O mustang já é parte oficial do plantel e só não defrontou o Atlético porque o certificado internacional não chegou a tempo. Pouco importava a falta de treino, de rotação com os colegas. O importante era exibir a nova contratação e dar-lhe os primeiros minutos do ano. Fica para a próxima. Não faltarão os minutos. Ao contrário de Liedson, imagino que Quaresma vá jogar e muito. Primeiro porque, ao contrário do brasileiro, segundo deixou antever Pinto da Costa, o número 7 é escolha pessoal do treinador. Lógico é que o coloque a jogar num posto onde Licá nunca deslumbrou (apesar de ter feito dois primeiros meses de época bons) e onde Kelvin e Ricardo nunca tiveram opções. Curioso, depois de meio ano a insistir num falso extremo (Josué e Quintero andaram por lá também e Licá é o que é, um avançado mais móvel) o treinador agora queira ao lado de Varela e Jackson o mais extremo dos extremos que passaram pelo FC Porto nos últimos dez anos.
Quaresma regressa a onde já foi feliz. E nós fomos feliz com ele.
Aterrou no Dragão no negócio Deco, um negócio onde eu continuo a achar que ficamos a perder mas que entendo. Afinal, Pinto da Costa e Mourinho convenceram o "Mágico" a ficar um ano mais em troca de uma saída já apalavrada. No fatidico 2004/05 viu-se pouco do "Harry Potter" que tinha deslumbrado no Sporting e que se apagara em Camp Nou. Mas a partir da época de Adriaanse e, sobretudo, com Jesualdo, a importância de Quaresma tornou-se evidente. Era o melhor jogador individual da liga, aquele que nos resolvia jogos, puzzles e quebra-cabeças. Chegou a jogar de falso avançado, as suas trivelas fenomenais desbloquearam muitos jogos complicados e não se apagou nos encontros mais importantes. Depois veio o canto da sereia de Mourinho no Inter e a decadência, confirmada por uma passagem para esquecer pelo Chelsea. E o exílio. Quaresma teve oportunidades para voltar mas não quis. Preferiu engordar a conta bancária, primeiro na Turquia, depois nos países árabes. Estava no seu direito ainda que o Mundo estivesse a perder um jogador irregular, imaturo mas com uma técnica espantosa.
Não sabemos como vai ser este regresso.
Um jogador conhecido pela velocidade, Quaresma não é um líder. Não é um motivador no balneário. É, no sentido mais futebolístico do termo, um egoísta dos relvados, para o bem e para o mal. Vive no seu mundo, tem dificuldades em manter um rendimento elevado durante muito tempo seguido e precisa de espaço e velocidade para jogar o seu jogo. Nos últimos quatro anos e meio não teve minutos nas pernas que justifiquem que pensemos que será o mesmo jogador que saiu de aqui. O mesmo desequilibrador, o mesmo homem-chave. Seguramente trará mais à equipa do que trouxe Liedson (ou Ismailov, o russo desaparecido a quem se continua a pagar o salário...porque sim), duas apostas desastrosas, sem sentido e sem contribuição palpável para a equipa (dois segundos e meio para que voltem a citar o maravilhoso passe para o momento K). Mas mais em jogos contra equipas pequenas e encerradas do que em cenários como a Luz, Alvalade ou Nápoles, para por exemplos de estádios onde teremos (provavelmente) de ir jogar em 2014.
O seu regresso é mais um na velha lista de nomes que, com Pinto da Costa, foram e voltaram.
Uma saga que começou com Fernando Gomes, um ponto de honra do presidente que resgatou do Gijón o genial avançado. E que bem que lhe saiu a jogada. Gomes foi fundamental nos títulos de Artur Jorge e na corrida a uma Viena onde, malgrais, não pôde estar, desforrando-se em Tóquio antes de tornar-se finito. Também Sousa e Jaime Pacheco saíram e voltaram, para continuar a ser peças fundamentais da equipa. Nos anos noventa repetiu-se o cenário, mas os resultados foram diferentes. Rui Barros voltou no ocaso da carreira - depois de uma brilhante carreira internacional - para ajudar e foi um actor secundário relevante no final da era Oliveira. Secretário passou apenas um ano em Madrid. Domingos esteve mais tempo no Tenerife mas nunca mais foi o mesmo e quando voltou foi para sentar-se mais tempo no banco do que para calçar. Baía foi um caso à parte, como Pinto da Costa explica no seu novo livro. E claro, o caso de Conceição, talvez o mais parecido ao de Quaresma. A explosão do extremo foi brilhante, rapidamente partiu para Itália e quando voltou, em 2004, era um jogador física e mentalmente diferente. E durou pouco tempo o regresso porque o que Conceição fazia antes já não conseguia fazer.
Para fechar esta lista de outros regressos, obrigatório falar de Hélder Postiga e Lucho Gonzalez. A cara e a cruz. O primeiro foi um jogador que explodiu cedo mas não evoluiu como se esperava e que Mourinho não se importou de trocar por McCarthy. Num dos negócios mais difíceis de explicar dos últimos anos, Postiga voltou (por troca com Pedro Mendes, um excelente jogador, e bastante dinheiro) e durante três anos provou aos adeptos que a opção de Mourinho tinha feito todo o sentido e que o seu faro de golo não era o melhor. Apesar disso - e depois de uma passagem fantasma pelo Sporting, é hoje o titular da selecção ainda que as chegadas de Lisandro, Falcao e Jackson deixem claro a diferença de um grande e um médio ponta-de-lança. Já Lucho representa o outro lado da moeda. Saiu no zénite da sua carreira para França e voltou num momento critico. Tornou-se no líder do balneário, ganhou o respeito de todos e ajudou a resolver um sério problema interno. Desde então o FC Porto não parou de ganhar. Claramente já ultrapassou a sua melhor etapa, fisicamente é um jogador mais limitado mas a sua influência é evidente. Talvez porque tenha o carácter e o espírito que jogadores como Quaresma (ou Postiga, Conceição, Domingos) nunca tiveram.
O que pode suceder então com Ricardo Quaresma?
Pessoalmente espero pouco a médio prazo, até porque sou consciente do difícil que é para um extremo recuperar a velocidade e "explosão" depois de cinco anos desactivado. Dificilmente voltaremos a ver o mesmo Quaresma. Mas em campos complicados ou em jogos no Dragão, onde se espera um ataque constante e incisivo, a sua capacidade técnica e a sua trivela mágica ainda podem fazer estragos. Algumas assistências e golos podemos esperar, uma grande influência no jogo colectivo ou uma presença de inspiração e liderança parece-me mais difícil. Resgatar o melhor Quaresma seria um grande triunfo mas, precisamente, parece-me que temos o pior treinador possível para essa missão. E claro, se até agora Kelvin, Ricardo e até Quintero já jogavam pouco, parece-me evidente que vão ser figuras cada vez mais residuais até ao final do ano. Efeitos colaterais de mais um capítulo na nossa história de regressos...

