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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um centralismo que espezinha e sufoca


«(...) A ausência dessa entidade política [instâncias regionais] deu nisto: o Estado não conhece a sua própria rede de serviços, nem sabe o que foi encerrando nos últimos anos. O que encerrou, em parcos sete anos, foi só isto: 3481 escolas, 700 extensões de saúde, 9 maternidades e 16 urgências. Os distritos interiores das regiões Norte e Centro foram os mais penalizados por este pernicioso efeito da macrocefalia que decide fechar serviços sem discutir a sua relevância com a mesma pressa com que aprova a construção de mamarrachos para satisfazer egos e evitar querelas autárquicas.

Sobre o tema já fizeram discussões muitas e já produziram documentos bastantes. Nenhum deles tem a capacidade de, em escassos dois minutos e 45 segundos, sintetizar o que está em causa. Segue-se um resumo, em tradução livre, de uma cena do inefável "Sim, senhor ministro" (série da BBC, 1980-84).

Bernard Wooley (BW), secretário particular do ministro, fala com Humphrey Aplleby (HA), secretário do ministro.

BW - Acho que está na altura de pensar nos governos locais...

HA - Acha mesmo? Uma vez criadas genuínas e democráticas comunidades locais, isso não parará!...

BW - Como assim?

HA - Claro que não parará! Uma vez estabelecidas, insistirão em ter mais poder. E os políticos não as conseguirão parar. Por isso, teríamos governos regionais.

BW - E isso é um problema?

HA - O que acontece se, havendo umas terras abandonadas, por exemplo em Nottingham, nos chega alguma proposta para a criação de um hospital ou de um aeroporto?

BW - Montamos um comité interdepartamental: departamento da saúde, da educação, dos transportes, das finanças... Pedimos papéis, marcamos reuniões, discutimos, revemos tudo uma e outra vez...

HA - Precisamente: meses de trabalho frutífero que nos levam a uma conclusão madura. Se tivermos governos regionais, eles decidem tudo em Nottingham, provavelmente num par de reuniões. Completamente amadores!...

BW - É a cidade deles...

HA - E o que nos acontece a nós?

BW - Teremos menos trabalho!

HA - Muito menos trabalho (...) e muito menos poder! Se as pessoas corretas não têm poder, sabe o que acontece? As pessoas erradas passam a tê-lo... Políticos, conselheiros, eleitores normais...

BW - E não é suposto ser assim?

HA - Esta é a democracia britânica! E a democracia britânica reconhece que é necessário um sistema para tratar das coisas importantes da vida e não as deixar nas mãos dos bárbaros. Coisas como a ópera, a lei, as universidades... Nós somos esse sistema!
(...)»
Paulo Ferreira
JN, 18/07/2012

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700 extensões de saúde, 9 maternidades e 16 urgências em apenas sete anos!
Para quem não sabe, só na cidade de Lisboa, sem contar com os concelhos limítrofes, há nove hospitais do Estado:
- Hospital de Santa Maria
- Hospital de S. José
- Hospital D. Estefânia
- Hospital Egas Moniz
- Hospital dos Capuchos
- Hospital de Santa Marta
- Hospital S. Francisco Xavier
- Hospital Curry Cabral
- Hospital Pulido Valente
E quando se fala, não em fechar, mas em deslocalizar os serviços e profissionais da Maternidade Alfredo da Costa para um destes hospitais, vejam a guerra que isso deu e o eco que teve na comunicação social, também ela, na sua esmagadora maioria, ao serviço do centralismo do qual se alimenta.

Foi neste triste país que, há 36 anos atrás, dois homens ergueram a sua voz contra a macrocefalia de Lisboa: José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa.
Juntos revolucionaram a cultura e mentalidade que tolhia o FC Porto, o qual, a partir daí, se assumiu num baluarte na luta contra os "direitos adquiridos" dos clubes da capital.
Aquele que era um simpático clube regional passou a ser o alvo da comunicação social lisboeta e, por via disso, rapidamente se transformou no clube mais difamado e odiado de Portugal.
Mas, largos dias têm 100 anos e, por mais batalhas que se percam, a guerra por um país mais equitativo, mais social e geograficamente equilibrado e mais justo acabará por ser vencida.
É também por isso que eu sou do Futebol Clube do Porto.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"Estamos fartos de ser chulados"

«Há alguns anos (não muitos), com os ânimos incendiados pela vã tentativa do estado-maior benfiquista de quebrar a hegemonia portista com manobras na secretaria, esteve em voga a palavra de ordem "Nós só queremos Lisboa a arder".

A provocação não caiu no goto da generalidade dos residentes na capital, pelo que amiúde alguns lisboetas, meus amigos ou conhecidos, perguntavam-me se também eu achava bem a ideia de pegar fogo à sua cidade.

"Não. Lisboa é uma bela cidade. O que defendo é o uso de uma bomba de neutrões, de modo a preservar o magnífico património edificado". Foi esta a resposta que formatei para dar nessas ocasiões. Quando a pergunta não é séria, sinto-me desobrigado de responder a sério.

Neste novo século, trabalhei oito anos em Lisboa, uma das mais bonitas cidades do Mundo, pela qual é muito fácil uma pessoa ter uma paixão fugaz e à primeira vista.

Estou imensamente feliz por o JN me ter proporcionado voltar a viver na cidade que amo e onde nasci, mas não posso negar que, de vez em quando, ainda sinto uma pontinha de saudade de alguns pequenos prazeres que Lisboa pode oferecer, como um fim de tarde no miradouro da Graça, petiscar ao almoço uma sanduíche de rosbife e um copo de branco no terraço do Regency Chiado, ou tomar o café matinal na esplanada da Ponta do Sal, em S. Pedro do Estoril.

Quando alguém é incapaz de diferenciar se estamos a falar em sentido estrito ou figurado, geram-se situações embaraçosas e terríveis mal-entendidos. Ninguém quer mesmo Lisboa a arder. O que queremos a arder, num fogo purificador, é a governação centralista que empobrece o Norte e desgraça o país.

O modelo centralista de pôr todas as fichas em Lisboa, partilhado por todos os partidos do arco da governação, é o responsável por 2000-2010 ter sido a pior década de Portugal desde 1910-20 - anos terríveis em que vivemos uma guerra mundial, golpes de Estado e a epidemia da gripe espanhola.

Na primeira década deste século, o crescimento médio anual da nossa economia foi de 0,47%, apesar do afluxo diário médio de seis milhões de euros de Bruxelas, que valiam todos os anos 2% do PIB.

Já ultrapassado pelo Alentejo e Açores, o Norte é a região mais pobre do país, apesar de ser a que mais contribui para a riqueza nacional, com 28,3% do PIB, logo a seguir a Lisboa e Vale do Tejo, com uns 36% enganadores, já que aí está contabilizada a produção feita noutras partes do país pelas grandes companhias nacionais e multinacionais com sede na capital.

Quando leio (ver página 2) que ao abrigo do famoso efeito de dispersão - uma vigarice inventada para desviar para Lisboa fundos comunitários - dinheiro destinado às regiões mais pobres está a ser usado pelos serviços gerais e de documentação da Universidade de Lisboa, dá-me vontade de ir para a rua gritar "Nós só queremos Lisboa a arder".

Não. Nós não queremos mesmo Lisboa a ser consumida pelas labaredas. O que queremos é dizer que estamos fartos de ser chulados e já é tempo de impedir que Portugal continue a arder em lume brando, por culpa de governantes incompetentes ou corruptos.»
Jorge Fiel
JN, 12/12/2011


Que grande artigo do Jorge Fiel!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Notícias com um olhar do “Norte”





A que propósito é que uma notícia sobre as ex-SCUTs surge num blogue como o ‘Reflexão Portista’?


