Mostrar mensagens com a etiqueta defesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta defesa. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Atacar bem? Comecem por defender bem!

Nos últimos 30 anos do futebol houve dois treinadores que mudaram radicalmente os conceitos de jogo, duas referências máximas do futebol ofensivo de alto quilate. Ambos vão passar à história porque as suas equipas jogam de forma atractiva, ofensiva, sem piedade do rival quando aumentam o ritmo para uma velocidade que mais ninguém aguenta. E no entanto, para ambos, o êxito do ataque parte sempre de um excelente trabalho na defesa. Querem atacar bem? Então preocupem-se sempre por garantir que a equipa sabe, antes que tudo, defender melhor. Sacchi e Guardiola sabem perfeitamente do que falam. As suas equipas partiram sempre de um principio básico. São equipas de treinador até ao último terço, equipas de jogadores no último. Este FC Porto dista muito desses princípios.

José Peseiro não é nem Arrigo Sacchi nem Pep Guardiola, está claro. Mas é, e sempre foi, um treinador que pensa de outra forma. As suas equipas são de tracção dianteira. As suas linhas defensivas sofrem muito e com regularidade pelo posicionamento em campo do seu 4-2-3-1. Peseiro começa a pensar o jogo com a bola no circulo central. Trabalha bem - tem-se apreciado evidentemente a diferença - o jogo ofensivo, sobretudo as sobreposições entre os interiores e os extremos no complemento ao ataque. Mas o jogo dos médios defensivos, laterais e centrais peca de ingénuo. A sua filosofia de "se o rival marca dois, eu marco três", lembra muito o futebol sul-americano ou a realidade europeia pre-anos 70 mas está bastante desfasada da realidade. Até uma equipa de estrelas absolutas e inquestionáveis como o Real Madrid da primeira geração dos "Galácticos" percebeu isso quando o génio da sua linha avançado pagou ano após ano os erros tácticos a que a sua linha defensiva estava exposta. Não, o modelo Peseiro - e de alguns treinadores da sua escola - hoje em dia pode ser atractivo em momentos concretos do jogo mas é pouco fiável. Tudo porque o seu enfoque de jogo parte da premissa que a defesa é um elemento secundário na coordenação colectiva. O jogo começa mais rápido, desde atrás, menos pensado e a cada perda de bola os jogadores da linha mais recuada encontram-se, quase sempre, mal posicionados. Tal é a vocação ofensiva que muitas vezes não existe um fio de conexão entre os centrais e os laterais, por um lado, e os laterais e os médios interiores, por outro. Nesse cenário não é difícil, sobretudo a equipas que jogam no espaço e aproveitam a velocidade para contra-atacar - como são quase todos os clubes da liga portuguesa - encontrar oportunidades para marcar. Depois é um jogo de roleta russa. A eficácia do rival, a eficácia própria, a capacidade emocional de resposta, o fluxo ofensivo criado, tudo entra numa equação perigosa. O triunfo sobre o Moreirense - por 3-2 com uma reviravolta de dois golos desfavoráveis - é o perfeito exemplo desse puzzle. Peseiro pode sentir-se triunfal porque a sua ideia prevaleceu (o rival marca dois, eu marco três), mas o seu esquema parte de um principio perigoso. É altamente provável que te marquem sempre mas não podes garantir que tu vais marcar sempre mais um. A derrota antes da à visita à Luz com o Arouca - que pode ter sido decisiva em contas para o título - é o perfeito exemplo disso mesmo.



