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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Statista

A Juventus passou a ser, desde sábado, de forma isolada, o clube com mais derrotas em finais da Taça dos Campeões/Champions League. No entanto, ainda não é o clube com mais derrotas no conjunto de todas as provas da UEFA.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Eu vi, sofri, gritei e chorei… de alegria

O Futebol Clube do Porto é uma das paixões da minha vida e, naturalmente, interesso-me por factos, atletas, treinadores, dirigentes, modalidades, instalações, eventos, etc., etc., da sua história já bi-centenária.

De ler, ouvir e pesquisar, conheço factos que ocorreram aquando da fundação, em 1893, sei que o FC Porto foi o 1º campeão nacional (em 1921/22) e o 1º vencedor do campeonato da I Liga (em 1934/35), ouvi o meu pai contar-me estórias do “homão” (Yustrich), do Jaburú e do Hernâni, da “invasão” (pacífica) a Lisboa, por terra, mar e ar, feita por milhares de adeptos portistas, da marcha do FC Porto (“Porto, Porto, Porto, és a nossa glória,…”), que o meu pai punha a tocar antes de ir para os jogos no Estádio das Antas, mas tudo isto faz parte de um passado glorioso que eu não vivi, porque nem sequer era nascido.

Mas, há 28 anos atrás, a 27 de Maio de 1987, já era nascido e, sensivelmente a esta hora, estava em frente a uma televisão, a sonhar acordado, para ver, a cores e em directo, a equipa azul-e-branca, a equipa do meu querido FC Porto, no estádio do Prater, em Viena, na final da Taça dos Campeões Europeus 1986/87.

E, durante aqueles 90 minutos, sofri, gritei, sofri, disse palavrões, sofri, saltei e, quando o belga Alexis Ponnet deu o jogo por terminado, explodi num misto de emoções e chorei, chorei de alegria.

Estádio do Prater, 27 de Maio de 1987 (clicar na imagem para ampliar)

Naquele dia, de imensa felicidade para todos os portistas, lembrei-me de Pedroto (o “pai” do FC Porto europeu, que três anos antes tinha saído injustamente derrotado de Basileia) e pensei em todos aqueles que não tiveram a mesma sorte, a sorte de terem vivido aqueles 90 minutos e de verem o seu clube “voar nos céus de Viena” e consagrar-se como a melhor equipa da Europa.

P.S. Há adeptos de outras cores, cuja bazófia não tem limites, mas que nunca viram e provavelmente nunca irão ver, os seus clubes no topo da Europa e do Mundo (parafraseando o, agora, “simpático” Octávio Machado, vocês sabem de quem eu estou a falar...)

sexta-feira, 13 de março de 2015

O mito das "noites europeias" do Benfica


Parece ser que a memória neste país é curta. Muito curta. Pior que isso, selectiva. O apuramento categórico e sem espinhas do FC Porto para os Quartos-de-Final da Champions League despertou a habitual dose de admiração lá fora e o velho complexo de inferioridade cá dentro. O Porto é, para todos menos para os que ficaram congelados no tempo, o maior clube português dos últimos 30 anos. Não há ninguém que, no poder da sua sanidade mental, encontre argumentos que discuta essa realidade. E é-o não só pelo domínio hegemónico das ligas nacionais (dois terço dos títulos em três décadas, algo que nunca Benfica e Sporting lograram nos seus melhores tempos) mas também pelo que se consegue lá fora. Na Europa. A doer.


Os números do FC Porto nos últimos 30 anos na Europa não mentem.