A capa do JN de ontem e a notícia em si, remetem para dois aspectos que têm muito a ver com o país que temos, com algumas polémicas do futebol português e com o modo como a comunicação social escolhe temas e selecciona destaques.


I. Notícias, títulos e destaques

«Auto-estrada da exportação mais cara que Lisboa-Cascais»
«Preço por km entre Aveiro e Vilar Formoso é o triplo da A5»

O tema “SCUTs” foi e continua a ser objecto de tratamento jornalístico. Contudo, alguém acredita que seria possível uma capa destas, com este título e subtítulo, num dos jornais feito na capital (Correio da Manhã, Diário de Notícias, Público, Expresso ou Sol)?
E algum dia esta notícia seria apresentada desta maneira, destacando uma escandalosa diferença de custos por quilómetro a favor dos mais ricos, se a peça fosse preparada pelas redacções de Lisboa da RTP, SIC ou TVI?

Parece um contra-senso, mas desde que Portugal aderiu à UE (na altura CEE) em 1985, a macrocefalia da capital não tem parado de aumentar e tem sido acompanhada de uma visão e propaganda dos media cada vez mais Lisboa-cêntrica. Por isso, e para denunciar as discriminações e os abusos que se vão cometendo, é fundamental haver um JN, bem como, projectos jornalísticos como o do semanário Grande Porto, ou um canal televisivo como o Porto Canal. O problema é que os órgãos de comunicação social só se aguentam se tiverem compradores/audiência e publicidade, algo que cada vez está mais concentrado, ou é decidido, na capital…

II. O Norte e o Sul

Primeiro Pedroto e depois Pinto da Costa foram acusados pelos media da capital de serem incendiários e de, com a suas intervenções públicas, contribuírem para dividir o país em Norte e Sul.
É falso, é completamente falso. Se alguém, no discurso, divide o país em Norte e Sul são precisamente os protagonistas da capital e alguns exemplos da linguagem e tipo de expressões utilizadas são elucidativos.
Ao contrário e em sentido oposto ao que se ouve em Lisboa, no Porto, ninguém se refere à A1 como “auto-estrada do Sul”.
No Porto, ninguém trata os alentejanos, ou os algarvios, como “as pessoas do Sul”.
No Porto, ninguém diz que vai “rumar ao Sul” quando tem de se deslocar a Lisboa.

As verdadeiras divisões que existem em Portugal, resultantes das assimetrias que sucessivas políticas centralistas foram cavando, é a divisão entre o litoral povoado e o interior desertificado, bem como, a divisão entre um eixo Lisboa-Cascais cada vez mais rico e o resto do país cada vez mais pobre. E é neste contexto que a notícia do JN tem mais relevância porque, corajosamente, volta a pôr o dedo na ferida.

Na A25, um veículo ligeiro pagará 9 cêntimos por quilómetro, “apenas” o triplo do que é suportado por um veículo idêntico na A5, a auto-estrada que liga Lisboa a Cascais. Isto é aceitável?
E para quem não sabe, a A25 não passa no Porto, nem sequer na região Norte (*). É uma auto-estrada que percorre a Beira Litoral e a Beira Alta, entre Aveiro e Vilar Formoso, sendo a principal via rodoviária usada para a exportação de produtos fabricados no Centro e no Norte do país.

Sofrendo na pele as consequências das politicas centralistas, não consigo encontrar explicação para que a esmagadora maioria das populações que vivem no interior do país seja adepta do slb ou do SCP, mas deve ser uma espécie de Síndrome de Estocolmo.

(*) Considerando a região Norte como sendo formada pelos distritos do Porto, Braga, Viana do Castelo, Vila Real e Bragança.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Rui Rio no Porto Canal?



«Face às conclusões do grupo de estudo da RTP é de temer pelo futuro da RTP – Porto, que suporta mais de 50 por cento dos conteúdos apresentados na RTP Informação, o canal de notícias da televisão pública no cabo, e produz o jornal televisivo de maior audiência (comparada) há muitos anos. Há tempos que se receia que o emagrecimento de custos da televisão do Estado seja feito à custa do empobrecimento da RTP – Porto. A situação de crise do País pode ser uma boa oportunidade. Mas, se tal acontecer (e lamentando que alguns dos algozes sejam homens do Porto ou fortemente relacionados com o Porto, na Administração da RTP), cometer-se-á um crime de lesa-pátria (…)

Uma televisão pública, entre muitos outros conteúdos (alguns dos quais oferecidos na RTP2), não pode deixar de dedicar uma parte substancial dos seus recursos à informação, olhando para o país – o país todo, continental e insular – e para os espaços da lusofonia e da diáspora. O que não se sabe não existe. O que não aparece nas notícias e na informação não acontece.
(…) a ideia pouco inteligente de que tudo o que acontece fora de Lisboa não tem importância, de que a política, a economia e a finança se resumem a Lisboa.»
Alfredo Barbosa, jornalista
Semanário Grande Porto, 11/11/2011


Na quarta-feira da semana passada, ao fazer um zapping, apanhei parte de uma entrevista de Rui Rio no ‘Grande Jornal’ da RTP Informação. A entrevista abrangeu diversos temas e às tantas Rui Rio disse à jornalista qualquer coisa do estilo “… vocês aqui em Lisboa…”.

Já pouca coisa me surpreende no país mais centralista da Europa, mas não deixo de questionar por que razão esta entrevista não pôde ser efectuada a partir dos estúdios da RTP Porto. E também é significativo que o presidente da CM Porto e da Junta Metropolitana do Porto tenha aceite deslocar-se numa quarta-feira à noite a Lisboa, para dar uma entrevista, de alguns minutos, inserida num dos vários espaços noticiosos do canal de notícias da televisão pública.


Se dúvidas tivesse (que não tinha), estes episódios – entrevista de Rui Rio à RTP Informação e conclusões do grupo de estudo da RTP – vieram reforçar a minha convicção de que a estratégia que o FC Porto definiu para o Porto Canal é a mais correcta. De facto, o esvaziamento progressivo da RTP Porto no universo RTP, se por um lado constitui mais uma machadada centralista na pluralidade de notícias e opiniões (“o que não aparece nas notícias e na informação não acontece”), por outro é uma oportunidade que o Porto Canal deverá aproveitar.

Os canais do regime, público e privados, estão cada vez mais centralistas? Pois muito bem, então o Porto Canal deve dar voz a actores (políticos, empresários, académicos, desportistas, …) de fora do eixo Lisboa – Cascais.
Se a RTP é cada vez mais uma RTL (Rádio e Televisão de Lisboa), o Porto Canal, apesar do nome, tem de ser também o canal de Braga, de Guimarães, de Viana, de Vila Real, de Bragança, de Aveiro, de Viseu, etc.
Falta saber se as pessoas destas regiões, principalmente os políticos locais, querem ajudar a crescer um canal que não está sediado na capital e que não olha para o país de acordo com a célebre ideia de uma personagem de Eça, segundo a qual Portugal era (é!) Lisboa e o resto é paisagem.

Nesta linha, será que antes do final deste seu terceiro e último mandato, teremos o presidente da câmara municipal do Porto a dar uma entrevista ao Porto Canal?

domingo, 25 de setembro de 2011

Lisboa é Portugal


“Lisboa é Portugal. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento.”
Eça de Queiroz, Os Maias


Todos sabemos que Portugal é um país assustadoramente centralista e que isso é o factor que mais contribui para o atraso endémico da maior parte das regiões do país. Evidentemente, Lisboa, para onde são sugados grande parte dos poucos recursos existentes, é a excepção e o seu nível de riqueza há muito tempo que é superior ao da média comunitária.

