Por José Maria Montenegro
Todos passamos por momentos em que pensamos «se fosse eu». Se fosse eu a marcar aquele penalti, se fosse eu o treinador, se fosse eu o presidente.
E nesses momentos em que estamos a divagar no «se fosse eu» normalmente estamos a divergir da solução escolhida por quem está de facto no lugar de decisão.
Eu – não nego – penso imensas vezes na versão «se fosse eu o presidente». Tenho mais momentos de «presidente» do que de «treinador».
As organizações não são todas iguais. Uma empresa é uma coisa, uma fundação de arte é outra, um clube é outra ainda.
Se eu fosse presidente do Porto tenho a certeza que imporia um nível diferente de compromisso com o clube. Defendo há muito tempo que quem está em lugares decisivos e de representação do clube tem de conhecer bem o clube. Não tem necessariamente de sentir o clube (um treinador ou um jogador, enquanto profissionais que são, não têm de ser aficionados do Porto). Mas têm que perceber o clube, conhecer a sua mentalidade, o seu modo natural de lidar com as venturas e desventuras da época. Coisas tão simples como perceber o que preocupa os adeptos, o que pretendem, como sentem as vitórias e as derrotas, como hierarquizam as competições, os adversários e os momentos, como se identificam com os jogadores. No fundo, perceber e conhecer bem de que cepa é feito o clube. Não precisa de ser logo no primeiro minuto, mas qualquer treinador do Porto tem que perceber em pouco tempo o que é o Porto. Se não perceber é porque não serve.
O meu maior problema com o Lopetegui é justamente este. Não percebe o Porto. Não nos percebe. Não percebe os nossos momentos, os nossos adversários. Não reconhece sequer quais os jogadores que são nossos.
Começou por não perceber que não podíamos perder com o Sporting para a taça, ainda no início da época passada (e por isso se pôs em poupanças e experiências). Não percebeu que tínhamos de ganhar na Luz e que é nesses jogos que jogamos a nossa identidade, que nos impomos e que afirmamos a força que intimida os nossos adversários e que nos levou ao sucesso. Não percebeu que falhar depois de os nossos adversários falharem está completamente fora de causa, e por isso não havia poupança nem gestão naquele malogrado jogo contra o Nacional depois da derrota do Benfica em Vila do Conde. Não percebeu que nunca jogamos para empatar nem entramos em campo à confiança, e por isso levamos um balde de água gelada contra o Dínamo de Kiev em casa. Não percebeu que o que nos fez grandes na Europa foi não ter medo e quebrar todas as lógicas em estádios improváveis, mesmo que para tal nos tenhamos de aproveitar de momentos menos bons dos nossos adversários. E por isso perdeu a oportunidade histórica de ganhar em Stamford Bridge. Não percebeu que queremos, gostamos e vibramos com o Rúben Neves a capitão. E por isso anda nesta rebaldaria de capitães diferentes a cada jogo, com o nosso Rúben a passar de capitão a nem sequer subcapitão (em favor de jogadores sem qualquer carisma). Não percebeu que é por esta identidade entre adeptos e certos jogadores que nós gostamos tanto do André André, que alia qualidade à entrega à Porto (ele sabe lá o que isso é). E por isso tanto não o convoca, como o põe no banco em pseudo gestão (que só serve para nos desesperar). Não percebeu que nós queríamos mesmo muito ver o André Silva na equipa principal. Já queremos há imenso tempo. E ontem, com 3-0, queríamos mais ainda. Como preferíamos que o Sérgio Oliveira tivesse mais oportunidades que o Bueno, por exemplo. Não temos nada contra o Bueno. Temos é a favor daqueles que, com um teclado à frente, diriam as mesmas coisas que eu estou aqui a dizer. Porque percebem o clube.
Não podemos ter um treinador que não nos percebe. Que não percebe o clube que representa. Que não percebe quando não podemos mesmo falhar. Que não percebe quando nos deve corresponder.
Eu, se fosse presidente, já tinha despachado há muito tempo o Lopetegui.
PS. No Domingo, quando do banco chamaram o Bueno em lugar do André Silva, eu assobiei. Arrependo-me do impulso. Já não assobiei quando entrou (porque aí tive o discernimento de perceber que seria profundamente injusto para o Bueno, contra quem não tenho nada). Aliás, já agora, acrescento. Quero crer que o Bueno percebeu que os assobios não eram para ele. É que se não percebeu, então está como o mister. Não nos percebe. Mas eu acho que ele percebeu.
Nota: o Reflexão Portista agradece ao José Maria Montenegro a publicação deste artigo.
























