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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Um negócio fabulástico

Capa do Record de 03-12-2015

400 milhões! Benfica fecha contrato histórico com a venda dos direitos de televisão à NOS até 2026
Capa do jornal Record de 03-12-2015

O maior negócio do futebol português: Benfica na NOS por €400 milhões

Encarnados recebem recorde de 400 milhões pelos jogos em casa

400 milhões de TV: Benfica celebra contrato milionário
Capa do jornal A Bola de 03-12-2015

“O maior negócio do futebol português”
“Histórico”
“Recorde”
“Contrato milionário”
“Um negócio sem precedentes em Portugal”
“águias passam a receber mais do que FC Porto e Sporting juntos”
“A marca Benfica é maior do que o país!”

O país ficou de boca aberta e isto foram algumas das coisas ditas e escritas acerca do excelente negócio (há que o reconhecer) feito entre o SL Benfica e a NOS.
Mas houve mais. Por exemplo, o jornalista António Tadeia (também comentador da RTP), escreveu o seguinte:

«O negócio do Benfica com a Nos, para a venda dos direitos televisivos dos jogos do campeão nacional àquela operadora, por valores que podem chegar aos 400 milhões de euros, veio abalar os panoramas audiovisual e futebolístico portugueses. (…) os 400 milhões que o Benfica pode vir a receber pelos dez anos de direitos televisivos dos seus jogos da Liga em casa representam uma grande vitória da estratégia montada pela direção de Luís Filipe Vieira na questão dos direitos de TV. O Benfica viu de facto mais longe que toda a gente, pois conseguiu valorizar os conteúdos relativamente àquilo que a Sport TV pagava. (…) É evidente que os direitos televisivos do Benfica valem muito mais do que os dos outros clubes (…)»
António Tadeia, 02-12-2015


Conforme se viu, leu e ouviu, apesar dos jogos dos encarnados (no Estádio da Luz) voltarem, já a partir da próxima época, a ser transmitidos pela Sport TV do “arqui-inimigo” Joaquim Oliveira, nem isso foi motivo para arrefecer o entusiasmo dos benfiquistas, jornalistas e comentadores acerca deste extraordinário contrato entre o SL Benfica e a NOS.

Miguel Almeida (NOS) e Luís Filipe Vieira a comemorar o acordo entre as duas Partes

E nem o facto de ser um "casamento" de 10 anos (épocas 2016/17 a 2025/26) foi visto como um problema, bem pelo contrário, como se percebe pela posição de Domingos Soares de Oliveira, administrador executivo da SAD do Benfica, o qual, embora assumindo haver risco em fazer um contrato a dez anos, afirmou o seguinte:
Se pensarmos um pouco como é que o mercado vai evoluir em termos da concorrência à volta de conteúdos, que é claramente uma das peças chave para conseguirmos ter alcançado o nosso valor, não tenho certezas, olhando bem o que é o mercado das operadoras de telecomunicações, tenho até algumas dúvidas que esta grande concorrência que existe hoje se possa manter em termos futuros. Portanto, havia que aproveitar o momento e foi isso que fizemos.

Ora, se o contrato entre o SL Benfica e a NOS foi excelente, algo verdadeiramente extraordinário, só possível pela dimensão do clube e potencial da marca Benfica, que dizer do acordo entre o Grupo FC Porto e a PT PORTUGAL SGPS SA, pelo valor global de EUR 457.500.000?

Capa de O JOGO de 27-12-2015

Eu acho que nem há adjetivos. Fabulástico foi aquilo que me ocorreu, quando soube da notícia.

E se houve quem ficasse de boca aberta com os 400 milhões de euros do contrato SLB – NOS, parece que há quem tenha ficado sem fala e a engolir em seco, com os 457,5 milhões do acordo FCP – PT.

Ainda não conhecemos, em detalhe, os pormenores deste acordo entre o Grupo FC Porto e a PT PORTUGAL SGPS SA, mas do que fui lendo (recomendo este artigo no ‘Tribunal do Dragão’) e ouvindo, só vejo aspetos positivos:

Resolução, imediata, da ausência de um patrocinador para a parte frontal das camisolas da Equipa Principal para as próximas sete épocas e meia (receita garantida até ao final da época 2022/2023). E mais, os valores referidos para esta componente do acordo – 5 milhões/época – representam um aumento de 35% em relação ao valor do contrato anterior (3.7 milhões/época).

Resolução da sustentabilidade do Porto Canal, pelo menos durante 12 épocas e meia (até 30 junho de 2028).
Os valores referidos para esta componente do acordo são, também, de 5 milhões/época, mas convém lembrar que os custos de operação do Porto Canal são muito inferiores aos da BTV.