O maior defeito que os adeptos apontavam - e muitos com razão - a Vitor Pereira e a Julen Lopetegui (mais no seu caso que tinha melhor matéria-prima) era a tremenda dificuldade de passar de uma boa organização defensiva a um jogo ofensivo eficaz e vertical. Eram o modelo oposto de Peseiro. Para ambos os treinadores - claramente da escola Sacchi/Guardiola - as suas equipas começavam a pensar-se desde o momento em que o guarda-redes colocava a bola em jogo. Era importante, não, fundamental, uma boa coesão defensiva e articulação entre sectores, um avanço progressivo das tropas antes de explodir o rastilho final no último terço.
Quando bem executado o modelo propiciou grandes jogos colectivos mas se Vitor Pereira quase nunca teve arsenal ofensivo com essa inteligência de jogo e talento (no seu primeiro ano teve de abdicar do poder de explosão de Hulk para colocá-lo como referência ofensiva e no segundo faltou-lhe o brasileiro para conectar com Jackson), já Lopetegui pecou de erros próprios na concepção de jogo colectivo. No entanto, ambos perfilavam a ideia de que a equipa tinha de funcionar como um todo nos primeiros três quartos de campo para depois permitir a explosão do talento individual no último terço. A defesa, nos dias de Vitor Pereira, era absolutamente tremenda na ocupação do espaço e no controlo da zona e com Lopetegui - apesar de Fabiano, Marcano, Maicon ou Indi, jogadores de perfil muito inferior - foi uma das melhores de todas as ligas europeias enquanto que na Champions, não fosse pelo massacre de Munique - um erro de gestão técnica tremendo - teria igualmente terminado o torneio nas menos batidas. Não esperem ver o mesmo com Peseiro.

Tem culpa o treinador do Porto dos golos sofridos recentemente? Sim e não.
A Peseiro não lhe podemos apontar o dedo na concepção do plantel - responsabilidade da SAD e de Lopetegui - nem nos reajustes de Janeiro - responsabilidade da SAD. Ao técnico foram-lhe dados ovos para trabalhar - poucos e podres - e a situação de Maicon (ainda por explicar) apenas piorou o cenário forçando-o a recrutar para as convocatórias dois jogadores com idade de júnior, Chidozie e Verdasca. Nesse cenário - múltiplas lesões, suspensões e reajustes - era absolutamente lógico e natural que houvesse maior permeabilidade defensiva. No entanto o grave nesse cenário é que Peseiro - que quer ser fiel aos seus princípios - uniu às baixas e ao plantel de pobre qualidade uma radical mudança táctica que rasga os princípios assimilados durante ano e meio. Peseiro quer tirar o Lopetegui de dentro da cabeça dos jogadores (olhando para Herrera, como melhor exemplo, está a conseguir) e a sacar o máximo potencial de jogadores que em 4-3-3 posicional renderiam muito pouco (a prova está em Suk, tem tudo para ser um novo Pena, esforçado mas excessivamente dependente do espaço e dos lances divididos para se evidenciar) no sector ofensivo. A consequência é abdicar da segurança defensiva, da estabilidade do jogo desde a retaguarda e dos naturais desajustes no miolo que provocam perdas de bola e contra-ataques do rival. A pré-época não serve apenas para preparar os jogadores fisicamente. É o único momento do ano em que o treinador tem três ou quatro semanas para aplicar as bases da sua ideia que são melhoradas com treinos pontuais. A partir do inicio da temporada o ciclo não permite a implementação de uma nova ideia táctica com êxito assegurado. As sessões de treino medem-se entre recuperação esforço, preparação tendo em conta o rival, garantir estabilidade dos níveis físicos e algum que outro dia dedicado a lances estudados. Não há tempo (nem força, física e mental) para uma pre-epoca em Fevereiro. O clube sabe isso, o treinador sabe isso e os jogadores sabem isso de modo que tudo o que estamos a viver no presente vai contra toda a lógica da gestão de um grupo. E só é possível devido ao desnorte da direcção - que forçou a mudança sem ter um plano B coerente - e o desespero total da falta de rumo que permite acreditar que mudando tudo o que estava feito os resultados, forçosamente, serão diferentes.