São maiores do que o dos clubes de Lisboa juntos o que não é coisa pouca. Um dois em um. Mais importante, talvez, é medir a dificuldade desses títulos. Sim, a dificuldade. Não só temos MAIS títulos como também foi MAIS difícil ganhar o que ganhamos e chegar onde chegamos.
Até 1992/93 – ano em que começou oficialmente a Champions League – o Porto tinha cerca de uma dezena de participações na Taça dos Campeões Europeus. Quem leu o “Noites Europeias”, livro que escrevi, ou tem boa memoria (se o viveu), sabe que até esse ano a Taça dos Campeões se compunha mais ou menos de cinco rondas para os finalistas das quais era muito raro que mais do que uma fosse contra um rival importante. Não só porque havia menos países e por isso menos participantes mas, sobretudo, porque só disputava a liga um representante por liga salvo se o campeão europeu era distinto ao da liga. Nesse cenário, durante 40 anos (a Champions só se abriu aos segundos em 1997), ganhar a “Orelhona” tinha muito menos dificuldade do que se pode hoje supor. Afinal, se formos ver ronda por ronda (e eu tive que estudar isso a fundo para o livro) de cada finalista e vencedor, o esforço era parco. O nosso caso é exemplo disso. Até ás meias-finais, em 1987, com o Dinamo de Kiev (podem rever o jogo aqui, vale bem a pena), os nossos rivais tinham sido relativamente acessíveis. Malteses, checos e dinamarqueses, nenhum gigante. É a realidade dos factos. E ninguém nos ouve a embandeirar em arco por isso. Mas é precisamente, por isso mesmo – sobretudo por isso – que os números conquistados antes do aparecimento do novo formato Champions provocam resultados europeus que merecem ser analisado á lupa. É esse o caso do Benfica.


O clube da Luz reclama um historial europeu tremendo até aos anos oitenta. O clube com mais finais perdidas (esse, acho que não mencionam muito) cresceu internacionalmente (e isso é inequívoco) á base das suas “noites europeias”. Mas vamos lá ver com atenção o difícil que podia ser jogar nos anos sessenta contra as equipas que esse todo-poderoso Benfica eliminava.

Depois de fazer o ridículo, como qualquer equipa portuguesa fazia nos primeiros anos da Taça dos Campeões, o Benfica chegou á primeira final em 1961. Nesse ano tiveram de defrontar equipas temíveis do futebol mundial como o Hearts escocês (a aproveitar-se de um ano fraco do “Old Firm”), o Ujpest Dosza húngaro, o AGF dinamarquês (liga amadora) e o Rapid Wien. Não eliminaram nem o Real Madrid (isso fez o Barcelona), nem a Juventus (isso fez o CSKA Sofia), nem o Hamburgo (isso fez o Barcelona outra vez, que chatice), nem sequer o Burnley inglês (cortesia do Hamburgo). Numa meia-final tínhamos as equipas (Barcelona vs Hamburgo) que tinham eliminado os gigantes. Na outra estava o Benfica. Começam a perceber?

Voltaram á final nos dois anos seguintes e uma vez mais depois de batalhas asfixiantes como gigantes como o Austria Viena e o Nuremberga (em 61/62) e o Norkoping (liga amadora), o Dukla de Praga e o Feyenoord (uma equipa semi-profissional á época) em 62/63. Nesses anos houve grandes equipas europeias, não se enganem. Simplesmente nunca se cruzavam com o Benfica. Quando caíram numa fase a eliminar pela primeira vez em quatro anos foi com uma equipa que se tinha tornado profissional nesse ano, o Borussia de Dortmund (ultimo campeão alemão pre-Bundesliga) com um 5-0 no Westfallenstadion. Essa parte da história contam pouco. Lá voltaram a mais duas finais nessa década e, pasme-se, eliminando sempre a gigantes continentais como o Aris Luxemburgo, Le Chaux-des-Fonds suiço e o Vasas Gyor húngaro (em 1964/65) e os irlandeses do Glentoran, os franceses do Saint-Etienne, outra vez o Vasas húngaro e uma Juventus em profunda decadência (em 1967/68).