Somando as verbas correspondentes ao…
… Direito de Transmissão do Porto Canal, pelo período de 12 épocas e meia (62,5 milhões de euros)…
… e ao Estatuto de Patrocinador Principal do FC Porto, com o direito de colocar publicidade na parte frontal das camisolas da Equipa Principal de Futebol do FC Porto, pelo período de sete épocas e meia (37,5 milhões de euros)…
… sobram 357,5 milhões de euros para os Direitos de Transmissão Televisiva + Direito de Exploração Comercial de Espaços Publicitários do Estádio do Dragão, por um período de 10 anos, com inicio em 1 de Julho de 2018.

Ou seja, com este acordo, a partir de 1 de Julho de 2018 e durante 10 épocas (2018/19 até 2027/28), as administrações da Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD, sejam elas quais forem, terão garantidos cerca de 35,7 milhões de euros por época (em média), o que é quase o dobro do contrato atual com a PPTV;
Mais 5 milhões/época correspondentes ao patrocínio da parte frontal das camisolas.

E, já agora, mais o desafogo resultante do project finance do Estádio do Dragão terminar em 2018.

Perante este cenário, não diria cor-de-rosa, mas azul e branco, se os próximos três exercícios (2015/16, 2016/17 e 2017/18) fecharem com contas equilibradas quem, a partir de 1 de Julho de 2018, tiver de gerir (financeiramente) a FC Porto SAD, terá menos dores de cabeça.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Benfica TV: sucesso ou fracasso?

Desde 2008, pelo menos, que os atuais dirigentes do SL Benfica vinham pressionando a Olivedesportos, em relação ao valor que a empresa de Joaquim Oliveira pagava pelos direitos televisivos.

Um exemplo dessa pressão foi uma entrevista que Domingos Soares Oliveira deu ao jornal PÚBLICO, publicada em 17 de outubro de 2008, na qual o Administrador da Benfica SAD afirmou que o valor justo pelos direitos televisivos do SLB seria 40 milhões de euros.

Um ano e meio depois, no dia 30 de março de 2010, numa entrevista à SIC conduzida por Miguel Sousa Tavares, Luís Filipe Vieira, em resposta a uma pergunta acerca da (re)negociação dos direitos televisivos, afirmou que “o dobro [16 milhões de euros] de hoje [8 milhões de euros] é muito pouco”.

De acordo com uma estratégia negocial e comunicacional muito clara, Domingos Soares Oliveira desdobrou-se em entrevistas, onde repetiu, vezes sem conta, que o SL Benfica pretendia encaixar 40 milhões de euros por época com os direitos televisivos. Era este o valor base de negociação.
E mais, em jeito de aviso, informou que havia vários operadores interessados e que a Olivedesportos (na realidade, a PPTV – Publicidade de Portugal e Televisão, SA), se quisesse manter os direitos televisivos dos encarnados (a empresa de Joaquim Oliveira detinha o direito de preferência até à época 2015/2016), a renovação contratual teria de passar por um valor não inferior a 40 milhões de euros/ano.

No dia 3 de Maio de 2011, para aumentar a pressão sobre Joaquim Oliveira, a Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD informou o mercado que “o empresário Miguel Pais do Amaral e esta Sociedade têm mantido conversas preliminares sobre os direitos televisivos dos jogos de futebol da equipa sénior do Benfica relativos às épocas 2013/2014 e seguintes”.

No dia 17 de agosto de 2011, a comunicação social anunciou, com pompa e circunstância, que o SL Benfica tinha alcançado o seu objetivo e que iria vender (o acordo estava iminente), por 40 milhões de euros por ano, os direitos televisivos à Balloonsphere, uma empresa detida maioritariamente por Miguel Pais do Amaral.
O EXPRESSO contou, detalhadamente, todos os passos deste (quase) acordo.

Contudo, os 40 milhões/ano de Miguel Pais do Amaral eram milhões da treta e, sete meses depois, em 6 de Março de 2012, a Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD emitiu um novo comunicado, a informar o mercado que tinha rejeitado uma proposta da Olivedesportos, SA, para “aquisição dos direitos de comunicação audiovisual” para “o período de 1 de Julho de 2013 a 30 de Junho de 2018 (5 épocas)” por um “valor global de 111 milhões de euros”. Ou seja, feitas as continhas, a Olivedesportos ofereceu um valor médio 22,2 milhões por época (valor líquido e garantido).

Como, afinal, entre os “inúmeros” interessados em adquirir os “valiosíssimos” direitos televisivos do SLB, ninguém ofereceu mais do que a Olivedesportos, em 25 de Outubro de 2012, a Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD emitiu mais um comunicado, informando o mercado que iria “assegurar a transmissão dos referidos direitos pelos seus próprios meios, ou seja, através da Benfica TV”.