O 4-2-3-1 e as ideias de Peseiro, com uma boa pre-epoca, podem triunfar ainda que o mais provável é que sofram nos momentos chave a consequência do poder do controlo de jogo do futebol moderno. De certo modo Peseiro quer parecer-se mais a Paulo Fonseca do que a Vitor Pereira ou AVB. Agora tem todo o crédito do mundo porque nenhum adepto vai reclamar nada a um treinador-bombeiro sem perfil e que chegou num momento de desespero. Mas é preciso ter-se cuidado quando se brinca com o fogo. Velha é a história contada por Sacchi do dia em que van Basten, irritado por tanto trabalho táctico, lhe atirou à cara que ele era a estrela da companhia e que o êxito do Milan dependia dos seus golos. Sacchi sorriu e pactou um desafio. Se van Basten, Gullit, Ancelloti e Donadoni fossem capazes de superar o seu quarteto defensivo numa sequência de ataque a partir do meio campo, dar-lhe-ia razão. Mas se a defesa recuperasse a bola, teriam de voltar a começar o ataque do zero. Durante duas horas a defesa de Sacchi levou a melhor linha de ataque ao desespero. Não marcaram nenhum golo. Van Basten aprendeu a lição. Algo similar fez Guardiola em Barcelona, reforçando sempre às suas estrelas ofensivas que tudo começava a partir da conexão Valdés-Pique-Puyol-Busquets. Ninguém espera um golpe de génio táctico de um treinador com dez anos de fracassos acumulados às costas mas jogos como o do último fim-de-semana também não podem surpreender ninguém. Com um plantel de remendos querer jogar no fio da navalha pode provocar doses de adrenalina que o jogo dormido e pausado do 4-3-3 de Vitor Pereira (sem jogadores de ataque válidos) ou de Lopetegui (sem ideias) eram incapazes de transmitir. Mas a navalha acabará sempre por deixar as suas marcas.



segunda-feira, 3 de março de 2014

Bateu no fundo

Sobre o jogo de ontem em Guimarães, não há muito de novo a dizer. Assim sendo, aqui vão meia dúzia de reflexões curtas.

i) Guarda-redes, defesas e médios defensivos do FC Porto
Helton, Fabiano, Danilo, Otamendi, Mangala, Maicon, Abdoulaye Ba, Alex Sandro, Fernando e Defour.
10 jogadores. Todos eles faziam parte do plantel 2012/2013, que esteve à disposição do treinador bi-campeão Vítor Pereira, o qual, convém lembrar, terminou o campeonato sem derrotas.
Um ano depois, era suposto que estes jogadores (a maior parte Sub-25) tivessem evoluído em termos de cultura táctica e que, fruto de um conhecimento mutuo maior, as rotinas entre eles estivessem ainda mais consolidadas.
Qual é a realidade?
Em termos defensivos, o FC Porto 2013/2014 é um autêntico passador e estes mesmos jogadores, que na época passada formavam uma defesa de betão (14 golos sofridos nos 30 jogos do campeonato), parecem baratas tontas dentro do campo.

ii) O mito do plantel fraquinho
Ainda ontem voltei a ouvir na televisão, como desculpa para esta época horribilis do FC Porto, que o treinador atual não tem à sua disposição Falcao, Hulk, James e Moutinho.
É um facto.
Como também é um facto que na época passada já não houve Falcao e Hulk.
Como também é um facto que nos meses de Janeiro e Fevereiro de 2013 não houve James (lesionado) e Atsu (na CAN) e, em vários jogos, Vítor Pereira teve mesmo de recorrer a jogadores da equipa B (Sebá e Tozé).
Como também é um facto que na época passada não havia Herrera, Josué, Carlos Eduardo, Quintero, Quaresma ou Ghilas, de modo a que o treinador pudesse ter alternativas para o onze inicial ou para situações de castigos, lesões ou abaixamentos de forma dos habituais titulares.

iii) Ghilas
Depois do que já tinha mostrado nos 40 minutos que jogou em Frankfurt, Ghilas voltou a mostrar que pode ser muito útil (se entrar mais vezes antes do minuto 85…) e que no tal plantel fraquinho existem soluções alternativas de qualidade.

P.S. O jornal O JOGO diz que a coisa bateu no fundo. Não estou certo que assim seja e, vendo o que a equipa (não) joga, receio bem do que possa acontecer até ao final desta época.

P.S.2 Não sei assobiar, nunca levei lenços brancos para o estádio e acho lamentável que se insulte o treinador do FC Porto, seja ele quem for.

P.S.3 Se os sócios e adeptos portistas estão descontentes, irritados e querem pedir satisfações a alguém, não é com certeza ao treinador atual do FC Porto que se devem dirigir. Que eu saiba, o clube tem presidente e a SAD tem uma administração, que é quem toma as decisões.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Como nos estamos a defender

Nos últimos tempos tenho estado mais atento às nossas movimentações defensivas por ter reparado que concedemos muitos cruzamentos ao adversário. As razões para esta situação não são do meu conhecimento. Não sei se são a consequência de um comportamento defensivo ou se são o objectivo do comportamento defensivo.

