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terça-feira, 9 de maio de 2017

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Não se enganem. Ninguém na SAD acreditava em Agosto no título. Ninguém na SAD acreditava em Janeiro no título. Ninguém na SAD acreditava em Abril no título. E por isso, toda a gente na SAD está contente em Maio. O FC Porto já assegurou quase matematicamente o segundo lugar - o que garante entrada directa na Champions, 12 milhões e uns trocos fixos em receitas - e viu o Benfica ser campeão de novo com um novo hashtag (passamos do #Colinho para o #LigaSalazar) que permite continuar a atirar areia aos olhos dos adeptos. Todo em paz, tudo satisfeito.

Faltam semanas para acabar uma época que já não vai dar nada de si. O Porto tem o segundo lugar a noventa minutos e um tropeção do Sporting de distância e o primeiro a uma quimera e vinte mil hashtags de diferença. Não se joga nada, não se joga a nada - algo que é o que tem sucedido desde há meses - e o soporifero debate sobre se há mudança de treinador, quem vai sair para tapar o buraco das contas só será superado pela moda da Liga Salazar. Tudo discussões que tapam o grave e realmente importante, tudo uma agenda que serve os mesmos interesses de sempre, os que nunca são julgados pelos fracassos e que sempre aparecem na fotografia dos êxitos.

O FC Porto vai para o quarto ano sem troféus. Quatro.
Um
Dois
Três
QUATRO.

Nesse período de tempo ainda ninguém com poder para isso explicou porque se passou do modelo Paulo Fonseca e vamos investir nos jogadores do mercado local ao modelo NES e vamos investir na formação sem vender as pérolas passando pelo modelo Lopetegui e vamos ter gajos emprestados espanhóis que isso é que está a dar...todos os modelos sem êxitos, todos os modelos diametralmente opostos do que seria ter UMA ideia de gestão desportiva.
Um treinador pode ser mais ou menos competente a nível táctico e de gestão de recursos. Um jogador pode ser mais ou menos talentoso, trabalhador ou profissional. Mas de um director, de um presidente, espera-se que tenham uma visão alargada - sobretudo quando são já 35 anos no cargo - e uma ideia de gestão clara. Desde a saída de um treinador bicampeão que colocou o ponto final a um tricampeonato histórico e do desenvestimento do clube - basta ver a qualidade do plantel de 2011 e o de qualquer ano pos 2014 - para entender que o grande problema nunca foram os nomes, dentro e fora de campo, nem sequer a existência do Polvo - real, inequivoca e cada vez maior - e sim a absoluta ausência de uma ideia de gestão desportiva que mantenha o Porto na luta. Depois de uma década em piloto automático, durante a qual não houve sequer concorrência significativa, e de um ano que provocou um importante abanão que teve uma óptima reacção - o marasmo apoderou-se dos escritórios do Dragão e ainda lá continua...um, dois, três...quatro anos depois.



Nenhum clube pode ganhar sempre. Nenhum clube pode ambicionar ganhar sempre e sentir que falha se não ganha de vez em quando. Mas nenhum clube que tenha um orçamento como o nosso se pode permitir não querer ganhar sempre e ter um plano para isso. NES é como Peseiro, Lopetegui e Fonseca o espelho da falta de ideias da direcção da mesma forma que muitos dos jogadores que têm passado reflectem a falta de critério desportivo que existe no clube. O Benfica foi campeão neste ciclo sempre com inequivocas ajudas externas que são cada vez maiores e transparentes - e são transparentes porque já nem sequer há medo de que alguém as denuncie a sério porque o silêncio impera no Dragão salvo alguns hashtags de moda - mas isso não justifica que em cada um desses anos o Porto tenha cometido erros impróprios da máquina que foi e pode voltar a ser. E no entanto a sensação colectiva é que esta seca, este mini deserto, incomoda menos do que deveria. Não gera acção nem sequer reacção. Os destinos do mercado estão entregues a amigos tal como a colocação de treinadores. O jogo da cadeira do poder alimenta facções e o poder crescente de uma determinada facção dos SD dentro da própria estrutura ajuda a explicar a ausência de contestação vivida noutras etapas muito menos graves do que esta. O trabalho mediático também deixa muito a desejar e embora o Universo Porto seja um oásis no deserto e o trabalho de Francisco J. Marques altamente elogiável, o certo é que justificar campeonatos perdidos APENAS com hashtags não ajuda em nada o clube.
Sim, o Benfica tem sido escandalosamente beneficiado. Sim, o Polvo existe e não vai desaparecer tão cedo. Sim, nos últimos vinte anos em democracia o Polvo fez-se maior do que foi durante o regime salazarista. Sim, os jogadores do Benfica - e treinadores - vivem na impunidade. Tudo isso é certo mas o Porto já ganhou ao Polvo quando soube entender que tinha de trabalhar o dobro, falhar a metade das vezes e procurar ser uma voz que ninguém calava nos momentos mais dificeis. Isso, os hashtags de Colinho e Liga Salazar, não são a forma de reagir se não forem acompanhados de outro tipo de acções - desportivas, de gestão, de presença nas intituições de forma activa - e tudo isso não existe e só poderá existir quando algumas cadeiras se derem conta de que estão a actuar como os caducos dirigentes soviéticos dos anos oitenta, a ver o tempo passar e a pensar em glórias passadas.

De nada vale o esforço dos Francisco J. Marques e afins, de nada vale que bloguers - esses demónios segundo alguns dirigentes do clube - ou adeptos de rua a apontar o dedo ao que está mal se os únicos com o poder de emendar a mão não o façam e decidam, por oposição, a mostrar contentamento com segundos lugares, apuramentos europeus e pouco mais.  A Pinto da Costa honra-lhe apoiar os homens que escolhe para dirigir o clube em momentos dificeis mas mais lhe honraria apoiar os adeptos e sócios que há trinta e cinco anos o apoiam e decidir se tem capacidade de desenhar do zero - porque será do zero face ao panorama actual - um novo plano estratégico de êxito em multiplas dimensões ou se está apenas preocupado em não cair de uma cadeira à vista de todos enquanto aqueles que o rodeiam lhe continuam a dizer que tudo está bem e a culpa da derrota é apenas e só dos polvos e nada mais...



PS: Já agora, a modo de remate, estaremos seguramente todos curiosos para saber se há prémios de participação a distribuir pela SAD pelo segundo lugar como já sucedeu pelo objectivo cumprido de disputar a Champions. Quatro anos sem títulos e com um investimento brutal e as contas nas lonas seria mais uma cuspidela na cara dos sócios e adeptos do FC Porto. Mas nada que nos estranhe vindo de quem vem realmente.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Casillas, o novo líder

Não se pagou a si próprio como muitos alardeavam no momento da sua chegada. Teve um primeiro ano mais parecido - como era lógico - aos seus três anos anteriores do que ao computo geral da sua brilhante e irrepetível carreira. Com erros individuais custou pontos na corrida aos oitavos da Champions. Com momentos de génio individual garantiu pontos importantes - sobretudo na Luz - que mantiveram a chama de uma corrida ao título que cedo se esfumou. Casillas é, provavelmente, a contratação de maior profile mediático da história do futebol português depois de Schmeichel. Ao contrário do "Big Dane", a sua chegada, por si só, não fez a diferença e o Porto não só não foi campeão no seu primeiro ano como no segundo marcha segundo. Mas é preciso ser-se justos com Iker. Porque o merece. Porque o ganhou a pulso quando podia perfeitamente ter vindo ao Dragão para reformar-se. E porque, sobretudo, está a saber marcar o caminho, dentro e fora de campo, do que o FC Porto deve voltar a ser. Um clube com mentalidade de balneário ganhador.