Após o entusiasmo inicial, com a curva de crescimento dos subscritores a ter uma progressão logarítmica (até estabilizar um pouco acima dos 300 mil), e tendo sido conhecido há alguns dias os valores das receitas e custos, já se pode fazer uma primeira avaliação desta “experiência inovadora”.
Ora, de acordo com os insuspeitos Maisfutebol, Record, Correio da Manhã e PÚBLICO (nenhum deles pertence a Joaquim Oliveira), a receita líquida da Benfica TV, entre 1 de Julho de 2013 e 30 de Junho de 2014, foi de… 17,1 milhões de euros!
Sim, porque aos 28,1 milhões de euros da receita bruta da Benfica TV é preciso subtrair os custos (cerca de 11 milhões de euros).

Mais. Em principio, a receita bruta da Benfica TV não advém, apenas, das mensalidades dos atuais subscritores deste canal premium. Embora não tenha visto isso referido nos artigos dos jornais, os 28,1 milhões de receita bruta da Benfica TV (no exercício 2013/2014) deverão, também, contabilizar o valor angariado em publicidade e os valores recebidos da PT, NOS, ZAP, Cabovisão e Vodafone para o canal ser emitido nestas plataformas.

Em resumo: No seu primeiro ano completo (traduzido no Relatório e Contas do Exercício 2013/2014), a receita líquida da Benfica TV é 5 milhões de euros inferior à proposta que a Olivedesportos fez em 2012 e corresponde a menos de metade dos 40 milhões de euros que os dirigentes do SL Benfica diziam ser o valor justo de mercado e definiram como fasquia mínima.

Vendo as coisas por este prisma - financeiro - a opção do SL Benfica em transmitir, na Benfica TV, os seus jogos, não é (ainda) uma “aposta ganha” e muito menos o apregoado enorme “sucesso”!


Quanto ao “facto” (há quem chame factos à propaganda…) da SportTv não se aguentar sem os jogos do SL Benfica é algo que está por comprovar.
Na realidade, já passaram 16 meses (desde Julho de 2013) e a pré-anunciada “morte” da SportTv que, segundo alguns, iria acontecer após deixar de ter os direitos de transmissão dos jogos do SL Benfica em casa (para o campeonato), parece ter sido uma noticia manifestamente exagerada…


P.S. Para quem não sabe, em 8 de Abril de 2011, a Futebol Clube do Porto - Futebol, SAD comunicou ao mercado ter fechado um novo contrato de cedência de direitos televisivos com a PPTV, até ao termo da época desportiva 2017/2018, no valor global de 82,8 milhões de euros. Ou seja, um valor médio de 20,5 milhões de euros/ano, pelos direitos televisivos de cada uma das quatro épocas (de 2014/15 a 2017/18) abrangidas pelo prolongamento do contrato embora, na realidade, o valor irá ser menor, porque parte foi pago antecipadamente nos últimos dois anos (em 2012/2013 e 2013/2014).

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Veja os jogos do slb na... SPORT TV


«Para além da Liga Portuguesa de Futebol, Taça de Portugal e da Taça da Liga, a SPORT TV transmite, em exclusivo, as principais ligas europeias e, mais recentemente, o campeonato Argentino.
A SPORT TV também detém os direitos de transmissão de todos os jogos da maior prova de clubes a nível europeu – a Liga dos Campeões. Liga Europa, Taça dos Libertadores, Copa América, Campeonato da Europa, Campeonato do Mundo e Mundial de clubes são também grandes competições que a SPORT TV transmite, em direto»


Há muita propaganda e lavagens ao cérebro diárias tendo como alvo o "povão benfiquista" mas, na realidade, tirando os 15 jogos que o slb disputa em casa para o campeonato, todos os outros jogos oficiais - Campeonato fora de casa, Taça de Portugal (excepto a final), Taça da Liga e Liga dos Campeões, estão na mão da SPORT TV.
Ou seja, a partir da época 2013/14, a revolução anunciada nas transmissões televisivas, resume-se ao seguinte: dos 45-50 jogos oficiais que o slb disputa por ano, apenas cerca de 1/3 serão transmitidos na benfica TV isto, claro está, se Vieira cumprir com esta promessa eleitoral (penso que, a médio prazo, a da final europeia será mais fácil de cumprir...). Para verem os restantes 30-35 jogos na televisão, os benfiquistas terão de ir para o café, ou continuarem a ser clientes da... SPORT TV.

Veja os jogos do slb na... SPORT TV. A partir de Junho de 2013, não me admirava que este fosse um dos slogans da SPORT TV. Rima e é verdade (pelo menos para a maior parte dos jogos).

