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segunda-feira, 14 de junho de 2010

FC Porto nos Mundiais (III)


Vi, provavelmente, um dos últimos jogos de Araújo ao serviço do FCP. Foi na Constituição e num encontro com o Covilhã. Lesionou-se gravemente e não acabou o jogo. Depois de uma grave doença que o tinha afastado das competições durante um período alargado, esta lesão determinou o princípio do ocaso da sua carreira.

Franzino, muito bom tecnicamente, goleador, era o meu ídolo dos tempos da escola. Nesse tempo, o F. C. Porto não era ainda (longe disso) o clube dos insaciáveis dragões. A equipa passava a ponte para sul e raramente ganhava. Eram os ardis vários de Lisboa, associados a uma gritante falta de organização do FCP e a um nível competitivo baixo da nossa equipa.

A estrela do F. C. Porto era Araújo — o único jogador portista com lugar cativo na Selecção. Por isso, um dia, Tavares da Silva, também seleccionador nacional, escreveu que a Portugal se poderia chamar... Sport Lisboa e Araújo. Não deixava de ser um doce encómio para o atleta e uma forma de "ridicularizar" o FCP.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A Taca do Arsenal (II)

A Taça do Arsenal (I)

II. O jogo contra os campeões ingleses

Na década de 30, o Arsenal emergiu como o clube de maior sucesso do futebol inglês. Entre 1929/30 e 1937/38 venceu cinco vezes o campeonato – Football League First Division (1930/31, 1932/33, 1933/34, 1934/35 e 1937/38) – e ergueu por duas vezes a Taça de Inglaterra – Football Association Challenge Cup, também conhecida por FA Cup (1929/30, 1935/36).
Devido à II Guerra Mundial, não houve competições entre 1939/40 e 1945/46, tendo as mesmas recomeçado em 1946/47, com o Arsenal a voltar a sagrar-se campeão na época de 1947/48.

Equipa do Arsenal de 1947/48
Atrás, da esquerda para a direita: A. Forbes, A. Macaulay, L. Scott, G. Swindin, W. Milne (treinador), W. Barnes, J. Mercer (capitão), I. McPherson
À frente, da esquerda para a direita: D. Roper, R. Lewis, R. Rooke, B. Jones, D. Compton, L. Compton


Em 1948, ainda com os 0-10 do ano anterior bem presentes na memória de todos, o Arsenal de Londres, considerada a melhor equipa do Mundo, foi convidado para fazer dois jogos particulares em Portugal.

O primeiro jogo foi a 3 de Maio de 1948, contra o Benfica, disputado no Estádio Nacional. Os ingleses não deram hipóteses e venceram os encarnados por 4-0, levando a imprensa da capital a afirmar que os «gunners» eram a melhor equipa que jogara até então em Portugal.
Consta que no final desse jogo, e perante a goleada sofrida, houve portugueses que disseram a elementos do Arsenal: se aqui venceram por 4-0, no Porto vencerão por mais. O FC Porto só tem um jogador importante, o Araújo.
Cândido de Oliveira, na altura treinador do Sporting, desabafou: “Os nossos jogadores treinam-se como amadores e recebem como profissionais”.

Quatro dias depois, a 7 de Maio, era a vez do FC Porto enfrentar o fabuloso team inglês.

Arsenal 1948/49
Atrás, da esquerda para a direita: Forbes, Wade, L. Smith, G. Male, D. Compton, Mercer
Segunda fila, da esquerda para a direita: Jack Crayson (staff), Lewis, Fields, Swindin,L. Compton, Macpherson, Milnes (trainer)
Terceira fila, da esquerda para a direita: Scott, McCauley, Whittaker (manager), Rooke, Barnes
À frente, da esquerda para a direita: Bryn Jones, Roper, Logie


O FC Porto da época 1947/48, treinado pelo argentino Eládio Vaschetto, era capaz do melhor e do pior.