Creio que em parte este sistema defensivo será um resquício de uma estratégia que (com Bosingwa à direita e Fucile à esquerda) apostava na rapidez dos laterais para impedir os cruzamentos. Por outro lado, e apesar de termos perdido a rapidez e capacidade de recuperação nas laterais, este sistema parece-me continuar a funcionar na prevenção de golos pelo facto de possuirmos dois centrais altos, com boa impulsão e com bom jogo de cabeça e um guarda-redes relativamente seguro a sair dos postes.

Há vários elementos, na minha opinião, que sustentam esta tese:

Recuo das linhas avançadas e concentração no centro do terreno
Parece-me consensual que este ano actuamos com as linhas mais recuadas e com uma certa passividade no momento de recuperar a bola. Os jogadores tendem a "amontoar-se" em frente à área sem fazer movimentos de pressão sobre os oponentes, apenas procurando tapar as linhas de passe. A consequência disto é que os nossos adversários tenham tendência para lateralizar o jogo, apostando mais na velocidade nos flancos e nas variações de jogo (mudando o jogo rapidamente para o lado oposto do ataque).

Postura dos laterais
Os nossos laterais têm tido uma atitude mais passiva, fechando mais no centro do terreno e dando mais espaço para a entrada de jogadores pelo flanco. O posicionamento dos laterais quando se encontram no um para um, tem sido na expectativa de se o atacante conseguir passar, que seja para a lateral e não para o centro.

Golos sofridos em remates à entrada da área
Temos sofrido muitos golos em remates de fora da área, e muitos sustos por aparecerem jogadores sozinhos a rematar nessas zonas. Parece-me lógico que sendo essa uma das lacunas da nossa equipa (a falta de agressividade na recuperação em frente à área) que consciente ou inconscientemente se tente que a bola não esteja tanto nessa zona do terreno. Como tal parece mais simples fazer com que o adversário jogue nas laterais e no jogo aéreo (onde o FC Porto costuma ter predominância).


Em resumo, creio que uma parte da estratégia defensiva passa por "dar" ao adversário a linha de fundo, ganhando depois a bola no jogo aéreo dentro da área. Concordando ou não com a estratégia, parece-me que estão a ser aproveitadas as capacidades dos nosso jogadores (jogo aéreo) para suprir outras falhas dos mesmos (agressividade na recuperação da bola).


Quero deixar claro que não tenho qualquer formação na área de futebol. As conclusões a que chego são baseadas exclusivamente em senso comum e na experiência adquirida a ver futebol ao longo dos anos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A aventura portista pela canhota


No passado fim de semana a SAD do FC Porto decidiu avançar para a primeira aquisição deste mercado de inverno, precisamente para o sector que é apontado unanimemente pela imprensa que acompanha o fenómeno desportivo e adeptos portistas como o mais débil da equipa, o lado esquerdo da defesa. Cissohko, proveniente do Vitória de Setúbal, ocupará o lugar vago deixado por Lino que rumou para Grécia.

Na antevisão da partida frente ao Trofense Jesualdo Ferreira aludiu as razões para a contratação do jovem defesa proveniente das margens do Sado:
«Das observações que fizemos, chegámos à conclusão de que não vamos, seguramente, dar um tiro no escuro. Vamos esperar que a sorte o proteja e que as competições o favoreçam. O tempo de ele poder render é mais curto, mais provável e mais previsível do que o de qualquer outro que chegasse de fora».


O treinador portista foi ainda mais longe e definiu o perfil tipo e as dificuldades que o Clube tem enfrentado para encontrar a peça ideal para a sua canhota defensiva:
«Qualquer jogador que possa vir para o FC Porto terá de entrar para jogar directo, mas para isso tem de ter um determinado nível, que custa x, e para esses não há dinheiro. Assumimos isso. O mercado que mais nos interessa, pelas garantias, é o interno, porque os jogadores já conhecem o FC Porto e o futebol português e estão adaptados. A aquisição do Cissokho assenta nestas linhas e ainda no facto de ser jovem, ter uma cultura europeia e um bom potencial para se desenvolver».