P.S. Olhando para as fotos que ilustram este artigo, fico com uma dúvida: Vieira e Joaquim Oliveira são mesmo inimigos, ou disfarçam bem?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A revolta dos pequenos

"O presidente da Liga é colocado na Liga pelos interesses do lóbi que controla o futebol em Portugal - a Olivedesportos, obviamente. Alguma vez o Fernando Gomes ia para presidente da Liga? Isto de o Benfica, o Sporting e o FC Porto dizerem que estão zangados é tudo conversa. (...)
Até já sei quem vai vencer na Liga... Não interessa ter mais apoios, interessa ter esse apoio dessa empresa de que sou fundador."
António Oliveira, entrevista na RTP Informação, 07/01/2012


«Últimas indicações relativas à corrida eleitoral para a presidência da Liga de Clubes: Mário Figueiredo recuperou terreno e pode ganhar a António Laranjo. As últimas cartadas jogam-se entre hoje e amanhã.

O advogado portuense, que é genro do presidente do Marítimo e integra o escritório do administrador portista Adelino Caldeira, tem colhido inesperados apoios...

Mas o jogo ainda não está feito e convém não esquecer que Laranjo tem o apoio da troika formada pelos três grandes e continua a ganhar na II Liga...»
Eugénio Queirós, Record, 10/01/2012


Tudo indicava que António Laranjo tinha a eleição garantida e afinal...

Mário Figueiredo foi eleito presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, tendo obtido 27 votos, contra 21 de António Laranjo, o candidato apoiado pelos três grandes e, supostamente, pela Olivedesportos.

Veremos se ontem não foi dado o primeiro passo para, contra a vontade dos três grandes e de Joaquim Oliveira, obrigar a Olivedesportos a negociar os direitos televisivos em pacote.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Contratos com a PT e a PPTV


Nas últimas semanas, a Futebol Clube do Porto - Futebol, SAD informou o mercado da renovação do contrato de patrocínio com a Portugal Telecom (2011/12 a 2014/15, proveitos globais mínimos de 14,6 milhões de euros) e de um novo contrato de cedência de direitos televisivos com a PPTV (2014/15 a 2017/18, valor global de 82,8 milhões de euros).

Recordo que o contrato de patrocínio anterior com a Portugal Telecom, efectuado em Setembro de 2005, previa 21,2 milhões de euros de proveitos globais fixos para um período de seis épocas (2005/06 a 2010/11), ou seja, 3,53 milhões de euros por época.
O novo contrato abrange quatro épocas, com inicio já na próxima, a uma média de 3,65 milhões de euros por época.

Quanto aos contratos anteriores com a Olivedesportos, o penúltimo previa proveitos globais de 32,25 milhões de euros para quatro épocas (2005/06 a 2008/09), o que significava cerca de 8 milhões de euros por época.
No último contrato, em vigor até 2013/14, houve um incremento de 2,3 milhões de euros por época, ou seja, o contrato actual prevê um valor global de 51,75 milhões de euros para as épocas 2009/10 a 2013/14.

No contrato agora assinado e que irá entrar em vigor na época 2014/15, a PPTV – Publicidade de Portugal e Televisão S.A. (sociedade integrada no Grupo Controlinveste), assume a posição contratual da Olivedesportos – Publicidade, Televisão e Media, S.A. e, por aquilo que percebi, irá pagar cerca de 20,5 milhões de euros pelos jogos do campeonato em cada uma das quatro épocas (de 2014/15 a 2017/18) abrangidas pelo prolongamento do contrato.

82,8 milhões de euros pelos 60 jogos do campeonato que o FC Porto irá disputar na qualidade de equipa visitada (15 jogos vezes 4 épocas) é muito ou pouco?

Depende de como for feita a análise.

i) comparando com o contrato anterior – é praticamente a duplicação do valor.

ii) valor por jogo – duvido que no mercado português haja algum outro player que oferecesse mais do que 1,38 milhões de euros por jogo (82,8 / 60).

iii) comparando com o que irão receber Sporting e slb – Esta é a grande questão, mas para a qual ainda não temos resposta. O slb diz que não vende por menos de 40 milhões de euros por época, mas vamos ver se alguém paga esse valor.

O contrato com a PPTV abrange a cedência, em regime de exclusividade, dos direitos de transmissão televisiva para território nacional e internacional. Contudo, no comunicado para a CMVM, é expressamente referido que a SAD poderá, sujeita a determinados termos e condições já acordadas, utilizar os direitos televisivos no âmbito do canal televisivo que venha a ser criado pelo Futebol Clube do Porto e/ou pela Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD. Ora, este aspecto parece-me muito importante, sendo revelador da forte aposta que o FC Porto pretende fazer no Porto Canal.

