Imaginem um filme de Hollywood.
Um filme desses, bem rascas, que passam nas matinés de sábado num canal privado, com palmeiras, muito sol e diálogos de um vazio atroz. O FC Porto é o protagonista deste filme. Um filme de jovens estudantes que sonham com triunfar na vida e que vivem no secundário mais aventuras que o cidadão comúm vive em toda a sua existência. Tudo muito americano. Agora imagem esse protagonista, o FC Porto, um jovem atractivo, competente, celebre entre os seus mas que anda a passar por um periodo dificil, seguramente problemas com os pais - que por sua vez vivem um estilo de vida cada vez mais descontrolado - e que começa a sentir-se perdido na vida. Como um bom filme americano de estudantes, tudo acaba com o baile de finalistas. O FC Porto, esse protagonista flamante, a principio era candidato a rei do baile mas parece que já ninguém quer ser visto na sua companhia. Tentou convidar as raparigas mais giras para ir com ele e levou negas de todas. Convidou até algumas ex-namoradas ou raparigas com quem sempre sonhou sair. Todas lhe disseram o mesmo: não estamos interessadas, temos algo melhor.
No final, o FC Porto vai ao baile, sim, mas vai com a rapariga mais feia da turma. A que está sempre pelos cantos, aparelho, oculos quadrados e roupa ao melhor estilo da sua avó. Foi o que se arranjou. Claro que no fim de contas a rapariga até pode ser deslumbrante e tudo isto ser uma importante licção sobre o sentido da vida. Mas no momento em que entra no pavilhão, naquela noite, o FC Porto, esse protagonista, e todos os secundários à sua volta sabem perfeitamente que a sua companheira de baile era a última escolha possível. Filmes, não é?
Os golpes de asas de Pinto da Costa acabaram há muitos anos. Se ele se deu conta ou não, a conversa é outra. O certo é que longe parecem ir os dias onde qualquer treinador dava meio braço para ser visto no banco do "Dragão". Era um lugar de grande pressão, sim, mas que podia alimentar o mais audaz dos sonhadores. Nos mandatos de Pinto da Costa vimos a Artur Jorge limpar a imagem de um periodo cinzento em Paris. Vimos a Robson reabilitar a sua carreira nas Antas. A Mourinho lançar-se rumo ao estrelato. A Vilas-Boas a tentar imitar o seu mentor. A Jesualdo, um homem sempre desprezado pelo establishment, a transformar-se num dos mais exitosos treinadores do futebol português. A Vitor Pereira, um portista ferrenho perdido nos Açores a liderar um ciclo interno quase impoluto. Tudo isso significou, noutro tempo, ser treinador do FC Porto.
Imaginem portanto como estão as coisas para que essa aura de êxito garantido tenha desaparecido da noite para o dia. Talvez os treinadores se comecem a dar conta dos podres que antes não se viam. De como a estrutura - essa famigerada e cada vez mais problemática "estrutura" - protegia os treinadores e agora os deixa expostos aos abutres. De como os jogadores tinham uma forte cultura de clube que agora se transformou por uma forte cultura de comissões (vejam as mais recentes renovações do Porto B como melhor exemplo de que o circo nunca saiu desta cidade). De como havia uma comunhão clube/adeptos que eram alimentada de forma reciproca. De como o presidente - o mais astuto e inteligente do futebol europeu - deixou de sair para defender os seus nos momentos dificeis para aparecer só nos momentos de triunfo como um qualquer personagem secundário. De como o plantel era forçado pela "estrutura" a respeitar o treinador a uma cultura de "laissez faire" onde ninguém, no fundo, respeita ninguém. E claro, hoje há mais ofertas do que nunca, especialmente para treinadores como um bom agente, para sujeitar-se a esse cenário deprimente. Portanto não surpreende ninguém que treinadores que ainda não são, essencialmente, ninguém (como Jardim, Nuno ou Marco Silva) tenham dito directamente que não a Pinto da Costa. Ou que treinadores que sabem da poda (como Villas-Boas) não tenham o menor interesse em meter-se num barco a afundar-se. Como os treinadores estrangeiros sabem que no Porto o poder é (ainda) da estrutura e a sua margem de trabalho reduzida e os riscos elevados (Lopetegui aprendeu da pior forma), esqueçam lá os Sampaoli, Bielsa, Laudrup e companhia. No fundo o cenário que se presenta hoje é o mais natural do mundo. Este FC Porto, tal como tem sido gerido e tal como se apresenta o futuro imediato, é incapaz de aspirar a mais que um treinador de terceiro nivel. A mais do que José Peseiro.

