Comecemos com um
disclaimer: Sou um grande admirador do Diego Reyes e do Hector Herrera. Já os vejo jogar há vários anos, tanto na liga mexicana como nas selecções de formação aztecas e a qualidade futebolística está lá. O artigo não é sobre isso.
A operação Jackson Martinez saiu bem. Muito bem.
A SAD avançou para um jogador referenciado pelo Vitor Pereira - segundo o AVB na sua célebre entrevista ao Jogo - que actuava num modesto clube da liga mexicana e era um dos suplentes de Falcao na selecção da Colombia. Custou dinheiro mas rentabilizou cada cêntimo, sem necessidade de adaptações ao ritmo europeu nem de problemas de entrosamento com os colegas. Sobreviver à sombra de um grande é dificil, e Falcao era um avançado imenso. Mas Jackson foi ainda mais eficaz de dragão ao peito. E o seu negócio permitiu ao clube olhar para o mercado mexicano com outros olhos.
Mas o México, o maior país da América Latina, sempre foi um enigma para o futebol europeu.
E há
razões de peso para isso. Razões para explicar porque é que em toda a sua história só um jogador, verdadeiramente, se tornou em estrela internacional no futebol europeu depois de ter dado os primeiros passos no gigante latino: Hugo Sanchez.
Antes de Sanchez foram muito poucos os jogadores mexicanos que atravessaram o "charco" para a Europa e nenhum deles com sucesso. Depois do célebre goleador das cambalhotas, os clubes europeus sentiram vontade de conhecer melhor o mercado mexicano. Vários jogadores foram contratados, nenhum triunfou. No virar do século, o despertar desportivo do futebol azteca trouxe consigo uma nova geração de talentos mas só o central/médio defensivo Rafael Marquez conseguiu o reconhecimento que muitos auguravam a vários colegas de equipa. Os problemas continuavam a ser sempre os mesmos.
Desde há seis anos para cá, verificou-se um verdadeiro boom de talento mexicano.
A selecção azteca de sub-17, sub-19 e sub-20 está entre as melhores do mundo nas suas respectivas categorias etárias. Desde o aparecimento de Giovanni dos Santos, Carlos Vela e Javier "Chicharito" Hernandez, o jogador mexicano voltou a estar de moda. Eles abriram a torneira e vários talentos promissores seguiram o caminho. Hoje é fácil dizer de memória um onze de promessas mexicanas e sobrar suplentes. Ochoa, Mier, Reyes, Espericueta, Enriquez, Barrera, Peralta, Torres, Zavala, Dávila, Fabian, Herrera, Fiero todos eles foram protagonistas dos mais recentes sucessos, desde a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos (ganha à Brasil de Neymar) ao Mundial de sub-17 conquistado em 2011 a que se seguiu um terceiro lugar no Mundial sub-20 no mesmo ano, parece evidente que o México é uma potência a ter em conta. Mas porque é que os grandes clubes europeus não vão mais vezes ao mercado mexicano? E porque é que os talentos como Vela ou Gio dos Santos têm tanta dificuldade em impôr-se na Europa?

É um problema cultural, sobretudo.
O México é um país com uma cultura familiar extremamente forte, fechada. É um país importador, dentro do gigante mundo que é a América Latina, um país com uma fortuna relativamente superior à de muitos dos seus vizinhos. Há pobreza, muita, sobretudo na fronteira com os Estados Unidos por onde passam milhões de emigrantes clandestinos, mas também zonas de luxo como em poucos países da sua dimensão nesse quadro geográfico. A liga mexicana foi criada ao estilo NBA. Os presidentes são donos dos clubes e podem ter mais do que um clube sob o seu comando. A luta entre os gigantes das telecomunicações comanda o controlo da federação e da liga e isso acaba por reflectir-se também na forma como esses gigantes gerem os seus próprios clubes e aqueles que ajudam através de patrocínios. Sem o dinheiro desses milionários a liga não existiria como tal e é esse dinheiro que permite quase sempre segurar os melhores jogadores. São pagos a peso de ouro, em comparação com os argentinos e brasileiros, e educados desde cedo a preferir passar toda a sua carreira em casa do que a viajar para a Europa. A falta de um referente de sucesso pós-Hugo Sanchez é uma forma subtil de evitar o salto. Principalmente porque, uma vez lá, os jogadores encontram-se com sérios problemas de adaptação.
Meninos mimados no seu mundo, a exigência e disciplina do futebol europeu é para eles um desafio.
O talento de Vela e Gio dos Santos não lhes foi suficiente. O extremo do Arsenal não se conseguiu adaptar à exigência inglesa e só depois de várias épocas emprestado se encontrou consigo mesmo na Real Sociedad. A experiência mudou-o tanto que renunciou jogar na selecção por saber agora que o estilo de vida entre os aztecas é irreconciliável com o de um desportista de elite. Nas últimas competições em que participaram (Copa America, Golden Cup e Taça das Confederações), vários jogadores mexicanos foram apanhados pela imprensa e pelos dirigentes da federação em longas noites de festa, com álcool e prostituição à mistura. No futebol mexicano essa realidade é constante mas quando chegam à Europa cria-se um abismo com o ritmo de vida que lhes custa muito a adaptar-se. Gio dos Santos, que cresceu no Barcelona ao lado de Messi, desapareceu do radar durante anos até que fez uma boa segunda volta no Mallorca: sete anos depois da sua estreia como profissional. Ele e o seu irmão, Jonathan, foram alguns dos jogadores suspensos temporariamente pela federação nos últimos anos pelo comportamento pouco profissional. Mas estão longe de ser os únicos. Na última Copa América a federação mandou uma equipa sub-23 para castigar os seniores, apanhados com droga e álcool no sangue num controlo anti-doping realizado na véspera da Golden Cup. Não tiveram sorte, os mais pequenos imitaram-lhes o comportamento semanas depois. Entre a polémica dos jogadores espanhóis no Brasil passou de fininho uma história similar com os mexicanos. Comportamentos habituais a quem vive num espaço fechado e que não são admissíveis na Europa. Por isso muitos clubes preferem futebolistas de outras nacionalidades, dentro do espectro latino, mas com um comportamento fora do campo menos preocupante como os colombianos, equatorianos e chilenos, para lá dos inevitáveis argentinos e brasileiros. Por isso não vimos um jogador mexicano superar as agruras da adaptação ao jogo europeu com um sucesso imediato nos últimos 30 anos.

O FC Porto já teve desagradáveis experiências com aquilo que José Maria Pedroto baptizou como "as escolas de samba". Creio que os administradores da SAD são conscientes desta realidade. E a Reyes e Herrera, apesar de terem estado envolvidos em algumas dessas concentrações, nunca ninguém nomeou directamente como tendo sido parte dessas festas fora de horas. É no entanto importante ter a consciência de que se contratam jogadores com um imenso potencial, de um país emergente no futebol internacional, mas que vêm de uma cultura desportiva radicalmente diferente. Não significa que não se adaptem, que não triunfem e não sejam eles, com o exemplar Javier Hernandez, os jogadores que vão demonstrar que o futebolista mexicano está preparado para outro nível competitivo. Mas além da adaptação táctica e ao ritmo de jogo, terá forçosamente de existir um certo cuidado na sua adaptação ao estilo de vida no Porto. O passado recente dos jogadores catalogados como a próxima grande "promessa mexicana" isso exige.