Com o país a atravessar uma crise profunda, que não se sabe muito bem quanto tempo irá durar, nem quais as consequências a médio prazo (desemprego? carga fiscal sobre as pessoas e empresas? poder de compra? endividamento das famílias?), parece-me boa política a renovação em alta destes contratos, ambos por valores significativos para a realidade portuguesa, os quais garantem receitas seguras para anos que se antevêem muito difíceis e, inclusivamente, permitem que a SAD os possa usar como garantias no acesso ao crédito bancário.

terça-feira, 12 de abril de 2011

“A Olivedesportos é o FMI do futebol”

Com uma dívida do Estado português superior a 170 mil milhões de euros, o país perto da bancarrota, o rating da República a descer para níveis inimagináveis e os juros dos empréstimos contraídos a subirem em flecha, há muitos meses que o FMI faz parte do dia-a-dia da conversa dos portugueses.
Aproveitando este triste contexto, e no dia seguinte à chegada dos técnicos do FMI a Portugal, recordo um extracto de uma longa entrevista de António Oliveira, publicada no Record de 27/12/2010, onde a Olivedesportos foi comparada ao FMI do futebol português.


R – O mundo do futebol reconhece méritos a Joaquim Oliveira e à Olivedesportos por aquilo que fizeram em prol do futebol. Concorda?

AO – A Olivedesportos foi a primeira empresa em Portugal criada por mim e pelo senhor Joaquim Oliveira que é meu irmão e que impulsionou e desenvolveu a área desportiva através da publicidade estática, direitos de imagem, multimédia e a televisão temática de desporto. Se Joaquim Oliveira tem mérito? Isso é uma infinita evidência. Tem muitíssimos, reconhecidos com justiça por personalidades de diversos quadrantes, nomeadamente pelo ex-Presidente da República, dr. Jorge Sampaio. Quando há anos a empresa era frequentemente atacada, defendi sempre, em diversas entrevistas, que Joaquim Oliveira, mais tarde ou mais cedo, iria ser celebrado com uma estátua pelo futebol português.

R – Há alguma ironia no que diz?

AO – Não, de todo. Quem pode atrever-se a não reconhecer a importância que ele teve e tem no futebol? Há que ser justo. O facto de não falar com ele há muitos anos não me retira o discernimento para avaliar aquilo que ele faz.

R – O que representa a Olivedesportos no futebol?

AO – É o FMI do futebol. É quem tem suportado a modalidade profissional sob o ponto de vista financeiro. Há muitos anos.

R – E há algum lado perverso nessa actuação?

AO – Não me parece. Agora, provavelmente haverá outras formas para sustentar o futebol. E essas terão de ser testadas para se apurar se são melhores ou piores. Não creio, todavia, que se possa dizer que uma empresa que patrocina todos os clubes em Portugal, com contratos de exclusividade com as equipas das duas ligas, estabelecendo o tecto para cada uma delas, sendo que é com o dinheiro desses direitos, televisivos e de publicidade, que os clubes chegam à Liga e apresentam as suas contas em dia, como é que alguém pode dizer que a influência da empresa é maléfica?

R – E acha que pode ser feito algo de diferente?

AO – Tudo no futebol português, pode ser melhor. Mas quando digo tudo é mesmo tudo! Nada há que com análise séria e competente não possa ser melhorado. Mas para isso é preciso que as pessoas queiram…

R – E não querem?

AO – Às vezes dá-me a sensação que as pessoas e os lóbis a que elas pertencem não estão interessadas em mudar coisa nenhuma.

R – E que lóbis são esses?

AO – Os dos poderes instituídos. Se falarmos do mundo das finanças, onde é que eles estão? Na banca.

R – E no futebol, um deles é a Olivedesportos?

AO – É sim senhor.

R – Que pode pôr e dispor no futebol português?

AO – Corrijo: que põe e dispõe.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O grande negócio das transmissões televisivas


A questão relacionada com as receitas decorrentes dos direitos de transmissão dos jogos de futebol em Portugal já foi abordada várias vezes no Reflexão Portista:





Em Julho de 2008 o FC Porto renovou o contrato para a venda dos direitos de transmissão televisiva dos seus jogos em casa, por um período de 5 anos, recebendo cerca de 10,5 milhões de euros por ano (contra os 8 mulhões/ano anteriores). Quanto aos 2 outros grandes clubes diz-se que o slb recebe algo mais e o Sporting deverá receber o mesmo que o FC Porto.