Mas, o que me leva a falar novamente no centralismo é a meia maratona de Lisboa, perdão, meia maratona de Portugal, que foi disputada hoje.
Sim, leram bem, de Portugal, porque tal como Eça escreveu no século XIX, no século XXI Lisboa continua a ser Portugal. Pelo menos para muitos iluminados e, seguramente, na cabeça da maior parte dos políticos que nos têm (des)governado.

Entre as maratonas mais famosas do Mundo, já tinha ouvido falar nas maratonas de Londres, Paris, Chicago, Nova York, Roterdão, Tóquio, etc., mas é a primeira vez que vejo uma maratona disputada numa cidade adoptar o nome do respectivo país.
Acho bem, afinal traduz a triste realidade portuguesa, a que sucessivos governos nos conduziram: de facto, Portugal é cada vez mais Lisboa e o resto é paisagem...

sábado, 30 de julho de 2011

Um canal contra a espiritualidade centralista

«A distância da capital e do poder mediático, juntamente com a incapacidade de influir na orientação editorial quotidiana dos órgãos de comunicação social, impõe ao FC Porto: vencer mais vezes do que os rivais e desenvolver um modelo de comunicação externa muito diferente dos clubes mais poderosos de Lisboa. (...)

Portugal ainda não se libertou da asserção queiroziana de que o país é Lisboa e o resto é paisagem. Pelo contrário, salvo alguns - poucos - anos depois do 25 de Abril, o país passou a viver mais em Lisboa e em função de Lisboa (...)
O mesmo sucede em relação ao desporto. Não importa que o FC Porto vença habitualmente, e muitas vezes, em diversas modalidades; não interessa que clubes nortenhos dominem em diferentes actividades desportivas; não importa que fora de Lisboa se evidenciem talentos nas mais distintas áreas; (...) A espiritualidade lisboeta e centralista é redutora, pretende que tudo aconteça perto de si e, o mais possível, à medida dos seus interesses. (...)
Porque essa espiritualidade tende a dominar, Belmiro de Azevedo mudou a sede do Público do Porto para Lisboa e a Invicta ficou reduzida a um jornal de índole nacional, o Jornal de Notícias (...)

Mas vai subsistindo a espiritualidade lisboeta e centralista, razão por que o FC Porto decidiu inovar (mais uma vez) na sua comunicação, optando por tomar uma posição accionista maioritária no Porto Canal, o que nos interroga sobre o futuro do canal com pronúncia do Norte e orientação regionalista. Mas, antecipando argumentos e objectivos, parece-me que o emblema do dragão não desejará ganhar poder e influência comunicacional apenas para si. Esse seria um comportamento redutor, que pouco ou nada adiantaria relativamente a um canal clubista.
Os responsáveis portistas sentirão que, independentemente do cultivo das vitórias, o futuro terá de ser feito com agregação de interesses, iniciativas, realizações e objectivos de outras instituições locais e regionais aos mais diversos níveis. Uma visão minimalista, de interesse individual, não consolidaria a espiritualidade do dragão nem contribuiria para um maior reconhecimento da vitalidade da sua organização e dos seus êxitos.
O desempenho mediático do FC Porto no Porto Canal não se afastará, por isso, de um pensamento integrador, inclusivo e expressivo do que de mais importante acontecer na região, promovendo e desenvolvendo as diferentes culturas que nela existem e se evidenciam. Pelo menos na informação generalista.

No desporto, a marca FC Porto será dominante. Porque ela é a raiz da força, do poder e da influência. Como contraponto à espiritualidade lisboeta e centralista.»
Alfredo Barbosa, semanário Grande Porto, 15/07/2011

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É já a partir da próxima segunda-feira, dia 1 de Agosto, que o FC Porto vai tomar conta dos destinos do Porto Canal.

O director de Programas Desportivos será Rui Cerqueira, que irá acumular essa função com a de director de Comunicação do FC Porto.

Quanto ao director de Informação e Programas Não Desportivos a escolha recaiu em Domingos Andrade, até agora director-adjunto de Informação da Lusa, onde estava desde 2009.

Domingos Andrade tem 41 anos, é doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, com uma Pós-Graduação em Sociologia das Organizações e licenciado em Comunicação Social. Entre 2003 e 2008 foi chefe de redacção do Jornal de Notícias. Desde 2005 que é docente da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica.

Tal como já tinha referido aqui, a primeira grelha de programação da responsabilidade da nova direcção do Porto Canal só estará disponível no início do próximo ano mas, segundo foi anunciado, já em Agosto serão alterados os conteúdos de cariz desportivo, de forma a projectar a marca e as actividades do FC Porto.


Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Custos do centralismo?


Alguém já percebeu, ou consegue explicar, porque razão a agência de viagens Abreu tinha dois programas absolutamente iguais, um com partida de Lisboa e outro do Porto, mas em que a viagem com partida do Porto era 44% (!) mais cara?

O centralismo é o principal factor de desigualdade entre portugueses e tem custos elevados (para quem não vive em Lisboa), mas é assim tão mais caro alugar um voo charter no Porto do que em Lisboa?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

"Não irão incomodar-se a voltar"

«Um sistema inconveniente, que não funciona e discrimina os visitantes estrangeiros e turistas. É assim que, num email de protesto remetido à Câmara do Porto, um cidadão inglês descreve a cobrança de portagens das Scut, concluindo de forma elucidativa: "O Porto não é um lugar ideal para se visitar e muitos simplesmente não irão incomodar-se a voltar."
O desabafo do comerciante britânico, que regularmente se desloca em negócios pelo Norte do país, pode bem ilustrar os receios quanto aos efeitos que a confusão com as portagens pode causar sobre o turismo e o movimento no aeroporto do Porto, dois exemplos de crescimento económico na deprimida região Norte.
No email, a que o PÚBLICO teve acesso, o visitante conta a sua infrutífera odisseia na tentativa de pagar as portagens depois de ter circulado com um carro alugado à chegada no aeroporto. No regresso, quando quis pagar, informaram-no de que apenas o poderia fazer no posto de Correios. Além de o encontrar já fechado, foi informado de que também nunca o poderia pagar, uma vez que os dados não estão disponíveis antes de 48 horas após a passagem pelos pórticos das Scut.
Mesmo tendo que apanhar o voo de regresso, diligenciou depois junto de amigos em Portugal para que lhe efectuassem o pagamento. Nem assim, já que, além das passagens nos três dias em que circulou com o carro alugado, nos Correios exigiam que fossem igualmente liquidadas outras 20 passagens efectuadas pela mesma viatura em dias anteriores. "Tudo isto quando eu estou mais que disposto a pagar o euro que me custaria, mas não há maneira de o fazer", lamenta o britânico. Concluindo que "o sistema é impossível de utilizar por um visitante que chegue ao Porto", o indignado comerciante questiona: "Qual é a intenção? Impedir para sempre as visitas ao Porto, pois é isso que o actual sistema vai fazer", vaticina.»
in PUBLICO.pt, 16/11/2010


Não vou aqui discutir a justeza da decisão politica de transformar as SCUT em CCUT, nem tão pouco o facto desta “medida revolucionária” ser genérica mas, para já, ser implementada apenas nas SCUTs do Norte. Trago aqui esta notícia do PÚBLICO, porque ela é ilustrativa da estupidez de alguns “iluminados” que, confortavelmente sentados nos seus gabinetes do Terreiro do Paço, tomam medidas irracionais com este tipo de consequências.