Desde da temporada 2004/05, ano em que Nuno Valente perdeu lugar na equipa mercê de uma serie de arreliadoras lesões, ate à corrente época, a SAD portista já contratou nove jogadores para esta posição. A saber os nomes e montantes envolvidos:

- Rossato, 1 milhão de euros por 50% do passe

- Areias, por 800 mil euros.
. Leandro, por 1.500 milhões de euros.

- Marek Cech, por 1.270 milhões de euros.

- Ezequias, por 300 mil euros.

- Lucas Mareque, por 1 milhão de euros.

- Lino, por 150 mil euros.

- Benitez, por 1 milhão de euros por 50% do passe.

- Cissohko, por 300 mil por 60% do passe.




Ao longo destes anos o FC Porto já investiu quase 7.5 milhões de euros em defesas esquerdos, mais os vencimentos que teve de suportar de todos eles. A acrescentar a estes nove atletas, os diversos treinadores que têm passado pelo Dragão têm sido “obrigados” a buscar soluções de recurso dentro do plantel para este sector, casos de Ricardo Costa, César Peixoto e Fucile, só para citar alguns exemplos.

Jesualdo acha que o Clube não pode investir muito dinheiro em jogadores para esta posição, mas olhando para o montante dispendido em todo este tempo, parece-me que se a SAD ao invés de seguir uma politica de subalternização da lateral esquerda, tivesse feito uma aposta forte na contratação de um atleta com maiores credencias, talvez as vantagens financeiras e desportivas seriam bem maiores.

Confesso que a aquisição de Cissohko não me entusiasma particularmente, talvez por corresponder a um tipo de perfil de aquisições dos últimos anos para o lado esquerdo que não tem surtido efeito; jogadores sem experiencia na alta roda do futebol, provenientes de clubes modestos (onde em alguns casos nem aí se impuseram), baratinhos. Pode haver quem ache estou a ter uma visão algo esteriótipada desta contratação, mas gato escaldado de agua fria tem medo. A ver vamos.

Fotos: uefa.com e Record

quinta-feira, 24 de julho de 2008

À espera de Godot (ou A Atribulada Sucessão de Nuno Valente)


Em Agosto de 2005 Nuno Jorge (ou será Jorge Nuno?) Pereira Silva Valente, defesa esquerdo internacional do F.C. Porto, terá sido colocado perante uma espécie de ultimato pelo clube: teria de escolher entre representar o FCP ou a selecção nacional. De facto, o historial de lesões do jogador dava claramente a entender que ele andava sempre “preso por arames” e a sua condição física não recomendava a sobrecarga de jogos que adviria de jogar por clube e selecção. Perante isto, Nuno Valente optou pela selecção e foi transferido para Inglaterra, mais propriamente para o Everton. Por lá a sua carreira tem continuado a ser apoquentada por lesões, além de ir entrando no ocaso e o clube até já ter contratado um seu substituto na época passada. Vai agora entrar na sua quarta e, muito possivelmente, última época ao serviço daquele clube e, apesar do seu infrequente contributo, foi ainda recentemente elogiado pelo seu treinador, David Moyes, que o considerou “o melhor jogador contratado no estrangeiro com quem trabalhei, em termos de atitude e empenho. Um profissional de topo, um jogador em quem se pode sempre confiar”.

Mas não é principalmente de Nuno Valente que venho aqui tratar, mas sim da autêntica saga que tem sido a busca do FCP por um defesa esquerdo. Deve referir-se, por uma questão de justiça, que estamos perante uma dificuldade do próprio futebol português, pois nem a própria selecção nacional utiliza um jogador de raiz nessa posição.

Diga-se, aliás, que essa busca antecedeu a saída do próprio Nuno Valente, pois já no defeso anterior a essa saída se contratara Areias, aparentemente por recomendação de José Mourinho. O auto-denominado “Special One” deve ter ficado especialmente agradado com a altura deste jogador, pois consta que, tal como Frederico o Grande da Prússia com os seus soldados, selecciona os defesas laterais com base em critérios altimétricos (Ashley Cole à parte, pelos vistos). Isso também explicará a sua predilecção por Ricardo Costa (o futebolista, senhores!) naquela posição. Seja como for, o conterrâneo de Bocage acertou em cheio: Areias era, de facto, um rapaz alto.

O mês de Janeiro de 2005 ficou célebre para os mais sarcásticos pela chegada daquilo a que, depreciativamente, chamaram de “contentor de brasileiros”.