Há muitas vozes que defendem uma negociação colectiva entre os clubes da I Liga ou entre todos os clubes das Ligas profissionais (I e II Ligas), sendo o principal argumento o de fortalecer a posição negocial dos clubes e permitir uma distribuição mais equitativa das receitas. É o que acontece, por exemplo, na Premier League em Inglaterra. Parece-me que em Portugal tal modelo não será viável, pelo menos enquanto um dos principais clubes, o slb, for liderado pelo elenco de trogloditas actual que se acha capaz, per si, de manipular as suas e as receitas de todos os outros clubes da I Liga como, aliás, recentemente se viu no apelo dos seus órgãos sociais dirigido aos adeptos para o boicote aos jogos fora como forma de chantagem para melhor acomodar os seus interesses (quaisquer que sejam).

É pública a relação de confiança há longos anos entre o patrão da Olivedesportos (empresa que controla a 100% o negócio em Portugal) Joaquim Oliveira e o actual Presidente da Liga de Clubes Dr. Fernando Gomes. Logo à partida temos um conflito de interesses que não é casual - a candidatura de Fernando Gomes à presidência da Liga foi cuidadosamente preparada. A "campanha eleitoral" incluiu um périplo por todos os clubes das Ligas profissionais tendo o agora presidente prometido mais receitas provenientes dos direitos televisivos. Enquanto este desequilíbrio de forças se mantiver não será possível a nenhum dos clubes alavancar as suas receitas e colocá-las na justa medida da sua capacidade para as gerar.

No que toca ao FC Porto resta-nos negociar a sós os direitos televisivos sendo que isso não proporcionará melhorias significativas. Uma alternativa que lanço para reflexão seria o FC Porto reunir em torno de si os interesses de um conjunto mais alargado de clubes que tenham forte presença no campeonato nacional e nas suas receitas de bilheteira e formarem um grupo de elite para negociar as transmissões em conjunto. Por exemplo FC Porto, Braga, Guimarães, Paços de Ferreira, Académica e eventualmente um ou dois clubes insulares formariam um primeiro grupo de elite seguido de outro onde poderiam entrar outros clube da I ou II Ligas como Rio Ave, Beira-Mar, Gil Vicente e Leixões. Isto permitiria que a parceria garantisse à partida cerca de 30 jogos por época onde jogassem clubes grandes e outros tantos onde entrassem clubes "quasi-grandes".


As contas da Olivedesportos não são reveladas publicamente, provavelmente por a isso não estar obrigada a sociedade. Desconheço os montantes de Activo, Passivo e Capital Próprio presentes ou passados da Olivedesportos. No entanto não pude deixar de notar que no passado exercício, segundo a Revista Exame, a Olivedesportos foi 3ª classificada a nível nacional no que respeita à Rentabilidade dos Capitais Próprios. A empresa de Joaquim Oliveira obteve uma percentagem de 517,48% (este rácio mede a relação entre o Resultado Líquido e os Capitais Próprios), o que significa que o "lucro" do último ano foi 5 vezes superior aos Capitais investidos. Sem outro tipo de informação não é possível tirar grandes conclusões a partir destes dados mas pode, contudo, inferir-se que é um negócio altamente lucrativo para a Olivedesportos e para Joaquim Oliveira.

Os clubes têm de acordar para esta situação, mais cedo que tarde, ou no futuro irão ver a Olivedesportos a aumentar o seu poder e reforçar o desvio de valor dos clubes para si.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O valor do futebol na TV


Em Julho do ano passado, o João Saraiva e o José Rodrigues já abordaram este assunto em dois artigos:
A evolução do direitos de TV (07/07/2008)
Joaquim Oliveira, o "amigo" dos clubes (08/07/2008)

Contudo, a discussão à volta do valor das transmissões televisivas dos jogos de futebol continua ser um tema actual (actualíssimo!) e, por isso, transcrevo de seguida partes de dois artigos do DN de 28 de Agosto.


«Actualmente, a Olivedesportos, detentora dos direitos televisivos das duas Ligas profissionais, investe por época cerca de 45 milhões de euros no escalão principal, canalizando as maiores fatias para os três grandes, com Benfica, FC Porto e Sporting a garantirem praticamente a mesma verba, cerca de 8,5 milhões de euros.

As equipas apontadas como candidatas a lugares europeus garantem receitas na ordem dos três milhões de euros, como sucede com o Vitória de Guimarães, enquanto o Sporting de Braga encaixa um pouco menos, cerca de 2,5 milhões.

Os emblemas que partem para a Liga com o principal objectivo da manutenção recebem cerca de 1,5 milhões, como Académica ou Leixões.