De facto, e conforme questionou o cidadão inglês, qual é a intenção de criar o sistema de pagamento de portagens mais estúpido e incompreensível do Mundo? Dificultar ostensivamente as deslocações de estrangeiros ao Norte do país, quer venham da Galiza ou aterrem no aeroporto Sá Carneiro?

Felizmente ainda existe o FC Porto, um oásis de excelência num país (des)governado por medíocres, e que ainda resiste a este cerco centralista.

domingo, 5 de setembro de 2010

Norte, centralismo e futebol

«Quando há 15 anos se iniciou o actual longo ciclo de poder liderado pelo PS, o Porto convivia com três importantes jornais quotidianos, os semanários e restantes títulos de expressão diária tinham a norte redacções alargadas e com peso próprio, a RTP apostava em expandir em Gaia uma importante produção descentralizada, era lançada a ideia de construção do Media Park, a RTP N - então com N de Norte - começava a desenhar-se como canal regional, a SIC e a TVI pareciam querer apostar numa real descentralização.
Volvida uma década e meia, o JN sobrevive forte mas cada vez mais só. O Comércio do Porto morreu, o Primeiro de Janeiro arrasta-se heróica mas sofridamente, as secções locais de semanários, revistas e restantes diários, são cada vez mais simbólicos quiosques de bairro, na RTP N o N passou de Norte a N de quase Nada e não são os bem-intencionados e projectos Porto Canal ou Grande Porto que contariam este trajecto.

Era esta caminhada inevitável? Com certeza. A indústria da comunicação é das que convive pior com projectos bem-intencionados mas economicamente inviáveis. Corre atrás de acontecimentos relevantes, persegue as actividades geradoras de mais-valias, precisa de estar ao lado dos centros de poder. Ora pouco disto passou a existir no Grande Porto e no Norte em geral. Ao longo da última vintena de anos partiram a economia, a vida cultural e social, os melhores quadros, muitos jovens talentosos. Se nos quisermos cingir ao importante mundo da comunicação social, é notável recordar de onde saíram progressivamente Joaquim Oliveira, Judite de Sousa, Rodrigo Guedes de Carvalho, José Alberto Carvalho, Paulo Baldaia, Carlos Daniel. Do Porto. A maioria de forma irreversível. Esta louca macrocefalia, cada dia mais forte que está a condenar o país ao subdesenvolvimento ainda pode e deve ser combatida, mas tal pressupõe compreender a sua génese e identificar os seus responsáveis.

O principal culpado é obviamente o Governo de Portugal, os sucessivos governos, autores de políticas pró activamente castrantes da energia das diferentes regiões de Portugal. Governos que aproveitaram o processo de privatizações para sediarem em exclusivo na capital todo o sistema financeiro e segurador, os poucos grandes grupos estratégicos (PT, Galp, EDP). Em paralelo concentraram o mais possível o funcionamento de todos os Institutos e Empresas Públicas e das poucas entidades supranacionais que se localizaram entre nós.

Não é pois exagero afirmar que 90% das decisões que condicionam o nosso presente e futuro são tomadas num quadrilátero com pouco mais de 200 Km/2, limitada a sul pelo Tejo, a norte pelo rio Trancão, a este pelo Parque das Nações e a oeste pela Serra de Sintra. Assim não é de estranhar que estejamos perante a única região do país com uma média de rendimento per capita próximo da média europeia. Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é pouco inteligente ou não tem arte.
Em tudo isto perde o país e perde o povo anónimo de Lisboa, que tem de conviver com uma cidade maravilhosa, mas que asfixia com o peso deste centralismo. Um peso que inferniza a sua vida e vai expulsando os seus verdadeiros cidadãos para as grandes cidades dormitório periféricas (Lisboa já tem pouco mais de 500 mil habitantes!).

Culpados são também os agentes políticos, económicos e sociais, que a norte não têm sabido unir-se, gerar ideias e projectos mobilizadores, defenderem a sua pertinência, fazerem deles casos de sucesso e imposição nacional.

Como defensor da regionalização político administrativa acho, contudo, que vale a pena alertar os que militam por essa causa para o logro de partir para ela sem prévias medidas cautelares. Medidas que aplanem o caminho de uma verdadeira descentralização.
Um próximo Governo, que tem de significar alternância, terá que dispersar pelo país institutos públicos, repartir pelas regiões competências e lideranças das soberanas empresas públicas, transferir mais competências para autarquias e outras comunidades locais, conceder qualificados poderes de decisão aos múltiplos órgãos descentralizados da administração, definir regras orçamentais que obriguem a uma justa e sistemática repartição dos escassos recurso da nossa comunidade. Quando isso acontecer a comunicação social regressará ao país real e será um factor decisivo de igualização de oportunidades.

Até lá ancoremos a esperança nas poucas instituições que por aqui vão sobrevivendo com êxito. Entre elas destacam-se poucas, numa primeira linha talvez só três, a Universidade do Porto, o Futebol Clube do Porto e o Jornal de Notícias. Que outras aprendam com o seu exemplo.»
Luís Filipe Menezes
JN, 29/08/2010


Neste seu artigo de opinião, Luís Filipe Menezes diz muitas verdades, mas a ideia que prespassa de que o centralismo começou há 15-20 anos atrás não é uma delas. Contudo, é inteiramente verdade que Portugal é um dos países mais centralistas da Europa e que este centralismo asfixiante se tem vindo a agravar nos últimos anos (há mesmo quem afirme que Sócrates é o governante mais centralista desde o Marquês de Pombal).
E, infelizmente, também não é verdade que em termos da comunicação social, o Jornal de Notícias se possa comparar à Universidade do Porto (a maior do país e a mais bem classificada nos rankings internacionais) e ao Futebol Clube do Porto, que é "só" o clube português de mais sucesso (a nível interno e externo) no pós-25 de Abril.

Nota: A inserção das imagens no texto e os destaques a negrito são da minha responsabilidade.
Imagens: JN, Fórum Trás-os-Montes

sábado, 26 de junho de 2010

Do Terreiro do Paço, nem bom vento...


Em Fevereiro passado, num artigo intitulado 'Gallaecia, centralismo e desporto', escrevi o seguinte: «o poderosíssimo loby centralista tudo fará para boicotar, atrasar ou dificultar todos os projectos ou iniciativas que contribuam para fazer sombra à "capital do Império"».

Uns dias depois, da capital vinha a confirmação de uma notícia pré-anunciada: o TGV Lisboa - Madrid é para fazer já, enquanto que as linhas Porto - Lisboa e Porto - Vigo são adiadas para as calendas.
E continuando na sua senda de "apoio" à dinamização da economia na região mais afectada pela crise - é no Norte que fecharam mais empresas e que está a maior parte dos desempregados -, o governo de Lisboa decidiu que esta era a altura ideal para portajar três das sete SCUT existentes em Portugal, com a "coincidência" de serem todas no Norte...

A propósito desta medida do governo de Lisboa, no dia 23 de Junho, em entrevista à RTP, o Secretário-Geral do Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular, Xoan Vásquez Mão, afirmou o seguinte:
"Quem vem de férias, ou quem vem ao IKEA, ou passar um fim-de-semana ao Porto, ou apanhar o avião ao Porto tem que fazer fila na bomba de gasolina para recolher o aparelho, tem que pagar, depois receber a devolução. Não sabe como é que funciona. Se se engana tem de ficar no trânsito à espera. Com tudo isto quem vai passar um dia de férias tranquilamente, ou apanhar o avião, vai chegar incomodado, com mau feitio. Vai antes a Santiago ou vai fazer as compras ao IKEA a La Coruña. Qual é o efeito de não haver dinheiro galego em Portugal? Obviamente não vai haver dinheiro português para gastar na Galiza. Porque a relação é tão forte que todos dependemos de todos."