O novo treinador do Porto tem um curriculum ridiculo. Foi capaz de perder no espaço de poucos dias dois titulos - um campeonato que estava no bolso (acabou atrás de um Porto que teve três treinadores) e uma final europeia disputada em casa. O seu CV está ao nivel de um treinador do Braga (precisamente a sua última passagem pela Europa) e em quinze anos ganhou apenas um título (menor) e deixou mais a sensação de ser um "pé frio", sem poder no balneário (ainda que capaz de colocar as equipas a jogar relativamente bem), do que por ser um treinador de êxito. Não trabalha especialmente bem os jovens, não acumulou experiência em ligas exigentes (e por onde passou não ganhou nada, e isso que andou por África e Ásia onde Jesualdo e Manuel José sim foram campeões) e não soou nunca para o FC Porto entre outras coisas porque houve uma altura em que só soavam treinadores de primeiro nivel ou jovens promessas do futebol português. Peseiro nunca foi nem um nem outro. É um "yes men" e isso seguramente contou muito para a eleição e vivia nas catacumbas do futebol mundial o que equivalía a ser o único que não podia negar-se a dizer que sim a um lugar que mais ninguém queria. Porque esse - mais do que a sua competência como técnico - será o seu problema. Peseiro pode assinar por ano e meio mas todos, mas realmente todos, sabem que ele foi escolhido sendo a rapariga mais feia da turma porque não havia alternativa.
E pior que o saibam os dirigentes, pior até que o saibam os adeptos (e todos sabemos), é que o saibam igualmente os jogadores, homens que raramente se deixam levar por "sobras" e que precisavam, hoje mais do que nunca, de alguém que os motivasse. Porque se a Vitor Pereira - que os conhecia - lhe custou alguns meses a tirar da cabeça dos jogadores a imagem do simpático segundo treinador, qual é a imagem agora que entra no balneário de um tipo que todos sabem que foi a última e desesperada opção de uma direcção sem alternativas e a quem o tempo se lhe escapava pelos dedos?
Em lugar de apontar baterias ao titulo (o que são, realmente, 5 pontos?) e a disputar a Europa League de pé (a Taça de Portugal é uma obrigação absoluta este ano, digam o que disserem, treine quem treine a equipa), a SAD decidiu apostar num Couceiro II, alguém que está agradecido porque se lembraram dele e que sabe que se for despachado em Junho, esta continuará a ser a maior experiência da sua vida. O que significa, essencialmente, que a quem dirige o navio lhe dá exactamente igual o que vai suceder este ano e que a procura continua para outro perfil mas deixando que alguém pague o preço dos meses que aí vêm.
José Peseiro não tem culpa. É o novo treinador do FC Porto e deve ser respeitado e apoiado como tal ainda que não tenha nem méritos nem nível para ocupar o lugar. Tal como Rui Barros nestes dias, é carne para canhão. O problema continua atrás, na eterna indecisão de tomar um rumo desportivo evidente para o clube. Sempre a jogar no risco. Se correr bem e Peseiro logre o título, poderão recuperar o chavão de que "qualquer treinador" é campeão no Porto. Se correr mal a ninguém lhe vai incomodar que Peseiro leve com o peso da culpa e que se prometam alvisseras para o próximo ano debaixo do apanágio de um novo rumo ficticio.
Peseiro é o homem que Pinto da Costa quer levar como o "seu" homem às próximas eleições. No final, o Presidente mais grande da história do futebol português, o galã que saiu com as raparigas mais bonitas e lançou ao estrelato as mais sexys, vai acabar por ir para o seu último baile de finalistas com a rapariga mais feia da turma. Quem o diria!