O presidente da SAD do clube de Matosinhos, Carlos Oliveira, é precisamente dos que defende um outro modelo de negociação dos direitos televisivos, de forma a reforçar o poder negocial dos clubes mais pequenos.
"Há uma disparidade enorme entre aquilo que é pago aos três grandes e aos outros clubes. Um modelo como se pratica em Inglaterra [acordo colectivo] seria muito mais interessante", defende, apontando para uma solução que, nas suas palavras, até poderia melhorar a qualidade da primeira Liga portuguesa.
Carlos Oliveira acredita que se os clubes acumularem "boa parte do orçamento através das receitas televisivas" o fosso entre as equipas "diminuirá", tornando a liga portuguesa "mais espectacular e competitiva".

Um artigo recente publicado pelo Futebol Finance, site especializado na área económica da modalidade, estimava que um acordo colectivo poderia render anualmente à liga principal até 150 milhões de euros, o triplo dos números actuais.
Mesmo assim, há clubes que parecem mais inclinados em estudar individualmente propostas, como o Benfica, que acredita poder passar a arrecadar uma verba na ordem dos 40 milhões de euros por época assim que expirar o acordo com a Olivedesportos, como estimava ao diário Público, em finais de 2008, o administrador Domingos Soares Oliveira.

Comparando os valores a Ligas com semelhanças à portuguesa e que também firmaram acordos colectivos, os números equivalem-se aos praticados em Portugal, como sucede na Bélgica (46 milhões de euros por época) ou Dinamarca (47).

Na Grécia, a Liga recebia um pouco mais, cerca de 55 milhões de euros, mas um novo acordo assinado entre com a Skai TV e NOVA renderá anualmente perto de 70 milhões de euros de receitas televisivas (mais 25 milhões que o contrato anterior) a partir desta temporada.
De fora ficaram Olympiacos e Xanthi, que preferiram manter os vínculos à estação pública NET.

Na Escócia, o contrato com a Setanta, empresa que entretanto faliu, foi substituído por um acordo muito menos rentável com a ESPN e Sky.
O contrato anterior previa 145 milhões de euros por cinco temporadas, montante que a Setanta não conseguiu cumprir. Face às dificuldades financeiras desta empresa, a Liga escocesa virou-se para os dois canais televisivos, que pagarão metade (75 milhões) pelo mesmo número de temporadas.
Face à desvalorização abrupta desta parte das receitas, os dois maiores clubes escoceses, Celtic e Rangers, ponderam criar um canal de futebol, um projecto que já terá propostas de financiamento na ordem dos 145 milhões de euros por temporada.
A ideia seria distribuir cerca de 30 milhões pelos outros 10 clubes da Liga escocesa e reter a restante quantia para os dois maiores.

Nas contas entre as potências europeias, os números sobem radicalmente. Os valores totais pagos em Portugal, Bélgica ou Dinamarca não chegam, por exemplo, para cobrir as receitas anuais do Bayern de Munique.

O clube bávaro é, segundo um estudo recente da Deloitte, um dos "gigantes" europeus que menos recebe pelas transmissões televisivas. Mesmo assim, garante quase 50 milhões de euros por ano, mais do que a Olivedesportos investe por época na Liga portuguesa.
No actual acordo com a Sirius, detentora dos direitos da Bundesliga, o Bayer de Munique tem direito a 10 por cento do total investido, na ordem dos 500 milhões de euros, montante muito aquém do dinheiro que circula na Liga inglesa, quase 1400 milhões de euros por temporada.

Até a Liga francesa, talvez o menos atractivo campeonato dos cinco maiores da Europa, conseguiu um acordo de valores superiores à prova da maior economia europeia. A Ligue 1 arrecada por temporada quase 700 milhões de euros, com as maiores fatias a serem canalizadas para Lyon (75) e Marselha (70).

O mesmo estudo da Deloitte mostra que há nove clubes da Europa cujas receitas exclusivas de televisão rondam a faixa "mítica" dos 100 milhões de euros, todos das três principais potências futebolísticas do "velho continente".
Dois clubes espanhóis, Real Madrid (136 milhões) e FC Barcelona (117), quatro italianos, AC Milan (123), Inter de Milão (108), Juventus (107) e As Roma (106), e três ingleses, Manchester United (116), Chelsea (98) e Liverpool (95), lideram a tabela, com receitas que "esmagam" as obtidas pelos três grandes portugueses.»
in Diário de Notícias, 28/08/2009


Referências:
Contratos de Direitos Televisivos
Audiência e Share dos jogos da Liga Sagres 2008/09
Direitos televisivos impõem horários na Bundesliga

terça-feira, 8 de julho de 2008

Joaquim Oliveira, o "amigo" dos clubes

O FCP acaba de celebrar uma extensão de contrato por 5 anos com a Olivedesportos, passando a receber 10,4 milhões €/ano contra 8 milhões €/ano anteriormente. Isto traduz-se num aumento de 28%, o que à primeira vista é muito bom.


