(...) O futebol estrangeiro que se via por cá, limitava-se à final da taça de Inglaterra, às finais europeias e pouco mais - ainda não tinha chegado o transmissor pirata do Marquês nem a moda das parabólicas. Assim o mundial tinha outra magia, não havia nacionalismos bacocos e era a possibilidade de vermos jogar alguns nomes que só se conheciam dos cromos e das histórias dos bancos da escola - sempre na base de que quem conta um conto acrescenta um ponto.
Por isso era preciso ver com os nossos olhos se o Éder tinha mesmo um pontapé canhão, se os toques de calcanhar do Sócrates eram reais, se um tal argentino contratado pelo Barcelona era mesmo bom, quem era um tal de Boniek e por aí fora.
Vi e aprendi que nem sempre o melhor futebol ganha e que a Itália e a Alemanha existiam.
Mas acima de tudo deliciei-me com o futebol do Brasil e para mim qualquer jogador (excluindo os guarda-redes) daquela selecção estava lá no topo. E se é verdade que jogar bonito nem sempre é suficiente para ganhar, aquela selecção é a prova de que jogar bonito mesmo não ganhando pode ser marcante. Por isso é que 28 anos depois ainda se fala tanto daquela equipa.
Vi Madjer e Mlynarczyk, mas esses estavam reservados para outras glórias, deliciei-me com Zico mas sobretudo com Sócrates - durante meses nas peladinhas da rua golo de calcanhar valia por dois. Ainda hoje acredito que o Madjer também se deliciou e por causa dele (Sócrates) ganhámos uma taça dos campeões europeus.
Quando à hora de almoço, ouvi a notícia de que o Sócrates tinha falecido foi um desfilar de boas recordações que me assolou a memória - às vezes são necessárias estas coisas para um gajo se lembrar verdadeiramente porque gosta de futebol. É por isto: