrigar o meu pai a contar-me as ocorrências deste jogo, é como se tivesse estado lá.

Nota final: Ao recordar este jogo queria, em primeiro lugar, lembrar o meu pai, mas também toda uma geração de adeptos portistas que, ano após ano, sofriam com as "calabotices" do sistema e, é justo reconhecê-lo, também com alguma incompetência própria.

P.S. As fotos inseridas no texto de A BOLA são da minha responsabilidade.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A Flecha Negra

A equipa base de 1955/56:
2º plano - Virgílio, Arcanjo, Monteiro da Costa, Cambalacho, Pedroto e Pinho
1º plano - Hernâni, Gastão, Jaburu, Teixeira e Perdigão


Jorge de Sousa Mattos, conhecido no futebol como Jaburu, chegou ao Porto com 22 anos, fortemente recomendado pelo seu treinador, Dorival Knippel (Yustrich) que dizia ter (Jaburu) "o futebol dentro dele, como Stradivarius tinha a música quando construiu os seus famosos violinos".

Pela minha parte, e a esta distância, já lá vão mais de 50 anos, o Jaburu era um jogador que gingava, sambava com a bola, gostava de trocar os olhos ao adversário, sabia fugir à colisão e adorava fazer umas perninhas ao defesa que o marcava. Não era um clássico, era um brasileiro com o futebol do novo mundo: cheio de gozo e de prazer. Como brasileiro de gema, adorava feijão, cheirava a caipirinha e estava sempre disponível para o bem-bom. Era voz corrente que frequentemente o Yustrich o ia buscar ao Tamariz (a mais antiga casa de diversão da cidade), o levava a casa e o obrigava a ir para a cama, para estar em condições mínimas para os treinos e os jogos que estavam na calha.

Jaburu era alto, algo desengonçado, desenvolvendo um ritmo muito rápido num curto espaço de tempo, o que lhe permitia fintar, enganar e passar facilmente os defesas contrários. Jogava bem com os pés e com a cabeça. Não era como Matateu, que era mais furão e jogava mais em força, um pouco aos repelões. Jaburu era um privilegiado: tinha dotes físicos e atléticos pouco comuns nos jogadores portugueses da época e rematava com grande violência, de meia distância. Recordo que Passos, defesa central do SCP, um jogador muito posicional e lento, só o travava jogando de forma súcia, que normalmente os árbitros não sancionavam com o devido rigor.

O jogo, nessa altura, era mais lento, mais duro (para não dizer violento), muito faltoso e com excessivas paragens. Não eram permitidas substituições e o crime de provocar lesões graves, compensava demasiadas vezes.

Yustrich ampara Miguel Arcanjo, Jaburu e Gastão seguem atrás

É muito difícil prever o comportamento de muitos jogadores famosos nessa altura, se jogassem com a intensidade que hoje é exigida. Tenho para mim que Jaburu seria enorme e, se devidamente enquadrado, um jogador fenomenal, que não chegou a ser por vícios que não conseguiu superar, apesar da mão pesada de Yustrich.

Em Outubro de 1958, em rota de colisão com Yustrich, Jaburu foi vendido a preço de ouro ao Celta de Vigo, por 950 mil pesetas, aparentemente, lesionado, porque o brasileiro não chegou a jogar um único minuto na equipa galega.

Jaburu ainda voltou a jogar em Portugal, no Leixões, em 1962 e 1963, mas era uma sombra do jogador que brilhara de azul e branco.

Regressou ao Brasil, foi engraxador à porta do Maracanã e morreu na miséria, na década de 80.

Jaburu foi um dos principais artífices do campeonato conquistado em 1955/56, depois de um largo jejum de 16 anos. Tínhamos uma equipa fantástica. Hernâni com Pedroto jogava por sinais, com Carlos Duarte de olhos fechados. Nessa época Jaburu fez 22 golos. Fizemos a dobradinha ao vencer o Torreense por 2-0, na final da Taça, com golos de Hernâni.

