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domingo, 5 de abril de 2015

Prospecção mundial sub19, um passo inevitável Parte II

Continuação da primeira parte do artigo publicado aqui sobre como o FC Porto deve apostar a sério numa prospecção mundial em jogadores cada vez mais jovens para evitar entrar numa espiral descontrolada de gastos.

O problema de uma ausência de politica de cantera em 20 anos
Sem o cashflow dos Fundos e agentes para comprar na América ou no Leste Europeu, sem querer ser um balão de ensaio regular para os grandes clubes europeus, a única solução para manter-se competitivo no espaço europeu e nacional é reduzir gastos com o pessoal ao máximo, ter um plantel barato e essencialmente produzido em casa. Isso significa comprar mais (e melhor) a nível doméstico (uma inversão que se vai assistindo ainda que com escasso resultado) mas também lançar mais produtos de formação.
Se o FC Porto tivesse, historicamente, uma cantera como a de um Ajax, Feyenoord ou Lyon (que apostou neste modelo há sete anos, prevendo o que ia suceder, quando estavam na mesma posição que o FC Porto a nível mundial, e agora estão a colher os lucros) o problema resolvia-se mais facilmente. Mas não temos.
Ruben Neves e Gonçalo Paciência são a excepção.

Ainda faltam a André Silva, Ivo Rodrigues, Tomas Podstawski, Rafa Silva, Francisco Ramos ou Rui Pedro muitos tropeções para serem jogadores grandes. E eles são a nata da nossa formação. Para procurar reequilibrar a balança o clube desviou o investimento em grandes nomes para a primeira equipa num novo modelo para as camadas jovens que inclui o empréstimo com opção de compra para jovens promessas entre os 16 e os 19 anos.
Essa é a faixa etária ideal. Antes disso é impossível avaliar com certeza o potencial de um jogador, há problemas legais em excesso e o risco é tremendo. Mas entre os 16 e os 19 tudo se facilita. Os jogadores são menores (e muitos têm de mudar-se com familiares) mas a avaliação real de potencial é mais certeira, o seu desenvolvimento físico está quase completo e a maturidade mental está noutro estado. A margem de erro reduz-se ao mínimo ao mesmo tempo que o preço de custo é ainda relativamente baixo, salvo casos pontuais.



Apostar na prospecção juvenil, uma solução a médio prazo inevitável
Até essa franja etária (os 16 anos) o lógico é que o clube procure, essencialmente, jogadores nas escolas Vitalis e, em casos muito pontuais, jogadores a nível regional de valor contrastado. A partir de aí, até aos 18 anos, devem começar a chegar os primeiros jogadores de fora do Grande Porto (ampliando a nível nacional a prospecção) e esses casos de estrangeiros que são apostas de futuro. A partir dos 18 até aos 20 – e fim da etapa lógica na equipa B – entende-se a contratação pontual de um Pité, por exemplo, que demonstre potencial real a um nível competitivo já profissional, mas o resto deve vir directamente dos escalões base para alimentar a primeira equipa.

Esta claro que a ideia não é nova e ninguém a tem explorado melhor que a Udinese mas o certo é que todos os grandes europeus têm feito isso na última década e meia.
Foi assim que Messi chegou a Barcelona, Fabregas ao Arsenal, Piqué, Pogba e Januzaj ao Manchester United, etc. Os grandes clubes europeus têm-se dedicado a essa prospecção a fundo, filtrando cada vez mais o talento que dispõem. Só que há mercados ainda por explorar e há jogadores que entendem que mais vale fazer a formação num clube médio do que num clube grande. Menor concorrência, maior facilidade de chamar a atenção são motivos de sobra,
Por isso, para um clube como o FC Porto, o modelo a seguir é simples. Os jogadores são seguidos nos torneios juvenis pela nossa excelente rede de scouting a nível mundial, sabendo que muitos dos melhores não estão ao nosso alcance. Aos restantes, os seus respectivos clubes são abordados para negociar o empréstimo de um  ou dois anos com opção de compra. Se o jogador demonstra valer o investimento, activa-se a compra definitiva e acaba-se a formação em casa (outro ponto a favor à medida que as restrições impostas pela UEFA nesse campo vão aumentando).