Iker tem tido uma temporada até agora ao seu melhor nível. Não é só no apartado de golos sofridos que os seus números estão á altura dos seus melhores anos. O esquema de Nuno tem permitido, aliás, que toda a defesa se exiba com surpreendente autoridade, algo dificil de imaginar no Verão com a soma dos cromos disponíveis. Maxi - que vai melhorando depois da sua ausência por lesão - Layun (um dos melhores suplentes do futebol europeu), o recém-chegado Felipe e, sobretudo, Marcano, têm jogado com autoridade e contribuído, a par do imenso e enorme Danilo Pereira (e do gémeo que joga ao seu lado e que permite dar a sensação de que está em todas as partes...porque está), para uns excelentes registos defensivos. Mas é da baliza, da segurança e liderança que emana Iker, que se sente a grande diferença face ao ano passado. Na passada temporada, fosse pelas peças disponíveis (onde já havia Layun, Maxi, Marcano...), fosse pela adaptação, Iker não transmitia quase nunca a capacidade de comandar a sua zona recuada. Teve brilhantes momentos individuais sim da mesma forma que teve erros garrafais porque uns e outros são parte do oficio. O que não demonstrou, pelo menos em campo, foi essa liderança que sim exerceu nos seus quinze anos de guarda-redes do Real Madrid. Este ano é diferente. Este ano Iker manda com o olhar mais do que com os gritos. Posiciona, antecipa-se, lê e motiva. Tem exercido como um autêntico capitão sem braçadeira, a mesma autoridade que se viu nos seus melhores anos com a seleção espanhola e com a camisola do clube da sua infância. Mais do que para vender camisolas ou para que se falasse do Porto por esse mundo fora, Iker e o seu perfil de futebolista era importante por isso mesmo. Num projecto desgovernado desde a cúpula á base convinha ao Porto clube ter alguém mentalmente forte e sólido que sirva de rocha no balneário e em campo. Muitos jogadores têm carácter para isso sem ter experiência como tem demonstrado Danilo. Mas Iker Casillas tem ambos e isso nota-se cada vez mais.



A importância de Iker depois de um primeiro ano convulso é também cada vez mais notória no balneário. Chegou apadrinhado por um homem que conhecia bem - o homem que, ironicamente, lhe fechou agora as portas da seleção quando tem o melhor registo de um guarda-redes europeu - e talvez por isso mostrou-se menos activo nos primeiros meses do ano passado sofrendo depois, como todos, do desatino Peseiro imposto desde cima. Mas com um treinador que já foi guarda-redes e que sabe fazer balneário encontrou provavelmente a melhor forma de fazer sentir a sua presença. De portas para dentro Iker tornou-se num amigo e confessor dos jogadores mais novos - e há muitos no balneário - oferecendo apoio e conselho. Foi também valedor de alguns jogadores, Brahimi á cabeça, defendendo sempre a importância de que joguem os melhores para o êxito colectivo (algo que lhe custou a cabeça em Madrid quando Mourinho entendia que os melhores eram os que lhe obedeciam e corriam mais e não os mais talentosos) e tem sido um dos grandes mentalizadores do grupo. Na sua recente entrevista ao Porto Canal foi cru, sincero e disse o que pensava porque a estas alturas não deve nada a ninguém. E tem razão. O Porto, por culpa da sua gestão presidencial, perdeu o ADN de vitórias no balneário que hoje ostenta o Benfica. E esse ADN, que foi a primeira base do nosso sucesso nos dias de Pedroto, está a ser recuperado. Lentamente, mas está. Graças a homens como Iker (e como Marcano, e como Layun, e como Danilo, e como Maxi) que entendem como fazer grupo, como criar laços e como inculcar uma mentalidade de morrer pelo colega em campo, morrer pelo emblema ao peito, morrer pelos adeptos. O espirito que teve de aprender num clube de máxima exigência quando era só um adolescente. Também por isso ele sabe, melhor que ninguém, o que aconselhar a Jota, a André Silva, a Rui Pedro, a Ruben Neves, a Oliver e Otávio, a todos esses miúdos que são o pulmão e coração desta equipa mas que vivem só agora a exigência de levar um peso tão grande ás costas praticamente sem ajudas de veteranos de outros tempos, dessa cultura de balneário que se perdeu e que jogadores tão insuspeitos de serem portistas como Sapunaru denunciaram há não muito tempo.

Em campo Casillas tem estado soberbo. Se a defesa sofre poucos golos é, muito também, por culpa sua. Contra o Chaves, antes da reviravolta, evitou o naufrágio. Foi assim também em tantas outras ocasiões. Raramente tem sido mal batido, raramente tem sido apanhado fora de posição. A sua concentração e ambição estão a níveis máximos. Este pode ser o seu último ano no Dragão mas as sementes do seu trabalho podem dar muitos frutos no futuro. Este foi o Iker que merecia ter sido contratado no ano passado, não o das manobras de marketing que tanto fizeram salivar rostos gananciosos na SAD, e apesar do relativo atraso em fazer-se definitivamente sentir, este está a ser também o seu ano. Se o FC Porto chegou a Maio com um título nas mãos, muita da culpa será sua. Não se podia despedir de melhor forma. Esperemos é que o trabalho que está a fazer, sobretudo fora dos focos, não se perca á primeira oportunidade. Recuperar o balneário á Porto e esse ADN são a chave para a sobrevivência competitiva deste clube na elite. Não entender isso é não entender nada. Casillas entendeu-o bem. E por isso agora é um dos nosso líderes.

sábado, 29 de outubro de 2016

Pinto da Costa e a hora certa para André Silva

Pinto da Costa ao lado de Julen Lopetegui (foto: Rui Silva / ASpress/Global Imagens)

«O presidente do FC Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa, considerou que André Silva deveria ter entrado na equipa principal dos 'dragões' mais cedo, e que tal só não aconteceu por causa das decisões 'técnicas' de Julen Lopetegui.
O André foi formado no FC Porto, treinava-se muitas vezes com os seniores, e na época passada fez vários jogos pela equipa principal. Penso que foi mal aproveitado, devia ter sido lançado mais cedo. São opções técnicas nas quais não interfiro, mas não me surpreende absolutamente nada”»


O mesmo Pinto da Costa, 10 meses antes…

«O dirigente desvalorizou ainda os assobios do público a Lopetegui pelo facto de ter o jovem ponta de lança André Silva a aquecer e, à última, não entrar, recordando que o podem ver em ação no campo do Pedroso, em Vila Nova de Gaia, onde costuma alinhar pela equipa B, que lidera isolada a II Liga.
Tenho esperança em mais um jovem formado no clube e que vai atingir a equipa principal, mas quando for a hora certa, estiver preparado e o treinador entender que é o momento, não porque o público assobia ou deixa de assobiar”»


Sem comentários.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Diferença de tratamento

Após mais uma derrota para o campeonato - este FCP de José Peseiro continua a bater recordes pela negativa... - houve quem comentasse que a sorte do treinador é «não ser espanhol, ao contrário de Lopetegui».

Pois bem: é verdade que a contestação a Peseiro não assumiu contornos extremos, mas parece-me que as razões para isso são bem mais prosaicas e passam por duas vertentes:

1) uma certa «anestesia» dos adeptos vis-a-vis um campeonato em que a nossa posição final está mais do que definida. O desânimo - e até mesmo a indiferença - apoderou-se de imensos portistas, que entraram psicologicamente «de férias»

2) a convição de que Peseiro tem um «prazo de validade» que não vai para além de umas semanas, estando já o seu destino traçado (i.e. fora do FCP). Para quê então «bater no ceguinho», passe a expressão?

Acho portanto errado tentar descortinar nesta diferença de tratamento entre Peseiro e Lopetegui uma xenofobia da parte da maioria dos adeptos (diga-se de passagem que a meu ver mais depressa haveria preconceitos contra um «mouro» como Peseiro do que contra um estrangeiro, no que diz respeito à maioria dos portistas que são do Norte do país). Acho aliás que não só isso é errado, como é até mesmo altamente injusto.

Entre os adeptos há de tudo, claro (incluindo xenófobos), mas temos uma longa tradição no FCP de receber bem quem vem de fora, Espanha incluída. O próprio Lopetegui foi inicialmente muito bem acolhido, tal como o próprio declarou na altura. O problema dos adeptos com Lopetegui (que aumentou de forma gradual) esteve - como sempre no que diz respeito a treinadores - nos resultados e exibições. 

Mas em muito menor grau, houve outro factor que alguns confundem com xenofobia: Lopetegui teve também um problema com os adeptos que passou não por ser espanhol ou estrangeiro, mas sim um espanhol ou estrangeiro que demonstrou bastante «autismo» e arrogância não tendo feito um esforço de adaptação à «realidade FCP» (a forma como os pequenos defrontam o FCP, a rivalidade FCP-slb, o jogo dos Media, etc). Nada mais natural que isso não tenha «caído no goto» dos portistas.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O clube onde qualquer treinador se arrisca a ... tramar-se

Enquanto estamos entretidos a discutir a dimensão da responsabilidade do Peseiro - porque o Peseiro é que tem culpa de o Marcano estar sempre lesionado, de o Maicon ser um palhaço, de o Indi ser um flop e do Chidozie só ser titular porque não há mais ninguém - e sabendo de antemão que se alguma coisa correr mal a culpa é apenas do treinador - vide Lopetegui - algum treinador que se preze arriscará (a carreira, actual ou futura, para) treinar o Porto?