(ilustração do FC Porto de 1987 porque não me apetece por aqui nenhuma imagem do Benfica)


Durante os anos 60, salvo o duelo contra o Tottenham em 1962 (realmente uma grande equipa) e o Real Madrid em 1965 (ainda que com uma geração de quase quarentões) os jogos europeus do Benfica, tão celebres, tão míticos, foram realmente contra equipas de segunda e terceira linha que no contexto actual da Champions se ficam pelas pre-eliminatórias. Quando se cruzaram com equipas de nível como o Manchester United (em 1965/66), o Ajax de um ainda adolescente Cruyff (1968/69 e depois em 1971/72) ou o Celtic (69/70) o normal era serem eliminados. Nos anos setenta essa realidade foi ampliada e desapareceram praticamente do mapa – desde 72 a 88 não voltaram a uma meia-final durante toda a década e levaram algumas goleadas jeitosas pelo meio - e lá para finais dos oitenta voltaram a pairar, recuperando a presença em finais que ganharam (ah não, perderam outra vez!).Para lá chegarem, em 1988, eliminaram o Tirana albanês, o AGF dinamarquês (outra vez), um vetusto Anderlecht e o Steaua de Bucareste, uma equipa com o seu quê de talento mas longe de ser uma potência continental. Dois anos depois repetiram a dose contra o Derry City irlandês, o Honved, Dniepr (campeão soviético de uma liga em auto-destruição) e o Marselha. Essa ronda vale a pena relembrar, não só porque levaram um baile de bola em Marselha (o 2-1 foi claramente pouco para o merecido) como porque só chegaram a Viena via um desvio pouco habitual, a mão de Vata. 

A festa acabou aí. Á medida que o nível de dificuldade foi subindo os clubes europeus que frequentavam a Taça dos Campeões mas que não tinham nível para a exigência Champions foram sendo filtrados pelo caminho. Algum de vocês voltou a ouvir falar do Benfica numa final ou meia-final da Champions? Eu também não. Actualmente – é dizer, desde 1993 – o FC Porto chegou a uma final da Champions League (que ganhamos, mas deixem lá isso), uma meia-final (em 1994, perdida com o Barcelona) e quatro quartos-de-final (em 1996 com o Man Utd, em 2000 com o Bayern depois de uma dupla fase de grupos, em 2009 com o Man Utd de novo e agora). Nesse cenário moderno tivemos em seis ocasiões entre os oito melhores da Europa. Os oito melhores da Europa que eram, ás vezes, dois de Espanha, três de Itália, dois de Inglaterra e algum alemão, francês e holandês pelo meio. A elite das elites. No mesmo periodo de tempo o Benfica nunca passou dos quartos-de-final onde só chegou em duas ocasiões. Desde o formato clássico que passar dos Quartos passou a ser uma utopia. Então lembram-se de quando o conseguiam. E esqueciam-se que então entre os oito melhores da Europa só estava um espanhol, um italiano, um alemão, um francês e ás vezes turcos, checos, suíços, belgas, húngaros, austríacos e até gregos. Outro mundo.
O FC Porto não é só grande em casa. É muito grande lá fora. E é grande porque ombreia com os gigantes do futebol mundial, com orçamentos muito maiores, ligas muito mais competitivas e influentes. Nesse cenário não acredito que ninguém seja capaz de comparar a dificuldade de ser quarto-finalista na idade moderna com ser semi-finalista no modelo anterior. Por cada vez que algum jornalista com fraca memoria (já não falo dos vossos conhecidos benfiquistas) vos lembrar num artigo as míticas “noites europeias” do Benfica e as finais que já perderam (que como disse um dia o José Augusto "ser vice-campeão da Europa também é um titulo, doa a quem doer"!) repitam-lhes devagar, para entenderem bem, os tubarões que tiveram de ganhar para lá chegar… AGF, Derry City, Ujpest, Honved, Dniepr, Tirana, Anderlecht, Steaua, Austria Viena, Rapid Viena, Nuremberga, Norkoping, Hearts…

domingo, 27 de maio de 2012

Recordações de Viena (IV)




Recordações de Viena (III)



Recordações de Viena (II)




Recordações de Viena (I)







O dia de maior glória da nossa história


Estava quente, naquela manhã de 27 Maio de 1987.
Ainda as finais se disputavam, felizmente, nas mágicas quartas-feiras.
Seria uma data que qualquer portista jamais esqueceria.