A memória pode estar a trair-me, mas creio que foi nessa “leva” que arribou à nossa terra mais um defesa esquerdo. Poderá ter sido mais tarde, mas seja como for, Leandro (era esse o seu nome) foi mais uma etapa no longo caminho da autêntica busca do Santo Graal em que se transformou no nosso clube a procura de um defesa esquerdo. Não se pode dizer que fosse uma negação como jogador, mas acabou por ser mais um a ter “guia de marcha”. Está emprestado no Brasil e viu o seu contrato ser recentemente renovado, o que decerto significa que o clube vê nele algum potencial. Caso ainda a rever, talvez.

Mas a busca do sucessor de Nuno Valente não esmoreceu: pouco depois da sua saída do clube foi contratado o eslovaco Marek Cech, referenciado, segundo os jornais da época, como estando “à vontade, tanto a lateral esquerdo como a médio do mesmo flanco”. Marek Cech, que acaba de partir, ele também, para Inglaterra – neste caso para o West Bromwich Albion – estreou-se num jogo da Liga dos Campeões contra o Inter e deixou agradados os apaniguados portistas. Parecia resolvido o problema. Contudo, com o correr do tempo, o jogador acabou por não se revelar propriamente um “esteio” nas suas funções defensivas, antes se salientando mais em incursões no meio-campo adversário. Era, de facto, um bom jogador e aparentemente um bom profissional, mas não estava ainda achado o sucessor de Nuno Valente.

Fonte: Record

Seguiu-se a fase a que poderia chamar-se de “inspiração da Lusa-Atenas”. De facto, em duas épocas seguidas, o FC Porto contratou dois defesas esquerdos à Académica, os brasileiros Ezequias e Lino, o que levou até pessoa da minha amizade a dizer durante a época passada que iria estar atento ao lateral esquerdo da “Briosa”, pois ele decerto teria boas hipóteses de vir parar ao FC Porto. Humor à parte – e nada melhor do que sabermos rirmo-nos de nós próprios – nem um nem outro resolveram o problema. O primeiro, senhor de uma velocidade digna das praias de Vera Cruz, acabou emprestado a outros clubes e partiu recentemente para o estrangeiro (não, este, apesar do seu talento, não foi para Inglaterra, mas sim para a Roménia). O segundo até era apontado como um dos melhores jogadores da Briosa na época de 2006/07 e exímio marcador de livres (talento que recentemente comprovou num dos “particulares” disputados na Alemanha). O homem até é “bom de bola” e senhor de um pé esquerdo “cultivado”, mas, azar dos azares, e para manter a “tradição”, defender não é o seu forte. Neste momento não estará ainda definido o seu futuro.

“Ensanduichado” entre estes dois brasileiros chegou à Invicta em inícios de 2007 um defesa esquerdo argentino, Mareque de apelido (pronúncia curiosamente semelhante à do nome próprio de Cech) e que, na pia baptismal, recebera o nome de Lucas. Este Lucas Mareque teve uma coisa contra si: chegou cá numa altura em que a equipa do FC Porto entrou numa “crise de Janeiro”, com as famigeradas derrotas em casa contra o Atlético e Estrela da Amadora. Isto, somado às suas pouco convincentes exibições, cedo traçou ao argentino um regresso às Pampas (ou seria à Patagónia?).

Nesta pré-época já tivemos o ensejo de ver actuar um novo defesa esquerdo, Benitez de seu nome, também proveniente da América do Sul. Confesso que não estive atento ao desempenho deste homónimo de “El Cordobés”, e convenhamos que é cedo para conclusões. Mas o homem nem deve fazer ideia do que torcemos pelo seu sucesso. Já não era sem tempo! Quer-me parecer, contudo, que o lugar de defesa esquerdo será, mais uma vez, desempenhado por Fucile, um escorreito lateral direito uruguaio que, por cá chegado em Janeiro de 2007, muito bem se tem saído na outra lateral. Quem não tem cão, caça com gato!