E mais adiante acrescentou:
"Se associarmos isto ao TGV, à dificuldade nas comunicações, o problema está a fazer com que a Galiza, que tem um sentimento muito especial para com Portugal - para nós é a nossa casa, somos a mesma gente - comece a olhar para o Cantábrico, a virar costas, e isso pode acabar por ser um problema muito grave. E aqui não é um problema com o Norte de Portugal, é um problema com o Governo português que parece pretender levantar todas as dificuldades possíveis para que esta Euro região não avance."

De facto, e como escreveu Paulo Morais no JN de 09/06/2010, "o centralismo é doença crónica de sucessivos governos. O fenómeno não é de agora. Com o advento da democracia em 1974, os governos de Lisboa, tendo perdido os territórios ultramarinos, contentam-se agora com colonizar e espoliar o resto do continente. Mas esta atitude atingiu o absurdo e a sem vergonha nos últimos meses. Os exemplos são inúmeros. O Governo continua apostado em construir essa obra inútil e cara que é o TGV de Lisboa para Madrid, mas cancela a expansão do metro do Porto, que serve milhões de passageiros e é imprescindível para o desenvolvimento da sua Área Metropolitana. Quando o Estado ameaça falência e há necessidade de cobrar portagens nas SCUT, o Executivo opta por sacrificar o Grande Porto e o Norte."

E o que é que isto tem a ver com o futebol e, em particular, com o Futebol Clube do Porto? Então o FC Porto não é um clube nacional?
Sim, é indiscutível que o FC Porto cresceu muito nas últimas décadas, conquistando milhares de adeptos de norte a sul de Portugal e nas regiões autónomas. Mas o FCP não pode ser dissociado da cidade do Porto, da Área Metropolitana do Porto e, inclusivamente, do Norte de Portugal, porque é aí que estão as suas raízes e concentrada a esmagadora maioria dos seus adeptos.

À semelhança do Barcelona e de outros grandes europeus, o FC Porto possui uma identidade e forte matriz regional. Contudo, sendo esta uma das suas principais forças, pode e vai tornar-se uma fraqueza se a economia da área metropolitana e da região Norte continuar a definhar. Sobre isto não haja ilusões. E é por isso que este assunto - centralismo, regionalização, capacidade económica das regiões, PIB per capita - tem mais a ver com o futebol e com o FC Porto do que alguns pensam.

(*) Durante muito tempo, dizia-se que "de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento". Agora, que Castela deixou de ser uma ameaça, é do Terreiro do Paço (símbolo maior do centralismo sufocante que asfixia o país) que não sopram bons ventos para os portugueses de Elvas, Valença, Bragança, Porto, Faro, Viana, etc.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Uma análise SWOT - Ameaças

Por Ana Martins

Uma análise SWOT - Mais-valias
Uma análise SWOT - Fraquezas
Uma análise SWOT - Oportunidades




4. Ameaças

a) A saída de Pinto da Costa, por tudo o que isto acarreta do ponto de vista organizacional, de competência, de estrutura, de baluarte de reserva moral. Um mito que mete respeito. É raro ter um Presidente que tenha ganho mais títulos do que os jogadores ou treinadores que contrata e isso coloca o nível de expectativa muito lá em cima, o que é excelente para quem chega. Uma das ameaças consubstancia-se, portanto, no que uma liderança como a de PC costuma trazer a uma organização quando lá não está. Espera-se, então, que o modelo de governação adoptado seja capaz de dar resposta a esta ameaça.

2) Um país de tendência centrípeta e centrífuga, em que o que não é Lisboa não é valorizado na proporção devida. Enquanto durar a lenga lenga dos 6 milhões, as TV’s, as rádios e os jornais vão continuar a achar que dar mais airplay ao SLB/SCP do que a FCP. Isto corresponde a menor valor de sponsors, menos margem de manobra na negociação nos direitos televisivos, menor potencial de angariação de novos adeptos.

3) Um país com o modelo económico que tem - na conjectura económica/social/política que tem - com as debilidades estruturais que tem. Nunca teremos o mesmo mercado de Espanha, França ou Inglaterra, também porque não sabemos, como país ex-colonizador, saber rentabilizar a nossa ligação histórica a países emergentes como Angola e Cabo Verde (falo nos que apresentam taxas incríveis de crescimento PIB por ano; de fora deixo o maior exemplo, o Brasil, porque não estou a ver que receptividade terão eles ao futebol português). Nunca seremos, por conseguinte, uma grande potência do futebol mundial como entidade auto-suficiente do ponto de vista económico como o Man Utd, o Real Madrid, o Barça ou Inter/AC Milan. Mas temos conseguido sempre competir com eles ao mesmo nível desportivo, apesar desta ameaça que é viver num país demasiado pequeno para a nossa competência.

4) A Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Neste domínio não me vou alargar, porque entendo que uma análise swot se deve dedicar àquilo que, pelo menos parcialmente, está dentro do controlo da própria organização. Sabemos, no entanto, com o que podemos contar: critérios desiguais, hidden agendas, castigos a la carte. Contra isso, nada podemos fazer. Apenas continuar a lutar para sermos os melhores, sempre, “contra tudo e contra todos”. E a vencer desde 1893.

Nota final: Em nome do 'Reflexão Portista', o nosso agradecimento à Ana Martins pela elaboração desta análise distribuída por quatro artigos. Algumas das opiniões são polémicas, o que é natural, mas a Ana Martins teve a coragem de as expressar publicamente, num blogue que no último mês foi lido diariamente por uma média de cerca de 1400 pessoas, assinando os artigos com o seu nome.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Gallaecia, centralismo e desporto


"Depois do 25 de Abril, era natural ter reuniões no Porto com administradores de bancos e de companhias de seguros. O próprio BPI e BCP, que nasceram na CCDR-Norte, já não têm a administração no Porto. Hoje em dia, um jovem quadro da banca que esteja no Porto está sem perspectivas de evoluir na carreira."

"Há cerca de uma década, o PIB per capita da Galiza e do Norte de Portugal era idêntico e agora a diferença é superior a 40%. A grande diferença entre as duas regiões ibéricas reside na organização do respectivo sistema político."

"Se imaginássemos que os Estados centrais implodiam, a Galiza e o Norte de Portugal formam claramente um país, partilhando características muito próprias."

Estas três frases foram proferidas por José Silva Peneda, ex-ministro de Cavaco Silva, ex-eurodeputado do PSD e presidente do Conselho Económico e Social, numa entrevista publicada pelo JN em 19 de Dezembro passado.

Embora o centralismo do Terreiro do Paço seja cada vez mais descarado, com frequentes atitudes discriminatórias face ao resto do país, não existe (ainda) um sentimento separatista significativo no Norte de Portugal. Contudo, penso que o Porto e o Norte teriam muito a ganhar se aprofundassem a ligação à Galiza, tirando partido do seu passado comum e das características sócio-culturais que os unem. Daí que seja estratégico dar vida à Euro-região Norte de Portugal - Galiza, reforçar o papel do Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular e construir o TGV Porto-Vigo em linha mista (para passageiros e mercadorias), obrigatoriamente prevendo uma estação num aeroporto Sá Carneiro com gestão autónoma. Evidentemente, o poderosíssimo loby centralista tudo fará para boicotar, atrasar ou dificultar todos os projectos ou iniciativas que contribuam para fazer sombra à "capital do Império", mas cabe-nos a nós, portuenses, minhotos, durienses e transmontanos, lutar por aquilo que nos permita, e aos nossos filhos, ter um futuro melhor.