Estádio do Jamor, Final da Taça 1955/56

Um pouco à socapa, aproveito para relevar um jogador que muito admirei e que, um tanto injustamente, nem sempre entra nesse pequeno número de jogadores que da lei do esquecimento se libertaram. Refiro-me a Perdigão, um extremo de drible curto e sempre em progressão e com uma excepcional visão de jogo. Não era um jogador agressivo e geria bem o esforço. Não se esfarrapava, como na altura se dizia, mas era excepcional. Em miúdo, adorava vê-lo jogar.

Fernando Júlio Perdigão faleceu no dia 16/02/2007, em Aveiro, para onde regressou e fixou residência depois do 25 de Abril de 1974. Era um jogador fantástico: só uma vez foi internacional. Em função dessa maneira de estar anti-vedeta, nunca teve, a meu ver, o reconhecimento que mereceu, e ainda deveria merecer, pelo menos para os portistas.

Hernâni, Carlos Duarte (na foto ao lado) e Perdigão têm lugar muito particular no meu coração de portista. Com os dois primeiros pude ter uma muito breve e interessante conversa quando recebi a roseta de ouro.

De Perdigão, fez-se silêncio. Jaburu que jogava e rematava com os dois pés, cabeceava voando sobre os centrais, foi excepcional, mas tinha pouco tino e ao que consta era muito imaturo, quase uma criança. No eterno descanso, andará provavelmente bem acompanhado, a gingar ao ritmo do samba, a jogar bom futebol e a marcar muitos golos, tenho a certeza.


Nota: Este comentário foi suscitado por um artigo de António Tadeia, escrito n’ O Jogo em 27/03/2008.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Fernanda no Passeio da fama

Uma das boas ideias na construção do Estádio do Dragão foi a inclusão do Passeio da Fama, foi um dos espaços que teve honras de programa no dia de inauguração do estádio, teve algumas evoluções durante os primeiros meses - já sem pompa nem circunstância - e depois parece que desapareceu das preocupações dos responsáveis.

Aos nomes iniciais foram acrescentadas essencialmente lápides que eternizam momentos de ouro do clube, e por lá podemos encontrar e recordar:


1. Fundação FC Porto, 28/09/1893
2. António Nicolau d’Almeida (imagem)
3. José Monteiro da Costa (imagem)
4. Inauguração do Campo da Constituição, 1 Janeiro 1913
5. 1913. 1º Troféu. Taça da União do Norte
6. Artur Augusto (camisola)
7. 1921/1922. 1ª conquista do Campeonato de Portugal
8. Simplício (camisola)
9. Valdemar Mota (camisola)
10. 1934/45. Vencedor do Campeonato da 1ª Liga
11. 1938/39. Vencedor 1º Campeonato Nacional
12. Vitória frente ao Arsenal. 6 Maio 1948
13. Hernâni (camisola 10)
14. Inauguração Estádio das Antas. 28 Maio 1952
15. 1955/56. 1ª dobradinha da história do FC Porto
16. Yustrich (imagem)
17. Pavão (camisola 6)
18. 1977/78. Campeão após 19 anos
19. Jorge Nuno Pinto da Costa (assinatura)
20. José Maria Pedroto (imagem)
21. Rodolfo (camisola 6)
22. 1984. Finalista Taça das Taças
23. Rebaixamento do Estádio das Antas. 16 Dezembro 1986
24. Campeão Europeu. 27 Maio 1987
25. Taça Intercontinental. 13 Dezembro 1987
26. Supertaça Europeia. 13 Janeiro 1988
27. Luís Teles Roxo (imagem)
28. João Pinto (camisola 2)
29. Madjer (camisola 8)
30. Rui Filipe (camisola 6)
31. 1996/1997. Tri Campeão
32. 1998/1998. Penta Campeão
33. Vítor Baía (camisola 99)
34. Jorge Costa (camisola 2)
35. Taça UEFA. 21 Maio 2003
36. 2002/03. O ano de todas as conquistas

É bom recordar, para os mais distraídos, que após estas conquistas já conquistámos outra vez a Liga dos Campeões e a Taça Intercontinental, é certo que só ainda passaram 4 anos, mas já dava mais que tempo de terem mandado fazer as lápides respectivas, digo eu.