Se reivindicar controlo na escolha dos jogadores, já sabe o que o espera, se a coisa der para o torto - daqui a 10 anos, Pinto da Costa ainda vai andar a fazer queixinhas do Lopetegui; se se submeter aos ditames da SAD, arrisca-se a levar com um plantel de pernetas, com 5 jogadores para uma posição, e apenas 1 para outra, além de condicionado por interesses de empresários e cláusulas de utilização (jogos realizados), etc.

Podia ser pior...

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Plantel de sonho? Vamos lá falar de realidades

No inicio do ano não foram poucos os que falaram em plantel de sonho. Um plantel para ser campeão com facilidades - beneficiando da debilidade do Benfica pos-JJ e das fraquezas do Sporting - e até brilhar na Champions. Um plantel com o jogador dos 20M - Imbula - com o vencedor de tudo o que há para ganhar - Iker Casillas - com o lateral direito que vinha da Luz e mais mil e um malabarismos sem sentido. Ficou evidente desde Agosto que o plantel podia ser o mais caro de sempre - em investimento, em massa salarial paga - mas distava muito de ser o mais equilibrado e o melhor do Porto recente. Que o herói dos primeiros meses tenha sido um dos jogadores mais subvalorizados no mercado - André André - explica muito. Sem jogadores de primeira fila (não há um só), sem goleadores natos, sem criativos, sem extremos de qualidade, sem centrais de nível (qualquer nível) e sem referências histórica, este é, realmente o plantel que melhor exemplifica a péssima gestão de um clube sem Director Desportivo e uma ideia de futuro para lá do negócio comissionista. 

Se dúvidas houvesse - e há ainda quem ache que o plantel era bom, o treinador é que o estragou, como alguém quis vender numa entrevista televisiva - os últimos jogos e o mercado de Inverno deixaram claro a realidade. Portanto vamos fazer um desafio. Peguemos no onze titular (um onze aproximado porque houve anos em que vários jogadores acumularam o mesmo número de jogos) de cada um dos anos pos-Mourinho, respeitando assim o espirito do futebol moderno, dos negócios da SAD e dos ciclos curtos para não desvirtuar, e vamos fazer um exercicio. Quem, do onze tipo actual, que vamos definir, é melhor do que o titular desse ano. E ao contrário, quem desse ano, é melhor do que existe agora? 

Haverá debate, naturalmente, porque os gostos são assim. Haverá casos em que o jogador no papel podia ser melhor ou pior do que foi na prática, em que os diferentes sistemas de jogo (em quase todos os anos prevaleceu o 4-3-3) podem potenciar um ou outro jogador, mas no final creio que chegaremos todos à mesma conclusão. Não há, no plantel actual, nenhum jogador que seja melhor que qualquer outro futebolista que ocupou o seu lugar desde 2004. Nenhum. Nem um, nem cinco, nem dez. E não havendo individualmente nenhum jogador melhor - e sendo quase todos os indivíduos de anos prévios superiores - lá se vai a teoria que a SAD ajudou a vender de que este é um grande plantel quando, na prática, não é mais do que a continuação da politica de desvalorização pós 2011, compensada no ano passado pelo empréstimo de jogadores dos grandes clubes espanhóis.



Partimos então da premissa de que o 11 tipo de 2015/16 é o seguinte:
Casillas: Maxi, Marcano, Indi, Layun; Danilo, Ruben, André André; Corona, Brahimi, Aboubakar.

E vamos ver agora (com negritos nos jogadores que considero melhores que os actuais) como estivemos nos últimos doze anos.

2004/05
Baia; Seitaridis, Jorge Costa, Pedro Emanuel, Nuno Valente; Costinha, Maniche/Meireles, DiegoQuaresma, Derlei; Luis Fabiano/McCarthy

Neste ano de transição pos-Gelsenkirchen( e com um mercado de inverno mexido), é evidente que o nivel dos laterais não foi o melhor e que Derlei/Postiga/Carlos Alberto não estiveram à altura mas o rendimento do eixo da defesa (com a chegada de Pepe) e de Quaresma e Diego (ainda que algo irregulares) esteve por cima dos restantes.

2005/06
Baía/Helton; BosingwaR. Costa/P. Emanuel, Pepe, Cech/Peixoto; Assunção, Lucho, Meireles/JorginhoLisandro, Quaresma, Almeida/McCarthy;

Foi o ano em que Helton se assumiu como referência, que Pepe, Meireles e Bosingwa se fizeram com a titularidade e que chegaram Lucho e Lisandro ao melhor nível. Voltamos a fracassar no ataque e na ala esquerda mas a qualidade geral era positiva. A maior parte do ano jogou-se em 3-4-3, uma das raras variações. 

2006/07
Helton; Bosingwa, Pepe, B. Alves, Fucile/Ezequias; Assunçao, Lucho, Meireles/Anderson; Alan/Postiga, Quaresma, Lisandro;

É difícil olhar para o onze do primeiro ano de Jesualdo e encontrar elementos piores que o actual, num ano onde o Porto não foi sequer excepcional. A qualidade média era claramente superior à actual e Quaresma e Lucho estavam na sua melhor versão. 

2007/08
Helton, Bosingwa, Stepanov/P. Emanuel, B. Alves, Fucile/Lino; Assunçao, Lucho, MeirelesQuaresma, Lisandro, Tarik/Postiga

Mais um título, excelente fase grupos Champions e uma equipa extremamente bem trabalhado com mais valias individuais em quase todos os sectores. O lateral esquerdo e o ponta-de-lança continuavam a ser os únicos problemas evidentes. A sucessão de Pepe também parecia complicada.




2008/09
Helton, Fucile/Sapunaru, Rolando/P. Emanuel, B. Alves, Cissokoh; Fernando, Meireles, LuchoLisandro, Hulk, C. Rodriguez/Farias

Excelente negócio com Cissokoh, afirmação de Rolando, Fernando e de Fucile (no lado direito) e chegada de Hulk para o lugar de Quaresma. No melhor ano europeu pos-Gelsenkirchen o grande problema era o banco.

2009/10
Helton, Fucile, Rolando/Maicon, B. Alves, A. Pereira/Sapunaru; Fernando, Meireles, Guarin/C. Rodriguez; Hulk, Varela/Mariano,Falcao

Com Falcao chegou o substituto ideal de Lisandro mas a ausência de Lucho (Guarin não funcionou) foi determinante juntamente com o escândalo dos túneis para evitar o Penta. Hulk deu um passo em frente. O sub-rendimento de Meireles não ajudou e o jogo lateral foi igualmente tibio. 

2010/11
Helton, Fucile/Sapunaru, Otamendi, Rolando/Maicon, A. Pereira; Fernando, Guarin, Moutinho, Hulk, James/VarelaFalcao

Pinto da Costa disse que qualquer um podia ser campeão com esta equipa e talvez tivesse razão. Foi o pico do investimento em jogadores de qualidade com a chegada de Moutinho (chave) e James (decisivo) e o culminar do trabalho de desenvolvimento iniciado por Jesualdo. A ala direita e o inconstante Guarin os únicos "senões". A partir de aqui gastou-se mais do que nunca, comprou-se pior do que nunca.

2011/12
Helton; Danilo, Otamendi, Mangala,Alvaro; Fernando, Moutinho, Guarin/LuchoHulk, Varela, James/C. Rodriguez; 

O primeiro ano VP sofreu da hemorragia pos-Dublin que se prolongou em Janeiro. O regresso de Lucho foi determinante bem como o ano de Hulk na frente de ataque onde os problemas se multiplicavam quando James não estava. Os dois primeiros sectores de jogo eram o verdadeiro motor da equipa.

2012/13
Helton; Danilo, Otamendi, Mangala, AlexFernando, Lucho, Moutinho; JamesJackson, Atsu/Defour; 

No último ano de VP a qualidade do plantel era irregular mas o onze titular era fortissimo até ao último terço. Todos os jogadores superavam com solvência os actuais mas sem opções nas alas (Defour, Varela e Atsu nunca deram o nível, idem para Kelvin e Sebá), Jackson vivia demasiado só à frente.