E para além de uma integração económica que se deseja cada vez mais forte, há claramente espaço para iniciativas conjuntas de promoção do turismo de natureza, histórico, religioso e gastronómico, criando rotas que envolvam locais e monumentos das duas regiões nestes domínios.
O governo português e o Turismo de Portugal não estão interessados nisso? Admito que não, mas para que servem a CCDR-N e os deputados eleitos pelos distritos do Porto, Braga, Viana do Castelo, Vila Real e Bragança?

E o desporto?
Na aproximação à Galiza o FC Porto já deu um pequeno passo, quando organizou uma edição do Dragon Force na localidade galega de Redondela, província de Pontevedra, entre os dias 20 e 24 de Julho de 2009. Isto para além do actual treinador da equipa sénior de basquetebol - Moncho López - ser galego (natural de Ferrol), o que pode potenciar algum intercâmbio transfronteiriço ao nível desta modalidade.

Também existe (existiu?) uma Copa Gallaecia de selecções de futebol jovens, cuja 2ª edição foi realizada em 2007 envolvendo selecções das Associações de Braga, Porto, Bragança, Viana do Castelo, Vila Real, Coruña, Ferrol, Lugo, Ourense, Pontevedra, Santiago e Vigo. Contudo, foi uma iniciativa com pouca ou nenhuma visibilidade e, por isso, sem qualquer impacto público.

Ora, como fenómeno de massas, o futebol é um meio privilegiado que poderia ser usado no aprofundamento da integração entre o Norte e a Galiza, mas para isso seria necessário envolver os principais clubes desta Euro-região. Nesse sentido, o Eixo Atlântico seria a entidade ideal para dinamizar a organização de um Torneio de Verão que juntasse clubes como o FC Porto, Braga, Vitória Guimarães, Gil Vicente, Chaves, Deportivo Corunha, Celta Vigo, Santiago Compostela, Pontevedra entre outros, com edições anuais a serem realizadas, alternadamente, no Norte de Portugal e na Galiza. Para além dos municípios dos clubes envolvidos, estou convencido que não seria difícil arranjar patrocinadores dos dois lados da fronteira, bem como descontos da hotelaria (com preços mais favoráveis para os adeptos) e, para uma maior divulgação, contar também com o apoio da comunicação social local e regional (TV Galicia, Porto Canal, Jornal de Notícias, Faro de Vigo, Diário do Minho, etc.).

A aproximação à Galiza, por si só, resolve o problema deste centralismo sufocante da capital que está a abafar o país? Não, mas a luta contra o centralismo é uma “guerra” de muitas “batalhas”, que só poderá ser vencida se a população e os principais actores da região se unirem nesta luta. A propósito do vergonhoso caso Red Bull Air Race, um participante galego escreveu o seguinte no Fórum Gallaecia:
"Dende a Crunha quero mandar un conselho... a loita polo proprio comeza nas pequenas victorias que um mesmo pode acadar para o país. Mostrar um descontento a nível social grande pode fazer recuar a Lisboa, e mesmo o político de turno. Forza!"
Haja líderes no Norte, políticos, empresários, académicos, agentes culturais, etc., que tenham visão estratégica e queiram travar esta "guerra", que eu estou convencido que não faltarão "soldados" para engrossar as fileiras.


P.S.1 Gallaecia ou Callaecia era o nome de uma província romana que abrangia o território do noroeste peninsular e que corresponde, aproximadamente, às actuais regiões da Galiza, Asturias (parte Oeste) e Norte de Portugal. Gallaecia vem do nome Kallaico referente a uma tribo que vivia nas margens do rio Douro - os calaicos - que prestavam culto a Cal-Leach. Em 137 a.C., depois de ter derrotado os lusitanos (e da morte de Viriato), Decimus Junius Brutus venceu a batalha do Douro e avançou, de Sul para Norte, para a conquista daquilo que viria a ser designado pelos romanos por Gallaecia (um ano depois o Senado romano concedeu-lhe o título de Callaicus, "o calaico"). Ao contrário do que os manuais escolares nos querem fazer crer, o povo originário de Portugal não é (apenas) os lusitanos e não foi concerteza por acaso que os romanos decidiram separar a Gallaecia das restantes regiões da Hispânia, incluindo da Lusitânia.

P.S.2 Um vídeo sobre a Gallaecia e a herança Celta.

P.S.3 Penso que seria escusado dizê-lo, mas mais uma vez repito que nada me move contra os "alfacinhas". O cancro que suga o país e que é preciso combater não é Lisboa, mas sim o centralismo, em que muitos dos seus protagonistas (Cavaco Silva, Durão Barroso, José Sócrates, João Cravinho, Pacheco Pereira...) nem sequer são lisboetas de origem.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Os Patrões do centralismo

«Tentei ontem conhecer o nome do vencedor do Campeonato do Mundo dos Jovens Pasteleiros, mas não o consegui. O site da Associação de Hotelaria e Similares de Portugal (AHRESP) disse-me que eu não tinha permissão para aceder a essa extraordinária informação sobre a prova que decorreu de 31 de Março a 2 de Abril do ano passado em Lisboa.
Apesar de esse magnífico certame ter tido o apoio do Turismo de Portugal no valor de 50 mil euros - tanto como o Fantasporto, e mais do que todo o distrito de Aveiro durante todo o ano de 2008 - não consigo assim dizer aos meus eventuais leitores quem foi esse magnífico vencedor, como não sei se se distinguiu a cozinhar o “Melhor do Mundo” ou rabandas.

Os números que a Câmara do Porto divulgou sobre os apoios dados pela Turismo de Portugal em 2008 são, de facto fantásticos: 61% (43 milhões de euros) foi para o concelho de Lisboa. Concelho, repito, nem sequer é o distrito.
Dizem-me que é por causa das contrapartidas pagas pelo Casino de Lisboa e que isso explica tudo.
Para mim isso não explica nada. Ou então deixem-me fazer um casino no Porto. Melhor ainda: apliquem a essas contrapartidas, o princípio do “spill over” que permite gastar dinheiros europeus em regiões já com nível acima da média europeia, tal como tem acontecido com inúmeros benefícios para Lisboa, e assim as coisas já ficam mais justas.

Agora, quererem convencer-me de que o projecto “Ao domingo o Terreiro do Paço é das pessoas”, que teve direito a nada menos de 600 mil euros, ou esse piramidal projecto de animação dos coretos de Lisboa que mereceu 300 mil euros, são boas aplicações dos dinheiros do Turismo de Portugal, isso não conseguem. Se é a lei que está mal, ela já se devia ter mudado.
Curiosamente Luís Patrão, patrão da Turismo de Portugal, em declarações ao GP, justificou há dias o corte no apoio ao Concurso de Saltos Internacional de Matosinhos com o facto de o dinheiro não estar a servir para a internacionalização da prova, como era suposto. As “Redes pedonais e percursos cicláveis de Lisboa” tiveram direito a 1.1 milhões de euros e já agora, gostava de saber em que é que internacionalizam a nossa querida capital.

Mas por aqui percebe-se bem porque não há Regionalização. Como é que isto iria ser possível num quadro regionalizado? As Regiões teriam muito maior capacidade na barganha por estas verbas e não iria ser fácil ao Estado colocar o dinheiro todo no mesmo cesto. Esta gente, como a que manda no Turismo dito de Portugal, é precisamente a que tem poder e que não é escrutinada. Com a Regionalização seria, fatalmente.