E se calhar também já lá acrescentava o Hepta do hóquei, mas mais que uma montra de conquistas (para isso servirá o museu) eu vejo aquele espaço como um lugar de homenagem, um lugar onde nós - todos os que constituem o clube, ou seja os seus associados e adeptos - dizemos obrigado a quem suou a camisola azul e branca e fê-lo com honra e glória.

Por isso custou-me não ver lá o nome do Fernando Gomes, mas isso é outra conversa e as pazes recentes certamente resolverão esse "esquecimento" mais dia menos dia.

Por agora, interessava que o direcção voltasse a dar a importância que o espaço merece, e para isso nada melhor que aproveitar a época que passamos e homenagear a Fernanda Ribeiro. O CV já está aqui e melhor não há.


Na hora em que não conseguiu a sua 6ª participação olímpica, era mais que justo que a nossa única atleta olímpica que trouxe uma medalha de ouro fosse uma plaquinha que todos pudessem ver, fotografar e calcar.

Quero a Fernanda no passeio da fama. Estamos à espera de quê?

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O Dia em que o Pavão Morreu...

O dia 16 de Dezembro de 1973 amanheceu cinzento e chuvoso. Nada de especial para a nossa urbe, ainda para mais em Dezembro. Não me lembro se estava frio, mas também ainda sobre nós não caíra a obsessão do “aquecimento global”. Aliás, se bem me lembro, os “entendidos” diziam na altura que a temperatura do planeta estava a baixar, deixando-nos antever uma era glacial em que jogaríamos em Lisboa no nosso ambiente, isto é, com frio. Mas o cariz meteorológico daquele dia condiz, tristemente, com o descrito num artigo que há anos li – creio que do Carlos Pinhão – sobre “O Dia em Que o Pinga Morreu”. Um artigo sentido, diga-se, e que muito faz distanciar o pai da filha. Mas esses são outros contos.

Naquele dia 16 de Dezembro o FC Porto recebia nas Antas o Vitória de Setúbal. A equipa portista vinha disputando o campeonato com mais pujança que nas anteriores três ou quatro épocas, no seu melhor desempenho desde a saída de José Maria Pedroto em 1969. O presidente, Dr. Américo Sá, “descobrira Béla Guttmann numa esquina de Viena”, para usar uma expressão anos mais tarde utilizada por Jorge Nuno Pinto da Costa.
Aos 73 anos “o Mago” regressara à casa que deixara em 1959 alegando que o clima portuense era maléfico para o seu reumatismo, rumando ao Benfica. Não esclareceu, neste seu regresso, se se tratara do reumatismo nas termas de Baden-Baden ou se o clima portuense se tornara, a seu ver, mais seco. Mas de facto voltara. E, como velha raposa que era, montara uma equipa segura a defender – com Rolando jogando atrás dos outros três defesas e em forma soberba, e com o guarda-redes Tibi na sua melhor condição de sempre.

No meio-campo um trio criativo, Pavão e os brasileiros Bené e Marco Aurélio, e na frente dois extremos e um ponta-de-lança: o genial Oliveira que, com 21 anos e de sangue na guelra, ia pintando a manta ao longo da linha no seu interminável reportório de dribles, fintas e chicuelinas, o veterano Nóbrega “com os seus eternos defeitos e qualidades”, no dizer do grande jornalista Vítor Santos, e o possante avançado-centro moçambicano Abel, contratado ao Benfica três anos antes. E contava ainda, no “banco”, com o internacional brasileiro Flávio, um magnífico ponta-de-lança cujos melhores tempos no nosso clube já haviam, contudo, passado.

