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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Estrangular o futebol dos pequenos

A FIFA revelou nesta sexta-feira que o comité do organismo para o futebol, liderado por Michel Platini, presidente da UEFA, solicitou “a criação de regulamentos que proíbam a propriedade por parte de terceiros” dos passes dos jogadores.

Esta notícia vinha publicada na edição online do PÚBLICO de Sábado. E não surpreende ninguém.

Michel Platini é uma figura que divide opiniões como dirigente (menos como futebolista). É, sobretudo, um excelente político com máscara de figura desportiva. Cresceu ao lado de Sepp Blatter, nesse antro de mafiosos que é a FIFA. Foi o seu homem forte na luta contra Johansson, um dos amigos mais íntimos de Pinto da Costa e da maioria dos homens do G14, e venceu. A partir de então a sua atitude com os clubes que entravam nesse grupo foi fria, distante e tensa em muitos casos. Salvo casos pontuais, como o Barcelona, que se afastaram do modelo original para aproximar-se da sua gestão presidencial, os clubes do G14 tiveram dificuldades com a UEFA nos últimos oito anos. O FC Porto, um dos que mais. Tivemos de sofrer as ameaças do francês, sem nenhum critério legal, e seguramente que Platini não se esquece do que teve de suar para vencer os azuis e brancos na polémica final de Basileia.


A gestão de Platini de devolver o futebol aos adeptos tem tido aspectos positivos.
Na sua luta contra os grandes, apostou num novo formato de Champions League que abre mais a porta à fase final a clubes campeões nacionais dos seus modestos países, ao livrarem-se de disputar o play-off final com os quartos ingleses, espanhóis  alemães e terceiros das ligas portuguesas, italianas ou francesas. Com gestos como esse (e o Euro 2008 e 2012, e as finais europeias que começam a chegar ao leste do continente), assegurou os votos para a reeleição e vendeu a ideia de ser um presidente dos mais fracos. Mas  como negociador nato que é, nunca se afastou em demasia dos países grandes. Não é por acaso que Londres recebe duas finais da Champions em três anos. Que Munique, Madrid, Paris e Moscovo tenham sido eleitas antes. Que os milhões da Champions sejam cada vez mais para cada vez menos e que o dinheiro investido na Europe League - a liga dos pobres - seja cada vez mais insignificante.

Platini quer chegar à FIFA e quer chegar com o apoio dos grandes. Precisa de sentir-se respaldado pela ECA, pela elite do futebol europeu e não apenas pelos clubes de países pequenos e sem expressão mundial. Por isso a nova medida vem apenas confirmar a sua deriva política. Acabar com a co-propriedade, algo que já existe nas ligas inglesa e francesa, é uma estocada de morte na ambição de muitos desses clubes. Os portugueses, por exemplo.

Com a situação actual de mercado, é cada vez mais difícil aos clubes como o FC Porto competirem com os milhões dos históricos do continente e com as novas fortunas do leste. A co-propriedade tornou-se numa ferramenta possível para comprar jogadores incomportáveis a preço total e também para aliviar o passivo quando a necessidade de cash flow se tornava iminente e aparecia um fundo qualquer para comprar uma pequena parte do passe de um jogador promissor. Sem esse mecanismo, não se enganem, não existia futebol profissional em Portugal. E em muitos países do Mediterrâneo. Em Itália a co-propriedade entre clubes é habitual desde os anos 90. Em Espanha, a esmagadora maioria dos clubes não detém o 100% do passe dos seus melhores atletas. Falar da Grécia, Chipre, Turquia, países eslavos e centro-europeus é apenas repetir a mesma história. A co-propriedade permite-lhes manter o pulso sem asfixiar-se (ainda mais) financeiramente. Sem ela, a Superliga europeia torna-se inevitável.

A missão de Platini nos últimos anos como presidente da UEFA é abrir caminho para essa realidade.
Abolir a co-propriedade significa dar aos clubes ingleses, alemães, russos, ucranianos e à elite espanhola, francesa e italiana, o domínio exclusivo e absoluto do futebol europeu. Deixa de haver margem de manobra para qualquer desafio externo. O FC Porto, como tantos outros, desapareceria entre o passivo acumulado e a venda dos seus activos para não acabar. Sem jogadores top não há performances top, não há ameaça, não há vitórias ao PSG, não há gestas como 2004. Não há nada.



Pessoalmente sou contra o modelo da co-propriedade. Absolutamente contra a entrada de fundos e empresários, muitas vezes para lavar dinheiro, no futebol gerido por um clube independente.
Mas também sou contra os salários praticados de forma infame pelos donos da pasta árabes e russos. Também sou contra a Lei Bosman, tal como está actualmente, e sou contra o modelo de distribuição de lucro das provas europeias desenhado pela UEFA.
Ou se é contra tudo ou a favor de tudo. Por um lado, se tudo isto fosse revisto, o futebol voltaria a ser mais igualitário  mais justo, mais divertido. Mas aos grandes isso não lhes interessa nada. O caminho é o oposto, aumentar ainda mais os desafios aos pequenos, roubando-lhes os melhores jogadores sem limite (mesmo que seja para preencher o banco), pagando-lhes fortunas impensáveis, ficando com números impensáveis de pagamentos por parte da UEFA e do império televisivo que vive à sua sombra. Acabar com a co-propriedade é só facilitar que os James, Jackson, Moutinho, Alex Sandro, Fernando, Danilo sejam suplentes do PSG ou do Shaktar em vez de serem jogadores do FC Porto.

É mais um golpe baixo e sujo, mais uma jogada muito bem pensada por parte da elite europeia. A tornar-se real - e ninguém duvida que Platini tem o poder necessário para lográ-lo - poderia ser também o fim do FC Porto como um potentado europeu. E talvez o fim do profissionalismo, tal como o conhecemos, do futebol do sul da Europa. Estejam atentos!