Mas também, no meio disto tudo, gostaria de ter visto uma reunião da Junta Metropolitana do Porto que congregasse os seus municípios numa crítica clara ao que tem sido este regabofe do Turismo de Portugal, ao que foi a história da Red Bull e da sua viagem para Lisboa porque “havia limitações no Porto em Gaia”, como disse o responsável da Red Bull em frente aos autarcas António Costa e Isaltino Morais, sentados lado a lado.»
Manuel Queiroz
in 'Grande Porto', 24/12/2009


Ainda no Semanário Grande Porto, e a propósito das declarações que Bernd Loidl, CEO da Red Bull, fez em Lisboa sobre as "limitações naturais" do rio Douro, Luís Filipe Menezes afirmou: "São uns aldrabões e uns mentirosos. Sempre elogiaram, sempre disseram que no Douro tinham as melhores imagens dos aviões, os pilotos sempre disseram que gostavam imenso de voar aqui".
E sobre as explicações piedosas do presidente da CM Lisboa, Menezes reagiu da seguinte maneira: "Já o que diz o dr. António Costa é conversa fiada. Ainda tinha que lhe agradecer e fazer uma festa de homenagem".

"Limitações naturais"? Não tinha reparado que do dia 4 de Dezembro para agora as margens do Douro tinham ficado mais estreitas. De outro modo, como é que a corja que se juntou para levar a Red Bull Air Race do Porto para Lisboa, justifica que nesse dia (4 de Dezembro), numa reunião realizada com os presidentes das câmaras do Porto e de Lisboa, os responsáveis austríacos e portugueses da organização da prova tenham proposto aos autarcas do Norte a realização do evento alternadamente entre Lisboa e Porto?

Nota: A gravura que ilustra este artigo é da autoria de Diogo Oliveira.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Lamentável!


"É uma situação normal [a transferência da Red Bull Air Race para Lisboa] e só vem sublinhar que o tão falado prestígio nacional do Presidente da C.M. do Porto é falso!"
Pinto da Costa, em declaração enviada à Lusa


É triste que o presidente do FC Porto coloque as suas guerrinhas pessoais acima dos interesses do Porto, do Norte e do país, um país que deveria ser menos centralista e com menores assimetrias regionais. Esta lamentável declaração está ao nível e vem na mesma linha das que foram feitas pelo líder do PS-Porto, Renato Sampaio, mas esse percebe-se porquê.

Não reconheço este Pinto da Costa, mesquinho, pequenino e sem visão estratégica.

A corda está esticada


«Quando colocados na balança as perdas e os ganhos, a realização da Red Bull Air Race era um ponto a favor na capacidade de iniciativa e de realização nortenha. E um mecanismo de captação de turistas nacionais e de todo o Mundo. Agora, mesmo isso perdeu-se. Nada perdura e tudo se deslocaliza, quando não fecha as portas, tal como acontece na indústria têxtil e com algumas importantes sedes de associações ou de institutos.
A própria Associação Empresarial de Portugal (AEP), com centenas de membros, que sempre teve a sua sede no Porto, fez as suas malas. Em Outubro, concretizou-se a fusão da AEP com a Associação Industrial Portuguesa.
A nova associação passou a chamar-se Confederação Empresarial de Portugal e a ter sede em Lisboa. Outro exemplo de fusão deu-se no mercado bolsista. Em 2000, a Bolsa de Valores de Lisboa e a Bolsa de Derivados do Porto fundiram-se e deram lugar a uma nova sociedade anónima.
No caso da Banca, após sucessivas aquisições e fusões, ficaram dois grandes grupos na região, o Millenium BCP e o BPI. Mas, se as sedes continuam no Porto, os centros de poder e de decisão deslocam-se para a capital.»
in JN, 17/12/2009


Depois do Ministro da Economia ter dito no Parlamento que nada sabia sobre este assunto; depois do presidente do Turismo de Portugal ter afirmado que também nada sabia, confirmou-se aquilo que toda a gente já sabia: a Red Bull Air Race levantou voo do Porto e aterrou em Lisboa.
A negociata e as manobras de bastidores eram notórias e, conforme se comprova, a reunião do passado dia 4 de Dezembro com os presidentes das câmaras do Porto e Gaia não passou de uma fantochada.

Percorrendo os jornais online (PUBLICO, Jornal Notícias, etc.) e dando uma vista de olhos aos comentários que a confirmação deste "roubo" provocou, verifico que não estava a exagerar quando publiquei o artigo “Nós só queremos Lisboa a arder”. É, por isso, lamentável que pessoas responsáveis continuem a assobiar para o lado e não percebam, ou não queiram perceber, que esta golpada é mais uma acha numa enorme fogueira e que serviu para agravar o clima de ódio e divisão que o centralismo sufocante vem provocando em Portugal.

A corda está cada vez mais esticada e um dia vai rebentar. Quando isso acontecer, escusam de vir com discursos moralistas.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Os yes-men


“É óbvio que esta não é uma situação boa para a Área Metropolitana do Porto, mas isto só demonstra a incapacidade de Rui Rio e Luís Filipe Menezes de negociarem com a Red Bull. O doutor Rui Rio tem deixado sair tudo do Porto, à excepção da corrida de calhambeques.”
Renato Sampaio, presidente da federação distrital do PS-Porto
in ‘Grande Porto’, 11/12/2009


Quer seja nos partidos políticos, quer seja nos clubes de futebol não faltam yes-men. Contudo, mesmo entre os yes-men, há os que fazem questão de se destacarem pelo seu lambe botismo e por serem mais papistas que o papa. É o caso deste Renato Sampaio, transmontano nascido em Alijó, e que a partir da distrital do PS-Porto tem trilhado uma carreira política fulgurante.

Ao contrário do também socialista Guilherme Pinto, presidente da câmara de Matosinhos, que lamentou o provável desvio da Red Bull Air Race para Lisboa e, inclusivamente, disponibilizou-se para articular esforços com as câmaras de Porto e Gaia, Renato Sampaio sentiu necessidade de vir a público atacar o poder político local para, dessa maneira, encontrar argumentos que suportem a lógica centralista subjacente a este “roubo”.

Mas apesar da areia, misturada com calhambeques, que nos quer atirar para os olhos, todos sabemos que esta questão tem pouco a ver com os partidos que têm alternado no governo. Quer o PS, quer o PSD, quando chegam ao poder alinham pela mesma cartilha: metem a regionalização na gaveta e aprofundam o centralismo. Aliás, sabendo isso mesmo, Rui Rio nunca partidarizou. Pediu “bom senso ao poder central” e teve o cuidado de dizer “não estou a falar deste Governo, isto é transversal aos partidos”.

Ora, se em vez de querer mostrar serviço ao “chefe”, Renato Sampaio tivesse mobilizado os deputados do PS eleitos pelo distrito do Porto para uma luta activa em prol da manutenção da prova no rio Douro, tinha prestado um melhor serviço à região por onde foi eleito deputado. Mas, conforme afirmou Pedro Baptista (lembram-se das crónicas acutilantes que ele escrevia em O JOGO?) na conferência de imprensa de apresentação da sua candidatura à Federação Distrital do Porto, “o PS-Porto está completamente passivo. O líder distrital não tem passado de uma caixa de ressonância do poder central”.