Ao mesmo tempo estes valores são ligeiramente superiores ao que os rivais da 2a circular usufruem neste momento, o que só confirma o bom negócio.

No entanto, isto traduz-se também num aumento de 5%/ano, pouco acima da inflação. Mas mais do que isso, verifico que, comparativamente falando, as receitas são baixas no panorama europeu.

Os 10 clubes mais ricos da Europa (que em média têm menos adeptos que o FCP) receberam em 06/07 em média 70 milhões €/ano, ou seja 7 vezes mais do que o FCP vai passar a receber até 2015. E a tendência é para um forte aumento nos próximos anos.

Se é verdade que esses clubes são na maioria oriundos de mercados bastante mais vastos que o português, isto é só a ponta do icebergue; olhemos para as receitas totais dos clubes da I Liga dos maiores países da Europa.

Em Inglaterra os clubes recebem no total cerca de 1100 milhões €/ano pelos direitos de transmissão de jogos do campeonato, vendidos em 3 pacotes: 290 milhões pelos direitos para o estrangeiro, 190 pelos direitos para a Internet e telemóveis, e o restante (cerca de 600 milhões) pelos direitos para as Ilhas Britânicas. E em 2010 estes valores serão mais uma vez renegociados (quase certamente para cima).

Em Portugal, os clubes recebem no total cerca de 40 milhões €/ano. Ou seja, 27 vezes menos.

As receitas no resto da Europa são mais baixas mas não deixam de se traduzir em diferenças que o tamanho do mercado não justifica. Na própria Grécia (mercado semelhante ao português) as receitas são bastante mais altas, apesar do custo para o consumidor (i.e. a subscrição dos canais televisivos) até ser mais baixo do que o custo de subscrição da Sport TV.

E ao contrário da Grécia, nós até temos um mercado razoavelmente apetecível no estrangeiro, começando pelos países de expressão portuguesa mas não só (ainda recentemente me surpreendi ao ver a transmissão integral de um Guimarães - Leixões no lobby do aeroporto de Abu Dhabi).

Olhando ainda para isto noutra perspectiva, é fácil de concluir que a margem de lucro de Joaquim Oliveira neste negócio é obscenamente de várias dezenas de pontos percentuais, além de que têm crescido bastante mais rapidamente do que o que pagam aos clubes (número de subscritores, vendas ao estrangeiro, internet).

Enquanto a Olivedesportos paga uns 40 milhões /ano aos clubes pela transmissão dos jogos do campeonato - de longe a principal razão para a adesão de subscritores - só em subscrições a Sport TV deverá encaixar mais de 80 milhões / ano.

Que pasa?

Parece-me que há uma certa tendência do mercado para um monopólio natural, mas isso também se passa em muitos outros mercados no estrangeiro onde os clubes recebem uma fatia bem maior do "bolo" (Escócia, Grécia, Bélgica, Holanda), logo não explica tudo.

Além de que existem alternativas: se um FCP se quisesse dar ao trabalho podia entrar em acordo com um canal existente (por ex Porto Canal) para a transmissão dos jogos em pay-per-view por cabo e por Internet, o que poderia facilmente ultrapassar os 10 milhões €/ano em lucro (a um preço/jogo de 3 € e com uns 300mil subscritores teríamos quase 15 milhões €/ano de receitas, excluindo os custos de operação - relativamente baixos para um canal existente - mas excluindo também a revenda para o estrangeiro).


Penso que um factor determinante (para o FCP mas também para os restantes clubes da I Liga) é as relações demasiado próximas e históricas com Joaquim Oliveira, que entre outras coisas é accionista de referência de diversas SADs, começando pela SAD do FCP. Este factor é muito específico a Portugal e penso que explica em boa parte porque razão Joaquim Oliveira consegue fazer lucros tão obscenos com os direitos televisivos.

Concluindo, penso que o tamanho do mercado limita o potencial de receitas (nunca chegaremos perto de um grande clube inglês ou espanhol, longe disso), mas penso que querendo a SAD do FCP (e dos outros grandes) facilmente conseguiria chegar a receitas de 15 milhões €/ano. E isto sem precisar de se sujeitar a todos os caprichos da Sport TV, começando pelos jogos a horas e dias impróprios.

Só que para tal possivelmente teriam que se chatear com Joaquim de Oliveira, e muitos não querem e/ou não podem sujeitar-se a isso... entretanto vamo-nos contentando com um aumento razoável pouco superior à inflação, o que afinal de contas até já nem é mau de todo.