Ainda na véspera, ouvíamos, à noite, a "Bola Branca" na "RR".
Sem net, era a única forma de, na altura, ficarmos a par das últimas, directamente do hotel em Viena.
O último jornal na TV limitara-se a um "Esperemos que a notícia de abertura de amanhã seja a vitória do FCP!".
Jaime Pacheco seria o único jogador a ficar de fora, dizia-se. E, assim, fomos todos dormir.

Saberíamos mais tarde que, naquela mesma madrugada, Madjer estava a meditar em todas as fintas e dribles que poderia fazer no dia seguinte. Não queria deixar nada ao acaso. Confessou-o no seu livro "Madjer, l'artist".

No dia D, acordamos com o programa de manhã da RTP.
Ainda por lá não se dançava música-pimba com cachecóis à mistura, mas o vidente de serviço assegurava que os ventos estariam de feição para as nossas cores. "Não era um garantia, mas...".

E como foi difícil trabalhar ou ir para as aulas naquele dia.
Nunca mais eram as 19h15...
E tudo muito quente continuou, naquela esplêndida tarde de sol.

Como habitualmente na altura, a emissão da RTP começaria praticamente em cima do apito inicial.
Ninguém se via nas ruas da baixa. Silêncio se fez. Era o jogo das nossas vidas.

E o resto é História.

Discurso do rei Artur ao intervalo: "Daqui a 45 minutos não há bola que foi à trave e, por azar, não entrou; não haverá também desculpas com o árbitro nem outras quaisquer. Daqui a 45 minutos, vocês são Campeões da Europa ou não!".

Frasco, Juary e Madjer. Madjer e Juary. 10 minutos intermináveis, mas o Mly lá nos acalmava um pouco. 
Apito final.

Pinto da Costa a desmaiar, ainda no camarote, e o João Pinto a não largar o caneco nem por nada. "Um rapaz como eu com a Taça dos Campeões nas mãos!"
E eis a a foto de família dos vencedores: os saudosos Teles Roxo e Zé Beto. Também nomes, agora algo "estranhos", como D'Onofrio, Álvaro Braga Júnior ou mesmo Octávio. O grande Dr. Domingos Gomes: "Destas fotos, já ninguém me poderá retirar". Casagrande, que não chegou a ser preciso. Festas, um júnior, que ainda andava pelo "Alexandre" a estudar. O "Moreno" e o Rodolfo Moura. O Prof. João Mota. Até o inefável Delano Vieira lá pelo Prater circulava.

Os grandes favoritos, esses que até se davam ao luxo de jogar com o veterano Hoeness, para a sua despedida, perdiam ali mesmo ao pé de sua casa.
Mais derrotas muito penosas, em finais europeias, se seguiriam para este Bayern.

E pronto, os noticiários começariam mesmo com a frase mais bonita que um adepto pode desejar ouvir: "Boa noite, o FCP é Campeão Europeu!".

E depois aquela multidão imensa nos Aliados.
Até Domingos Paciência, júnior já famoso de tantas vezes ser chamado ao plantel principal, por lá andava.

Poucas horas se dormiriam.
Os atletas ainda chegariam a aparecer no relvado das Antas, já a madrugada ia bem alta, mas meio tímidos.

E eram primeiras-páginas de chorar de orgulho, as do dia seguinte:
"Porto, Rei da Europa", no "JN".
Até mesmo o Alfredo Farinha d'"A Bola", que teria levado a pá para Viena, se renderia ao "Danúbio Azul".

Crianças festejavam, felizes, jogando à bola pelas ruas e escolas do Porto.
Importante mesmo, naquele dia 28, era marcar um golo de calcanhar.

Foi preciso esperar até ao Domingo seguinte para voltar a sentir grandes emoções.
Último jogo do campeonato contra o Elvas. Grande enchente nas Antas. Já de manhã, Juary e Madjer, abraçados na capa do Record, asseguravam: "Heróis só nos filmes!".

E era vê-los, todos ali, a entrarem em campo com a Taça dos Campeões nas mãos. Afinal, tudo aquilo tinha sido mesmo verdade.

Goleada das antigas. Madjer e Futre poupados, jogariam apenas meia-parte. Chegou e sobrou.