2013/14
Helton; Danilo, Mangala, Maicon/Otamendi, AlexFernando, Herrera, Lucho; Lica, Varela, Jackson;

Um ano desastroso mas onde a qualidade individual superava claramente os problemas de jogo de Fonseca e Castro e houve muitos jogadores em subrendimento (Otamendi mais do que nenhum outro). A equipa começou o ano em 4-2-31 com Lucho como pivot ofensivo. Nas alas faltavam ideias, Herrera era um desnorte mas a defesa - no papel - era muito superior à actual. E claro, havia golo!

2014/15
Fabiano; Danilo, Marcano, Maicon, Alex; Casemiro, Ruben/Herrera, Oliver, Tello, Quaresma, Jackson

Fabiano era um karma, Marcano nunca foi seguro e Ruben/Herrera são os únicos que mantêm o mesmo nivel oscilante para este ano. O subinvestimento foi paliado pelos empréstimos de Casemiro, Oliver e Tello e pela não venda de Jackson no verão anterior.  


Grosso modo:
- Não houve um só ano em que não houvesse, pelo menos, seis jogadores no onze tipo melhores que os actuais.
- Só um ano (2009/10) há cinco jogadores no plantel piores que os actuais nas suas respectivas posições a titulo individual
- Com dois jogadores piores que o plantel actual temos 5 temporadas num total de 11 analisadas (06/07; 08/09; 10/11; 11/12, 12/13): Quase um 50%!
- Desde os anos de AVB/VP a qualidade tem decaído evidentemente no 11 titular tipo.
- Este - o de 2015/16 - é claramente o pior plantel do FC Porto pós 2004. O que significa que, na prática, é o pior plantel do FC Porto desde, como mínimo, 2001/02. Já lá vão quinze anos!
- Ironicamente, é também um dos planteis mais caros (no investimento) e na massa salarial (que sofreu um ajuste mais do que necessário com o mercado de Inverno)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Atacar bem? Comecem por defender bem!

Nos últimos 30 anos do futebol houve dois treinadores que mudaram radicalmente os conceitos de jogo, duas referências máximas do futebol ofensivo de alto quilate. Ambos vão passar à história porque as suas equipas jogam de forma atractiva, ofensiva, sem piedade do rival quando aumentam o ritmo para uma velocidade que mais ninguém aguenta. E no entanto, para ambos, o êxito do ataque parte sempre de um excelente trabalho na defesa. Querem atacar bem? Então preocupem-se sempre por garantir que a equipa sabe, antes que tudo, defender melhor. Sacchi e Guardiola sabem perfeitamente do que falam. As suas equipas partiram sempre de um principio básico. São equipas de treinador até ao último terço, equipas de jogadores no último. Este FC Porto dista muito desses princípios.

José Peseiro não é nem Arrigo Sacchi nem Pep Guardiola, está claro. Mas é, e sempre foi, um treinador que pensa de outra forma. As suas equipas são de tracção dianteira. As suas linhas defensivas sofrem muito e com regularidade pelo posicionamento em campo do seu 4-2-3-1. Peseiro começa a pensar o jogo com a bola no circulo central. Trabalha bem - tem-se apreciado evidentemente a diferença - o jogo ofensivo, sobretudo as sobreposições entre os interiores e os extremos no complemento ao ataque. Mas o jogo dos médios defensivos, laterais e centrais peca de ingénuo. A sua filosofia de "se o rival marca dois, eu marco três", lembra muito o futebol sul-americano ou a realidade europeia pre-anos 70 mas está bastante desfasada da realidade. Até uma equipa de estrelas absolutas e inquestionáveis como o Real Madrid da primeira geração dos "Galácticos" percebeu isso quando o génio da sua linha avançado pagou ano após ano os erros tácticos a que a sua linha defensiva estava exposta. Não, o modelo Peseiro - e de alguns treinadores da sua escola - hoje em dia pode ser atractivo em momentos concretos do jogo mas é pouco fiável. Tudo porque o seu enfoque de jogo parte da premissa que a defesa é um elemento secundário na coordenação colectiva. O jogo começa mais rápido, desde atrás, menos pensado e a cada perda de bola os jogadores da linha mais recuada encontram-se, quase sempre, mal posicionados. Tal é a vocação ofensiva que muitas vezes não existe um fio de conexão entre os centrais e os laterais, por um lado, e os laterais e os médios interiores, por outro. Nesse cenário não é difícil, sobretudo a equipas que jogam no espaço e aproveitam a velocidade para contra-atacar - como são quase todos os clubes da liga portuguesa - encontrar oportunidades para marcar. Depois é um jogo de roleta russa. A eficácia do rival, a eficácia própria, a capacidade emocional de resposta, o fluxo ofensivo criado, tudo entra numa equação perigosa. O triunfo sobre o Moreirense - por 3-2 com uma reviravolta de dois golos desfavoráveis - é o perfeito exemplo desse puzzle. Peseiro pode sentir-se triunfal porque a sua ideia prevaleceu (o rival marca dois, eu marco três), mas o seu esquema parte de um principio perigoso. É altamente provável que te marquem sempre mas não podes garantir que tu vais marcar sempre mais um. A derrota antes da à visita à Luz com o Arouca - que pode ter sido decisiva em contas para o título - é o perfeito exemplo disso mesmo.



O maior defeito que os adeptos apontavam - e muitos com razão - a Vitor Pereira e a Julen Lopetegui (mais no seu caso que tinha melhor matéria-prima) era a tremenda dificuldade de passar de uma boa organização defensiva a um jogo ofensivo eficaz e vertical. Eram o modelo oposto de Peseiro. Para ambos os treinadores - claramente da escola Sacchi/Guardiola - as suas equipas começavam a pensar-se desde o momento em que o guarda-redes colocava a bola em jogo. Era importante, não, fundamental, uma boa coesão defensiva e articulação entre sectores, um avanço progressivo das tropas antes de explodir o rastilho final no último terço.
Quando bem executado o modelo propiciou grandes jogos colectivos mas se Vitor Pereira quase nunca teve arsenal ofensivo com essa inteligência de jogo e talento (no seu primeiro ano teve de abdicar do poder de explosão de Hulk para colocá-lo como referência ofensiva e no segundo faltou-lhe o brasileiro para conectar com Jackson), já Lopetegui pecou de erros próprios na concepção de jogo colectivo. No entanto, ambos perfilavam a ideia de que a equipa tinha de funcionar como um todo nos primeiros três quartos de campo para depois permitir a explosão do talento individual no último terço. A defesa, nos dias de Vitor Pereira, era absolutamente tremenda na ocupação do espaço e no controlo da zona e com Lopetegui - apesar de Fabiano, Marcano, Maicon ou Indi, jogadores de perfil muito inferior - foi uma das melhores de todas as ligas europeias enquanto que na Champions, não fosse pelo massacre de Munique - um erro de gestão técnica tremendo - teria igualmente terminado o torneio nas menos batidas. Não esperem ver o mesmo com Peseiro.

Tem culpa o treinador do Porto dos golos sofridos recentemente? Sim e não.
A Peseiro não lhe podemos apontar o dedo na concepção do plantel - responsabilidade da SAD e de Lopetegui - nem nos reajustes de Janeiro - responsabilidade da SAD. Ao técnico foram-lhe dados ovos para trabalhar - poucos e podres - e a situação de Maicon (ainda por explicar) apenas piorou o cenário forçando-o a recrutar para as convocatórias dois jogadores com idade de júnior, Chidozie e Verdasca. Nesse cenário - múltiplas lesões, suspensões e reajustes - era absolutamente lógico e natural que houvesse maior permeabilidade defensiva. No entanto o grave nesse cenário é que Peseiro - que quer ser fiel aos seus princípios - uniu às baixas e ao plantel de pobre qualidade uma radical mudança táctica que rasga os princípios assimilados durante ano e meio. Peseiro quer tirar o Lopetegui de dentro da cabeça dos jogadores (olhando para Herrera, como melhor exemplo, está a conseguir) e a sacar o máximo potencial de jogadores que em 4-3-3 posicional renderiam muito pouco (a prova está em Suk, tem tudo para ser um novo Pena, esforçado mas excessivamente dependente do espaço e dos lances divididos para se evidenciar) no sector ofensivo. A consequência é abdicar da segurança defensiva, da estabilidade do jogo desde a retaguarda e dos naturais desajustes no miolo que provocam perdas de bola e contra-ataques do rival. A pré-época não serve apenas para preparar os jogadores fisicamente. É o único momento do ano em que o treinador tem três ou quatro semanas para aplicar as bases da sua ideia que são melhoradas com treinos pontuais. A partir do inicio da temporada o ciclo não permite a implementação de uma nova ideia táctica com êxito assegurado. As sessões de treino medem-se entre recuperação esforço, preparação tendo em conta o rival, garantir estabilidade dos níveis físicos e algum que outro dia dedicado a lances estudados. Não há tempo (nem força, física e mental) para uma pre-epoca em Fevereiro. O clube sabe isso, o treinador sabe isso e os jogadores sabem isso de modo que tudo o que estamos a viver no presente vai contra toda a lógica da gestão de um grupo. E só é possível devido ao desnorte da direcção - que forçou a mudança sem ter um plano B coerente - e o desespero total da falta de rumo que permite acreditar que mudando tudo o que estava feito os resultados, forçosamente, serão diferentes.