A 20 de Outubro de 1947 tinha ido a Valência jogar com o campeão de Espanha e venceu espectacularmente por 1-0, com golo de Catolino. Nesse jogo, e para além do autor do golo, destacaram-se Barrigana, Gastão, Araújo e Ângelo Carvalho, um jovem médio que começava a impor-se na equipa azul-e-branca.

A 2 de Fevereiro de 1948, na penúltima jornada da 1ª volta, o FC Porto recebeu e venceu por 4-1 o super-Sporting dos “violinos” (os “leões” haveriam de revalidar o título de campeão a que juntariam a vitória na Taça de Portugal).

Contudo, no computo geral, a época não estava a correr bem a nível interno (o FC Porto terminaria o campeonato em 5º lugar). No entanto, o futebol praticado deslumbrou, dada a sua forte vocação ofensiva, que conduziu Araújo ao título de melhor marcador do campeonato com 36 golos.

Estádio do Lima

Os bilhetes para o jogo contra o Arsenal custavam 80 escudos e para irem ao Estádio do Lima os portuenses vestiram os seus melhores fatos e muitas senhoras sentaram-se nas bancadas como se estivessem na ópera.

Quando se esperava que o FC Porto tivesse o mesmo destino do SLB, os azuis-e-brancos presentearam os seus adeptos com uma exibição memorável.

Aos nove minutos, instantes antes de Araújo marcar o 1º golo, Quádrio Raposo, locutor da Emissora Nacional, anunciava: «Araújo tem nada menos de três ingleses à sua volta!».

Aos 30 minutos, e para espanto de todos, o FC Porto vencia por 3-0, com mais dois golos de Correia Dias, um avançado-centro que pesava quase... 100 quilos.

Até ao final do jogo, os restantes minutos foram de uma resistência heróica perante a avalanche britânica, mas recompensados por uma sensacional vitória final por 3-2.

Em A BOLA escreveu-se: «Meia hora de futebol diabólico destroçou a equipa londrina».

Um dos heróis do jogo foi o guarda-redes do FC Porto, Frederico Barrigana.

Frederico Barrigana

Antes de ingressar no FC Porto, em 1943, Barrigana era reserva de Azevedo no Sporting, mas as fantásticas prestações ao serviço do FC Porto levaram-no à titularidade na Selecção Nacional, pela qual se tinha estreado uns meses antes, em 21 de Março de 1948, num jogo contra a Espanha.

Mas quem encheu os olhos aos ingleses foi Araújo, ao ponto de afirmarem ser avançado para jogar em qualquer equipa do Mundo. Houve propostas para o levar para o outro lado do canal da Mancha, mas ele não aceitou. Nem sequer uma fortuna bastaria para o retirar da pacatez de Paredes.

(continua)

Fontes:
‘História de 50 anos do Desporto Português’, A BOLA
‘100 figuras do futebol português’, A BOLA

A Taça do Arsenal (I)

I. O enquadramento político e desportivo

Há 60 anos atrás a Europa estava ainda a tentar curar as feridas resultantes da II Guerra Mundial.

Em Portugal, a década de 40 do século XX foi um período de grandes obras públicas e da exaltação da nacionalidade, com Lisboa a ser promovida como a capital do Império português.

Neste contexto, a Exposição do Mundo Português, destinada a comemorar as datas da fundação de Portugal e da restauração da independência, foi inaugurada em 23 de Junho de 1940, em Lisboa, pelo Chefe de Estado Marechal Carmona, acompanhado pelo Presidente do Conselho Oliveira Salazar e pelo Ministro das Obras Públicas Duarte Pacheco.

Quatro anos mais tarde, a 10 de Junho de 1944, foi inaugurado nos arredores de Lisboa (em Oeiras) o Estádio Nacional, com uma arquitectura inspirada na Escola Paisagista Alemã, e que, para além de servir para a prática do desporto, visava também a criação de um espaço para manifestações públicas inspiradas nos princípios políticos do Estado Novo.