1986/87 escrito a letras de ouro.

Meses depois e com tempo para reflectir, ainda a muitos custava acreditar que tudo tinha acontecido assim mesmo: de modo tão perfeito.

Em 27 Maio de 1987 tudo mudou. 
Nunca mais seriamos os mesmos.

Foi assim - II

O conjunto de relatos que fui reunindo ao longo destes anos sobre Viena (e a caminhada até lá):
   

Salvo erro boa parte disto veio do blog Pobo do Norte, por isso aqui ficam os créditos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Na antecâmara de Viena


Estádio Olimpico de Kiev

Após a excelente exibição da 1ª mão, mas que produziu um resultado escasso, o FC Porto de Artur Jorge partiu para Kiev sabendo que ia enfrentar uma equipa poderosíssima e que em casa era praticamente imbatível.

Só para dar uma ideia das dificuldades que nos esperavam, o Dínamo, nessa época e na anterior, tinha o seguinte registo de resultados em casa para as competições europeias:

1985/86, Taça das Taças
4-1: FC Utrecht (Holanda)
3-0: Universitatea Craiova (Roménia)
5-1: Rapid Viena (Áustria) (1)
3-0: Dukla Praga (Checoslováquia) (2)

(1) O Rapid Viena tinha sido finalista da Taça das Taças na época anterior (1984/85)
(2) O Dukla Praga tinha eliminado o SLB nos quartos-de-final

1986/87, Taça dos Campeões Europeus
2-0: FC Beroe (Bulgária)
3-1: Celtic (Escócia)
5-0: Besitkas (Turquia)

Ou seja, 0 derrotas, 0 empates e 7 vitórias (praticamente todas por goleada). Era esta máquina trituradora, treinada por Lobanovsky, que o FC Porto ia enfrentar.

Em 22 de Abril de 1987, o FC Porto entrou no Estádio Olímpico de Kiev com o seguinte onze:

Mlynarczyk, João Pinto, Celso, Lima Pereira, Eduardo Luís, André, Quim, Jaime Magalhães, Madjer, Gomes (cap.) e Futre.

Toda a gente esperava um massacre do Dínamo nos minutos iniciais mas, perante o espanto de 95 mil ucranianos, que enchiam por completo as bancadas do estádio, aos 11 minutos os dragões venciam por 2-0!

Vídeo do golo do Celso (ao terceiro minuto):




Vídeo do golo do bi-bota de ouro (aos 11 minutos de jogo):




Mikhailichenko haveria de reduzir aos 13 minutos e os ucranianos ainda enviaram uma bola à trave, mas um FC Porto com classe, altamente personalizado e a jogar à Porto, controlou o desafio até ao árbitro Ronald Bridges (País de Gales) apitar para o final do encontro, obtendo uma nova vitória por 2-1 e regressando a Portugal com o bilhete para a final de Viena.



Como recordação e em jeito de homenagem, os 23 'dragões' que participaram nos nove jogos que culminaram com a vitória de Viena (clique para ampliar):

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Dinamo Kiev de Lobanovsky

Equipa da URSS finalista do EURO 88, treinada por Lobanovsky e cuja base era o Dinamo Kiev


Na caminhada para Viena, depois de termos eliminado os campeões de Malta (Rabat Ajax), da Checoslováquia (Vitkovice) e da Dinamarca (Brondby), as meias-finais da Taça dos Campeões Europeus de 1986/87 afiguravam-se quase intransponíveis isto, claro está, se atendermos à valia dos três possíveis adversários que nos podiam sair em sorte: o campeão de Espanha (Real Madrid), o campeão da RFA (Bayern Munique) e o campeão da URSS e detentor da Taça das Taças (Dínamo Kiev).