Riscos e beneficios
Estes não são jogadores de tostões.
Os clubes de onde vêm sabem disso e negoceiam bem. Para a sua idade e experiência são caros. E até agora não há provas de sucesso desde que o processo começou com Kelvin, Atsu, Ba e Kadu já nos dias de AVB e Vitor Pereira. No total chegaram já cerca de 15 futebolistas nessa modalidade para a equipa B e juniores nos últimos anos. A taxa de sucesso é, até ver, reduzida. Um golo que valeu um titulo (Kelvin) e um extremo que quis sair antes de "explodir" (Atsu.) É no entanto interessante entender que esses jogadores, quanto mais novos chegarem, menor deveria ser o custo.
Kayembe custou mais de 2,5 milhões de euros ao clube. Lichnovsky 1,9 milhões (e já se vendeu 45%). Caballero custou cerca de 1 milhão. São 6 milhões em jogadores que não têm tido minutos na equipa principal. O investimento tem de caminhar para a redução do risco controlado. Depois destes exemplos (e de Victor Garcia e Pavlovski)  recentemente tanto Gudiño e Leonardo Ruiz chegam com opção de compra em valores que superam o milhão de euros.
E há também Siemann, Lumor, Johansen, Elvis, Chidozie, Ezeh, Fede Varela, os irmãos Djim, Anderson Dim, tudo apostas de baixo custo para trabalhar em casa. Com a esperança de que saia, entre vários, uma pérola que justifique o projecto.



Tanto para os empréstimos como opção de compra como para as contratações de jovens sub19 a valores inferiores ao milhão de euros, o sinal é o mesmo. Esperar, desenvolver e (forçosamente) apostar para tentar rentabilizar. No caso dos empréstimos a situação é ainda mais evidente. Depois de um ano no Porto é fácil entender se há potencial real ou não e o risco de activar opção de compra é sempre menor. Menor do que apostar num Quintero ás cegas, por exemplo, ou num contentor de jogadores para encher. Este processo é largo e só agora começou pelo que os resultados vão demorar a fazer-se sentir na primeira equipa. Muitos destes jovens chegarão com idade de juvenil ou júnior, terão de passar pela equipa B, talvez ser emprestados e só depois chegarão ao plantel principal. Três a seis anos como disse. É um risco porque é muito tempo para um clube que pode, entretanto, ficar sem a referencia presidencial. Mas sem dinheiro para investir, sem fundos a que recorrer e sem possibilidade de crescer à sombra dos Real e Barcelona, esta é uma das soluções mais lógicas.

Tornar a primeira equipa mais sustentável a nível de custos de salários e aquisição de passes e manter viva a possibilidade de manter-nos atentos aos “Jacksons” do mercado. Também é certo que pode implicar um menor investimento na primeira equipa a curto prazo (e de aí os empréstimos) e uma perda de competitividade (vide caso Lyon).
No entanto, a possibilidade de ter vários elementos de um onze formados em casa (ainda que venham dos quatro cantos do Mundo, pagos a bom preço, mas com quatro ou cinco anos de Olival) é talvez o melhor cenário de futuro para o FC Porto.   

sábado, 4 de abril de 2015

Prospecção mundial sub19, um passo inevitável Parte I

Qual é o futuro do FC Porto agora que parece evidente que os Fundos vão desaparecer (até encontrar forma de se transformar em algo novo) e o clube vai ter menos opções para vender a clubes das grandes ligas por cifras milionárias quando o cerco do FFP vai apertando?
Uma das respostas possíveis – há sempre mais do que um caminho – já se vai dando com as políticas de contratação do clube. Não para a primeira equipa mas para os sub19 e a equipa B. Formar antes, formar melhor e formar jogadores vindos dos quatro cantos do Mundo.

Uma política difícil de sustentar
Desde 2004 que o FC Porto se especializou a ser um dos clubes que melhor vende no mundo. Até a Gelsenkirchen conseguíamos vendas excepcionais mas eram mais fruto do valor per se dos jogadores (Futre, Jardel, Zahovic, Baía, Couto) do que parte de uma política pensada pela direcção.