Do outro lado estava o nosso velho conhecido José Maria Pedroto e aquela que era, provavelmente, à época, a melhor equipa do futebol português, entendendo-se aqui por equipa não apenas o somatório das qualidades individuais dos seus jogadores. De facto – e sem surpresa - o “Zé do Boné” fizera de uma boa equipa uma grande equipa, e nesta sua 5ª (!) época à frente do conjunto sadino disputava o título sem pedir licença a ninguém. No mês seguinte o Vitória venceria na Luz por 3-2 e isolar-se-ia no primeiro lugar, acabando Pedroto, pouco depois, por “bater com a porta” e demitir-se, em situação controversa.

Começou o FC Porto muito bem o jogo, sempre disputado debaixo de chuva, e aos sete minutos adiantou-se no marcador com um golo do frio Marco Aurélio. Mas poucos minutos depois, aos 13 minutos mais precisamente, chegaria a tragédia, se bem que só nos viéssemos a aperceber da sua verdadeira dimensão no final do jogo. No meio do terreno e à entrada do campo adversário Pavão passou à direita a Oliveira – uma simbólica passagem de testemunho – e caiu subitamente de bruços sem ninguém lhe ter tocado. Alguns jogadores próximos do lance levaram as mãos à cabeça, os bombeiros entraram em campo e transportaram o infeliz para fora dele e pouco depois pôde ver-se, através da “maratona” (ainda não existia a arquibancada) uma ambulância levando-o ao Hospital de São João. Mas o jogo prosseguiu e o locutor de serviço até nos informou daí a pouco que “o nosso jogador Pavão foi transportado ao Hospital e encontra-se melhor”.

Mais tarde o médico do clube, Dr. José Santana diria: «Reparei que caíra de bruços. Era homem que não fazia fitas. Portanto, tive logo a percepção de que era grave. Entrei no relvado e reparei que estava em estado de coma. Levei-o de imediato ao Hospital de São João. Tentou-se tudo. Fizeram-lhe electrochoques, mas era uma hemorragia cerebral. Hora e meia depois, tinha falecido. Poderia ter sido ruptura de um vaso sanguíneo, talvez em virtude de uma cabeçada na bola.»

Abel faria o 2-0 ainda na primeira parte e o FC Porto controlou bem o jogo no segundo tempo, pese embora uma excelente e determinada reacção dos vitorianos. Foi dos melhores jogos do FC Porto contra o V. Setúbal de Pedroto, que tantos amargos de boca nos causou…

E o jogo terminou. Subitamente um tenebroso silêncio abateu-se sobre o Estádio das Antas. Ninguém arredava pé. Da instalação sonora, nem pio. Mas já toda a gente percebera o que tinha acontecido. No relvado os jogadores choravam abraçados uns aos outros. José Maria Pedroto abraçava o seu antigo mestre Béla Guttmann, para depois ele próprio e alguns jogadores do Vitória de Setúbal, entre os quais o nosso futuro jogador e treinador Octávio, tentarem consolar os jogadores do FC Porto.


O próprio Pedroto seria vítima da comoção do momento, abandonando o campo amparado por alguns dos seus pupilos. Afinal fora ele que moldara aquele grande jogador que ali morrera com apenas 26 anos e que à época era, nada mais, nada menos, que o próprio símbolo do clube e seu capitão de equipa.

Encostei o ouvido ao transístor do vizinho e pude ouvir a voz do inesquecível Nuno Braz: “Morreu na flor da idade aquele que era um dos maiores jogadores portugueses”. Toda a gente estava petrificada, horrorizada com o sucedido. Atrás de mim uma senhora começou a rezar um Pai Nosso em voz alta, e largas dezenas de espectadores a acompanharam, no meio de lágrimas e soluços. O Pavão era o nosso maior ídolo da altura. O Porto não era campeão há 15 anos e sentíamo-nos perseguidos pelo infortúnio. Aquela morte chocante mais contribuiu para esse sentimento colectivo de fatalismo. Foi um dia negro. O mais triste dia futebolístico da minha vida.

Fernando Pascoal Neves, tenho a certeza que, de onde estás, te alegras com os nossos êxitos e nos desejas muitos mais! Paz à tua alma, grande “Pavão”!