O 4-2-3-1 e as ideias de Peseiro, com uma boa pre-epoca, podem triunfar ainda que o mais provável é que sofram nos momentos chave a consequência do poder do controlo de jogo do futebol moderno. De certo modo Peseiro quer parecer-se mais a Paulo Fonseca do que a Vitor Pereira ou AVB. Agora tem todo o crédito do mundo porque nenhum adepto vai reclamar nada a um treinador-bombeiro sem perfil e que chegou num momento de desespero. Mas é preciso ter-se cuidado quando se brinca com o fogo. Velha é a história contada por Sacchi do dia em que van Basten, irritado por tanto trabalho táctico, lhe atirou à cara que ele era a estrela da companhia e que o êxito do Milan dependia dos seus golos. Sacchi sorriu e pactou um desafio. Se van Basten, Gullit, Ancelloti e Donadoni fossem capazes de superar o seu quarteto defensivo numa sequência de ataque a partir do meio campo, dar-lhe-ia razão. Mas se a defesa recuperasse a bola, teriam de voltar a começar o ataque do zero. Durante duas horas a defesa de Sacchi levou a melhor linha de ataque ao desespero. Não marcaram nenhum golo. Van Basten aprendeu a lição. Algo similar fez Guardiola em Barcelona, reforçando sempre às suas estrelas ofensivas que tudo começava a partir da conexão Valdés-Pique-Puyol-Busquets. Ninguém espera um golpe de génio táctico de um treinador com dez anos de fracassos acumulados às costas mas jogos como o do último fim-de-semana também não podem surpreender ninguém. Com um plantel de remendos querer jogar no fio da navalha pode provocar doses de adrenalina que o jogo dormido e pausado do 4-3-3 de Vitor Pereira (sem jogadores de ataque válidos) ou de Lopetegui (sem ideias) eram incapazes de transmitir. Mas a navalha acabará sempre por deixar as suas marcas.



sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Está explicado!


Em 26 de Novembro de 2015 escrevi um artigo questionando a consecutiva titularidade de Cristian Tello, independentemente da qualidade das suas prestações em campo. Era uma situação, no mínimo, estranha:

Mas eis que, há alguns dias, surgiu a resposta a esta questão numa notícia na imprensa desportiva: “Por cada vez que Cristian Tello não entra em campo, a fatura a pagar pelo FC Porto ao Barcelona pela cedência do jogador aumenta”.

Espera aí! Como é que é? Um determinado clube empresta-nos um jogador, ao qual nós pagamos o salário (ou parte dele), e se ele não jogar na nossa equipa nós ainda temos de indemnizar o clube ao qual ele pertence?! Que negócio espectacular! Às tantas a responsabilidade por estes termos do Contrato de Empréstimo do Tello ainda é imputável ao Lopetegui…
   

domingo, 17 de janeiro de 2016

Uma equipa no chão...

foto: maisfutebol

O FC Porto está no chão. Em apenas 15 dias perdeu a liderança e está agora em terceiro lugar a 5 pontos do líder e a 3 pontos do segundo classificado. A equipa está à deriva, sem rumo e sem comandante. Um reflexo do que se está a passar no Clube.

Os jogadores não sabem o que é a cultura do FC Porto e por isso não se impõem em campo. A maioria deles vieram de outras realidades para relançar a sua carreira ou para "darem o salto" e, por isso, o FC Porto pouco lhes diz. Não agarram primeiro a bola, não pressionam o adversário, estão inertes e desorientados, não são e não sabem como funcionar como um colectivo. Não sofrem, como nós. O oposto do que é Ser Porto.

Os árbitros tratam-nos sem isenção, como se merecêssemos ser castigados a cada lance, mesmo sabendo que estão a avaliar mal, porque sim. Não há uma única voz a dar a cara e a proteger o Clube, a não ser o Francisco Marques - que o faz de uma forma brilhante - na rubrica "Dragões Diário" mas que é manifestamente pouco para as necessidades actuais.

O senhor do telemóvel continua a limitar-se a ler coisas no seu smartphone, alheio a tudo o que se passa à sua volta. Podia cair-lhe o céu em cima, que ele não dava conta...



O jogo em Guimarães não teve história. Um grande frango de Casillas a abrir e noventa minutos seguintes a procurar desesperadamente um empate que não viria a surgir. O falhanço do guarda-redes espanhol está ao nível dos de um qualquer principiante das camadas jovens.

A equipa está constantemente mal posicionada, quer em transição ofensiva quer defensiva, as linhas estão muito afastadas, os jogadores usam e abusam do recuo no terreno como forma de preservar a posse, colocando demasiada pressão em centrais nervosos e desmotivados. Há demasiada cerimónia para rematar, há uma constante colocação de bola ora numa ala, ora noutra, sem contudo haver progressão no terreno de jogo ou com desequilíbrios na defesa adversária. Assim bem podiam estar horas a fio a lutar que não conseguiam marcar um golo. Em suma, Lopetegui destruiu a equipa. Devia ser ele a indemnizar o Clube pelo estrago que lhe trouxe. Ele ou quem o lá pôs.

No meio de tanta desorientação é necessário destacar alguns jogadores:
Os melhores: Danilo, André e Varela.
Os piores: Casillas, Herrera e Aboubakar

Os de Guimarães fizeram enorme festa no fim do jogo. Pena não viverem os jogos contra os grandes de Lisboa com tanto ódio ao adversário. Compreende-se tendo em conta a grande quantidade de benfiquistas na massa associativa vimaranense.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

"Tudo a que tem direito"


Este post considera apenas as notícias publicadas (mais nenhuma informação tenho) e reflete uma posição pessoal e não profissional sobre este assunto.
As notícias mais recentes dizem que Lopetegui não aceita uma rescisão de contrato sem receber "tudo a que tem direito".
Isto, ao que veio a público,  incluindo ordenados por trabalho que não fez e prémios por objetivos que não atingiu.
Segundo a argumentação do basco, a exigência dos prémios pelos objetivos justificar-se-ia com base na ideia de que tinha "todas as condições" para atingir os objetivos.
Ora, se é certo que o homem tinha de facto, porque lhe foram dadas, todas as condições para atingir os objetivos, a verdade é que ele não foi colocando o FCP em condições de os alcançar.

Mas vamos primeiro aos ordenados.
O homem fez um contrato por 3 anos e trabalhou um ano e meio.
Querer receber o restante ano e meio só pode significar uma de duas coisas:
1. Ou considera que ninguém o quererá contratar nesse período (e quer salvaguardar que tem a sopa na mesa), o que significa que não tem qualquer autoconfiança na sua qualidade de treinador e na sua imagem perante o mercado;
2. Ou significa que considera que será contratado (a curto ou médio prazo) e, nesse caso, o que pretende é receber a dobrar: receber pelo período que não trabalhou no FCP e pelo mesmíssimo período em que estará a trabalhar noutro local.
A verdade é que qualquer das hipóteses é má para a reputação de Lopetegui e causa-me muita alergia.
A primeira porque sempre me fez confusão quem recebe sem trabalhar.
A segunda porque sempre me fez confusão querer receber valores por danos que não se sofreu.

Relativamente aos objetivos: é, a meu ver, patético que alguém, que até hoje não ganhou nada, que deixou o FCP num ano totalmente a seco, que está a 4 pontos dum líder miserável do campeonato; e que se viu afastado da Champions num grupo perfeitamente ao nosso alcance, venha agora dizer que tinha condições para o que quer que fosse.