O pos-Champions mudou tudo. O clube passou a investir mais do que nunca em passes – sobretudo nos chamados contentores de sul-americanos – mas também encontrou mercados periféricos onde vender caro. Começou na Rússia (Derlei, Maniche, Costinha, Thiago Silva), seguiu para Inglaterra (onde Mourinho já por lá andava com escolhas pessoais da sua equipa campeã) e Espanha graças á mediação de Jorge Mendes (Anderson, Pepe, Meireles) e aproveitou-se dos novos oligarcas mais recentemente (Moutinho, Falcao, James, Hulk). Tudo isso foi feito a partir do pressuposto que havia equipas – e presidentes – dispostos a pagar muito e bem pelos nossos melhores jogadores. Isso acabou. Para o bem e para o mal o Financial Fair Play obrigou os clubes a medir muito bem os seus gastos e só mesmo a emergência de um clube do nada que tenha tudo para acabar mal pode abrir na Europa uma válvula de escape.

Sem haver quem ponha, em regra, mais de 30 milhões na mesa por um jogador, urge pensar duas coisas. Se é mais difícil vender caro, deve-se vender bem. E se ninguém paga demasiado por um jogador nós devemos pagar menos ainda. Porque sim, o FC Porto tem vendido muito em jogadores mas também paga mais do que nunca pagou e a margem de lucro vai-se reduzindo progressivamente. Ainda somos capazes de apanhar algumas gangas no mercado mas o que custou Danilo, Alex Sandro, Jackson ou Brahimi (onde só poderemos comprar até 55% do passe, o resto é da Doyen) fará com que as suas respectivas e inevitáveis vendas rendam muito menos do que um Falcao, James e afins há uns anos atrás.

Financial Fair Play e adeus aos Fundos, um problema sério
O FFP foi criado para estabelecer uma espécie de equilíbrio entre grandes e pequenos mas são os “pequenos” vendedores como o Porto (e o Benfica, o Lyon, o Sevilla, a Udinese ou o Ajax) quem mais vão sofrer com isso. O final dos Fundos servirá apenas (de momento) para rematar o morto. Os Fundos nunca irão desaparecer. É altamente provável que regressem os clubes fantasma onde os Fundos inscrevem os jogadores para depois jogar com eventuais empréstimos, vendas a 50% do passe, etc. Mas o grande beneficio dos Fundos era a liquidez financeira que geravam e isso sim vai começar a desaparecer. Os grandes clubes – com as suas gigantescas Academias – vão-se aproveitar disso e ocupar o vazio enviando os seus activos a valorizar emprestados a esses mesmos clubes. Não lhes dão cashflow para investir mas oferecem jogadores de qualidade.



Para o clube que recebe os jogadores o negócio é dúbio. Ficam com a qualidade, sim, mas sabem que é um negócio sem futuro e entram num ciclo vicioso (o FCP está nesta posição, por exemplo, a partir do momento em que se confirme que depois de Casemiro voltar a Madrid venha agora Lucas Silva fazer o mesmo) enquanto que os grandes não só aligeiram a ficha de salários, como mantêm jogadores seus a render desportivamente. Sem os Fundos os clubes têm de encontrar caminhos alternativos. O FC Porto optou pelo mais fácil no momento, mas o de menor margem de sobrevivência. Decidiu seguir por aí por vários motivos mas um deles, evidente, foi a ausência de uma formação de nível a que recorrer.

O fracasso do projecto Visão 611 foi evidente para todos e foi preciso fazer um reboot na ideia. Para que surjam jogadores de nível terão de passar uns bons 3 a 6 anos. Muito tempo. Até lá o clube tentará tapar os problemas com decisões a curto prazo como os empréstimos. Não é caso único. O Sevilla tem feito o mesmo com bons resultados para a dimensão do clube. Mas tudo isso terá, mais tarde ou mais cedo, de acabar. E é aí onde entra a opção que a SAD parece estar a tomar, a de gerar talento em casa para depender ao mínimo de variantes externos. Mas não um talento pescado nas ruas de Amarante, Gondomar ou Espinho. Talento analisado escrupulosamente pela nossa scouting network a nível mundial que devemos captar muito cedo para que esse mesmo jogador, dois ou três anos depois, não custe o triplo. Conseguir um Danilo, um Anderson ou um James três anos antes da idade em que os contratamos para garantir o talento pagando muito, muito menos. Esse é o objectivo. O como na segunda parte!