O futebol português não fugia a esta “ditadura do centralismo” e a década de 40 ficou marcada por um domínio esmagador dos clubes da capital. Foi o período de ouro do BSB – Benfica, Sporting e Belenenses – que, inclusivamente, chegavam a formar uma selecção de Lisboa para jogar contra equipas estrangeiras.

Equipa de Lisboa num jogo contra o Vasco da Gama em 1947, com a inscrição no galhardete de "Selecção Benfica, Sporting e Belenenses" e "BSB" no emblema (fonte: Blog 'Futebol inesquecivel')


Após ter ganho os campeonatos de 1938/39 e de 1939/40, este último de forma brilhante (17 vitórias, 0 empates, 1 derrota), o FC Porto entrou num longo período de jejum de títulos.
No início de Maio de 1948 (a quatro jornadas do fim do campeonato) os “andrades” iam a caminho da 8ª época consecutiva na sombra dos clubes de Lisboa.

1940/41: 2º classificado
1941/42: 4º
1942/43: 7º
1943/44: 4º
1944/45: 4º
1945/46: 6º
1946/47: 3º

De facto, o Sporting, treinado por Cândido de Oliveira, iria ganhar o campeonato de 1947/48 (“o campeonato do pirulito” por ter sido decidido por um golo) e o FC Porto ficaria em 5º lugar, atrás dos habituais BSB e também do Estoril.



Em oito épocas, entre 1946/47 e 1953/54, o Sporting dos “cinco violinos” – Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travaços e Albano – sagrou-se sete vezes campeão nacional, impondo recordes (um tri e um tetra) que só viriam a ser ultrapassados pelo FC Porto do Penta na década de 90.

Os “cinco violinos”


Quanto à Selecção dita nacional não diferia muito da equipa do BSB. Reflectindo a visão, poder e domínio avassalador dos clubes da capital, normalmente só incluía um portista – Araújo – sendo, por isso, designada ironicamente por Sport Lisboa e... Araújo.

António de Araújo nasceu em Paredes, a 28/09/1923, tendo chegado ao FC Porto na época 1942/43, onde ainda jogou ao lado do seu ídolo, Artur de Sousa (Pinga), até 1946.
Araújo era um exímio marcador de golos, quer no campeonato (foi o melhor marcador na época 1946/47, com 36 golos em 25 jogos), quer na Selecção Nacional. Aliás, logo na sua estreia, contra a França, foi o autor de um dos golos da vitória por 2-1 sobre os gauleses. No entanto, o jogo onde mais brilhou foi contra a Espanha, a 26 de Janeiro de 1947, no qual marcou dois golos que contribuíram para a primeira vitória (4-2) oficialmente reconhecida de Portugal sobre nuestros hermanos. A sua exibição neste jogo teve um tal impacto, que foi recebido na sua terra natal com bandas de música, foguetes e sessão oficial de boas vindas.
Entre Abril de 1946 e Novembro de 1947, Araújo fez nove jogos pela Selecção Nacional em que marcou seis golos. Numa altura em que os jogadores da “província” tinham o acesso à Selecção praticamente vedado Araújo, com a sua indiscutível qualidade, relegava para a reserva o sportinguista Vasques, impedindo que na Selecção se repetissem os «cinco violinos».

Apesar das vitórias sobre a França e a Espanha, foi também neste período que Portugal sofreu a derrota mais humilhante da sua história futebolística. A 25 de Maio de 1947, a Selecção inglesa veio ao Jamor derrotar a sua congénere portuguesa por 10-0, num desafio que ficou conhecido como «dez a fio».

A forma como a Inglaterra (a pátria do futebol) esmagou a Selecção Nacional, reforçou o seu enorme prestigio e a áurea de invencibilidade que tinham as equipas inglesas.

(continua logo à tarde)

Fontes: Wikipedia; 'História de 50 anos do Desporto Português', A BOLA