Já disse aqui por várias vezes que, por mim, o homem tinha ido embora logo após o jogo com o Benfica do ano passado, que preferiu empatar e garantir a continuidade do que arriscar  (e poder perder).
Também já disse que, embora estando convencido que com ele não ganhariamos nada, era contra a sua saída agora, porque desresponsabilizaria quem o contratou e lhe daria um saco de dinheiro.

Finalmente, não lhe atribuo a totalidade das culpas e pergunto-me se estas noticias podem estar a ser lançadas para justificar pagamentos da SAD.
É que as notícias sobre a posição de Lopetegui são demasiado surreais e temos que procurar saber tudo o que possa fazer sentido.
 

sábado, 9 de janeiro de 2016

As escolhas da SAD no pós-Vítor Pereira

No dia 20 de Junho de 2011, a poucos dias do início da época 2011/2012, André Villas Boas, aliciado pelos milhões do Chelsea e com medo do fantasma Mourinho (Pinto da Costa dixit), abandonou a sua “cadeira de sonho”.

Vítor Pereira e André Villas-Boas (época 2010/11)

Apesar de convidado a acompanhá-lo na aventura inglesa, o seu Nº2, Vítor Pereira, optou por ficar. Ficou no Porto, mas herdou um plantel que, por ter ganho tudo na época anterior, estava repleto de jogadores cheios de expectativas e com a cabeça noutro lado (Fucile, Rolando, Álvaro Pereira, Guarín, Belluschi, Falcao, etc.).
Para complicar a coisa, Radamel Falcao foi vendido no final de Agosto de 2011 (e a SAD só contratou Jackson um ano depois), tendo Vítor Pereira de se desenrascar com pontas-de-lança do calibre de Kléber e Walter!

Aos poucos, e após ter sido feita uma “limpeza de balneário” a meio da época (em Janeiro de 2012), Vítor Pereira foi “colando os cacos” e construído uma equipa à sua imagem.
Com essa equipa e o seu modelo de jogo, Vítor Pereira superou Jorge Jesus, quer nos duelos diretos que travaram, quer na “maratona” que são os campeonatos.

No 1º ano ganhou o campeonato 2011/2012.
No 2º ano ganhou o campeonato 2012/2013.
E nesses dois anos, num total de 60 jogos para o campeonato, perdeu apenas uma vez (em Barcelos, num jogo tristemente célebre, arbitrado por Bruno Paixão).

Pelo meio, Vítor Pereira foi sendo contestado (principalmente nos primeiros meses da época 2011/12 e após a derrota em Málaga, na época seguinte), mas também recebeu fortes elogios, inclusive de adeptos de clubes rivais.

Com ele, foram vários os jogadores – Maicon, Danilo, Alex Sandro, Mangala, Fernando, Moutinho, James, Jackson – que evoluíram e, em alguns casos, cresceram para patamares de excelência.

E quando a SAD não quis renovar com Vítor Pereira, ele saiu do seu FC Porto como um Senhor, de cabeça erguida e com a satisfação da missão cumprida.

Estamos no 3º ano do pós-Vítor Pereira e, neste período, a equipa principal do FC Porto já teve três treinadores (brevemente terá um 4º).

Paulo Fonseca: 01-07-2013 a 05-03-2014

Luís Castro: 05-03-2014 a 30-05-2014

Julen Lopetegui: 01-06-2014 a 07-01-2016

Por motivos diferentes, estas três escolhas da SAD – Paulo Fonseca, Luís Castro e Julen Lopetegui – acabaram por não alcançar os objetivos pretendidos, tendo-se revelado apostas falhadas.

Será que à 4ª tentativa, Pinto da Costa e Antero Henrique irão acertar na escolha para um dos cargos mais importantes da estrutura de qualquer clube/SAD de futebol?

A fasquia está alta, mas convém lembrar que ainda há muito para ganhar esta época – Campeonato (faltam 18 jornadas, estão 54 pontos em disputa e o Sporting tem de vir ao Dragão), Taça de Portugal (o FC Porto é o único dos três “grandes” ainda em prova) e Liga Europa.

Mais. A FC Porto SAD investiu dezenas de milhões de euros neste plantel (na aquisição de "passes" de jogadores, em empréstimos e em salários), tem o maior orçamento do campeonato português (mais de 100 milhões de euros) e, por isso, tem obrigação de lutar até ao fim por todos estes objetivos.

Pinto da Costa é o presidente mais titulado do futebol mundial e terá um lugar, para sempre, na gloriosa história do Futebol Clube do Porto. Contudo, depois de não ter renovado com um treinador bi-campeão e após três falhanços consecutivos, a responsabilidade desta Administração da SAD (particularmente de Pinto da Costa e Antero Henrique) é enorme.

Para bem do FC Porto, não pode(m) voltar a falhar.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O ego de Lopetegui e a sua saída inevitável

Julen Lopetegui é história.
O cenário era inevitável. Podia ser agora. Ser daqui a um mês. Uma semana. No pior dos cenários, Junho. Foi hoje. Pinto da Costa viu-se só. Tremendamente só. As claques fizeram saber do seu descontentamento á direcção, os restantes administradores da SAD há muito que viraram as costas ao treinador a quem batiam palmas depois da goleada ao Bayern. Lopetegui nunca foi amado no Dragão por ninguém. Os empregados do clube, os dirigentes, as claques. Só Pinto da Costa parecia suportá-lo. Mas Lopetegui sai contra a sua vontade. Em Espanha aqueles que conhecem bem o treinador têm uma versão própria dos acontecimentos dos últimos dias.

Lopetegui queixava-se aos amigos de que se sentia só desde o ano passado. Que ninguém no clube o apoiou na guerra contra Jesus, o Benfica e os escândalos arbitrais. Não entendia essa solidão. Na cultura espanhola os presidentes são os primeiros a dar a cara pelo clube. No Porto descobriu que só a dava ele. O que Lopetegui também não lograva entender era a falta de investimento no plantel. A amigos jornalistas disse, várias vezes, que não entendia como depois de valorizar activos que estavam estacados depois do ano de Fonseca - aos que juntou Tello, Oliver e Casemiro, este último com rentabilidade para a própria SAD - o investimento em suplentes fosse muito distante do esperado. Lopetegui achava, realmente, que o Porto ia gastar o mesmo que tinha gerado, num novo avançado, num novo central e num novo médio centro. Não veio nenhum. Os nomes que ele colocou na mesa eram caros, muito caros. Jogadores que custavam mais de 10 milhões de euros e iam ganhar mais de 3 milhões de euros. Quando a SAD lhe dizia que era uma realidade incomportável para o clube, Lopetegui sempre usava o mesmo argumento "se querem voltar a ser grandes, têm de pensar em grande". Isso de ser campeão europeu com tipos do Leiria, Setúbal, da formação ou do Boavista realmente não ia com ele.
A sua teimosia foi o preço a pagar mas há poucos treinadores mais teimosos do que Lopetegui. Campaña chegou, por exemplo, como consequência na sua teimosia com Sergio Darder que fez o Porto perder a oportunidade de contratar Clasie. Lopetegui era teimoso e mal educado com muitos empregados de largos anos do clube. Era distante e emproado e até hoje sentiu sempre, quando falava com jornalistas espanhóis, que o Porto lhe devia mais a ele que ao contrário. Ele tinha sido o responsável pela humilhação ao Bayern. Ele tinha lutado sozinho contra o sistema na liga. Ele tinha feito do Porto noticia em Espanha. Ele tinha trazido Casillas. O discurso de Lopetegui - que desde cedo criou fracturas na SAD - era sempre o mesmo "eu fiz, eu sei, eu quero". Em algum momento Lopetegui chegou a dizer a um jornalista que ele se sentia treinador campeão e que só os árbitros falsearam essa realidade.