De facto, se estes “provincianos” que se passeiam pelos corredores do poder não se esquecessem das suas origens e de quem os elegeu, talvez a realidade do Porto, do Norte e do País fosse diferente, mas é esta a triste realidade.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

“Nós só queremos Lisboa a arder”


"Portugal é cada vez mais um país estrangulado e centralista. Os momentos que se vivem no nosso país são extremamente delicados e difíceis para todos aqueles que querem fazer alguma coisa fora da capital do império.
Por mais pasquins que Lisboa tenha ao serviço e à promoção dos seus clubes e entidades, vamos continuar a lutar com a dignidade das gentes do Norte, com as gentes deste país, de Norte a Sul, que não se confundem com o poder centralista da capital.
O FC Porto está a mais no país que temos, mas é necessário para o país que nós queremos que Portugal seja."
Pinto da Costa, 27/11/2009

Coincidência ou não, estas declarações de Pinto da Costa na Casa do FC Porto de Amarante, foram feitas no mesmo dia em que Manuel Brito, vereador do Desporto da autarquia lisboeta, confirmou ao jornal PÚBLICO a existência de negociações com a Red Bull Portugal tendo em vista desviar a Red Bull Air Race do Porto para Lisboa. Segundo o PÚBLICO, para além da Câmara de Lisboa, os contactos da Red Bull com as entidades portuguesas têm também envolvido o Turismo de Portugal e a Secretaria de Estado de Turismo.

Perante isto, e como seria de esperar, os presidentes das câmaras municipais do Porto e de Vila Nova de Gaia já reagiram: Rui Rio de forma contida e politicamente correcta (a ambição de chegar a líder do PSD e depois a primeiro-ministro a isso obriga) e Menezes sem tibiezas, pondo os pontos nos iis.

"A empresa [Red Bull] tem todo o direito de ir para onde quer. Depois há o financiamento público e para-público de empresas públicas (...) Não estou a falar deste Governo, isto é transversal aos partidos. (...) A seguir às eleições, fomos contactados para saber se estávamos interessados em ter a prova no Porto e dissemos que sim"
Rui Rio, 27/11/2009

"É uma situação escandalosa, o Estado estar a suportar um país a duas velocidades. Não tem nada contra as pessoas de Lisboa, não tem nada contra a Câmara de Lisboa. Tem contra um atitude, mais uma, discriminatória do Estado, que directa ou indirectamente, está a esquecer-se que o Porto é fundamental para o desenvolvimento económico e social do país"
Luís Filipe Menezes, 27/11/2009


Menos soft que os políticos, foi a reacção inflamada de dois conhecidos comentadores e respeitados elementos da sociedade civil portuense:

“O Porto não perdeu, o Porto foi roubado, como de costume. Como já se sabia, porque já no Verão isso foi falado, o Governo resolve subsidiar o Red Bull Air Race desde que seja realizado em Lisboa, no Tejo. O governo de hoje em dia é um governo perfeitamente colonial, que vive concentrado em Lisboa, que concentra todo o investimento em Lisboa e acha que nós somos seus colonos e seus súbditos e portanto não está interessado em investir aqui, principalmente no turismo. Tem-se visto o comportamento do governo relativamente ao fomento do turismo nesta região”
Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto

"O Porto é permanentemente roubado, na medida em que há uma transferência sistemática de impostos dos cidadãos da região, para a capital do Império. Isso é uma lógica que vem de sempre. Já não temos colónias, já não temos Macau, já não temos Timor, já não temos nada desse Império, só que Lisboa continua a funcionar como uma capital imperial. Quer dizer que cada vez que algum projecto com alguma notoriedade, com algum valor para o país, como é claramente o caso do Red Bull Air Race, tinha de haver esta vontade por parte da capital do Império, de nos roubar, penso que é a palavra correcta, esta iniciativa aqui ao Norte. Acho que é uma vergonha"
Paulo Morais, ex-vereador da Câmara do Porto


Desta vez, até o Senhor Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, reagiu: "esta era uma maneira da região e as duas cidades do rio ficarem mais conhecidas não só em termos portugueses, mas sobretudo, em termos internacionais: falar-se do Porto, de Gaia, do Douro e do Norte".

Era, de facto, uma maneira de promover a nível internacional a marca Porto, Douro e Norte de Portugal, dinamizando o turismo na região, mas está visto que isso não interessa aos governantes deste país. O que é "estratégico" é promover mais e mais eventos em Lisboa, nem que sejam no mesmo dia (veja-se o caso da XIX Cimeira Ibero-Americana e da comemoração do Tratado de Lisboa). Aliás, habituados a que tudo o que se passa em Portugal tenha de ser em Lisboa, há mesmo quem olhe para estas reacções com a altivez e o desdém próprios de quem lida com "provincianos", a quem, de vez em quando, os magnânimos senhores da capital distribuem umas migalhas que sobram dos banquetes na corte. Na sua cegueira, de quem não vê para além do eixo Lisboa-Cascais, ainda não perceberam que a reacção a esta negociata não é uma tempestade num copo de água, mas sim a consequência da gota de água que faz transbordar um copo demasiado cheio.

Depois de uma década de centralismo cavaquista, que meteu a regionalização na gaveta e avançou em força com um modelo de concentração e desenvolvimento unipolar, ostentando a riqueza da nação no Centro Cultural de Belém e na EXPO'98, estamos novamente a assistir a um período em que os recursos do país são sugados para a "capital do Império" e para as mega obras para aí projectadas - aeroporto e terceira ponte. Paralelamente, verbas do QREN são roubadas ao Norte e canalizadas para Lisboa (graças a um tal efeito difusor ou "spill over") e, como o dinheiro não chega para tudo, a 2ª fase do Metro do Porto foi adiada para as calendas e o TGV irá avançar a duas velocidades (a ligação de Lisboa a Badajoz avança já, enquanto que a do Porto a Vigo ver-se-á quando avançará).

Sócrates e a sua entourage andam a brincar com o fogo. Não devem ter lido, ou se leram não perceberam, o que o jornalista Jorge Fiel escreveu no Expresso, em 13 de Agosto de 2005:
"O grito de raiva «Nós só queremos Lisboa a arder» é a expressão (grosseira) da revolta de quem se sente discriminado. A única vacina eficaz contra esta raiva é corrigir as assimetrias que desequilibram o país."

O problema é que por via da acção de sucessivos governantes pirómanos instalados no Terreiro do Paço, as assimetrias são cada vez maiores. A região rica (Lisboa) está cada vez mais rica e as pobres (Norte e Interior) estão cada vez mais pobres.

«Entalada entre o Suriname e o Brasil, na América do Sul, fica uma das duas únicas regiões dos Quinze países da União Europeia cujo índice de riqueza é mais baixo do que o do Norte de Portugal. Trata-se da Guiana francesa que, a par da zona de Dytiki Ellada, na Grécia (...) são as únicas regiões de países que entraram ao mesmo tempo (antes, no caso francês) que Portugal na União Europeia e que têm um índice de pobreza superior ao nortenho. (...) no início da década, o poder de compra das famílias nortenhas correspondia a 86% da média nacional (a região de Lisboa estava nos 137%); cinco anos depois, quase todas as zonas do Norte tinham maior poder de compra, mas esse ganho foi anulado pelo mergulho de uma só: o Grande Porto.»
in JN, Dossier ‘Norte em crise’


Nada tenho contra os "alfacinhas" e escusado será dizer que não quero ver Lisboa a arder, mas com o desemprego a alastrar no país e, particularmente, no Grande Porto e com as oportunidades a serem concentradas numa única região, não me admiraria se um dia destes já não forem apenas os Super Dragões a entoar este cântico.