PS Eu sou do tempo em que os nossos defesas esquerdos se chamavam Sucena e Acácio. Por uma questão de perspectiva, e sem menosprezo por esses dois antigos profissionais do clube, ambos ficavam a milhas de qualquer um dos referidos no texto supra. Falamos de barriga cheia!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Análise do plantel 2007/2008: Laterais

O plantel do FCP da época 2007/2008 conta com os laterais Bosingwa, Fucile, Cech e Lino. Até ao dia da publicação deste artigo, este quatro jogadores tinham participado no seguinte número de jogos:


CP

LC

TP

TL

ST

LI

Bosingwa

21

07

02

00

01

00

Fucile

18

07

01

01

01

00

Cech

16

05

00

01

01

00

Lino

03

00

01

01

00

07


A lateral esquerda do FC Porto tem sido uma das posições mais carenciadas dos últimos anos, tendo sido ocupada por "contentores" de jogadores sem que nenhum se tenha conseguido afirmar definitivamente. Na época passada Fucile surgiu como uma aposta frequente, tendo revelado segurança e capacidade para ocupar este lugar. Na presente temporada foi perseguido por algumas lesões e dificuldades físicas que fizeram com que Cech se revelasse uma segunda opção de qualidade.
Bosingwa confirmou ser um dos melhores laterais direitos do mundo, apesar de ter sofrido algumas lesões musculares que obrigaram Fucile a trocar de lado e a entrada de Cech.

Apesar de esta minha opinião poder gerar alguma controvérsia, acho que o “Zé Bo” é “apenas” um bom defesa… Nada extraordinário. Creio que é fraco na marcação e recorre demasiadas vezes à jogada individual em situações que deixa a retaguarda desprotegida. Então porque é que o Bosingwa é um dos melhores laterais do mundo (como referi acima)? Porque tem uma capacidade física excepcional que lhe permite compensar essas lacunas. É rápido nas recuperações, e não permite que os adversários consigam escapar em velocidade. Mesmo quando ultrapassado tecnicamente, o normal é ver Bosingwa recuperar a bola recorrendo à sua enorme capacidade física.
No ataque é capaz de destruir a defesa adversária, passando facilmente por qualquer adversário que o tente parar, recorrendo à velocidade.
Mais do que um óptimo futebolista, José Bosingwa é um atleta fenomenal.

Jorge Fucile conquistou os adeptos e o treinador em grande parte devido à raça e à entrega do seu futebol. É um jogador tecnicamente evoluído, que não desiste de um lance, compensando com isso algumas falhas defensivas, principalmente no “um-para-um” quando o adversário surge em velocidade. Estando em boa forma, consegue disfarçar bem essas lacunas. No ataque é bom a transportar a bola no pé, usando o pé direito para cruzar (se estiver do lado direito) ou para descair para o centro e rematar (se estiver a atacar do lado canhoto). Sabe combinar com o interior e o extremo para ganhar posição e criar desequilíbrios através da superioridade numérica.

Marek Cech é um lateral esquerdo razoável que tem como principal vantagem no actual plantel portista ser uma das poucas apostas regulares que joga com o pé esquerdo. Sabe integrar bem o ataque, sendo por isso utilizado algumas vezes como médio interior esquerdo ou extremo. É o lateral do FC Porto com mais assistências para golo (3). Apesar de parecer ser o jogador mais fraco das três habituais soluções de Jesualdo Ferreira, tem demonstrado qualidades para ser

Lino não parece ter convencido os adeptos nem o treinador. As poucas oportunidades que teve não permitem fazer uma avaliação pormenorizada, mas pareceu ser sempre um jogador trapalhão (talvez por querer “mostrar serviço”) e frágil defensivamente. Bom na marcação de bolas paradas, não parece ter qualidades que lhe permitam permanecer no plantel do FC Porto na próxima época.

O FC Porto tem neste momento 2 jogadores com qualidade suficiente para serem titulares, Bosingwa e Fucile. Por azar, são ambos laterais direitos, o que faz com que a lateral esquerda seja notoriamente mais fraca. Marek Cech é um bom lateral esquerdo, com capacidade para ser um suplente de qualidade, mas que não parece ser suficiente para ser titular.
Deste modo parece ser importante a contratação de um lateral esquerdo para ser titular, regressando Fucile à luta pela posição na lateral direita. No caso do Bosingwa sair do plantel durante a próxima época de transferências, é importante a contratação de um lateral direito (para titular ou suplente) de qualidade, apesar de reconhecer a Fucile competência para ser titular.