Casillas vai sair em Junho. Foi uma das recorrentes ameaças de Lopetegui e é verdade que o guarda-redes só está no Porto graças á sua intervenção. Casillas, o mesmo que não deu um só ponto ao Porto, em liga e Champions, que fosse diferencial e que é o jogador mais bem pago do plantel. Voltará a Espanha - provavelmente de novo ao Real Madrid - ou irá para os Estados Unidos. Desde sempre Casillas deixou claro á SAD. O projecto dele era o de Lopetegui. Sem um não há outro. Lopetegui usava essa arma quando falava com a SAD. E prometia que depois de Casillas podiam vir mais. O clube tinha era de confiar no seu julgamento e nas suas boas relações com Mendes e internacionais espanhóis. Pinto da Costa acreditou piamente no discurso. Via-se a reunir uma equipa de prestigio no Dragão a lutar de novo por um lugar na Europa. Desde cedo Lopetegui capturou a imaginação do Presidente a ponto de o deixar só, muito só, na estrutura. Nem as ameaças das claques, nem a postura de Antero - a quem Lopetegui dedica insultos quando fala com espanhóis sobre a sua mudança brusca no apoio indiscutível que lhe deu ao principio - pareciam fazê-lo pensar duas vezes. Mas a idade pesa, há eleições ao virar da esquina e o presidente não queria disputar uma luta azeda contra todos. Cedeu. A contra-gosto. Mas cedeu. A sua capacidade de luta é já parte da mitologia.

Agora que a novela do treinador acabou, convém não perder a perspectiva. Há um debate muito importante a ter nas próximas semanas. Lopetegui é o segundo treinador consecutivo apresentado como escolha consensual e de futuro que não cumpre o seu contrato, que é despedido. Em ambos casos a responsabilidade da sua escolha recai na mesma pessoa. Em ambos casos os resultados condenaram um treinador deixado só desde muito cedo ao silêncio ensurdecedor de quem o escolheu mas não quis nem soube apoiar. O treinador é um problema. Mas não é nem o único nem o maior que vive o clube. A mudança contextual de treinador pode variar nos próximos resultados desportivos mas o problema mas sério está na origem de sucessivos erros de gestão nesse e noutros capítulos. Convém não tapar, como alguns pretendem, a sombra com a bananeira do que se passa hoje no Futebol Clube do Porto.
   

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Filosofia Guardiola para Tótós


Há muitos aprendizes da Filosofia Guardiola (ou da filosofia de jogo do FC Barcelona, para ser mais correcto) por essa Europa do futebol. Os problemas surgem porque as cópias são de má qualidade. Em minha opinião, actualmente os piores intérpretes deste modelo são Julen Lopetegui, treinador do FC Porto e Louis Van Gaal, treinador do Manchester United. Neste último caso não admira que esteja prestes a levar guia de marcha dada a escassa paciência dos ingleses para um futebol pastoso e improdutivo.

O video abaixo contém uma apresentação recente de Thierry Henry, ex-avançado do Arsenal e do Barcelona, sobre a filosofia de jogo de Pep Guardiola. Em traços gerais o modelo resume-se aos 3 P's: Play (joga), Possession (posse de bola), Position (posicionamento). É pedido aos jogadores que joguem e troquem a bola entre si, mantendo a posse, respeitando a sua posição original (nunca cedendo à tentação de ir procurar bola) e confiando que os companheiros de equipa conseguem pôr a bola na posição desejada ("trust your teammate"). Depois, a partir do último terço do terreno de jogo, quando se acercam com perigo da baliza contrária, é dada liberdade ("freedom") aos jogadores para aparecerem na zona de finalização. O resultado final é por demais conhecido: uma equipa inteligente e letal.



Os aprendizes de Guardiola não entendem que este modelo (ou um modelo com princípios de jogo semelhantes) exige que um plantel possua jogadores exímios no jogo interior. O FC Porto de Villas-Boas e Vítor Pereira teve jogadores como um João Moutinho, um Guarín ou um Belluschi que se davam bem jogando "por dentro". O mérito também foi desses treinadores, que conseguiram moldar e adaptar as características dos atletas.

No actual plantel do FC Porto, André André e Danilo têm capacidade para o jogo interior mas aquele que aparentemente seria a melhor opção  Imbula  custou 20 milhões e nem sequer faz parte das convocatórias. E o dado mais importante: Lopetegui implementa um modelo de jogo de forma cega sem se preocupar com a habilidade dos jogadores para o interpretarem e o porem em prática.
   

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Presidir!

Perder em Alvalade não foi surpresa para ninguém. O estádio do Sporting tem sido, neste século, o local preferencial para o Porto tropeçar. Mais do que na Luz – onde um espírito de combate especial pareceu sempre tomar conta dos jogadores até ao ano passado – o terreno leonino converteu-se numa espécie de chão maldito do qual poucos treinadores saíram sem ser vergados por uma derrota. Mas não foi pelo passado pouco alegre que o Porto perdeu, e perdeu bem. A ausência total de surpresa vem da incapacidade da equipa do FC Porto – jogue quem jogue – de se apresentar como tal, uma equipa, trabalhada e mecanizada para impor o seu modelo de jogo. O Porto tem o melhor plantel de Portugal e salvo algumas posições – os centrais e o avançado, as mais evidentes – as melhores individualidades da Liga. Poucos treinadores do FCP tiveram à sua disposição material mais do que suficiente para armar um bom onze com alternativas à altura. É a total falta de fio de jogo, desde Agosto, que mais preocupa. No ano passado o Porto foi na Liga muitas vezes uma equipa sem chama, sem garra, sem um plano B mas o plano principal quase sempre funcionou bem e só quando este emperrou se notou a falta de alternativas de jogo ou de uma mentalidade ganhadora. Para 2015/16 já nem isso se vê. Não há um criativo que pegue no jogo desde o meio (como houve Oliver). Não há um avançado que se associe (e o Porto teve dois anos para preparar o pos-Jackson) com os colegas nem há centrais que saibam sair a jogar (o desesperante pontapé para a frente de Maicon só encontra rival no passe para os laterais de Marcano ou Indi). Os defeitos do ano passado continuam todos lá. As virtudes, nem vê-las.

Criticar não é amar menos. 
Criticar o treinador, o presidente ou os jogadores não é, necessariamente, um exercício negativo. Muito pelo contrario. Quando as evidencias estão aí, à vista de todos, não criticar ou, melhor dito, assobiar para o lado como se nada estivesse a acontecer, é o primeiro passo para cair no precipício. Houve uma grande vontade da SAD em que o projecto Lopetegui funcionasse. Deu-se ao treinador tudo o que ele pediu e raramente se lhe impôs o que a outros. A aposta num treinador sem experiência não era nova (sem experiência e know how do futebol português, sim) mas o sonho de Pinto da Costa de criar um Barcelona na foz do Douro, com um modelo de jogo espanhol, apoiado no 4-3-3 blaugrana, era sedutora para muitos e houve momentos, no ano passado, em que se vislumbrou essa possibilidade. O clube gastou dinheiro em jogadores, aumentou como nunca a folha salarial e segurou o treinador nos piores momentos porque acreditava no futuro da ideia. Era bonito acreditar que algo assim era possível. Se calhar até é. Mas o homem elegido para a levar a cabo definitivamente não cumpre os requisitos mínimos para treinar um plantel e uma instituição que, claramente, o superam.
Lopetegui continua a comportar-se como uma avestruz. A critica não é com ele, ele é o “ungido” e se alguém o questiona é porque está “contra ele”. Podia-se gostar ou não gostar do Lopetegui treinador, o que não se pode obviar é a quantidade incrível de erros de gestão e de trabalho táctico que acumula. Já não vivemos na idade da pedra da informação e qualquer leigo vê um jogo do Porto e percebe o que está mal. Muito provavelmente a imensa maioria dos jogadores que levam meses em sub rendimento, com outro treinador – com ideias que se possam entender, com conceitos claros e com capacidade para adaptar-se ao meio -  pudessem render ao seu verdadeiro nível. 
Há, naturalmente, futebolistas no plantel que estão muitos furos abaixo do nível de exigência do clube mas sempre os houve. O Porto foi campeão europeu com Maciel, Ricardo Fernandes e Ricardo Costa no plantel. Não é isso que está em causa e não é por culpa de Jose Angel, Evandro, Bueno ou Sérgio Oliveira que as coisas estão como estão. O importante é que esses jogadores sejam minorias, sejam úteis em determinados momentos (Fernandes era com as bolas paradas, a velocidade de Maciel foi útil na liga, Costa era um polivalente que cumpria) e façam parte de algo maior, uma equipa. O Porto tem jogadores de grande nível e tem muita classe média (alguma dela claramente sobrevalorizada pelo catálogo Doyen) mas o que não tem é uma equipa.