Após o sorteio de Zurique, que colocou o Dínamo Kiev no caminho do FC Porto, a ‘Dragões’ escrevia o seguinte:
«Todos se lembram, certamente, do futebol de sonho que a selecção soviética patenteou no Mundial do México, levando inclusive alguns comentadores a considerar que tal futebol era já do próximo século. (...) Pode aliás dizer-se que, grosso modo, é a própria selecção da URSS que os “dragões” vão defrontar nos próximos dias 8 e 22 (...). É que, como é sabido, entre os 22 atletas que os soviéticos levaram ao México estavam nada mais nada menos que uma dúzia de elementos do Dínamo (...).
E quem não se recorda, também, da bela campanha do Dínamo na Taça das Taças da época transacta, concluída com um triunfo esclarecedor (3-0) sobre o Atlético de Madrid no encontro da final (...)
»
in Revista Dragões nº 25, Abril de 1987


Equipa do Dínamo Kiev que venceu a Taça das Taças 1985/86, em 2 de Maio de 1986


O Dínamo Kiev era, de facto, uma autêntica máquina de jogar futebol treinada por Lobanovsky, que também era seleccionador da URSS.

Valery Vasilyevich Lobanovsky nasceu em 6 de Janeiro de 1939 e era um oficial de carreira do Exército Vermelho, que chegou ao posto de coronel. Daí que não surpreenda a disciplina que impunha aos jogadores das suas equipas. Mas como treinador Lobanovsky era muito mais que um “coronel” disciplinador. Ele seguia uma abordagem cientifica do treino e foi o primeiro treinador do Mundo a usar um computador para analisar as tácticas e o planeamento da equipa.

Os resultados começaram a ver-se logo em 1975, quando levou o Dínamo Kiev à vitória na Taça das Taças, derrotando na final os húngaros do Ferencváros, naquela que foi a primeira conquista de uma competição europeia por um clube da antiga União Soviética.

Contudo, para além da disciplina, preparação física e metodologia de treino altamente avançada para a época, que davam forma a colectivos fortíssimos, no Dinamo de 1986/87 também pontificavam vários jogadores acima da média.

Alexander Zavarov e Pavel Yakovenko (6º e 21º respectivamente na classificação da Bola de Ouro 1986) eram dois médios de classe mundial, a que se juntou a jovem estrela emergente Alexei Mikhailitchenko. Por estes três jogadores passava toda a organização de jogo da equipa ucraniana.

Oleg Blokhine era o nome mais sonante e, apesar de estar em final de carreira, mantinha a classe que fez dele em 1975, aos 22 anos, o Bola de Ouro com a maior votação de sempre (à frente de jogadores como Franz Beckenbauer ou Johan Cruyff).
Blokhine era um jogador rápido, de dribles curtos e com um enorme sentido de baliza.
Ao serviço do Dínamo Kiev, onde fez praticamente toda a sua carreira, disputou 432 jogos e marcou 211 golos, tendo conquistado 2 taças das taças, 8 campeonatos e 5 taças da URSS.
Na selecção soviética foi o jogador mais internacional de sempre – 112 jogos – e marcou 42 golos.

E havia ainda Igor Belanov, que era “apenas” o Bola de Ouro 1986. Sobre ele, o Dínamo Kiev e a Selecção da URSS, a revista France Football, promotora deste prestigiado prémio, escreveu o seguinte:

«En cette année 1986, Igor Belanov fut présent constamment sur tous les fronts. Il marqua de nombreux buts, gagna la Coupe des Coupes, brilla en Coupe du monde (trois buts contre la Belgique) et arracha le titre de champion d'URSS. Il ne fut, certes pas, tout seul à récolter tous ces lauriers, mais il ne vola pas sa part du jeu. Son Ballon d'Or, en fait, honora le jeu d'une équipe radieuse et inspirée, le Dynamo Kiev, conduite par un maître: Valeri Lobanovski. Il récompensa ceux qui cherchent et qui croient aux voies de l'inspiration. Il aurait tout aussi bien pu revenir à un autre joueur soviétique, Zavarov ou Yakovenko, ses coéquipiers en club, voire à Dassaev, son partenaire en sélection, tous les trois cités par le jury de France Football. (...)
Le triomphe d'Igor Belanov, s'il est aussi celui d'une sélection et d'un football soviétiques qui ont causé une petite révolution technique en 1986 (...)
»
in France Football

Por tudo isto, não admira que a Selecção da União Soviética... perdão, o Dínamo Kiev fosse considerado a melhor equipa do Mundo e o adversário que todos queriam evitar.

A 1ª mão das meias-finais disputou-se no Estádio das Antas, a 8 de Abril de 1987, numa típica noite chuvosa do Porto.

FC Porto: Mlynarczyck, João Pinto, Lima Pereira, Celso, Eduardo Luís, André, Sousa, Jaime Magalhães, Vermelhinho, Gomes (cap.) e Futre

Substituições: Sousa por Juary (45); Jaime Magalhães por Madjer (81)
Suplentes não utilizados: Zé Beto, Inácio e Semedo

Dínamo Kiev: Tchanov, Baltacha, Bal, Kuznetsov, Demianenko (cap.), Yakovenko, Zavarov, Mikhailitchenko, Rats, Belanov e Blokhine
Substituições: Blokhine por Morozov (75); Belanov por Yevseyev (85)

O rebaixamento das Antas tinha sido concluído uns meses antes e, apesar da intempérie, o estádio estava quase cheio (ainda sem cadeiras deviam estar cerca de 75 mil pessoas).
Eu assisti ao jogo no novo 1º anel da Superior Norte, perto da bancada dos cativos, e aquilo que vi superou largamente as minhas melhores expectativas. O FC Porto, cujas exibições e resultados no campeonato estavam longe do que seria de esperar de uma equipa que era bi-campeã nacional (haveríamos de perder o titulo, e o sonho do Tri, para um sofrível SLB treinado por John Mortimore), fez uma exibição de luxo, na minha opinião a melhor dessa época, emperrando e vulgarizando a máquina futebolística soviética.

O intervalo chegou ainda com o resultado em branco, mas no início da 2ª parte, em apenas 10 minutos, o FC Porto marcou dois golos – Futre (49') e André (55', gp) – traduzindo no marcador a superioridade que vinha evidenciando no terreno.

Os dois golos do FC Porto neste jogo podem ser revistos no vídeo seguinte:



Quando o árbitro holandês, Jan Kaiser, mostrou o 2º cartão amarelo a Andrei Bal, ficando os ucranianos reduzidos a 10 unidades, a presença no Estádio do Prater pareceu, pela primeira vez, ao nosso alcance, mas aos 74 minutos Yakovenko haveria de deitar um balde de água fria nos encharcados adeptos portistas, quando reduziu para 1-2.
Daí e até ao final do jogo o 3º golo esteve à vista em três ocasiões, mas o fado que nos perseguia nas alturas decisivas não o permitiu e à saída do estádio eram poucos os portistas que acreditavam poder resistir 90 minutos ao inferno de Kiev, levando na bagagem uma vantagem tão curta (na altura o peso de jogar fora de casa era muito maior do que agora).

Duas semanas depois, a epopeia de Kiev haveria de ficar gravada a letras de ouro no historial do FC Porto, mas isso são outras estórias, quiçá futuros artigos.


P.S.1 O FC Porto 1986/87 tinha estrelas de nível mundial como o Futre e o Madjer, que faziam maravilhas com a bola e que perduram no imaginário dos portistas que tiveram a felicidade de os ver jogar. Mas deixem que vos diga que aquilo de que tenho mais saudades é de ver uma equipa formada por jogadores da estirpe e da raça do João Pinto, Lima Pereira, André, Jaime Magalhães, Gomes, entre outros, os quais, para além da sua inegável categoria, eram portistas e tinham orgulho em envergarem a gloriosa camisola azul-e-branca.



P.S.2 Valery Lobanovsky morreu de ataque cardíaco em 13 de Maio de 2002. A seguir à sua morte recebeu o titulo de herói da Ucrânia (a mais alta distinção do país) e o estádio do seu Dínamo Kiev foi renomeado Estádio Lobanovsky.
Em 2003, após o AC Milan ter ganho a Liga dos Campeões, Andrei Shevchenko voou para Kiev e colocou a sua medalha no monumento do seu antigo treinador.