Digam o que disserem, as equipas são construidas por dois elementos: o treinador e o balneário. 
O primeiro peca por incompetente, o segundo está ausente desde que a SAD achou que mais valia a pena publicitar a política de ciclos curtos do que cultivar o espírito do clube. Sapunaru, que foi precisamente um desses jogadores cumpridores sem nível aparente para ser jogador de um FC Porto, explicou há pouco como se surpreendeu pela negativa quando veio ao Olival de visita e percebeu que nada sobrava dos seus dias em espírito de equipa e força de balneário. Não há equipas que triunfam em campo que não se forjem antes nos vestuários. Essa é uma das mais evidentes regras do futebol e poucas pessoas perceberam isso tão bem como Jorge Nuno Pinto da Costa. O maior presidente da história do futebol português – um homem que será, para o futebol luso, tão relevante como Eusébio, Ronaldo, Figo, Peyroteo, Futre, Pedroto ou Cândido de Oliveira – forjou a sua identidade e a do clube a partir dessa base. Que tenha sido ele a prescindir dela explica quase tudo o que há por saber sobre a derrota de Alvalade onde triunfou um plantel pior, um treinador fraco, um presidente anedoctico mas, acima de tudo, uma equipa superior.

Começa a ser cansativo o chavão “O PdC é que sabe” quando está claro que não é assim, pelo menos não o é há meia década. Isso faz de PdC incompetente? Nem por sombras? Empalidece o seu passado e a dimensão da sua figura? Nem por assombro. O que isso provoca é um dano ao clube que pode vir a ser irreversível porque justifica cada uma das suas ações – boas e más – sem se pensar no impacto que isso possa ter. Desmontar o balneário para apostar-se na política low cost e na potencialização de vendas foi um erro que se está a pagar caro quando não há lideres no balneário capazes de pegar nos colarinhos do plantel e por ordem na casa. Apostar todas as fichas num treinador que pode ser excelente na teoria mas é nefasto na prática também o foi e maior o vai ser ficar com ele até ao fim apenas e só esperando por outro “momento Kelvin” que poupe justificações a dar aos sócios e adeptos. Entregar o clube ao catalogo Doyen, esquecendo as reais necessidades do plantel também foi um erro e hoje, quando sabendo há mais de um ano que não íamos ter nem centrais de jeito nem Jackson, ninguém se incomodou sequer em reforçar essas duas posições chaves, apostando antes em atrair a figura mediática de um Iker Casillas que não tem culpa nenhuma de ser quem é mas que, desportivamente, não trouxe nada que Helton já não desse à equipa.

Pinto da Costa está mandatado pelos sócios para tomar decisões.
Todos sabemos que enquanto se candidate será vencedor porque a imensa maioria dos portistas é grata ou tem medo do incerto futuro de um clube sem ele. O que no entanto começa a ser evidente é a necessidade que Pinto da Costa faça aquilo que não faz há largos anos de cem dias, ou seja, presidir. A ausência de decisões presidenciais, de tomadas de posição claras e evidentes apenas reforça a sensação de vazio de liderança e de desnorte de um clube que se fez grande na Europa precisamente por ter sempre claro o caminho a seguir. Perder em Alvalade não é o fim do mundo e houve seguramente piores treinadores na história do clube do que Lopetegui. Nem uma coisa nem outra é o grande problema a resolver nos próximos episódios porque está em causa algo maior. A necessidade de um reboot à cultura de clube, a necessidade da instituição de ser liderada – de facto – por quem foi eleito para isso com toda a justiça. Está na hora que os adeptos esqueçam os pequenos detalhes que podem ser os tropeções em campo que têm solução (basta reeditar a serie de triunfos lógicos contra rivais inferiores e decidir o titulo no Dragão) e focarem toda a sua atenção em quem tem escolhido os últimos treinadores (com uma total ausência de critério comum). Em quem dinamitou a cultura de balneário que ajudou a criar. Em quem transformou os sócios e adeptos em consumidores mas continuou a alimentar o peso das claques organizadas de forma desproporcionada. Em quem, em suma, desviou o clube do excelente caminho por onde seguia. Porque são eles os únicos responsáveis e os únicos com poder e capacidade para corrigir os seus próprios erros. Ficamos à espera!
 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Espiral de contestação

Estádio do Dragão, insultos e recados na madrugada do dia 03-01-2016

«Cerca de quatro centenas de adeptos receberam a equipa do FC Porto, no Estádio do Dragão, com assobios e insultos, depois da derrota (2-0) de sábado em Alvalade com o Sporting, para o campeonato.
Jogadores e equipa técnica chegaram ao Dragão às 03:00 em ponto e à sua espera tinham um grupo de adeptos descontentes com os últimos resultados e exibições da equipa. As principais palavras de descontentamento foram para o treinador espanhol Julen Lopetegui, a quem exigiram que pedisse a demissão do cargo. Um grupo de adeptos exibiu uma tarja a dizer: "Espanhol pede a demissão". "Vergonha" e "joguem à bola", gritaram os adeptos.

03-01-2016: Insultos e contestação a Lopetegui (fotos: O JOGO)

Na operação policial para evitar confrontos estiveram envolvidos dezenas de agentes, que impediram que os adeptos se aproximassem da zona de entrada da garagem do Estádio, chegando mesmo a cortar o trânsito na rua de acesso.»
in OJOGO.pt, 03-01-2016 | 09:10


A contestação em relação ao treinador tem vindo a aumentar e, nas últimas semanas, atingiu mesmo níveis preocupantes de hostilidade e agressividade verbal (da parte de alguns adeptos portistas). Contudo, porque a memória de alguns parece ser fraca, convém salientar que a contestação ao trabalho de Lopetegui não começou com a derrota em Alvalade e a consequente perda da liderança do campeonato.

Há meses que existe um enorme desagrado pelas más exibições (algumas delas paupérrimas), que este plantel milionário (o mais caro do campeonato português!) tem proporcionado em grande parte dos jogos desta época.

24-11-2015: Vaias e lenços brancos nas bancadas do Dragão, após a derrota (0-2) com o Dínamo Kiev

10-12-2015: Insultos à chegada ao aeroporto do Porto, depois da derrota (0-2) contra o Chelsea
(fotos: JN / Global Imagens)

29-12-2015: Lenços brancos no Estádio do Dragão, após a derrota (1-3) com o Marítimo
(fotos: Global Imagens / Leonel Castro)

E não, não é por falta de “ovos”, que o treinador do FC Porto se está a revelar incapaz de fazer uma boa “omelete”.

Sou o primeiro a reconhecer que o plantel do FC Porto (incluindo alguns dos melhores jogadores da equipa B) tem excesso de jogadores para algumas posições e lacunas de qualidade noutras, mas penso que poucos terão dúvidas que Julen Lopetegui tem à sua disposição o melhor plantel do campeonato português e, por isso, condições (obrigação!) de fazer mais e melhor. A começar pela construção de uma EQUIPA coesa e competente, algo que, seis meses após o início da época 2015/16, ainda não existe.

Perante o que (não) se tem visto a equipa do FC Porto fazer dentro das quatro linhas;
Perante a contestação crescente dos adeptos portistas, durante e após os jogos;
Perante a hostilidade (por vezes a passar dos limites) em relação ao treinador;
Perante os "avisos à navegação" de vários ex-jogadores do FC Porto (Jaime Magalhães, Eduardo Luís, Vítor Baía, Domingos, Secretário, etc.);
O que fazer?

Chegados aqui é fácil apontar o dedo a Lopetegui e "imolar no altar" da contestação mais um "cordeiro" (treinador).

Mas, como sempre, compete à Administração da FC Porto SAD avaliar e decidir.
Neste caso específico, a responsabilidade é de Pinto da Costa e de Antero Henrique, que terão de decidir se o timoneiro que foram buscar a Espanha, ainda tem condições para recuperar as "velas rasgadas", consertar os "rombos no casco" e levar a ziguezagueante nau dos dragões a bom porto.

Pinto da Costa e Antero Henrique no treino do dia seguinte à derrota de Alvalade
(foto: Manuel Araújo)

Com a certeza, porém, que quanto mais dias passarem, mais Pinto da Costa, Antero Henrique e Julen Lopetegui estarão juntos neste "barco".
Nas vitórias e nas derrotas.

Aconteça o que acontecer, chega de atribuir os louros dos sucessos ao presidente e as culpas das derrotas aos treinadores e jogadores. Até porque, treinadores e jogadores não caem no Estádio do Dragão de pára-quedas...